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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Lula, Maluf e o gramscianismo que dá as cartas no Brasil


E eis que Lula e Paulo Maluf estabeleceram uma aliança política para a campanha 2012 pela Prefeitura da cidade de São Paulo. E eis que muitas pessoas agora se vejam surpreendidas pelo fato. Mas por que tamanha surpresa? Porque quase ninguém entende nada a respeito do gramscianismo.
Faz já um bom tempo que a figura de Maluf é associada com aspectos negativos, tanto que o outrora político de várias vitórias eleitorais caiu no ostracismo. Daí justamente ele ter costurado essa aliança com Lula, uma tentativa de ocupar maior espaço na campanha do que permitiria o insignificante PP do qual é membro. A política brasileira não conhece escrupulosidade, nem o gramscianismo. Ainda que Maluf nunca tenha sido gramsciano, mas tão somente um retrógrado tacanha (jamais um conservador do tipo moral, o que o teria resguardado dos descaminhos políticos e da própria aliança com Lula), alguém que, lançando uso de um discurso progressista somente na aparência, conquistou ao longo do tempo um eleitorado igualmente tacanha, crente que basta abrir canteiros de obras para garantir o desenvolvimento de uma cidade, ele encontrou em Lula um instrumento sem igual no estabelecimento de diretrizes gramscianas e, assim sendo, um jeito eficientíssimo de se ajeitar no jogo de interesses que dá o tom da política no Brasil atual.
Nas décadas de 1980 e 1990, quando as ideologias partidárias eram bem mais definidas do que hoje, momento em que praticamente deixaram de ser verificáveis, Lula e Maluf estavam situados um do outro a uma distância grande no espectro político. Naquela época ambos não teriam se unido. Naquela época, Maluf ganhava eleições, Lula não. O tempo passou, Lula cumpriu dois mandatos na presidência da República, fez de Dilma sua sucessora no poder máximo da nação e, se a saúde permitir, volta para disputar o pleito presidencial de 2014, tendo chances enormes de obter o terceiro mandato.
Mesmo com todas as vitórias do passado, Maluf jamais poderia ter chegado sequer próximo da dimensão que Lula tomou. O que explica uma virada dessas? É evidente, embora nem sempre claro na mente da população, que nos últimos vinte ou trinta anos o cenário político brasileiro se transformou profundamente; o Brasil se tornou um país de massas culturamente ignorantes e, enquanto o PT encontrou a fórmula ideal para seduzí-las e tornar realizável um programa político essencialmente gramsciano e populista e, tendo chegado a isso, mantê-las sob seu jugo, Maluf permaneceu dormente e preso a um tipo de discurso completamente alheio a tudo aquilo que estivesse além das velhas classes A e B do período da ditadura e dos anos posteriores a ele.
Os partidos de direita que deram origem a figuras políticas como Maluf hoje não existem mais, a não ser em suas excrescências nanicas e tornadas fisiológicas. O grande erro da direita brasileira na esfera partidária sempre foi sua nulidade em termos filosóficos, o que condenou-a permanentemente à incapacidade de defender o tipo correto de conservadorismo. A esquerda se aproveitou desse grave lapso e passou a se vestir com o manto da santidade, dado que o conservadorismo tacanha, por não tratar de temas da modernidade, tais como ciência, tecnologia, meio ambiente, direitos das minorias e urbanização, pode ser facilmente acusado, muitas vezes corretamente, de alienado e preconceituoso. A esquerda procura