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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Educação complacente e permissiva


Quando a educação era minimamente levada a sério no Brasil, e isso já faz um bom tempo, ela não se encontrava em estágio universalizado. Quem estudava, de fato mantinha contato íntimo e produtivo com a educação enquanto formadora do caráter, mas poucos tinham essa possibilidade. Décadas se passaram e o acesso à educação no país se tornou quase que totalmente abrangente, no entanto, em escala inversamente proporcional, a qualidade do ensino decaiu brutalmente.
No espaço de tempo que compreendeu a universalização da educação básica e a queda de sua qualidade, observou-se também o surgimento de novas correntes pedagógicas cujo matiz esquerdista e relativista contribuiu decisivamente para o sucateamento do ensino brasileiro. Muitos dos adeptos e reprodutores das ideias construtivistas e paulofreireanas se estabeleceram como professores, orientadores educacionais, coordenadores, pedagogos e psicopedagogos, os próprios norteadores da educação no Brasil.
Diante de tal quadro, não é de se estranhar a quantidade de direitos e regalias com os quais cada vez mais passaram a contar os alunos e, por tabela, os pais destes, complacentes com a irresponsabilidade, o desleixo, o deboche, a falta de postura e interesse por parte de seus filhos. Para coroar a falência de um sistema educacional pautado no famoso "jeitinho" brasileiro, a prática dos tais laudos emitidos por "especialistas" de porta de escola coadunados com toda essa situação se tornou absolutamente comum: não falta muito para que cheguemos em uma época na qual o aluno que não tiver laudo será a exceção. Disgrafia, discalculia, dislexia, déficit de atenção, hiperatividade e outras deficiências descobertas e superdimensionadas pela nova "ciência" psicopedagógica relativista constituem o leitmotiv da complacência e da permissividade, pilares sem os quais parece não mais poder haver educação no Brasil.
Longe de mim estar aqui querendo contestar o trabalho de especialistas sérios e comprometidos que contribuíram ao longo dos últimos tempos com o desvendar de situações produzidas pelo cérebro humano que podem afetar o desempenho de alunos ou de qualquer pessoa. A atividade científica idônea é sempre louvável naquilo que descobre e traz como propedêutica. Nesse âmbito, uma vez diagnosticado com algum problema gerador de prejuízos em seu processo de aprendizagem, o aluno se torna merecedor de atenção redobrada por parte de pais e educadores, o que guarda uma distância abissal com relação às práticas que motivam esta crítica. Um laudo psicopedagógico serve para que os educadores elaborem formas diferentes de avaliação e analisem os resultados do portador de forma a considerar as limitações que o problema específico seja capaz de impor. O laudo jamais isenta o aluno portador do cumprimento das exigências e esforços inerentes ao processo de ensino-aprendizagem. O laudo jamais deveria funcionar como indutor do descompromisso, como uma escora de complacência e permissividade, como elemento dispensador de obrigações. Todavia, é exatamente dessa maneira que tem servido esse instrumento: ao invés de ser tratado como um documento que permita interpretar resultados a partir da consideração da deficiência diagnosticada, revela-se uma muleta da desobrigação.
Além de formar mal no que se refere ao quesito estritamente técnico, a educação brasileira, dominada por políticas pedagógicas esquerdistas/relativistas, não cumpre seu principal papel, ou seja, não ajuda a construir um caráter e uma personalidade assentados sobre os princípios éticos e morais da responsabilidade e do sacrifício do ego em prol das virtudes. E antes que algum ideólogo se manifeste, essa deplorável situação anda de mãos dadas com aquela sanha de lucros fáceis e maracutaias que caracteriza certo tipo de capitalismo tupiniquim, não o verdadeiro capitalismo, que não se realiza sem que esteja fundado na teoria que Max Weber propôs há mais de um século.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Ética conservadora e direitos animais


No que se refere às últimas discussões observadas sobre a questão que envolve os direitos dos animais, - e logo de início deve-se deixar claro que tais direitos, sempre que considerados por quem procura respeitá-los, são vistos como uma obrigação da racionalidade humana para com outras criaturas sencientes - é importante derrubar um certo tipo de argumento que, embora rasteiro e totalmente incoerente, aparece de modo recorrente nas discussões acerca do tema.
