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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

À guisa de encerramento


Morreu Kim Jong-il, o lunático ditador norte-coreano, um homem cujo tempo de governo durava 17 anos, um homem a quem o culto rendido pelo artificialismo do regime comunista o colocava acima de tudo e de todos. Grande ironia o fato dos indivíduos que detêm o poder se sobressairem em tamanha escala num regime do tipo; o marxismo está desmentido também nesse aspecto. Muito antes do comunismo ser o próprio comunismo, trata-se de um sistema autoritário, algo que a análise histórica isenta permite atestar com facilidade. Na Coreia do Norte, viu-se a multidão mergulhada em prantos pela morte de seu ditador, pois a reverência obrigatória ao líder manda que seus súditos ajam de tal forma. Em parte, a manipulação na qual a população é mantida sob uma ditadura, a faz pensar, ignorantemente, que a ausência do ditador levará ao caos, como se este já não fosse inerente ao comunismo, por outro lado, nas brechas em que a sanidade mental se mantém a duras penas, as lágrimas de crocodilo podem servir como garantia de vida - é melhor ser visto chorando do que ser morto. Não me consta que a paranoia comunista tenha criado alguma maneira para identificar o choro fingido. Se nem a Inquisição, muito mais afeita aos mistérios do que os ditadores, percebeu que Galileu dizia uma coisa e pensava seu oposto, não será a ditadura comunista da Coreia do Norte a desbaratar simulações como esta.
Morreu também Vaclav Havel, intelectual e político tcheco, o homem que melhor soube conduzir o fim do regime comunista no leste europeu e estabelecer um sistema livre em seu país. Havel foi o mentor da Revolução de Veludo, processo que desmembrou a Tchecoslováquia de modo absolutamente pacífico no início dos anos 1990. Não é por acaso que hoje a República Tcheca seja a nação mais próspera da Europa Oriental, tampouco o fato de que Havel, assim como outros intelectuais de brilho daquela parte do planeta, vide Czeslaw Milosz e Leszek Kolakowski, sempre tenha sido um ferrenho opositor das ideias comunistas. Por ele também houve choro, sem pompa, sem culto à personalidade, mas devido à perda de uma mente defensora da dignidade e da liberdade humanas. Choro sofrido e autêntico. Seria bom para o mundo que houvesse mais homens como Havel.
                              
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O próximo ano está quase chegando e, com ele, as idiotices de sempre que caracterizam essa época de virada. Durante quase 12 meses completos muitas pessoas se agarram aos vícios, umas sem se darem conta dos mesmos, outras, conscientes, mas que não mudam por preguiça física ou espiritual. Não sei o que é pior. Tudo bem, os vícios fazem parte da condição humana, sendo dificílimo que alguém possa escapar a eles, - e eu mesmo os possuo - mas prometer a quem quer que seja, começando por si próprio, que no próximo ano as coisas irão ser diferentes como num passe de mágica, unicamente em função da mudança do ano é, na grande maioria das vezes, somente hipocrisia, balela ridícula de quem se deixa levar muito mais pelos devaneios típicos do Réveillon do que pelo compromisso e pelo esforço que uma mudança de comportamento impõe e, que ainda por cima, se for por autêntica força de vontade, pode ocorrer em qualquer período.
O pior de tudo nessa época são os fogos de artifício, uma das invenções mais execráveis que acompanha as festas de fim de ano. Por que não se proíbe esse verdadeiro lixo? Ah, porque as pessoas gostam, porque elas se divertem, porque é uma tradição, porque simbolizam alegria. As respostas mais odiáveis são aquelas que tomam a parte pelo todo, que generalizam. O mesmo acontece com outras ditas tradições, em que aqueles que não compartilham do gosto por tais, são sumariamente desconsiderados. Temos aqui um exemplo notório de tirania da tradição. Não seria problema sério caso se tratasse apenas de uma questão de gosto pessoal, contudo, o prejuízo é fortemente sentido por animais, tanto os domésticos como aqueles que não o são, tremendamente atordoados e assustados pela barulheira. Há os que se estressam, os que se perdem tentando encontrar um abrigo dos estampidos e até os que chegam a morrer. Entre as aves que vivem em liberdade, o pânico e o estresse provocado pelos fogos costuma ter consequências das mais lamentáveis. Uma vez que tantos gostam de fazer promessas para o ano vindouro, que tal começar agora, abolindo de vez a prática dos fogos de artifício? Você liga para o bem-estar animal, consegue se despir de uma tola “tradição”? Fará toda a diferença.
De resto, considero uma grande estupidez dar tanta importância a uma simples virada no calendário. Não, não desejo a ninguém um feliz 2012, o tempo cronológico é só um continuum, só uma maneira de marcar a passagem temporal, sem nenhuma relação com festejos, esperanças e superstições. Faço votos sim, que o ser humano busque viver mais de acordo com as regras da razão e das virtudes em seu cotidiano. O universo agradece. Obrigado.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Erro do passado, incompreensão do presente, dever e única esperança do futuro


