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sábado, 25 de maio de 2013

Borussia Dortmund vs. Bayern de Munique: futebol exuberante dentro de campo, gestão eficiente e austeridade nos bastidores


Hoje é dia de final de Champions League, dia de ficar ligado em frente à TV para se deleitar com futebol bem jogado, pautado pelo talento individual, mas mais ainda pelo lado coletivo e pelo toque de bola, elementos que hoje em dia são como agulhas no palheiro em se tratando do escrete brasileiro. O Brasil, eterno país do futuro, de presente caótico, é o ex-país do futebol, dominado que se encontra por interesses extracampo, inclusive governamentais, por cartolas corruptos e incompetentes e por emissoras de TV que arrumaram um jeitinho tipicamente tupiniquim de lucrar com o negócio.
A final alemã da Champions League não tem a ver somente com o belo futebol jogado dentro das quatro linhas por Bayern de Munique e Borussia Dortmund, que chegaram à disputa com total merecimento: está relacionada também, de maneira muito íntima, com o que é praticado fora de campo pelos principais clubes da Alemanha, país pouco afetado pela crise na Zona do Euro. "Austeridade", termo tão abominado pelos estatólatras ainda saudosos da falácia do Welfare State em nações de capitalismo parco, como Espanha, França e Itália, mergulhados em déficits econômicos gerados por governos perdulários e distribuidores de privilégios, representa o maior segredo germânico no século XXI, algo que leva efeitos positivos até os gramados. Não é nem mesmo necessário recorrer apenas aos dois times que hoje irão desfilar em Wembley, bastando mencionar o sucesso da Bundesliga, de longe, o campeonato nacional de maior sucesso no Velho Mundo: gestão eficiente, marketing, estádios invariavelmente lotados e rentabilidade dão a tônica do futebol alemão.
O Bayern de Munique é um gigante desde sempre, presença costumeira em grandes decisões futebolísticas e, a despeito de algumas derrotas traumáticas, fruto do imponderável, estará em campo logo mais para disputar a quinta final de Champions League nas últimas quatorze temporadas, feito que não pode ser atribuído nem mesmo ao Barcelona de Lionel Messi. Os bávaros tentarão conquistar seu caneco de número cinco, título que pode contribuir para fechar com chave de ouro a temporada, dando ao clube a Tríplice Coroa, caso vença hoje e o Stuttgart na Copa da Alemanha, semana que vem. A máxima do técnico Jupp Heynckes não deixa dúvidas quanto às políticas do Bayern: "não gastamos mais do que temos". Não existe acaso para o sucesso do clube da Baviera.
No que se refere ao Borussia Dortmund, a questão é ainda mais interessante. Após a conquista da Champions League e do Mundial de Clubes na temporada 1996-97, o aurinegro da Westfalia afundou em um período de intensa crise que por pouco não conduziu o clube à falência. Depois de chegar ao ponto de vender o estádio, o Borussia começou a mudar os rumos quando recorreu à ajuda de uma empresa alemã de consultoria em gestão e finanças, a Roland Berger. Obedecendo às regras da austeridade e da eficiência administrativa, o Borussia emergiu do atoleiro de modo relativamente rápido: chutou para longe a gastança desenfreada e imprecisa à la Luiz Gonzaga Belluzzo, renegociou dívidas, estabeleceu parcerias inteligentes (naquela que firmou junto ao grupo Signal Iduna, recuperou o estádio), passou a priorizar os interesses do clube, sem dar lugar a atletas, empresários ou comissões técnicas descompromissados com o trabalho e com o sucesso, reduziu custos e, além de investir na base, fez contratações cirúrgicas.
O modelo administrativo do futebol alemão, permeado por gestão eficiente e austeridade, caminha a par e passo com o verdadeiro capitalismo liberal, ao contrário do paradigma vigente em outros países, inclusive no Brasil, cuja característica mais marcante e deplorável tem sido o estabelecimento de conexões escusas entre entidades privadas e poder político. Bayern de Munique e Borussia Dortmund fornecem um exemplo que bem pode servir a um certo clube que padece há mais de dez anos com administrações mafiosas, clube este que talvez seja aquele que mais tem potencial para tentar romper com o status quo do futebol brasileiro. Quanto à peleja de hoje à tarde, será uma excelente oportunidade de se divertir com as jogadas de Lahm, Müller, Robben, Ribéry, Hummels, Reus, Lewandowski, .... E que vença o melhor! Bom jogo!

domingo, 19 de maio de 2013

Intelectuais ou intelectualóides?


