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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Outubreiras tupiniquins


A morte de Eric Hobsbawm no início deste mês suscitou lamentos e homenagens por parte daqueles que enxergam virtudes em sua obra. Por outro lado, também fez com que os críticos denunciassem a grande falha do historiador: a reverência incondicional ao marxismo e aos regimes fundados sobre esta teoria. O geógrafo e sociólogo Demétrio Magnoli escreveu sobre isso na Folha de São Paulo, assim como a revista Veja. Esta última parece ter gerado mais raiva dentre os adeptos de Hobsbawm, motivando uma resposta da Associação Nacional de História (ANPUH). Segundo o organismo, Veja foi tendenciosa e parcial em sua crítica ao intelectual morto: apontá-lo como "esquerdista" teve conotação pejorativa, acusá-lo de "idiotice moral", correspondeu a um julgamento barato e despropositado. Ainda de acordo com a ANPUH, ao malhar Hobsbawm, Veja desconsiderou a "contradição que é inerente aos homens".
Ora, ao que consta, é a esquerda que sempre se mostrou pródiga em usar adjetivos tais como "burguês", "reacionário" e "direitista" no intuito de desqualificar seus opositores antes mesmo de se dar ao trabalho de analisar a fundo qualquer ideia contrária ao credo marxista. E Hobsbawm, de fato, não foi sempre um esquerdista?! Ou a esquerda tem o monopólio no uso do adjetivo? Quanto à "contradição inerente aos homens" como condição para relevar desvios intelectuais - o que se depreende da resposta da ANPUH - a defesa de atrocidades não deve ser moralmente condenável, o que pela lógica, ofereceria algum indulto aos nazistas. Ou quem sabe ao próprio Hitler, aliado de Stalin durante um terço da Segundo Guerra? Inclusive, cabe frisar, essa conjuntura foi negligenciada por Hobsbawm.
Marxistas advogando pelo relativismo: mais uma evidência cabal das conexões entre os apóstolos de Marx e o pós-modernismo, para os quais a moral pode ser descartada. Se um sujeito que viveu 95 anos não teve a hombridade de reconhecer as responsabilidades do marxismo na imposição de regimes genocidas, então ele foi sim um autêntico idiota moral! Poderia também ser designado como uma besta ideológica... Isso nada tem a ver com a suposta "contradição que é inerente aos homens" e um mínimo de Aristóteles e de seu spoudaios fariam acentuadíssimo bem aos esquerdistas. No fim das contas, de tão carente em argumentos, a resposta da ANPUH transmite a clara impressão de ter sido redigida às pressas por algum staff de estudantes do primeiro semestre da faculdade.

Logo depois de eleito prefeito da maior cidade do país, o petista Fernando Haddad declarou que pretende integrar São Paulo ao Plano Nacional de Desenvolvimento em parceria com a presidente Dilma Rousseff (em sua campanha Haddad vendeu exaustivamente a ideia de uma questionável, diga-se de passagem, importância em ter a prefeitura alinhada com o poder federal). O que isso indica? Não deveria ser assim, mas a maior parte da população brasileira (paulistana, no caso específico) não faz a menor noção, daí, entre outras razões que conotam a total incompreensão no que se refere ao arcabouço que norteia o PT em âmbito ideológico e prático, ter entregue o município às garras de um partido que não vê limites à sanha de poder.
No que diz respeito ao princípio federativo, um dos pilares das democracias consolidadas, o que o Brasil dele possui cada vez mais fica restrito à nomenclatura oficial da nação. Ao invés da afirmação da autonomia local e da livre associação política, características que Tocqueville analisou com argúcia ímpar em seu clássico A democracia na América, o que temos aqui em crescente evidência é a centralização burocrática, a formação de arranjos políticos pautados exclusivamente por interesses de poder e o autoritarismo. Se ora mais ora menos ao longo da história do Brasil essas tendências se mostraram dominantes desde 1822, é inegável que no país dos PeTralhas elas ganharam status sistemático e se converteram no próprio modus operandi do poder instituído.
Se já não fosse o suficiente, um dia após a vitória, o prefeito eleito informou que promessas de sua campanha, como o tal do Bilhete Único Mensal e a isenção da taxa de inspeção veicular, esta, com justiça um dos pontos de maior negatividade atribuídos à gestão Kassab, só serão postos em vigência a partir de 2014 - não por acaso, ano eleitoral. Daqui um mês a maioria do eleitorado já não se lembrará mais disso, quanto mais em 2014, imersa na catarse da Copa do pão e circo. Esse povo merece o que tem!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Semiologia de folhetim... ou seria de botequim?


