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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Não haverá Copa do Mundo em 2010

Nessa semana, o presidente da República, em mais um de seus arroubos pseudopatrióticos, recebeu a turminha que vai representar o Brasil na Copa da África do Sul. Todos os selecionáveis que já haviam se juntado à delegação em Curitiba estiveram presentes, nenhum deles se recusou a fazer parte do conchavo político entre a CBF e o poder federal, ambos de olhos vidrados no repasto que já estão obtendo com o mundial a ser disputado nas terras tupiniquins em 2014. Os jogadores da selenike são como zumbis sem alma, não sabem absolutamente nada sobre história do Brasil, sobre política, ou mesmo sobre dados elementares da cultura brasileira, somente visam ir à Copa como forma de acentuar suas celebridades narcísicas. Imagine se algum deles iria dar o contra em participar do joguete Lula/Ricardo Teixeira em virtude de prezar pela ética ou por ideologia, correndo o risco de ser cortado por "indisciplina"! Ética, ideologia? Pffff, para que serve isso? O que liga é trabalhar duro, ajudar o grupo e chegar ao objetivo, que é o hexa! Vai Galvão: Brasil-sil-sil!
Dunga, que está mais para Zangado, claro, também estava lá, assim como Andres Sanchez, o chefe da delegação que conquistou apoio total do mandatário Ricardo Teixeira. Não pôde faltar ainda a casquinha da primeira dama, jocosamente trajada de cheerleader da terceira idade. Ridículo! Imagine como será se acontecer o desastre dessa maldita selenike ganhar o torneio. Quem será o neocachaceiro da vez a dar cambalhotas na rampa do Palácio do Planalto? É a cara do Brasil!
Mas isso tudo, por que? Ah, claro, a Copa! Adoro esse evento, sou amante do futebol, acompanho os mundiais desde 1982, época do Laranjito e do timaço do Telê, que só não faturou a taça porque encontrou um Paolo Rossi no caminho. Pena, era uma geração do mais puro talento, digna da genuína arte da bola. Torci para o Brasil nesse ano, em 1986 e em 2002. Nas outras edições, meu antipatriotismo deu a tônica. Em 1998, me emocionei com a Marselhesa e logo ali já senti que os bleus iriam dar uma lição no ufanismo deplorável do ancião Zagalo. Zidane! Que tramoia que nada, aquele time do Brasil era pífio e a França jamais perderia em casa! Teoria da conspiração: grande balela! Em 2006, a freguesia se fez presente outra vez e o cirquinho pé de uva caiu diante de Henry e de Zidane, de novo o mestre!
Bom, mas então vou seguir o máximo que puder da minha oitava Copa, certo? Errado! Quero mais que esse mundial 2010 se exploda! Estou evoluindo, pois o futebol atual, rendido aos interesses econômicos e narcísicos, tem chamado menos minha atenção a cada dia que passa. Meu time de coração, já em estágio avançado de decrepitude, já quase tão pequeno como o simpático Juventus, contribui fortemente com a acentuação do desinteresse.
Como se não bastasse, os execráveis organizadores da Copa da África estão pondo em prática o que têm a pachorra de chamar de "benção" aos jogos e ao torneio. Já sacrificaram um boi esses dias, pretendem sacrificar mais um antes de cada cada jogo. Uma comemoração bem ao estilo africano, segundo as palavras de um dos organizadores. A dor, o sangue e o sofrimento de animais inocentes servindo para abençoar uma porcaria de um torneio inventado pela raça humana. Dá nojo!
Na História, o correto julgamento sempre mandou não dar crédito a conceitos como "civilização", "barbárie" e "selvageria". Usá-los, segundo versa o politicamente correto, é cair no erro do etnocentrismo europeizante. Devo confessar que sempre tive uma ponta de dúvida para com essa história maniqueísta dos oprimidos: europeu demônio malvado x povos africanos, indígenas e asiáticos, inocentes criaturinhas do bem, arrancadas de seu suposto idílio em função da ira, da cobiça e da malevolência do homem branco. Claro, o europeu cometeu crimes horrendos e altamente condenáveis contra outras sociedades, ainda há, por exemplo, em pleno século XXI, touradas na Europa, mas a perfídia humana não escolhe raça ou credo, é humana, demasiadamente humana. A África teve uma bela oportunidade de mostrar ao mundo sua evolução em termos espirituais, mas preferiu se prender a um costume arcaico, tribal e bárbaro, sim, bárbaro, característica que também é grande responsável pelas mazelas do continente.
Em protesto, vou me abster de assistir jogos dessa Copa. Não vai salvar a vida dos pobres animais, mas se cada um pensar nisso e mudar de canal ou desligar a TV, indo fazer algo mais útil na hora dos jogos, o impacto será significativo e perceptível. Não ao sacrifício de animais, não a esse lixo dessa Copa!