No mundo idiotizado da atualidade, várias demonstrações cotidianas de jornalismo rasteiro e de pseudointelectualismo levam grande quantidade de pessoas a pensar que as discussões políticas se resumem a um dualismo simplista entre os defensores dos pobres e oprimidos e os reacionários preconceituosos. Nem é preciso destacar que tais estereótipos dicotômicos não passam de manifestação da própria idiotice que povoa a mente dos incautos: nesse sentido, os primeiros constituem a esquerda, paladina da "justiça social", já os segundos compõem a direita saudosa dos privilégios dos ricos e poderosos sobre as camadas sociais mais baixas. Como se a absurda falsidade dessa construção já não bastasse, qualquer matiz se perde diante de uma simplificação tão grotesca.
Os estereótipos servem bem a leitores de um veículo como a Carta Capital, revista cujas páginas são repletas de publicidade governamental, fato mais do que suficiente para retirar desse mesmo veículo qualquer credibilidade. Acontece que em um mundo idiotizado, politicamente correto e cheio de intelectualóides formados em cursinhos pré-vestibulares ou em ambientes acadêmicos que não podem e não querem ir além de Marx e dos marxismos, o slogan da justiça social, ainda que inteiramente desprovido de conteúdo crítico e reflexivo, seduz como canto de sereia. É assim que o Almeidinha surge como o estereótipo do direitista anti-intelectual (quase um oxímoro), promovendo o orgasmo coletivo entre os intelectualóides da esquerda. Dentre estes, nenhum pensamento que não esteja alinhado com suas doutrinas merece ser qualificado de "intelectual", como se não existissem Aristóteles, Edmund Burke, Tocqueville, Goethe, H. L. Mencken, Irving Babbitt, Michael Oakeshott, Raymond Aron, Evaldo Cabral de Mello, Roberto da Matta, José Murilo de Carvalho...
H. L. Mencken, vale destacar, era dono de um tipo de mentalidade que se torna mais escassa a cada segundo nos dias de hoje. O crítico estadunidense se mostrava um iconoclasta incapaz de fazer concessões ao que quer que fosse. Um dos aforismos mais categórigos de Mencken afirma: "todo homem digno é contra o governo sob o qual vive". De conotações inconfundivelmente liberais, a ideia contida em tal pensamento deveria ser exemplo para os intelectuais. Todavia, o que ora observamos em países mergulhados no atoleiro autoritário, como o Brasil, é o exato oposto: falsos intelectuais do establishment, imbuídos da arrogância típica daqueles que concedem a si mesmos e ao grupo a que pertencem o apanágio de detentores únicos da intelectualidade. A questão vai bem além do que considerar o que é ou não conversa de intelectual, pois ao menos aprioristicamente, todo assunto bem abordado pode ser trazido à tona na discussão de um fato, de uma conjuntura ou de uma estrutura. "Lógica da criminalidade", "superlotação de presídios”, “sindicato do crime”, “enfrentamento”, e “uso excessivo da força" talvez sejam apontados como "papo de intelectual", em sentido pejorativo, não pelo Almeidinha, mas sim por aqueles que caem na ladainha populista e no relativismo, que aceitam o jeitinho brasileiro, que passaram a ver na corrupção algo aceitável e até mesmo legítimo, por aqueles que são tomados pela catarse da retórica messiânica, lacaios do poder, para os quais as maiores preocupações normalmente são as novelas globais, o BBB ou o futebol, sobretudo o futebol do time do governo. "Contexto histórico", "mudanças conjunturais", "falhas na legislação", "deveres e direitos do cidadão", "novas pesquisas científicas", "inversão de valores", "cooptação", também são temas que suscitam amplas discussões intelectuais, o que não é devidamente levado em conta pela esquerda de quem faz e de quem lê a Carta Capital.
Um país populista, gramsciano e autoritário, uma política tomada por partidos fisiológicos, sem mecanismos de representatividade, uma elite política - hoje comandada pelo PT - que soma cada vez mais privilégios, práticas corruptas e servilistas, nepotismo, aparelhamento da máquina pública, gastos altamente equivocados do erário público, tais são os males observados corriqueiramente no Brasil. A manutenção desse status interessa aos que estão alinhados com o governo, enquanto aos verdadeiros intelectuais, cabe o papel da crítica, porém, os intelectualóides que se julgam intelectuais, no geral são adesistas do estado petista. Além de fugirem de suas responsabilidades porque o ideologismo tacanha lhes fala mais alto do que a reflexão isenta, os intelectualóides também descem aos níveis mais baixos da sordidez e da desonestidade intelectual quando se põem a desqualificar pensamentos opostos, estratégia comum e a única a restar face às inconsistências de um ideário que os estudos históricos, políticos, sociológicos e filosóficos empreendidos por pensadores argutos já cansaram de desmentir. O uso de argumentação ad hominem é o último reduto dos ignorantes e chega a ser cômico notar um intelectualóide xingar quem pensa diferente lançando mão de termos como "fascista". Ser a favor da precedência e da liberdade do indivíduo perante a nação, o estado ou a cultura, da abertura política e econômica, crer no progresso científico e defender a observância da legalidade e da moralidade constituem um corpo de ideias cem por cento contrário ao fascismo.
Neste Brasil onde, como apontava Daniel Piza, estudiosos do campo das Biológicas e das Exatas não são vistos como intelectuais, não chega a ser de todo surpreendente que caiba aos intelectualóides a atribuição de falsos estatutos de intelectualidade. Evidentemente, aos que não se encaixam no estreito panorama ideológico da esquerda, cada vez mais incapaz de enxergar o próprio umbigo a fim de perceber o quanto ela mesma é reacionária, os politicamente incorretos como Mencken são associados com o tal do Almeidinha, estereótipo rigorosamente incongruente, tão apartado da realidade brasileira quanto o pensamento esquerdista.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Piece Of Mind: referência há três décadas


