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quinta-feira, 25 de março de 2010

E eis que o herói se tornou vilão

Há uns bons 14 anos, muito, mas muito tempo antes de Ronaldo ter se tornado o que é hoje, antes de começar a fazer sucesso acentuado no futebol, antes mesmo de ganhar o apelido de "Fenômeno", bem antes de jogar no time incolor, eu era um dos poucos que já condenava as atitudes do jogador,  já que estas denotavam aversão ao profissionalismo, estrelismo e falta de humildade. Acontece com muitos atletas que saem do nada e rapidamente conquistam fama e dinheiro, em relação aos quais não possuem estrutura emocional alguma para lidar. Tornam-se celebridades vazias cujo performismo grotesco é erigido pela mídia prostituta. Mal de nossa época.
Para a grande maioria do povo brasileiro, sentimentalóide, cordial e totalmente  incapaz de refletir a respeito de comportamentos e modos de ser relacionados a virtudes, Ronaldo sempre foi humilde e craque. Não contesto a capacidade do jogador, embora o conceito de craque tenha sido banalizado de uns 25 anos para cá. Vale frisar que Ronaldo, exceto quando atuou pelo PSV e pelo Barcelona, ainda em início de carreira, não conquistou afeição significativa do torcedor europeu, mais racional, mais frio, mais atento a comportamentos extracampo e mais inteligente do que o brasileiro. Ronaldo deixou o Real Madrid e o Milan pelas portas dos fundos. Mais recentemente, não havia clube no velho continente que o quisesse, foi então que ele retornou ao Brasil para atuar na Marginal Tietê. O fato é que, apesar de possuir capacidade técnica acima da média, o jogador desde há muito passou a transmitir uma imagem e a dar exemplos que deveriam ser reprovados quando se trata de figuras públicas que, independente de sua própria vontade, acabam se tornando, para o bem, ou na maior parte dos casos, para o mal, modelos a serem seguidos. Como já ressaltei, há mais de uma década eu reprovava o comportamento de Ronaldo. Não costumo me enganar acerca do perfil psicológico e espiritual das pessoas.
Quando Ronaldo veio jogar no Brasil, tanto tempo depois de ter deixado o Cruzeiro rumo ao PSV, a mídia o alçou à condição de um semideus, ainda mais por ter vindo jogar no time da própria mídia. Uma vez que nosso povo não percebe que determinadas análises objetivam atingir um grau de profundidade que vá além das meras aparências e do registro imediato, Ronaldo caiu nos braços, não apenas do torcedor de Itaquera, mas até mesmo nos de torcidas adversárias. E haja babação de ovo, aumentada cada vez mais à medida que o jogador obtinha relativo sucesso em 2009. Quietos, aqueles que procuravam analisar sob perspectivas mais abrangentes do que a performance esportiva, apenas deixavam com que as coisas acontecessem, mas com a certeza de que não logra benefícios e sucesso no longo prazo aquele que não faz por onde em se tratando de âmbito espiritual e comportamental. É sempre assim, e é isso mesmo que permite atribuir valor a quem merece. Arrisco a afirmar que esse é um dos motivos que ainda consegue manter a humanidade.
Eis então que veio o momento no qual, de uma vez por todas, o caldo se tornou indigesto. 2009 acabou, chegou 2010 e, com o novo ano, quebrou-se o encanto de Ronaldo para com a torcida do time no qual atua o jogador. Péssimas atuações, escassez de gols, mau futebol. Após a derrota frente ao Paulista de Jundiaí, vaias da torcida e o revide por parte do atleta. Um gesto obsceno, um dedo no meio da cara de quem gritou o nome da figura em questão. Não me surpreende. Essas coisas sempre acontecem seguindo o mesmo script.