Todos aqueles que por algum motivo não se importam com a ética em relação aos animais adotam uma postura contraditória sempre que tentam analisar a questão alçando o ser humano a uma condição de suposta superioridade. Estranhamente, essa superioridade assume contornos que muitas vezes desembocam em um rebaixamento do mesmo ser humano que se procurou privilegiar no bojo da argumentação especista. O homem tem direito de fazer o que bem entende com os animais não-humanos? A justificativa dos que respondem positivamente à pergunta tem como cerne a ideia segundo a qual o ser humano, por possuir um cérebro que lhe concede maior capacidade de pensamento racional, é capaz então de dominar a natureza cujas imposições as outras criaturas não conseguem modificar, ao contrário do próprio homem. Nisso a condição humana seria superior e daria direito ao domínio sobre as demais criaturas. Antropológica e biologicamente, é possível contestar esse entendimento: o homem não é o mais forte dentre os animais, nem o mais veloz, nem o melhor nadador, além de não ser capaz de voar. O desenvolvimento da cultura permitiu ao ser humano a capacidade de transformar o ambiente natural, mas a cultura é dinâmica, noção que não se pode perder de vista porque nem sempre as transformações são positivas e também porque a permanente interação do homem com o meio implica na necessidade de mudanças que devemos empreender de acordo com aquilo que a racionalidade e a ética indicam como sendo mais acertado. O homem produz cultura, no entanto, não se situa em um plano externo à natureza, pelo contrário, pertence a ela. Se somos racionais, o que antes de ser um indicativo de superioridade subjetiva é um sinal de diferença objetiva, devemos usar a razão a fim de mantermos uma simbiose com o meio natural e não simplesmente para tratá-lo de maneira irresponsável, ao bel-prazer, sem ética, sem prudência, sem respeito.
Defender uma relação utilitarista sobre a natureza alegando que o estado natural não conhece a ética, como advoga o sr. Luiz Felipe Pondé, além de não enxergar que o atributo ético é uma construção cultural e capaz de oferecer ao homem, nisto sim, um ângulo privilegiado de observação ontológica, peca por ser um raciocínio fortemente incoerente: primeiro coloca o ser humano no pedestal de uma superioridade abstrata e vazia, mas no fim o arrasta para o primitivismo selvagem: o leão caça a zebra, assim como o homem faz testes, confina, mata e come. Afinal, ele considera a espécie humana superior ou igual às demais criaturas? De maneira diferente dos animais não-humanos, entre os quais as ações instintivas excluem a possibilidade de agir fora das determinações do próprio instinto, não possuímos a capacidade de racionalizar, ponderar e fazer escolhas? Lembrando novamente que o dever ético é humano.
Os estudos históricos apontam que muitas vezes, em suas experiências mundanas, o homem relativizou a ética, sendo diametralmente oposta a lição de grandes líderes como Buda ou Jesus Cristo, homens de princípios éticos universais e inabaláveis. O culturalismo relativista, o desprezo para com os padrões acumulados desde os tempos mais remotos, bem como a soberba em relação ao conhecimento do passado, preferindo-se apostar no atípico, no marginal ou no improviso, caracteriza atitude comum de escolas filosóficas que sempre estiveram do lado errado. Ao sr. Luiz Felipe Pondé, que se julga de direita, mas que em se tratando do tema em questão se comporta como um cético esquerdista, afirmo que sou um conservador moral e estou com os animais; quem se contradiz é ele.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Ibi inconstantia


E eis que volto a este espaço após um longo tempo de inatividade. A vontade de escrever esteve em baixa e, ainda permanece, mas talvez hoje tenha havido um laivo suficiente o bastante para me trazer até aqui. Pensei em encerrar com os artigos e deixar que o blog sobrevivesse apenas de seu passado. Vislumbrei que não era o caminho e, logo depois, levantei a possibilidade de acabar em definitivo com o mesmo. Um segundo se passou e refleti que não seria necessário. Não ainda...