Piece Of Mind, uma obra-prima do Heavy Metal legada pelo Iron Maiden está completando trinta anos em 2013. O aniversário do disco é emblemático, não pelo tempo em si, mas por tudo aquilo que ele representa, um marco na construção da música pesada desde o momento primeiro em que se lançou a público. Piece Of Mind é uma espécie de coringa na discografia maideniana, visto que os elementos tipicamente componentes da New Wave Of British Heavy Metal se mostraram latentes nos álbuns anteriores da banda, mas só se estabeleceram em definitivo nele próprio, para a partir de então continuarem como aspectos sempre presentes nos trabalhos posteriores da banda inglesa, a despeito das inovações verificadas em cada disco até os dias de hoje.
Nos três primeiros álbuns do Iron Maiden o grupo procurou criar sua identidade combinando algumas sonoridades tributárias do hard setentista com arranjos trazidos pela NWOBHM. Assim, os riffs de guitarra que tão fortemente marcaram época nos anos 1970, vide as criações de um Tony Iommi, de um Ritchie Blackmore ou de um Michael Schenker, passaram a estar acompanhados do galope de baixo, da dobradinha guitarrística e de compassos mais acelerados. Se em Iron Maiden (1980) ou em Killers (1981) os limites técnicos da produção, bem como os obstáculos provenientes da imperícia e do destempero de Paul Di'Anno determinavam certas dificuldades, o álbum The Number Of The Beast (1982) foi a antessala da sonoridade mais característica do Iron Maiden, conquistada com Piece Of Mind em 1983. Ainda em finais de 1980 o guitarrista Dennis Stratton foi substituído por Adrian Smith, antigo parceiro de Dave Murray em conjuntos menores da década de 1970, mudança que possibilitou a formação de um dueto de guitarras altamente entrosado no plano musical e isento de vaidades no cotidiano do grupo. Para as gravações de The Number Of The Beast, Paul Di'Anno foi devidamente expurgado, dando lugar a Bruce Dickinson. Assim, em The Number... já podem ser notados os elementos que um ano mais tarde se solidificaram como um selo de qualidade maideniano.
Antes que os trabalhos de Piece Of Mind se iniciassem, o excelente baterista Clive Burr, recentemente falecido, deixou a banda para a entrada de Nicko McBrain. Estava completo o line up mais tradicional da Donzela de Ferro. Mas afinal, o que o disco de 1983 guarda de tão especial? Não se trata de resposta simples. Quem ainda guarda o saudável hábito de ouvir música sem ser em formato MP3 consegue captar algo que considero da mais alta importância se o objetivo não for meramente o de passar o tempo, mas sim "degustar" as músicas e captar a atmosfera que um grupo cria, tanto em seus álbuns específicos, como em sua carreira. É também nesse sentido que Piece Of Mind pode ser apontado com um coringa para o Iron Maiden. Se tomarmos músicas de outros discos, como por exemplo, "Rime Of The Ancient Mariner", "The Loneliness Of The Long Distance Runner", "Infinite Dreams", ou coisas mais recentes, tais quais "Sign Of The Cross", "The Nomad", "Dance Of Death" ou "When The Wild Wind Blows", a sonoridade de Piece Of Mind se revela como referencial, embora, não custe repetir, sem jamais desconsiderar as modificações que o Iron Maiden soube implementar com tão acentuada competência ao longo de sua discografia.
A meu ver, as características mais definidoras do estilo musical da Donzela de Ferro sempre começam ao que é externo à sonoridade em si, para depois se complementarem com ela: o clima de agressividade, tão bem mesclado com a riqueza melódica, a temática predominantemente épica ou literária, os riffs cortantes, as guitarras dobradas (tripladas de 2000 para cá, ainda que Janick Gers seja coadjuvante), o baixo potente, funcionando quase como se fosse também uma guitarra de sons mais graves, os solos intensos e sobretudo os licks inconfundíveis, maior contribuição da NWOBHM e que a tornam um autêntico movimento musical, cuja capacidade de "ilustrar" as músicas é perfeita, tudo isso compõe o suculento cardápio de Piece Of Mind. Se a capa do disco não consta como um dos desenhos mais espetaculares de Derek Riggs, até ela própria acaba atuando como uma espécie de porta entreaberta, insinuando ao mesmo tempo que encobre surpresas só plenamente desvendadas com a audição do trabalho (note o detalhe da ilustração e tire as conclusões quanto ao fato de ser ou não ser uma coincidência). Ao travar contato com "Where Eagles Dare", une lettre de motivation de Nicko Mc Brain, "Revelations", "Flight Of Icarus", "The Trooper", "Quest For Fire", muitas vezes desprezada por aqueles que não são capazes de perceber a conexão perfeita que sua sonoridade estabelece com a letra, ou "To Tame A Land", se descortinam um a um os detalhes que fazem do Iron Maiden uma banda auto-referente para o Heavy Metal.
Costumeiramente se designa por clássico o que perdura ao longo dos tempos, análise correta, sem dúvida, mas um tanto incompleta. Um clássico possui influência imorredoura porque carrega a capacidade de servir como referência sem ônus para a inovação criativa, bem como oferece margem para a manutenção de uma identidade livre do risco da mesmice; de certo modo, um clássico conserva a essência, de outro, sempre se reinventa. É por isso que Piece Of Mind sustenta a condição de obra prima, de 1983 até hoje e daqui para a eternidade.