domingo, 16 de maio de 2010

Morre o grande Ronnie James Dio

Um dia após a listagem das músicas, na qual em mais de uma canção elencada o vocal de Dio contribui decisivamente para abrilhantá-las, chega a lamentável notícia de sua morte. Dio lutava há meses contra um câncer estomacal. O melhor de todos se foi. Que descanse em paz.

Link para Lonely Is The Word em homenagem ao mestre:
http://www.youtube.com/watch?v=DbxcNZiFGB0

sábado, 15 de maio de 2010

25 músicas essenciais


Segue abaixo uma lista de 25 músicas que considero essenciais ao bom ouvinte, isto é, aquele que procura decifrar a sonoridade, separando todos os elementos que compõem a canção e depois junta novamente esses mesmos elementos para obter a mensagem musical. A sequência das músicas não reflete uma ordem de qualidade, obedece simplesmente ao que foi lembrado anteriormente ou posteriormente. Fiz constar uma música de cada banda para efeito de variedade, mas vale lembrar que as bandas citadas possuem um rol de várias canções que poderiam ser incluídas na listagem (em outra ocasião farei nova lista com mais 25 músicas). Quem quiser, sinta-se à vontade para incluir em comentários as músicas de sua preferência, bem como a justificativa por considerás-la essenciais.

IRON MAIDEN/ALEXANDER THE GREAT - por ser o maior épico musical, um hino encorajador para as batalhas do cotidiano; tem um solo maravilhoso, esbanja técnica e feeling, combinação interessantíssima entre Heavy Metal e história.

KANSAS/CARRY ON WAYWARD SON - a riqueza melódica dessa música é algo raramente visto; cada nota musical é perfeitamente encaixada na canção, características que lhe conferem uma aura de magia ímpar.

QUEEN/BOHEMIAN RHAPSODY - porque é uma música que contém várias outras músicas dentro dela, é como se fosse uma pequena ópera na qual os músicos da banda expõem toda sua perícia; homenagem ao grande Freddie Mercury.

BLACK SABBATH/LONELY IS THE WORD - é uma ode à contemplação, seu ritmo lento e arrastado convida às mais longínquas jornadas rumo ao desconhecido; puro misticismo.

SAVATAGE/HALL OF THE MOUNTAIN KING - música carro-chefe do álbum homônimo da banda, o melhor produzido por um quarteto genial que jamais teve o devido reconhecimento; uma homenagem também ao falecido Criss Oliva, um monstro supremo da guitarra.

VINNIE MOORE/COMING HOME - lindíssima balada (balada = música lenta), o exemplo mais bem definido da junção entre técnica e feeling; Vinnie Moore é o maior gênio da guitarra de todos os tempos.

YNGWIE MALMSTEEN/I AM A VIKING - outro grande épico, perfeita homenagem do mago sueco à sua terra natal, possui melodia e solo soberbos.

SAXON/PRINCESS OF THE NIGHT - por ter o melhor riff do Heavy Metal, elemento básico e fundamental em tal gênero musical.

RAINBOW/KILL THE KING - um clássico do Hard Rock na voz mais brilhante da música, a de Ronnie James Dio.

WHITESNAKE/LOVE AIN´T NO STRANGER - Hard Rock da melhor qualidade, com melodia, técnica e vibração, exibindo David Coverdale no auge de sua forma; homenagem ao grande baterista Cozy Powell, falecido em 1998.

