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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O triste fim de Luiz Gonzaga Belluzzo


Nesta quarta-feira (19/01) chega ao fim o mandato de Luiz Gonzaga Belluzzo como presidente da Sociedade Esportiva Palmeiras, cargo por ele ocupado desde janeiro de 2009. Um triste fim, não há como negar, nem mesmo por aqueles que apostavam piamente no renomado economista. Passados dois anos desde o início de sua gestão, a análise mais lapidar a respeito da administração Belluzzo que pude tomar contato veio da parte de um conselheiro da oposição, cujo nome me escapa de momento. Afirma com humor negro: “o Belluzzionista deixou o Palmeiras sem time, sem estádio e sem dinheiro”. Faltou apenas incluir “sem títulos”.
Na ocasião que antecedeu a eleição de Belluzzo, havia uma quase unanimidade em torno de sua pessoa como a mais capaz de recolocar ordem na casa palmeirense e fazer com que a agremiação esmeraldina pudesse trilhar novamente o caminho das conquistas e da grandeza, marca de um passado já remoto em termos de futebol. Findo o mandato, todas as esperanças ruíram sem deixar o menor resquício. Hoje, o Palmeiras possui uma dívida considerável e aumentada em relação ao início de 2009,  - fato mais estranho na medida em que seu gestor máximo nesse ínterim foi um economista reputado em alto gabarito - não tem um elenco nem de longe capaz de algum feito, ainda que apenas um título estadual, não tem categorias de base que possam render frutos ao time profissional, problema que Belluzzo havia prometido corrigir, não tem um departamento de marketing agressivo e, por um bom tempo ainda, não tem uma casa para mandar seus jogos, constatação que pode se tornar mais assustadora quando levadas em conta todas as trapalhadas e os inúmeros desencontros que têm caracterizado a construção da tal Arena Palestra Itália. Eu não me surpreenderei em nada se daqui uns 5 anos o novo estádio não tiver passado do estágio de maquete.
De modo geral, o brasileiro é suscetível a discursos politicamente corretos, permeados por platitudes e autorizados por uma suposta intelectualidade. Dotado da combinação desses três elementos,  mais o caráter de salvador da pátria que lhe foi imputado por bobos e ingênuos e que até certo ponto ele próprio comprou, apesar de negar, Belluzzo se imunizou contra possíveis ceticismos e, aquele que se atrevesse a lhe direcionar qualquer crítica que fosse, imediatamente era visto como apólogo de Mustafá Contursi, como se somente um dos dois pudesse liderar a administração palestrina. Raríssimos foram os que levantaram o passado pouco recomendável de Belluzzo, fazendo menção aos seus trabalhos horríveis durante os governos de José Sarney e de Orestes Quércia, ou indicando o ridículo das ideias de um cidadão que ainda acredita em desenvolvimentismo e que utiliza conceitos como “cultura ocidental” de forma essencialista e pejorativa. Hoje, os adeptos de Belluzzo estão com o rabinho entre as pernas.
Não sei até que ponto as ultrapassadas noções belluzzionistas afetaram seu desempenho como presidente da SEP, mas quando observamos as papagaiadas protagonizadas por sua pessoa durante a gestão, retroativamente se conclui que ele jamais poderia dar certo. Certamente, a culpa pelo fracasso retumbante não pode recair inteiramente sobre ele, afinal o Palmeiras continua assombrado pelos velhos demônios da época em que se jogava futebol usando gorrinho e pelas insanas disputas feudais que esses mesmos ensejam dentro do clube. Por outro lado, é um grande paradoxo que a figura de Belluzzo, que tanto se apresentou trajando as vestes da aglutinação, encerre seu mandato não só sem sanar mais esse problema crônico nas alamedas de Palestra Itália, o das guerras fratricidas, mas tendo-o agravado, já que a “situação” entra no pleito de 2011 com dois candidatos. Absolutamente rocambolesco!