Link para Flight Of Icarus: http://www.youtube.com/watch?v=J3I88wsFKao

terça-feira, 30 de abril de 2013

Redução da maioridade penal: para que ninguém fuja das responsabilidades


Os crimes envolvendo participação de menores de dezoito anos continuam assolando o Brasil. Escrevo "continuam" pois eles acontecem com certa frequência desde a década de 1990, ao contrário do que querem fazer pensar os defensores dos delinquentes juvenis, opositores da redução da maioridade penal. Sem apresentarem argumentação sólida amparada pela realidade, estes afirmam que o clamor da população por maior rigor da lei é movido pela comoção diante do que se assistiu nos últimos dias. As vidas ceifadas barbaramente, não só da dentista queimada viva, de Victor Hugo Deppman, ou da garota atropelada enquanto brincava na calçada, mas também aquelas que foram provocadas por um Champinha ou por um Batoré, já há um bom tempo, - Liana Friedembach foi vitimada da maneira mais horrivelmente cruel há dez anos, para quem não se lembra - parecem não importar para esta gente. Ainda que mais nada além da comoção estivesse pesando na exigência de muitos brasileiros pela redução da maioridade penal, crimes hediondos como estes já bastariam para suscitar um sério debate em torno da questão, coisa que não agrada a quem insiste em fugir da raia. De resto, cabe salientar, é preciso diferenciar meros batedores de carteira de assassinos perversos desprovidos de qualquer sentimento de respeito pela vida, confusão que os chamados "defensores da juventude" não se prestam a desfazer.
O Código Penal vigente no país data de 1940, claramente anacrônico em vista não apenas da atual realidade brasileira, mas da realidade do próprio mundo. Se naquela época julgou-se que menores de dezoito anos não possuíam capacidade alguma de discernimento em relação à ilicitude do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento em função do desenvolvimento mental incompleto, como versa o Artigo 26, passados mais de setenta anos de pesquisas nas áreas das ciências cognitivas, da psicologia evolucionista e também em virtude do desenvolvimento tecnológico e dos meios de comunicação, que aumentaram à enésima potência os estímulos externos e os apelos que uma criança e um jovem recebem, tornando-os bem menos ingênuos e inocentes do que outrora pudessem ser, permanecer atrelado a uma legislação que não condiz com mudanças históricas tão evidentes não passa de teimosia imbecil. Somado a esse Código Penal anacrônico, o Estatuto da Criança e do Adolescente é mais uma peça de má fé produzida por ideólogos de esquerda crentes no idílio infantil rousseauniano, mais uma das ideias delirantes que costumam fazer parte do arcabouço mental de quem jamais se propõe a prestar atenção na natureza humana.
É muito fácil descer aos porões da ignorância e culpar a outrem por aquilo que é de responsabilidade do indivíduo. Se a sociedade é corrompida, como Rousseau sempre defendeu, ele deveria, ao invés de abandonar seus filhos em um orfanato, protegê-los das mazelas do mundo. Ou então, ele não acreditava em si nem na filosofia que advogava. Aqueles que apontam os adultos de uma sociedade corrompida como responsáveis pelos delitos cometidos pelos jovens, são eles próprios sujeitos históricos capazes de determinar em alguma medida o rumo das coisas, contudo, sempre que uma proposta mais rigorosa de ordenação da sociedade vem à tona, são os primeiros que defendem a manutenção de um status quo altamente degradado. E ainda tacham os outros de reacionários!
Não há dúvida de que a sociedade requer correções, mas não se deve descartar a noção de que tais correções muitas vezes podem chegar por meio de bons exemplos buscados em realidades diversas. Em vários países desenvolvidos, a autonomia do Poder Judiciário é tamanha, que o juiz analisa cada caso em suas particularidades para dar uma sentença independentemente da idade do réu. Se após um julgamento minuciosamente conduzido, a culpabilidade do criminoso, bem como sua capacidade prévia de discernimento do fato ficam evidenciados, a pena devida é aplicada. Nunca é demais ressaltar que essa autonomia de poderes está completamente vinculada ao liberalismo.
Além da incoerência no que se refere à correção que a sociedade sempre exige em seus rumos conforme se passa o desenrolar da história, o que presume a necessidade do debate democrático e o grau sempre salutar de abertura liberal das instituições, a ideia da transferência das responsabilidades é pura dialética de botequim, já que pretende transformar as vítimas em culpados. No lugar de leis previsíveis que possam informar ao cidadão o que ele deve ou não fazer, indicando que punições são passíveis de serem aplicadas em caso de transgressão, aspecto básico de uma sociedade justa e assentada em valores capazes de garantirem liberdade e segurança, coloca-se em prática o relativismo, perdendo-se assim os parâmetros que indicam a diferença entre o certo e o errado. Nesse caso os adultos são responsáveis pelas faltas dos jovens, mas o que propõem os que querem transferir totalmente as responsabilidades? Nada além de um full liberation de fundo anarquista que só promove caos, indiferença, perda de valores e do sentimento de compaixão.
Logicamente, reduzir a maioridade penal sem buscar melhorias no sistema prisional, sem desenvolver um sistema de educação pautado pela qualidade e sem gerar e difundir a alta cultura e o acesso ao lazer, seria uma medida inócua, porém, modificar a lei garantindo a ela um rigor que hoje lhe é cem por cento carente, não exclui essas outras medidas, também plenamente necessárias. Um conjunto de alterações do tipo é algo mais do que urgente para o Brasil, tanto com o objetivo de alertar o menor infrator a respeito da probabilidade de punição em caso de delito, - que deve ser alta - como para lhe deixar claro sobre o que é certo e o que é errado. Se alguém estiver disposto a pensar no dever da sociedade de corrigir o menor infrator para que se diminua a possibilidade de reincidência, é melhor defender tais modificações e nunca mais gastar saliva com ECA, Fundação Casa, ideias rousseaunianas ou afins, romantizações que não resolvem nada e somente fazem a população sofrer.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Um evento decadente no "Brasil democrático"