É certo que não faltarão aqueles a considerar que minha reflexão seja fruto de inveja. De minha parte, lamenterei uma tal falta de perspicácia, dado que analiso a partir de outro viés que não o esportivo. A questão está acima do reino profano da paixão clubística, é pois um assunto que foge às platitudes do mundano, das performances e do universo mesquinho no qual vivem as massas atingidas pela ignomínia. É óbvio que mando um "bem feito" com todas as letras na direção da torcida rival. Mas, acima disso, lamento por toda a ignorância de um povo cego, guiado no rumo da desgraça por seus falsos ídolos. É a cara do Brasil.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Não é bom nem amigo aquele que bajula


A mentalidade do povo brasileiro, em geral, o faz acreditar que as pessoas boas e amigas são aquelas que lhe adoçam os ouvidos, que acobertam os erros, que se omitem de apontar equívocos e que invariavelmente aprovam suas atitudes. Esta é uma concepção absolutamente superficial e muito perigosa para qualquer um que se sinta possuidor de amizades com tal tipo de conduta, pois impede o sujeito de enxergar a diferença abissal existente entre o amigo e o bajulador.
O brasileiro gosta de ser bajulado, para seu total azar. Sempre notei esse traço da mentalidade de nossa gente, seja com alunos na escola, nas ocasiões em que os mesmos assumem uma negativa ou reprimenda do professor como se fosse um mero ato de implicância e perseguição, sem lhes passar pela cabeça que há motivos mais profundos para certas atitudes do mestre, no sentido de tentar fazer com que o aluno cresça pedagógica e espiritualmente, seja ainda em situações cotidianas, nas quais um erro claro e notório de alguém é rapidamente perdido de vista em nome de supostas amizades, quando então os "amigos" acorrem aos borbotões para passar o pano na atitude equivocada de quem a cometeu.
O brasileiro médio, dada sua lamentável falta de apreço pela boa cultura, é ainda hoje e, talvez hoje mais do que nunca, incapaz de perceber que toda amizade autêntica deve ser necessariamente desinteressada. É exatamente nesse ponto que se deixa levar pelos cantos de sereia do bajulador, o falso amigo, vaidoso e sempre interessado em alguma recompensa. O imediatismo e o ego afagado por um bajulador fazem com que muitos se deleitem diante das astúcias desse falso amigo. Uma amizade austera e desinteressada requer tempo para que alcance tal patamar, requer renúncias e constantes exames de consciência que reflitam sobre os modos de conduta em cada passo que se dá. Parece algo complicado face a imediatismos e egos massageados.
Mencionei a falta de boa cultura, típica do brasileiro comum, no parágrafo anterior, já que o argumento de autoridade mais essencial nesse assunto é a obra de Plutarco, filósofo greco-romano dos séculos I e II d. C. Infelizmente, como tantos outros, os escritos de Plutarco passam ao largo do que se costuma estudar nesse país. Da maneira de distinguir o bajulador do amigo, escrito pelo autor que acabo de citar, é um tratado filosófico de importância basilar em termos de conhecimento na matéria. Nos dias de hoje, época em que interesses e vaidades tomam contornos menos nítidos e por isso menos notáveis, mas também mais traiçoeiros, eu poderia radicalizar e afirmar que não há como viver em sociedade sem a leitura da obra. Lá pela metade do tratado, Plutarco inicia um dos capítulos com o magistral título "O único meio de lutar contra o bajulador é tomar consciência das próprias falhas". Poucas vezes pôde-se observar algo tão sublime e rico de significados como o que se lê aí. É a aquiescência servil do bajulador que, em nome de seus interesses escusos, infla o ego de sua vítima e a faz cega diante da espreita de quem bajula. É ainda nesse contexto que o bajulador mantém escondido seu íntimo execrável ao mesmo tempo em que exibe a fausta aparência enganadora que seduz aos desavisados. Por outro lado, o amigo verdadeiro avisa, aconselha, dialoga, nunca deixa de ser quem é, pois sua amizade é autêntica, mas muitas vezes, é ele quem passa por invejoso e que vê mal em tudo. O bajulador sempre tenta afastar os amigos verdadeiros, tem a arma da mentira ao seu lado, aquela que melhor funciona contra os iludidos.
