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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A inglória tentativa de salvar Stalin


Muitos daqueles que se consideram pensadores de esquerda reconhecem normalmente que o regime stalinista foi totalitário e criminoso. Até aí, nada mais normal. O curioso é observar que a despeito disso, grande parte dessa turma ainda tenta, veladamente, de certo modo, conferir a Stalin uma aura de positividade, que se traduz na ideia de que a URSS então governada pelo ditador georgiano foi o país que derrotou o nazismo na II Guerra. A análise histórica acurada derruba facilmente essa tese, mas a velha paixão ideológica pelo comunismo não permite a tantos chegar em nenhuma ponderação. Proponho a seguir alguns pontos merecedores de análise, todos eles esquecidos pela visão pró-stalinista.
Primeiramente, o elemento que mais evidencia o equívoco da ideia em questão é o pacto Ribbentrop-Molotov, (mais conhecido como pacto germano-soviético) assinado pela Alemanha de Hitler e pela URSS de Stalin em agosto de 1939. O acordo feito pelos dois líderes totalitários previa não somente a não-agressão por parte de ambos os países, como também o estabelecimento de ligações comerciais entre eles e a partilha de territórios europeus com base nas ambições de poder de parte à parte.
Mais do que a mutualidade trivial presente em qualquer acordo diplomático, o pacto Ribbentrop-Molotov contém significados mais profundos e negligenciados pela visão da dita esquerda. Ele representa, sem dúvida, uma expressão bem definida da semelhança formal entre nazismo e comunismo, duas doutrinas baseadas no ódio, na eliminação do "inimigo" e na promessa do Paraíso terreno. Ainda que diversos em relação aos arcabouços teóricos que lhes dão forma, nazismo e comunismo guardam em comum as mesmíssimas finalidades, bem como meios bastante similares que lhes possam conduzir a tais fins. A admiração que Hitler e Stalin nutriam um pelo outro, jamais foi por acaso. Se em 1941 o líder nazista rompeu o pacto, isso se deu porque o próprio Hitler estava enredado no turbilhão totalitário do nazismo. Stalin, também comandante totalitário, igualmente poderia ter motivos para o rompimento, sendo que o austríaco apenas fê-lo primeiro.
A aliança entre nazismo e comunismo, por muito pouco, não venceu a II Guerra já em 1940. Enquanto a Inglaterra era alvo dos intensos raides aéreos da Blitzkrieg e lutava sozinha, já que a França caiu logo e quase sem resistência, Stalin se regozijava fornecendo o petróleo que sustentava a Wehrmacht nazista. Nesse momento crucial do combate, a figura de Winston Churchill, então primeiro ministro britânico, foi de suma importância para impedir que o totalitarismo obtivesse seu triunfo frente à democracia ocidental. Churchill foi o homem que não perdeu a II Guerra em 1940. Quanto a Hitler, Churchill já alertava a respeito de suas terríveis ambições no início da década de 1930, momento no qual pouquíssimos homens de Estado davam atenção ao nazismo, acreditando que o Führer não passava de um bravateiro. Já em relação a Stalin, após o rompimento do pacto, quando a URSS se viu obrigada a lutar ao lado dos Aliados, - sem que, evidentemente, houvesse qualquer motivação ideológica para tanto - Churchill via no líder comunista muito mais um fardo do que uma ajuda. Vale destacar que nessa fase do conflito a Inglaterra enviava víveres e suprimentos bélicos à URSS através do chamado Comboio Ártico, que demandava um tremendo esforço logístico e que sempre foi muito mal agradecido por Stalin.
O primeiro ministro britânico sabia que o fator decisivo para a vitória dos Aliados era a participação dos EUA na guerra. Então com quase 70 anos, Churchill realizou um trabalho diplomático incansável no sentido de levar os americanos para o combate. Muito antes de Pearl Harbor, apenas o estopim da entrada norteamericana na II Guerra, a força retórica e a personalidade do buldogue inglês já vinham abrindo caminho contra a recalcitrância de Roosevelt. Ter trazido os EUA para a II Guerra e assim tornado a balança pendente no lado Aliado foi uma vitória pessoal de Churchill. O Ocidente deveria agradecer mais a ele.