É possível que tenha sido quase sempre do mesmo jeito desde a antiguidade ateniense, mas não tenho dúvida de que atualmente, uma das ideias mais mal compreendidas seja a de democracia. A posse de instrumentos políticos coercitivos legitimados a partir da influência de governos, as agitações políticas autoritárias travestidas do que usualmente se denomina "lutas sociais", a massificação e o populismo, anomalias da própria política ou distorções do conceito de democracia, têm sido exaustivamente, de modo consciente ou não, confundidos com a ideia democrática. Curiosa e lamentavelmente, todos esses agentes patogênicos do mundo da política constituem o extremo oposto da democracia. Argumentação racional, isonomia legislativa, liberdade política e individual, sentido de dever e responsabilidade, meritocracia, bem como a existência de instituições sólidas, pilares sem os quais não existe possibilidade alguma de florescimento e manutenção de um sistema democrático, são todos eles elementos totalmente ausentes dos desvios que a ideia de democracia tem sofrido.
A notícia fresca de que Jérôme Valcke, secretário geral da FIFA, declarou ser a suposta democracia brasileira geradora de entraves para a realização da Copa 2014 no Brasil causa o mais alto estarrecimento. Pelo teor abstruso de suas palavras conclui-se que Valcke não faz ideia do que possa ser uma democracia, tampouco conhece algo sobre a organização da política brasileira. Ele acredita que haja nestas paragens tupiniquins um sistema democrático, revelando profunda incompreensão no que se refere às práticas de governo do PT, elas próprias propiciadoras da realização do mundial de futebol no país de Lula, de Dilma Rousseff, de José Dirceu, de Ricardo Lewandowski, da CBF, da Rede Globo e das massas em catarse. Para Valcke, o fato de termos eleições e a presença de oposição, parece bastar para qualificar o país como democrático. Ele não atenta para a quase ausência de debate político que norteia nossas ridículas campanhas eleitorais, para o analfabetismo político do eleitorado, nem para o fisiologismo do sistema partidário brasileiro. Talvez Valcke não seja obrigado a estar ciente de tais detalhes, mas é inacreditável que não se mostre capaz de prestar atenção no capitalismo de Estado (ou seria mais exato chamar de socialismo?) que vigora no Brasil, organizado a partir de um governo autoritário, centralizador, burocratizado e que apadrinha máfias e grupos de interesse em troca de apoio político, tudo contando com uma população dormente, ludibriada pelo pão e circo que cada vez mais preenche os espaços da cultura, o que é resultado do próprio modo de agir dos petistas. Os raros aspectos de democracia que ainda restam no Brasil advêm sobretudo de uma parte da imprensa e de um grupo seleto de intelectuais e formadores de opinião, - que não por acaso não são de esquerda, ou pelo menos não da esquerda tradicional - contrários ao estado de coisas que ora se presencia no país. Estes, que remam contra a maré do pensamento monolítico, característica típica de qualquer governo autoritário, soam como único sinal de alerta perante uma nação cujas possibilidades de aspiração democrática foram enterradas pelo petismo.
É surpreendente também que, em sua declaração, Valcke tenha diferenciado o Brasil da Rússia, afirmando que a atual estrutura política russa, implantada por Vladimir Putin e posta em continuidade por seu sucessor Dmitry Medvedev, provavelmente se mostrará bem mais eficiente do que a "democracia brasileira" quando for a vez do país euroasiático sediar a Copa em 2018. Ora, existe país mais semelhante à Rússia do que o Brasil?! Definitivamente, Valcke parece estar bastante confuso. Se não, por que a FIFA escolheu África do Sul, Brasil, Rússia e Catar como países-sede para o mundial de acordo com que desejam Joseph Blatter e seus comandados? São nações governadas autoritariamente, desprovidas de cultura democrática e de instituições sólidas, dominadas por burocratas, mafiosos e grupos de interesse. Todas apresentam as mesmas perfídias, todas farinha do mesmo saco.
Depois que a declaração do secretário geral da FIFA se espalhou por sites do mundo inteiro, o belga tentou se explicar adotando a mais manjada saída pela tangente: "fui mal interpretado". Certo, quem quiser pode fingir que acredita. Valcke talvez não saiba que um dos traços culturais mais comuns do brasileiro é deixar tudo para a última hora, característica que pode estar causando laivos de preocupação ao dirigente. Que dó... Fazer tudo a toque de caixa, no entanto, irá inclusive ajudar aqueles que desejam obter benefícios com a realização da Copa no Brasil. Uma coisa, quem é atento não pode negar: se um sujeito acredita que democracia é algo negativo e se esse mesmo sujeito é possuído pelo disparate de apontar o Brasil como sendo um país democrático, então não há dúvida de que a FIFA escolheu o lugar "certo" para sediar seu evento decadente...