Na segunda metade da década de 1990, o Plano Real, depois de muito tempo, proporcionou valorização ao dinheiro da classe média brasileira, período no qual o fantasma da hiperinflação foi devidamente exorcizado e o consumo pôde, ainda que brevemente, se estabelecer sobre parâmetros sólidos e saudáveis. Caso o governo tucano tivesse ido mais a fundo nas transformações que o país necessitava, além do próprio Real, e houvesse, por exemplo, implementado a reforma tributária naquele mesmo momento em que a conjuntura política e econômica lhe fornecia lastro suficiente, o Brasil de hoje estaria, sem dúvida, em condições bem melhores, muito possivelmente, livre do projeto de dominação autoritário do PT. Somada a esse erro, cometido em função de falta de coragem e da presença de uma oposição puramente ideológica do PT, sem qualquer compromisso com o desenvolvimento do país, a crise cambial de 1999 veio para jogar areia no ventilador da economia nacional e contribuir com o pesado desgaste sofrido por FHC em seu segundo mandato. Diante desse contexto, as portas se abriram de forma inédita para Lula e seu partido que, pela primeira vez em sua trajetória política, souberam construir um discurso brando na fachada sem abandonar os traços autoritários de retaguarda, característica típica do DNA histórico de um partido cujo sectarismo fica estampado desde o nome. A brandura aparente foi uma hábil sacada na conquista da porção do eleitorado que sempre havia faltado ao PT: boa parte dos setores médios urbanos e um quinhão do empresariado. Quanto a este último, mesmo perante a desindustrializção que ora o país vem sentindo, não se prejudica, já que o aparelhamento da máquina administrativa assim o favorece. O autoritarismo petista não deseja outra coisa a não ser impedir o desenvolvimento autônomo da sociedade em torno do valor político da democracia e do mercado competitivo e empreendedor, atuando para tanto, na cooptação de empresários ávidos por se locupletarem do butim econômico instaurado desde 2003. Chame-se a isso de capitalismo de estado ou socialismo em edificação, pouco importa, o fato é que uma quantidade significativa de empresários brasileiros ganha dinheiro a partir de favorecimentos e subsídios governamentais. O aspecto mais estarrecedor da tomada de poder pelo PT não é, todavia, a cooptação de empresários, fenômeno já observado em outros tantos regimes de cunho autoritário, mas diz respeito à anuência que a classe média ofereceu ao partido da estrela vermelha. Esse apoio sem precedentes pode ser explicado devido à ilusão causada por um partido de esquerda chegando à presidência reforçado pela figura de um ex-operário e pela ideia de justiça social e igualdade, bandeiras que o PT carregou desde de sua fundação. Em geral, o brasileiro não sabe que igualdade sem liberdade é somente uma maneira de tirania e que uma sociedade justa e desenvolvida jamais pode se constituir com um partido sectário, classista e gramsciano ocupando o poder. Seria pedir muito que a população brasileira estivesse atenta para esses detalhes e, entra igualmente na conta, e portanto no fato do PT estar em seu terceiro mandato consecutivo, podendo até aqui construir tranquilamente seu projeto de poder autoritário, a inépcia do PSDB enquanto oposição, bem como o ranço antiliberal do qual os tucanos jamais conseguiram se livrar, defeito que os fez cometer o erro citado de início, além de terem colocado em prática medidas corretas a partir de mecanismos falhos, o que cada vez mais tem dado munição aos adversários.
O projeto de poder do PT se assenta na centralização do estado e no populismo assistencialista, marcas que cobram caro da classe média, ainda que muitos dos seus representantes não se apercebam da situação. A economia brasileira, carente de investimentos em tecnologia, logística e educação de qualidade, assaltada pela carga tributária que subtrai 40% do salário anual dos trabalhadores sem lhes dar absolutamente nada em troca e comprometendo também a produtividade industrial e encarecendo os serviços, depois de passar alguns anos favorecida pela conjuntura internacional, começa a dar indícios de moléstia. Não é preciso nem indicar quem irá padecer do mal, mais ainda do que já vem acontecendo. A classe média, que perfaz a maioria desses trabalhadores, tem reivindicado sobretudo a reposição salarial, justa em muitas casos, ainda mais num país que ao invés de valorizar quem produz e quem possui qualificação, se ajoelha e faz reverência diante de todos os tipos de celebridades bizarras, aquelas que ajudam a compor o pão e circo. O problema, entretanto, situa-se bem menos no valor bruto dos salários pagos do que na carga tributária que emperra o consumo saudável e reduz brutalmente os rendimentos líquidos da classe produtiva. Os impostos cobrados no país servem para consolidar a centralização do estado, para aumentar ainda mais a corrupção, para bancar o assistencialismo populista, que tira de um lugar e põe em outro, sem evidentemente levar a qualquer desenvolvimento, e para manter o pão e circo, agora traduzido na realização de grandes eventos esportivos, o que também faz a festa daqueles empresários mancomunados com o governo. É a cara do Brasil!
Sem que a classe média passe a entender como funciona o projeto de poder do PT, o que se torna mais difícil conforme o tempo passa, e que a partir disso esteja apta a se opor contra tal situação, reivindicando o que lhe é mais justo, mais necessário e, a meu ver, o único modo de tentar mudar o rumo político que o país vem tomando, (o objetivo final de um projeto aos moldes petistas é conformar a sociedade à não-existência de seus indivíduos, à incapacidade política, por assim dizer) o autoritarismo não fará restar nada além de sua dominação completa. Ajam enquanto é tempo.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Bibliografia 2011


