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domingo, 7 de abril de 2013

Pós-modernismo: um paradigma paradoxal


Após a queda do Muro de Berlim e do fim da União Soviética no biênio 1989-91, as teses de matriz marxiana passaram a sofrer com o descrédito entre os próprios círculos da esquerda. Foi a partir de então que o pós-modernismo serviu para preencher as lacunas do universo intelectual esquerdista, momento em que Nietzsche, a Escola de Frankfurt, Michel Foucault, Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Roland Barthes e Hayden White tiveram suas ideias conduzidas ao centro do palco, bem como a fama destes filósofos se disseminou como nunca antes se havia notado. Essa onda pós-moderna, a meu ver, jamais abandonou Marx e, Walter Benjamin, como um dos pensadores mais cultuados pelos seguidores do pós-modernismo, não deixa pensar o contrário. Contudo, as reflexões de Marx e dos marxistas foram, sem dúvida, (re)interpretadas sob uma ótica bastante diferente do que se observou ao longo do século XX.
Parecia quase uma certeza há cerca de dez ou quinze anos que o pós-modernismo havia chegado para ficar, enterrando de vez tanto o marxismo tradicional, como o pragmático, restando lugar somente para suas reminiscências românticas combinadas com os paradigmas pós-modernos. O enorme poder de transmutação do marxismo, ora uma teoria histórica, ora sociológica, outras vezes uma filosofia ou uma crítica econômica, ou ainda uma crítica cultural, atuou entretanto de modo a desmentir todas as previsões a respeito de seu fim. Vinte e poucos anos depois do boom pós-moderno, o pensamento de Marx e suas derivações mais diretas voltaram a ser o princípio norteador do esquerdismo na maior parte do mundo ocidental. Isso não significa que o pós-modernismo se tornou um cadáver totalmente decomposto, pois seus paradigmas ainda se mostram presentes em certos círculos acadêmicos periféricos, como eu mesmo pude notar cotidianamente em minha vida universitária e, talvez até mais do que o marxismo, as teorias pós-modernas sempre que encontram alguma lenha para queimar, rapidamente conquistam número razoável de asseclas, o que não deixa de ser algo impressionante. Daí a motivação para escrever - ou reescrever - certas impressões pessoais a respeito desta filosofia.
O cerne do pensamento pós-moderno é a ideia segundo a qual o sujeito não pode carregar pretensões de atingir verdades objetivas, quaisquer que elas sejam e independentemente das diferenças epistemológicas entre os ramos do conhecimento. Fazer uso do termo "verdades" no plural talvez já pudesse ser uma resposta às objeções subjetivistas, mas seria apenas um início de discussão. De acordo com os pós-modernos, o que impede toda busca de objetividade é o fato da subjetividade se impor de modo inelutável e irreversível sobre a atividade intelectual do sujeito, cegando-lhe a compreensão dos fenômenos que perfazem a experiência humana. Imerso em seus interesses pessoais, especialmente naquilo que se refere às tentações do poder, o sujeito apenas conclui aquilo que lhe convém, ou o que está rigorosamente dentro dos limites de seu alcance subjetivo, sempre gerador de falsetes.
O pós-modernismo não considera a capacidade racional, as virtudes e a ética como atributos humanos universais, tampouco a noção de que mesmo nos vários momentos em que tais qualidades faltam aos sujeitos, o conflito interior perante a realidade insubornável proporciona potencialmente ao indivíduo a busca do autodomínio libertador. É difícil imaginar o que sobra quando se descarta esse sopro de vida interior. Um pesadelo egoísta, talvez, mas o que me parece certo é que o pós-modernismo invariavelmente confunde subjetividade - algo que além das conexões com a experiência vivida, é também, o que não deve ser esquecido, uma característica operacional da mente humana - com interesses e relações de poder.
Se, como querem os pós-modernos, a subjetividade encerra os horizontes humanos nos estreitos limites do interesse e do poder, desconsidera-se a apreciação por meio da qual a busca das verdades e da objetividade possível, ainda que muitas vezes uma frágil e árdua aspiração, tem a ver com o próprio desenvolvimento da atividade científica, cuja historicidade e cujas conquistas, quando negadas, colocam os pensadores dessa vertente em situação incômoda..., a não ser que se defenda uma ordália medieval como sendo mais justa do que um processo investigativo minucioso, ou as superstições da área da medicina primitiva como potencialmente mais propiciadoras de conforto ou cura do que tudo aquilo que se descobriu e que foi colocado em prática no âmbito médico em tempos mais recentes.
Maria Odila da Silva Dias, representante ilustre do pós-modernismo no Brasil, declarou certa vez em entrevista, que é difícil criticar esta filosofia enquanto a mesma relativiza o poder estabelecido e retira sua legitimação. Para ela, os conceitos têm história, o que basta para descartar padrões e dados objetivos da realidade. Ora, afirmar que os conceitos são permeados de historicidade é uma observação trivial, não sendo necessário advogar em prol do pós-modernismo para tanto, diferentemente do que salientar que existem conceitos que são formulados a partir do desenrolar da história, mas que podem se estabelecer em definitivo, do mesmo modo que nem só de mudanças se faz a história, mas também de permanências, como muito bem o demonstraram os Annales.