Dar crédito à URSS stalinista pela derrota de Hitler, significa também acreditar que nada mais aconteceu na II Guerra além da batalha de Stalingrado, em 1942. Uma análise ponderada jamais poderia negar que tal batalha, possivelmente a mais sangrenta da história, teve um alto grau de importância, tampouco se desvaloriza a heroica atuação dos soldados russos, por sorte, ajudados também pelo frio rigoroso do inverno continental europeu, para o qual os alemães não estavam nada preparados - devemos graças também ao erro estratégico de Hitler. No entanto, a já citada batalha da Inglaterra, quando a RAF segurou a Luftwaffe em 1940, bem como a evacuação de Dunquerque, ainda nos primórdios da II Guerra, além das importantes vitórias no norte da África, na Itália, contra uma resistência encarniçada das tropas nazistas comandadas pelo marechal Kesselring e, obviamente, a invasão da Normandia em 1944, em sua maioria, ações conjuntas de Inglaterra e EUA, foram igualmente de fundamental importância.
É perfeitamente aceitável e historicamente adequado afirmar que a URSS de Stalin teve uma participação importante e que contribuiu para a derrota de Hitler, mas daí, como procedem muitos esquerdistas, atribuir ao totalitarismo soviético, com ares de exclusividade, a vitória na II Guerra, não passa de passionalismo ideológico, algo inglório e historicamente falho. Muito mais justo, ponderado e correto, seria atentar para o papel de Churchill, não só durante 1939-45, mas bem antes, quando Hitler era visto por muita gente apenas como um fanfarrão a ladrar.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sucesso a quem merece


Muricy Ramalho é campeão brasileiro pela quinta vez. Sim, pela quinta vez, já que em 2005 o Internacional comandado por ele foi o legítimo campeão. O título conquistado ontem pelo Fluminense não é surpresa, dado que Muricy é já há um bom tempo, disparado, o melhor técnico do futebol brasileiro.
Seria chover no molhado escrever a respeito da competência do treinador nascido em São Paulo no ano de 1955, pois quem analisa despindo-se de passionalismos pueris, não tem a menor dúvida de que lhe sobram capacidade técnica e conhecimento futebolístico. Creio que não seja o fator competência seu diferencial, mas sim outras qualidades que considero mais fundantes num ser humano, e das quais deriva a própria possibilidade de se tornar competente, sobretudo quando o tema é o futebol de hoje em dia.
Muricy é uma pessoa muito diferente da maioria daqueles que fazem parte do ambiente do futebol moderno, mostra-se pois, sério, compromissado e sem jamais abandonar o princípio da honestidade. É o caráter de Muricy que lhe possibilitou alcançar o nível de excelência que possui hoje. Desde 2001, vem realizando trabalhos sólidos e conquistando títulos cada vez mais importantes. A Libertadores é apenas uma questão de tempo para abrilhantar mais ainda o currículo desse treinador vitorioso. Muricy não tem arroubos de estrelismo egocêntrico, nunca põe nada acima do treinamento diário e do afinco que uma equipe de futebol deve ter no dia-a-dia para que possa lograr êxito. Muricy trabalha sem vaidade e em prol da equipe, faz sempre questão de frisar que o técnico não deve interferir muito, assim, ele molda suas equipes procurando respeitar as características dos jogadores com os quais pode contar. Para aqueles que o criticam em função de dirigir times que não empolgam, a eficiência competitiva que lhe rende resultados absolutamente invejáveis e a habilidade de fazer com que equipes funcionem tão bem num futebol essencialmente exportador, servem como respostas irrefutáveis.
Em 2009, raro período de hiato nas conquistas do treinador, Muricy ficou marcado pelos insucessos na Libertadores, com o São Paulo, e principalmente com o Palmeiras no Brasileiro, durante o 2° semestre. Na equipe da zona Sul, pouco se pode lhe atribuir algum senão depois de três conquistas nacionais consecutivas. Já no Palmeiras, o elenco do qual dispunha era terrivelmente fraco e a liderança, obtida num momento muito circunstancial do campeonato, evidentemente não seria mantida na fase aguda da competição e com os desfalques sofridos em jogos decisivos. Um elenco já inepto, se tornaria ainda mais sem alguns atletas titulares e em situação de acirramento da disputa. Só mesmo os ignominiosos e pútridos cartolas alviverdes ainda não sabem que sem elenco é impossível conquistar o Brasileiro por pontos corridos. Por tocar nesse assunto, como se não bastasse, Muricy ainda por cima enfrentou um boicote sórdido por parte do péssimo e teimoso dirigente Gilberto Cipullo, defensor de Vanderlei Luxemburgo. Um ano e pouco depois, Muricy é novamente campeão nacional, já o treinador carioca pula de galho em galho e colhe os frutos bichados de sua decadência.