Um dia antes de eu escrever essas palavras, uma figura famosa do esporte brasileiro comemorou um gol exibindo uma camiseta na qual pedia que Deus perdoasse as pessoas ruins. A questão é: quem são as pessoas ruins? Enquanto alguns, que parecem não ter atentado para a ocorrência da bajulação e sem que tenham a menor noção do que é uma figura pública e ídolo de muitos no esporte, continuam a afirmar que ninguém tem nada a ver com a vida particular de outrem, sem se dar ao trabalho de analisar que há diferenças entre pessoas comuns e famosas e, mais ainda, fechando os olhos para o fato de que certas condutas podem prejudicar acentuadamente o desempenho e a imagem de um atleta, outros não fogem às críticas de caráter construtivo.
Não sou amigo de Adriano, nem serei, como também creio que seja o caso do excelente Mauro Cezar Pereira, mas sabemos nós dois que, se Adriano ainda quer ser atleta de ponta e ídolo de muitos, terá que, necessariamente, e antes de qualquer coisa, saber que não é bom nem amigo aquele que bajula.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Bibliofilia


José Mindlin, o maior bibliófilo brasileiro, faleceu no domingo (28/02), deixando um legado que é tanto material, - os próprios livros - quanto imaterial - a maneira pela qual se dava sua relação com os livros. Assim, cabe uma justa homenagem a essa personalidade que carregava consigo um respeito pela alta cultura como pouco se tem visto hoje em dia.
Ao longo de uma vida voltada ao estudo e, por isso mesmo, indissociável de seu amor pelos livros, Mindlin empenhou esforço invejável e conseguiu reunir a mais volumosa biblioteca particular do Brasil, composta por cerca de 45.000 títulos, número deveras impressionante para um colecionador. No fim da vida, ofereceu um exemplo digno do mais louvável espírito público, doando uma parte de sua coleção, aproximadamante 25.000 títulos, para a biblioteca da Universidade de São Paulo, ainda que a nefasta burocracia brasileira tenha dificultado ao máximo o processo, que durou 15 anos. Na era da virtualidade, quando alguns, apressadamente, vaticinam o fim do livro em formato tradicional, que supostamente cederá lugar ao e-book, Mindlin foi a prova viva do contrário. Depois de morto, seu legado não deve ser esquecido nunca.
Do mesmo modo que acontece com os discos no caso da música, um livro vai além das palavras e ideias que contém. Comprar um livro, como comprar um disco, é um ritual que desanuvia a mente, envolve a procura dos títulos almejados, vasculhando-se livrarias ou sebos, a apreciação da arte da capa, por mais simples que possa ser, a análise do papel, dos tipos utilizados na confecção do texto, até chegar à montagem da bilblioteca, que deve ser sempre um espaço aconchegante e convidativo ao estudo. Tudo isso mostra que ter livros é um hobby fascinante, além da leitura e conhecimento cultural que os bons títulos oferecem. É um certo fetiche, porém saudável. Mindlin dizia que tinha obsessão pelos livros, doentia até, mas que isso não prejudicava a ninguém, pelo contrário. A frieza do e-book jamais irá suplantar a prazerosa atividade de colecionar livros.
Não só por isso Mindlin merece reverências, seu exemplo vai além. Ele  não foi um colecionador qualquer, foi um grande colecionador, alguém que valorizava a alta cultura de modo absolutamente devido e, ao contrário do que possa parecer ao observador atido somente ao senso comum, ser um bibliófilo de tanto destaque não fez de Mindlin uma personalidade pedante, longe disso. O sempre arguto Daniel Piza acertou em cheio quando escreveu que ele não precisava de tom professoral para falar sobre livros, falava apenas com prazer e entusiasmo, sentimentos que não se encontram na maioria dos jovens quando o assunto é esse. É desagradável topar com gente metida a intelectual que aborda a bibliofilia com tom empolado e sisudo, que enche a boca e até faz pose para proferir o vocábulo "burguesia". Assim é que as pessoas mais novas não irão mesmo adquirir gosto por ter e ler livros.