Novela agora virou produto cultural de qualidade. Tal é a opinião do linguista e musicólogo (na verdade, ele é "emepebeólogo", mas quem sou eu para colocar isso em discussão se basta um barquinho a navegar e um céu azul para tornar cult certo tipo de música...?) Luiz Tatit. Segundo ele, a novela é dotada de conteúdo semiológico e quem a critica é por quem não a assiste, isto é, uma questão de puro preconceito.
Estaria Tatit versando sobre as grandes produções novelísticas dos anos 1970 e 1980, defendendo a contribuição cultural legada por obras como O Bem Amado, O Rebu, Dancin´ Days, Roque Santeiro, Vale Tudo, Tieta, Que Rei sou Eu, Vamp ou A Próxima Vítima, estas duas última exibidas já nos anos 1990? Não, não mesmo, pois na entrevista dada à Folha de São Paulo na semana passada, o alvo de suas reverências era Avenida Brasil, cujos momentos derradeiros, que praticamente paralisaram o Brasil, se davam naqueles dias.
Há algum tempo já não é segredo para ninguém que seja dotado de um pouco mais de percepção verificar que as novelas transmitidas atualmente são feitas para agradar a um público massificado, assim como ora se encontra a própria sociedade brasileira. A semiologia nada mais é do que isso, ou seja, o conjunto de referenciais simbólicos capaz de direcionar e inserir uma manifestação cultural no seio de uma determinada cultura, permitindo que os sujeitos sociais identifiquem, em maior ou menor grau (quanto mais grosseira a semiologia, mais facilmente assimilável ela se torna perante sociedades massificadas) a relação desses referenciais com suas experiências coletivas e individuais. Assim sendo, as referências semiológicas afetam os sentidos e as ideias dos sujeitos por uma relação cultural direta, quando os referenciais dizem respeito ao próprio espaço-tempo no qual tais sujeitos vivem, ou indiretamente, sempre que os referenciais ganham caráter universal e transcendem os limites espaço-temporais. Às manifestações culturais que se encaixam nessa segunda relação semiológica, costuma-se dar o nome de "clássicos". A partir desse entendimento, fica evidente que toda manifestação cultural precisa ser dotada de uma bagagem semiológica, do contrário, se tornaria impossível de ser entendida e assimilada por quem quer que seja. O Barroco do Padre Antônio Vieira, o Dadaísmo e o Jazz, para falarmos em manifestações com bom grau de hermetismo, possuem suas semiologias, não somente as novelas. Não basta discutir a semiologia enquanto conceito puro, já que aquilo que diferencia as manifestações culturais é seu conteúdo, uma constatação absolutamente trivial, ou que pelo menos deveria ser... Se alguém estiver interessado, como Tatit, em tecer loas a manifestações culturais como Avenida Brasil, certamente não será lançando mão de discursos supostamente doutos que irá conseguí-lo. Vá alguém dizer ao povo que a novela é assistida porque traz conteúdo semiológico e será mandado para aquele lugar...
No que diz respeito aos clássicos, quase não se faz necessário lembrar que adquirem essa condição porque a bagagem de referenciais semiológicos da qual são dotados é tão sublime e tão profundamente humana, que atravessam eras a fio, independentemente de aspectos culturais mais específicos, dessa forma, passam a fazer parte de um pattern cultural universal. Assim é com o teatro grego, com a literatura de um Dante, com a dramaturgia de um Shakespeare ou com a prosa de um Machado de Assis. Será que nesse rol podemos incluir, sem grande risco de cair no ridículo, os folhetins novelísticos mais recentes?! Façam suas apostas...