Se a subjetividade é a prisão espiritual e intelectual dos homens, ideia que despreza totalmente o entendimento segundo o qual as aferições de objetividade são externas ao sujeito e precisam sempre da confrontação com o real, tem-se aí exatamente o paradoxo do pós-modernismo, já que fica faltando ao próprio paradigma pós-moderno um referencial, ao menos portador de um mínimo de objetividade, que lhe capacite a desconstruir seus alvos, ou então, das duas uma: 1) só o pós-modernismo escapa das limitações da subjetividade; 2) o pós-modernismo não passa de mais uma forma de subjetividade incapaz de ser uma alternativa ao que ele mesmo reputa ser inválido. Na primeira opção, a presunção contradiz tudo aquilo que os pós-modernos pensam a respeito de interesse e poder, já na segunda, não é capaz de propor nada além de uma desconstrução ad infinitum. É muito paradoxal, é muito pós-moderno.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Toma lá, da cá: estranhas relações com o dogmatismo católico


Como não poderia deixar de acontecer perante o senso comum e também no que se refere a certos programas midiáticos pensados para satisfazer o gosto dos ignorantes, a escolha do novo papa e sua definição por Jorge Mario Bergoglio suscitaram as velhas e surradas discussões a respeito de mudanças em alguns dos dogmas fundantes da Igreja Católica. As questões que envolvem a união homossexual e o aborto são as mais espinhosas, embora não as únicas.
Como muitos já sabem, sou avesso ao catolicismo institucionalizado pela Igreja e aos dogmas católicos, muitos deles totalmente insustentáveis nos tempos atuais. Não sou católico em absolutamente nada daquilo que tem a ver com religião, a não ser um apreciador da arte relacionada ao catolicismo. Descartar a primazia da Igreja Católica em relação à autoridade no ensino da fé, parece todavia, ser de imensa dificuldade para uma enorme quantidade de pessoas. Tenho a nítida impressão que estas mesmas pessoas encaram a religiosidade como uma concessão da Igreja e do clero que, de tempos em tempos, teriam a missão (ou quase a obrigação) de indicar alterações naquilo que se deve seguir e ser entendido como correto e o que é pecado. A despeito da Igreja ter conferido mudanças em algumas partes de seu corpo dogmático ao longo da história, foram alterações sutis e que na maioria das vezes partiram de dentro para fora, baseadas em processos históricos de longuíssima duração, não por apelos imediatos vindos da sociedade. Poderá ser diferente na era da massificação? Muito difícil achar que sim. Além disso, a  incoerência contida nesta lógica é que ao mesmo tempo que leva a sério os dogmas, não os aceita nem de bom grado, tampouco resignadamente, tornando o crente sempre insatisfeito e ávido por mudanças que possam liberá-lo para a prática daquilo que é visto pela Igreja como pecaminoso. Das duas uma: ou o crente chuta para longe os dogmas ou os aceita como princípios de fé isentos da possibilidade de discussão.
Adotar qualquer religião que seja, não somente a católica, sem que sua doutrina seja aceita, não me parece nada proveitoso. Ainda assim, existem religiões que conferem maior autonomia ao indivíduo, bem como lhe fazem incidir maior exigência de responsabilidade individual, sendo desse modo mais atentas do que o catolicismo à sublime noção de que Deus está no particular. Um exemplo, para não sair do círculo cristão, é o protestantismo, que com sua grande variedade de seitas, - exceto vertentes contemporâneas deturpadas e bem menos comprometidas com a fé do que com o merchandising - é mais capaz do que o catolicismo de guiar o crente de acordo com suas próprias concepções espirituais sem lhes provocar conflitos com os dogmas.
Certamente a Igreja Católica poderia rever a obrigatoriedade do celibato clerical e o impedimento do sacerdócio feminino, este último aspecto que a meu ver contém uma fortíssima ambiguidade e, portanto sobre o qual, o dogma nunca foi consistentemente apresentado, como abordam brilhantemente os estudos de Georges Duby ou Christiane Klapisch-Zuber. São dois pontos que contribuiriam para tirar da Igreja o incômodo fardo a respeito dos interditos sexuais do clero, algo que nas últimas décadas ganhou contornos bastante espinhosos com as acusações de pedofilia. Estranhamente, todos aqueles que estrilam a favor do aborto, que defendo em certos casos, e da união homossexual, pouco têm a dizer quando se trata destes outros temas. Talvez porque sejam assuntos que, uma vez discutidos e eventualmente modificados, seriam benéficos para a instituição e não diretamente para a sociedade. Vale ainda destacar que não se observa quase ninguém (Mario Vargas Llosa tocou na questão em artigo recentemente publicado em O Estado de São Paulo) lançando discussões sobre a necessidade da Igreja resgatar suas manifestações artísticas como contributo para a cultura não só do Ocidente, mas de todo o mundo, ponto que não tem a ver com dogmas nem com movimentos de fundo ideológico, mas que em séculos anteriores foi fator fundamental na concepção de obras de diversa natureza e do mais alto quilate, engrandecedoras para todo espírito humano capaz de transcender as fronteiras impostas por instituições religiosas.
