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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

2012 resenhado


Neste ano que está por se encerrar não fiz tantas leituras quanto gostaria, pois estive ocupado com afazeres que me consumiram um bom tempo, mas mesmo assim não deixei de estar mergulhado em certos livros que vou comentar na última postagem de 2012.
De 2009 para cá tomei contato com as excelentes biografias de Josef Stalin e Winston Churchill, escritas respectivamente por Simon Sebag Montefiore e Lord Roy Jenkins. Estava faltando apenas Adolf Hitler para completar a tríade de chefes de Estado que marcaram o contexto  da Segunda Guerra Mundial. Foi então que durante os meses de janeiro e fevereiro percorri as mais de mil páginas de Hitler, do historiador inglês Ian Kershaw. A obra é apontada como a melhor biografia do Führer, apreciação que se confirma ao longo da leitura. Kershaw obteve grande mérito ao destrinchar os meandros da personalidade de Hitler, o que faz de seu livro uma biografia não só histórica sobre o homem que projetou a destruição do Ocidente, mas também uma profunda análise psicológica da mente doentia desse mesmo homem. Chama atenção a maneira pela qual Hitler, desde a juventude em Viena, teve seu intelecto moldado tanto por circunstâncias da própria vida, como por fatores históricos, elementos que, combinados de modo sui generis pelo fanatismo característico do líder nazista e potencializados pela própria sociedade alemã, compuseram a mistura explosiva e belicista que por pouco não conduziu o Ocidente ao colapso completo. Daí, quando se lembra da figura de Churchill, ela assume ares ainda mais importantes, já que foi ele quem segurou sozinho a Alemanha nazista em 1939 e 1940. Depois de lidas as biografias dos três líderes, é impossível não considerar Churchill uma das personagens históricas mais notórias do século XX, ao mesmo tempo em que Stalin e Hitler não podem ser vistos senão como psicopatas portadores e vetores de ideias execráveis.
Apenas um único aspecto é passível de crítica na obra de Kershaw: o autor aponta o nazismo como sendo uma filosofia de direita, caracterização que muitos analistas têm rejeitado, dentre os quais eu me incluo. Costumo pensar que as utopias que marcaram a primeira metade do século XX são mais bem classificadas e entendidas se apontadas como totalitárias, importando menos a questão do espectro político. Assim sendo, ainda que nazismo e comunismo sejam diferentes no conteúdo, ambos atuam, de início, como as duas extremidades de uma linha, porém acabam se juntando e formando um círculo: o ponto de junção é exatamente onde se situam, ou seja, são extremamente próximos na forma, quase fundidos um ao outro. Se o comunismo é uma utopia que pretende construir o Paraíso futuro, varrendo da história qualquer coisa que os próceres da doutrina considerem obstáculos à causa, o nazismo é uma utopia que pretende resgatar o Paraíso perdido, também eliminando tudo que os nazistas acreditem representar a modernidade. Aqui vale mencionar Michael Oakeshott e salientar que o conservadorismo não é uma filosofia reacionária, pois sua preocupação é com o presente, com a manutenção de interditos morais que garantem a conservação da liberdade. Projetar o idílio futuro ou recuperar a Idade do Ouro é sempre totalitário. Conservar, como dizia Goethe, é guardar e proteger. Guardar e proteger aquilo que é universal, permanente e imutável e que as pessoas podem e devem carregar em sua interioridade, não reconstruir um passado cuja própria temporalidade histórica transforma incessantemente. Guardar e proteger sem destruir violentamente em nome de um futuro idílico que nunca chega e que por isso isenta seus planejadores, crentes ou cínicos de estarem agindo pelo bem, de todas as responsabilidades.
No segundo semestre efetuei a leitura de A imaginação econômica, escrito por Sylvia Nasar. O livro conta a história das transformações socioeconômicas nos séculos XIX e XX por meio da lente dos economistas mais destacados do período. A grande virtude de Nasar é trazer à tona as reflexões de teóricos um tanto quanto esquecidos fora dos círculos da disciplina, - ou mesmo dentro deles - como Alfred Marshall e Joseph Schumpeter. Marshall é especialmente interessante por ter sido o primeiro economista a descobrir a produtividade como elemento de progresso socioeconômico, produtividade essa que só pode ser eficiente no seio de um sistema capitalista, não sendo nem mesmo necessário lembrar que o cálculo é impossível em uma economia socialista.
A autora é igualmente feliz sempre que se põe, sem receio algum de fugir ao senso comum das Humanidades, a analisar as falhas da teoria marxiana. Marx escreveu sobre o funcionamento do capitalismo sem nunca ter entrado em uma fábrica ou mantido qualquer contato que fosse com o proletariado. Como se não bastasse, devido à preguiça intelectual e à necessidade sórdida de confirmar seus (pre)conceitos, Marx manipulou estatísticas à exaustão, usando índices do século XVIII como se fossem válidos para o XIX e desprezando uma série de transformações extremamente acentuadas, típicas do período, que ele próprio procurava analisar. Ainda que essas informações já fossem conhecidas desde a leitura de autores mais antigos, vide a obra essencial de Edmund Wilson, Rumo à estação Finlândia, nunca é demais ressaltar os descalabros de Marx e de seus seguidores, que insistem em fechar os olhos para tudo que derruba impiedosamente suas análises.
Talvez o mais interessante e o maior mérito do livro de Nasar, algo que já fica nítido desde o título da obra, seja o fato da autora mostrar como as ideias são capazes de mover a história. Marx, quem diria (?!), é uma grande prova disso, um sujeito que jamais conheceu o interior de uma fábrica ou que tenha sistematicamente tratado de assuntos econômicos com algum proletário (devemos atribuir a Engels a construção da teoria socialista/comunista?) designou o proletariado como única classe portadora da chamada "consciência de classe", sendo que ele próprio nunca foi um proletário, e ainda por cima defendeu a luta de classes como motor histórico. Passado cerca de um século e meio desde Marx ter erigido sua teoria, mesmo com as tragédias retumbantes provocadas pelas tentativas de colocar o socialismo/comunismo em prática, ela continua a influenciar tantas mentes incautas. As ideias movem a história, às vezes para o bem, às vezes para o mal...
Nos meses de novembro e dezembro estive lendo a recém-lançada biografia de Alexis de Tocqueville (Alexis de Tocqueville: o profeta da democracia) por Hugh Brogan. A obra é extensa e rica em detalhes, mas a impressão que tive é que lhe falta fôlego, talvez, por ser mais narrativa do que analítica. São interessantes os pormenores da vida do jovem Tocqueville, de seu círculo íntimo em termos de família e de amizades, da viagem aos Estados Unidos e da doença que o consumiu lentamente. A análise de Lembranças de 1848 é bem construída, desde a gênese da obra até sua repercussão, mas é um dos raros momentos efetivamente analíticos do livro.
Se Brogan peca pela carência de análise, seu maior erro foi abordar Tocqueville a partir de um prisma estranho ao próprio pensamento do grande liberal que ele foi. Principalmente quando se dispõe a refletir a respeito de A democracia na América e da situação da França na década de 1840, Brogan insiste em fazer uso do conceito de classe no intuito de criticar Tocqueville. Ora, se de fato e pelas circunstâncias ele foi superficial em alguns aspectos, certamente não se pode considerar a origem nobre de Tocqueville, tampouco sua visão de democracia, como fatores para acusá-lo de pouca atenção a questões sociais. Dentre os tantos méritos do multipensador francês, um dos maiores foi ter conseguido romper com os preconceitos estamentais de sua condição de nascimento e nesse sentido ele foi um homem intelectualmente íntegro, politicamente atento e historicamente perspicaz. Tocqueville foi um dos primeiros, senão o primeiro, a perceber que a democracia era um sistema político e sociocultural que havia chegado para permanecer na história do Ocidente. Para ele, a democracia não era uma situação a ser encarada a partir de concepções classistas, que nunca ocuparam papel preponderante em sua obra, mas sim levando-se em conta a legislação, os costumes e a moral como preceitos sobre os quais a ordem democrática deveria se assentar para que não desviasse na direção do despotismo da maioria. O grande problema tocquevilliano, sublime e profundamente atual, nunca foi outro senão pensar as possibilidades de manter a igualdade sem suprimir a liberdade, possibilidade em relação à qual, nunca é demais salientar, ele encarava como perfeitamente plausível, mesmo que sua França envolta em turbulências insistisse em querer apontar o contrário.
Para Tocqueville, todo homem que espera da liberdade algo mais do que a oportunidade mais elevada para o ser humano, a própria oportunidade de ser livre, não passa de uma alma medíocre. É uma consideração que vale pelo caráter de universalidade, permanência e imutabilidade que mencionei mais acima e que assim o coloca no rol dos grandes pensadores da história. Feliz 2013!