Após o fiasco da seleção de Dunga no mundial da África do Sul, Muricy foi convidado pela CBF para assumir o time brasileiro. Sem se render à vaidade e às cifras proporcionadas pelo cargo, preferiu uma vez mais agir pautado pela ética e cumprir seu contrato com o Fluminense. A equipe das Laranjeiras ocupou a liderança do Brasileiro durante 23 das 38 rodadas, confirmando a ponta após a partida derradeira e sagrando-se campeã, título que não vinha desde 1984. Retorno grandioso, compensador e merecido por Muricy, aquele que se apoia na simplicidade e na eficiência do trabalho sério, metódico e dedicado, sem lugar para egocentrismos, discursos empolados e balelas psicologizantes. Muricy é diferente do brasileiro comum, Muricy é um brasileiro para quem eu tiro o chapéu. Parabéns, campeão!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Capitalismo(s) sem molde economicista


“O capitalismo é exploratório e gerador de desigualdades sociais”. Poucas ideias são tão batidas quanto esta, que há tempos se tornou lugar comum e um dos carros-chefes do pensamento chamado “politicamente correto”, algo que já infestou praticamente todos os círculos da sociedade, ao menos em se tratando de Brasil.
O marxismo rasteiro e panfletário que faz a cabeça de quem culpa o capitalismo por todos os males do mundo, é de fato o ópio de tantos intelectuais, na célebre formulação de Raymond Aron. Desconfio que muitos arautos do socialismo revolucionário não chegaram nem mesmo a ler O Capital na íntegra, quanto mais a obra inteira de Marx. O Manifesto Comunista basta para que certos setores ditos de esquerda abracem algumas das teses marxianas como se fossem a Verdade única e acabada, a chave-mestra para a compreensão das sociedades humanas. Nem é preciso frisar que várias distorções e vulgarizações do próprio pensamento do filósofo alemão estão pressupostas nesse processo. Curiosamente, nove entre dez pensadores hoje em dia assumem sem o menor o problema que o marxismo mais tradicional, aquele que opera com o paradigma do par base-superestrutura, já está há muito superado e não consegue explicar a complexidade do mundo atual, (essa ponderação é feita na Europa e nos EUA desde a década de 1960, no Brasil, pelo menos há uns 20 anos) mas nem assim a formulação vulgar a respeito do capitalismo deixa de ser amplamente aceita em tantas situações.
Num nível bastante simples e por questões óbvias relativas à paixão ideológica, o ódio ao capitalismo provém da carência de observação histórica e da própria força da vulgata marxista, (não do pensamento marxiano) que pode ser concebida como uma forma de religião mundana e materialista, pautada pelo economicismo, ou seja, a atribuição por parte desses marxistas, à primazia da dimensão econômica na experiência das sociedades. Essa constatação conduz a um patamar mais obscuro e pouquíssimo discutido nas Humanidades, ainda que emane do acordo quase que geral entre os pensadores, citado no parágrafo anterior. Em outras palavras, a vulgarização é fruto de uma espécie de molde economicista que faz pensar o sistema econômico, o capitalismo no caso, como um modelo único que funciona exatamente do mesmo modo em qualquer sociedade ou cultura. Tal aberração esquece completamente as outras dimensões - que não a econômica - componentes da experiência social e que sustentam culturas e modos de pensar absolutamente distintos. É um desprezo ao consenso da superação do par base-superestrutura e um absurdo histórico, filosófico, político, sociológico e antropológico. Pensar em “o” capitalismo, sem relativizações que considerem as tantas dimensões sociais, é um dos mais equivocados reducionismos vigentes nas Humanidades.
Em princípio, o mesmo se daria para com o socialismo, no entanto, as teorizações sobre esse sistema são quase todas realizadas com base no próprio marxismo e permeadas pela noção de totalidade e de fatalismo que nunca estiveram presentes no capitalismo e que por isso mesmo exigem sua relativização. Além da Terceira Via de Anthony Giddens, execrada por qualquer marxista revolucionário, não me parece haver outro socialismo que não o da cartilha vulgarizada, com todos os esquematismos, etapas e métodos pré-estabelecidos que lhe são característicos, de modo que tentar salvar o socialismo do dogma no qual está atolado seria de um esforço teórico certamente insolúvel.