Não é porque membros do clero se metem com pedofilia que a Igreja Católica como instituição deva passar a aceitar a união entre os gays, do contrário, correria-se o risco de cair em um toma lá, dá ca e tratar um pedófilo dentro da normalidade. A mudança nos dogmas não pode ser entendida como uma questão de concessão ou negociata. De modo geral, é interessante destacar palavras do novo papa sobre o ateísmo e o agnosticismo, segundo as quais não crer em Deus (em sentido mais tradicional, como entidade externa, o que me parece valer para muita gente) ou pelo menos não se preocupar tanto com sua existência a ponto de orientar toda a vivência em torno deste aspecto, não impede ninguém de erigir a experiência a partir de virtudes que não dependem de crença. Vejo tal declaração como muito mais emblemática e digna de avanço espiritual do que qualquer mudança que a Igreja Católica possa empreender em função de bandeiras politicamente corretas que alguns parecem defender somente por necessidade quase doentia de se mostrarem "modernos".

quinta-feira, 14 de março de 2013

O fantasma de Chávez


Nos últimos seis ou sete anos o mundo foi sucessivamente se vendo livre de certos personagens públicos portadores de ideias políticas totalmente execráveis. Se o velho ditado "vaso ruim não quebra" pode ser aplicado a uma verdadeira múmia como Fidel Castro, o mesmo não vale para Saddam Hussein, Osama Bin Laden, Muamar Kadafi, Kim-Jong-il, Eric Hobsbawm, Oscar Niemayer e agora também, Hugo Chávez, o último a entrar para a galeria dos defuntos bem-vindos
Dentre estes, importa menos o legado que permanecerá com relação a Hobsbawm e Niemayer, já no que se refere aos demais, o desaparecimento de suas formas individuais não é capaz, a curto e médio prazo, de levar embora as heranças nefastas que eles deixaram. Eis aí o problema.
O chavismo é hoje uma realidade concreta na Venezuela, tendo até mesmo se espraiado, com algumas variações, para outros países da América do Sul, mas sempre mantendo as mesmas características gerais: populismo, autoritarismo, terceiro-mundismo, centralismo de governo, estatismo econômico, messianismo e segregacionismo social, aspectos diretamente relacionados ao pensamento da velha esquerda latino-americana. É no cadinho e no turbilhão de tais elementos que o governo de Chávez ainda deixará muitos resquícios no país vizinho, mesmo após sua morte.
As instituições democráticas da Venezuela, ou o pouco que delas existia antes até do advento chavista, atualmente não passa de algo absolutamente inexistente. Quanto tempo até que uma nação as possa erigir novamente, não se sabe, pois isso depende de vários e complexos fatores. A única certeza é que leva tempo, bastante tempo. Campanhas políticas de cartas marcadas, oposição em franco prejuízo, plebscitos que reduzem drasticamente a riqueza do debate democrático e intensa propaganda governamental jamais podem ser apontados como aspectos de evidência democrática, mas tão somente como vetores do solapamento da democracia, coisa óbvia que os defensores do chavismo não sabem enxergar. Em democracias de fato e de direito é impossível e desnecessária a existência de uma liderança tida como infalível e salvadora sobre a qual toda a tecitura política do corpo social é depositada, arranjo que delega toda e qualquer atividade política a essa mesma liderança e resulta na anomia do cidadão. Esse é o terrível legado do chavismo no campo político, cuja sentença final acaba sendo o ódio dirigido contra aqueles que não concordam em compactuar com um sistema que anula a democracia. Por um paradoxo típico de governos autoritários, aqueles que lutam para permanecer na condição de sujeitos históricos são estigmatizados como "inimigos da causa", ao passo que os apoiadores, dos quais se retira a condição de atores da política por meio da cooptação e da propaganda, atribui-se o status falso de protagonistas de um drama histórico que nunca pode conceber nem sequer o mínimo de liberdade.