vender o rótulo de "santa" até hoje, o oposto absoluto do que ela é, contudo, seu discurso gramsciano engana grande quantidade de gente. Mais ainda do que qualquer característica que manteve em seu perfil, a esquerda soube interpretar as mudanças na sociedade brasileira e deu o passo decisivo que lhe fez alcançar o poder maior no país. Do leninismo ao gramscianismo, o PT deixou de ser um partido de meros congressistas para se tornar a legenda que tornou Lula o que ele é hoje, o político mais influente do Brasil, aquele que é responsável por ditar os rumos da nação de 2003 para cá. Dos partidos de esquerda leninistas no Brasil, só restam nanicos, assim como ocorre com a direita, já na vertente gramsciana, cujo maior mentor intelectual é sem dúvida nenhuma o sr. José Dirceu, o PT se fortaleceu muito acima de todos os outros.
Conforme a sociedade brasileira foi se transformando mais acentuadamente nos últimos quinze ou vinte anos, as lideranças petistas começaram a descobrir que a linguagem direta e reta, mas ao mesmo tempo repleta de referências históricas e políticas do marxismo-leninismo, e a própria ideia de uma revolução comunista aberta e violenta não poderiam encontrar apoio das massas distantes dos grandes centros, tão diferentes de um proletário saído das descrições de Marx, quanto os gregos e troianos da epopeia homérica. Em uma sociedade de massas, contar apenas com a adesão de intelectuais uspianos e puquianos, de estudantes exalando hormônios da juventude e de uma classe de trabalhadores fabris também ela já bastante diferente do proletariado tradicional, significava renunciar à possibilidade de chegar ao poder. Era preciso seduzir o homem do sertão, o povo das periferias do Brasil afora, um estrato populacional inculto e sedento de migalhas, gente que jamais tomou conhecimento de qualquer coisa que Marx tenha escrito. O gramscianismo, apurado com altas doses de populismo latino-americano se fez o ingrediente certeiro na conquista das massas. Assistencialismo ao invés de revolução, metáforas futebolísticas no lugar de discursos pautados em questões teóricas e economicistas. O Brasil das massas é o Brasil das Cheias de Charme, é o Brasil de um certo escrete de Itaquera, ícone do establishment no quesito desportivo (qual política de dominação não requer um braço no esporte popular?!), é o Brasil do pão e circo.
Ao trazer Maquiavel para o campo do marxismo, Gramsci inverte a lógica da revolução, que não se faz mais de fora para dentro, com revolucionários armados nas ruas, mas de dentro para fora, com a classe política cooptada (da qual Maluf faz parte) e com o sistema institucional sendo destruído de maneira lenta e silenciosa, porém contínua; o fisiologismo, o apadrinhamento, a corrupção e as alianças espúrias são retrato fiel desse panorama. A imprensa livre, da qual sou defensor ferrenho, não teve peito suficiente - salvo raras exceções - para denunciar os objetivos do PT antes das eleições de 2002, quando ainda havia tempo, tampouco o PSDB pós FHC, perdido nas indefinições e limites de sua social democracia. Tanto um como o outro, em última análise, se deixaram dominar pelo respeito pusilânime ao politicamente correto e pelos resquícios de esquerdismo travestido de centralismo light de inúmeros de seus representantes. Lutar contra o PT hoje é bem mais difícil e a aliança entre Maluf e Lula, o comunicador messiânico de Gramsci, que "torna o real inteligível às classes subalternas", é só mais um capítulo dessa tragédia já bastante consolidada.