Uma possível objeção à proposta da relativização do capitalismo vem da tese da dependência externa e do que se designa “periferia do capitalismo”. Segundo essa linha, o capitalismo atuaria como uma rede global na qual os países desenvolvidos manteriam os subdesenvolvidos num quadro de dependência em relação à tecnologia e obrigados a fornecer bens primários e de pouco valor agregado às nações ricas. Nesse âmbito, não haveria “capitalismos”, mas um capitalismo único e controlado pelos poderosos países do centro. É uma ideia bastante comum e muito utilizada pelos críticos do capitalismo, mas me parece que perde de vista a existência, nos países subdesenvolvidos, de sujeitos históricos capazes de determinar em alguma medida os rumos de suas sociedades. Tampouco atenta para o caso de nações como Coreia do Sul e Finlândia, que há não muito tempo faziam parte da tal periferia, mas ao gerir de forma inteligente e eficaz seus problemas internos, passaram a fazer parte do centro. Essa concepção se baseia ainda no passado colonial das nações subdesenvolvidas e na questão da acumulação primitiva de capital, no que então também se torna incapaz de explicar o sucesso atual de ex-colônias de exploração, como Bahamas, Cingapura, ou até mesmo o Chile, que tem grandes chances de virar uma nação desenvolvida em questão de pouco mais de uma década. Estudos como os de David Landes e Jean-François Revel, isso para não citar Max Weber, são convincentes quando mostram que o surgimento do capitalismo se deveu muito mais a fatores socioculturais específicos do que a um projeto global e organizado de exploração colonial. No mais, as nações que hoje se resumem à exportação de commodities são geralmente governadas por populistas que se consideram de esquerda e que não se preocupam com investimento em educação, pesquisa e tecnologia.
As análises históricas são fecundas em revelar a eficiência de sistemas capitalistas na redução das desigualdades e na promoção do desenvolvimento. Na mesma toada, não é preciso refletir muito para concluir que não houve experiência socialista que tenha deixado de promover banhos de sangue, mortes aos milhões e descambado em políticas autoritárias/totalitárias. Isso já bastaria para imputar as mais severas reprovações a esse sistema, mesmo se em alguma de tais experiências o sucesso tivesse sido alcançado ao fim do processo, porém, foi algo que também jamais aconteceu.
Ao se pensar nas dimensões históricas que compõem as sociedades, vislumbram-se as diferenças entre o capitalismo suíço e o brasileiro, ou entre o que se passa nos EUA e aquele que vigora na França, ou ainda entre o sistema inglês e o sul coreano, exemplos não faltam... Sendo assim, uma correta avaliação sobre “o capitalismo”, passa necessariamente pela sua relativização de modo a considerar que esse sistema varia de acordo com o substrato sociocultural de cada nação. A grande vantagem dessa reflexão é  permitir entender que o capitalismo pode ou não funcionar bem de acordo com as variações e combinações socioculturais das quais o próprio sistema econômico faz parte, ao passo que o reducionismo, filho legítimo da vulgata marxista, apenas perpetua as doutrinações e a incompreensão, sem lançar nenhum raio de luz na discussão.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Manobras autoritárias


Lula deu nesses dias uma entrevista a blogueiros. Não sei ao certo qual estilo de entrevista, se foi algo mais direto e reto ou se sofreu algum tipo de mediação oficial, o que empobreceria um pouco, sem dúvida, o teor de inquirição que deve haver por parte do entrevistador em relação ao entrevistado. De qualquer forma, o que mais interessa são algumas das declarações do mandatário da República, como sempre, absolutamente dignas de total reprovação.
O presidente afirmou que a “imprensa velha” falta com a verdade e trata o povo como massa de manobra. Não ficou claro o que Lula entende por “imprensa velha”, embora depreenda-se, evidentemente, que ele tenha se referido à imprensa que faz oposição ao seu péssimo governo. Lula, como bom representante de um partido com nítido viés autoritário, crê que esse papel não caiba à imprensa, o que faz pensar também que em seu ponto de vista, ela sirva apenas como caixa de ressonância para os supostos benefícios gerados pelo poder estabelecido. Lula não é, jamais foi e nunca será defensor de uma imprensa livre e sem rabo preso com o governo, como ocorre em qualquer democracia madura.
Muita gente no Brasil acha que o tema imprensa livre é falácia devido ao fato dos veículos mais conhecidos serem de propriedade de alguns grupos bem restritos. Esses se esquecem da existência de veículos pró-Lula e pró PT, como Caros Amigos, Hora do Povo, Revista do Brasil, ou até mesmo Carta Capital. Seriam esses todos representantes da “imprensa nova”? Talvez sim, partindo das declarações de Lula,  mas o certo é que a imprensa que se opõe ao governo, algo perfeitamente normal em países democráticos, é considerada “golpista” pela turma autoritária. Cabe perguntar se também apontam que a imprensa situacionista de hoje foi golpista na época de outros governos. A verdade é que existe um pessoal que em nome da ideologia, tem justificativa para tudo...