sábado, 22 de dezembro de 2012

Onivorismo: a falácia do condicionamento biológico


"O ser humano é onívoro". Lançando mão deste argumento, muitas pessoas procuram justificar sua escolha em se alimentar de carne. Destaco a palavra "escolha" pois é disso mesmo que se trata quando o assunto é a alimentação na contemporaneidade. Note-se que a afirmação "o ser humano é onívoro" é determinista, dado que remete a uma condição biológica, enquanto as escolhas alimentares orientam-se a partir de lógica bastante distinta.
Será que quando alguém come picanha, linguiça de porco, peixe crú, ou qualquer outro tipo de carne, age movido por uma questão de determinismo biológico, algo que impele o sujeito irremediavelmente sem lhe oferecer oportunidade de escolha? É claro que não, basta pensar por instantes e logo se conclui que aquilo que comemos é puramente escolhido. Na pior das hipóteses, comer carne é um hábito que pode até ser difícil deixar de lado, mas sempre, em última análise, é uma escolha. Hábitos, por mais arraigados que sejam, podem ser mudados se houver força de vontade, sobretudo se forem hábitos perniciosos. Assim sendo, o argumento do onivorismo logo cai por terra. No entanto, é possível recorrer à Antropologia e à História para torná-lo ainda mais refutável.
Biologicamente, animais como o leão ou o lobo são carnívoros, o que significa que na natureza, evidentemente sem o mesmo poder de escolha que o ser humano possui, eles estão condicionados a caçar e se alimentar de carne. Um cão doméstico, como todos sabem, é diferente. Não vivendo em estado selvagem, ao contrário dos lobos e dos cães selvagens, - seus ancestrais - ele adquiriu hábitos humanos, isto é, além da carne, passou a se alimentar também de frutas e legumes, tornando-se onívoro como o Homem. Nesse caso, não houve escolha por parte do cão, mas um dado biológico foi modificado pelo processo evolutivo: a domesticação alterou a condição biológica do cão; do exclusivo carnivorismo do canis selvagem para o onivorismo do canis familiaris. Ressalte-se que atualmente já existem no mercado rações compostas apenas por ingredientes de origem vegetal, o que permite que cães sejam mantidos com alimentação vegetariana. Se até o cão doméstico, desprovido da opção do que comer e cujos ancestrais são carnívoros, consegue viver tranquilamente à base de alimentação vegetariana, o que pensar a respeito do ser humano?
No período Pré-Histórico, durante milhões de anos desde o surgimento dos primeiros hominídeos até bem depois do advento do Homo sapiens sapiens, quando a agricultura se sistematizou por volta do ano 10.000 a.C., os grupos humanos viveram sob a condição do nomadismo. O alimento não estava disponível a todo momento, era preciso ir atrás dele: alimentar-se, por eras a fio, foi algo fortuito. Qualquer um há de convir que quando a comida não está à disposição assim que a fome bate, a escolha com relação aos alimentos fica em risco. Tal situação era regra no mundo pré-histórico, mas não atualmente e, ainda que a pobreza possa causar exatamente o mesmo efeito, não é uma regra para grande parte dos habitantes do planeta, que escolhem tudo aquilo que querem comer.
A evolução é um fato na história humana. Graças à tecnologia, a produção alimentar alcançou níveis que geram excedentes enormes de alimento, por isso não há fome em massa, como acreditava Thomas Malthus. Se muitos ainda passam fome no século XXI, o problema é socioeconômico, agravado, diga-se de passagem, pela pecuária. O certo é que ninguém sai por aí caçando para tentar obter alimento. As pessoas vão ao supermercado e lá encontram uma variedade ampla de alimentos que não contêm carne. A maioria, contudo, escolhe comprar carne, não devido ao onivorismo biológico do ser humano, mas porque quer comer carne, ou porque, aparentemente, a alimentação é um hábito tão trivial que não suscita para esta mesma maioria perguntas como: "de que modo são criados os animais?"; "de que modo são abatidos?" Ou a mais crucial delas, que envolve exatamente a possibilidade de escolha: "é preciso realmente comer carne"?
O Natal é um época, talvez mais do que qualquer outra, na qual a escolha dos pratos que farão parte da ceia mais se aplica. É uma oportunidade ótima para tomar a decisão definitiva de se tornar vegetariano. Como se observa, o argumento do onivorismo é facilmente refutado em vista da existência de inúmeros alimentos isentos de carne. Posso aceitar que muitas pessoas tenham dificuldade para se livrar do hábito de comer carne, mas elas não podem se furtar aos questionamentos filosóficos e ecológicos passíveis de reflexão uma vez conhecidos os malefícios econômicos e espirituais inerentes à pecuária. Se esconder atrás de um condicionamento biológico que não resiste às transformações de fundo antropológico e histórico pelas quais a humanidade passou ao longo de milhões de anos, é somente mais uma frágil tentativa de não encarar de frente as responsabilidades que a alimentação compreende.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Não gosto de gente consciente e moderna. Sou mesmo é alienado e retrógrado!