Considerando a decadência cultural e a vulgarização pela qual passam sociedades massificadas como a brasileira, é bastante fácil entender o sucesso de um lixo como Avenida Brasil. A semiologia que dali se extrai é a legitimação do jeitinho, da falta de caráter, dos interesses mesquinhos, da promiscuidade, da vingança e da total ausência de qualquer valor de interioridade humana. É essa a "clara semiologia das novelas" que enxerga e defende Tatit. Tudo que vai no sentido oposto a esses desvalores, tem pouquíssima chance de encontrar terreno fértil em sociedades permeadas pela ignorância e, na visão de "progressistas" como Tatit, criticar manifestações culturais de baixo calão é preconceito. Estranha a lógica dessas teorias, nascidas do ódio entre classes e da defesa da eliminação do que não se encaixa na marcha inexorável da transformação histórica. Ao mesmo tempo que dão vivas a um Novo Homem ideal despido de "reacionarismos", demonizam os progressos científicos e materiais proporcionados pelo capitalismo, recusam qualquer moralidade religiosa, mas são favoráveis ao radicalismo islâmico, execram toda a cultura ocidental acusando-a de etnocêntrica, mas urram para defender as ditas "culturas tradicionais", caracterizadas pelo mais acentuado etnocentrismo, apontam a "burguesia" como alienada, mas adjetivam de preconceituosa a crítica à massificação. A semiologia do esquerdismo é a mais sui generis de todas, baseada em uma verdadeira salada de conceitos e em uma manipulação espaço-temporal que fariam Marx pensar desesperadamente: "escrevi durante mais de quarenta anos para dar nisso!" Não há registro algum de que Marx fizesse uso de cannabis, contudo, se pudesse fazê-lo e depois efetuasse a leitura de alguma resenha universitária do Manifesto Comunista, talvez estivesse apto a decifrar a semiologia esquerdista de botequim...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

PT e PSDB: iguais no discurso, diferentes na essência; e a ausência do liberalismo no Brasil


Excetuando-se a esfera do poder federal, onde o PT estabeleceu uma ditadura gramsciana já há quase 10 anos, nos âmbitos congressual, estadual e municipal, o partido tem compartilhado com o PSDB o primeiro lugar na cena política brasileira. Esse aparente clima de disputa, todavia, é enganoso, cabendo exclusivamente ao PT a efetiva condução dos rumos sociopolíticos no Brasil. Explico-me...
Se outrora havia uma diferença ideológica mais nítida entre ambos, haja vista que o PT não se fazia de rogado em escancarar seu extremado viés esquerdista, enquanto o PSDB, essencialmente social- democrata, se situava dentro da chamada Terceira Via, procurando associar uma política-econômica de caráter capitalista com políticas sociais de bem-estar caras ao centroesquerdismo, hoje em dia o populismo gramsciano petista logrou eficácia em mascarar sua verdadeira face autoritária, o que justamente lhe abriu o caminho na conquista das massas, imersas na catarse e na ignorância, e mesmo de inúmeros setores médios urbanos que estupidamente ainda acreditam em justiça social e nas lorotas do marxismo. Daí passou a não faltar mais nada para que o PT fosse alçado ao comando máximo da nação.
O PSDB não entendeu a transmutação do petismo, que foi do marxismo-leninismo-trotskismo para o marxismo gramsciano, bem mais sutil, ardiloso, comunicativo, messiânico e adaptável ao mundo pós-moderno massificado. A social-democracia, de fato, foi portadora de uma mensagem a ser transmitida e colocada em prática no contexto do fim da Guerra da Fria e da decadência dos tradicionais regimes comunistas e de outras ditaduras, já que naquele momento histórico de profundas transformações econômicas e político-ideológicas, adotar um programa que garantisse a geração de riqueza e a distribuição da renda seduzia a um público amplo, fosse ele formado por quadros partidários ou pela própria população, saturada de autoritarismos dos mais diversos matizes.
Aos sociais-democratas, entretanto, coube apenas a atuação em um restrito recorte temporal, iniciado na primeira metade dos anos 1980 e encerrado no final da década de 1990, com a crise asiática e com o advento da massificação e do retorno do populismo, sobretudo em países subdesenvolvidos da América do Sul - espacialmente, a social-democracia também teve alcance restrito, resumindo-se a certos países da Europa e aos meios urbanos mais esclarecidos do Brasil e do Chile.
Os políticos da Terceira Via obtiveram sucesso em estabelecer e consolidar as instituições da democracia, universalizar o ensino de base, conter a inflação e aumentar as possibilidades de consumo, mas o já referido momento de crise de finais dos 1990 e o desgaste dos governos da Terceira Via, que estavam no poder há algum tempo, se revelou terreno fértil para a volta de ideologias autoritárias de esquerda, porém com roupagem diferente, adaptadas ao novo milênio: surgiram novas classes sociais, a Internet se espraiou e os meios de comunicação populares investiram pesado na sedução de estratos populacionais das periferias e de universos parcialmente ruralizados em países como o Brasil. A nova realidade passou a ser a da massificação, permeada pela incultura e pela ignorância, frutos de um sistema educacional que, apesar de mais abrangente, continuou assentado sobre bases falsas e doutrinárias, falha gravíssima que a social-democracia não teve interesse nem capacidade para corrigir. Foi nessa brecha relativamente expandida que o populismo gramsciano germinou.