Muita coisa errada nesse ínterim, mais do que normalmente já acontece. Só coisa errada, a bem da verdade. Cansa. Não irei me estender e só dividirei com o leitor algumas impressões a respeito do tema da incoerência.
Li um sujeito afirmando que a direita ainda vive a época da Guerra Fria e enxerga o comunismo em tudo que é lugar. Pode ser que ele tenha alguma razão, o que até seria bom. Contudo, onde está a esquerda que, totalmente desprovida de capacidade para erigir qualquer reflexão sobre aspectos verdadeiramente filosóficos, só consegue promover a crítica rasteira de um capitalismo abstrato que nem ela sabe qual é? Se a direita cheira a bolor, a esquerda é farinha de ossos, encerrada não na Guerra Fria, mas no século XIX.
E por falar em aspectos filosóficos, é estranho observar em um país tão repleto de problemas como o Brasil, uma religiosidade predominantemente permeada por aspectos salvacionistas ao invés de servir como instrumento de orientação quanto ao certo e ao errado. E quanto mais preces advindas dessa credulidade vazia, pior fica a nação. Não, não é tão estranho assim...
"Menos prédios e carros, mais parques e bikes". Assim pude ver pichado em muro por aí. Parece bastante justo e "consciente". Mas é possível que não.... A verticalização é um fenômeno derivado do crescimento urbano desordenado, da especulação imobiliária sim, como preferem os esquerdistas "conscientes", - e com quantos cifrões não engordará os cofres da Prefeitura Paulista, uma das cidades com mais especulação imobiliária, o sr. Fernando Haddad, este prefeito de esquerda, prodigamente dotado de "consciência social"?! - mas também, e sobretudo, do crescimento demográfico, ainda alto para um país que deseja sair do lodo do subdesenvolvimento. Engana-se quem pensa que a geração de rebentos é exclusiva dos rincões. Neomalthusianos, uni-vos! Ah..., já ia me esquecendo das bikes que, segundo levantamento do movimento Bicicleta Para Todos, têm 72% de impostos embutidos no valor final ao consumidor, resultando em um sobrepreço de 230% na comparação com outros países. Esquerdistas gostam de bikes, mas também de Estado agigantado e sugador de tributos...
Demografia é um tema interessante, especialmente em época de apoio irrestrito ao movimento gay: perguntam então a um casal de heterossexuais se querem ter filhos, ao que respondem negativamente. E que arregalar de olhos se estampa na face do interlocutor, egrégio paladino da causa homossexual!
E esse capitalismo tupiniquim, entranhado nas práticas econômicas e na mente do povo, é mesmo sui generis. Ouve-se tanto discurso sobre modernização dos clubes, clube empresa, managers, benchmark, marketing e o raio que o parta, porém, é cena corriqueira nos gramados Brasil afora aquela em que se vê um jogador acéfalo comemorar seu gol atirando a camisa pelos ares: no momento em que as câmeras estão todas focadas no sujeito..., cadê os patrocinadores?! Será que nenhum dirigente, nenhum diretor de futebol ou criatura semelhante orienta essa boleirada ignara?!
