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sábado, 11 de fevereiro de 2012

A escolha moral que envolve a alimentação


Os sistemas socioeconômicos, em última análise, são abstrações, conceituação importante, mas esquecida pela maioria dos indivíduos. Isso porque quem determina os moldes concretos e os caminhos que a sociedade toma - e hoje seria corretíssimo pensar em termos de humanidade - são as pessoas, por meio de sua imaginação e das escolhas morais. É altamente necessário, de acordo com todos os grandes filósofos, ter uma diretriz capaz de reger a existência pessoal.
Talvez nada seja tão fácil de encontrar hoje em dia como aqueles que são antiamericanos e se põem contra o capitalismo. Muitos desses, ao mesmo tempo, são adeptos do Big Mac e consomem frequentemente montanhas de carne, mais ou menos o equivalente a 260 animais inteiros no período de um ano. A meu ver, o domínio das grandes corporações e os subsídios que tomaram o lugar da competitividade e do empreendedorismo, situação observável em países como EUA, China, Rússia ou Brasil, estão muito mais relacionados com o socialismo do que com o velho capitalismo puritano estudado por Max Weber. A nomenclatura mais comum para designar essa atual configuração econômica tem sido “capitalismo de estado”, porém, pouco importa a atribuição do nome. Hoje não vou escrever diretamente a respeito de economia política, meu objetivo é propor uma reflexão sobre as implicações que as escolhas pessoais têm com relação a uma extensa série de fatores que, em maior ou menor grau, interferem nos caminhos citados no primeiro parágrafo.
Hoje em dia nos EUA, 99% da carne consumida, considerando aves, porcos, bois e até peixes, provêm de criações industriais. Para quem ainda não sabe, esse tipo de criação, envolve o pior trato possível dos animais, submetidos a confinamento (não é confinamento num cercado, mas sim em espaços exíguos, similares a uma folha de papel A4 no caso das aves, ou a um cubículo de 1,5m X 1,5m para porcos; bois têm espaço um pouco maior, todavia, proporcionalmente também irrisório), regimes artificiais de engorda, antibióticos dados como alimento e técnicas de abate que pressupõem, muitas vezes, escaldamento vivo, para ficar em apenas um único exemplo. Fora dos EUA, por aproximação, é possível estimar com pouca margem de erro que algo em torno de 80% da carne consumida seja fruto de criações industriais. Isso tudo sem mencionar os danos ambientais (pense por instantes para aonde vão os excrementos dessa imensa quantidade de animais criados industrialmente) e os prejuízos econômicos de médio e longo prazo gerados pela pecuária industrial. A produção de alimentos a custos baixos, que muitas vezes serve de argumento para justificar tal tipo de prática é uma falácia, basta imaginar os milhões de hectares utilizados para plantio de soja e milho destinados não ao consumo humano, - que requereria uma área de 12 a 30 vezes menor - mas para o fabrico de ração animal. Além da questão do espaço, produzir 1 quilo de carne custa mais caro do que produzir 1 quilo da imensa maioria dos outros alimentos, até porque os animais precisam eles próprios de comida. Daí conclui-se que a pecuária industrial, apesar do lucro imediato que gera para os donos de corporações do setor, está na direção contrária à produção de alimentos mais baratos e da suplantação da fome. Num futuro não muito distante é um problema que afetará aos próprios pecuaristas. 
Não para por aí, podendo colocar-se outros aspectos: a China tem hoje aproximadamente 1,3 bilhões de habitantes e o consumo de carne no país aumentou acentuadamente nas últimas duas décadas e meia, já na África Subsaariana e nos países mais pobres da Ásia e da América Latina, 9 a cada 10 habitantes raramente consomem carne, ao passo que mais de 80% do solo agricultável dessas nações é tomado por culturas de grãos para exportação. Vale lembrar que no Brasil, um dos grandes celeiros agrícolas mundiais, menos de 5% da soja plantada se destina ao consumo humano. Como se vê, a lógica da pecuária industrial é indubitavelmente insustentável e, se nada mudar em breve, ela levará a um definitivo colapso socioeconômico planetário.
Há aqueles que ainda não raciocinaram de maneira suficientemente capaz de responder negativamente à pergunta crucial: "eu preciso realmente comer carne"? Se o paladar, que é a última fronteira do consumo de cadáveres, não pode se dobrar a implicações que vão da economia, passam pela ecologia e chegam até a moral e a ética, então é certo admitir, no mínimo, que o erro de consumir carne é um erro deliberado (muito já escrevi aqui abordando o combate que todo ser humano deve obrigatoriamente travar com a realidade se quiser alcançar a verdadeira liberdade). Nesse caso, quem foge à realidade são exatamente todos aqueles que não conseguem prescindir da carne.
A “carne orgânica” não é a resposta certa para o dilema moral aqui exposto. Na prática, ela é algo que não existe ou não pode existir permanentemente. As criações tradicionais compõem hoje em dia não mais do que cerca de 10% da produção pecuária mundial, quadro que se encontra assim justamente em virtude da demanda por carne, ou seja, é o consumo de carne como hábito alimentar cada vez mais difundido que levou ao predomínio das criações industriais. É possível optar por reduzir o consumo de carne, o que abriria novamente espaço para a pecuária tradicional, mas duvido que as corporações se manteriam produzindo menos e tendo mais despesas. Com o poder que possuem, arrumariam um jeito de virar o jogo novamente. Além disso, a pecuária tradicional não pode abolir a matança, o que faz voltar a pergunta crucial. Poderia-se vislumbrar um aumento das criações tradicionais sem que as industriais deixassem de existir, mas então teríamos outros questionamentos: os rótulos indicariam a procedência da carne?; e os matadouros? A esse segundo já é possível responder: praticamente só existem matadouros de larga escala, tanto para animais provindos de criações industriais, como de criações “orgânicas”, os mesmos que operam com base na morte em larga escala, cujos sistemas de abate mutilam seres vivos conscientes e os escaldam ainda vivos. A pergunta crucial sempre volta: você precisa realmente comer carne? Carne, no mínimo (e coloco esse "no mínimo" por ter que levar em conta os argumentos econômicos), implica em matança, constatação mais importante em termos éticos.