A social-democracia peessedebista fez seu papel, porém havia um prazo de validade. Ele se expirou e, ao invés dos sociais-democratas conduzirem um rearranjo em seu arcabouço ideológico que os levasse ao liberalismo, o fizeram tentando adotar o mesmo discurso do PT, um erro crasso de estratégia. Os petistas ainda não haviam chegado ao poder federal, sendo que todo o ônus do desgaste cabia ao PSDB. Fazer política classista e assistencialista pautada por discursos messiânicos, metafóricos e hiperbólicos, costurar alianças espúrias de modo a adequar os meios aos objetivos de poder, assim destruindo instituições - Gramsci é o maior intérprete de Maquiavel - e perdurar as massas na pobreza e na necessidade, condicionando-as à anomia política, é próprio de um partido como o PT, nunca do PSDB, cujo DNA político-ideológico o afasta automaticamente de qualquer tipo de autoritarismo. Ora, se a tática é limitar a política ao classismo e aos desejos massificados, o povo engolfado pela ignorância e pelo acriticismo prefere o PT, pois foi ele que inaugurou esse estilo de governo no Brasil. É inteiramente dele a autenticidade nesse aspecto, bem como a expertise das técnicas do discurso e da presença de um quadro como Lula, o comunicador populista em essência. Ao PSDB, por outro lado, associou-se tenazmente a pecha do conservadorismo - entendido, diga-se bem, segundo os obtusos parâmetros do esquerdismo.
É muito difícil supor que possa ocorrer uma mudança no panorama político brasileiro, dado o grau de cooptação que o gramscianismo petista alcançou junto à população, - não surpreende ver o candidato do partido à frente segundo as pesquisas, na disputa do segundo turno do pleito paulistano - até porque o campo do liberalismo, caracterizado pela economia capitalista baseada em empreendedorismo, criatividade e competição de mercado, - não em megacorporações afiliadas ao poder estatal - isonomia política, garantia de direitos individuais e moral conservadora, única filosofia política apta a combater o autoritarismo, é nulo no país. É nesse contexto, sem nenhuma oposição firme, que o PT navega em águas calmas que lhe permitem a manutenção do autoritarismo. Quando observo um grupo de alunos do 5°ano discutindo efusivamente quem pode ser o assassino da novela das nove, tenho um retrato perfeito da atual sociedade brasileira e entendo claramente como funciona o gramscianismo. É a cara do Brasil!

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Potencialidades de um julgamento: é hora de colocá-los na berlinda


O julgamento do Mensalão vai avançando e tem agora como alvo o núcleo político que comandou o esquema. O ex-presidente do PT, José Genoíno, e o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, começaram a ser julgados e já recaiu sobre ambos a condenação do relator do processo, Joaquim Barbosa, e dos ministros Luiz Fux e Rosa Weber. Apenas o revisor Ricardo Lewandowski preferiu contrariar a obviedade dos fatos e absolver os dois ex-líderes petistas. De quebra, ele ainda criticou o Ministério Público e praticamente deixou a entender que o PT nada teve a ver com o Mensalão. Foi replicado até com ironia por outros ministros. Na próxima semana, os demais representantes da Suprema Côrte darão seus votos e a coisa promete esquentar.
Lewandowski é um exemplo claro de politização no Judiciário, como bem afirmou Reinaldo Azevedo, fato que fica evidente na medida em que seu discurso de absolvição de Genoíno e Dirceu citou testumunhas do prório PT ou de partidos envolvidos no esquema como provas válidas para inocentar os réus, ao passo que todos os depoimentos que contrariaram sua tese foram sumariamente desqualificados. Como é possível um ministro do STF agir imbuído de tamanha parcialidade e se mostrar tão néscio em matéria de crítica documental e avaliação de testemunhas? Para acentuar ainda mais o absurdo de sua atuação, Lewandowski condenou Delúbio Soares, o bronco tesoureiro petista, como se este fosse capaz de arquitetar e colocar o esquema em prática sem ao menos estar endossado pelos seus superiores, homens cujo perfil intelectual é muito indicativo de estratégias de destruição institucional. Se é normal que as interpretações variem em qualquer julgamento, por outro lado, a falta de qualidade argumentativa de Lewandowski é uma tremenda aberração, um execrável desserviço político à nação. Felizmente, pelo menos até aqui, os outros ministros têm primado pela coerência e pela acurada interpretação dos autos processuais, o que significa que o Brasil ainda tem chance de se livrar do projeto gramsciano do PT. As evidências que colocam na conta do partido a elaboração e a culpa pelo maior esquema de corrupção da história brasileira vão aos poucos se descortinando aos olhos daqueles que preferem se manter alheios em relação à verdadeira face do petismo. É claro que os meios de ação do PT estão muito bem enraizados em uma conjuntura sociopolítica de populismo, massificação e pão e circo estabelecida pelo próprio partido, o que muito ainda fará o horizonte se apresentar de maneira a inebriar as almas da ignorância com o veneno da catarse, todavia, o lixo da corrupção que o resultado do julgamento poderá escancarar de vez, tornando os culpados mais nítidos do que nunca, é algo potencialmente possibilitador de uma mudança no quadro de poder no Brasil.