Bem, talvez seja em função dessas comemorações acima mencionadas que os patrocinadores do futebol estejam se mostrando tão acentuadamente reticentes em oferecer quantias em troca do logotipo estampado nas camisas de times. A estatal Caixa Econômica Federal é quem passou a dominar amplamente o nicho dos patrocínios futebolísticos, desembolsando valores bem acima do mercado e, a despeito de muita gente ser contra tamanha imoralidade, há não poucos que consideram normal ou nem se importam: "não tem problema, é uma verba que seria destinada à propaganda" ou, "que se dane de onde vem o dinheiro, quero ver meu time campeão", como se as verbas de uma instituição pública não devessem ser endereçadas ao público, como se fosse verdade o mantra segundo o qual a CEF concorre normalmente com bancos privados, sem que possuísse monopólio em relação aos direitos do trabalhador. Indigna tanto quanto o próprio fato pensar que grande parte dos que apoiam tal prática vergonhosa sejam defensores do Estado provedor, aquele que funciona como suposto guardião dos bens públicos. É a "esquerda consciente", é a cara do Brasil! Até logo.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Chafurdando no foie gras


O sr. Nirlando Beirão é um jornalista que passa despercebido em todas as esferas, já que não contabiliza nenhum préstimo digno de nota em sua atividade profissional. Ele já circulou pelas redações de certos veículos de imprensa com orientações políticas e ideológicas bastante díspares entre si, o que talvez esteja na raiz do que possa ser apontado como um caso de alma fragmentária, deplorável defeito daqueles que, por desconhecimento, ausência de convicção ou intelecto reduzido, não são capazes de construir uma personalidade sólida e digna de respeito. Se não fosse por um artigo publicado a respeito do foie gras, o sr. Beirão continuaria no limbo da insignificância, mas uma vez que o destino inexorável dos meros escrevinhadores é se destacar apenas pela extrema negatividade, fui obrigado a lhe enviar uma resposta. Segue abaixo:


Devo afirmar que discordo integralmente de V.S.ª com relação ao artigo "Goela abaixo" publicado em O Estado de São Paulo neste domingo (13/10).
De fato, a legislação que proíbe a comercialização do foie gras não protege outros animais, todos eles vítimas de uma pecuária/avicultura e de uma indústria alimentícia cujas considerações éticas em relação aos mesmos se tornou absolutamente nula (basta um mínimo de informação e a leitura de certos autores como Jonathan Safran Foer para saber do que se trata). Contudo, mesmo se fosse de tal modo, o senhor estaria igualmente vociferando. Some-se a isso a constatação óbvia de que a produção do patê envolve uma crueldade ainda mais exacerbada do que comumente se nota nas demais formas de se obter alimento com a criação de animais.
Comer um fígado supersaturado de gordura, um fígado doente, produzido às custas de evidente artificialiadade e brutalidade vai bem além de uma questão de paladar. Liberdade? Seria mais digno, sem dúvida, se a abolição de modos alimentares selvagens e vetores de todo tipo de prejuízo individual e coletivo partisse de um exame de consciência por parte de cada um mas, a começar por suas ideias, é uma utopia das maiores. E não adianta o senhor apelar para artifícios retóricos e falsamente historicistas na tentativa de justificar que um animal seja submetido a extremos de crueldade, pois se formos lançar mão desse tipo de argumento, iremos elencar uma miríade de atos considerados normais em tal ou qual época e sociedade: o que o senhor pensa sobre canibalismo, ordálias ou execuções públicas? Tosco relativismo!
É curioso, inclusive, como o senhor manipula o relativo e o universal sem critério algum, chegando ao cúmulo do ridículo quando afirma ter "visto" gansos "felizes", inferindo tal interpretação a partir do instintivo grasnado desses animais. Ora, a partir de quais categorias chegou a essa conclusão? Categorias humanas desvinculadas da existência fisiológica dos gansos, revelando um argumento filosoficamente vazio. Seria o mesmo se um homem das cavernas visse a senhora sua mãe ou sua irmã sendo estupradas e daí concluísse que elas estivessem se sentindo felizes. Por outro lado, do ponto de vista biológico, já se sabe há um bom tempo que animais dotados de sistema nervoso estão sujeitos ao desconforto, ao medo e à dor, sendo que obviamente não se trata de eles estarem preocupados com o que nós sentimos em relação a eles próprios, mas da compaixão que é devida por nós aos seres sencientes, por uma questão de racionalidade, bom senso e nobreza de espírito, qualidades que devemos sempre almejar e praticar. E voltando ao tema da liberdade, cujo conceito o sr. usa tão mal (tome contato com a reflexão de Irving Babbitt a respeito da liberdade centrípeta e depois ouse refletir algo acerca disso), pesquisas no campo da psicologia e das neurociências têm apontado que seres humanos incapazes de um mínimo de sensibilidade para com os animais, geralmente não carregam a liberdade como valor.