Deixei por último a parte mais importante dos livros, sua atribuição mais específica, ou seja, a leitura. Obviamente, também nesse aspecto Mindlin é justamente homenageado. Como já salientado, ele foi um intelectual, além de bibliófilo. São duas qualidades que se complementam, de maneira que colecionar livros que não trasmitam nenhum conteúdo cultural de qualidade, faria do colecionador alguém pobre de espírito, alguém, como tantos, que não sente prazer pela leitura e pelo conhecimento, gente sem curiosidade, incapaz de se encantar pelos sentimentos, descobertas e saberes que uma leitura de qualidade é capaz de conferir. Em outra ocasião, escrevi que não há nada de mau em ler autores de narrativas como Dan Brown, J.K. Rowling, Stephenie Meyer ou Marian Keys, antes ler alguma coisa, do que não ler nada. Contudo, ficar preso somente a escritores cuja temática é mais "light", é também se autolimitar, se furtar à busca de ideias, conceitos e mensagens que proporcionem um enriquecer maior em termos de conhecimento. Por tudo que acabo de redigir, fica claro que defendo uma postura que suscite o prazer em relação aos livros, mas ler não se resume a encarar a imensurável riqueza da literatura como uma brincadeirinha qualquer.
Mindlin sabia que os livros, os bons livros, são uma preciosa janela para o mundo, portadores de um canal para o saber que permitem ao leitor enxergar além das sombras do claustro, não mais do que produtos do limite imposto pela preguiça e pela ignorância. Mindlin se foi, mas seu legado vive.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Brasil mostrando a cara

Na era das celebridades, o Brasil vira e mexe mostra a cara por meio de seu presidente, uma das figuras mais autoindulgentes, presunçosas e megalomaníacas da história. É a cara do Brasil! Claro, cabe salientar, que o hiperpresidencialismo à brasileira é em boa parte fruto do aval de parcela considerável da população do país, alienada, passiva, suscetível à retórica messiânica, ao culto à personalidade e politicamente analfabeta. Tudo isso também é a cara do Brasil!
A política externa do governo Lula é trágica e, prova de que o brasileiro é néscio nesses assuntos, vislumbra-se na medida em que os  países desenvolvidos e aqueles que realmente estão em vias salutares de desenvolvimento, não precisam de malabarismos de fachada para propagandear virtudes, como pratica o governo do PT, mas seguem uma firme e austera política de investimento em educação, cultura, tecnologia e meio ambiente. Enquanto isso, muita gente aqui se deleita com um ou outro elogio feito ao presidente, vide a famosa frase de Barack Obama e o que divulgou recentemente a imprensa de esquerda na Europa. Pergunto: como vai a educação no Brasil?; e a saúde pública? a diferença do IDH brasileiro em relação aos top, aumentou ou diminuiu?; como é visto o passaporte brasileiro no exterior?; qual a possibilidade, a curto prazo, do país se tornar um exportador de tecnologia?; como andam as políticas ambientais por aqui?
Escrevo isso pois, em tempos nos quais até mesmo o regime autocrático da Rússia, um dos mais fechados do planeta, e o populismo argentino proferem críticas ao governo do Irã, iniciando um evidente distanciamento em relação a Ahmadinejad, o negador do holocausto que quer varrer Israel da face da Terra, Lula se aproxima do déspota cada vez mais. O que estaria por trás de algo que é aparentemente inexplicável? A leitura do excelente artigo de Andrés Oppenheimer, publicado nesse domingo (28/02), no Estado de São Paulo, oferece pistas interessantes e intrigantes.
Não contente em estender as mãos ao governo iraniano, Lula acaba de visitar a ilha-quintal do tirano-fóssil Fidel Castro. Não só não há motivo plausível algum para prestigiar uma ditadura que dura 51 anos (Lula visitou o governo cubano e confraternizou alegremente com os Castro, não foi uma visita ao país Cuba, Lula não dialogou com a oposição cubana), como o pior dos momentos foi escolhido para tanto, momento em que a morte do dissidente e ativista democrático Orlando Zapata estava na ordem do dia. Quase tão execrável quanto um governo ditatorial que mantém presos políticos e viola os direitos humanos há cinco décadas, num país em que um democrata morre após greve de fome, é o fato de Lula ter se omitido completamente quando questionado sobre o assunto. Uma postura vergonhosa, que endossa as práticas ditatoriais de Fidel. Péssimo para a imagem do Brasil junto à opinião pública externa, mais uma pixotada diplomática, depois dos atletas cubanos que pediram asilo político para o governo do PT em 2007, algo prontamente negado e seguido da rapidíssima extradição de ambos para a ilha. Enquanto isso, o terrorista Battisti se esbalda debaixo das asas de Tarso Genro e conta com a benevolência de Lula.