*PS: me caso no sábado, dia 23/06 e viajo em seguida; o blog ficará sem postagens novas por cerca de vinte dias ou mais; até a volta!

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Impostolatria que só aumenta


Um leitor me pediu para comentar a matéria contida no link abaixo. É o que faço na sequência.


Devo afimar que não se trata de nada surpreendente, pois a medida configura-se tipicamente petista: uma tentativa estúpida de restringir o comércio aumentando os impostos, como se estes já não incidissem brutalmente, não apenas sobre produtos importados, diga-se de passagem, e fazendo uso do argumento protecionista.
O incentivo ao comércio jamais será defendido pelo PT, partido de claras intenções nacional-populistas. Se nem mesmo com relação ao pífio MERCOSUL, que muitas vezes é retoricamente enaltecido por Dilma Rousseff, o governo adota políticas econonômicas capazes de favorecê-lo, o que dirá no que se refere a transações comerciais difusas e fora do âmbito oficial, sobretudo quando envolvem o que a ideologia petista designa por "países ricos"? De resto, o básico é esquecido, isto é, uma maneira eficaz de incrementar a força da indústria nacional é submeter seus produtos à concorrência, contudo, o tema da competitividade lamentavelmente tem passado longe das discussões acerca da economia no século XXI, principalmente em países nos quais os ideólogos do atraso se encontram aos borbotões.
Não há dúvida de que o argumento protecionista, - protecionismo tal que Dilma critica às vezes com razão; pimenta nos olhos dos outros é refresco! - nesse caso não só não se aplica, como é também mais uma balela desse (des)governo. Se o objetivo é aquecer a economia nacional, reduza impostos e incentive o consumo saudável, já diz desde sempre o bê-abá econômico. O PT faz o contrário e, como poderia ser de outro modo se a intenção real dos mandatários é bancar o populismo assistencialista e os eventos desportivos de 2014 e 2016 financiados com dinheiro público, marca característica de todo governo autoritário?! Dois parênteses que vêm a calhar nesta discussão: primeiro, há anos o partido que detém o poder declara ter reduzido a pobreza, mas recentemente Dilma anunciou a ampliação dos ditos "programas sociais", o que é uma contradição; segundo, até pouco tempo o brasileiro perdia o equivalente a quatro meses de salário pagando impostos, estatística já absurda, ainda mais em face do retorno praticamente zero nos serviços prestados ao cidadão, porém, como se não bastasse, a coisa ficou pior; de acordo com pesquisa realizada pelo IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário), agora são cinco meses de rendimentos subtraídos pelos cofres governamentais. E há quem seja obrigado a vender o almoço para comprar o jantar achando tudo uma maravilha... morra-se com um barulho desses!
A produção industrial brasileira amarga números bastante ruins já não é de hoje, resultado óbvio diante de uma legislação trabalhista jurássica, quase por completar sete décadas de existência, de uma carga tributária sufocante e da carência criminosa de investimentos em tecnologia e logística. A correção destes problemas não seria nenhum bicho de sete cabeças se o país possuísse um governo decente, mas com este que está aí e com a catarse festiva do Zé Povinho, terei que continuar lançando mão do triste brado: É A CARA DO BRASIL!

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Grafite a incoerência e seja um bobo descoladinho