MSG/RED SKY - a mais genuína aura oitentista, década de ouro para a música pesada; riffs, solos e agressividade na mais perfeita medida.

JOE SATRIANI/MOTORCYCLE DRIVER - grande clássico da música instrumental, criação de um dos monstros da guitarra, precursor do estilo guitar hero.

OZZY OSBOURNE/MR. CROWLEY - por sua aura sombria, no melhor estilo terror do cinema mudo; homenagem ao falecido mestre Randy Rhoads, cujos solos nessa música constituem algo absolutamente à frente de seu tempo.

RUSH/NOBODY´S HERO - belíssima balada que expõe toda a riqueza musical do power trio canadense.

UFO/LIGHTS OUT - poderosíssimo Hard Rock setentista, cheio de vibração e peso.

TYSONDOG/ IN THE END - excelente épico composto pela banda da New Wave of British Heavy Metal; o caráter confidencial do conjunto nunca lhe rendeu a justa qualificação pelo álbum Beware Of The Dog, de 1987; essa música é dona do mais belo solo do Heavy Metal, sua aura revela de modo inconfundível o fim da jornada e a conquista da liberdade por parte do grande guerreiro.

DIO/RAINBOW IN THE DARK - mais um clássico oitentista com tudo que se preza no estilo Heavy Metal; vocais magníficos, solo perfeito de Vivian Campbell.

DEEP PURPLE/SMOKE ON THE WATER - o riff mais grandioso dos anos 70, lisergia pura.

SCORPIONS/BIG CITY NIGHTS - a melhor criação dos mestres da melodia no Heavy Metal, embalou a geração Rock in Rio/1985.

MANOWAR/MASTER OF THE WIND - um épico com fortíssima conotação filosófica; música para os mais sábios momentos de contemplação e compreensão do universo.

RUNNING WILD/BLACK WINGS OF DEATH - exemplo mais bem lapidado do Power Metal germânico; reúne peso intenso e grande soberba técnica.

GRAVE DIGGER/REBELLION - outro ícone do Power Metal, canção magnífica recheada de história da Escócia.

JOHN NORUM/LOVE IS MEANT TO LAST FOREVER - excelente Hard Rock do gênio nórdico, possui um solo espetacular.

VIRGIN STEELE/BURNING OF ROME - a combinação entre história e Heavy Metal é das mais profícuas; riff esplêndido.

TONY MACALPINE/WINTER IN OSAKA - fusion com tecnicalidade extrema e peso inusitado para o estilo.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Bur(r)ocracia à brasileira