No terreno econômico, o qual vale frisar que não se dissocia do político, mas atua em compasso com ele, a centralização gera como produto uma torrente avassaladora de desperdício do dinheiro público. Não surpreende o sucateamento progressivo da PDVSA ao longo do governo de Chávez. O estatismo não permite concorrência exatamente pelo fato de ter necessariamente de colher os benefícios para o próprio governo, bancando gastos homéricos com armas, assistencialismo e propaganda, pilares sem os quais um sistema autoritário não se mantém vigente. O estado, continuamente, investe dinheiro em sua máquina gerando um círculo vicioso que o faz se avolumar e concentrar poder em detrimento do corpo social, ludibriado com políticas assistencialistas que ao invés de erradicarem a pobreza, a tornam um recurso cuidadosamente administrado e explorado pela burocracia governamental. É neste nicho que a cooptação deita raízes. Na concepção da velha esquerda, o mercado da concorrência, vetor da precificação e da busca pela excelência dos produtos, é confundido de forma propositada com a avidez empresarial. Omite-se a apreciação segundo a qual aqueles que se locupletam da ausência de concorrência são os membros da burocracia e os empresários ligados a ela. Estes são os que transformam em privado aquilo que é público. Economias que operam a partir destas bases funcionam mal, invariavelmente, todavia isto não é problema para um estado que está sempre a reverter o dinheiro público para seus cofres. A degradação dos meios urbano e rural na Venezuela não é fruto do acaso quando se considera as políticas econômicas de cunho chavista. Esta é a realidade concreta do chavismo e o seu triste legado.
Dentro de pouco tempo os venezuelanos irão às urnas e a oportunidade de começar a romper com o chavismo tem um nome: Henrique Capriles. Não será fácil, entretanto, para o incansável opositor de Chávez, já que agora terá de enfrentar um Nicolás Maduro que herdou as estruturas de poder de seu antecessor, inclusive o direito imposto de concorrer no pleito. Que espaço terá Capriles em sua campanha? Até que ponto Maduro irá se aproveitar da martirização de Chavéz e do culto à personalidade messiânica do caudilho? Até que ponto a população venezuelana será capaz de exorcizar os efeitos da cooptação que sofreu nos últimos quinze anos? Ela terá o desejo de se livrar de tal fardo? As respostas destas perguntas guardam consigo o futuro da Venezuela. Por ora, ele é extremamente imprevisível. Só duas certezas: o fantasma de Chávez é perigoso..., mas Chávez morto, aumentam as chances de uma Venezuela melhor.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Dez anos de PT no poder: as evidências do atraso


Na semana passada o PT promoveu um evento para comemorar os 10 anos à frente do poder máximo no Brasil. Caso se tratasse de um partido que tivesse um projeto político de desenvolvimento, não há dúvida de que após uma década de governança federal, haveria de fato motivos para festejar. Todavia, bem ao contrário disso, aquilo que o PT sempre pretendeu antes e depois das eleições de 2002 foi implantar um claríssimo projeto de poder alicerçado em bases gramscianas e ditatoriais; concretizou seu objetivo às custas da cooptação das massas e da destruição das esferas político-administrativas, características fundamentais de toda e qualquer ditadura. A situação que hoje vivemos no Brasil evidencia a completa falência das instituições democráticas e a crescente depauparação da economia nacional. Se juntamente com o partido as massas mantidas propositadamente na ignorância comemoram, o cidadão cônscio só tem a deplorar.
Durante oito anos, por meio de seus discursos metafóricos, hiperbólicos e messiânicos, Lula teve margem de manobra mais do que suficiente para transformar o imaginário das massas, lhes transmitindo a ideia de que ele e o PT teriam sido os responsáveis por salvar o país das injustiças e da dominação impostas por todos aqueles que ocuparam o governo antes do Messias, representantes da "elite burguesa, capitalista e preconceituosa" que nunca quiseram ver o povo liberto das amarras. É um discurso falso, simplório e maniqueísta, mas que conquista facilmente a mentalidade de populações carentes e sem qualquer conhecimento histórico-político, um prato cheio para que o PT pudesse impor sua ditadura com tranquilidade. Aos "intelectuais" orgânicos da esquerda, sobretudo no Sul e Sudeste, restou o papel de disseminar tais ideias no âmbito da educação e da cultura, dessa forma angariando também o apoio de parcelas significativas de um eleitorado urbano inserido entre a juventude e a meia idade, proveniente das classes C e D, esvaziado de moralidade e descrente na democracia, cujo universo se limita às novelas globais, ao futebol, ao carnaval e às baladas embaladas por drogas e anomalias musicais. Some-se a essa mistureba o assistencialismo populista e obtém-se a receita de sucesso do PT para a chegada ao poder e sua manutenção. A atual presidente, definitivamente dona de um perfil político anódino, alguém que foi moldada do barro sem que tivesse absolutamente nada a construir, a não ser ocupar de modo cem por cento figurativo o cargo de liderança máxima do país, somente dá continuidade ao que Lula e outros quadros poderosos do PT haviam conseguido até 2010. Por isso mesmo ela deverá ser candidata à reeleição em 2014, funcionando como escudo e marionete para aqueles que realmente atuam nos bastidores da política.
Nada nos últimos dez anos foi capaz de combater o projeto ditatorial do PT, a começar por uma oposição extremamente fragilizada, incapaz tanto de expor a perfídia embutida no petismo, como de oferecer alternativas a ele. Ao invés de se colocar em posição radicalmente contrária ao ideário do partido dominante, a oposição apenas procura defender uma espécie de petismo não-ditatorial, deixando de entender que é exatamente este aspecto que dá forma e conteúdo ao atual governo, o elemento próprio que tornou possível ao PT ser o que é hoje.