O caminho que o cadáver que se encontra em seu prato fez até que ali tenha chegado, quando ele aparentemente não é mais do que um pedaço de alimento, já está mais do que claro, juntamente com todas as atrocidades que envolve. Ninguém mais pode ficar indiferente à relação de extrema violência inerente ao hábito de comer carne, muito pior do que qualquer guerra da história humana. Fingir não saber não livra os animais do sofrimento intenso pelo qual passam até se transformarem em pedaços de cadáver dos quais você se alimenta. Escolher o que comer e o que não comer é uma escolha moral, que depende de uma imaginação moral, dilema que só pode ser individual e interior e que, obviamente, tem suas consequências. Não há como se furtar a essa escolha e, quando alguém pensa, consciente ou inconscientemente em não ter que refletir e fazer escolhas a respeito de sua alimentação, é porque não pode suportar o combate do eu interior com a realidade e, em consequência, não pode ser livre.

*PS: O que redigi aqui é, evidentemente, apenas uma pincelada sobre o assunto. Obras como O que há de errado em comer animais, de Didi Ananda Mitra ou o clássico Comer animais, de Jonathan Safran Foer devem ser lidas. Tomei ambas, e as pesquisas extensas que apresentam, além do site da Sociedade Vegetariana Brasileira (cujo link se encontra no lado esquerdo do blog),como base para os dados estatísticos que constam do artigo.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Defensores do indefensável


Todo comunista é um adorador de ditaduras de esquerda, fato que não é segredo, exceto talvez para eles próprios, que se fingem de cordeirinhos, ao menos quando se comunicam com seu público em atos que denotam profunda desonestidade intelectual. O sr. Lúcio de Castro, da ESPN Brasil, é um dos que fazem parte dessa turba, alguém que promove contorcionismos tragicômicos para defender Che Guevara e o regime cubano. Nesta semana ele postou em seu blog no site da emissora um texto confuso e mal escrito, como sempre, na tentativa de desmascarar a dissidente Yoani Sánchez. Ao próprio texto, segue-se uma entrevista dada por Sánchez ao jornalista francês Salim Lamrani, cuja grafia correta do nome nem mesmo foi checada por Lúcio, que escreve “Lanrani”.
De acordo com Lúcio, as críticas de Sánchez à ditadura castrista e à violação dos direitos humanos na ilha são feitas com base nos interesses de Washington, tese que ele pretende corroborar lançando mão da “entrevista” citada. Coloco entre aspas porque as perguntas (muitas vezes não chegam a ser perguntas, mas sim afirmações peremptórias) de Lamrani dirigidas à Sanchez mais se parecem com indagações de um inquisidor, que lhe permitem concluir o que deseja de antemão. Algo do tipo não pode ser qualificado de entrevista, apreciação que, como historiador, Lúcio não poderia omitir, (ou então ele jamais ouviu falar a respeito do clássico ensaio de Carlo Ginzburg: O inquisidor como antropólogo) além do que, existem dúvidas quanto à autenticidade das respostas dadas por Sánchez, isto é, existe a hipótese de que Lamrani as tenha editado, o que ainda precisa ser devidamente esclarecido.
Amparando-se na duvidosa “entrevista” de Lamrani, Lúcio vai ao cúmulo do absurdo na defesa de Cuba, apontando as surradas estatísticas sobre educação e saúde no país. Eu perguntaria a ele e aos defensores da ditadura cubana qual é a função da educação em um regime autoritário; serve para que os estudantes se tornem críticos e conscientes? Se os jovens cubanos passam bastante tempo dentro das escolas, este é um índice negativo, já que eles estão sob doutrinação por mais tempo! Quanto às estatísticas relativas à saúde, no mínimo cabe manter um pé atrás em relação aos dados fornecidos pela ditadura, (por que Fidel Castro se tratou com médicos espanhois?) sem deixar de salientar as suspeitas de que Cuba possa apresentar o maior índice de abortos do mundo, o que reduziria artificialmente a mortalidade infantil, uma vez que os abortos não são computados. Todas as comparações entre os indicadores cubanos que têm por objetivo limpar a barra do país são claramente obtusos: compara-se Cuba com outras ditaduras e republiquetas da América Latina, (inclusive o Brasil, cujo governo do PT é defendido pela maioria dos adoradores de Cuba, uma contradição se se deseja afirmar que a ilha tem índices melhores do que os daqui) muitas delas governadas, pasmem, por regimes de esquerda, o que nem assim autoriza uma interpretação positiva dos indicadores! A comparação com nações desenvolvidas não é normalmente realizada, uma vez que revelaria o desastre da ilha de modo ainda mais gritante, mesmo com a Europa mergulhada em crise. Fica outra pergunta bem simples acaso haja insistência em ver os risíveis índices cubanos com bons olhos: é preciso que uma nação possua um regime dos mais autoritários, que dura mais de cinquenta anos, com direito a perseguições políticas, prisões arbitrárias, tortura e paredón para que alcance status em indicadores sociais? É claro que não, nem se fossem índices bons! A comparação isenta é aquela que for feita entre Cuba e países livres e de alto IDH, coisa que passa longe de quem acredita que o castrismo é benéfico para os cubanos.