Nunca foi tão fácil, como atualmente, ser considerado consciente e moderno. É resultado do que costuma ser designado por "inclusão social", um eufemismo (e uma desculpa) para formação deficiente. Ao invés do estudo sistemático, da reflexão acurada a respeito dos problemas que permeiam a vida humana, discutidos pelos mais diversos pensadores, das mais variadas escolas filosóficas e da procura por um pensamento original, abrangente e de tendência universalizante, tudo o que é necessário para formar o cidadão culto, basta seguir como um autômato certos lugares comuns tão frágeis quanto um castelinho de areia à beira-mar, mas que repetidos à exaustão em um contexto massificado, no melhor estilo Goebbels, se tornam verdades absolutas. Nestes termos, pode parecer um tanto quanto abstrato para aqueles que estejam dispostos a ter seu intelecto moldado por imbecilidades, todavia, alguns comportamentos concretos verificáveis em nosso cotidiano funcionam como o melhor dos manuais. Senão, vejamos:
Um sujeito morre com quase 105 anos de idade, quase toda a imprensa cria um dramalhão sentimentalóide em cima do fato e a ralé segue atrás, tal qual um autêntico exército de zumbis. Se antes da morte do ancião comunista, oito de cada dez brasileiros mal possuíam informação sobre a pessoa, as ideias e a obra de Oscar Niemeyer, depois do barulho midiático, é possível que esse número tenha caído para sete, quem sabe seis entre dez?
Ouvi em matéria da Rádio Bandeirantes não sei qual jornalista consciente e moderno (são tantos!) afirmando que o próprio Niemeyer sempre declarava se preocupar não apenas com o lado estético de seus projetos, mas sobretudo com a destinação que seria dada aos mesmos. Será mesmo que ele foi tomado por um laivo sequer dessa tão correta preocupação quando projetou Brasília? Não sei, talvez ele fosse ingênuo quanto ao futuro da política no Brasil, de qualquer forma, não chega a ser o melhor exemplo. Mas e quanto à Arena de Barretos? Ora, seria demais pensar que um comuna pudesse se importar minimamente com a causa animal, mesquinharia tipicamente burguesa. Me ocorreu ser justo indagar se Niemeyer, tão cioso com a utilização ulterior de suas obras, teria se recusado a projetar algum calabouço para presos políticos de ditaduras comunistas, ele que tantas vezes esteve na URSS...
No Brasil, quando um famoso morre, vide Ayrton Senna, Hebe Camargo e agora Niemeyer, é alçado imediatamente à condição de santo imaculado, não importando nada além dos feitos profissionais e artísticos do morto, ainda que estes sejam perfeitamente passíveis de críticas ou relativizações. E ai de quem ousar fazê-las; prontamente é acusado de ofender a memória do morto, incapaz de entender seu legado, alienado e blasfemo. Sr. Niemeyer, "poeta das curvas", "gênio da arquitetura", me desculpe por palavras deveras indelicadas contra alguém que tanto lutou por seus ideais e ainda nos brindou com tão belas obras. Alcancei a consciência e a modernidade, viram como é fácil?!
E por falar em blasfêmia, o vocabulário de conotação religiosa andou passando pelas línguas da esquerda. Logo dela! O mesmo pessoal que não dá um descuido em patrulhar os discursos opostos aos seus cânones, (quatro anos de PUC, sei como poucos o que é isso!) que legitima quaisquer de suas ideias ou atos, por mais inescrupulosos e atrozes que sejam, simplesmente por crer que os mesmos atuem como vetores miraculosos da justiça e da igualdade, é também pródigo em se fazer de vítima. Salvo raríssimas exceções, o discurso esquerdista é só conversa mole: justiça, igualdade,... que nada! Falácias das quais a esquerda se apropriou na tentativa de maquiar sua verdadeira intenção: chegar ao poder, corrompê-lo, destruir suas instituições democráticas e nele se perpetuar. Qualquer leitor colegial de George Orwell com um pouco de personalidade para não se deixar doutrinar por professores amestrados e alinhados com o esquerdismo sabe disso. Mas lembre-se, o legal é ser "consciente" e "moderno", logo, nada de Orwell, que nunca foi capaz de vislumbrar o potencial transformador do comunismo...
No site de uma revista de qualidade inexistente, li uma postagem cujo teor era o seguinte: o STF fez reviver os tempos da Inquisição e de Torquemada, perseguiu arbitrariamente e puniu sem provas. Bravo! Moderníssimo! O autor do post tentou ainda conferir ares de erudição ao seu comentário e citou o ensaio O inquisidor como antropólogo, do historiador italiano Carlo Ginzburg, com isso procurando fazer entender que os ministros que julgaram a Ação Penal 470, exceto uns e outros, forçaram a condução e o desfecho do que já haviam concluído até então segundo interesses outros que não a lisura jurídica. Como se percebe, o comentário não fez mais do que papagaiar o fraquíssimo discurso do ministro Dias Toffoli proferido em uma das sessões do julgamento. Quem acompanhou minimamente a atuação dos ministros pôde notar com clareza a superficialidade das apreciações de Toffoli, - reprovado duas vezes em concursos para a magistratura estadual paulista - bem como seu conhecimento jurídico bem abaixo da média de seus companheiros de STF, mesmo aqueles que tentaram de todas as formas dar uma mãozinha aos envolvidos no escândalo do Mensalão. A idiotice da postagem salta aos olhos, pois continuar batendo na tecla de que o julgamento se fez sem provas é no mínimo imoral, é tapar os olhos para uma enxurrada de evidências, que aliadas ao contexto, como defendeu a ministra Rosa Weber, - até mesmo ela, que em muitos pontos foi condescendente com envolvidos no escândalo - levam sem margem nenhuma de dúvida à justa culpabilidade dos condenados. Isso é elementar, porém, as imprecisões históricas da argumentação nem sempre ficam claras aos olhos dos leigos ou menos atentos. Durante a Inquisição a Igreja Católica fez uso dos processos inquisitoriais para ajudar na construção de sua ortodoxia, ainda não plenamente definida à época. Um estudo das obras do historiador português Francisco Bethencourt, do próprio Ginzburg e do Malleus Maleficarum permitem compreender a base subjetiva e não-evidencial que pautou a ação dos inquisidores, o que nao é surpresa quando se leva em conta que estavam em jogo questões religiosas e minúcias teológicas inseridas no alvorecer da Idade Moderna. É mais do que óbvio que isso nada tem a ver com as práticas que deram forma ao Mensalão e ao seu julgamento. Ressalte-se também que naquela época a Igreja Católica representava o poder estabelecido na maior parte da Europa ocidental, condição que tornava algo fácil a manipulação de seus interesses, já hoje em dia quem está no poder de forma bem enraizada é o PT. Se o autor do post fez uma (péssima) leitura de O inquisidor como antropólogo, estamos autorizadíssimos a inferir que ele nunca ouviu falar em Mitos, emblemas, sinais... ele e o ministro Dias Toffoli. Entretanto, na visão dos conscientes e modernos nada disso é válido, uma vez que o julgamento sofreu pressão da mídia golpista (a mesma que adere ao governo federal até no quesito futebolístico e que teceu loas ao comunista Niemeyer).
Ah, a imprensa! A imprensa requer a mais profunda e imbuída de consciência e modernidade análise caso se queira romper com o pensamento conservador dominante. Conservador, dominante? Hummm, deixa para lá... Cada vez com mais frequência nota-se nas redes sociais ou em situações ao vivo o pedantismo ideológico e o  tom professoral dos falsos intelectuais, os mesmos que louvam Niemeyer e que ainda se prestam ao sórdido papel de reverenciar o PT. Tal prática é especialmente recorrente quando se trata da revista Veja, que pode ser criticada normalmente desde que o viés puramente ideológico não seja o parâmetro, o exato contrário do que fazem. Eles reputam a si próprios a capacidade exclusiva de instruir a multidão sobre o que ela deve ou não deve acreditar. São os intelectuais orgânicos de Gramsci. Ou os ideólogos do establishment, leitores do Manifesto Comunista, do Dezoito do Brumário, nunca de O Capital, muito extenso e complexo. Desta obra, só retêm e difundem, como um relógio de repetição, os clichês hiperbólicos. Adoram também as teses de Walter Benjamim, marxismo poético enfadonho, os livros de Eric Hobsbawm, marxismo fast food e de Foucault, mistura psicodélica de pós-modernismo orgiástico com marxismo e sua crítica à "sociedade burguesa". Haja! O problema deles com a Veja é por ela contar com articulistas de direita e por não ter rabo preso com o governo do PT, independentemente do que o veículo noticia, tudo mentira com vistas ao golpismo, segundo os tais. Quanto a outros veículos que sabidamente recebem verbas do governo, não têm nenhuma crítica a levantar. Será mesmo que estão preocupados com a imparcialidade jornalística? Receio que não! Mas não importa, postar no Facebook que quem lê a Veja não tem cérebro e que esse veículo é o mais vil, golpista e preconceituoso, é sinal inconfundível de consciência e modernidade.
E os acontecimentos que se sucederam no intervalo da partida entre SPFC vs. Tigre pela final da Copa Sulamericana, como fatalmente não poderia deixar de ser, trouxeram à tona a já manjada patriotada tupiniquim. Sem ninguém ainda saber exatamente o que teria provocado a confusão, presenciei colegas meus de profissão vociferando contra os argentinos, não contra o time do Tigre especificamente, - o que seria compreensível se viesse de torcedores são paulinos movidos pela paixão - mas contra os argentinos como um todo, como povo da Argentina. Tive a nítida sensação de estar diante de vários Galvões Bueno. Patético! Depois, fiquei sabendo por minha mãe que um apresentador da Record, cria de Datena e afins na maneira de se comunicar, afirmou ser o povo argentino mal educado. Educado é ele... consciente e moderno também!
Quando a imprensa adoça a vaidade dos conscientes e modernos, ela deixa de ser golpista... Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, é diferente, um verdadeiro oásis no meio de tanta baboseira. Em uma análise isenta e ponderada, ele perguntava se brasileiro é um primor de retidão, educação e polidez a ponto de se colocar em posição de superioridade junto aos vizinhos. Diria um cônscio e moderno: "ora, que se dane esse jornalista ranzinza, falar mal do Brasil, cospe no prato que come, não é patrioteiro..., ops, patriota!" Mauro ainda salientou a atitude do brasileiro Luís Fabiano no jogo de ida, responsável por criar tensão exacerbada. Todo sujeito que procura assumir ares superiores lançando mão de sua nacionalidade é para mim uma criatura das mais abjetas e desprezíveis. E geralmente brasileiro adora agir assim. Porém, ser patrioteiro, a despeito da tamanha carga de nacionalismo tacanha que implica, é também visto como conduta consciente e moderna perante a patifaria da ralé e de seus prescritores.
Quanta consciência, quanta modernidade! Eu, como sou alienado e retrógrado, estou na época e no lugar errados, bem melhor estaria se me deparasse no cotidiano com a crítica isenta, com análises livres de ideologização, com a intolerância face aos corruptos, com uma visão planetária ao invés de nacionalista, características tão odiadas pelos conscientes e modernos...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Um pouco sobre educação, ensino e pesquisa: em defesa de um paradigma democrático e interpretativo, mas também universalizante