Max Weber ensinou que a burocracia é um sistema organizacional inerente às modernas sociedades de massa, nas quais a grande extensão do corpo social e a tolerância consentida entre pessoas desconhecidas torna necessária a existência de um mecanismo institucional confiável no que diz respeito à execução de diversos serviços prestados ao cidadão. 
Uma vez estabelecido o sistema burocrático, as várias instituições que o compõem tornam-se autarquias cuja competência e autoridade na execução dos serviços confere a estas terreno de quase exclusividade na prestação de tais. Assim, mesmo sem ter a completa dimensão desse processo, o cidadão outorga poder aos órgãos da burocracia.
De modo geral, nas democracias desenvolvidas e consolidadas, o serviço burocrático é prestado eficazmente e de modo a atender aos direitos e necessidades do corpo civil. Uma característica típica dos países prósperos é justamente o bom funcionamento do setor terciário. Mesmo nas ocasiões em que eventualmente o sistema burocrático falha, o cidadão conta com os mecanismos democráticos para ajustar o problema. Nesse tipo de arranjo político-institucional, o governo e suas instituições servem à sociedade. Trocando em míudos, o poder maior pertence ao corpo civil que, ao mesmo tempo em que concede autoridade, possui meios para fazer dela um instrumento a seu favor e inclusive retirá-la se for preciso.  Esse é um princípio liberal por excelência.
No Brasil, onde infelizmente o sistema político-social está muito longe de um ajuste correto, completamente apartado do cotidiano do cidadão, evidentemente, a burocracia funciona de maneira horripilante. Aqui, a burocracia não é simplesmente autárquica, mas sim um estado dentro do estado. O cidadão não tem o menor poder contra uma burocracia que lhe presta os piores serviços possíveis, não conhece ou não dispõe de nenhum mecanismo democrático que o defenda contra o poder extremamente opressivo por parte das instituições burocráticas. No Brasil, desde o momento da formação de seu Estado no século XIX, é o corpo civil que serve ao governo, exatamente ao contrário do que ocorre numa democracia sólida. A bur(r)ocracia brasileira é um aparato voltado para si próprio, estando o cidadão abandonado à sua margem. Quando necessita de algum serviço burocrático, nosso corpo civil não tem outra escolha a não ser escalar um paredão cheio de espinhos que, se vencido, só poderá sê-lo depois de inúmeros e dolorosos ferimentos.
Escrevi que uma característica fundamental dos países desenvolvidos é a boa qualidade dos serviços. No mundo subdesenvolvido, do qual o Brasil faz parte, observa-se o contrário. Grande parte dos funcionários da burocracia são mal preparados e incapazes de prestar o serviço que lhes é incumbido. A confusão de informações é total, ninguém sabe onde uma coisa deve ser feita, nem como fazê-la. Estou atrás de uma PID (Permissão Internacional para Dirigir). Dei entrada pelo CIRETRAN de São Bernardo, com a documentação requisitada e tendo pago a taxa devida. Após uma semana, me informaram que não havia sido possível coletar uma digital. Ninguém explicou porque, nem que digital exatamente era essa. Me dirigi então ao DETRAN-SP, no qual depois de um chá de cadeira, uma funcionária me disse que não era esse o problema, que não seria preciso coleta de digital alguma, mas sim que "talvez" estivesse faltando uma foto e uma assinatura. Como já havia dado entrada em São Bernardo, só lá que o serviço poderia ser finalizado. Fui então ao local indicado e uma outra funcionária apontou a sala na qual eu deveria passar para pegar "um número" e voltar ao local onde ela estava para fazer sim a coleta da digital! Encontrei uma fila que não andava, quando então, depois de cerca de 20 minutos, descobri que o sistema estava fora do ar. Mais um tempo e descobri também que eu não precisava esperar naquela fila. Foi  aí que me deram uma tira de papel para ir fazer a coleta da digital e tirar foto (a que eu tinha não servia). Quando voltei à sala na qual a funcionária passou a informação errada, outra me perguntou se eu tinha feito o exame médico, isso porque já havia explicado que se tratava da PID e não da habilitação comum. Finalmente fiz a coleta das dez digitais e tirei a foto.
O serviço ainda não ficou pronto, não há um número de telefone, nem um e-mail no qual eu possa pedir informação, o único jeito é voltar lá. Disseram-me que fizesse isso na próxima segunda (10/05). A sorte é que há quem possa ver isso para mim, uma vez que não moro em São Bernardo do Campo. Depois de toda essa peregrinação, vai a PID ficar pronta? Ninguém sabe, nem o próprio pessoal do CIRETRAN.
Pela enésima vez, é a cara do Brasil!