Hoje em dia o mercado editorial brasileiro apresenta lançamentos quase diários, o que torna impossível ao leitor tomar conhecimento sequer de um terço daquilo que chega às livrarias, seja em função da quantidade ou do preço de um livro no Brasil, salgado muitas vezes. A pessoa acostumada à leitura é inevitavelmente obrigada a selecionar títulos que lhe sejam mais atraentes ou úteis, como eu mesmo venho fazendo há cerca de dez anos, momento a partir do qual passei a ler com mais frequência. Seleciono a seguir, pois, três ou quatro livros que julgo terem sido os melhores de 2011 na área de Humanidades, assunto que perfaz 80% de minhas leituras.
No mês de abril li Américo: o homem que deu seu nome ao continente, do historiador inglês Felipe Fernandéz-Armesto, (Companhia das Letras) uma biografia ágil e envolvente do navegador florentino. Fernandéz-Armesto chegou a um resultado nem sempre factível no gênero, isto é, a compreensão de um contexto amplo a partir do personagem histórico individual, perspectiva entre micro e macro reservada somente aos historiadores de talento. A descrição analítica da Florença renascentista é riquíssima e capaz de transportar o leitor até o berço do Renascimento. No fim, descobre-se um Vespúcio distante do lugar-comum que ainda predomina no Ensino Básico.
Logo após o livro de Fernandéz-Armesto mergulhei na leitura de A estranha derrota, (Zahar) do grande Marc Bloch, um dos monstros sagrados da historiografia em todos os tempos. Há muito esperava-se uma edição brasileira deste clássico que ajudou a estabelecer os Annales, a escola historiográfica mais profícua e criativa que se tem até hoje. Na obra, Bloch faz jus a seu reconhecimento como historiador da longa duração e das mentalidades, explicando a rápida derrota da França na Segunda Guerra Mundial a partir de elementos profundamente enraizados na mente e na cultura do povo francês. A análise é reveladora do atavismo burocrático na França, bem como do drama pessoal de Bloch que, como historiador, sempre enxergou as causas da derrota, pouco podendo fazer todavia, como soldado, para modificar a impotência francesa diante do dinamismo alemão.
Em agosto foi a vez de Os redentores, do historiador mexicano Enrique Krauze, (Benvirá) obra composta por pequenos ensaios biográficos (nem tão pequeno no caso de Octavio Paz) de personagens que marcaram o pensamento político e cultural da América Latina desde o final do século XIX. O título do livro, segundo o próprio Krauze, refere-se ao fardo contido na ideia de salvação, praticamente um fantasma que povoou e permanece povoando o pensamento não só das figuras analisadas pelo autor, mas de tantos intelectuais latino-americanos, muitos deles levados à ilusão das paixões revolucionárias. O mérito de Krauze, além obviamente do trabalho documental e da qualidade do texto, é desmantelar mistificações como Che Guevara, Eva Perón ou Gabriel García Marquez, nomes ingenuamente cultuados na América Latina, apóstolos de ideias e regimes políticos incapazes de contribuir com desenvolvimento e liberdade. Lutando contra os demônios políticos que assaltam a mente de quase todos os homens que se propõem a pensar intelectualmente a América Latina, enfrentando com esmero e coragem as imposturas que seus próprios pensamentos insistiram em colocar no caminho e, finalmente, arrancados das quimeras utópicas por uma pujança de ideias continuamente construídas ao longo da vida, Mario Vargas Llosa e sobretudo Octavio Paz, que domina a maior parte de Os redentores, são os dois nomes que emergem com grande destaque na análise de Krauze. Homens que alcançaram a sobriedade e conseguiram se despir do fanatismo da redenção para defender “utopias” plausíveis: democracia e liberdade.
Por último, foi a vez de Lembranças de 1848, (Penguin-Companhia) do multipensador francês Alexis de Tocqueville. O título foi relançado no Brasil depois de muito tempo, mais do que merecidamente. Como ator político das jornadas revolucionárias de 1848, mas também como sagaz analista, Tocqueville brinda com louvor a seus leitores, embora ele desejasse que seus escritos permanecessem confidenciais, no mínimo até sua morte. Lembranças é uma espécie de autobiografia na qual Tocqueville expõe causas, efeitos e impressões pessoais a respeito de um período de turbulência na história da França. Ao contrário da maioria de seus contemporâneos, homens de um século no qual as teorias holísticas e a ideia de leis históricas obscureceram a compreensão dos fenômenos sociais, Tocqueville adiantou em mais de cem anos a nova história política, pautada nas contextualizações, nas visões de mundo dos sujeitos e nas suas ações cotidianas. Sem desprezar processos mais gerais, como a formação e as transformações de classes na França ou a estrutura administrativa desde a Idade Média, o autor traz à tona o turbilhão da política diária, destrincha com frieza e perspicácia assustadoras o espírito e as ideias do povo, de seus companheiros e adversários políticos, bem como dele mesmo. No complexo entrelaçamento entre causas gerais e específicas, entre estrutura, conjuntura e fatos pontuais, Tocqueville ilustra com vivos tons aquilo que outros pensadores do século XIX fizeram embaçar perante as névoas da abstração. Um livro útil, inclusive, para refletir sobre as mazelas políticas do Brasil atual, comparando-as com as da França oitocentista.