Em pleno aguaceiro do feriado de Corpus Christi me deparei com um grupo de jovens trajando roupas de cores vibrantes e estampas floridas, um tanto quanto sujas, saídas diretamente da década de 1970. Debaixo de muita chuva, todos eles estavam grafitando o muro de um hospital público que ficou fechado por anos e agora está sendo reaberto; horas mais tarde passei novamente pelo local e notei que a singela manifestação artística havia sido terminada. Em meio a uma série de desenhos confusos, pude ler em letras garrafais: "nem capitalismo liberal, nem ditadura do proletariado, mas sim ao socialismo libertário". Pode até ser encarado como algo sem importância, como uma brincadeira de jovens ingênuos possuídos pela atividade hormonal e pouco atentos à diferença entre utopia e realidade, mas não há como deixar de refletir a respeito do desconhecimento histórico, político, econômico, filosófico e cultural que assalta a mente de jovens que provavelmente são estudantes de Humanas e que servem de amostra para o tipo de mentalidade predominante no interior das academias brasileiras.
O sociólogo de esquerda Zygmunt Bauman declarou recentemente que estamos vivendo uma profunda revolução cultural. Não sei exatamente o que ele quis dizer com isso, pois não indicou quais são as mudanças que observa, todavia, se existe alguma alteração de paradigmas no mundo de hoje, certamente não é no âmbito do pensamento político, no qual ainda se sente o cheiro rançoso do ópio marxista, misturado, é verdade, com certas aberrações, também elas afloradas no terreno da esquerda, o que no entanto não autoriza quem quer que seja a vislumbrar que está em curso uma revolução cultural. Desse modo, não deixa de ser significativo observar que nossos jovens floridos rejeitam o marxismo tradicional e não mais acreditam na ditadura do proletariado. Todavia, justamente nesse ponto temos uma incoerência que invalida o próprio pensamento de quem descarta Marx ao mesmo tempo que clama pelo socialismo.
Como entender o tal "socialismo libertário" dos grafiteiros? Seria o socialismo de um Graco Babeuf, que Marx e Engels classificaram pejorativamente como utópico? Pouco crível, dado que o ideário de Babeuf mal é citado nas universidades atualmente. Seria então uma concepção pós-moderna anti-capitalista advinda da Escola de Frankfurt e de Foucault? Mais provável, porém, essa linha de pensamento tem mais afinidades com o anarquismo do que com o socialismo e dá ênfase à ação individual ao invés do coletivo. É de se perguntar se há possibilidade de conceber o socialismo descartando Marx, já que foi a partir da obra do pensador alemão que a tradição esquerdista concebeu todo o seu programa político desde então. Embora Marx quase nada explique acerca do funcionamento da sociedade socialista, algo que chega a ficar bem mais claro em Babeuf ou Saint Simon, é ele a referência buscada em nove a cada dez vezes que se proclama o termo "socialismo". Em Marx, a etapa socialista significa a ditadura do proletariado, portanto, quem acredita em socialismo é mais autêntico se o proclamar com base no autor do Manifesto Comunista e de O capital.
Ninguém pode conceber o que é "socialismo libertário" por ser simplesmente algo que nunca existiu (e nem poderá existir), pois se trata apenas de um non sense político que beira as raias da comédia. Socialismo pressupõe necessariamente centralização e controle, logo, está na contramão do termo "libertário", este que podemos entender corretamente como "anárquico". O abismo entre Marx e Bakunin sempre permanecerá intransponível, conclusão que pode ser facilmente obtida por meio da leitura de Edmund Wilson. Não chega a ser um autor tão confidencial, mas em vista da incoerência dos grafiteiros, supõe-se com tranquilidade que nunca o leram superficialmente, sequer.
Aqueles que defendem a liberdade como o bem supremo da existência humana, os liberais da tradição humanista, jamais precisarão substituir o termo por alguma de suas deturpações, como "libertário". Libertarianismo é o mesmo que anarquismo, como expus anteriormente, uma concepção humanitarista que remete a Rousseau e ao caos que invariavelmente derivou de todas as experiências históricas que entendem a liberdade com um dom gratuito da natureza, pensamento radicalmente oposto à tradição humanista que inicia com Aristóteles no Ocidente, ou ainda bem antes no Oriente de Buda e Confúcio, aquela para a qual não pode haver liberdade que não seja necessariamente construída no âmbito da interioridade humana, atrelada à moral e à responsabilidade. Em última análise, o anarquismo, ainda que possa ser considerado bem intencionado a princípio, só pode levar ao inverso da liberdade. Mais uma incoerência dos nossos grafiteiros.
Evidentemente, não poderia faltar na manifestação dos grafiteiros descoladinhos o viés anti-capitalista, tampouco a incompreensão quanto ao liberalismo. Foram várias as ocasiões nas quais aqui mesmo condenei com veemência o capitalismo massificado que se tem visto nos dias de hoje. Justamente pelo fato de ele não ser nada liberal. Só a surrada ideologia da velha esquerda que representa o establishment acadêmico brasileiro pode assumir que o capitalismo atual tenha algo que permita associá-lo ao liberalismo. Atualmente o capitalismo liberal vigora somente na Grã-Bretanha, na Alemanha e na Oceania. Nos países nórdicos, antes que algum socialista desavisado queira fazer diatribes, ainda que o Estado seja atuante no que realmente deve ser, sobra campo de ação para as empresas. Nenhuma nação incluída dentre estas tem hoje papel de liderança máxima na globalização. Nos grandes pólos de poder político-econômico da atualidade, inclusive nos EUA das mega-corporações, o que se tem é a aliança de burocracias empresariais com o governo e com a classe política em geral. Trata-se de uma estrutura centralizadora que, assim sendo, não faz restar espaço para o empreendedorismo e para a competição, pilares da economia liberal. Ora, o que pode restar da livre iniciativa em um jogo que favorece o conluio entre corporações e poder estabelecido?! A economia atual preponderante pode ser caracterizada como um capitalismo de Estado, forma de organização muito próxima da centralização exigida pelo socialismo e totalmente distante da concepção econômica liberal. Sempre vale lembrar que liberalismo exige liberdade tanto na política como na economia.
No fim de tudo, é impossível saber qual o ideário político dos grafiteiros floridos, exatamente em virtude da completa falta de conhecimento que exibem e que os leva a tamanhas incoerências. Socialistas desejando liberdade: "casa de ferreiro, espeto de pau". Será essa a profunda revolução cultural que diz enxergar Bauman?! A que resultados pode levar o mais exacerbado non sense em matéria de história, política, economia, filosofia e cultura? Talvez não deixe aberta nem mesmo a possibilidade de grafitar muros. Sistemas autoritários não veem com bons olhos manifestações descoladinhas carregadas de hormônios juvenis.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Comissão da Hipocrisia