O que mais falta para que tanta gente nesse país perceba a verdadeira índole do Partido dos Trabalhadores? Um partido político que chuta para longe todas as convenções internacionais a respeito de diplomacia e direitos humanos, mantendo postura absolutamente incoerente em tal contexto, ao mesmo tempo que lança um documento de viés nitidamente autoritário, um franksteinzinho eufemisticamente travestido de Programa Nacional de Direitos Humanos, recheado de medidas que vão na contramão do desenvolvimento e da democracia. Programa de fachada sorridente e sombrio conteúdo interno, inconstituicional e autoritário. Não causa espanto se deparar com a declaração de Lula, deturpando a seu bel prazer os conceitos políticos e afirmando, quando do lançamento da candidatura de Dilma Roussef à presidência, que ela lutou e arriscou a vida pela democracia quando guerrilheira. Só um alto grau de estupidez pode fazer acreditar que a guerrilha no Brasil lutava por democracia apenas porque tentava derrubar os milicos. Lutavam contra uma ditadura para implantar outra. Milicos e guerrilha: distintos no conteúdo, iguais na forma, resumindo, farinha do mesmo saco! E, contraditório como sempre, pois nulo em conhecimento de teoria política, Lula vive a enaltecer muitas das práticas que viscejavam no governo militar. Basta prestar um mínimo de atenção para não se deixar iludir por um governo pródigo em bravataria.
Vale terminar lembrando que o jornal espanhol El País, aquele mesmo que elogiou Lula em 2009, concedendo-lhe o título de personalidade do ano, agora nesse início de 2010 mudou o tom e criticou o presidente brasileiro por sua omissão sobre o caso Zapata. Acorda Brasil!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A alimentação e a vida na Terra


Na semana passada, o Bom Dia Brasil, da Rede Globo, exibiu uma reportagem que abordou a ameaça à culinária japonesa em face do risco de extinção do atum, iguaria principal no preparo do sashimi. Em dado momento, um chef oriental foi entrevistado e afirmou que caso não pudesse mais preparar o prato, se sentiria imensamente frustrado, pois uma tradição estaria sendo encerrada. Essa reportagem traz um claríssimo exemplo de como uma questão ampla, com conexões éticas e ecológicas, é geralmente tratada de forma absolutamente simplista, evidenciando a estupidez e o espírito mesquinho de tantas pessoas. Em momento algum questionou-se a razão que vem promovendo a extinção do atum, muito menos a menção ao fato de que não se trata somente dessa espécie. O foco foi apenas a culinária em questão, não a vida na Terra.
Não é necessário ser um grande conhecedor de Biologia para saber que a pesca comercial, que envolve não somente o atum, mas uma vasta quantidade de espécies marinhas, tem gerado uma pilhagem brutal nos oceanos e contribuído acentuadamente com a destruição desses ecossistemas. O modo como esse tipo de pesca é realizado, com a utilização de imensas redes que promovem a maximização da captura, retira da água um número de peixes e outros seres marinhos, muito maior do que a natureza estaria preparada para, digamos, se "autorregular". Além do que é pescado para ser destinado ao consumo humano, a pesca comercial é responsável pela morte de criaturas como golfinhos e tartarugas marinhas, que costumam se enroscar nas redes. Quando sobrevivem e são devolvidos ao oceano, esses animais apresentam na maioria das vezes, ferimentos graves que fatalmente gerarão morte futura, até lá, prolongam-se a dor e o sofrimento. Atrocidade causada por aquilo que as pessoas comem. Peixinho frito, camarão na moranga, pirão... Você gosta? Você está preocupado com seu sashimi? Se respondeu afirmativamente, ao menos pare um pouco para refletir.