O Palmeiras precisa de ideias novas, elas que nunca fizeram parte do perfil de Belluzzo, de uma gestão que resgate o clube de sua prisão no tempo e o traga finalmente ao século XXI, precisa de dirigentes comprometidos com o clube, não com seus desejos escusos. Talvez Paulo Nobre seja o que mais possa contribuir, ou quem sabe, Arnaldo Tirone? Ninguém tem certeza, nem mesmo os conselheiros a votar, dado que grande parte deles o fará sem pensar no melhor para o clube. Pode ser que nada mude e que o apequenamento continue em marcha acelerada ou há a chance de ser dado um primeiro impulso, ainda que tímido, numa direção diferente. Quem viver verá. De minha parte, já ficarei satisfeito se não surgir mais nenhum torcedor de gravata matador de bambis.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O disco mais injustiçado do Heavy Metal


A maioria dos filósofos contemporâneos acredita que não é possível estabelecer critérios de justiça em relação à arte. Isso se verifica porque no campo artístico a dimensão subjetiva se faz fortemente presente, impedindo assim a delimitação entre o que seria justo ou não. Estou de acordo com essa ideia, pois não parece haver nenhuma lógica, por exemplo, em qualificar como justo o gosto pela obra de um Caravaggio ou de um Van Gogh, nem tampouco em atribuir injustiça a alguém que não aprecie a pintura de Cézanne. É verdade que não se discute questões de gosto, muitas vezes, apenas se lamenta...
De um ponto de vista filosófico, portanto, a justiça está relacionada com elementos de reciprocidade objetiva que não podem ser aplicados à arte, na qual as preferências pessoais subjetivas devem ser consideradas. Isto posto, logo de cara poderia comprometer a reflexão que agora proponho, todavia, o que intento discutir caminha por um viés um tanto distinto. Me explico: creio eu que enorme parte das críticas recebidas pelo álbum The X Factor, lançado pelo Iron Maiden em 1995, são extrínsecas à música que o mesmo contém, logo, externas também ao campo da arte. É óbvio que nem assim poderei fugir por completo às minhas preferências, ressaltando mais uma vez que não cabe atribuir injustiça a quem não goste do referido álbum, mas talvez eu consiga jogar uma pitada de objetividade à análise.
The X Factor, segundo muito do que se ouve ou se lê sobre o disco, não é um álbum querido pela maior parte dos fãs de Iron Maiden, chegando a ser odiado por parcela considerável dos mesmos. De minha parte, não o qualifico como um clássico do quilate de Piece Of Mind ou The Number Of The Beast, citando apenas dois exemplos, mas tenho profunda convicção de que caso ele tivesse contado com as vocalizações de Bruce Dickinson, sofreria avaliações imensamente positivas.
Em 1993, Dickinson deixou o Iron Maiden devido a diferenças com o baixista Steve Harris, líder da banda. O vocalista marcou época não só no conjunto, participando dos discos mais grandiosos gravados pelo mesmo, mas também no cenário musical dos anos 1980, auge do próprio IM e da música pesada, década que legou uma quantidade absurda de clássicos obrigatórios em qualquer metalteca que se preze. Era natural que a saída de Dickinson deixasse uma lacuna impossível de ser preenchida por qualquer outro cantor, ainda que o substituto fosse, por acaso, um David Coverdale ou um Geoff Tate. Mais agravante que nenhum nome de peso veio a ocupar o posto de frontman da Donzela, mas sim um vocalista de nome Blaze Bayley, provindo da desconhecida banda inglesa Wolfsbane. Creio ser esse o motivo principal do preconceito contra The X Factor, exatamente a ausência do lendário Dickinson, mas ainda que Bayley não tivesse nem de longe a mesma capacidade de seu antecessor e que em performances ao vivo ficasse devendo bastante, penso ser correto avaliar que a sonoridade de The X Factor se encaixou muitíssimo bem com sua voz, completamente diferente em relação a de Dickinson.
Somados à saída de Dickinson, entre 1993 e o lançamento de The X Factor em 1995, ocorreram alguns outros episódios desagradáveis com o IM, tais como a separação de Harris e o sério acidente de moto sofrido por Bayley, que inclusive o deixou de molho por vários meses. Por um paradoxo do imponderável, vez por outra a reger certos momentos, o pano de fundo nefasto que acompanhou o IM na época acabou resultando num álbum, a meu ver, excelente, e que remete diretamente ao contexto “dark” em questão. A começar pela capa  do disco, que pela primeira vez na história da banda apresentou um Eddie “real” ao invés de desenhado, ideia do guitarrista Dave Murray, passando pelas letras e pelas linhas vocais de Bayley, até chegar na própria sonoridade, tudo contribuiu para fazer de The X Factor um disco pesado e sombrio, mas ao mesmo tempo repleto de melodias, passagens intrincadas, quebradas de ritmo, variações, tecnicalidade e um trabalho de bateria magnífico, o melhor já realizado por Nicko McBrain em minha opinião.