A tal Comissão da Verdade teve sua instauração anunciada pelo governo federal e causou grande barulho perante boa parte da sociedade. A justificativa que mais enaltece a necessidade da Comissão bate na tecla do direito à memória e da consolidação da democracia no Brasil. Sinto informar aos desavisados - e estes são tantos! -, mas não passa de lugar comum do discurso, balela das mais hipócritas.
No que tange à questão da memória, ainda que a atuação da Comissão possa resgatá-la em alguma medida - e cabe salientar que a modificação da proposta inicial que contemplava somente a apuração dos crimes cometidos pelos militares, escamoteando as ações, também elas totalmente criminosas, dos revolucionários esquerdistas, foi de extrema importância -, é algo que a pesquisa histórica independente poderia realizar com com competência igual ou superior, caso fosse mais incentivada no país e se houvesse melhor estrutura oferecida aos historiadores.
Soa estranha a suposta tentativa de resgate da memória utilizada como retórica em um país que sabidamente não guarda lugar de respeito e de destaque a tudo aquilo que tem capacidade de fazer o passado reverberar. Inúmeros monumentos públicos brasileiros sofrem com o abandono completo e são diariamente alvos do vandalismo; uma quantidade incontável de registros históricos e arqueológicos nem de longe dispensam a atenção e o cuidado devidos, zelados, quando minimamente possível, no mais das vezes graças ao improviso e à iniciativa individuais; arquivos oficiais sobrevivem com pouca verba, carentes de tecnologia, infraestrutura e alocados em instalações precárias. Onde está o respeito pela memória nestas situações recorrentes, que abrangem recortes históricos tão mais extensos do que o escopo da Comissão?!
Quando se fala na ação da Comissão como contributo da consolidação democrática, a estupidez se revela ainda pior. Apenas o analfabetismo político pode levar alguém a crer que um grupo ínfimo de pessoas designado pelo governo seja capaz de promover alicerces mais sólidos para a democracia.
Democracia que funciona bem é sinônimo de cultura democrática e cultura democrática é algo que só pode ser gestado na própria sociedade ao longo do tempo. Democracia de fato se faz com o cidadão inserido politicamente, no cotidiano e na comunidade, em debate permanente com outros cidadãos, com as instituições e órgãos do governo. Em um país no qual Aristóteles, Tocqueville ou Bobbio são meros desconhecidos, é difícil supor que se esteja perto de alguma consolidação democrática. Em uma nação muito mais de súditos que se deixam levar pelo canto de sereia do populismo do que de cidadãos cônscios de deveres e de direitos, democracia consolidada ainda não passou de miragem distante. Perante uma população que concedeu o poder à corja petista mais duas vezes após o escândalo do Mensalão e no qual a corrupção corre solta - e depara-se aqui com uma constatação que não por acaso também tem a ver com (falta) de memória -, a democracia não é um valor tido em boa conta. Em um Brasil de universidades assoladas por visões de mundo falhas e aberrantes, com professores e alunos que ainda se prestam a crer nos marxismos e foucaultianismos da vida, a democracia é vista como uma "manipulação burguesa". 
É correto afirmar que a atuação da Comissão pode dar voz aos que foram perseguidos pela ditadura militar, e isso seria um elemento de democracia, mas já se sabe o que pensavam os opositores do regime, uns para o bem, outros, aqueles guerrilheiros que só desejavam a derrubada de uma ditadura para implantar a de um tipo diverso, mas igualmente ditatorial no lugar, para o mal. E depois de quase trinta anos do fim do regime militar e do início da imperfeita democracia brasileira, se existe um direito que todo brasileiro possui é o de defender qualquer credo político. É preciso uma Comissão da Verdade para resguardar tal direito?
À guisa de encerramento e trocando em miúdos, a Comissão da Hipocrisia não é nada além do já conhecido histrionismo autoindulgente do governo federal e de um joguete ideológico da velha esquerda, aquela que não tem moral nenhuma para falar em democracia. Em um país cujo governo discursa a favor da democracia e dos direitos dos oprimidos ao mesmo tempo que oferece asilo político a um terrorista assassino do porte de Cesare Battisti, a hipocrisia assalta a verdade. Resultado prático: consumo de verba pública. É a cara do Brasil!