É muito curiosa a afirmação de Lúcio, apoiada na “entrevista” de Lamrani, ousando passar a ideia de que a ditadura cubana não desrespeita direitos humanos mais do que outros países ditos democráticos. Quem pode acreditar numa baboseira destas? Quem pode acreditar que a Anistia Internacional possua dados seguros fornecidos pelo regime castrista a respeito disso? Quem pode acreditar que a Anistia Internacional tenha livre trânsito em território cubano? É como supor que pessoas minimamente inteligentes não saibam como funcionam as distorções da verdade em uma ditadura. Gente que defende ditaduras precisa entender que não existe nenhum lugar do mundo no qual as garantias de não-violação dos direitos humanos sejam de 100%, contudo, é necessário analisar se casos de violação são investigados, julgados e sentenciados, processo que obviamente não ocorre em um país como Cuba, já que o próprio governo ditatorial é o agente das violações.
De acordo com Lúcio, tudo que se conhece a respeito do regime castrista é invenção dos EUA e da “mídia ocidental”. É de se pensar, sendo assim, que deveríamos crer na “mídia oriental” da Coreia do Norte, da China, do Irã ou da Síria. Ou então, quem sabe, (?) na “mídia ocidental isenta” representada por Caros Amigos, Carta Capital, Hora do Povo e, logicamente no próprio sr. Lúcio de Castro, fazendo força para esquecer que ele atua na ESPN Brasil... Estranha Revolução Cubana, enaltecida em seus sujeitos vistos como heróis pelos amantes da ditadura, mas tão vulnerável às armações e sabotagens do inimigo imperial... Ao invés das parcas teorias conspiratórias que somente enxergam os sujeitos históricos quando é conveniente, não seria o caso dos defensores do indefensável finalmente admitirem que o desastre de Cuba é o resultado inexorável da falência a que o comunismo conduz? Significativo, de igual modo, e indo contra todas as ideias castristas, não apenas as dos irmãos ditadores, mas igualmente do sr. Lúcio... de CASTRO, é o trecho que pode ser lido no site da Anistia Internacional: “as autoridades cubanas continuam a restringir severamente a liberdade de expressão, associação, reunião de dissidentes políticos, jornalistas e ativistas de direitos humanos; dissidentes, jornalistas e ativistas de direitos humanos estão sujeitos a prisão domiciliar arbitrária e outras restrições que têm o objetivo de impedi-los de exercer atividades legítimas e pacíficas; além disso, o governo cubano está negando a autorização de saída como uma medida punitiva contra os críticos e dissidentes do governo". Num dos comentários no blog de Lúcio enviado por um ativista da Anistia Internacional, lê-se também: “o articulista [Lúcio de Castro] menciona nossa organização, Anistia Internacional, cuja posição sobre Cuba tem sido às vezes mal entendida; nós sempre reconhecemos que as violações aos DH na ilha foram, pelo menos em parte, deflagradas pelo estado de permanente tensão que se vive no território, submetido a uma bloqueio como não sofreu nenhum outro país na história, e alvo de milhares de atentados terroristas; também acreditamos que a maioria dos países da América Latina, salvo Costa Rica e alguns outros, violam os direitos humanos numa proporção maior à de Cuba; entretanto, não pensamos que este critério comparativo possa se usar para caracterizar as violações existentes em Cuba como simples invenções dos inimigos, aliás, qualquer violação aos DH deve ser criticada, inclusive em países ultrademocráticos; no caso de Yoani Sánchez, pessoalmente não digo que esteja bem intencionada, nem que atua por espírito libertário, simplesmente, creio que qualquer pessoa tem direito de expressão”.
O bloqueio que os EUA promove sobre Cuba é outro argumento do sr. Lúcio de Castro na tentativa de justificar as mazelas da ilha. Sou contra o bloqueio, pois ele tem servido apenas para dar munição ao castrismo e fazer sofrer não os mandatários da ditadura, protegidos pelo aparato repressivo estatal e no frescor de seus gabinetes acarpetados, mas a população miserável nas ruas de Cuba. Por outro lado, se do alto da soberba comunista a ilha “rompeu” com o lixo capitalista norteamericano, por que precisaria dele para se dar bem? O sr. Lúcio de Castro deveria se lamentar pelo fim da URSS, país que sustentava a ditadura castrista até o momento em que caiu na vala do atraso e se extinguiu, destino inerente ao comunismo.
Depois de todo o exposto acima que, confesso, é coisa sabida por qualquer um dotado de discernimento, ao contrário do sr. Lúcio de Castro, capaz de admitir que é preciso se “despir dos preconceitos” ao mesmo tempo que vocifera contra tudo aquilo que está fora do seu estreito pensamento ideológico, é engraçado que não tenha havido ninguém para alertá-lo sobre o fato já manjado de que Sánchez seja alvo de suspeita por críticos da ditadura cubana, o que faria dela não um agente de Washignton, mas uma opositora chapa branca de Havana, hipótese que pouparia nosso jornalista da ESPN Brasil de seus contorcionismos típicos. O passado de Sánchez é pouco conhecido, ela vive bem para padrões cubanos e critica Cuba mesmo estando lá, coisas de se estranhar quando se considera um regime que mantém tamanha quantidade de presos políticos. Convenhamos, apesar de pop e, talvez por isso mesmo, ela não é a melhor autoridade para escancarar os males da ditadura cubana, tampouco o sr. Lamrani é alguém com créditos suficientes para defender o castrismo. Lúcio já deve ter houvido falar em intelectuais como Enrique Krauze, Mario Vargas Llosa e Guillermo Cabrera Infante ou dissidentes como José Daniel Ferrer, Elizardo Sánchez, Guillermo Fariña Hernandez e Orlando Zapata Tamayo. O que teria ele a dizer, então, sobre José Saramago, comunista histórico que antes de morrer teve a hombridade de repudiar o regime castrista? Esse sim é um time que tem conhecimento de causa, como coloca o sr. Lúcio, para nos legar retratos fiéis a respeito de Cuba.