Como se nota, a questão vai muito além da ameaça à culinária japonesa. A pesca comercial, aquela que abastece os mercados e que faz chegar na sua mesa o peixe que você consome, não se resume à extinção do atum e ao fato de você ter que abrir mão do sashimi, é muito mais do que isso, é uma tragédia que põe em risco toda a vida no planeta. A destruição dos ecossistemas marinhos acarretaria num desequlíbrio total da cadeia alimentar e faria com que microorganismos realizadores de fotossíntese, esses sim os verdadeiros "pulmões" do mundo, também fossem extintos. Há um número considerável de pesquisas sérias mostrando que se a pesca comercial continuar a ser realizada, dentro de meio século a vida nos oceanos pode entrar em colapso. Daí em diante, a vida fora dos oceanos também estaria correndo seríssima ameaça.
No Brasil, até há não tanto tempo, comer peixe crú era considerado um hábito nojento. Bastou a culinária japonesa se disseminar entre o público "descoladinho" e virar cult para cair cada vez mais no paladar de muita gente. Ou melhor, possivelmente não se trate de uma questão de paladar, mas sim de aderir às modas. Pode ter certeza, existem alimentos muito mais gostosos do que essa porcaria dessa moda ridícula de peixe crú. E certamente alimentos que não causam desequilíbrios ecológicos, muito pelo contrário. Não é necessário que o pobre atum deixe de existir para pôr abaixo o consumo de sashimi, basta pensar.
Agora, se você não é um esquimó ou membro de alguma tribo indígena, que pesca a partir da utilização de meios artesanais e apenas para a subsitência, abula o consumo de peixes em geral. Vá ainda além, poupe vidas, acabe com o sofrimento e com a dor dos animais, adote uma dieta integralmente vegetariana. Um pingo de racionalidade faz perceber facilmente que uma relação harmônica entre animais humanos e não-humanos é muito mais saudável, contribui com a continuidade e com a qualidade da vida na Terra e nos faz menos violentos e menos destruidores. Tudo isso, obviamente, vale muito mais do que uma simples questão de paladar.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Os absurdos nossos de cada dia



No comecinho desse ano, a imprensa esportiva brasileira teve surtos de euforia com duas ou três boas atuações de Ronaldinho Gaúcho no Campeonato Italiano. O jogador não realizava nada de minimamente significativo desde antes da Copa de 2006, competição na qual foi um dos comandantes do verdadeiro circo que se passou durante a fase de preparação. Quase quatro anos depois, eis que ele aparece novamente fazendo gols e enchendo os olhos dos comentaristas. Claramente, os programas esportivos não têm muito o que abordar nos primeiros dias do ano, fato que contribuiu ainda mais para a babação de ovo em relação a Ronaldinho. Veio o derbi Inter x Milan, partida que poderia confirmar sua ressurgência; resultado: vitória do time de Mourinho por 2x0. Ronaldinho, sumido na maior parte do tempo, só apareceu quando perdeu um pênalti. Até aí, nada de mais, até que nessa semana o jornal italiano Corriere della Sera publicou reportagem na qual apurou que Ronaldinho havia bancado uma noitada com direito à muita bebida e garotas para ele e amigos num hotel de luxo em Milão. Tudo isso na véspera do derbi. Há sempre aqueles que saem em defesa desse tipo de atitude alegando que a vida privada do jogador não interessa a ninguém. Pura tolice, pois não se trata disso, mas sim de uma questão de profissionalismo. Assim como outras celebridades que pecam pelo ridículo do estrelato narcisista e pela ausência completa de bom senso, Ronaldinho Gaúcho é um péssimo profissional. E ainda tem gente que quer o jogador na Copa de 2010... haja memória curta!

Estação do Verão, sol, calor, ahhh, tudo que delicia o brasileiro! E também que provoca incontáveis transtornos em cidades com problemas crônicos de falta de infraestrutura. Afora o calor insuportável, em quase todos os fins de tarde caem as famigeradas pancadas de chuva. Enchentes, ventanias, ruas que se tornam rios, prejuízos diversos, trânsito ainda mais caótico do que já é normalmente, cortes de energia, pânico, árvores despencando, morte. Desde que me conheço por gente, observo a mesma história nesses meses que abrem o ano. Depois de tanto oba-oba com obras como piscinões ou ampliação da calha do rio Tietê, o caos continua idêntico, talvez pior.  A verdade é que num país como o Brasil, o poder público corrupto e inoperante não realiza nem mesmo o básico, como podas nas árvores ou manutenção da rede de fornecimento de energia. Não há como aceitar que no século XXI, na maior cidade do país, uma árvore caia em plena Ponte das Bandeiras e mate uma pessoa. A vida nas grandes cidades se torna a cada dia mais inviável, ao mesmo tempo em que a especulação imobiliária prossegue avançando assustadoramente, significando mais trânsito, mais ilhas de calor, mais impermeabilização do solo, mais demanda por energia...