terça-feira, 15 de maio de 2012

O historiador pedante


O intelectual é aquele que deve gerar e discutir o conhecimento para colocá-lo a serviço da sociedade. Está é uma apreciação simples e óbvia, mas frequentemente esquecida por muitos dos ditos intelectuais, especialmente pelos historiadores, que parecem ter tomado o primeiro lugar dos sociólogos na escala do pedantismo. Por que isso acontece? É difícil responder com precisão, mas pode-se arriscar algumas hipóteses.
Antes de mais nada, e nisso o perigo é tentador para todos os cientistas sociais, em nações subdesenvolvidas, nas quais boa parte de seus habitantes ainda sofre do complexo de colonizado, paira a ideia de que somente o pensador dedicado às Humanidades é capaz de construir uma visão de mundo e de identificar os problemas de fundo que afligem as sociedades. O erro é a crença segundo a qual todos os outros ramos do saber sem ser o das Humanas não passam de adornos secundários sem maior influência sobre o conhecimento, quase sempre "contaminados por alguma concepção alienada e burguesa". Como afirmava o saudoso Daniel Piza, no Brasil, por exemplo, um biólogo ou um físico não são considerados intelectuais. Se tomarmos a noção correta das coisas, no máximo, deveríamos considerar que esse "privilégio" com relação ao trato dos problemas de fundo é da alçada dos filósofos, e esses, por dever intelectual e moral, talvez mais do que todos os outros, jamais podem se deixar dominar por ideologizações rasteiras.
A questão ideológica está por trás de grande parte do pedantismo dos historiadores e, sendo assim, merece ser analisada com cuidado. É fato que a maioria dos historiadores adota o marxismo como referência e, necessariamente, quem se coloca como "historiador marxista" é um manipulador da história, alguém que a utiliza na tentativa vã e desonesta de acomodar o passar do tempo e as atividades humanas a um molde pré-fabricado supostamente comprobatório das etapas da dialética materialista. Nestes termos, qualquer elemento que vá contra o marxismo é meramente descartado como patológico, não à toa, o marxismo ser o pai de tantos autoritarismos. O historiador marxista, por mais que possa ser dotado de alguma sofisticação, em última análise, é sempre um exemplificador barato da teoria, enquanto o papel do historiador sempre deve ser o de teorizar exemplos.
O estatuto epistemológico mais particular da História - com letra maiúscula sempre que pensada como ramo do conhecimento - é a consideração das temporalidades. Os acontecimentos humanos se sucedem no continuum do tempo cronológico, contudo, as derivações profundas e as motivações dos homens se situam em temporalidades não-lineares, ou seja, as conjunturas e as estruturas históricas são devidas a um entrelaçamento complexo e difuso entre passado e presente. Tal apreciação é um importante marco teórico da História que deve conduzir a boa pesquisa histórica, mas nunca algo a ser tomado de forma a conferir privilégio por parte do historiador na observação do mundo. Invariavelmente, quando o domínio das temporalidades é julgado como recurso de análise privilegiado que simplesmente por ser uma ferramenta do historiador o coloca acima dos outros intelectuais, comete-se o tolo equívoco de substituir história por política retrospectiva, uma vez mais, ideologização ao invés de ciência. A História é uma forma de conhecimento, não uma mística superior reservada a clarividentes que detêm a chave dos mistérios.
Outra deturpação do conhecimento histórico chegou por meio do já decaído pensamento pós-moderno relativista. Nesse caso, os arautos de tal aberração se deram ao cúmulo de acreditar que a história absolveu os homens da observância de princípios morais. A única regra válida para a existência humana seria então um historicismo levado às últimas consequências, criador de tribunais históricos sazonais: o que vale para uma dada época, não pode valer para outra qualquer. O erro grosseiro do relativismo histórico é enxergar na história somente a mudança e daí querer transformá-la em filosofia. Mas que filosofia pode haver se dela estão exclusos todos os aspectos universais e atemporais da moral? Qual liberdade pode ser conservada se não for amparada por nenhum tipo de responsabilidade? O relativismo não produz conhecimento histórico, menos ainda conhecimento filosófico, mas apenas o caos na mente de seus adeptos. É curioso e contraditório notar que para os relativistas a história esteja apta a castrar a moral, mas nunca levada em conta na análise de padrões de moralidade que tantas vezes foram descartados e provocaram a ocorrência de distúrbios trágicos.
A história tida como experiência humana e a História conhecimento, que daquela retira seus extratos analíticos, compõem um conjunto rico e indispensável que, por sua vez, é parte do conhecimento geral que os homens são capazes de criar, discutir e reinterpretar. Não é preciso nada mais do que a capacidade de conhecer, bem como da consideração e do respeito que podem ser captados graças ao próprio conhecimento, para que o homem, em comunhão com todas as outras formas de vida que com ele coabitam este mundo, possa tecer um rico paneau de sua experiência, mas para tanto, é estritamente necessário que os jovens historiadores, os intelectuais em geral e todas as outras pessoas, se afastem e se resguardem das ideologizações e dos pedantismos.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Falácia cultural