A alimentação vegeteriana/vegana, muito mais rica, variada, econômica e ecologicamente viável e isenta de crueldade não precisa nem do bife do dia a dia, nem de outras nojeiras apontadas como "iguarias". Alimentação que carrega todas as recomendações possíveis, mas que é ridicularizada por formadores de opinião como o senhor, ou até mesmo por comerciais de cerveja dirigidos a jovens de mente vazia, desprovidos de cultura e valores morais.
Por fim, e não menos ridícula, foi a suposição de que o turismo gastronômico em São Paulo estaria ameaçado se legislação parecida se difundisse mais. Fique tranquilo, a proibição da "iguaria" é uma exceção. No mais, é puro preciosismo de um cidadão que parece viver em torre de marfim, chafurdando no foie gras, acreditar que a proibição de comercializar o execrável patê vá comprometer o turismo gastrônomico da metrópole. Problemas graves e que interferem de maneira decisiva na qualidade de vida dos sujeitos, como a péssima mobilidade urbana, a carência de áreas verdes, a poluição dos rios, a insegurança e a violência, estes sim atuam seriamente no comprometimento de qualquer tipo de turismo na cidade, não apenas o gastronômico.
Ao invés de escrever artigos dignos de pasquim, seria mais proveitoso se o sr. se dirigisse a um restaurante vegetariano indiano da região da Paulista para constatar que o mundo possui fronteiras mais amplas do que o limitado e pútrido universo do consumo de carne e derivados.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O micro e o macro da ilegalidade consentida


A ideia de ilegalidade consentida é cara à obra de pensadores liberais, no mundo e no Brasil, dentre os quais, nesse caso, José Osvaldo de Meira Penna merece ser citado nominalmente devido à qualidade e profundidade das reflexões do mesmo a respeito do tema. A tolerância com relação aos erros repetidos e deliberados é fruto de uma mentalidade histórica tipicamente brasileira que Meira Penna tão bem põe em discussão em muitos de seus escritos. Evidentemente, uma vez que se embrenham por paradigmas interpretativos de fundo mental, cultural e psicanalítico, os estudos do autor fogem completamente às simplificações e delírios esquerdistas, sendo por isso mesmo negligenciados dentro dos círculos intelectualóides.
A ilegalidade consentida pode ser notoriamente observada e experienciada no cotidiano brasileiro. Está presente nas relações de trabalho, entre pais e filhos, no trânsito, na política, na escola, ou em qualquer outro microcosmo. A tolerância com a ilegalidade e, mais do que isso, seu incentivo, embora já francamente latente desde os primórdios da colonização portuguesa, foi ganhando mais forte acentuação ao longo da história do Brasil à medida que certas escolas de pensamento, todas elas de algum modo direta ou indiretamente filiadas ao marxismo, passaram a atribuir a inobservância na maneira correta de agir a uma questão de inferioridade social ou resultado de esquemas de poder que, segundo tais cânones, podem ser desconstruídos a partir do relativismo moral. Quando se confronta a realidade atual do país com o sucesso logrado por esses esquemas de pensamento nas escolas, universidade e em enorme parte da imprensa, não há surpresa na verificação do estado lastimável em que nos encontramos.