Fora isso, o presidente ou é cínico, ou é néscio. Dada sua aversão ao conhecimento e à falta dele próprio, a segunda opção é mais crível. É de causar extremo estarrecimento assistir ao ícone máximo do assistencialismo populista atribuindo à imprensa a alienação do povo. É a atual política "social" do governo petista que faz com que os mais necessitados naufraguem ingenuamente no canto de sereia desse tipo de prática. São os mais desprovidos de informação que veem na figura do presidente um messias! Pensando bem, além de néscio, Lula é cínico.
O mandatário declarou ainda que pretende estabelecer antes do fim desse ano um projeto que prevê a “regulamentação” da imprensa. O presidente, na cola do que já disse anteriormente o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, entende que a tal regulamentação existe em países da Europa e nos EUA e que isso não representa censura. Ao se observar as aproximações que o atual governo promoveu em âmbito internacional, no entanto, é legítimo duvidar que qualquer lei de imprensa que Lula tente implantar no Brasil vá seguir o exemplo do que acontece em nações desenvolvidas. É muito mais provável supor que Venezuela, Irã ou Coréia do Norte atuem como espelhos da “regulamentação” petista.
Além do mais, o termo “regulamentação” também ficou vago. Uma agência seria responsável por isso? A partir de quais critérios, com quais interesses? A seguir pela esteira do costumeiro aparelhamento político-ideológico vigente no atual governo, coisa boa é que não vem, longe disso. Lula acha que Getúlio Vargas foi o governante exemplar, magnânimo, assim como um número significativo de brasileiros também pensa. O Brasil pode estar à beira do DIP do século XXI. Quanto tempo será que eles levam para descobrir o Aristaire?
Nenhum governo autoritário jamais aceitou a ideia de que o cidadão é livre em suas escolhas, opiniões e formas de pensamento, cabendo então ao poder estabelecido, segundo o paradigma do autoritarismo, “instruir” as massas no correto curso da causa. É uma necessidade histórica e quem desviar do caminho é porque foi engolido pelo movimento inexorável da marcha histórica, devendo ser eliminado como marginal e incapaz. Num Brasil tomado cada vez mais pela ignorância e pelo processo deliberado de massificação, o autoritarismo tem sua tarefa facilitada.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A bruxa que mora ao lado


Tornou-se lugar-comum afirmar que o PT está no poder já há 8 anos, com mais 4 garantidos, graças ao eleitor das regiões mais pobres do Brasil, o que não deixa de ser verdadeiro em se tratando de números absolutos. Todavia, sabe-se que Dilma seria eleita mesmo sem o Nordeste, no qual se encontram os piores indicadores sociais do país.
O assistencialismo populista é sórdido e cruel ao extremo, mas altamente eficaz quando tem o objetivo de iludir o povo desprovido de informação e conhecimento. Sempre foi assim em todo e qualquer regime autoritário, não seria então, diferente no Brasil. Os rincões da miséria padecem da ignorância, dos descaminhos da educação e da sanha de poder de quem governa a nação, mas o eleitor desses locais não deve levar a culpa, justamente em virtude de sua incapacidade de enxergar o óbvio ser fruto das próprias práticas dos comandantes políticos, para os quais é vital manter as massas debaixo do espesso véu do obscurantismo. O pão e circo é aqui e agora.
Em verdade, os responsáveis pelo poder outorgado ao PT estão em latitudes bem mais distantes da linha do equador. A parcela das camadas médias urbanas provinda dos centros intelectuais do Brasil é aquela a quem o atual governo deve render graças. Essa gente, em sua grande maioria, vem sendo educada há cerca de 25 anos com base nas cartilhas doutrinárias do mais vulgar marxismo, estando seus representantes imbuídos do ódio de classe que emana de tal ideologia.
O PT não estaria no poder caso a diferença de votos pró-PSDB fosse maior no Sudeste, no Sul e em parte do Centro-Oeste. Essa diferença não se observa desde o pleito de 2002 exatamente em função da intelectualidade esquerdista e doutrinária que se considera conhecedora única do caminho reparador das injustiças sociais. Marcelo Adnet, carioca, ícone do público adolescente e dos jovens “descoladinhos”, apresentador da MTV, é um dos representantes mais influentes dessa turma. Recentemente, Adnet promoveu em seu programa uma sátira crítica direcionada a quem ele e seu pessoal consideram de direita, da “zelite fascista”, isto é, os eleitores tucanos e os que fazem objeção ao PT, os quais sofrem todo tipo de acusação. Quem quiser pode encontrar o vídeo no YouTube, devendo inclusive observar os comentários que lá são feitos. Todos os que olhei (fui até a terceira página) tecem loas a Adnet. O ódio classista e o autoritarismo são pródigos em acusar seus opositores, mas essa gente não atenta para o fato de que a cisão que hoje caracteriza marcantemente o panorama sócio-político do Brasil é o substrato para os discursos deles próprios. O maniqueísmo “nóis vs.eles” é típico do atual governo, assim como os “dois Brasis”. Quem é raivoso e cheio de preconceitos?