Só nos últimos dez dias, é a segunda vez que o bairro onde moro e outros da região Oeste da capital paulista, sofrem com prolongada falta de energia. Somadas as duas vezes, foram 13 horas às escuras. Que país é esse? País do futuro? Há quem propale essa ladainha há décadas! Futuro distante esse! É típico do ufanismo e da falta de seriedade de boa parte da população brasileira, projetar idílios anacrônicos, enquanto a acomodação e o improviso rolam soltos no presente, que tanto pede ao menos um espírito crítico diante da esbórnia tupiniquim. Em tempo: tudo ocorrendo no mesmo momento em que Lula deve ajudar o ditador Hugo Chávez na crise energética da Venezuela...

Ontem, 04/02, o jornal Folha de São Paulo divulgou matéria em que apresentava os gastos de verba pública na construção de estádios para a Copa de 2014. Como já vêm apontando aqueles que não se ufanam com eventos que nada irão acrescentar ao desenvolvimento do país, 94% do dinheiro a ser gasto virá dos cofres públicos! É de pasmar! Como se não bastasse, os estádios que irão sugar mais verba são justamente aqueles que mais farão uso do dinheiro do contribuinte. A se repetir, e é o que tudo indica, o que já ocorreu no Pan 2007, os gastos devem aumentar ainda mais. E isso diz respeito apenas à Copa, depois tem a Olimpíada! É a cara do Brasil!

sábado, 30 de janeiro de 2010

Vocábulos demoníacos


No círculo das Humanidades existem alguns vocábulos cujo uso enseja um ódio profundo, seus significados - quando deturpados - têm o poder mágico de atribuir tudo o que de mais abjeto, sórdido, desprezível e maléfico pode haver em nosso mundo. As pessoas que se aferram a dogmas pseudocientíficos, que na realidade, como frisou François Châtelet, não passam de religiões mundanas e laicizadas, são aqueles que conferem essa aura demoníaca a tais vocábulos. Cabe destacar que o conjunto dessas palavras é geralmente atribuído ao corpo de ideias de uma pessoa ou de grupos que fazem parte da sociedade, compondo na mente dos dogmáticos o estereótipo pronto e acabado do crápula. Partindo dessa reflexão, o crápula que aqui escreve, aborda a seguir alguns dos vocábulos do demônio.
Atualmente, a palavra tecnologia é bastante recorrente, pois vivemos em uma era de rapidíssimos avanços na ciência que, por sua vez, faz empregar técnicas ultra sofisticadas no processo produtivo, resultando então, como em um círculo, em produtos dotados de grande carga tecnológica. Obviamente, o uso que o homem faz da tecnologia pode ser bom ou mal, o que depende de inúmeras circunstâncias. Todavia, os dogmáticos, invariavelmente, veem na tecnologia um elemento de destruição dos (supostos) paraísos idílicos das sociedades tradicionais pré-modernas. Esse maniqueísmo está presente em filmes como Robôs ou o badaladíssimo Avatar. O curioso é que essas produções usam e abusam da tecnologia. No fim das contas, é lamentável que muitas pessoas não vislumbrem a que ponto a tecnologia se tornou essencial na preservação do meio ambiente, dela dependendo diretamente as pesquisas para desenvolvimento de materiais sintéticos que dispensem recursos da natureza, a busca por fontes limpas de energia e combustíveis não-poluentes, o melhor aproveitamento e economia da água ou até a construção de grandes estruturas refletoras que amenizariam o impacto da crescente atividade solar sobre a Terra, como indica o paleontólogo Peter Ward. Viva a tecnologia!