O ouvinte que se dispuser a decifrar The X Factor despindo-se de preconceitos extra-artísticos e imbuído da minúcia que a boa audição musical exige, tem boas chances de se deleitar com épicos como "Sign Of The Cross", (elaboradíssima) "Fortunes Of War", (com o indefectível ritmo cavalgado) e "Blood On The World´s Hands" (dotada de espetacular introdução de Harris). Há ainda músicas mais diretas, como "Lord Of The Flies", que possui elementos de Hard Rock, (!) e a rápida e pesada "Man On The Edge", baseada no filme Um Dia de Fúria. Não para por aí, o álbum traz ainda outras faixas memoráveis nos riffs portentosos de "The Aftermath", nas melodias belíssimas de "The Edge Of Darkness", (inspirada pelos horrores da guerra do Vietnã) e "2  A.M.", além de "The Unbeliever", que fecha o disco com uma construção musical inteligente, original e linhas de baixo absolutamente antológicas.
Aquele que já conhece The X Factor e que nunca morreu de amores pelo álbum, quem sabe, ouvindo com mais cuidado, passe a ter uma maior boa vontade com ele? Já aquele que nunca manteve contato com esse petardo da música pesada, ouça-o e tire as próprias conclusões. Aposto que não irá se arrepender e entenderá quase de imediato que, de fato, o disco foi alvo de críticas negativas, todas elas pulverizadas pela força de sua sonoridade.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O velho, o novo e as mazelas de sempre


O governo Lula terminou. Não sem antes brindar a passagem de ano com mais um de seus tantos atos dignos de absoluta repulsa. Numa decisão que caberia ao STF, mas que foi parar nas mãos do chefe do Executivo, desnudando novamente a ausência de autonomia do Judiciário e de princípio republicano, o então presidente, no último dia de sua gestão, tomou a medida derradeira de negar a extradição do terrorista de esquerda, Cesare Battisti. De nada adiantaram os pedidos e argumentos mais do que justos por parte do governo italiano, tampouco os apelos das famílias das vítimas de Battisti pela volta do criminoso à Itália, tudo acabou sendo sumariamente deixado de lado por Lula. O hiperprensidencialismo que vigora no Brasil petista não pensou duas vezes em deixar nas mãos de um tolo apedeuta decisão de tamanha importância. A negativa da extradição repercutiu muitíssimo mal na Europa, selando o fim da era Lula de modo a acentuar ainda mais as falhas gritantes que marcaram um dos piores governos da história brasileira, se não o pior.
Segundo o ex-presidente e de acordo com os próprios líderes petistas, tal qual o comunista Tarso Genro, Battisti deve permanecer em asilo político no Brasil porque seria "perseguido" na Itália, o que então determinou do governo brasileiro (sic) a preservação da tradição humanista. É estarrecedora a justificativa, exatamente pela mentira deslavada que carrega. Battisti cometeu crimes na Itália, deveria retornar a seu país natal para que lá respondesse por seus atos de terror. O Brasil jamais poderia servir como receptáculo para criminosos, já bastam os que são daqui! Além disso, a ideia de humanismo não se aplica ao PT, que em outras ocasiões nas quais uma postura do tipo seria muito mais pertinente, agiu de maneira oposta, haja vista o caso dos atletas cubanos que pediram asilo político no Brasil durante o Panamericano de 2007 e acabaram sendo deportados sem qualquer cerimônia para a ilha dos horrores de Fidel, atitude que rasgou e atirou no lixo todas as convenções  internacionais a respeito do abrigo devido a refugiados de regimes ditatoriais. Na visão petista, um terrorista de esquerda que matou em nome de devaneios políticos merece asilo e tratamento humanista, mas pessoas de bem que fogem de uma tirania retrógrada, são apenas párias anti-revolucionários. Foi escancarada a motivação puramente ideológica que fez Lula manter Battisti no Brasil, caso se tratasse de um criminoso de direita, teria sido extraditado com toda rapidez.
Mal anoiteceu o governo Lula, alvoreceu a era Dilma Roussef. Em seus primeiros dias de governança, a nova presidente tem se mostrado como a criancinha que se entusiasma ao receber um presente. Ao que me parece, Dilma se assemelha muito com Lula em relação à falta de gosto pelo esmero administrativo e, assim que a novidade do poder se transformar na rotina que exige competência, minúcia e ponderação, aí então a mandatária deverá mostrar a que veio.
Pelo que se conhece de Dilma e do PT, não viveremos nada que escape ao que vem se observando desde 2003. A atual presidente possui um certo recato que nem de longe se verificava em Lula, bravateiro, autoindulgente e ávido por discursos vazios, feitos sob medida para a massa inculta. Isso poderá vir a ser uma característica ruim, ao contrário do que sugere de imediato, pois o poder efetivo corre o risco de ficar mais concentrado em gente ainda pior do que Dilma.