A mania de tentar encobrir a realidade usando o artifício da mentalidade tolamente festiva é um dos piores males do brasileiro. No último final de semana foi realizada em São Paulo a VIII Virada Cultural, evento que tem servido como uma luva para representar a tal mania.
Segundo a Polícia Militar e as autoridades, a Virada foi um grande sucesso, mesmo sabendo-se das dificuldades que o público encontrou para participar, dos tumultos e da violência, que causou inclusive uma morte. A organização do evento afirmou que o falecimento da jovem poderia ter ocorrido em qualquer circunstância e que nada teve a ver com o evento em si. OK, mas o episódio não se sucedeu justamente durante a Virada?! Tapar o sol com a peneira é típico da tolice festiva. Trouxas que se deixam enganar também...
Em cidades desenvolvidas espalhadas mundo afora, os shows de rua acontecem diária e espontaneamente, estão inseridos no tecido urbano e compõem o vasto circuito que convida tanto o cidadão como o turista a frequentarem a área central dessas cidades. Não existe a necessidade de organizar e propagandear essas manifestações culturais, menos ainda de se utilizar delas na tentativa de pintar um quadro falsamente benéfico dos locais nos quais ocorrem. São manifestações inerentes ao desenvolvimento cultural de países desenvolvidos, não enxertos artificiais com objetivos políticos. Basta um pouco de atenção para perceber a enorme diferença.
São Paulo sofre com inúmeros problemas graves e solucioná-los passa necessariamente pela presença de uma administração inteligente e por uma correta concepção de urbanização, aspectos distantes das políticas promovidas por aqueles que têm comandado a maior cidade do Brasil. Antes de pensar em Virada Cultural, evento anual e isolado de final de semana, seria preciso tornar a metrópole um lugar que possibilitasse cotidianamente melhor qualidade de vida a seus habitantes, algo que exige método, continuidade, visão de futuro, prodigalidade e temperança. Esse estadismo, evidentemente, não é observado no sr. Gilberto Kassab nem nos que ultimamente estavam aí antes dele ou nos que provavelmente ainda irão ocupar o cargo de prefeito.
Não nego que o Centro de São Paulo possui certo número de atrações (poderia, caso houvesse uma boa administração, não só aumentar a quantidade de atrações, mas principalmente tornar atrativos muitos  elementos que hoje se encontram esquecidos e abandonados), porém, infelizmente, não é um local convidativo, visto que não se conecta harmoniosamente aos circuitos que tecem a rede urbana da cidade, ela própria bastante deficiente. No geral, ao contrário disso, o Centro sofre com o abandono e com a carência de urbanização nos moldes indicados para o século XXI, e ninguém deve pensar que um evento efêmero, mal organizado e de qualidade cultural no mínimo discutível seja capaz de encobrir aquilo que já deveria ter sido resolvido pelo poder público há pelo menos três décadas.
A Virada Cultural pode continuar sendo realizada sem nenhum problema, desde que a organização e a segurança melhorem, mas deve ser tratada tão somente como um conjunto de shows de rua a se passar em determinado final de semana, não com o alarido dos políticos e da imprensa adesista, que travestem o evento com uma roupagem criativa e benéfica que ele nem de longe possui.
Em um dia, ainda distante, se o desenvolvimento chegar a São Paulo, o prefeito não estará preocupado em dar entrevistas enaltecendo a (des)organização de um evento cultural, já que manifestações do tipo se farão naturalmente por liberalidade dos cidadãos, tampouco será autor de leis que sugam dinheiro do contribuinte, que tornam o trânsito caótico até aos domingos, ou que impedem as pessoas de dormirem tranquilamente. Será apenas mais um simples cidadão a desfrutar de qualidade de vida, como todos deveriam desejar e ajudar a fazer por onde.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Alimentando-se bem (COCADA VEGAN DE COLHER)