Nessa história toda, o que está em jogo acima de tudo é o respeito à liberdade e à dignidade das pessoas. As preferências ideológicas dificilmente escapam aos preconceitos que precisam ser eliminados, segundo o próprio sr. Lúcio de Castro, daí ser inconcebível sair em defesa de uma ditadura, seja ela a cubana ou qualquer outra, seja de esquerda ou de direita. Todas são condenáveis. Atualmente, fica bastante claro que nove entre dez comunistas jamais leram Marx de modo que vá pouco além do superficial. Defendem o comunismo, mas se aferram ao aparato estatal, defendem, ao mesmo tempo, a liberação sexual e o moralismo religioso islâmico extremista, são a favor de minorias, mas também de ditaduras que as sufocam. Não perceberam até hoje que podem se posicionar politicamente sem cair em contradições ideológicas absurdas, fruto da religião laicizada que é o marxismo. Lúcio de Castro trabalha na ESPN Brasil e é pago por ela, um veículo da “mídia ocidental” que ele execra e julga ser mentirosa. Seus meios de ação, portanto, são financiados por quem ele ataca, por uma emissora que, para citar apenas dois exemplos, possui direitos de transmissão da NBA e da NFL, cujos anunciantes são empresas capitalistas. Para ser menos incoerente na defesa do indefensável, se é que isso seja possível, ele deveria ir viver na Havana que adora e pleitear um cargo no repressivo governo castrista. Que tal, sr. Lúcio?

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

São Paulo aniversariou. Comemorar o que?!


A cidade de São Paulo comemorou 458 anos de fundação na semana passada. Realizaram-se as festividades costumeiras e, nas redes sociais, que têm intermediado uma quantidade assombrosa de relações entre as pessoas, foi comum observar internautas parabenizando a metrópole e postando uma foto com os dizeres “São Paulo é tão agradável que até o inverno resolveu tirar férias por aqui”, fazendo menção às temperaturas amenas deste verão até o momento. Será que há sentido em oferecer cumprimento de aniversário a uma cidade? O ato se torna ainda mais despropositado na medida em que é feito em meio virtual. Não seria exatamente porque a São Paulo dos dias de hoje quase não proporciona harmonização com seus habitantes? Como deixar de suspeitar que tais manifestações ocorrem somente como retrato claro de alienação, impertinência ou mero modismo virtual descoladinho?
O paulistano atento e dotado de senso crítico, aquele que faz questão de possuir cidadania e que sente por ter de viver em uma cidade de ares distantes, pouco aprazível e sufocante como São Paulo, não encontra motivos para homenageá-la. Trânsito caótico, transporte público deficiente, faixas ciclísticas enxertadas artificialmente que prejudicam a circulação até aos domingos, sujeira nas ruas, mato crescido nas praças e canteiros de ruas e avenidas, escassez de áreas verdes, enchentes, filas intermináveis, flanelinhas e um centro histórico abandonado e degradado perfazem as características mais visíveis da pauliceia desvairada.
A questão que envolve o centro é crucial para entender os descaminhos tomados por São Paulo nos últimos 60 anos, visto que uma cidade cujo centro histórico se tornou repulsivo ao cidadão só pode ser uma cidade sem alma. Os cafés de rua, os monumentos públicos e as tantas atrações culturais, bem como os passeios ajardinados, elementos ainda fortemente presentes em todas as grandes cidades europeias e até em algumas da América do Norte e da Oceania, são essenciais para que ocorra harmonização entre o habitante e o local onde ele vive, elementos que convidam o cidadão a frequentar uma cidade, a ser parte dela como sujeito que compõe a paisagem urbana e como predicado que usufrui dos benefícios que ela oferece. A tradição do flaneur, cara a autores como Flaubert, Baudelaire e Proust fica totalmente impossibilitada de ser posta em prática em uma cidade como a São Paulo de hoje, na qual o centro histórico foi paulatinamente esquecido.
Quando São Paulo começou a crescer de maneira mais intensa, por volta de 1960, as autoridades não se preocuparam em estabelecer qualquer planejamento urbano, falha grave que a situação atual do centro histórico faz ser bem visível. Não houve lei de zoneamento que exigisse manutenção de fachadas, que proibisse construções fora de padrão arquitetônico, abertura de certos tipos de comércio e ocupação irregular, tampouco foram colocadas regras para a circulação de veículos e manutenção paisagística. Vez por outra, ao longo de todo esse tempo, foram tentadas algumas medidas de revitalização, porém, sem elaboração, sem método, sem serem acompanhadas de legislação e sem continuidade. Hoje, a gestão de Gilberto Kassab, um prefeito que parece nunca ter ouvido falar em políticas públicas de urbanização, apenas faz acentuar o completo desinteresse pelo centro histórico. Se temos edificações históricas em razoável estado de conservação, como o Pátio do Colégio, o Palácio de Justiça, a Catedral da Sé e o Martinelli, o entorno desses locais sofre com o descaso, bastando passar pela Praça da República, pelo Viaduto do Chá ou pelo Largo do Arouche para notar o abandono. O governo Alckmin, trapalhão e ainda mais impopular do que sempre fora, promoveu a desocupação da chamada Cracolândia, mas de forma atropelada, sem direcionamento, resultado de uma ação atrasada que deveria ter sido levada a cabo há uma década, pelo mesmo partido do atual governador, que comanda o estado desde 1995. Como consequência de terem deixado o problema se agigantar, outras cracolândias estão surgindo em pontos diversos da cidade após o desmantelamento da original.