Em âmbito objetivo, como colocou o professor Simão Davi Silber, esse novo governo tem tudo para permanecer como o anterior, ou seja, nada mais do que uma enceradeira desgovernada. Não há investimento em infraestrutura, nem em educação, nem em tecnologia, sem os quais não se cria ambiente para negócios e, consequentemente, também não se gera real desenvolvimento (extemporâneo, o petismo ainda crê no desenvolvimentismo estatal). Some-se a isso a carga tributária que atinge 36% do PIB, 10% mais do que em 1994, mantendo a gastança governamental exagerada e sempre inócua, além da inflação que vem num galope crescente, já superando a casa dos 6%, e tem-se o script pronto para que o que pode ser um filme de terror nada divertido.
Diante do descalabro e da incompetência, adjetivos que cabem perfeitamente para (des)qualificar o governo petista, resta a tênue esperança de que possa surgir uma oposição de verdade no Brasil, capaz de estabelecer propostas sólidas e alternativas, bem como cobranças mais fortes em relação à situação, algo que já significaria grande mudança no contexto político do país.

 *PS: ainda quanto ao caso Battisti, clique aqui para saber mais.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

No ano do "cemternada" incolor, o Octa palestrino



O time da zona leste passou incólume em 2010, ano em que completou seu primeiro século de existência. Como sempre, parte da imprensa esportiva brasileira que atua não fazendo jornalismo, mas propagandeando seu time do coração, elevou o acontecimento aos píncaros do firmamento, tentando de tudo e mais um pouco no intuito de alardear a centúria incolor. De nada adiantou e a Virgem do Centenário se mostrou incapaz de contentar sua nação zumbi. Nem Paulistão, quando não atingiu sequer as semifinais, nem Brasileiro, quando não foi além do terceiro lugar, a despeito de toda ajuda possível da arbitragem, nem a tão sonhada Libertadores, competição na qual o fiasco chegou já nas oitavas-de-final, fazendo permanecer o provincianismo alvinegro e sua completa nulidade internacional. Que copinha de juniores, que nada! Carnaval? Passou longe, a abstinência foi completa!
Como se não bastasse a amargura do “cemternada”, o time branco e preto foi obrigado a ver a CBF homologar a equiparação - esse é o termo correto - dos campeonatos Taça Brasil e Roberto Gomes Pedrosa, disputados entre 1959 e 1970, ao Campeonato Brasileiro, que passou a ser disputado a partir de 1971. Com isso, o Palmeiras se tornou, juntamente com o Santos, o maior vencedor de títulos Brasileiros de todos os tempos, pois somou mais quatro conquistas às outras quatro que já possuía, sagrando-se Octacampeão Brasileiro de Futebol. Os rivais estão comendo poeira!
Muita polêmica se fez em torno da equiparação, um verdadeiro tiroteio de argumentações vindas tanto de quem se mostrou contra, como por parte de quem foi a favor da decisão da CBF. Polêmica um tanto quanto inútil, para falar a verdade, mais um daqueles assuntos que vêm à baila quando a imprensa não tem muito o que abordar assim que as competições se encerram e inicia-se o período de férias do futebol, como foi o caso nesse mês de dezembro. Não é porque a Taça Brasil e o Roberto Gomes Pedrosa foram considerados equivalentes ao Campeonato Brasileiro que sua importância aumentou. Ora, na época em que foram realizados, esses torneios eram as mais importantes disputas do cenário nacional, vários times tinham elencos recheados de craques, a seriedade e o compromisso se mostravam bem mais frequentes por parte dos jogadores, torcer era muito mais saudável do que hoje em dia e a representatividade de cada estado brasileiro nas competições era maior do que no atual Brasileirão.