Os condomínios residenciais, por reunirem uma considerável quantidade de pessoas, com diferentes formações, visões de mundo, valores, crenças e, em certos casos, até mesmo diferenças socioeconômicas, constituem locais privilegiados na ocorrência diária do fenômeno da ilegalidade consentida, microcosmo bastante adequado, portanto, para ilustrá-lo. Partindo do nível microscópico, torna-se mais fácil exemplificar e comprovar o problema da ilegalidade consentida como mais um aspecto negativo da brasilidade em sua esfera macroscópica, a esfera da "Grande Mãe", parafraseando o próprio Meira Penna. Assim, pais ausentes acreditam que os condôminos devem tolerar tudo aquilo que seus filhos fazem de errado: torneiras abertas no espaço comum, bate-bola em local indevido, correria no hall social, sujeira descartada fora das lixeiras, falta de cuidado com a grama e com o jardim, gritaria e por aí vai. O mau uso do espaço comum não é apanágio somente de crianças sem educação, mas também de adultos desrespeitosos que o tratam como sendo o espaço de ninguém ao invés do espaço de todos. Na entrada e saída da garagem, as normas de segurança são interpretadas como mera formalidade sem nenhuma importância: um condômino entra ou sai no vácuo de outro e jamais aciona o controle remoto para fechar o portão. Mesmo quando em seus espaços privados, em função da ampla dimensão do elemento de coletividade que a vida em condomínio implica, o vizinho é uma categoria inexistente, não havendo preocupação alguma em evitar ruídos fortes, nem mesmo em período noturno. Assim, morar em condomínio é um verdadeiro tour de force para aqueles que não compartilham da ilegalidade consentida.
Tolerar e incentivar o erro é algo que possui dois lados de uma mesma moeda: trata-se, concomitantemente, de uma prática e de uma visão de mundo, sendo que, quase sempre, a ação e a ideia são compartilhadas pelo sujeito que age. Quando se pensa especificamente a respeito da ideia, é possível notar a existência de um grande paradoxo: é corriqueira no âmbito do politicamente correto, também ele um mal disseminado entre o esquerdismo, a noção segundo a qual o individualismo é prejudicial. Já escrevi a respeito da confusão individualismo-egoísmo, quando ambos são tratados indistintamente. No discurso, as pessoas procuram repelir o individualismo sem terem a menor compreensão de seu sentido filosófico. Não querem ser individualistas, incapazes que são de entendê-lo, bem como permanecem imersos na ignorância em relação aos seus benefícios. Por outro lado, se revelam absolutamente egoístas, bastando observar como atuam nos espaços comuns e com relação às obrigações para com outrem, promovendo uma caótica superposição entre público e privado.
No Brasil, ao contrário do que sugerem a sobriedade e a resignação perante diversos aspectos ontológicos, fatores básicos de desenvolvimento, os direitos sempre aparecem antes dos deveres e, são tantos, que as responsabilidades que envolvem todas as relações sociais, ou seja, os próprios deveres, acabam esquecidos. É a cara do Brasil!

domingo, 29 de setembro de 2013

Sinônimos: "esquerdismo" e "manipulação política"


Como sempre afirmo, e não se trata de nada além da mais óbvia e ululante constatação, o pensamento de esquerda jamais está autorizado a fazer uso do conceito de democracia com o objetivo de se contrapor a qualquer tipo de regime autoritário. Isso serve apenas para fazer a cabeça de analfabetos políticos e arrastá-los pelo caminho da mentira e da ditadura. Ser de esquerda é estar exatamente ao lado da ausência de liberdade, noção que o correto entendimento histórico não permite contrariar e, quem quer que tenha se debruçado sobre os textos de Marx e da miríade de discípulos por ele deixados, inclusive considerando-se aí também o keynesianismo, uma espécie de marxismo velado e erigido com vistas a se inserir mais eficazmente nos bastidores da política, sabe muitíssimo bem disso. Existiram ao longo do século XX raríssimas exceções que podem ser apontadas como componentes de uma "esquerda democrática", porém, tornadas ainda mais exíguas após a crise do mundo soviético e do colapso comunista, até porque tal vertente acabou em grande medida absorvida por outras formas de orientação. Quem foi capaz de enxergar as aberrantes falhas do comunismo, dele se desvencilhou.