domingo, 14 de abril de 2013

Margaret Thatcher: percepção, coragem, independência de pensamento e competência


A Dama de Ferro, como era conhecida Margaret Thatcher devido ao ímpeto em suas tomadas de decisão, faleceu na segunda-feira 08/04. O pensamento liberal perdeu um de seus grandes ícones, alguém que por meio das ideias conseguiu implementar mudanças socioeconômicas essenciais, não apenas no Reino Unido, mas também no mundo.
As políticas de Thatcher sempre procuravam dar valor ao mérito e às responsabilidades individuais, o que gerava e ainda gera profundo ódio por parte das esquerdas, acostumadas aos favorecimentos escusos, aos arranjos politiqueiros e à formação de burocracias sanguessugas. É comum que pessoas tomadas pelo desconhecimento avaliem o mundo contemporâneo como predominantemente liberal (no caso, o termo utilizado é "neoliberal") e capitalista, pautado exclusivamente pela busca de lucros. Não há nenhuma adjetivação para o que se considera capitalista, como se houvesse só um tipo de capitalismo, e a condenação pura e simples de tudo que tenha a ver com lucro não passa de mero senso comum ideológico. Estes são os que parecem aprovar os rombos financeiros estatais advindos da extorsão do cidadão. Será mesmo que os dias atuais servem de exemplo quando se pensa em meritocracia e responsabilidade individual?! Como é possível que escape a tanta gente a evidente formação de burocracias empresariais ligadas aos governos por questões de conveniência, configurando o que pode ser denominado "capitalismo de Estado", arranjo muito próximo do socialismo?! Não é esse, nem de longe, o espírito capitalista analisado por Max Weber, tampouco a busca de lucros baseada na retidão de comportamento que eleva o espírito. Será por acaso que as searas atuais da burocratização e dos interesses mafiosos sejam locais como Oriente Médio, Rússia ou América Latina, onde a ética protestante é uma realidade inexistente, tanto na prática, como até mesmo na análise weberiana?! Não, não é nada por acaso! E as políticas de Thatcher nada têm a ver com a atual crise econômica, fruto da pressão governamental por crédito fácil e barato.
Quando Thatcher se tornou a primeira mulher a ocupar o posto de premiê europeu em 1979, a economia local se encontrava em situação bem ruim, atrasada em função de um industrialismo retrógrado, tomado por sindicatos defensores de privilégios trabalhistas que emperravam a produtividade e por um Estado gastão e ineficiente. Foi contra isso que ela lutou com sucesso, plenamente ciente de que o desenvolvimento e a igualdade de oportunidades são metas a serem alcançadas a partir de instituições sólidas e democráticas, moeda forte e por cidadãos compromissados e responsáveis, não por arranjos governamentais de caridade, que no mais das vezes só conseguem subtrair rendimentos do contribuinte para promover redistribuição assistencialista. O que nunca faltou nas sociedades contemporâneas, não sendo nada diferente no exato momento atual, são aqueles que creem no Estado como um benfeitor infalível, sempre pronto a oferecer proteção aos pobres e oprimidos. Este Estado filantrópico é claramente uma visão abstrata e equivocada, já que não diferencia Estado e governo: é preciso uma fé cega para pensar que a cúpula de governantes que controla o Estado está sempre em busca do bem da sociedade. Não é bem mais correto apostar em um mercado de regras bem estabelecidas (aqui, outra confusão comum: muitas vezes a competição é tida como desregulamentação), instituições saudáveis e na busca pelo lucro como mecanismos de ajuste socioeconômico, ao invés de associar burocratas a anjos benfazejos?! Quem ainda mantém dúvidas em relação a isso, basta pensar a respeito das nações prósperas e seus tipos de governo, comparando com aquelas nas quais as políticas são regidas por estados burocratizados, e que inclusive são os centros da economia atual.
Thtacher modernizou a economia do Reino Unido, comandou privatizações orientadas sob claros parâmetros jurídicos e visando o longo prazo, processo que nem sempre, infelizmente, serviu de exemplo para modelos de privatização em outras partes do mundo, falha explorada com má fé e desinformação por muitos detratores do pensamento liberal. Nunca é demais lembrar que em países como a Rússia, por exemplo, a desmontagem do Estado sem que antes se estabelecessem os marcos legais necessários para tanto, deu ampla margem de ação para que burocratas do aparato comunista se apropriassem dos ativos das empresas e formassem poderosas máfias. Em menor escala, o mesmo se deu em alguns dos processos de privatização no Brasil. Além de ter dado fim ao Estado ineficaz e burocratizado, as políticas de Thatcher proporcionaram a muita gente a possibilidade de obter casa própria, elemento que denota respeito pela dignidade do cidadão e o melhor investimento que o mesmo pode realizar em sua vida.
Percepção, coragem, independência de pensamento e competência são qualidades que devem estar presentes no perfil de qualquer político, mas que faltam a tantos dentre eles. No que se refere a Thatcher, são atributos que ela possuía de sobra, uma liderança que mostrou aos ideólogos do mundo inteiro a lição que embora simples, teima em ser negligenciada: liberdade individual e competição saudável são elementos mais propiciadores de avanço socioeconômico do que qualquer governo centralizador cuja principal diretriz política é fazer caridade com chapéu alheio. O mundo urge por novas Thatchers!