PS: Cabe uma menção honrosa ao livro Guia politicamente incorreto da América Latina, (Leya) de Leandro Narloch. A obra não tem seu valor pela pesquisa, já que se baseia em fontes secundárias, nem pela originalidade, pois traz ideias já conhecidas, pelo menos por aqueles que não se submetem a ideologias falidas. É válida, no entanto, por difundir ao público leigo verdades negligenciadas pelo pensamento esquerdopata que domina amplos setores das Humanidades em nosso continente. Em nível mais primário, Narloch destrói mistificações, assim como Krauze. Ainda que certas colocações do autor mereçam ponderações, eu adotaria o Guia tranquilamente como livro didático, de vez que se mostra muito mais crítico e isento de ideologizações do que mais de 90% dos manuais escolares destinados aos estudantes brasileiros e latino-americanos.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Blasé


Não sei se o que vou expor nas linhas subsequentes é uma satisfação perante os leitores, algo que, ao mesmo tempo que não desejo, não tenho poder para determinar como será interpretado pelas pessoas. Talvez seja uma satisfação a mim mesmo, dada a vontade de escrever sem saber ao certo a respeito do que, aspecto em relação ao qual também não posso e nem devo me preocupar muito. Num país em que a propriedade privada é permanentemente aviltada pelos impostos, ao menos possuo soberania sobre este espaço. O fato é que nesse ano escrevi mais do que nos dois anteriores, isso sem que 2011 tenha terminado; até esta data, a média é de cerca de um artigo por semana, um bom número se considerado que em muitos períodos, como o atual, aumenta o trabalho a ser realizado em casa. Não que o fator quantidade esteja acima da qualidade, porém isto é um blog, um veículo que faz parte de um meio no qual a atualização não pode ser descartada, ainda que o perfil que procuro manter aqui seja outro, não tendo nada tem a ver com o que se poderia chamar de um folhetim diário.
Postei menos em novembro, situação que vislumbro se repetir em dezembro. Estou sem grande inspiração, embora, como já salientado, satisfeito com o que produzi desde janeiro. Assuntos e ideias nunca faltam, pois estão sempre passando irriquietamente por minha cabeça. Tem faltado, sim, organizá-los devidamente e torná-los públicos. Quem sabe não resida exatamente aí a carência de inspiração? Me encontro um tanto quanto perdido no meio do turbilhão, sem a fleuma e a habilidade necessárias para encontrar um foco por vez e escrever sobre o mesmo.
Nos últimos dias que se passaram pensei em abordar a figura de Sócrates, o ex-jogador falecido, contudo, quando delineava o texto ainda em mente, logo percebi que não teria nada considerável a acrescentar diante de tanta coisa que já havia sido colocada, correndo sério risco de, ainda por cima, ser incomodado pelo politicamente correto e ter que estorvar a mim mesmo em dar respostas para um povo que, em geral, tem compulsão quase patológica em fabricar mártires. A pieguice do brasileiro o impede muitas vezes de tirar lições dos erros que são cometidos.
O Campeonato Brasileiro acabou e me veio a ideia de discutir o certame, assunto que poderei expor em breve, mas que, por ora, deixei de lado em função das paixões clubísticas ainda latentes devido ao término recente da competição. Além disso, é sabido de qualquer um que não se furte a uma observação um pouco mais atenta, que o vencedor representa o status quo do atual futebol brasileiro, assaltado pela podridão dos dirigentes, da imprensa esportiva dominante e do poder maior que rege a nação. O século XX inaugurou as formas de poder ditatoriais baseadas no apoio das massas ignorantes e sujeitas à manipulação. O uso do futebol - esporte das massas no Brasil - com finalidades políticas é hoje mais comum no país do que durante o milagre brasileiro. Quem diria?! Para qual público eu iria escrever, para o torcedor zumbi? Não, seria chover no molhado. Quanto aos admiradores dos outros times, eles já conhecem a história decor e salteado.
Após ter escanteado os temas anteriores, eis que surgiu a polêmica acerca da hidrelétrica de Belo Monte. De um lado, o Movimento Gota d´Água vociferando contra, de outro, um grupo de estudantes tecendo loas. Um bom assunto a ser posto em discussão,... ou não. Quando me pus a refletir que, evidentemente, há ainda muita informação negligenciada, tanto para se colocar contra, como para se mostrar a favor da construção da usina, percebi de imediato que não deveria manifestar nada sobre a questão. A princípio, sou totalmente contrário à construção dessa usina, uma vez que o potencial eólico e solar do Brasil deveria prevalecer sobre outas fontes de energia, mas ainda é preciso aguardar para tecer comentários mais aprofundados. Belo Monte pode nem ser o monstro que atores globais nunca antes engajados em causas ambientais, muito pelo contrário, tentaram pintar, nem o bálsamo cantado em prosa e verso por alguns universitários recém-saídos do Ensino Médio usando de discurso elíptico. Por enquanto, ao contrário do que divulgou a revista Veja, o debate está bem longe de ser sério.
Outra ideia que me ocorreu em função de conversas travadas esporadicamente, diz respeito ao pensamento rígido de certas pessoas, quadro que sempre as leva a encarar fenômenos socioculturais sob um viés essencialista. Essas pessoas acreditam, para citar um único exemplo, que existe um antagonismo de princípios entre o Ocidente e o Oriente de maneira a tornar impensável toda e qualquer reflexão na busca de aproximações e perspectivas em relação a aspectos filosóficos universais. Para elas, não existe nem mesmo a possibilidade da presença de filosofia no Oriente, o que é um tremendo absurdo. Quem adota esse estilo de postura, nunca atentou para os estudos de um Louis Gernet, de um Marcel Granet ou de um Jean-Pierre Vernant, se esquece até de que o cristianismo surgiu no Oriente, que a Álgebra e que o número zero são invenções árabes e que Marco Polo foi à China, de onde trouxe coisas que hoje nos são comuns. Como os essencialistas lidariam com os impasses do mundo global? Fazendo uso da teoria do choque de civilizações, que eles mesmos rejeitam quase sempre? Tirando da cartola a ideia de tolerância? Mas como, se são justamente essencialistas? Este tema é bastante complexo em seus desdobramentos, retornarei a ele num momento mais adequado.
Quando achar por bem, ou quando a urgência de algum fato assim o fizer necessário, volto a escrever. Por enquanto, peço licença para me concentrar nos afazeres cotidianos, afinal, é época de trabalho árduo para professores que o ano inteiro se viram às voltas com alunos que não cumprem jamais o exigido e que agora  precisam passar pela tal da recuperação.