Alguém poderia lembrar que apesar de tamanhos problemas São Paulo possui um bom roteiro cultural e sobretudo gastronômico. De certo modo, não é uma ideia errada, mas também nesse aspecto as dificuldades de deslocamento e os transtornos com estacionamento acabam por prejudicar o pouco que a cidade tem a oferecer. Diante disso, não há o que comemorar no aniversário da maior metrópole do país, sendo que as manifestações efusivas por parte de muitos habitantes não podem ser pensadas como outra coisa senão sinal de masoquismo, desatenção, apego telúrico, pieguice sentimentalóide ou modismo.

PS: Quem é que está ligando para cultura, flaneurismo ou centro histórico, não é mesmo? O carnaval vem aí e tudo é festa... Teremos até mesmo o "pré-carnaval" da Vila Madalena, prato cheio para bêbados, mijões e bocas de esgoto. Comemore, cidadão!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Mais estatolatria, mais impostos, menos desenvolvimento


Acaba de ser divulgado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT) o estudo abordando a relação entre impostos pagos e retorno ao cidadão. Em uma lista de trinta países, envolvendo desenvolvidos e emergentes, o Brasil ficou em último lugar pelo segundo ano consecutivo, atrás de vizinhos como Uruguai e Argentina. É a velha história que faz o país permanecer preso ao atoleiro: carga tributária pesadíssima, que cresce a cada ano, e serviços públicos de péssima qualidade. Uma contradição impensável para uma nação que deseja alcançar metas de desenvolvimento minimamente palpáveis.
Segundo os dados do IBPT, os impostos, taxas e contribuições cobrados no Brasil representam 35,13% do Produto Interno Bruto (PIB). Já o índice de retorno, calculado a partir de um cruzamento entre o PIB e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da Organização das Nações Unidas (ONU), é o mais baixo, 135,83. A Austrália, que aparece em primeiro no ranking, cobra 25,9% em carga tributária, mas tem índice de retorno de 164,18. Há países onde o peso do imposto é maior, como a Noruega (42,8% do PIB), Reino Unido (36%) e Alemanha (36,7%), mas que dão maior retorno ao cidadão. “O Brasil, com arrecadação altíssima e péssimo retorno desses valores à população em serviços como segurança, educação e saúde, fica atrás, inclusive, de países da América do Sul, como Uruguai, na 13ª posição e Argentina, na 16ª colocação”, afirma o presidente executivo do IBPT, João Eloi Olenike. Cabe ainda salientar que o contribuinte brasileiro não sabe o quanto paga em impostos quando adquire um produto, ao contrário de outros países, nos quais a alíquota do imposto é discriminada separadamente na nota fiscal. É curioso que aqui muita gente nem mesmo peça a nota fiscal, ademais, a prática da transparência é um antípoda dos governos autoritários, como o nosso.
Os ingênuos, que ficaram extasiados com o fato do Brasil ter se tornado a sexta economia do mundo, são facilmente cooptados pela propaganda governamental que lhes impede de enxergar o óbvio, ou seja, o PIB não indica absolutamente nada sobre o desenvolvimento humano de um país, o que fica uma vez mais provado no caso brasileiro pelo estudo do IBPT. Estatólatras contumazes, os adesistas do governo, bem representados por figuras como as dos senhores Paulo Moreira Leite e Marcio Pochmann, incapazes de estabelecer a diferença entre meritocracia e darwinismo social, se deleitam com a farra da gastança pública que impera no país. Travestido eufemisticamente de “transferência de renda”, o assistencialismo populista instalado na esfera federal pelo petismo é uma política que vai claramente na contramão do desenvolvimento, de vez que seus efeitos mais evidentes são a obstaculização do setor produtivo, do empreendedorismo e a diminuição da renda líquida do contribuinte. Ainda que o assistencialismo ofereça um socorro imediato para os mais pobres, não promove desenvolvimento humano a longo prazo, pois não consiste num programa gerador de igualdade de oportunidades. Eis aqui outra diferença de fundamental importância que os dirigentes políticos do país, a maior parte deles ainda a rezar pela cartilha do marxismo, não sabem identificar, a saber, aquela que existe entre igualdade de oportunidades e de resultados. As nações desenvolvidas reconheceram há pelo menos meio século que é a igualdade de oportunidades, pautada sobretudo em investimento na educação de qualidade, que gera desenvolvimento. Enquanto isso, no Brasil, impregnado pelo estatismo petista, perdura a crença retrógrada de que é o Estado o responsável único por desenvolver uma nação.
O governo brasileiro, cada vez mais assolado pela corrupção e por grupos de interesse, gasta muito mal as cifras substanciais que o contribuinte lhe paga. Quem mais sofre é a classe média, que mais produz e cujos salários se tornam quase sempre defasados em função da tributação tão pesada. Quando necessita de um serviço público, o mesmo é praticamente uma quimera, daí ter que se recorrer à educação e saúde privadas, serviços, estes sim, pelos quais o governo deveria primar.