domingo, 2 de maio de 2010

Trinta e três


Jesus Cristo morreu com 33 anos. Alexandre, O Grande, também. Mesmo entre aqueles que não são cristãos, como é o meu caso, a sabedoria de Jesus o faz, reconhecidamente, um dos maiores mestres que a humanidade já produziu. Os dogmas do catolicismo, especialmente, e de modo lamentável, imputaram à figura de Cristo uma condição ridícula ao distorcerem a seu bel-prazer e interesse uma história de propósito e serena sabedoria.
Ademais, Jesus Cristo não precisa de quem o defenda, uma vez que já possui seu devido e merecido reconhecimento. Com Alexandre, O Grande, já é diferente. Em termos militares, seu gênio é lembrado, no entanto, quando se trata da pessoa humana, é associado com a crueldade e a com a megalomania. Certa vez, assistindo a uma aula de Literatura, a professora se referiu a Alexandre como um "grande FDP", exatamente nesses termos. Considerei tal julgamento absolutamente falho, tanto do ponto de vista histórico, como do espiritual. Alexandre nunca lutou por questões materiais, mas sim pela honra e pela glória, duas ideias sem as quais não é possível entender o universo mental e espiritual dos antigos gregos. Ainda que os meios pelos quais Alexandre empreendeu suas ações possam ser passíveis de críticas, tal pensamento é anacrônico e anti-histórico. Além do mais, é preciso enxergar que Alexandre foi um homem desprendido e que sempre manteve firme um propósito.
Hoje, grande parte das pessoas vive inteiramente e obsessivamente em função da realização de desejos. No senso comum, desejos conferem felicidade. Nada poderia ser mais ilusório e mais catastrófico segundo o que ensinam as grandes tradições filosóficas, de Buda e Confúcio, passando pela Grécia Antiga e chegando ao Cristo anterior ao cristianismo. A felicidade jamais poderá ser encontrada em meio externo ao sujeito, pois ela é um estado de espírito fruto de uma percepção aguçada do mundo que nos cerca. A felicidade é uma questão de desprendimento e de propósito.
O senso comum acredita também que uma pessoa feliz está sempre de bom humor, sorridente e vendo graça em tudo. O simplismo que envolve essa ideia é o mesmo que não permite enxergar além do superficial, incapaz de perceber que o cotidiano é só uma capa que recobre o âmago profundo do conhecimento e que torna alguém apto a manter um propósito e o desprendimento que o mesmo requer. Obviamente, o ser humano necessita do trabalho e do lazer mundano, esses elementos secundários que perfazem uma parte da experiência e que geram prazer. Prazer, não felicidade. É saudável ter hobbies, mas esses não tornam ninguém mais feliz.
Os mais jovens são aqueles que mais se iludem e que mais perdem tempo correndo atrás de seus desejos. A vida é um tanto cruel nesse aspecto, uma vez que rouba momentos preciosos e fugazes da existência humana, que insiste em ser desperdiçada na mão da tenra juventude. Como uma vez disse George Bernard Shaw, a juventude é uma coisa maravilhosa, pena que seja desperdiçada com os jovens. Quando se é jovem, a vida parece um extenso cardápio de guloseimas cuja indecisão quanto à melhor escolha apenas torna o deleite e a brincadeira mais gostosos. A juventude é um grande barato, a vida toda em aberto e de sorriso largo. Quando a idade adulta chega, porém, a vida parece se encurtar bruscamente. Não é de surpreender que quase todo mundo viva a dizer que o tempo voa ou que há falta de tempo, o que é logicamente um absurdo, pois o tempo é infinito. A sensação de fechamento e de corrida contra o relógio que acompanha o passar dos anos se deve ao fato de que muitas daquelas escolhas da juventude já foram feitas e, ao se fazer uma escolha, obrigatoriamente as outras opções são descartadas. Todavia, e isso é o mais importante, o homem de conhecimento, desprendido e possuidor de propósito, sabe que uma escolha é só uma escolha no curso do caminho que o próprio propósito permite trilhar. Só o propósito importa, de modo que as escolhas são feitas com responsabilidade e desprendimento. Não se lamenta uma escolha, mas se lida com ela, não há remorso ou arrependimento, mas sim um trabalho de reflexão em torno das possibilidades que uma escolha traz. Não se olha para trás, mas segue-se no curso do propósito, que é um meio, mas um fim ao mesmo tempo. O propósito é espera e paciência (o tempo é infinito), mas é também vivência e experiência.
O conhecimento é o propósito e é ele que torna possível maravilhar-se com aquilo que nos cerca, pois é o único modo de ver que ao mesmo tempo em que não se é nada, se é tudo, que o tudo é nada e que o nada é tudo.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Além da compreensão humana