PS: de última hora, vejo reportagem na TV noticiando a aprovação do aumento  de salário para cargos político-administrativos no município de São Paulo; as majorações são claramente abusivas e ultrajantes, chegando a mais de 200% em alguns casos; piores, só mesmo as justificativas escabrosas do deputado Marco Aurélio Cunha (DEM) e do prefeito Gilberto Kassab, ambos afirmando que é uma forma de valorizar os tais cargos e de propiciar cobrança em relação aos beneficiados; não sabem diferenciar trabalho produtivo de não-produtivo, não sabem que o mérito independe da questão financeira e não fazem ideia de que a cobrança deveria se fazer em cima das responsabilidades, também não guardando nenhuma relação com aquilo que se recebe em forma de salário.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Crítica e tradicionalismo sociológico no Brasil


Quando alguém faz a pergunta “para que serve a história?”, um questionamento até certo ponto banal, embora justo, a melhor resposta sempre será aquela que é dada por meio de exemplos, esclarecendo o que, dito de outro modo, com base na teoria e portanto mais sujeito a hermetismos, correria o risco de ser considerado deveras abstrato por parte do inquiridor. A qual exemplo recorrer vai do gosto, do acaso ou do conhecimento de quem responde, sendo o mais importante salientar a carga de passado que o presente pode comportar. Para se compreender o contexto presente é imprenscindível conhecer os caminhos trilhados por uma sociedade, caminhos esses que, por sua especificidade, contribuíram para estabelecer um determinado presente, e não outro.
Nas sociedades tradicionais, entendidas em âmbito sociológico¹, isto é, nas quais ainda preponderam o patriarcalismo, o familismo e as relações pessoais, mesmo na esfera pública, é fácil sentir e observar uma carga de passado que, não pode deixar de se apontar, resulta em traços bastante negativos. Não é necessário ter senso lá muito aguçado para classificar o Brasil dentre as sociedades desse tipo, isso não somente em localidades distantes dos grandes centros urbanos, mas inclusive neles. A indistinção entre público e privado é uma marca sui generis da sociedade brasileira, tributária do passado de colonização ibérica. Não posso deixar de concordar com a professora Lucília Siqueira, quando esta afirma que não podemos mais considerar a estrutura colonial lusitana como responsável por nossas mazelas atuais, afinal, a Independência, a República, a industrialização e a democratização são realidades que, bem ou mal, capengas como se apresentaram ou ainda se apresentam, fizeram ou fazem parte da história do Brasil, tornando-o uma realidade diferente em relação ao que foi até 1808. Isso não quer dizer que seja possível descartar os efeitos da longa duração e dos traços culturais e mentais que se fazem perdurar no povo brasileiro, algo que a professora Lucília, arguta como sempre se mostrou, também sabe perfeitamente.
Os sinais e pormenores que definem a confusão entre público e privado no Brasil se reproduzem todos os dias nas relações entre patrões e empregados, na esfera da política oficial, nas escolas e universidades, no trânsito, nas conversas entre amigos e até entre pessoas desconhecidas, situação em que o trato familista configura um paradoxo dos mais incríveis. Tudo isso revela que o Brasil está a anos luz de distância de ser um país liberal, coisa que muita gente não pode e nem quer perceber.