Enquanto a lógica assistencialista e o financiamento dos grupos de interesse ligados ao governo, atualmente representados principalmente por grandes empreiteiros, ávidos pelo repasto proporcionado por Copa do Mundo e Olimpíadas, não for rompido, o Brasil continuará padecendo da contradição que emperra qualquer possibilidade de desenvolvimento. A mudança de tal quadro lastimável passa fundamentalmente pela reforma tributária, mas antes dessa solução pontual, a mentalidade estatólatra do brasileiro requer uma guinada em direção ao liberalismo, do contrário, com a manutenção da atual classe política anti-liberal, nenhum de seus representantes estará disposto a abrir mão do butim obtido às expensas da classe média.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A construção da liberdade


O argumento do livre-arbítrio é sempre um dos mais utilizados quando se quer defender a existência divina. De acordo com essa ideia, o ser humano é livre para decidir entre o bem e o mal, o certo e o errado, juízos que dependem da presença ou da ausência de fé. Assim, o que determina que as escolhas sejam corretas é o simples endosso de Deus, isto é, a crença na entidade divina encaminha para o bem, o seu contrário, a descrença, implica em decisões equivocadas. É uma noção extremamente pobre de liberdade, pois admite que as escolhas sejam puras, independentes de qualquer fator baseado na existência concreta das pessoas, como se a metafísica que envolve as questões de fé pudesse varrer por completo todos os condicionamentos que se impõem sobre nós e que tornam as escolhas bem mais complexas do que leva a pensar o tema do livre arbítrio. Nesse argumento não há espaço para entender a liberdade como um processo interior de construção, pois ser livre não vai além da dualidade ter ou não ter fé, algo que vem antes da interioridade e dela não se diferencia.
Dentre tantas indagações relacionadas com esta discussão, seria pertinente, por exemplo, perguntar porque Hitler conseguiu chegar ao poder na Alemanha. Certamente, a opção pelo totalitarismo nazista obedeceu a uma série de fatores coligados com a experiêcia coletiva e individual dos alemães que em nada pode ser reduzida a decisões advindas da crença em Deus, ou então, estaríamos forçados a concluir que uma boa parte da sociedade alemã se desviou dos caminhos da fé e, devido a isso, fez a escolha errada. Não seria mais prudente que Deus não nos permitisse a hipótese de negar a fé, impossibilitando escolhas de consequências trágicas?
Nietzsche proclamou a morte de Deus e foi tocado por uma certa percepção ao constatar que as escolhas não dependem de uma moral estabelecida teologicamente, mas sim da vontade humana. O ato volitivo, concreto e permeado de condicionamentos tanto de longo prazo, tais quais a bagagem genética, a história de vida, o contexto sociocultural e as próprias ideias, inclusive religiosas, como também os de médio e curto prazo, aqueles emanados do discurso, da propaganda e da influência da persuasão, elementos que podem contribuir acentuadamente com a mudança dos nossos próprios pontos de vista, é crucial na determinação das escolhas humanas. Ao observar que essas mesmas escolhas dependem de fatores advindos da existência e da experiência, Nietzsche no entanto, não prosseguiu em suas especulações e foi incapaz de apontar aquilo que origina e direciona a volição para um ou outro caminho. Ao eleger a vontade como princípio norteador e dar a ela poder absoluto, o filósofo de Röcken promoveu a eliminação não apenas da moral religiosa, mas da própria moral filosófica como propiciadora de conhecimento do eu interior. Estava cortado o nó górdio de um estilo de pensamento destrutivo, que aprisiona o indivíduo aos desejos impulsivos, sem fornecer antídoto ao conflito permanente com a realidade, que inevitavelmente é o fruto colhido por quem não se impõe mecanismos internos de controle. Trata-se, não por mero acaso, de um problema que atormenta enorme contingente de pessoas na pós-modernidade. Da mesma maneira que descartar a vida e a experiência, característica inerente ao argumento do livre arbítrio, não faz restar lugar para o conhecimento, proclamar a vontade como se ela não demandasse antes um tête à tête do homem com o mundo que o cerca, acarreta em irresponsabilidade face às escolhas, muitas vezes impossibilitadas de serem entendidas como escolhas.
O que a moral cristã enuncia adotando um conceito metafísico de liberdade, externo ao eu, somente oferecido ao indivíduo como graça divina, sem portanto conferir autonomia cognitiva, e que Nietzsche desmistifica sem o substituir por uma ideia capaz de lidar responsavelmente com a experiência e com a realidade, é exatamente o que o humanismo consegue propor de forma concreta e plenamente realizável. Se é certo que nossas escolhas são determinadas pela vontade, é preciso descobrir porque essa vontade age de modos diferentes e leva também a consequências múltiplas. Em última istância, ela é regida pela imaginação, cujo âmbito envolve percepção, discriminação e concepção, os três processos fundamentais da imaginação racional, sóbria e compenetrada, único entendimento que permite ao indivíduo conhecer sua interioridade e estar capacitado a construir a liberdade, que não pode ser outra coisa senão o autocontrole, o frein vital. Ser livre é conceber nosso lugar no universo, reconhecer nossos defeitos e limitações, exercer nossos direitos e deveres respeitando as criaturas que compartilham conosco a vida neste cosmos. É ainda renunciar aos desejos expansivos e destrutivos, tarefa só alcancável se estivermos sempre dispostos a buscar o conhecimento de nossa interioridade, conhecimento este que é também o princípio da felicidade, uma vez que é aquele que nos faz testemunhar nossos próprios atos, sem aferição externa e, portanto, base da ética. Não existe liberdade antes do conhecimento, tampouco volição que deva permanecer isenta do dever de autocontrole.