No Brasil, atolado pela ditadura comunista do PT, o uso mentirosamente deslavado do conceito de democracia pela esquerda se traduz sobretudo na apologia dos regimes cubano, venezuelano e boliviano, coirmãos latino-americanos do marxismo terceiro-mundista. O ex-presidente Lula, e o mentor do mensalão, José Dirceu, além de outros petistas poderosos, sempre se mostraram entusiastas contumazes desses governos. Só mesmo extremos inimagináveis de idiotice podem fazer com que alguém acredite haver democracia nessas ditaduras de esquerda. Também corriqueiras são as análises esquerdistas a respeito do governo militar brasileiro, nas quais invariavelmente se lança mão da democracia com o intuito de defender comunistas. Na mais recente peça de falseamento do passado, Mino Carta, diretor daquela revista de piadas de mau gosto que a tantos idiotas consegue seduzir, teceu loas homéricas ao mensaleiro José Genoíno que, segundo ele, foi uma grande vítima da ditadura militar, alguém que lutou pela democracia e agora sofre as injustiças da burguesia direitista. Carta quer fazer crer que um comunista lutou pela democracia, ideia absolutamente contraditória desde a década de 1840. Um sistema que defende a violência revolucionária, que prega a eliminação de setores da sociedade e que tem na ditadura uma de suas fases mais importantes não pode em hipótese alguma se aproximar de qualquer laivo de democracia.
O regime militar brasileiro cometeu equívocos profundos na condução da política econômica, germe da hiperinflação dos anos 1980, bem como, mais grave ainda, em nome da tecnocracia, deixou de lado a produção cultural e a educação. As lacunas desse sistema foram oportunamente ocupadas pela esquerda e, hoje em dia, filmes nacionais que atribuem aura de heroicidade a ícones sanguinários da esquerda são feitos à custa de dinheiro público, ao mesmo tempo que nas escolas e na universidade, o esquerdismo domina praticamente sozinho o paradigma dos corpos docentes, revelando o nefasto doutrinarismo que dita os rumos educacionais no país. Esses nichos são privilegiados na propagação das mentiras esquerdistas e conseguem cooptar uma quantidade enorme de ingênuos.
Se a ditadura militar foi estatista e desatenta à questão cultural, o que lhe faz ser merecedora de críticas no âmbito de quem adota ideias liberais, no que se refere às análises de esquerda, tem-se mais um caso em que somente a ingenuidade histórica e política podem levar um grande número de pessoas a acreditar nas manipulações que essa ideologia promove com o conceito de democracia. Todas as táticas terroristas e opostas à democracia, típicas da ação da esquerda, como a guerrilha do Araguaia, o MR-8 e os sequestros políticos foram financiados com verba diretamente enviada dos porões da ditadura soviética. Essa gente jamais lutou contra a ditadura militar tentando colocar no lugar dela um sistema democrático, mas sim com o objetivo evidente de implantar o comunismo no Brasil. Na mesma época, sempre que algum dissidente soviético vinha a público para denunciar os crimes e a barbárie do comunismo, tal qual o exemplo cabal de Alexander Soljenítsin, prontamente a esquerda passava a qualificá-lo como um agente a serviço do império capitalista.
Em 31 de março de 1964 os planos da esquerda autoritária foram frustrados pelos militares, apoiados por grande parte da população brasileira, é bom que se destaque. Nos quase cinquenta anos passados desde lá, o regime militar virou peça de museu, ao passo que o esquerdismo recrudesceu com força e distanciou-se da modalidade mais aberta e tradicional que inspirou o castrismo cubano para se transfigurar no gramscianismo, pragmático enquanto oculto aos bastidores sórdidos da politicagem que destrói as instituições, ao mesmo tempo que místico e messiânico no apelo dirigido às massas tomadas pela catarse da ignorância. O perigo hoje é imensuravelmente maior.

sábado, 21 de setembro de 2013

Jovens prisioneiros do rebanho


"Os jovens, por serem mais puros do que os adultos, são mais livres do que estes".