Aqui tendo chegado, noto que talvez eu feito uma digressão muito longa, desviando-me do tema sugerido pelo título, mas creio também, que o leitor poderá entender os motivos deste trajeto. A crítica no Brasil, ao contrário do que deveria ser, ainda é assunto tratado sob espesso véu de familismo e personalismo. No geral, o brasileiro tem ojeriza à crítica, logo tomando-a por um ataque pessoal, seja por parte do próprio alvo criticado ou, o que é comum, por parte de quem toma suas dores. A noção de que a crítica, quando bem feita, se fundamenta em ideias, é estranha ao povo que habita estas terras. Desde Platão na Antiguidade, passando pela contribuição de importantes pensadores medievais e modernos, vide um São Tomás de Aquino ou até um Hegel expurgado de marxismo, é sabido que o conceito de ideia demanda impessoalidade, algo que, no entanto, não tem logrado sucesso face à mentalidade tradicionalista do brasileiro. Daí ser tão recorrente que as réplicas se percam completamente em argumentação ad hominem, o que faz a discussão se tornar pobre e arredia ao debate.
Na esteira do anticriticismo, muitas vezes vem à tona a questão da verdade, o que é fruto da suposição, também ela resultado do tradicionalismo, de que toda crítica esteja presa ao dualismo verdadeiro-falso. Este ponto é muito espinhoso quando a crítica se refere a assuntos referentes às Ciências Humanas, terreno cujo estatuto epistemológico é bastante específico. Em áreas do saber nas quais se lida muito mais com probabilidade e verossimilhança, uma argumentação pautada pela oposição entre verdadeiro-falso estará sempre comprometida. Nesses casos, deve se considerar, além do elemento subjetivo adjacente ao discurso das Humanidades, a noção de que uma concepção geral que norteia as ideias de determinado pensador pode, na maioria das vezes, não ser de sua própria autoria. Disto decorre que uma possível crítica dirigida a esse mesmo pensador não busca colocar em discussão se ele é ou não o dono da verdade, pretensão pouco aplicável em Humanas ou mesmo à crítica em si, mas sim chamar atenção para pressupostos teóricos e ideológicos equivocados que podem comprometer uma argumentação, ainda que formalmente bem construída. Evidentemente, o erro e o acerto estão em jogo, mas não em uma perspectiva totalizante, que inclusive esvaziaria em grande medida o propósito da crítica.
Penso ser correto admitir que quando uma sociedade atinge um nível sofisticado de crítica, livre de personalismos, tem-se aí um sinal de seu desenvolvimento mental e cultural, quadro que, pelo exposto, ainda não começou nem mesmo a engatinhar no Brasil, país de claro tradicionalismo sociológico.


NOTA

1. O conceito de “sociedades tradicionais” em Sociologia, muito utilizado pela Escola de Chicago e presente nas obras de Talcott Parsons e Gino Germani, refere-se, grosso modo, a sociedades permeadas por valores oligárquicos, tais como exemplificados no texto. Este conceito não deve ser confundido com sua definição antropológica, usada para caracterizar sociedades pré-históricas ou pré-modernas, (em sentido lato) remotíssimas, nômades/semi-nômades, formadas por caçadores e coletores. Tem ainda menos a ver com o conservadorismo humanista à la Irving Babbitt, cujo princípio é a valorização de padrões morais e filosóficos que tendem a favorecer a vida civilizada e a liberdade autêntica.