Muito embora as atenções estejam devidamente voltadas para o julgamento do Mensalão, há uma pergunta que não quer calar: onde está Lula?! Habitualíssimo em se mostrar às massas como um indefectível messias, o ex-presidente está curiosamente sumido há umas boas semanas. Estaria ele tomado pela paúra de uma possível língua solta por parte de Marcos Valério?! Ou simplesmente os próprios caminhos apontados pelo STF estão deixando Lula encurralado, haja vista que o fim da trilha pode conduzir naturalmente à figura do apedeuta como um dos chefes do esquema?! A última aparição nefasta do ex-presidente se deu quando manobrou para colocar Marta Suplicy à frente do Ministério da Cultura, sórdido arranjo político, tipicamente petista, relacionado à tentativa de alavancar a candidatura de Fernando Haddad no pleito municipal paulista. Depois disso, apenas silêncio. A verdade é que, além da manobra ter pego mal em função do claro objetivo político e também pelo fato de que Marta nunca teve absolutamente nada que a recomendasse ao cargo, a própria disputa eleitoral em São Paulo é bem pequena diante do que pode vir a acontecer com o PT e com Lula dependendo do desfecho do julgamento do Mensalão e do modo como a população em geral fará a leitura dos acontecimentos.
O que existe de inegável se refere à pior situação política vivida pelo PT desde que chegou ao poder federal, mais do que em 2005, quando o escândalo do Mensalão veio à tona, momento no qual a ignóbil oposição socialdemocrata se revelou frágil e incompetente para golpear Lula como deveria tê-lo feito. Eis que surge mais uma oportunidade valiosa para bater forte no petismo e, ao contrário do que versa a retórica autoritária saída das entranhas do partido mais peçonhento da história brasileira, derrotá-lo não com golpismo, conceito distorcido convenientemente por todos os arautos do gramscianismo, mas através do argumento democrático e de sua consequência direta, a escolha nas urnas. É preciso, antes de qualquer coisa, varrer a catarse que prostra as massas, tarefa das mais difíceis, porém não impossível. Vejamos o que vem por aí.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A demonização dos carros em São Paulo


Andar de carro em São Paulo virou quase um crime. Mais do que a carência de transporte público, mais do que a falta de planejamento urbano ou do que um trânsito culturalmente violento em relação ao qual pouco se faz para mudar, o carro se tornou o grande demônio na maior cidade do Brasil. Nesse contexto, se de um lado o carro tem sido apontado como o maior vilão, a bicicleta é alçada à condição de redentora inconteste do trânsito paulistano. O maniqueísmo e a romantização das magrelas tomaram conta do cenário.
Várias vezes já deixei claro que sou favorável ao uso da bicicleta como transporte no cotidiano, o que considero um caminho inteligente e capaz de contribuir com a qualidade do ar, com a saúde dos ciclistas e com a diminuição dos engarrafamentos. Isso, entretanto, não é mais do que o vislumbre de uma cidade e de um futuro melhores, ou seja, é algo que só pode se tornar realidade se passar por estudos minuciosos envolvendo especialistas em transporte urbano, engenheiros de trânsito e urbanistas em conjunto com a sociedade civil. Portanto, trata-se de uma ideia que necessita de longo e bem pensado planejamento e que depende ainda de implantação gradual, apenas estabelecendo-se em definitivo no momento em que houver uma estrutura pronta para tornar possível e salutar o convívio entre motoristas e ciclistas. Todos sabem, evidentemente, que São Paulo está muitíssimo distante de tal panorama.