Todo aquele que tem um mínimo de conhecimento sobre história do futebol brasileiro sabe que a Taça Brasil e o Robertão foram campeonatos do mais alto gabarito, portanto, em essência, a equiparação é em última análise uma questão de nomenclatura que torna todos os campeonatos nacionais disputados de 1959 para cá, campeonatos brasileiros. Há muitos anos, mais precisamente em 1992, eu me envolvi numa discussão travada contra dois torcedores incolores, meus colegas de classe, a respeito de quem tinha mais conquistas nacionais, o Palmeiras ou o time deles. Levei na escola uma revista Placar que mostrava as conquistas de todos os grandes times do Brasil e então lhes provei que eu estava com a razão. Sem ter o que dizer, eles se saíram com o que restava, isto é, desvalorizaram a Taça Brasil e sobretudo o Roberto Gomes Pedrosa, nome pouco adequado para um torneio nacional (daí a questão da nomenclatura ter um significado a ser levado em alta conta). Logo vi que não adiantava discutir, já que eles eram historicamente ignorantes e nada sabiam sobre aqueles campeonatos, muitos menos sobre Biriba, Bombeiro, Dirceu Lopes, Nilton Santos, Mengálvio, Chinesinho,... nem mesmo sobre Pelé, Pepe, Ademir da Guia ou Dudu. A mais notável contribuição da História é mostrar que tudo aquilo que nos cerca não existe apenas desde o momento em que nós mesmos viemos ao mundo. O presente é tributário do passado, algo que costuma passar desapercebido pelos pós-modernos e por adolescentes alienados. No que se refere às competições nacionais brasileiras, a equiparação foi meritória justamente devido a essa questão, ainda que tantas outras coisas memoráveis tenham acontecido no nosso futebol antes de 1959, que o diga, por exemplo, o Palmeiras do início dos anos 1930...
Como bom palmeirense, não posso deixar de tripudiar o rival desprovido de cores, pois sempre tive perfeita noção da imensa superioridade palestrina em termos de história e conquistas, constatação que não sofrerá mudanças no mínimo pelos próximos 30 ou 40 anos, mesmo que o Palmeiras continue sua trilha de apequenamento pós-1999. Ainda que daqui um tempo nos tornemos sem margem para dúvidas um Juventus da Pompeia, continuarei sendo palestrino. Me considero um torcedor consciente, preferiria, ao invés do Octa, que o Palmeiras estivesse forte no presente, - futebol, no calor de sua paixão, faz com que o momento seja mais considerado, apesar da importância histórica - mas a realidade atual é que a SEP não tem condições nem mesmo de conquistar um Campeonato Paulista.
Encerro desejando um bom 2011 a todos, inclusive aos virgens do centenário, exceto, para esses, no quesito futebol.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A inglória tentativa de salvar Stalin


Muitos daqueles que se consideram pensadores de esquerda reconhecem normalmente que o regime stalinista foi totalitário e criminoso. Até aí, nada mais normal. O curioso é observar que a despeito disso, grande parte dessa turma ainda tenta, veladamente, de certo modo, conferir a Stalin uma aura de positividade, que se traduz na ideia de que a URSS então governada pelo ditador georgiano foi o país que derrotou o nazismo na II Guerra. A análise histórica acurada derruba facilmente essa tese, mas a velha paixão ideológica pelo comunismo não permite a tantos chegar em nenhuma ponderação. Proponho a seguir alguns pontos merecedores de análise, todos eles esquecidos pela visão pró-stalinista.
Primeiramente, o elemento que mais evidencia o equívoco da ideia em questão é o pacto Ribbentrop-Molotov, (mais conhecido como pacto germano-soviético) assinado pela Alemanha de Hitler e pela URSS de Stalin em agosto de 1939. O acordo feito pelos dois líderes totalitários previa não somente a não-agressão por parte de ambos os países, como também o estabelecimento de ligações comerciais entre eles e a partilha de territórios europeus com base nas ambições de poder de parte à parte.
Mais do que a mutualidade trivial presente em qualquer acordo diplomático, o pacto Ribbentrop-Molotov contém significados mais profundos e negligenciados pela visão da dita esquerda. Ele representa, sem dúvida, uma expressão bem definida da semelhança formal entre nazismo e comunismo, duas doutrinas baseadas no ódio, na eliminação do "inimigo" e na promessa do Paraíso terreno. Ainda que diversos em relação aos arcabouços teóricos que lhes dão forma, nazismo e comunismo guardam em comum as mesmíssimas finalidades, bem como meios bastante similares que lhes possam conduzir a tais fins. A admiração que Hitler e Stalin nutriam um pelo outro, jamais foi por acaso. Se em 1941 o líder nazista rompeu o pacto, isso se deu porque o próprio Hitler estava enredado no turbilhão totalitário do nazismo. Stalin, também comandante totalitário, igualmente poderia ter motivos para o rompimento, sendo que o austríaco apenas fê-lo primeiro.