Há coisas que acontecem de uma hora para outra, sem que estejamos preparados para tanto. Na maioria das vezes, eventos desse tipo são bastante negativos. Nos remoemos para tentar compreender e colocar ordem no caos trazido de repente, mas é em vão. A incompreensão só faz aumentar a dor e o sofrimento. Mas por que o fluxo da existência haveria de se importar em deixar claro para nós acontecimentos que por mais que estejam atrelados à nossa experiência, independem de nossa vontade e ação?
A mente humana é dotada de uma tendência natural que sempre busca explicações, busca a ordem, busca organizar os dados e montar o grande e contínuo quebra-cabeças que compõe as experiências de vida de cada um. Esse é um aspecto da natureza, e é também aquilo que nos torna humanos e que nos fez evoluir das cavernas em direção ao mundo de hoje. Interpretado de maneira errada, tal aspecto faz muitas vezes com que o ser humano se encha de orgulho e se coloque no pedestal da superioridade em relação aos demais seres sencientes. Soberba que desmorona diante do simples acaso, diante do inesperado.
A você leitor, acostumado com minhas defesas em favor da racionalidade e da ciência, pode parecer estranho estar lendo isso. Ocorre que a ciência tem seu escopo e é realizada com o objetivo, pelo menos quando os bons cientistas não desprezam a ética, de nos trazer benefícios em escala planetária. A ciência tem as suas perguntas próprias, seus métodos específicos e suas conclusões que devem nos ajudar em algum sentido, dependendo de seu entendimento e aplicação corretos. A ciência não pode e nem intenta responder a tudo. Há mistérios que permanecem, algo que os bons cientistas também reconhecem. Isso nos fornece uma lição de humildade em contraponto ao especismo antes mencionado. Algumas experiências, fundadas com base em teorias totalizantes, tentaram em certos momentos da história aplicar um caráter supostamente científico a cada milímetro da vivência humana. Só poderia ter terminado da pior forma. Mas deixemos isso para lá.
Eu citei os mistérios que estão além da compreensão humana e é isso que me faz escrever hoje. Pudera, uma vez que o inesperado trouxe a mim nestes últimos dias algo gerador de muita dor e sofrimento. Não foi a primeira, nem a última vez. Pensar dessa forma, bem como tentar encontrar amparo em fórmulas projetadas pela religião ou pela autoajuda, é confortável para quem está fora da situação, mas para quem a vivencia, não satisfaz. A mim pelo menos, nunca satisfez, nem tampouco ofereceu consolo.
Por sorte, sou cercado de pessoas muito boas e sua simples presença já é uma ajuda das mais preciosas. Além disso, as reflexões filósoficas também podem servir para que melhor encaremos o sofrimento em momentos como esses.
A impermanência de tudo aquilo que nos cerca é uma realidade. Também é fato que tudo pertence à totalidade que é o universo e tudo retorna a ele e a um novo ciclo de existência. Dessa forma, é correto pensar que a impermanência é, na verdade, apenas a perpetuação de um fluxo que mantém o todo do universo. Esse é outro ponto que igualmente serve para nos transmitir humildade. O universo não considera nossas individualidades, nem os laços afetivos que formamos por nossa conta e responsabilidade durante a experiência vivida. Estamos na maioria do tempo envolvidos no turbilhão de nossos pensamentos, acreditando em ilusões e pouco prestamos atenção em sinais que fugazmente passam diante de nosssas vistas.
A infinitude do universo vem se perpetuando ao longo de éons, eras e períodos. O infinito está também presente em termos de tamanho. Quantos bilhões de galáxias! O que há nelas? Qual é a nossa missão aqui? E a missão de outros seres sencientes? Quantos e quais são os planos de existência? Não sabemos. O certo é que não somos nada diante de tanta imensidão temporal e espacial. Nossa grandeza está no fato de que somos partes desse todo.
No mais, uma convicção: quem não posso ver agora, e que me causa um grande vazio, mais cedo ou mais tarde, em um ou outro lugar do espaço-tempo, estará presente novamente. Obrigado Mitsy!