O atraso que toma conta do Brasil é uma evidência gritante, mas uma vez realizada a cooptação, retirar as massas da catarse é algo de dificuldade elevadíssima. O mensalão, os casos de dinheiro na cueca, os escândalos de corrupção envolvendo os ministérios do Esporte e dos Transportes, o episódio Rosemary Noronha, as trapalhadas e engenharias numéricas distorcidas de Guido Mantega, ministro do "pibezinho" e da inflação cada vez mais crescente, a precariedade logística acompanhada do colapso aeroportuário, o apagão do setor energético, a carência de investimentos em educação de qualidade e em tecnologia e, parem as máquinas (!), até mesmo a Petrobrás, deusa todo poderosa da estatolatria tupiniquim que agora se apresenta mergulhada em uma crise gravíssima, são aspectos insuficientes para fazer com que os defensores do PT abram os olhos diante de tantos erros grotescos cometidos pelo partido. O lodaçal em que o PT meteu o Brasil revela, além da natureza ditatorial e corrupta da sigla, outros absurdos relacionados ao modus operandi petista, como o aparelhamento da máquina pública, o fisiologismo, a ideologização como substituta da eficiência e do conhecimento, a centralização, o estatismo, a anomia política do cidadão e o manjado assistencialismo, prática que faz as populações carentes dependerem cada vez mais das esmolas do governo sem jamais tirá-las da pobreza, efeito que iria contra a tática da cooptação (se não fosse assim, depois de dez anos no poder, o PT não precisaria ampliar esses "benefícios", ao contrário, reduziria-os). E não adianta nada os porta-vozes do petismo bradarem que o partido levou o consumo até as classes C e D, pois crediário de longo prazo para comprar aparelhos de TV não gera desenvolvimento humano, este sim parâmetro para se avaliar corretamente a prosperidade de uma nação, mas que não faz parte do arcabouço político do PT.
Os últimos dez anos do partido de Lula e Dilma à frente do governo federal superam negativamente e em larga escala o pior dos governos anteriores, constatação que, se já era evidente desde que o mensalão estourou como o maior e mais sistemático escândalo de corrupção e de destruição institucional da história brasileira, ganha cada vez mais força diante do atraso econômico e estrutural, claramente evidenciado neste momento. Nem mesmo a centelha de idoneidade que resistiu aos tentáculos do PT e permitiu à maioria dos ministros do STF a justíssima condenação dos envolvidos no mensalão, teve força para abrir os olhos da população. O que falta ainda para o Brasil acordar?! A falência completa da nação está às portas, o tempo se esvai a galope.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Trabant: um brinde ao consumo e à riqueza sob o comunismo


Certa vez escutei de alguém palavras que diziam o seguinte: "as pessoas confundem comunismo com franciscanismo, o que é um erro, pois o comunismo tem o objetivo de espalhar a riqueza". Aquilo me estarreceu, já que, de fato, ambos nunca deveriam ser confundidos, mas se a primeira parte da sentença soava correta, a parte final transmitia uma ideia absurda, inteiramente desconectada da realidade e da observação histórica. Ainda que o objetivo final do comunismo possa ser o bem estar geral, ele sempre se mostrou terrivelmente falho neste intento. Também com relação ao franciscanismo, igualmente havia um equívoco gritante, haja vista que se estava impondo uma visão materialista sobre uma filosofia cuja linha mestra vai em sentido oposto.
O voto de pobreza de Francisco de Assis e de seus seguidores jamais teve qualquer conotação de fundo material. Se os franciscanos renunciaram ao conforto que lhes era possível, em uma Idade Média em que as privações eram comuns a um número de pessoas muito amplo, renegar as posses materiais nem poderia alcançar um apelo digno de louvores e respeito por parte da sociedade. Mais importante, no entanto, é ressaltar que o franciscanismo foi adotado por um círculo relativamente restrito de adeptos, aspecto do qual advêm três características que o diferenciam positiva e radicalmente do comunismo: 1) para que alguém se tornasse um seguidor dos ensinamentos de Francisco, bastava a livre e espontânea vontade, ou seja, o movimento não carregava qualquer intenção cooptativa; 2) o movimento surgiu como uma alternativa ao cristianismo que se fazia dominante à época, pregando um retorno aos primórdios da fé cristã, bem anteriores à ortodoxia da Igreja - se pouquíssimo tempo depois de sua morte Francisco foi canonizado e o franciscanismo incorporado à ortodoxia, isso se fez de maneira totalmente exógena ao movimento; 3) o voto de pobreza dos franciscanos era condição sine qua non para que alguém se tornasse efetivamente um franciscano, portanto, a renúncia às posses assumia caráter puramente ascético, o que diferenciava os franciscanos do restante da sociedade - note-se o abismo em relação ao ideal uniformizante do comunismo -, além do que era compartilhada e mantida por todos os seguidores do movimento, inclusive pelos líderes, evidentemente. No movimento franciscano não havia lugar para algo como "todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros". Quando uma situação que pudesse levar a isso começou a se insinuar, imediatamente Francisco se tornou reticente e recolheu-se ao claustro para vislumbrar seu próprio fim.