Os escritos seguintes são fruto de um pedido de uma colega de trabalho. Ela cursa Pedagogia e as questões formuladas pela instituição superior deveriam ser respondidas por professores, sendo que fui um dos escolhidos para tanto.
Como já expus anteriormente, houve uma época em que eu pensava, ingenuamente, que a educação poderia resolver os problemas do Brasil. Permaneço imbuído da certeza de que uma nação desenvolvida precisa, necessariamente, ser uma nação culta e letrada, perspectiva oposta à concepção pós-moderna, para a qual não existe conhecimento universal independente dos indivíduos e dos pequenos nichos socioculturais nos quais estes se inserem (ou deixam de se inserir...). Assim, de acordo com o pós-modernismo, a educação nos moldes em que se pratica em países como a Finlândia ou o Japão, não é nada mais do que um cânone imposto pela "sociedade capitalista". Abomino o relativismo pós-moderno, tenho ojeriza à guetização que está implicada nesta forma de ver o mundo. Contudo, para alguém que adota o paradigma do liberalismo clássico, como eu, não é exatamente a valorização da educação per se que está em discussão, mas o tipo de educação a ser empreendida. Há algum tempo, concluí que a educação brasileira, como esta se apresenta desde a segunda metade dos anos 1970, - doutrinária e marxista - não só é absolutamente incapaz de promover o desenvolvimento do Brasil, como contribui para torná-lo ainda mais um país atrasado. As respostas que dei para minha colega revelam um pouco desta discussão, por isso resolvi trazê-las até o blog. Seguem abaixo:

1- O que você entende por educação, ensino e pesquisa?
R: A meu ver, a educação, além da construção das habilidades e competências relacionadas à formação mais técnica do aluno, tem muito a ver também com a formação do cidadão, aspecto no qual os valores civis, éticos e morais são parte fundamental. O ensino é um processo de interação entre professor e aluno no qual o conhecimento a respeito tanto da parte técnica da educação, como da parte civil, ética e moral, não passa somente pela transmissão de informações, mas principalmente pela reflexão sobre estas, o que torna o conhecimento uma questão de construção. A pesquisa é também um processo em que o conhecimento é construído por meio de interpretações que devem ser fundamentadas em fontes de pesquisa; as conclusões às quais o pesquisador chega são parte do saber a ser continuamente interpretado, debatido e revisto pelas sociedades humanas, trabalho este que deve estar baseado, obrigatoriamente, nos paradigmas científicos conhecidos.

2- Para você, qual a contribuição da pesquisa enquanto princípio educativo para a prática pedagógica do professor?
R: Penso que através da pesquisa o professor poderá levar para a sala de aula novas descobertas realizadas no campo da pedagogia a serem colocadas em prática (caso se façam pertinentes e possibilitadores de bons resultados; para se fazer essa avaliação, as pesquisas precisam ser postas em discussão com coordenação e corpo docente, bem como eventualmente testadas em sala de aula). Descobertas científicas referentes a outros campos do saber igualmente podem ser debatidas com os alunos, pois são instrumentos a mais no processo de construção do conhecimento.

3- Qual a concepção sobre a utilização de materiais didáticos em sala de aula e qual a importância deles no processo educativo dos alunos?
R: Todo material didático serve de apoio e referência na construção do conhecimento. O cuidado a ser tomado é não ficar restrito a um único tipo de material, nem tratá-lo como se fosse um depósito de Verdade sem que se façam necessárias interpretações e reflexões sobre as informações trazidas por esses materiais. No campo das Humanas, as análises trazidas por um livro ou qualquer outra forma de comunicação, decorrem dos condicionamentos intelectuais do autor e, a despeito do compromisso com a verdade por parte deste autor, não se pode ter a pretensão de ser o dono da Verdade. O essencial é que toda análise e toda reflexão devem ser dotadas de argumentação sólida e referências científicas.

4- Cite alguns materiais didáticos disponíveis em sua escola.
R: São usados sobretudos livros e filmes. Para as disciplinas específicas que leciono (História e Geografia), também faço bastante uso de mapas, imagens e, quando possível, de artigos veiculados na imprensa.