Ainda segundo Adnet, a oposição faz parte da tal “zelite” que não quer ver o povão se dando bem. É difícil ser mais rasteiro e simplista do que isso. De qual elite fala o apresentador da MTV? Da elite política, da elite universitária da qual ele próprio saiu, (um aluno de universidade custa no Brasil muito mais do que um estudante da base) ou da elite empresarial? A maioria desses está com o PT, senhor Adnet...
Intriga também o fato de Adnet ser funcionário de um canal televisivo cuja programação se dirige ao público adolescente, idiotizado em boa parte, e rendida à péssima qualidade do pop comercial. Nada mais “consumistazinho”, nada mais capitalismo à la Miami ou Beverly Hills.
Para os doutrinários, o PSDB é um partido elitista, composto por quadros e eleitores de “direita”. Não lhes ocorre que o discurso tucano, salvo raras exceções, tem mais semelhanças do que diferenças para com o PT, ambos pautados na massificação do consumo popular via crediário e no crescimento do PIB, como se estes fossem indicadores reais de desenvolvimento. Não passam de dois pilares programáticos que em comparação com o que se verifica em países desenvolvidos, podem ser considerados conservadores e retrógrados. Grande paradoxo que os que se opõem a essas visões sejam acusados de conservadorismo!
Durante a campanha presidencial, uma das propagandas tucanas mostrava uma mulher de baixa renda dando à luz, o que facilmente poderia fazer parte da campanha petista. Em essência, o exemplo revela que estrelas e tucanos bebem água da mesma fonte, ou seja, satisfaça o povão acentuando ainda mais sua condição improvisada, cambaleante e miserável. Não há nesse tipo de conduta objetivo algum de melhorar a vida dos mais necessitados a partir da geração de oportunidades e de modo a lhes conferir verdadeira dignidade. Nada mais do que... pão e circo.
Adnet provavelmente sabe quem é Daniel Piza, que num domingo desses escreveu em sua coluna no Estado de São Paulo mencionando a indagação humanista, é correto gerar filhos sem ter condição de sustentá-los? Já quanto a Evaldo Cabral de Mello, nascido em Recife, temo que nosso apresentador não o conheça. O mais arguto e sofisticado historiador brasileiro, posto que divide com José Murilo de Carvalho, afirmou que caso o Brasil tivesse sido alvo de uma política de planejamento familiar na década de 1950 ou 1960, o país estaria numa situação bem mais favorável. Adnet e os que pensam como ele, certamente acreditam que Piza e Cabral de Mello são nazi-fascistas defensores da eugenia. Eu e todos os brasileiros que não gostam do assistencialismo populista, do autoritarismo, da sanha de poder, da autoindulgência, do culto à personalidade, dos impostos sufocantes, da corrupção sistemática, do aparelhamento da máquina pública, da desvalorização do conhecimento, do desdém à educação, da completa ausência de políticas ambientais e do atraso tecnológico, também carregamos essa pecha. Somos todos vizinhos próximos da inversão de valores, essa personagem funesta, sempre à espreita e botando sua fuça de bruxa para fora da moita.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Espectro político: uma ideia confusa e cristalizada *


O espectro político tal qual é conhecido atualmente, isto é, esquerda - centro - direita, surgiu no final do século XVIII com a Revolução Francesa. Naquela época, quando da realização das sessões na Assembleia Nacional Revolucionária, o posicionamento ocorria de forma que os radicais, que aspiravam por mais democratização, acesso à terra e zelavam pelos interesses dos camponeses e pequenos comerciantes, chamados de jacobinos, sentavam-se à esquerda do orador, já aqueles que pertenciam à alta burguesia, grandes comerciantes e industriais, designados por girondinos, ficavam à direita. No meio, finalmente, ficava o pessoal da planície, o que hoje chama-se de centro e que naquele contexto era composto por quem “dançava conforme a música”. Cabe notar que, de forma geral, tanto a direita como a esquerda eram grupos revolucionários que haviam lutado contra o Absolutismo e contra os privilégios da nobreza, ambos, desse modo, empreenderam a revolução. Isso não é tão óbvio quanto parece para muitos dos nossos contemporâneos.