domingo, 7 de abril de 2013

Pós-modernismo: um paradigma paradoxal


Após a queda do Muro de Berlim e do fim da União Soviética no biênio 1989-91, as teses de matriz marxiana passaram a sofrer com o descrédito entre os próprios círculos da esquerda. Foi a partir de então que o pós-modernismo serviu para preencher as lacunas do universo intelectual esquerdista, momento em que Nietzsche, a Escola de Frankfurt, Michel Foucault, Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Roland Barthes e Hayden White tiveram suas ideias conduzidas ao centro do palco, bem como a fama destes filósofos se disseminou como nunca antes se havia notado. Essa onda pós-moderna, a meu ver, jamais abandonou Marx e, Walter Benjamin, como um dos pensadores mais cultuados pelos seguidores do pós-modernismo, não deixa pensar o contrário. Contudo, as reflexões de Marx e dos marxistas foram, sem dúvida, (re)interpretadas sob uma ótica bastante diferente do que se observou ao longo do século XX.
Parecia quase uma certeza há cerca de dez ou quinze anos que o pós-modernismo havia chegado para ficar, enterrando de vez tanto o marxismo tradicional, como o pragmático, restando lugar somente para suas reminiscências românticas combinadas com os paradigmas pós-modernos. O enorme poder de transmutação do marxismo, ora uma teoria histórica, ora sociológica, outras vezes uma filosofia ou uma crítica econômica, ou ainda uma crítica cultural, atuou entretanto de modo a desmentir todas as previsões a respeito de seu fim. Vinte e poucos anos depois do boom pós-moderno, o pensamento de Marx e suas derivações mais diretas voltaram a ser o princípio norteador do esquerdismo na maior parte do mundo ocidental. Isso não significa que o pós-modernismo se tornou um cadáver totalmente decomposto, pois seus paradigmas ainda se mostram presentes em certos círculos acadêmicos periféricos, como eu mesmo pude notar cotidianamente em minha vida universitária e, talvez até mais do que o marxismo, as teorias pós-modernas sempre que encontram alguma lenha para queimar, rapidamente conquistam número razoável de asseclas, o que não deixa de ser algo impressionante. Daí a motivação para escrever - ou reescrever - certas impressões pessoais a respeito desta filosofia.
O cerne do pensamento pós-moderno é a ideia segundo a qual o sujeito não pode carregar pretensões de atingir verdades objetivas, quaisquer que elas sejam e independentemente das diferenças epistemológicas entre os ramos do conhecimento. Fazer uso do termo "verdades" no plural talvez já pudesse ser uma resposta às objeções subjetivistas, mas seria apenas um início de discussão. De acordo com os pós-modernos, o que impede toda busca de objetividade é o fato da subjetividade se impor de modo inelutável e irreversível sobre a atividade intelectual do sujeito, cegando-lhe a compreensão dos fenômenos que perfazem a experiência humana. Imerso em seus interesses pessoais, especialmente naquilo que se refere às tentações do poder, o sujeito apenas conclui aquilo que lhe convém, ou o que está rigorosamente dentro dos limites de seu alcance subjetivo, sempre gerador de falsetes.