domingo, 20 de novembro de 2011

Manifestações muito válidas de indignação


O filósofo político Renato Janine Ribeiro escreveu no Estado de São Paulo de hoje um artigo ("Inimiga da república") versando sobre a corrupção no Brasil. Segundo o autor, é um assunto que não pode ser tratado a partir de viés partidário, ou seja, a crítica à corrupção tem que ser total e incondicional, não somente feita se estiverem em jogo preferências por um ou outro partido. Assim, quem fica indignado contra corrupção praticada pelo partido X, deve manter postura idêntica se for levada a cabo pelo partido Y, do contrário, estará incorrendo em extrema incoerência.
Janine está certíssimo nesse aspecto, porém, parece não ir a fundo nas implicações morais que seu próprio ponto de vista enseja. No mesmo artigo o autor julga que as manifestações de indignação dirigidas aos corruptos são vazias, uma vez que aqueles que criticam não oferecem propostas para o Brasil. Aí cabe então a pergunta: desde quando ser intolerante em relação a um modo de agir criminoso exige, como complemento, indicar propostas? Um professor de ética como ele não poderia desconsiderar jamais que, se existe uma situação na qual a moral é jogada no lixo, ser intolerante em relação a esta situação adquire um valor por si só.
O pior é que Janine usa o Facebook como fonte para corroborar sua ideia. Convenhamos que a rede social não fornece o melhor indicativo quando se tem o objetivo de refletir acerca da política de uma nação, sobretudo se essa nação é o Brasil. A maior parte dos brasileiros não saberia propor soluções aplicáveis para a política brasileira, simplesmente porque não possui instrumental para tanto e porque vivemos sob uma democracia representativa, na qual cabe justamente aos representantes eleitos a tarefa de coordenar as ações políticas. Se eles não o fazem em nosso país, tem sido acima de tudo por conta dos gravíssimos e frequentes desvios de conduta, logo, tudo que seja para repudiar a corrupção é de total validade e importância. A democracia brasileira ainda não se consolidou e está longe disso, o que nos revela que seria esperar demais que os brasileiros fizessem, no momento, algo além do que se indignar contra a corrupção, um mal que se instalou nas entranhas da política nacional.
Janine teria se saído bem melhor se constatasse o mais evidente, isto é, o fato de que são poucos os brasileiros que se mostram indignados contra uma corrupção que se tornou institucionalizada no governo do PT, partido que sempre se colocou como paladino da ética enquanto esteve fora do poder. Depois que o conquistou, passou a tratar do tema como preciosismo/moralismo burguês. O populismo lulista soube se aproveitar bem dos desejos mais prementes da população carente e mesmo de boa parte das classes médias urbanas, o que resultou na passividade política que domina a fragilizada democracia brasileira. Bom para quem ocupa o poder e que pretende mantê-lo sobre traços autoritários.
Por sorte, e talvez por uma centelha de percepção, o cenário dá sinais de mudança, aponta que a intolerância contra a corrupção tem aumentado, sendo isso exatamente o que nosso autor observou no Facebook. Ao mesmo tempo em que a rede social representa apenas uma excrescência do universo político, pouco ainda diante de tantas mazelas, é também motivo para se ter alguma esperança, afinal de contas a passividade reinou sozinha de 2003 para cá, levando o lulismo a um grau de aceitação e aprovação completamente incompatíveis com o governo que era realizado. Notando que existem indicativos de alteração na atmosfera, Janine poderia ter visto a coisa de modo positivo, mas como alguém que ainda consegue enxergar no PT um partido comprometido com a democracia, acaba por ir na contramão daquilo que ele mesmo condena, acertadamente, como sendo partidarismo, ao invés de intolerância contra a corrupção em essência. O autor deveria ter a coragem e o desprendimento necessários para atacar a corrupção insitucionalizada no governo petista, reforçando que foi com Lula e obedecendo ao discurso, à postura e as medidas do ex-presidente, que as práticas políticas ignominiosas passaram a ser não só aceitas, o que já é uma aberração, mas também legitimadas. Toda corrupção, por mais ínfima que seja, merece repúdio, mas é a corrupção sistemática e institucionalizada que mais torna enferma a vida política de um país, pois é aí que passa a ser vista como algo corriqueiro, levando por sua vez, à apatia e à passividade da população. Se o povo tem dado algumas demonstrações de estar farto de tamanha corrupção, fenômeno observado por Janine, é motivo de louvor que não pode ser desprezado.
O autor crê que a discussão política no Brasil é pobre, uma afirmação absolutamente óbvia, sendo estranho, desse modo, que ele negue a validade de sinais que apontam uma possível mudança de direção. É significativo que mais pessoas estejam se manifestando contra a corrupção no Brasil, daí a querer que o brasileiro adquira uma cultura democrática que lhe capacite a propor soluções para o país, é algo que demanda, além de paciência, mudanças em outras esferas, como a educação, o que de maneira nenhuma, no entanto, retira a importância de se manifestar veementemente contra os corruptos. Para que haja o estabelecimento de cultura democrática no Brasil, arranjo bem mais complexo e rico do que se tem aqui, é necessário que o brasileiro comece a pensar e sentir a liberdade como fator mais valioso em sua experiência de cidadão. Só então, passará também a admitir que Estado centralizador e assistencialismo não são os responsáveis pelo desenvolvimento de uma nação, bem como poderá se dar conta de que a liberdade e a democracia exigem o cumprimento de deveres - não só o exercer de direitos - que são, por definição, elementos construtivos da verdadeira liberdade. Caso isso venha a acontecer algum dia, poderá ser percebido nos espíritos das pessoas, em seus costumes e nas leis da sociedade, não só nas expressões residuais de redes como o Facebook. Nesse caso, que até pode ser visto como idealizado, temo que certas paixões ideológicas, tais como demonstradas por Janine, ainda assim fariam dele um insatisfeito.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Comunistas criminosos