5- Como você utiliza os materiais didáticos em sala de aula? (constrói com os alunos, leva material pronto, solicita que os alunos levem materiais para enriquecer a aula e o conteúdo, utiliza os recursos disponíveis na escola? Qual (is) disciplinas(s) utiliza (m) mais materiais didáticos?; justifique o motivo.
R: Utilizo de todas essas estratégias. Como se pode inferir pelas respostas anteriores que dei, procuro sempre orientar os alunos a interpretarem as informações contidas nos mais diversos materiais didáticos. Até mesmo com relação aos livros didáticos, que são materiais prontos, busco orientar os alunos que aquilo que os livros contêm é resultado de interpretações de autores que escreveram tais livros, bem como das fontes utilizadas para escrevê-los. De acordo com minhas referências intelectuais e no âmbito das disciplinas que leciono, procuro sempre tomar o cuidado de não cair num relativismo absoluto, ou seja, as interpretações não são meros pontos de vista, meros achismos, pelo contrário, são resultado de ampla pesquisa, documentada e defendida com sólidos argumentos. Sendo assim, é necessário estudar e discutir detidamente as diversas interpretações buscando analisar as que são mais válidas, as que são parcialmente válidas e as que são de fácil refutação. Esse processo, repito, se faz a partir da interação professor-aluno. Não posso afirmar nada sobre disciplinas do campo das Exatas e Biológicas, mas no que se refere às Humanas, acredito que usar uma boa variedade de materiais didáticos é muito importante, justamente para possibilitar ao aluno o contato com interpretações diferentes. O problema é que dependendo da linha pedagógica de uma deteminada escola, o professor fica restrito a um livro que ele precisa terminar ou uma apostila cuja dinâmica se faz aula por aula.

6- Você promove/promoveu adaptações em materiais didáticos diante de necessidades educacionais especiais de algum aluno ? Qual (is)? Como foi esse processo?
R: Não só em virtude de necessidades especiais de algum aluno, mas muitas vezes na tentativa de facilitar o entendimento promovi adaptações, sobretudo no que se refere ao vocabulário (algo em relação ao qual os jovens de hoje apresentam imensa dificudade, sendo preciso tempo, trabalho e muita paciência para que eles adquiram um repertório mais amplo). Em outros momentos, quando percebi que havia possibilidade de forçar e fazer com que os alunos aprofundassem algum tema, igualmente adaptei tentando tornar as coisas de modo a exigir mais deles, criando por exemplo, questões extras em cima de algum texto, ou trazendo um autor de interpretação diferente para dialogar com o que já constava do material didático. É muito difícil prever de antemão se tais adaptações darão certo ou não, o que depende de uma enorme gama de fatores, alguns deles meramente casuais. Eu diria que costuma ser proveitoso em aproximadamente 70% dos casos.

Estas foram as primeiras questões que respondi. Posteriormente, outras foram propostas, como se segue:

7- Apresente as definições de educação, ensino e pesquisa e estabeleça uma articulação sobre a importância dessas ações para a atuação do professor no contexto educacional.
R: Educação: processo de formação de competências e habilidades, bem como de formação ética e moral do aluno, envolve ainda a troca de experiências e o debate sobre o conhecimento na interação entre professor e aluno; Ensino: transmissão de informações, orientação e reflexão sobre como lidar com as informações transmitidas no sentido de aproveitá-las no debate sobre o conhecimento; Pesquisa: geração de conhecimento a partir da problematização de fontes de pesquisa e obtenção de conclusões/interpretações.
O professor deve ser, além de um transmissor de informações, principalmente um orientador que capacitará o aluno a refletir sobre as informações, fazendo com que este entenda que informação é matéria-prima na produção do conhecimento. O professor pesquisador, em tese, está bem capacitado a ensinar, já que fará com que os alunos diferenciem informação de conhecimento e a relação existente entre ambos. A pesquisa é importantíssima nesse contexto, pois por meio dela o conhecimento é produzido e colocado em debate na sala de aula. A partir disso, tem-se a meu ver, os fundamentos para uma educação completa, que deve contemplar competências e habilidades, mas também a formação do cidadão, algo que só pode ser alcançado com debate sobre o conhecimento já produzido, oferecendo ao aluno uma bagagem cultural e universal que lhe tornará a apto a entender e interagir com a realidade que o cerca. É também partindo daí que o aluno pode ter sua curiosidade despertada para que ele próprio realize pesquisas e possa contribuir produzindo algum conhecimento.

8- Para você, de que maneira os recursos didáticos foram evoluindo ao longo da história da educação?
R: Pensando especificamente na minha área de docência, creio que os recursos didáticos estão bem mais atraentes e otimizados em termos visuais. São muito mais ricos em iconografia e variedade cartográfica do que eram quando eu fui estudante, há cerca de 20 ou 25 anos. Mais recentemente, muitos recursos integraram a tecnologia como meio de transmissão de informações mais precisas e atraentes para um público já nascido sob a influência da Revolução Tecnológica e da Nanotecnologia.
No entanto, considero um equívoco acreditar que haja uma evolução, em sentido lato, dos materiais didáticos apenas porque estão mais atraentes no quesito visual ou mais afinados com novas tecnologias. Penso que muitos materiais didáticos são totalmente comprometidos pelo dogmatismo e pelo exacerbo ideológico. Na minha área, por exemplo, o marxismo ainda é, inúmeras vezes, tratado como Verdade única e como chave incontestável para a resolução dos problemas da humanidade, mesmo com a enorme quantidade de falhas grotescas já exaustivamente discutidas e apontadas presentes em uma teoria que se pretende profética e enxerga o desenrolar histórico como uma necessidade pré-definida pelos seus próprios parâmetros, o que ao longo do último século e meio vem se mostrando cada vez mais uma tremenda falácia. São raríssimos os autores que se preocupam, por exemplo, em discutir o capitalismo não como um sistema que engolfa todo o resto das dimensões sociais, mas como uma das dimensões possíveis de uma determinada sociedade, e que depende das outras - política, cultura, história, mentalidade - para funcionar de um modo ou de outro. Mais um exemplo é a visão a respeito da ditadura castrista em Cuba, em muitos casos considerada um modelo a ser louvado e adotado em outras localidades. Não é possível ver nisso nada além de pura contaminação ideológica, extremamente abjeta. Há aspectos que podem e devem ser colocados em debate, não uma ditadura, algo a ser condenado independentemente de espectro político.

9- Escreva um texto apresentando a pesquisa enquanto princípio educativo enfatizando a atuação do professor pesquisador.
R: Como exposto na questão 7, é por meio da pesquisa que se produz conhecimento. Assim sendo, o professor pesquisador está capacitado a levar o conhecimento produzido para o interior da sala de aula. Lá esse conhecimento será colocado em debate e confrontado com outras interpretações. Neste processo, o professor deve fazer com que os alunos entendam os argumentos que norteiam uma pesquisa e criem, eles mesmos, argumentos capazes de defender ou refutar as diferentes interpretações, sem doutriná-los na preferência por alguma delas. É então o aluno, que trabalhando e refletindo a partir do que é trazido pelas pesquisas, se tornará sujeito do conhecimento, sendo capaz de lançar argumentos existentes ou próprios em defesa de sua posição. O trabalho de pesquisa é importante porque mostra ao aluno que o conhecimento não está pronto e depositado em um "baú" de onde se retira alguma Verdade definitiva, mas que, ao contrário, as interpretações, quando solidamente argumentadas, contribuem para construir verdades (com v minúsculo) que atuam como "tijolos" na composição de um imenso "painel" que faz parte da cultura humana. É daí que o aluno se torna sabedor de que informações não são o conhecimento em si, mas apenas matérias-primas a partir das quais o conhecimento é continuamente produzido, sendo necessária a filtragem e a reflexão em cima das informações. Tal processo pode contribuir ainda promovendo o gosto pela pesquisa e pelo conhecimento entre os alunos, quem sabe, (?) fazendo com que eles próprios ajudem na construção do conhecimento.