O comunismo romântico, tributário das ideias do jovem Marx, nunca teve como objetivo espalhar a riqueza, tampouco gerá-la, o que é necessário para que seja distribuída. Essa vertente do pensamento comunista conheceu várias tentativas de implantação em diferentes lugares ao longo dos últimos cem anos, aproximadamente, bem como foi descartada tantas outras vezes. Nesse caso, o horizonte final do comunismo é um idílio quase espartano, permeado de altruísmo e autossacrifício, simplicidade e criatividade. Aqui o comunismo poderia estar próximo do franciscanismo, porém, como existe uma incoerência intransponível entre o alto grau de espontaneidade exigido por esse tipo de idílio e a centralização disciplinadora inerente à imposição comunista, formas pragmáticas, autoritárias e totalitárias tomaram o lugar da vertente romântica e produziram os maiores genocídios do século XX. Stalin e Mao Tse-tung deram forma ao chamado socialismo real não porque fossem negadores do marxismo, mas porque se depararam com os erros grotescos do próprio Marx, ele que na maturidade, diante das lacunas de sua filosofia, já havia sido obrigado a atirar para longe muito daquilo que defendera anteriormente.
Após os repetidos fracassos dos sistemas comunistas, já em uma época mais recente de distensão e de abandono da retórica de cunho romântico e utópico, Leonid Brezhnev assumiu o governo da URSS em meados da década de 1960 e passou a assumir um discurso que de alguma forma pudesse agradar à população exausta das promessas jamais cumpridas do comunismo. Era hora de associar o regime comunista com a capacidade de proporcionar conforto e satisfação à sociedade. Observe-se que somente após quase meio século de experiência comunista o governo da URSS se prestava a olhar com mais atenção para um desejo que, exceto por parte dos poucos que se tornam ascetas, é algo comum à maioria dos indivíduos. Foi durante este período que Brezhnev começou, juntamente com alguns países-satélites da URSS no Leste Europeu, a destinar mais recursos às indústrias de bens de consumo. A situação de penúria poderia ter melhorado se os cinquenta anos desde a Revolução Russa não tivessem pulverizado o mercado: a baixíssima produtividade, a impossibilidade do cálculo, da precificação e da alocação de recursos em economias fortemente acostumadas com o planejamento central não permitiram a produção de bens de consumo de qualidade e capazes de atender à demanda, problema que até hoje deixa resquícios em países que estiveram sob regimes comunistas, inclusive na atual Rússia.
A partir do fim dos anos 1960 e início dos 1970, a URSS de Brezhnev montou uma espécie de convênio com seu satélite na Alemanha Oriental para produzir o Trabant, veículo feito com carroceria de plástico, altamente agressiva à natureza. Os primeiros Trabants foram encomendados na URSS em 1976. Treze anos depois, em 1989, já nos estertores do comunismo à época de Mikhail Gorbachev, eles começavam a chegar aos encomendantes. Não, não ria! Apenas nunca se dê ao desplante de defender o comunismo e de acreditar ingenuamente que esse sistema se faz apto a proporcionar o bem estar das pessoas ou seja capaz de espalhar a riqueza. No máximo, o comunismo espalhou a pobreza por imposição e a ausência de liberdade. Francisco de Assis e seus seguidores fizeram voto de pobreza espontâneo, adotaram o ascetismo moral e se dispuseram a ajudar os necessitados. Se estiver farto do capitalismo de massas, o franciscanismo é uma opção bem melhor!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Por que não se calam?!


No fim da semana passada a nova diretoria do Palmeiras anunciou que o centroavante Barcos, principal jogador da equipe palestrina, estava de saída para o Grêmio envolvido em uma troca com cinco jogadores do time gaúcho. Do modo como a transação se apresentou inicialmente, seria vantajosa para o alviverde, que necessita preencher as várias lacunas da equipe, assim como para os gremistas, que estão montando um time bastante forte. Acontece que o atacante Marcelo Moreno, dos cinco atletas que fariam parte da troca, o mais cobiçado deles, não deve vir no pacote, pelo menos não nesse momento. Assim sendo, desaparece quase totalmente aquela vantagem inicial que se vislumbrava para os lados do Palestra Itália. De quebra, o pai de Moreno deu declarações extremamente humilhantes sobre o Palmeiras que correram os quatro cantos do país.