Os falsos estudantes, criminosos, rebeldes sem causa, baderneiros, comunistas e buchas de canhão do tráfico que ocuparam a reitoria da USP foram obrigados a deixar seu acampamento depois da ação, corretíssima, diga-se de passagem, da Polícia Militar, que fez cumprir uma determinação judicial desobedecida por essa minoria autoritária. Foram indiciados por descumprimento da ordem e danos ao patrimônio público. Que sejam agora devidamente punidos, inclusive, o que seria absolutamente justo, com o jubilamento da universidade.
As pessoas que praticaram esses atos são débeis mentais que se aproveitaram do pretexto da detenção de três dos seus, por PM´s, quando fumavam maconha nas dependências da USP, uma universidade pública (público significa algo que é de todos, de uso comum, não um lugar onde não há lei e no qual cada um faz o que bem entender) para organizar uma rebelião cujas reivindicações, além de serem completamente estapafúrdias, se confundem numa miríade de clichês pueris, sem nenhuma pertinência.
Segundo essa gentalha, a presença da PM no campus não condiz com um espaço destinado à educação nem garante a segurança da comunidade universitária. A argumentação não poderia ser mais inconsistente, mais do que isso, não poderia ser mais contraditória, um exemplo cabal da má fé e da cara de pau que toma conta da mente de comunistas extemporâneos. Pode-se questionar a ideia de que policiais não combinam com um espaço cuja função é o estudo a partir de quatro pontos: 1) PM´s não impedem nenhum estudante de estudar, nem de pensar livremente, um privilégio exclusivo de quem é cidadão de regimes livres, algo que vai na contramão do ideário político dos comunistas; 2) a presença da PM no campus em nada interfere na rotina de quem vai à universidade para realmente estudar, ao contrário do uso de maconha em local público, o que aí sim invade o espaço das outras pessoas; 3) como falsos estudantes, os baderneiros não frequentam a universidade com o objetivo de estudar, longe disso, praticamente não são vistos em sala de aula, passando quase todo o tempo na vadiagem, na trama de ideias revolucionárias e na pintura de cartazes de papel pardo com gritaria marxistóide; 4) no oposto do que prega o esquerdismo radical e sua cria pós-moderna, o relativismo, a PM é essencialmente uma instituição que existe para proteger o cidadão de bem, (estados de exceção e desvios de conduta de policiais não são a regra) portanto, é evidente que criminosos que andam de rosto coberto se posicionem contra a presença da PM, não só na USP, mas em qualquer outro local.
A questão das drogas e do policiamento serviu somente como fachada para a verdadeira intenção dessa minoria que, estando ligada a certos partidos políticos da esquerda revolucionária, tenta de dentro da universidade, contando com o apoio de alguns professores, também eles relacionados a esses partidos, alterar o sistema vigente na sociedade, que eles pensam ser o capitalismo pronto e acabado a serviço da elite (qual elite, cara pálida?!). Por mais ridículo e absurdo que possa ser, é exatamente isso. Não é nem preciso frisar que esse pessoal está se lixando para a criminalidade no interior da cidade universitária ou para a morte de estudantes que eles consideram como “burgueses alienados”. São eles que representam o crime no campus da USP, logo, são inimigos de quem atua combatendo o crime. Quando argumentam que o “poder estabelecido a favor do grande capital criminaliza os movimentos sociais” não estão agindo nada diferentemente do que preconizam os manuais da esquerda terrorista, de Netchaiev a Lamarca, passando por Lenin e Gramsci. É o pior marxismo possível, se é que se pode piorar aquilo que já é horrível. É a lógica da manipulação da verdade, da autovitimização, do nivelamento por baixo, o que se traduz no lobo em pele de cordeiro, na tática da subversão dos cupins, lenta e silenciosa, mas que aparece de surpresa em estágio avançado. Já passou faz tempo da hora das pessoas em geral admitirem que o emblema da foice e do martelo conota crimes tão perversos e execráveis quanto a suástica e, desse modo, de colocá-lo no mesmo estatuto de proibição.
Não adianta, como declarou o governador Geraldo Alckmin, dizer que essa gentalha precisa de uma “aula de democracia”. Eles não reconhecem a democracia, que no Brasil é só uma quimera, senão como um “falseamento da sociedade burguesa”. Nunca defenderão sistema democrático algum, já que comunistas são autoritários e totalitários, não democratas. Comunistas não sabem o que é teoria política, não enxergam a dimensão política à parte daquilo que assumem como sendo a superestrutura, subordinada à base material e econômica e, assim sendo, como alguma coisa secundária e sem maior importância. Não há política entendida como debate de ideias no regime que defendem e seus atos agressivos, violentos e arbitrários assim o provam. Não há lei para essas pessoas, senão a “lei histórica” que condena os “elementos contrarrevolucionários” à eliminação. Para eles, a história é a “parteira da revolução”, uma história já determinada a priori, bastando apenas que a ação revolucionária a coloque em movimento. “Toda história é a história das lutas de classe”, segundo as primeiras frases do Manifesto Comunista, um dos escritos mais fraudulentos que a estupidez humana já produziu.
Esses revolucionários extemporâneos só podem ser tratados como criminosos e qualquer coisa que não seja isso, é apenas eufemismo que os fortalece e joga contra as pessoas de bem e com as ideias de liberdade, de humanismo, de democracia e de respeito ao indivíduo e à sociedade. Não seria, a princípio, um horizonte difícil de vislumbrar, contudo, ele só será alcançado no dia em que as aberrações de cunho marxista forem completamente esquecidas, projeção bem mais difícil de se concretizar.