*OBS: evidentemente, a postura que assumo deve ser entendida exclusivamente no âmbito da minha área de docência, as Humanidades; um professor de Exatas, por exemplo, certamente terá uma perspectiva teórica e pedagógica diferente em certos aspectos (ou em muitos), haja vista que os ramos do saber possuem especificidades que precisam ser consideradas para que o processo educacional se conduza da melhor maneira em cada disciplina.

Sempre que possível, tento orientar minha prática docente segundo tais bases, porém, há entraves sérios e de difícil superação que viciam a estrutura educacional brasileira, algo que começa no Ensino Superior, de onde sai um grande número de professores que doutrinam os alunos. A universidade é o centro formador de docentes e, uma vez que a universidade brasileira, na maioria dos casos, se encontra assolada pelo marxismo, pelo pós-modernismo (não mais do que uma derivação do marxismo) e pela ideologização socialista, pensar em uma educação democrática, interpretativa e universalizante (no sentido da complexidade do conhecimento, da liberdade e da moral), é o mesmo que arar no deserto.

domingo, 25 de novembro de 2012

O futuro do Palmeiras


O tema indicado no título deste artigo não tem a mesma importância que discussões voltadas para a cultura, a filosofia, a história ou a política, no entanto, se o futebol do Palmeiras conseguir se reerguer através dos caminhos que estão à sua disposição, terá sido um acontecimento que, sem dúvida alguma, deixará lições em relação ao atual sistema que tanto aproxima futebol e política no Brasil. Se, ao contrário, o alviverde permanecer em seu profundo estado letárgico, o pão e circo continuará sendo a tônica, cada vez mais fortalecido.
Ninguém é estúpido o suficiente para deixar de pensar que o rebaixamento para a segunda divisão nacional consiste em motivo de enorme vergonha, sobretudo quando se trata de um time de tantas tradições. O fato é ainda pior por ser o segundo descenso em dez anos. As lições da primeira queda não foram aprendidas, os tumores que acometem o Palmeiras não foram extirpados e, se como afirma o jornalista Paulo Vinícius Coelho, houve nessa última década períodos diferentes nos bastidores esmeraldinos, sem que uma linearidade tenha preponderado, de modo geral, a administração permaneceu horrorosa, bem como a ideia de transformar a SEP em um clube exclusivamente social, vinda da mente podre de cartolas poderosos como o nefasto Mustafá Contursi, sempre pairou no ar.
O segundo rebaixamento poderia fazer com que o torcedor palmeirense desanimasse de vez e se visse exaurido de esperanças por alguma mudança interna que fosse capaz de reconduzir o time aos lugares mais altos nas disputas. De fato, pode ser que nada mude, todavia, tem me parecido que a queda de 2012, bem como a temporada 2013, se enquadram em outro contexto quando comparadas à de 2002. Naquela ocasião o Palmeiras vinha de uma década de 1990 recheada de conquistas e o exemplar e pioneiro acordo de co-gestão com a multinacional italiana Parmalat havia chegado ao fim. Ficaram os mesmos dirigentes retrógrados e de visão estreita que nada aprenderam a respeito de gestão moderna do futebol. Nesse sentido, o rebaixamento de 2002 poderia ser interpretado mais ou menos como um acaso e um sinal de que era preciso modernizar o Palmeiras. Aprendida a lição, nunca mais o descenso se repetiria. De lá para cá o alviverde obteve duas conquistas e colheu um número significativo de fracassos, desempenho risível em vista de seu passado campeoníssimo. Algo estava muito errado. E ainda está.
Paulatinamente, foi ficando óbvio que os problemas políticos do Palmeiras não foram sanados, pelo contrário, talvez tenham ficado ainda maiores. As brigas internas entre dirigentes e o descaso com o futebol da SEP foram responsáveis por falta de planejamento, contratações obscuras de jogadores sem a menor condição de vestir o manto esmeraldino e montagem de equipes cuja fraqueza fez inveja a times considerados de mínima expressão. Hoje em dia, qualquer torcedor palmeirense tem perfeita noção do quadro de insanidades políticas que toma conta do futebol alviverde. O rebaixamento de 2012, como todos sabem, não é um mero acaso, mas resultado de péssimas administrações e, agora, mais do que nunca, as cobranças são fortemente verificadas. O torcedor palmeirense carrega consigo o ardente desejo de expurgar da SEP os dirigentes ineptos que desgovernam a instituição. Uma conquista grandiosa como as eleições diretas já foi conseguida para 2014. O problema é que não há como ficar esperando até lá, pois as mudanças precisam ser para ontem.
O ano de 2014 marca o centenário do Palmeiras, momento histórico no qual a vontade de vitória fica ainda mais potencializada pelo torcedor. Para que os 100 anos da SEP não passem em branco, como aconteceu com o rival incolor, mesmo este já sendo beneficiário da ajuda midiátca e governamental, o rumo das coisas precisa ser alterado para já. O ponto mais importante seria a antecipação das eleições de janeiro/2013 para dezembro/2012, o que daria mais tempo para planejar a temporada seguinte, porém os esforços da coletividade palestrina ainda são insuficientes para tanto. Mesmo que a antecipação não vingue, ainda assim o futuro próximo do Palmeiras pode reservar elementos bastante positivos. Não, não é um paradoxo, basta que o próximo presidente saiba como conduzir o processo. Ao que parece, o fraquíssimo Arnaldo Tirone não será candidato à releição, ficando o pleito a ser disputado entre Paulo Nobre, Décio Perin e Wladimir Pescarmona. O primeiro deles, de longe o mais capacitado, inteligente e portador de ideias renovadoras e profissionalizantes, tem chances de vitória. Se isso acontecer, 2013 e o ano do centenário podem representar a volta do gigante esmeraldino ao topo da cena. Todos os esforços agora devem ser concentrados na eleição de Paulo Nobre e, caso ele não vença, a recuperação corre sérios riscos, haja vista que Perin é apenas mais um conselheiro de perfil retrógrado e Pescarmona, a despeito de gostar de futebol, parece não ter a visão e o tempero adequados para administrar a SEP como a modernidade exige.
Ainda que o melhor candidato não venha a se tornar presidente, algumas circunstâncias deverão ajudar o Palmeiras: o time disputará a Libertadores da América, a Copa do Brasil, que voltará a contar com equipes envolvidas no torneio sulamericano, o Paulista, que pode funcionar como importante laboratório na observação de jovens valores, além da própria Série B. Portanto, mesmo com o rebaixamento, as competições vindouras são de um time da elite, sendo necessária, evidentemente, a montagem de um elenco capaz de disputar tais campeonatos com chance de conquista. No momento, isso soa um tanto quanto utópico, mas não é impossível se as coisas forem feitas da maneira correta. Já é certo que muitos jogadores de nível técnico abaixo da ruindade serão dispensados, bons valores da base serão utilizados e, se tiverem personalidade, certamente renderão frutos dos mais positivos. Boas contratações podem ser feitas, ao contrário do que reza a cartilha da imprensa vendida ao establishment incolor, bastando oferecer contratos vantajosos e um discurso sedutor em função das competições que o time tem pela frente. Aqueles jogadores que tiverem culhões e gostarem de desafios, assim como os heróis de 1993, terão a chance de fazer história e virar ídolos. Como afirmou o craque e eterno ídolo Evair, "para jogar no Palmeiras você precisa ser mais homem do que os outros, não basta ser só um grande jogador de futebol, você precisa ser mais homem do que os outros!" Quem se habilita? Isso não é tudo: há ainda a Arena Palestra Itália, estádio que será um dos mais modernos do mundo e construído sem um tostão de dinheiro público, o que nunca é demais ressaltar. A nova casa será um enorme atrativo para a torcida e renderá cifras à SEP, mais um elemento com grande potencial de fortalecer o Palmeiras.
Logicamente, tudo ainda é muito especulativo e incerto, mas não tenho dúvida de que o próximo gestor do Palmeiras terá a faca e o queijo na mão para recolocar o time na rota das grandes conquistas, tendo para isso que administrar a instituição de modo totalmente oposto ao que se tem feito. É difícil, mas não impossível, repito, até porque se as coisas não mudarem a pressão do torcedor será cada vez mais insuportável. Minha apreciação talvez seja exageradamente otimista e, devido a tudo que vem acontecendo com o Palmeiras há um bom tempo, é altamente necessário estar vacinado contra decepções. E eu estou! Independente do que vier a acontecer no futuro da SEP, nunca se deve esquecer que mesmo com as administrações horripilantes, as idiossincrasias, a política desorganizada, as vendetas e consequentes insucessos - o que todo palmeirense quer que deixe de existir com urgência -, ainda assim a instituição existe por si mesma, motivo de orgulho, bem diferente do que acontece com um certo clube vendido ao poder instituído, protegido por amplos setores da imprensa, da CBF e do governo federal, instrumento inconteste do pão e circo da ditadura gramsciana PeTralha.