O  grande crítico e historiador Aby Warburg afirmou que Deus está no particular, ideia que posso aceitar perfeitamente se com isso se fizer entender que o ser humano possui uma interioridade na qual indícios podem e devem ser buscados por meio do conhecimento, até que se atinja uma imaginação completa e o exercício do autocontrole. É possível que essa capacidade tenha nos sido dada como graça divina, mas a partir daí, não cabe esperar que Deus seja sujeito do conhecimento e da liberdade que cabe a nós construir e realizar nessa vida e nesse universo. Para finalizar, nada mais cabível do que a máxima de André Comte-Sponville, segundo a qual ninguém nasce livre, torna-se livre.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Santo uma ova


Nelson Rodrigues costumava dizer que toda unanimidade é burra, ideia com a qual não concordo incondicionalmente, mas que se encaixa bem em diversas situações. Ao contrário do que possa parecer, o goleiro Marcos, que nesta semana anunciou sua aposentadoria, não é a unanimidade que o senso comum faz transparecer. Sei de jornalistas que, quando estiveram sob holofotes, elogiaram Marcos, mas que em off mantinham opinião contrária. Conheci por meio de redes sociais alguns palestrinos de senso crítico apurado cuja apreciação a respeito de Marcos sempre foi das mais negativas. Ainda assim, devido àquilo que as pessoas são levadas a pensar por osmose, não há dúvida de que Marcos é uma figura bem vista por nove entre dez torcedores de futebol, não somente palmeirenses, mas também por fãs de outras equipes, inclusive torcedores dos maiores rivais. Dessa forma, em termos práticos, o ex-goleiro pode ser considerado uma unanimidade. Uma unanimidade burra.
Marcos passou a ocupar o gol alviverde em 1999, quando o até então titular Velloso sofreu uma grave contusão na mão. Pouco depois, foi figura de fundamental importância na eliminação do arquirrival incolor nas quartas de final da Libertadores, fechando o gol no segundo jogo e defendendo, na decisão por pênaltis, a cobrança de Vampeta. O Palmeiras se sagraria campeão sulamericano naquele ano. Começava a ser erigido o mito de São Marcos.
Ainda em 1999, no mundial de clubes no Japão, Marcos protagonizou a falha grotesca que acabou ajudando o Manchester United a derrotar o alviverde, tendo este que amargar o vice. Aquela foi a primeira de inúmeras presepadas que marcaram a carreira de Marcos, mas desde então, a maioria dos palmeirenses já estava disposta a conceder crédito infinito ao goleiro. Até o fim de sua carreira, nada mudou - de maneira rápida o caipira piadista de fala mansa e contador de “causos” conquistou o coração de muitos palestrinos que invariavelmente passaram a lhe dar o beneplácito.
No ano 2000 novamente o Palmeiras encarou seu mais odiado adversário na Libertadores, desta feita, nas semifinais. O escrete incolor era melhor no papel mas, heroicamente, o alviverde se superou e, após dois jogos, se repetiria a decisão por pênaltis. Marcos defendeu a cobrança derradeira do detestável Marcelinho Carioca, classificando o Palmeiras para a final. Foi a glória para a torcida palestrina, eliminar os marginais tendo um time inferior e às custas do jogador mais detestado do adversário, fato mais do que suficiente para alçar Marcos à condição definitiva de santo imaculado. É evidente que meus agradecimentos a Marcos por um desempenho tão importante e memorável contra o rival de Itaquera serão eternos, de coração. Embora entre os dois jogos de Libertadores mencionados tenha havido a falha do Japão, Marcos não deve ser crucificado se levarmos em conta apenas seu início de carreira, pelo contrário, já que ele foi louvável nesses momentos. Enquanto jovem, foi um guarda-metas de agilidade altamente significativa.
O goleiro recém-aposentado ainda brilharia em outras ocasiões de sua carreira, como nas Libertadores de 2001 contra São Caetano e Cruzeiro e de 2009, contra o Sport, - ele costumava se dar bem no torneio continental, sobretudo nas decisões por pênaltis - em jogos pontuais de outras competições e na Copa do Mundo de 2002, - como algumas pessoas sabem, desejo mais é que a selenike se dane, a despeito de eu ter torcido por certos nomes que compuseram o grupo de 2002, inclusive o próprio Marcos - quando foi, no meu entendimento, o melhor arqueiro do mundial.
Se Marcos brilhou, e isso é algo que não se pode negar, houve também não poucas lambanças que, no mínimo, precisariam ser lembradas, mas que sempre passaram incólumes na mente de muitos palmeirenses, esquecidas ou diminuídas por detrás da carapuça de santo. A ideia do Marcos imaculado se construiu praticamente devido a dois jogos, muito pouco, convenhamos, para uma carreira de cerca de vinte anos, ainda que dois jogos de suma importância. Dois também é o número de títulos que Marcos ganhou pelo Palmeiras como titular, igualmente um número baixo, mesmo que ele não tenha culpa pelo clube ter se transformado na bagunça que suga sua grandeza há mais de uma década. Com o tempo e com as lesões repetidas, algumas delas devidas a um certo descuido, Marcos se tornou cada vez mais um goleiro pesado, lento e com reflexo defasado, o que lhe custou um amplo cardápio de presepadas. Em várias ocasiões passou a nítida impressão de ter entrado em campo sem ter condições de atuar de acordo com o que se espera de um atleta profissional do Palmeiras, o que prejudicou o time. Será que isso é ter amor ao clube?