O vocábulo liberalismo, que nos últimos tempos tem aparecido no dicionário dogmático travestido de neoliberalismo, é sem dúvida um dos termos que mais suscita o ódio entre aqueles que gostam de atribuir a si próprios o apanágio da luta pela igualdade e pela justiça. Assim, o (neo)liberalismo seria um paradigma defendido por quem pratica a exploração econômica, não liga para a desigualdade e quer que o Estado desapareça por completo. Nada pode ser tão tolo e pueril. Essa trupe se esquece do básico, isto é, liberalismo, como fica claro pela própria etimologia do vocábulo, é uma filosofia que defende a liberdade, tanto no plano do indivíduo, como no da sociedade. O anátema do liberalismo é o autoritarismo. Nada mais. Ao contrário do que faz pensar o senso comum, o liberalismo clássico, da escola de Hume, Locke e Tocqueville (excluo aqui o pensamento radical-egoísta-anárquico-libertário dos seguidores da escola austríaca e de Ayn Rand) confere importantes funções ao Estado e jamais dispensa as leis da sociedade como forma de ajuste entre interesses individuais e coletivos. Sejamos mais liberais!
No que tange ao espectro político, cuja forma mais conhecida, ESQUERDA - CENTRO - DIREITA, é algo já ultrapassado e sem grandes significados, mas que ainda povoa fortemente o imaginário dos dogmáticos, o termo direita sempre traz consigo um perfeito monstro, um burguês reacionário, elitista e preconceituoso, como adora bradar esse pessoal. Chega a ser cômico. Assim como há tempos existe uma esquerda progressista, que já abandonou o dogma juvenil da revolução socialista, que é uma esquerda que valoriza a verdadeira ciência, que acredita na democracia e no diálogo, também há uma nova direita, embora seja um pouco mais difícil encontrá-la, que deixou de lado os preconceitos de classe, a homofobia, os dogmas do catolicismo e que também é científica e democrática. O esquematismo simplista do tradicional espectro político não permite avaliar que a complexidade das ideias político-filosóficas vai bem além do maniqueísmo dogmático, bem como não é capaz de ver que a existência da nova direita é positiva para reforçar a agenda da esquerda que superou a puberdade.
Para encerrar, a palavra que mais faz as hordas da “bondade e da justiça” agitar as foices, ele, o famigerado, o detestado, o demoníaco capitalismo! O pensamento dogmático ainda não conseguiu ir além da década de 1840! Essa turma de arautos ainda se orienta a partir dos preceitos do mais vulgar e ultrapassado marxismo, ainda acredita piamente que o sistema econômico é um monolito homogêneo e que, por si só, coordena todo o restante das dimensões sociais. Segundo esse aferrado dogma, sempre decorrerão do capitalismo, a exploração e a desigualdade. É um reducionismo que constrange qualquer um que seja dotado de um pouquinho a mais de sofisticação intelectual. Até mesmo para muitos marxistas, já se tornou óbvio há anos que dimensões sociais como a cultura, a política e a mentalidade se relacionam com a economia não mais a partir do esquema no qual a base econômica direciona por completo a superestrutura. Dessa forma, o funcionamento do sistema econômico não é independente de outros fatores que perfazem o todo da sociedade, mas varia também de acordo com os arranjos que se formam no âmago dessas dimensões todas. Existem assim, tipos diferentes de capitalismo, que podem ou não funcionar bem de acordo com o arranjo sociocultural. Pode-se objetar que o socialismo também não é um monolito, o que tem boa chance de ser verdade, entretanto, a maior parte dele ainda permanece arraigado na intolerância inerente às ideias de Marx, ainda que possa haver exceções dentro do próprio marxismo. Pensando assim, não há dúvida de que se o capitalismo fosse analisado a partir de um esquema não-rígido, livre de ideias pré-concebidas e moldadas com base numa única matriz, isso traria um ganho inestimável para as sociedades humanas.
Palavras são apenas palavras, o conceito que trazem consigo, e que vai além do mero verbete, assim como as mentes humanas que as empregam, é que podem abrir terreno para análises proveitosas. De outra forma, se caso a força dos dogmas obscurecer a razão, serão os preconceitos ideológicos que continuarão a viscejar e dar margem à construção de estereótipos simplistas, frutos de uma visão de mundo aferrada à religião mundana.