sábado, 17 de novembro de 2012

A República de mentira. Ou as mentiras da República que nunca foi


Sempre que ocorre um feriado pátrio no Brasil, faz-se a manjada pergunta: "as pessoas sabem o significado do 7 de Setembro, do 15 de Novembro?" Em muitos casos não sabem, porém, o cerne da questão não é nem esse. O mais correto seria questionar se o brasileiro reconhece os caminhos históricos que produziram a Independência do país ou que levaram à Proclamação da República. Nesse caso, o desconhecimento de causa é dos mais gritantes. Enquanto isso, a execução do Hino Nacional em eventos esportivos é obrigatória, bem como dentro das escolas, isso sem falar no folder a respeito do Dia da Bandeira, que foi distribuído nesse mês de novembro para vários estudantes brasileiros; segundo o próprio, respeitar e cultuar a bandeira do Brasil denota educação e civismo. Só mesmo em um país débil como esse verifica-se esta idolatria das externalidades, estas tolas abstrações sem nenhum real significado político.
Considerando a Proclamação da República e o Dia da Bandeira, que se situam no contexto destes dias que estamos vivenciando, o besteirol patrioteiro um vez mais surge como uma espécie de falso consolo perante uma população que mal sabe o que se passou em sua história, o que leva muitos incautos a pensarem confortavelmente que cantar o Hino, reverenciar a Bandeira ou louvar uma República anódina lhes confere indulto moral. Haja besteira!
A República no Brasil foi proclamada por militares positivistas, o que é fato, ao contrário do que tem tentado transmitir um certo revisionismo republicano. Mais do que isso, o positivismo ditou os rumos da Proclamação em um período histórico no qual a filosofia positivista já se encontrava para lá de marginalizada no mundo desenvolvido, entretanto, como retardatário no que quer se refira aos processos de desenvolvimento intelectual, foi o paradigma a dar as cartas do republicanismo no Brasil. O lema "Ordem e Progresso" inscrito na bandeira é a marca indelével do positivismo republicano. Reverenciar o positivismo, uma filosofia rigorosamente falha, ainda por cima um positivismo extemporâneo? Definitivamente, algo está muito errado. O que denotaria educação e conhecimento cívico seria fazer a crítica da bandeira, não cultuá-la. Da mesma forma que o bom alvitre manda refletir criticamente acerca do nosso republicanismo de mentira.
A etimologia do termo "república" vem do latim res publica, isto é, "coisa pública". Daí pode se presumir corretamente que em uma república a população deva ter participação efetiva nas discussões políticas. Aqui é interessante recorrer à Antiguidade Clássica, dado que a própria expressão da cidadania se dá por meio da participação política, como ensinou o legado grego. O cidadão, desse modo, é aquele que debate política. Se grande parte da população brasileira nem sequer sabe ao que se refere o 15/11, nem o significado de "república", quanto mais o que é ser cidadão republicano, indaga-se: o Brasil é um país formado por uma maioria de cidadãos politicamente cônscios de deveres e direitos? O "não" que se faz resposta óbvia é capaz inclusive de oferecer pistas importantes sobre o atual regime político brasileiro, uma ditadura gramsciana implantada com tranquilidade pelo PT.
Montesquieu deixou um contributo essencial no entendimento de um regime republicano. Uma vez que um sistema do tipo deve guardar lugar para a participação efetiva da população nos rumos políticos, não pode de maneira alguma haver concentração de poderes nas mãos de quem governa. É daí exatamente que vem a separação dos Três Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário que, para o pleno funcionamento de uma República, precisam necessariamente atuar autônoma e separadamente. Fica então outra pergunta ao leitor: em quais conjunturas históricas desde 1889 até hoje teve-se no Brasil um quadro político com clara separação dos Três Poderes? Um rápido flashback de lá para cá nos mostra na sequência: uma República proclamada por militares de alta patente, o poder das aristocracias agrárias com seu viés claramente patriarcal, uma era de desenvolvimentismos, ora ditatoriais e populistas, ora mais abertos polticamente, mas sempre economicamente centralizadores, ditadura militar, abertura política da década de 1980, uma tentativa atrapalhada de construir a democracia, governo FHC, com controle da economia e fortalecimento institucional, todavia incapaz de reformas importantes, como a tributária, a partidária e a educacional e, finalmente, o gramscianismo PeTralha. Cento e vinte três anos no total, sendo que de republicanismo, não se contabiliza nem um décimo desse tempo.
A historiografia do revisionismo republicano, se é que pode assim ser chamada, pois se resume a poucos estudos, tem afirmado que a República representou um novo sistema político no qual a população depositava esperanças de melhora. "Esperança"?! Um termo dos mais vagos é o máximo que o republicanismo dos militares pode ter representado, o que basta para reforçar a fragilidade de uma conjuntura republicana sem participação civil. O erro é supor que a essência de um sistema político está na sua forma, não no conteúdo. Se a maior parte da população brasileira assistiu bestializada ao desfile militar de 15/11/1889, segundo o famoso dito de Aristides Lobo, tão bem estudado na obra de José Murilo de Carvalho, e nem mesmo sabia - e continua sem sabê-lo - os significados políticos do republicanismo, de que adiantaria depositar esperanças nele? Teria como cumprir deveres e exigir direitos? Assim como a democracia, a república, sua irmã xipófaga, depende de uma cultura a ser exercida no dia-a-dia. Em um sistema verdadeiramente republicano e democrático a população não vive sob ele, o que faria dela não mais do que uma multidão de súditos, a população o faz viver. Em termos hodiernos, a cultura republicana e democrática se traduz na busca constante do resguardo dos mecanismos de representatividade, no incessante debate político e na livre associação, elementos que devido à estrutura política brasileira, sempre pautada na ideia de que a sociedade existe para o governo, quando o correto seria o oposto, não podem ser colocados em prática.
Os mecanismos de representatividade pouco se fizeram solidamente desde 1889, hoje, estão totalmente viciados pelo gramscianismo. O debate político é quase inexistente em uma sociedade de massas dominada pela ignorância. A livre associação não se pode erigir sobre uma centralização tão avassaladora e onde não há federalismo algum. República e democracia no Brasil, só para quem acredita que a reverência aos símbolos pátrios pode fazer as vezes da correta atuação do cidadão em assuntos realmente capazes de propiciar desenvolvimento ao país. Só o que sobra para estes são o falso consolo e as patéticas manifestações patrioteiras de quem se furta a refletir sobre os tantos problemas que afligem esta combalida nação. É a cara do Brasil!