Pela topografia, pelo número de habitantes, pelo tamanho, pela deficiência nos transportes públicos, pela cultura dos cidadãos e pela própria ausência de ciclovias bem arranjadas, São Paulo não é Amsterdam, Berna ou Copenhague, embora o sr. Gilberto Kassab e alguns adeptos do politicamente correto queiram fazer crer que seja. Assim como os lugares comuns do discurso (e da ignorância) conseguiram impingir na mente de tantos incautos que o capitalismo é ruim, que Marx é a última palavra em economia ou que vivemos na era do "neoliberalismo", a mais nova investida de certos ideólogos no âmbito da capital paulista é a demonização do carro e a beatificação das bicicletas. O pensamento ideológico amarrou seus tentáculos também quando o assunto é trânsito.
No balaio do equívoco e da superficialidade, bons motoristas são julgados do mesmo modo que os pilotos que cruzam as ruas de São Paulo: "são todos vetores do que há de pior, são alienados que não atentam para os benefícios do ato de pedalar, insensatos que só enxergam o próprio umbigo, incapazes de fazerem parte da grande comunhão harmônica que deve permear a sociedade". A linguagem hiperbólica e o maniqueísmo são sintomas típicos de ideias que começam a tomar conotação de fanatismo. Da mesma maneira que carros e motoristas são estigmatizados sob o mais acentuado negativismo, as bicicletas e os ciclistas assumem instantânea condição ilibada: quem pedala nunca está errado, nunca está transitando em cima da calçada ou na contramão, jamais faz uma conversão proibida ou joga a bike para cima de um carro. Por ser ecologicamente correta e vista como antípoda do trânsito caótico da capital paulista, a bicicleta foi rapidamente blindada e colocada acima do bem e do mal. O absolutismo ciclístico já é uma realidade. Dentre seus mais destacados teóricos, temos Renata Falzoni, Flávio Gomes, que viveu seus cinco minutos de Datena no dia em que a médica ciclista morreu na Avenida Paulista, Maurício Broinizi, intelectual puquiano, representante do esquerdismo tupiniquim e claro, nosso prefeito que, não é um homem nem de direita, nem de esquerda, mas somente o mentor das faixas de trânsito transformadas em faixas ciclísticas, "invenção genial" que fez também o domingo se tornar um dia de caos no trânsito.
Agora está virando moda filmar ou fotografar motoristas que cometem supostas infrações contra ciclistas. Corre-se o risco de gerar um ambiente ainda mais agressivo no trânsito, até porque as autoridades não podem fazer nada a partir de imagens obtidas por cinegrafistas/fotógrafos amadores. E, se é assim, não seria também o caso de motoristas passarem a flagrar os tantos absurdos cometidos por ciclistas? Nenhum motorista é obrigado a andar a 20km/h porque um ciclista transita quase no meio da faixa em uma via de grande movimento. Nenhum motorista tem o que fazer se um ciclista imprudente joga a bicicleta em cima de seu carro, a não ser tentar desviar bruscamente. Ciclistas podem provocar acidentes por conduta inadequada, não apenas motoristas.
Não há legislação clara sobre a conduta do ciclista, não há ciclovias em 95% da malha viária em São Paulo - por ciclovia entenda-se espaços exclusivos para uso de bicicletas, de modo a garantir a segurança dos ciclistas -, não há semáforos específicos para as bicicletas, não há, até hoje, não somente na capital paulista, mas na maior parte das cidades brasileiras, uma cultura que viabilize os usos e costumes da prática do ciclismo urbano, apta a permitir boa convivência entre autos e bikes. Repito, tudo isso requer tempo e planejamento, e então fica a indagação: alguém, seja autoridade ou cidadão engajado no assunto, está se mobilizando para que esses pré-requisitos fundamentais se concretizem, caso haja o desejo da bicicleta vir a ser considerada um meio de transporte viável e seguro? Em relação aos políticos, pelo menos, a resposta é não. Sem isso, não adianta querer forçar a barra, tampouco discursar vazia e hiperbolicamente, pois a situação não irá mudar: devido à vulnerabilidade inerente do ciclista, acidentes continuarão a acontecer, com claro prejuízo a este.