Quantas e quantas vezes já não me deparei com pessoas ignorantes que mesmo vivendo em plena era da informação ainda acreditam que a alimentação vegetariana se restringe a folhas? Aqui mesmo neste blog houve um ou outro comentário com esse teor, os quais limei sem piedade, dado que não tenho obrigação de manter a paciência com sujeitos possuídos por tal imbecilidade.
Uma boa maneira de responder indiretamente aos desavisados é dar exemplos indicando que prescindir de cadáveres na alimentação abre um vasto leque de possibilidades alimentares, bem mais saudáveis e variadas do que está ao alcance limitado, sem imaginação e nefasto do consumo de carnes.
Em outra ocasião, num fórum de discussões, um debatedor chegou a afirmar ser impossível fazer doces sem uso de manteiga e ovos. Não era a questão da carne que estava em jogo, mas do mesmo jeito, o cidadão insistia em sustentar um ledo engano, ... e se intitulava doceiro!
Para pulverizar a falta de conhecimento e os falsos mitos, aí vai a receita de cocada vegan de colher da minha sogra, D. Myrna.

INGREDIENTES

200 gramas de coco ralado
1 vidro de leite de coco (opcional)
1 copo de leite (de soja, obviamente)
1 lata de leite condensado (de SOJA, entendeu?!)
1 copo de açúcar

MODO DE PREPARO

Em uma panela grande, misture todos os ingredientes e leve ao fogo. Mexa. Assim que começar a ferver, baixe o fogo e dê mais algumas mexidas de vez em quando. Estará pronta a cocada tão logo comece a soltar da panela. Deixe esfriar e, se não for servir de imediato, leve à geladeira.

Pronto, sem dificuldade alguma, em cerca de 40 minutos e gastando somente algo em torno de R$ 20, tem-se várias porções de um doce vegan.