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A Páscoa está ficando cada vez mais chata

No meu tempo de infância eu gostava bastante da Páscoa. Hoje em dia, continuo a gostar, mas esse apreço vem minguando conforme os anos passam. É evidente que não existe nenhum motivo religioso que explique o fato de eu sempre ter gostado dessa época do ano, pois, além de eu não ser cristão, os motivos me parecem ser de fundo bastante subjetivo e abstrato.
Páscoa combina com outono e, quando eu era mais novo, o outono vinha acompanhado de temperaturas bem mais frescas do que o nefasto verão. No início da manhã e ao final da tarde, o inconfundível ventinho outonal já soprava trazendo o agradável frescor que lhe é característico. Ah, o velho outono, tão gostoso! Atualmente, a estação das frutas mais se parece com uma primavera de dezembro, na qual temperaturas elevadas marcam forte presença. O dueto prazeroso, a combinação perfeita entre Páscoa e outono, se tornou algo raro. Esse pode ser um bom motivo que tenha feito quebrar meu encanto pela Páscoa, mas não certamente o único.
A Páscoa que eu aprendi a gostar enquanto criança era uma época na qual o costume - comercial, é claro, mas muito menos do que hoje - de presentear com ovos de chocolate, bombons e outras guloseimas do tipo lhe conferia um aspecto lúdico saudável. Qualquer adulto que, quando criança, pôde receber esse tipo de agrado, jamais irá negar que a expectativa gerada pelo presente de Páscoa sempre foi das mais gostosas, literalmente. Costumávamos ganhar chocolates dos familiares mais próximos e o almoço do domingo era celebrado com uma espécie de alegria calma e portadora de segurança, diferente do que nos dias de hoje as pessoas costumam associar a esse sentimento. A Páscoa possuía um caráter mais familiar, mais recatado, mais austero e, mesmo que o aspecto religioso nunca tenha tido para mim a menor importância, vale pensar que o espírito confidencial da época derivava, em parte, da tradição cristã.
A Páscoa mudou, para pior. A cada ano que passa, observo que o ar familial e tranquilo dessa época perde espaço para o frenesi desritmado da massificação. Ontem passei na porta de uma loja de chocolates e, ao olhar para o interior do recinto, cuja lotação se encontrava bem acima da capacidade daqueles poucos metros quadrados, notei que os fregueses se agitavam loucamente em busca dos presentes de Páscoa. A Páscoa está ganhando cara de Natal, ele que também perdeu sua característica tradicional, embora há mais tempo. Presentear a rodo, presentear a pessoas distantes, uma celebração restrita ao círculo familar transformada em performance social, afeita ao agito das rodas de amigos e do burburinho incessante do bate-papo comum a elas, eis o espírito da Páscoa das massas. Os modismos de nossa era avançaram os tentáculos também sobre a Páscoa que, assim como já vem ocorrendo com o Natal, tornou-se um happy-hour entre amigos.
Não sei como a Páscoa tem sido comemorada em outros países, mas é curioso que no Brasil, em se tratando de situações cotidianas, nas ruas, no trabalho, nos negócios, na educação, nas quais a impessoalidade deveria ser a tona, o que prevalece é a cordialidade. Já nos momentos em que o aconchego da pertença e da identificação afetiva com pessoas próximas é de bom grado, momentos esses que ensejam lembranças de compartilhamento e de histórias comuns, os laços vêm sendo desfeitos. Estranha inversão, também ela responsável por minha indiferença a respeito da Páscoa pós-moderna.
Um criacionista me informou, sem indicar a fonte, que o diâmetro solar tem diminuído conforme o tempo passa. Sem saber dizer desde quando essa suposta redução começou e se ela é constante ou não, ele a defende na tentativa de refutar as explicações ontolológicas baseadas em evidências científicas, com o argumento de que se a Terra existisse há cerca de 4,6 bilhões de anos, um Sol muito mais agigantado do que é hoje teria engolido nosso planeta ou o teria feito torrar a temperaturas altíssimas, além do imaginável. Depois, fiquei pensando que se a redução solar prosseguir num curso linear, daqui a algum tempo, contrariando tudo aquilo que a ciência vem apontando, as temperaturas na Terra irão dimunuir e a Páscoa voltará a se caracterizar por seu ar outonal. Me animei! O criacionismo poderá salvar a Páscoa ...