Políticos são useiros e vezeiros em promover bizarrices originadas a partir de uma ideia boa, mas que não se pode colocar em prática da noite para o dia. Assim, inaptos para resolverem aquilo que é necessário de antemão, impõem medidas claramente improvisadas para enganar aos trouxas, que não são poucos a embarcar na onda das aparências e do politicamente correto. Se querem mais bicicletas nas ruas, elaborem e erijam uma estrutura para isso, mas que não venham com improvisos toscos e com perseguição a quem faz uso do carro. Ditadura até no trânsito não!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Lixo cultural e opção pela idiotice: a decadência da MTV Brasil


Há alguns dias, André Mantovani, ex-diretor da MTV, declarou ao jornal Folha de São Paulo que a Internet é um algoz para a emissora. Ele explicou que durante muito tempo o canal ditou as regras da cultura pop, mas de uns tempos para cá perdeu a condição de vanguarda para a rede mundial de computadores. Não deixa de ser uma verdade, no entanto, é interessante refletir sobre o porque deste fato levando-se em conta as escolhas feitas pela MTV, tanto em relação ao conteúdo de sua programação como no que se refere ao público-alvo buscado por ela.
Quando a MTV chegou ao Brasil em 1990, era um canal que não tinha absolutamente nada a ver com o que agora se apresenta. A começar pelo nome, fazia jus em ser identificada como um canal musical, algo que se perdeu paulatinamente ao longo destes 22 anos. Hoje a música se situa abaixo da linha de marginalidade na MTV, que na tentativa insólita de se manter pop, preferiu apostar em programinhas "divertidinhos" e superficiais, verdadeiras aberrações de auditório, subcultura aborrecente cem por cento desprovida de inteligência, alienação juvenil cujo único objetivo foi ganhar espaço midiático, no pior sentido da palavra, perante um público que jamais representou suas origens. O marketing se revelou rasteiro, como o comprova a própria declaração de Mantovani. A Internet está repleta de lixo, como muitos sabem, mas poucos têm desprendimento suficiente para apontá-lo e, entre o lixo cibernético, mais fácil de ser acessado e deglutido a qualquer hora ou lugar, e o lixo televisivo, menos prático e nem sempre disponível, a opção se fez acentuadamente em favor do primeiro. Escolha errada da emissora, escolha previsível do público idiotizado pela Internet.
Na idade do ouro da MTV, que já foi embora há pelo menos uns 14 anos, a programação era segmentada e, assim sendo, procurava atingir, dependendo do dia da semana e do horário, um determinado público. Havia atrações para quem gostasse de música mais comercial, bem como para apreciadores de Rap, Reggae, ou Rock em geral. Ainda que houvesse coisas dispensáveis no meio disso tudo, a música e uma certa qualidade cultural eram valorizadas e transmitidas da maneira correta aos jovens da época. Época aquela em que o espectador assíduo da MTV estava mais ou menos na faixa etária dos 15 aos 25 anos, gente que hoje está acima dos 30 ou 40 e que se sente absolutamente carente de boa programação musical na TV alternativa. O MP3, com sua sonoridade extremamente pobre e chapada de radinho de pilha, não tem como substituir clipes de música e informações precisas sobre artistas, bandas e álbuns, sobretudo e ainda mais em função da onda retrô que veio para ficar entre o pessoal que viveu a infância e a adolescência no período que vai do final dos 1970 até início dos 1990. Além disso, a derrocada da MTV em direção ao lixo cultural se iniciou antes mesmo do MP3 e do boom da Internet, fenômenos balizados por volta de 1999-2003.
Será que nenhum editor de programação percebe isso nos bastidores da emissora? Ou será que estes hoje em dia são subprodutos da falência e do pesadelo culturais do pós-modernismo, incapazes portanto de uma noção de tal panorama? O que é mais acertado, ter na equipe de apresentadores gente ligada à música, dotada de bagagem cultural, pessoal que fala do metiê com conhecimento de causa, a exemplo de Fabio Massari e Gastão Moreira, ou vetores típicos do emburrecimento, portadores da moléstia "tiporrágica" e de posturas afetadas, os Didis, as Titis e as Mari Moons da vida? Ou a MTV continua optando por um público idiotizado que não mantém mais nenhuma relação com a própria emissora, ou tenta sair do atoleiro em que se enfiou por incapacidade de se vacinar contra os modismos e busca resgatar a cultura de qualidade por meio de sua origem, a música.
Existe sim um público sedento por encontrar boa música em canais de TV, mesmo com a presença do Multishow e de novidades como o Now, que não têm um direcionamento musical exclusivo, tampouco oferecem conteúdo solidamente construído em torno de estilos confidenciais, tais quais o Fusion, o Blues ou até mesmo o Heavy Metal e o Hard Rock. Posso estar sendo reacionário e torcendo o nariz para o novo, mesmo o novo em âmbito musical. Está certo, é isso sim e, como discípulo do grande Edmund Burke, não vejo como descartar padrões por uma simples questão de "estar antenado com a modernidade", principalmente se essa modernidade vier acompanhada de dejetos da subcultura. O caminho a tomar parece ser óbvio, contudo, em era de massificação e emburrecimento, o óbvio deixou de ser claramente percebido. Acabo de ligar na MTV e me deparo com "Adnet Viaja". Que utopia a minha!