A aliança entre nazismo e comunismo, por muito pouco, não venceu a II Guerra já em 1940. Enquanto a Inglaterra era alvo dos intensos raides aéreos da Blitzkrieg e lutava sozinha, já que a França caiu logo e quase sem resistência, Stalin se regozijava fornecendo o petróleo que sustentava a Wehrmacht nazista. Nesse momento crucial do combate, a figura de Winston Churchill, então primeiro ministro britânico, foi de suma importância para impedir que o totalitarismo obtivesse seu triunfo frente à democracia ocidental. Churchill foi o homem que não perdeu a II Guerra em 1940. Quanto a Hitler, Churchill já alertava a respeito de suas terríveis ambições no início da década de 1930, momento no qual pouquíssimos homens de Estado davam atenção ao nazismo, acreditando que o Führer não passava de um bravateiro. Já em relação a Stalin, após o rompimento do pacto, quando a URSS se viu obrigada a lutar ao lado dos Aliados, - sem que, evidentemente, houvesse qualquer motivação ideológica para tanto - Churchill via no líder comunista muito mais um fardo do que uma ajuda. Vale destacar que nessa fase do conflito a Inglaterra enviava víveres e suprimentos bélicos à URSS através do chamado Comboio Ártico, que demandava um tremendo esforço logístico e que sempre foi muito mal agradecido por Stalin.
O primeiro ministro britânico sabia que o fator decisivo para a vitória dos Aliados era a participação dos EUA na guerra. Então com quase 70 anos, Churchill realizou um trabalho diplomático incansável no sentido de levar os americanos para o combate. Muito antes de Pearl Harbor, apenas o estopim da entrada norteamericana na II Guerra, a força retórica e a personalidade do buldogue inglês já vinham abrindo caminho contra a recalcitrância de Roosevelt. Ter trazido os EUA para a II Guerra e assim tornado a balança pendente no lado Aliado foi uma vitória pessoal de Churchill. O Ocidente deveria agradecer mais a ele.
Dar crédito à URSS stalinista pela derrota de Hitler, significa também acreditar que nada mais aconteceu na II Guerra além da batalha de Stalingrado, em 1942. Uma análise ponderada jamais poderia negar que tal batalha, possivelmente a mais sangrenta da história, teve um alto grau de importância, tampouco se desvaloriza a heroica atuação dos soldados russos, por sorte, ajudados também pelo frio rigoroso do inverno continental europeu, para o qual os alemães não estavam nada preparados - devemos graças também ao erro estratégico de Hitler. No entanto, a já citada batalha da Inglaterra, quando a RAF segurou a Luftwaffe em 1940, bem como a evacuação de Dunquerque, ainda nos primórdios da II Guerra, além das importantes vitórias no norte da África, na Itália, contra uma resistência encarniçada das tropas nazistas comandadas pelo marechal Kesselring e, obviamente, a invasão da Normandia em 1944, em sua maioria, ações conjuntas de Inglaterra e EUA, foram igualmente de fundamental importância.
É perfeitamente aceitável e historicamente adequado afirmar que a URSS de Stalin teve uma participação importante e que contribuiu para a derrota de Hitler, mas daí, como procedem muitos esquerdistas, atribuir ao totalitarismo soviético, com ares de exclusividade, a vitória na II Guerra, não passa de passionalismo ideológico, algo inglório e historicamente falho. Muito mais justo, ponderado e correto, seria atentar para o papel de Churchill, não só durante 1939-45, mas bem antes, quando Hitler era visto por muita gente apenas como um fanfarrão a ladrar.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sucesso a quem merece


Muricy Ramalho é campeão brasileiro pela quinta vez. Sim, pela quinta vez, já que em 2005 o Internacional comandado por ele foi o legítimo campeão. O título conquistado ontem pelo Fluminense não é surpresa, dado que Muricy é já há um bom tempo, disparado, o melhor técnico do futebol brasileiro.
Seria chover no molhado escrever a respeito da competência do treinador nascido em São Paulo no ano de 1955, pois quem analisa despindo-se de passionalismos pueris, não tem a menor dúvida de que lhe sobram capacidade técnica e conhecimento futebolístico. Creio que não seja o fator competência seu diferencial, mas sim outras qualidades que considero mais fundantes num ser humano, e das quais deriva a própria possibilidade de se tornar competente, sobretudo quando o tema é o futebol de hoje em dia.
Muricy é uma pessoa muito diferente da maioria daqueles que fazem parte do ambiente do futebol moderno, mostra-se pois, sério, compromissado e sem jamais abandonar o princípio da honestidade. É o caráter de Muricy que lhe possibilitou alcançar o nível de excelência que possui hoje. Desde 2001, vem realizando trabalhos sólidos e conquistando títulos cada vez mais importantes. A Libertadores é apenas uma questão de tempo para abrilhantar mais ainda o currículo desse treinador vitorioso. Muricy não tem arroubos de estrelismo egocêntrico, nunca põe nada acima do treinamento diário e do afinco que uma equipe de futebol deve ter no dia-a-dia para que possa lograr êxito. Muricy trabalha sem vaidade e em prol da equipe, faz sempre questão de frisar que o técnico não deve interferir muito, assim, ele molda suas equipes procurando respeitar as características dos jogadores com os quais pode contar. Para aqueles que o criticam em função de dirigir times que não empolgam, a eficiência competitiva que lhe rende resultados absolutamente invejáveis e a habilidade de fazer com que equipes funcionem tão bem num futebol essencialmente exportador, servem como respostas irrefutáveis.