O fato tem sido exaustivamente explorado pela imprensa esportiva que, como não poderia deixar de ser em se tratando de Palmeiras, promove o mais alto sensacionalismo com o objetivo de massacrar o alviverde. Até mesmo o sr. Juca Kfouri, que vive a posar de bom moço e atua na ESPN Brasil, emissora outrora digna de elogios, mas de uns tempos para cá descambando para a vala comum do jornalismo esportivo, explorou a transação de modo a tripudiar do Palmeiras. Ficou mais do que evidente o erro da diretoria palmeirense ao anunciar o negócio sem que os jogadores do Grêmio tivessem sido previamente informados a respeito da situação, mas há uma série de outros aspectos a serem analisados, todos eles deliberadamente negligenciados por jornalistas que nutrem uma raiva doentia pelo Palmeiras. E pensar que são os zumbis incolores, favorecidos pelos nefastos arranjos da politicagem nacional, aqueles que se apropriaram dessa história de "anti": jamais o "contra tudo e contra todos" foi tão deslavadamente falso quanto no caso do time do establishment e tão verdadeiro para o alviverde paulistano.
Barcos fez parte da campanha no Brasileiro de 2012, portanto, é também responsável pelo rebaixamento. Se o argentino anotou 28 gols na temporada passada, também é verdade que ficou de fora das duas partidas finais da Copa do Brasil e protagonizou atuações bem apagadas e abaixo da média, como por exemplo, contra o Guarani nas quartas de final do Paulista. Barcos é normalmente um jogador nota 6,5 ou 7, chegando a 8,5 ou 9 em alguns momentos, mas também 3,5 ou 4 em outros, quando mata a bola de canela ou parece correr usando calça jeans e carregando um piano nas costas. Cheguei a observar certos torcedores tomados pelo desespero, presas fáceis para o sensacionalismo antipalmeirense, declarando que o argentino foi o melhor centroavante dos últimos dez ou até quinze anos, um insulto grave ao hiperdecisivo Oséias, sem contar que o Vagner Love de 2003/04 e Alex Mineiro também se mostraram superiores a ele.
Antes mesmo do Palmeiras ser rebaixado no ano passado, Barcos já indicava que não queria jogar a série B, postura por si só reprovável, pois o descenso ainda não havia se consumado. Após a queda, começou a fazer leilão e renovou contrato somente porque lhe foi concedido aumento pela gestão Alberto Tirone, um absurdo para um jogador que participou do rebaixamento. Não satisfeito, continuou as negociatas para forçar sua saída e fez corpo mole, como ficou claro nas partidas contra Penapolense, XV de Piracicaba e Atlético Sorocaba. Acredito que a pior coisa para um time que precisa recuperar a autoestima é manter em seu elenco atletas insatisfeitos e, se iludido por convocações eventuais na seleção argentina, Barcos acredita que poderá estar na Copa 2014 no lugar de jogadores muitíssimo mais qualificados do que ele, que vá tentar a sorte nos pampas. No Palmeiras, independente do momento, para vestir o manto alviverde o sujeito deve ter culhões, deve ter algo mais, como diria o inigualável Evair, esse sim ídolo eterno, craque que soube esperar a hora certa para mostrar seu inestimável valor, calando a boca de todos que se atreveram a colocá-lo em dúvida. Vale lembrar que Evair chegou ao Palmeiras em 1991, quando o alviverde estava na fila. Evair nunca precisou de negociata, nunca fez biquinho, nem tinha rabo de cavalo para ficar alisando. Mais de dois anos após a sua chegada e depois de ser afastado em 1992 pelo técnico Nelsinho Baptista sob pretextos sórdidos, preconceituosos e mentirosos, destruiu o time incolor dirigido pelo mesmo Nelsinho na final do Paulista de 1993 e tantas outras glórias se seguiram. E então eu pergunto, quem é Barcos?
Barcos não é ninguém, o que torna ainda mais ridículas e oportunistas as análises da imprensa sensacionalista e dos torcedores pilhados dando conta de que a atual diretoria palmeirense "vendeu" a Libertadores. Ora, quem descartou a Libertadores muito antes dela começar foi a gestão anterior, trapalhona, leniente e sem o menor interesse ou tino para futebol, além do maldito estatuto fossilizado, que prevê eleições para o fim de janeiro, quando não é mais possível montar um elenco. Que chances o Palmeiras teria no torneio sulamericano com Barcos no ataque? As mesmas que tem sem o argentino, ou seja, pouquíssimas, bastando ter boa fé para saber que nada mudou, com ou sem Barcos.