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Voto nulo, uma opção legítima


As eleições municipais se aproximam a cada dia e, com isso, tem aumentado a discussão sobre a validade do voto nulo como forma de protesto. Embora a situação política brasileira esteja atolada num lodaçal de corrupção e ineficiência, há muita gente que se posta veementemente contra a opção pelo voto nulo. Alegam estes que deixar de optar por algum candidato impede o cidadão de reclamar e cobrar por melhoras, sendo que o melhor a fazer é pesquisar sobre a atuação pregressa dos participantes do pleito eleitoral.
Não acho que o voto nulo seja propriamente uma forma de protesto, mas simplesmente uma escolha política, do mesmo modo que a opção por algum candidato, um direito elementar do cidadão, portanto. A crença segundo a qual votar nulo não permite reclamações e cobranças por parte do eleitor que assim escolheu é um equívoco grosseiro que denota total desconhecimento a respeito de teoria política. Todos os pensadores políticos que hoje em dia têm suas reflexões como base para a sustentação de sistemas democráticos foram unânimes em afirmar que o governo deve existir em prol da sociedade e não o contrário. Esta ideia, por sinal a mais fundamental no resguardo da democracia, foi explanada em épocas nas quais o direito de voto era bem mais restrito do que hoje, nem por isso aqueles que não podiam votar estavam aprioristicamente exclusos dos deveres e direitos de cidadania. Atualmente, muitas democracias consolidadas não obrigam o cidadão a votar, todavia, como membro da coletividade cívica, este deve fazer parte do escopo daqueles que governam. O mecanismo de representatividade política não pode excluir quem optou por não votar, nem quem escolheu anular o voto. Até mesmo aquele que deixou de cumprir com deveres de cidadão possui certos direitos políticos, como um presidiário, por exemplo. De resto, deve-se salientar que a representatividade no Brasil chegou praticamente à inexistência, com voto obrigatório e tudo.
Não deixa de ser chocante o fato de que em pleno século XXI tanta gente permaneça acreditando que o voto é o direito máximo da democracia. Além do mais, no Brasil, parece não haver dúvida com relação à negligência em termos de cobrança por boa parte dos eleitores que votam em candidatos eleitos ou não eleitos, isso quando não se esquecem em que votaram.
Ainda em favor do voto nulo, outros argumentos se apresentam: 1) honestidade não deve ser encarada como qualidade em um político, mas sim como obrigação, desse modo, valorizá-la sobremaneira reputando ao político honesto caráter de heroicidade, só confirma que a corrupção é uma pandemia no Brasil; 2) ter uma vida pregressa de honestidade incondicional, na melhor das hipóteses, só diminui a chance de um político cometer atos corruptos, contudo, a rigor, não pode garantir jamais que o mesmo não os cometa pela primeira vez; 3) da maneira como as estruturas do poder político ora se verificam neste país, com instituições consumidas pelo gramscianismo PeTralha, até aquele que porventura ingresse na vida política imbuído de boas intenções corre seríssimo risco de vir a ser enredado por interesses e conchavos escusos; 4) é preciso ser monstruosamente ingênuo para não enxergar que 99,9% dos políticos brasileiros entram na política com o claro intuito de se aproveitarem das benécies indevidas que o poder exercido da forma como é os proporciona.
Aqueles que possuem candidatos em quem irão votar, que o façam e até procurem, com base na troca de ideias, convencer os que ainda estão indecisos ou que pretendem votar nulo. O debate político constrói a democracia e a fortalece. Que não venham, contudo, proferir falácias típicas do analfabetismo político brasileiro, haja vista que o voto nulo é uma opção tão legítima quanto qualquer outra que compõe os processos eleitorais, opção esta que me parece a mais acertada caso o eleitor não encontre nenhum candidato cujas propostas e ideário político não estejam alinhados com os seus próprios, afinal, votar no menos pior, na perspectiva mais otimista, significa não mais do que dar procuração a alguém que não merece ser eleito por uma questão de competência. Se o voto nulo não anula eleição, é mais certo do que distribuir voto sem consciência.