Em 2009, raro período de hiato nas conquistas do treinador, Muricy ficou marcado pelos insucessos na Libertadores, com o São Paulo, e principalmente com o Palmeiras no Brasileiro, durante o 2° semestre. Na equipe da zona Sul, pouco se pode lhe atribuir algum senão depois de três conquistas nacionais consecutivas. Já no Palmeiras, o elenco do qual dispunha era terrivelmente fraco e a liderança, obtida num momento muito circunstancial do campeonato, evidentemente não seria mantida na fase aguda da competição e com os desfalques sofridos em jogos decisivos. Um elenco já inepto, se tornaria ainda mais sem alguns atletas titulares e em situação de acirramento da disputa. Só mesmo os ignominiosos e pútridos cartolas alviverdes ainda não sabem que sem elenco é impossível conquistar o Brasileiro por pontos corridos. Por tocar nesse assunto, como se não bastasse, Muricy ainda por cima enfrentou um boicote sórdido por parte do péssimo e teimoso dirigente Gilberto Cipullo, defensor de Vanderlei Luxemburgo. Um ano e pouco depois, Muricy é novamente campeão nacional, já o treinador carioca pula de galho em galho e colhe os frutos bichados de sua decadência.
Após o fiasco da seleção de Dunga no mundial da África do Sul, Muricy foi convidado pela CBF para assumir o time brasileiro. Sem se render à vaidade e às cifras proporcionadas pelo cargo, preferiu uma vez mais agir pautado pela ética e cumprir seu contrato com o Fluminense. A equipe das Laranjeiras ocupou a liderança do Brasileiro durante 23 das 38 rodadas, confirmando a ponta após a partida derradeira e sagrando-se campeã, título que não vinha desde 1984. Retorno grandioso, compensador e merecido por Muricy, aquele que se apoia na simplicidade e na eficiência do trabalho sério, metódico e dedicado, sem lugar para egocentrismos, discursos empolados e balelas psicologizantes. Muricy é diferente do brasileiro comum, Muricy é um brasileiro para quem eu tiro o chapéu. Parabéns, campeão!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Capitalismo(s) sem molde economicista


“O capitalismo é exploratório e gerador de desigualdades sociais”. Poucas ideias são tão batidas quanto esta, que há tempos se tornou lugar comum e um dos carros-chefes do pensamento chamado “politicamente correto”, algo que já infestou praticamente todos os círculos da sociedade, ao menos em se tratando de Brasil.
O marxismo rasteiro e panfletário que faz a cabeça de quem culpa o capitalismo por todos os males do mundo, é de fato o ópio de tantos intelectuais, na célebre formulação de Raymond Aron. Desconfio que muitos arautos do socialismo revolucionário não chegaram nem mesmo a ler O Capital na íntegra, quanto mais a obra inteira de Marx. O Manifesto Comunista basta para que certos setores ditos de esquerda abracem algumas das teses marxianas como se fossem a Verdade única e acabada, a chave-mestra para a compreensão das sociedades humanas. Nem é preciso frisar que várias distorções e vulgarizações do próprio pensamento do filósofo alemão estão pressupostas nesse processo. Curiosamente, nove entre dez pensadores hoje em dia assumem sem o menor o problema que o marxismo mais tradicional, aquele que opera com o paradigma do par base-superestrutura, já está há muito superado e não consegue explicar a complexidade do mundo atual, (essa ponderação é feita na Europa e nos EUA desde a década de 1960, no Brasil, pelo menos há uns 20 anos) mas nem assim a formulação vulgar a respeito do capitalismo deixa de ser amplamente aceita em tantas situações.