Paulo Nobre e José Carlos Brunoro cometeram um erro, se precipitaram e levaram um chapéu da raposa Fábio Koff. Ponto. Se existe algo mais por trás da história, basta que as más línguas o provem. Quanto às declarações do pai de Moreno, não é preciso se preocupar, já que assim como Barcos, ele não é ninguém: desde quando um palavrório leviano vai atingir o Palmeiras?! Vivi os anos 1980 e sei muito bem do que estou escrevendo... Moreno é mais jogador do que Barcos, se não vier, que o Palmeiras receba a compensação financeira. Mais cedo ou mais tarde, um camisa 9 à altura envergará o manto esmeraldino. Ainda acredito que a atual gestão, aos poucos, irá reconstruir o Palmeiras. O tempo dirá.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Entusiasmo irrefletido: reflexões de Hume e Ginzburg contra o pensamento politicamente correto


Quando eu era apenas um estudante do primeiro semestre da graduação em História, a professora Marcia D'Alessio, uma daquelas que sempre levou consigo a raríssima qualidade de jamais misturar conhecimento com paixões ideológicas, disse em um sábado de manhã, dia em que ela ministrava suas excelentes aulas de Teoria da História I: "[Carlo] Ginzburg é um mestre, um historiador muito acima da média". Eu não sabia nada sobre ele e só estava engatinhando no entendimento dos meandros teóricos da História, mas já podia ter a certeza de que, por tudo aquilo de profundo e sublime que a professora Marcia transmitia aos alunos dispostos a se aventurarem pela riqueza do conhecimento histórico, era uma delclaração a ser bem guardada e desvendada.
O primeiro livro de Ginzburg que li foi O queijo e os vermes, em relação ao qual logo me ficou evidente a criatividade com que o autor abordou o tema da Inquisição e dos paradigmas culturais na Idade Moderna. Depois, fui buscar uma obra teórica de Ginzburg no objetivo de tentar refletir como ele aplicava seus pressupostos teóricos na pesquisa histórica. A leitura óbvia para um iniciante em estudos ginzburgianos seria Mitos, emblemas, sinais, mas encontrei primeiro Olhos de madeira, livro extremamente denso e desafiador para a inexperiência de um principiante. Li a obra umas três vezes, com certo intervalo de tempo entre as leituras, para começar a captar seu cerne. A percepção proporcionada por ela me marcou decisivamente.
A distância espaço-temporal é um dado da subjetividade humana, porém, a influência que faz incidir sobre os homens, a despeito da variedade imensa de efeitos gerados, é uma questão objetiva, presente no dia a dia das pessoas, ainda que de modo muitas vezes inconsciente. Em seu Tratado da natureza humana, David Hume é lapidar no exemplo que fornece: "Na vida cotidiana vemos que os homens se preocupam principalmente com os objetos que não estão muito distantes no espaço ou no tempo, desfrutando o presente e confiando o que é distante ao acesso e à sorte. Fale com um homem a respeito da condição em que ele estará daqui a trinta anos, e ele não lhe dará a menor atenção; fale sobre o que acontecerá com ele amanhã, e será todo ouvidos. A quebra de um espelho na nossa casa nos preocupa mais do que o incêndio de uma casa distante uma centena de léguas". Parece elementar, mas é exatamente o tipo de coisa que o politicamente correto impede de enxergar. Como todo grande filósofo, Hume pensava sempre naquilo cuja validade servisse para ele próprio, regra essencial para se estabelecer a moralidade e, como empirista, detestava o entusiasmo irrefletido.
É mais do que uma evidência notar que pessoas em condições normais lamentam e muito acontecimentos trágicos que vitimam grande número de pessoas, tais como se sucederam há poucos dias em Santa Maria (RS). Investigação e punição de eventuais responsáveis é o que se deve desejar, além de fiscalização mais acurada para prevenir outros eventos semelhantes. Encarar dessa forma não demanda cobertura sensacionalista por parte da imprensa, nem as lamúrias de falso desespero que pipocaram na redes sociais, vindas de pessoas espacialmente distantes de Santa Maria e sem nenhuma ligação com as vítimas. O exagero e a artificialidade observados nessas manifestações são aspectos do manjado politicamente correto, o que Hume chamaria de entusiasmo irrefletido, ou euforia: sem se darem conta que uma tragédia é lamentável por si só, muitos embarcam no espírito geral de consternação e parecem acreditar que palavras sem real significado e que no mais das vezes não são lidas nem ouvidas por gente próxima das vítimas, podem funcionar como uma espécie de consolo capaz de vencer a distância e o tempo. Em relação à distância temporal, é ainda mais fácil perceber sua atuação, bastando indagar quem, dentre aqueles que não possuem ligação com as vítimas, ainda estão sob forte consternação. E daqui um ano, dois...?
Hume e Ginzburg foram argutos ao estudarem o caráter inexorável da distância espaço-temporal e suas implicações morais sobre a experiência humana. Há, por outro lado, quem possa entender tal reflexão como sinônimo de indiferença e insensibilidade, o que igualmente denota a confusão fruto do politicamente correto. A esses proponho que se coloquem a pensar no carnaval que está chegando: irão cair na folia e deixar que o clima de intenso entusiasmo irrefletido os possua por completo? Duas semanas após a tragédia de Santa Maria terão esquecido totalmente dela (se é que se lembraram do acontecimento alguma vez na acepção do que é "lembrar")? Vale ressaltar que o Carnaval, juntamente com o Ano Novo, outra ocasião de euforia, é o momento de maior violência do ano - em todos os sentidos. Quais manifestações permeadas de politicamente correto estas duas épocas ensejam? Acabem-se...