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Volume 4: os quarenta anos de um clássico nem sempre tratado como tal


Os assuntos relativos à política brasileira são aqueles que predominam neste blog e, por mais que se façam de extrema pertinência, de vez que todos os caminhos sejam válidos no combate à ditadura PeTralha que assola o país, devo informar que em vários momentos eles me causam profundo fastio. Seria preciso escrever sobre o cotismo desenfreado do governo federal, sobre o resultado das eleições norteamericanas e a relação com o Brasil e ainda sobre o julgamento do Mensalão e outros temas que abarcam tudo aquilo que se refere ao nosso cotidiano, todavia hoje pretendo, como se diz, dar um tempo nessas questões para trazer uma discussão mais leve e voltada para o tópico musical. É assim então que resolvo dedicar o espaço para resenhar, segundo estritas impressões particulares, um disco que considero dentre os mais brilhantes da década de 1970 e da história do Rock em geral: trata-se de Volume 4, do Black Sabbath, lançado no ano de 1972, há 40 anos.
Sempre manifestei abertamente minha preferência por coisas de caráter mais confidencial e afirmo isso em relação ao tema que ora escrevo porque me parece que Volume 4 não tem tido, ao longo de todo esse tempo, o devido reconhecimento, ainda que na época de lançamento a vendagem do disco tenha sido das mais expressivas. Talvez seja melhor assim: o que permanece oculto exige ser desvendado, não se manifestando fácil e abertamente sem que haja "esforço" por parte do explorador. Devo também dizer que em termos de Black Sabbath tenho predileção pela fase Dio, não só pelo fato do falecido vocalista ser infinitamente superior a Ozzy Osbourne, como também porque o pique de Heaven And Hell e Mob Rules me agrada mais do que o período setentista. Não é por isso que os trabalhos da fase Ozzy não mereçam louvores, muito pelo contrário, em especial a meu ver, exatamente quanto a Volume 4, o que o torna a mim ainda mais agradável devido às suas particularidades. Invariavelmente, quando se coloca o Black Sabbath em discussão, noto que Volume 4 não é citado de modo destacado entre os apreciadores da banda, que costumam se entusiasmar bem mais citando o disco homônimo de estreia do quarteto, ou Paranoid, Masters Of Reality, Sabbath Bloody Sabbath e Sabotage. De minha parte, contando todos estes, coloco Volume 4 em alguns patamares acima. A preferência, nesse caso, é obviamente subjetiva, sendo que o melhor a fazer é comentar a respeito dos motivos que me agradam tanto no referido disco.
Para começar, o trabalho encontra a mais empolgante abertura com Wheels Of Confusion (The Straightener), composição rica em arranjos, melodia, quebradas de ritmo e permeada pelos inconfundíveis riffs de Tony Iommi. A música dá claros indícios da maturidade atingida pela banda após os três primeiros trabalhos. O compasso de Wheels... soa majestoso e naturalmente marcante. Em seguida, Tomorrow´s Dream é responsável por oferecer o cartão de visitas sabbathiano: a atmosfera doom e os vocais sombrios de Ozzy dão o tom desta excelente composição.
Depois do início tipicamente pesado e da rifferrama, chega-se ao primeiro momento experimental de Volume 4, algo também típico da fase setentista do Black Sabbath. Ao contrário do disco como um todo, Changes se tornou difundida, não sem justiça, pois a considero muito mais acertada do que experimentações de outros discos, como Planet Caravan, Orchid, Solitude ou Fluff. Changes é uma das primeiras baladas do Rock pesado, apreciação que confirma igualmente neste sentido, o pioneirismo do Black Sabbath.
Não é preciso comentar acerca de FX, que não é uma música, mas apenas um interlúdio para as faixas intermediárias de Volume 4. O peso e os riffs retornam com tudo em Supernaut, de refrão pegajoso e improvisos surpreendentes vindos das baquetas de Bill Ward. Uma das dez melhores músicas do Black Sabbath em minha opinião. O disco prossegue fortíssimo com Snowblind, música de trabalho em Volume 4 que, juntamente com Changes, se tornou mais difundida do que as demais. É um grande som, marcado pelas qualidades características da banda e, infelizmente, quanto à letra, também pelo vício em drogas que levaria o quarteto a seríssimos problemas. A sétima faixa é Cornucopia, que mantém a peteca no alto e faz permanecer a excelente qualidade do disco, sem dúvida, o momento de maior destaque em Volume 4 para o baixo vigoroso e ultra pesado de Geezer Butler.
A fase final de Volume 4 começa com Laguna Sunrise, outra viagem que suscita torção nasal por parte de muitos. Nem de longe é minha opinião, já que embora esquisitona, a música possui inegavelmente lindos arranjos de violão e violino, servindo de calmo e introspectivo prelúdio para o poderosíssimo fechamento do disco. A penúltima faixa é St. Vitus Dance, minha predileta juntamente com Wheels Of Confusion e Supernaut. O riff é soberbo e a música combina magistralmente trechos rápidos e dançantes, como sugere o título, entrecortados por breves andamentos lentos. É o tipo de som que não se quer que termine de jeito nenhum e nisso está seu único defeito: curta em demasia, somente 2:21. Fica um tremendo sentimento de "quero mais"! E eis que se chega ao gran finale com Under The Sun (Every Day Comes And Goes), doom, obscura, pesada, dona do melhor solo do trabalho e "lentona", sendo esta última característica presente em muitas das músicas de encerramento dos discos da banda, até mesmo em fases distintas dos anos 1970.
Volume 4 é, segundo minha avaliação subjetiva - repito - , o terceiro melhor disco do Black Sabbath, ficando atrás apenas dos dois petardos da fase Dio no início dos anos 1980 (não reputo a mesma qualidade a Dehumanizer, de 1992). Um clássico setentista, um clássico do Heavy Metal, por mais que o termo seja detestado por Ozzy, um disco grandioso que revela detalhes ocultos a serem continuamente desvendados mesmo após 40 anos de lançamento, um dos grandes momentos do Rock. Para o apreciador de música pesada que ainda não possui Volume 4 em sua metalteca, o item é indispensável, valendo a pena adquirí-lo em CD remasterizado, com ótima qualidade de som ou em vinil, caso consiga se encontrar, afinal, um disco tão bom como esse não merece ser escutado em MP3, o radinho de pilha do século XXI.