Num nível bastante simples e por questões óbvias relativas à paixão ideológica, o ódio ao capitalismo provém da carência de observação histórica e da própria força da vulgata marxista, (não do pensamento marxiano) que pode ser concebida como uma forma de religião mundana e materialista, pautada pelo economicismo, ou seja, a atribuição por parte desses marxistas, à primazia da dimensão econômica na experiência das sociedades. Essa constatação conduz a um patamar mais obscuro e pouquíssimo discutido nas Humanidades, ainda que emane do acordo quase que geral entre os pensadores, citado no parágrafo anterior. Em outras palavras, a vulgarização é fruto de uma espécie de molde economicista que faz pensar o sistema econômico, o capitalismo no caso, como um modelo único que funciona exatamente do mesmo modo em qualquer sociedade ou cultura. Tal aberração esquece completamente as outras dimensões - que não a econômica - componentes da experiência social e que sustentam culturas e modos de pensar absolutamente distintos. É um desprezo ao consenso da superação do par base-superestrutura e um absurdo histórico, filosófico, político, sociológico e antropológico. Pensar em “o” capitalismo, sem relativizações que considerem as tantas dimensões sociais, é um dos mais equivocados reducionismos vigentes nas Humanidades.
Em princípio, o mesmo se daria para com o socialismo, no entanto, as teorizações sobre esse sistema são quase todas realizadas com base no próprio marxismo e permeadas pela noção de totalidade e de fatalismo que nunca estiveram presentes no capitalismo e que por isso mesmo exigem sua relativização. Além da Terceira Via de Anthony Giddens, execrada por qualquer marxista revolucionário, não me parece haver outro socialismo que não o da cartilha vulgarizada, com todos os esquematismos, etapas e métodos pré-estabelecidos que lhe são característicos, de modo que tentar salvar o socialismo do dogma no qual está atolado seria de um esforço teórico certamente insolúvel.
Uma possível objeção à proposta da relativização do capitalismo vem da tese da dependência externa e do que se designa “periferia do capitalismo”. Segundo essa linha, o capitalismo atuaria como uma rede global na qual os países desenvolvidos manteriam os subdesenvolvidos num quadro de dependência em relação à tecnologia e obrigados a fornecer bens primários e de pouco valor agregado às nações ricas. Nesse âmbito, não haveria “capitalismos”, mas um capitalismo único e controlado pelos poderosos países do centro. É uma ideia bastante comum e muito utilizada pelos críticos do capitalismo, mas me parece que perde de vista a existência, nos países subdesenvolvidos, de sujeitos históricos capazes de determinar em alguma medida os rumos de suas sociedades. Tampouco atenta para o caso de nações como Coreia do Sul e Finlândia, que há não muito tempo faziam parte da tal periferia, mas ao gerir de forma inteligente e eficaz seus problemas internos, passaram a fazer parte do centro. Essa concepção se baseia ainda no passado colonial das nações subdesenvolvidas e na questão da acumulação primitiva de capital, no que então também se torna incapaz de explicar o sucesso atual de ex-colônias de exploração, como Bahamas, Cingapura, ou até mesmo o Chile, que tem grandes chances de virar uma nação desenvolvida em questão de pouco mais de uma década. Estudos como os de David Landes e Jean-François Revel, isso para não citar Max Weber, são convincentes quando mostram que o surgimento do capitalismo se deveu muito mais a fatores socioculturais específicos do que a um projeto global e organizado de exploração colonial. No mais, as nações que hoje se resumem à exportação de commodities são geralmente governadas por populistas que se consideram de esquerda e que não se preocupam com investimento em educação, pesquisa e tecnologia.
As análises históricas são fecundas em revelar a eficiência de sistemas capitalistas na redução das desigualdades e na promoção do desenvolvimento. Na mesma toada, não é preciso refletir muito para concluir que não houve experiência socialista que tenha deixado de promover banhos de sangue, mortes aos milhões e descambado em políticas autoritárias/totalitárias. Isso já bastaria para imputar as mais severas reprovações a esse sistema, mesmo se em alguma de tais experiências o sucesso tivesse sido alcançado ao fim do processo, porém, foi algo que também jamais aconteceu.
Ao se pensar nas dimensões históricas que compõem as sociedades, vislumbram-se as diferenças entre o capitalismo suíço e o brasileiro, ou entre o que se passa nos EUA e aquele que vigora na França, ou ainda entre o sistema inglês e o sul coreano, exemplos não faltam... Sendo assim, uma correta avaliação sobre “o capitalismo”, passa necessariamente pela sua relativização de modo a considerar que esse sistema varia de acordo com o substrato sociocultural de cada nação. A grande vantagem dessa reflexão é  permitir entender que o capitalismo pode ou não funcionar bem de acordo com as variações e combinações socioculturais das quais o próprio sistema econômico faz parte, ao passo que o reducionismo, filho legítimo da vulgata marxista, apenas perpetua as doutrinações e a incompreensão, sem lançar nenhum raio de luz na discussão.