A máxima acima está dentre aquelas que mais são repetidas em nosso tempo sem que uma análise minuciosa seja realizada a fim de verificar se é uma noção que de fato possa ter algum fundo de verdade. Quando se busca um entendimento filosófico, fica fácil concluir que se trata de uma ideia inteiramente falsa, no entanto, como muito do que é falso cada vez mais tem conquistado ares de verdade, o número de pessoas que se deixa levar é enorme.
Acreditar que a liberdade é um sentimento mais forte entre os jovens não passa de rousseauísmo romântico e, como tal, impede totalmente de compreender o significado mais nobre dessa virtude. A liberdade não é um dom gratuito da natureza, mas algo que precisa ser exercido por espíritos responsáveis. A liberdade é construída filosoficamente na interioridade de cada indivíduo, no que então assume sentido oposto à noção de que ser livre está relacionado a realizar desejos e fazer tudo aquilo que se tem vontade, como normalmente os jovens interpretam, incentivados por uma vastidão de adultos.
Há exceções, mas de modo geral, os jovens se rebelam contra a autoridade dos pais, acreditando que assim serão capazes de abrir as portas da liberdade. Esse é um dos maiores autoenganos que atinge o ser humano, de vez que a autoridade paterna é natural, ligada à formação dos filhos e transmissão de experiência aos mesmos, um processo que se completa assim que a maturidade é atingida. Além disso, estar sujeito à autoridade dos pais de modo algum limita a liberdade de um filho, até devido à própria questão da experiência, já que quanto mais ela se acumula, mais apto está um indivíduo a exercer sua liberdade. É claro que algumas experiências são obtidas fora dos limites paternos, o que também faz parte da vivência humana, porém não é por conta disso que se deve descartar totalmente os aconselhamentos emanados dos pais. Pelo contrário, pois somente se forem combinadas com tais aconselhamentos, as experiências poderão ser aproveitadas na formação do caráter e da personalidade.
Sempre que os jovens se rebelam contra a autoridade paterna, o fazem em nome do autoritarismo grupal, relacionado não à formação que uma pessoa carrega para o resto da vida, mas sim a imposições comportamentais efêmeras que funcionam como ingresso para participar do grupo. Trata-se, sem dúvida, de algo prejudicial que, ao invés de promover a liberdade, atua como um sério limite a ela. O indivíduo é obrigado a se despir de certos condicionamentos que acumulou ao longo de anos junto dos pais com vistas ao seu benefício para se coadunar com imposições cujo único objetivo é a rebeldia por si mesma. Troca-se a autoridade benéfica dos pais pelo autoritarismo que faz do indivíduo um membro de rebanho desprovido de qualquer possibilidade de escolha e de manifestação de preferência. Liberdade? Não, sua antítese.
Tem sido corriqueiro nos dias de hoje encontrar jovens que não possuem um mínimo de autodisciplina para realizar deveres simples, que estão muitas vezes mergulhados em crises existenciais porque não conseguem fazer escolhas, que cada vez mais prematuramente se rendem ao álcool e outras drogas na tentativa de subornar a realidade. A realidade, vale salientar, retira o ser humano do centro dos acontecimentos, existe, assim sendo, independente dos anseios egoístas, sem fazer nenhuma concessão a quem quer que seja. Ser livre dentro da realidade exige o self control que só se obtém à medida que o sujeito se curva diante do tipo correto de autoridade, aquele que ajuda a viver experiências e extrair seus significados, aquele que ensina a ser livre sem depender de elementos externos.
Caso o senso comum e a educação atual, amparada nos falsos pressupostos de Rousseau, de Marx e das pseudofilosofias pós-modernas, permaneça dando as cartas, o resultado mais concreto e lamentável disso será a continuidade da má formação de jovens, irresponsáveis e iludidos perante prazeres imediatos e prejudiciais confundidos com a liberdade centrípeta e internamente construída. A responsabilidade no tempo presente cabe aos adultos.