Além das quatro linhas a postura de Marcos também se revelou bastante inadequada. Quantas não foram as entrevistas que ele concedeu fazendo chacota dos insucessos do Palmeiras? E sempre os bobos de plantão alisando a careca de seu ídolo: “ah, é o jeito dele, o cara é boa praça!” De minha parte, devo ressaltar que não tenho a menor paciência com atitudes sonsas. Não consigo ver graça em derrotas e não forneço indulto a piadas ridículas. O jeito falsamente bonachão de Marcos que o fez se tornar autoindulgente e se colocar acima do Palmeiras gerou também situações constrangedoras em relação ao ambiente entre o elenco, isso porque sempre que o time colhia algum insucesso acentuado, ele se manifestava aos quatro ventos e para quem quisesse escutar, se eximindo de culpa e metralhando companheiros. Ora, por que não fazer isso internamente, apenas? Será mesmo que Marcos teve o amor a camisa que tanto lhe atribuíram? “Ah, ele recusou oferta milionária do Arsenal!” Não tenho certeza nenhuma disso, pois viajou para fazer exames médicos e assinar com o time inglês, depois voltou alegando a recusa. Por que não recusou logo de cara?
Marcos não está entre os cinquenta maiores jogadores da história do Palmeiras, quiçá nem entre os cem. Quem o coloca como maior ídolo alviverde profere tal absurdo sem possuir conhecimento mínimo a respeito do passado do clube, deixando ao limbo nomes muito mais honoráveis, como Bianco, Heitor Marcelino, Primo, Forte, Lara, Tuffy, Avelino, Junqueira, Imparato, Echevarrieta, Oberdan, Del Nero, Lima, Liminha, Og Moreira, Waldemar Fiúme, Procópio, Rodrigues, Humberto Tozzi, Djalma Santos, Valdir, Jair da Rosa Pinto, Tupãzinho, Vavá, Geraldo Scotto, Julio Botelho, Chinesinho, Romeiro, Mazzola, Zequinha, Servílio, Ademar Pantera, Leão, Leivinha, Edu Bala, Ronaldo, César, Nei, Luís Pereira, Dudu, Jorge Mendonça, César Sampaio, Mazinho, Evair, Zinho, Rivaldo e Alex. Nem é preciso citar Ademir da Guia, totalmente óbvio. O torcedor que adora Marcos acima do Palmeiras é aquele que se acostumou com os fracassos dos últimos tempos, aquele que não tem a correta dimensão do apequenamento que o clube vem sofrendo de 2000 para cá e que tem parcela de culpa sobre o atual estado de coisas. Marcos já está aposentado não é de agora, mas há uns cinco ou seis anos, só faltava ele próprio e os torcedores iludidos enxergarem. O ex-goleiro perdeu várias oportunidades de pendurar as luvas em momentos nos quais seu currículo ainda não havia sofrido tantas manchas, mas preferiu ser teimoso. Azar o dele... e também do Palmeiras. Foi tarde.
É fundamental valorizar os verdadeiros ídolos do passado palestrino, aqueles que vestiram com competência o manto esmeraldino e ajudaram a compor a história mais rica que um clube pode ter. Todavia, hoje o mais urgente para o Palmeiras é a necessidade de correr rápido atrás da grandeza que se desgarra cada vez mais em função de péssimas administrações e do endeusamento exagerado de um jogador que cometeu vacilos grandiosos. Avanti Palestra!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

À memória de Daniel Piza


O jornalismo cultural brasileiro está de luto. Inexorável, o destino abreviou a vida de Daniel Piza, aos 41 anos. A notícia trágica pegou de surpresa a todos que acompanhavam o trabalho deste brilhante intelectual, sobretudo por meio da leitura de sua coluna dominical no Estado de São Paulo.
É bem difícil aceitar que um jovem como ele, no auge de sua produção, com tantas contribuições ainda a oferecer aos quadros do pensamento no Brasil, país carente de alta cultura, tenha que partir e deixar órfãos àqueles que bebiam na fonte de suas excelentes reflexões. Muito do que escrevo neste blog vem da influência de Piza, de sua escrita fluída e contundente, de seu liberalismo progressista, de sua defesa do capitalismo, bem como das críticas mais do que justas à política brasileira e a seu governo atual. Ele deplorava também irracionalidades atestadas pelo culto exagerado ao corpo, pelo consumismo narcisista e patológico e pelas superstições religiosas. Costumava afirmar que hoje em dia muitas pessoas preferem acreditar naquilo que não tem evidência alguma do que na pesquisa e na ciência. Piza se mostrava como um iconoclasta do pesadelo pós-moderno ao qual boa parte da sociedade atual foi levada devido à inversão de valores e à picaretagem de pretensos pensadores.
Os leitores que frequentavam assiduamente as reflexões de Piza sabem que a lacuna deixada por ele é bastante vasta. Não há hoje na imprensa alguém que saiba tanto e sobre tanta coisa como ele, que exponha com a mesma verve e clareza assuntos que deviam ser do interesse geral, temas polêmicos e uma argumentação precisa em favor da cultura de qualidade, da ética e de valores que cada vez mais se perdem.
“Uma lágrima”, era o que Piza escrevia quando prestava homenagem a alguma personalidade merecedora de destaque. Para ele, não deixo apenas uma lágrima, mas várias. Caberá a todos que creem nas ideias e na cultura como único caminho que vale a pena percorrer na tentativa de atenuar as imperfeições humanas, fazer com que o rico pensamento de Piza permaneça sempre vivo. Descanse em paz.