Passaram-se mais de duzentos anos desde então, tempo no qual o mundo assistiu a uma série de mudanças que tornam a realidade do século XXI completamente diversa da França revolucionária. A despeito disso, a questão do espectro político parece ter se cristalizado e, assim sendo, é utilizada de maneira semelhante ainda em nosso tempo, com todas as confusões e anacronismos que tal fato é capaz de gerar.
Uma consequência advinda dessa cristalização é a ideia simplista e obtusa de que a esquerda pode ser associada a tudo que é justo e igualitário, enquanto que à direita, coube a pecha de reacionária, preconceituosa e dominadora. É evidente que surgiu ao longo do tempo uma esquerda que pode ser dita progressista, democrática, laica e desprovida do ódio de classe. Mais evidente ainda, é o fato de que, do mesmo jeito, existe uma outra esquerda, antípoda do progressismo, aferrada a dogmas mundanos, a ideologias datadas, fortemente autoritárias, historicamente falidas e carregadas até a raiz de profundo ódio social.
Embora com a direita uma ponderação do tipo não seja tão nítida, não pelo menos no Brasil de hoje, onde talvez nem exista um pensamento genuinamente direitista, também é correto supor que as mesmas diferenciações sejam críveis. Assim, se há a direita religiosa, conservadora, - muito menos capitalista do que imaginaria qualquer jacobino moderno de plantão -  que não gosta da ciência e não enxerga que o fator liberdade pode e deve coadunar-se com a igualdade, como já ensinou Tocqueville, há também outra direita contrária a essa, pró-capitalismo devidamente organizado, defensora das liberdades civis, do direito de escolha e que aposta na gestão inteligente e democrática da sociedade como forma de correção de injustiças.
Alguém poderia protestar afirmando que essas relativizações nada mais são do que uma caracterização do centro. Bem,... a esquerda autoritária costuma qualificar o centro como sendo a direita envergonhada. Uma boa resposta para tanto é replicar designando-o como esquerda arrependida. Muito mais válido e proveitoso do que estabelecer rotulações vazias vindas no mais das vezes de quem costuma se posicionar nos extremos do espectro, é observar que os caminhos tortuosos que perfazem as temporalidades da história pedem uma mais atenta e minuciosa consideração dos contextos, das variedades oriundas do próprio passar do tempo, do espaço e dos aspectos socioculturais que marcam as diferentes sociedades. Essa maior atenção evitaria aberrações tal qual a acusação clichê de fascista feita por quem se define como sendo de esquerda ao defender, veja só, um governo nacionalista e centralizador, dirigida contra alguém que se posta mais ao centro. Evitaria ainda que aqueles que se colocam como direitistas puros pudessem chegar ao ridículo de tachar como esquerdista radical a quem defende a ciência e a democracia. Existe muito mais entre um extremo e outro do espectro político do que supõem as vãs ideologias.
Qualificações rasteiras têm como único resultado confusões quixotescas. O espectro político, caso ainda seja da vontade de tantos continuar a utilizá-lo, requer atualizações e ponderações bastante específicas e historicizadas. Os rótulos vazios, adotados em geral pelos mais puristas e fomentadores da discórdia, possuídos da crença odiosa de que um governo bom necessita derrotar ou até eliminar um ou outro setor da sociedade, não pode permanecer como essa maneira insistente e acusatória que costuma ocupar o lugar das formas de pensamento isentas de paixões, alicerce de qualquer análise racional.

* O presente artigo é especialmente dedicado aos alunos Mario Amadeu, Renan Spinola e Tiago Castagnet, sempre muitíssimo interessados em temas políticos e filosóficos.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

As chagas petistas e o embuste nacional (da série "Para o Brasil seguir afundando")


"O PT foi o partido que mais investiu no social." MENTIRA!
O governo Lula foi ótimo para as classes mais ricas, que o digam Eike Batista, os grandes empreiteiros, como a alta cúpula da Odebrecht, ou a família Sarney, que possui um quintal chamado Maranhão. Quanto aos mais pobres, apenas a baixíssima instrução dos mesmos e a sandice ideológica de muitos intelectualóides marxistas pode fazer acreditar que o assistencialismo populista ajuda os miseráveis a sair da miséria. Ao contrário, apenas os perpetua no lodo da pobreza. Vale ressaltar que o boom demográfico que já vem se verificando em alguns rincões, face ao assistencialismo, poderá resultar a médio e longo prazo numa tragédia sem precedentes.

"Os números do governo Lula são melhores do que os da era FHC." MENTIRA!