O pós-modernismo não considera a capacidade racional, as virtudes e a ética como atributos humanos universais, tampouco a noção de que mesmo nos vários momentos em que tais qualidades faltam aos sujeitos, o conflito interior perante a realidade insubornável proporciona potencialmente ao indivíduo a busca do autodomínio libertador. É difícil imaginar o que sobra quando se descarta esse sopro de vida interior. Um pesadelo egoísta, talvez, mas o que me parece certo é que o pós-modernismo invariavelmente confunde subjetividade - algo que além das conexões com a experiência vivida, é também, o que não deve ser esquecido, uma característica operacional da mente humana - com interesses e relações de poder.
Se, como querem os pós-modernos, a subjetividade encerra os horizontes humanos nos estreitos limites do interesse e do poder, desconsidera-se a apreciação por meio da qual a busca das verdades e da objetividade possível, ainda que muitas vezes uma frágil e árdua aspiração, tem a ver com o próprio desenvolvimento da atividade científica, cuja historicidade e cujas conquistas, quando negadas, colocam os pensadores dessa vertente em situação incômoda..., a não ser que se defenda uma ordália medieval como sendo mais justa do que um processo investigativo minucioso, ou as superstições da área da medicina primitiva como potencialmente mais propiciadoras de conforto ou cura do que tudo aquilo que se descobriu e que foi colocado em prática no âmbito médico em tempos mais recentes.
Maria Odila da Silva Dias, representante ilustre do pós-modernismo no Brasil, declarou certa vez em entrevista, que é difícil criticar esta filosofia enquanto a mesma relativiza o poder estabelecido e retira sua legitimação. Para ela, os conceitos têm história, o que basta para descartar padrões e dados objetivos da realidade. Ora, afirmar que os conceitos são permeados de historicidade é uma observação trivial, não sendo necessário advogar em prol do pós-modernismo para tanto, diferentemente do que salientar que existem conceitos que são formulados a partir do desenrolar da história, mas que podem se estabelecer em definitivo, do mesmo modo que nem só de mudanças se faz a história, mas também de permanências, como muito bem o demonstraram os Annales.
Se a subjetividade é a prisão espiritual e intelectual dos homens, ideia que despreza totalmente o entendimento segundo o qual as aferições de objetividade são externas ao sujeito e precisam sempre da confrontação com o real, tem-se aí exatamente o paradoxo do pós-modernismo, já que fica faltando ao próprio paradigma pós-moderno um referencial, ao menos portador de um mínimo de objetividade, que lhe capacite a desconstruir seus alvos, ou então, das duas uma: 1) só o pós-modernismo escapa das limitações da subjetividade; 2) o pós-modernismo não passa de mais uma forma de subjetividade incapaz de ser uma alternativa ao que ele mesmo reputa ser inválido. Na primeira opção, a presunção contradiz tudo aquilo que os pós-modernos pensam a respeito de interesse e poder, já na segunda, não é capaz de propor nada além de uma desconstrução ad infinitum. É muito paradoxal, é muito pós-moderno.