Além de não haver termo de comparação entre o Brasil de hoje e o Brasil pós-hiperinflação, todos os números, ilusórios e falsos em muitos casos, como no que se refere ao crescimento absoluto do PIB, são herança bendita do ajuste econômico realizado por FHC. O governo petista apenas seguiu o que já havia sido feito no período FHC em relação à política econômica, já os investimentos em educação, tecnologia e infraestrutura (o PAC jamais passou de embuste grosseiro, muitas de suas obras, ou estão estão paradas, ou nunca saíram do papel) foram ínfimos ou inexistentes. Entre 2003 e 2007, ainda que os ventos da economia mundial tenham soprado a favor, o crescimento brasileiro foi ínfimo. Daqui para a frente, na contramão do que Lula adora bradar do alto de sua ignomínia autoindulgente, o Brasil, que durante seu governo inepto dormiu sobre os louros dos commodities, irá sofrer penosamente com a redução do dólar e com a queda acentuada na demanda dos países desenvolvidos.

"Durante o governo Lula, milhões de pessoas subiram a escada da pirâmide social." MENTIRA!
Com uma carga tributária tentacular e usurpadora que recai sobre a classe média, aquela que mais trabalha e produz no Brasil sem ter acesso a qualquer serviço público que preste, foi ela que empobreceu para bancar o assistencialismo populista do PT. A dívida interna do país é altíssima, incompatível com o viés estatólatra e atrasado em 80 anos, característica típica do discurso embusteiro do PT e da turminha que se acha de esquerda, gente que tem o péssimo hábito de considerar o Estado superior à sociedade. A capacidade de investimento estatal está mais do que saturada, só poderá se manter às custas do colapso da classe média e do setor produtivo. Vamos ver como o fantoche Dilma irá lidar com tal questão. Já em relação à suposta ascensão social dos mais pobres, nada mais se verifica do que um aumento do consumo de produtos, muitas vezes, de qualidade inferior e pautado em crediário de longo prazo quando se trata de bens duráveis. Até quando esse quadro poderá se manter às expensas do próprio Estado, do contribuinte e das instituições da República, é uma boa (e assustadora) pergunta.

"Com o PT no poder, a imagem do Brasil melhorou no exterior." MENTIRA!
Essa panaceia incapaz de enganar qualquer pessoa com um mínimo de nível cultural, vira e mexe é propalada por desavisados e pelas hostes petistas, motivada muito em função da famosa (e dúbia) declaração de Obama e do que saiu escrito nas imprensas francesa (depois da compra dos obsoletos caças Dassault pelo governo Lula) e espanhola (que depois voltou atrás). O Brasil é bem visto em países subdesenvolvidos e ditatoriais, como Irã e Cuba, graças à horrenda política externa de Lula em conchavo com seus amiguinhos tiranos. No mundo desenvolvido, o Brasil continua sendo visto como nação miserável e na qual impera a lei da selva, famoso apenas pelo Carnaval, pelo futebol, pela cerveja e pelos traseiros femininos, fonte de exploração sexual em tantos casos. Visão essa que, infelizmente, é muito próxima do correto. Depois que Lula se comportou de maneira vexatória e execrável no episódio Zapata, a imprensa espanhola desaprovou fortemente sua conduta, o mesmo acontecendo com a opinião pública em várias partes do planeta. Não é à toa que uma mente decrépita como a do ancião totalitário e arquiteto fajuto Niemeyer, apoia Lula e o PT. E muitos brasileiros bobos e ufanistas babam ovo para aquele que projetou Brasília, o paraíso da corrupção no Brasil.

Afora todos os embustes petistas, nunca antes no Brasil como durante a era Lula a corrupção foi, não como muitos afirmam, uma prática usual (e ilícita) no país, mas uma forma institucionalizada de aparelhar a máquina pública e açambarcar e garantir a manutenção do poder (Zé Dirceu vem aí de novo). Não vou nem mesmo me estender a respeito da péssima política ambiental do PT ou da questão das privatizações, aspectos outros que servem para expor as chagas petistas, (pouco e mal exploradas pela oposição) pois outrora já tratei de tais fatos, mais de uma vez. Fica apenas uma indagação: e então, PSDB, vai continuar apostando em políticos fracos, sem apelo nem liderança nacional, vai continuar em cima do muro com discursinho social-democrata, ou vai adotar uma postura liberal-clássica, dando ênfase a um Estado eficiente e enxuto, acentuar a importância da educação, da ciência e da tecnologia, abordar questões urbanísticas e ambientais, lutar pelas reformas tributária e previdenciária, enfim vai fazer oposição de verdade, batendo forte na corja petista? 2014 não demorará, isso se houver eleição...