Protected by Copyscape Original Content Checker

sábado, 19 de março de 2011

Liberdade no âmago - um conto


A multidão fervilhava em uma mistura de ódio e pavor contido face à marcha inexorável que confirmava o cumprimento da profecia. Era cinco de maio de 1935, Kazyrin, do alto do palanque, ergueu a mão esquerda com o punho cerrado e vociferou execrações contra o lumpesinato. Os desviantes eram criaturas anti-históricas que seriam eliminadas pela própria necessidade da causa. A natureza, concebida pelos líderes ideológicos como palco das ações humanas, não lhes dava a mínima chance de continuar existindo.
No mesmo dia, a cerca de mil quilômetros de distância de Níjni Novgorod, a Waffen SS incursionava no pequeno vilarejo de Lauchhammer. No apertado sótão localizado na parte detrás do celeiro, encoberto por feixes de trigo, Schoppelmann improvisou um esconderijo para sua irmã mais nova, para ele próprio e para dois amigos da vizinhança. Os quatro eram jovens judeus-alemães, feitos órfãos pelo regime nazista. Conseguiram sair ilesos e, três meses depois, com a ajuda de uma professora da escola local, emigraram para a América.
A infância de Schoppelmann fôra das mais difíceis. Órfão já aos dez anos, passou a cuidar sozinho da irmã de cinco. Sempre esteve longe de ser popular na escola e suas amizades eram poucas. Às vezes tem-se a impressão de que as pessoas são escolhidas. O jovem garoto da região de Brandenburg soube desde cedo tirar proveito das agruras que a vida lhe impôs já em tão tenra idade.
Schpoppelmann era sério, carrancudo, não fazia concessões moralmente aviltantes, odiava o sucesso fácil e jamais se deixava levar pelas efusividades de fachada. Para ele, nada poderia ser mais revelador do que a interioridade humana, o mérito, não só pragmático, mas sobretudo moral, a humildade, a tolerância, a coragem, a justiça, a simplicidade e a boa fé sempre foram as virtudes que mais prezou, pois nelas, e só nelas, é que se pode encontrar os universais que perfazem o ser humano em sua completude, o próprio spoudaios aristotélico.
Schoppelmann dedicou o restante de sua vida aos estudos. Na América, se formou filósofo, lecionou em Princeton e deu palestras no mundo inteiro. Escreveu cerca de 45 livros, publicados em vários línguas, além de uma quantidade imensurável de artigos e ensaios. Os temas da interioridade humana e da liberdade individual, pilares do senso do dever e da responsabilidade, elementos que ele conhecia tão bem desde a infância, compuseram o norte de sua obra como grande humanista. Trabalhou incansavelmente em prol do que é mais nobre na experiência humana, inclusive em relação a qualquer forma de vida, a própria liberdade.
E quanto a Kazyrin? Bem, digamos que na prática nunca conseguiu realizar nada pelos outros, nada de positivo. Seu erro foi nunca ter deixado de lado o apego ferrenho à religião mundana cujos dogmas promovem a reificação de uma realidade paralela, transfigurada, ilusória e portanto, de impossível materialização. Acabou, de maneira previsível e fatal, apanhado por essas armadilhas tão típicas das ideologias paranóicas que só podem se alimentar do medo e da fabricação de culpados, aqueles que existem e são execrados para justificar a irrealização da causa no presente, bem como para manter a crença patológica de sua suposta materialização num futuro que, evidentemente, jamais chegará. Os inimigos da causa nunca deixarão de existir, do contrário, é a causa mesma que se torna extinta.
Schoppelmann sempre esteve atento aos universais intemporais. Schoppelmann vive por seu legado de liberdade. Kazyrin provou do próprio veneno, morreu pelas mãos dos assassinos ideológicos. Outrora, ele havia sido um deles. Hoje ninguém mais o conhece. A ideologia sobrevive e continua fazendo vítimas expiatórias. Por sorte, os homens podem contar, se assim o quiserem, com o bálsamo dos que sabem que nem tudo é possível.

domingo, 13 de março de 2011

O preconceito linguístico no Brasil


Uma das coisas mais estranhas que faz parte do universo mental das pessoas é a inclinação em travestir de certo aquilo que é logicamente errado. No Brasil, país onde o panorama intelectual está sempre retardado, o pensamento pós-moderno ainda insiste em deixar resquícios, o que provoca a grave confusão entre o certo e o errado também no campo da linguagem. Daí ocorre um desdobramento que, por sua vez, transforma em vanguarda algo absolutamente retrógrado e tacanha.
De acordo com o ceticismo relativista pós-moderno, a linguagem é uma criação da elite cujo objetivo é excluir as classes baixas da possibilidade de inserção no discurso. É isso, segundo tal ponto de vista, que provoca a cisão entre a norma culta da língua, que exige uma assimilação mais complexa e demorada, e as formas coloquiais de comunicação, mais simplificadas e que permitem, mesmo de maneira totalmente improvisada, a participação dos desprivilegiados no processo comunicativo. Esse improviso que tantos males é capaz de promover, em nada preocupa os pós-modernos.
Tal forma de ver as coisas não é apenas cruel e perigosa pelo equívoco intrínseco a ela, mas porque gera uma série de outras aberrações conceituais, acabando por distorcer a realidade até no âmbito moral. O efeito cascata advindo dessa salada mental corre sério risco de fomentar ódios, preconceitos e tornar inviável o bom convívio social.
Em primeiro lugar, cabe notar que a construção linguística não é um dado da natureza, mas sim um elemento cultural. Ninguém nasce sabendo a linguagem, ao contrário, ela é fruto de um aprendizado educacional que permite sua assimilação, até que um certo ponto desse trajeto de apropriação educacional é atingido e a partir do qual o usuário da língua passa a dominá-la na maioria de seus aspectos, sendo que daí em diante, resta somente aprimorá-la. Obviamente, se não fosse assim, se a língua fosse um dado natural, então não haveria a imensa variedade linguística que se observa nas populações humanas. O pensamento pós-moderno não consegue operar com o conceito de “usuário da língua”, exatamente porque não enxerga a construção socioeducacional da qual ele depende. Os pós-modernos acreditam que a linguagem é um elemento orgânico ex-nihilo, parecido, por exemplo, com a capacidade de ver ou de sentir odores, um sentido físico, por assim dizer. Evidentemente, trata-se de uma castração cultural que perde a noção da construção linguística. É curioso que o pensamento pós-moderno, em outros aspectos do entendimento, relacionados à psicologia do indivíduo, esqueçam a natureza humana onde, aí sim, a carga genética exerce grande grau de influência.
Além disso, a língua não pode ser admitida como um dado econômico-classista, pois isso cria um problema insolúvel de segregação. Temos aqui mais uma estultice do pensamento pós-moderno que, autoproclamado por seus representantes como uma inovação filosófica, logo se revela mero depositário do mais vulgar marxismo ortodoxo. Entender a construção linguística a partir do conceito de classe social só pode ser resultado de uma visão míope da história, que parece confundir cultura nacional com estratos sociais, dois conceitos antagônicos. Não conheço nenhum gramático rico, mas posso citar vários exemplos de celebridades acéfalas que fazem péssimo uso da linguagem e estão montadas em dinheiro.
A norma culta da língua consiste na expressão perfeita dela própria e existe, como não poderia deixar de ser, devido à necessidade da linguagem como instrumento comunicativo, coisa que muita gente não enxerga, assim como os números servem para contar. Vários gramáticos, linguistas e filósofos demonstraram com propriedade que a norma culta confere ao usuário da língua o conhecimento de uma gama rica e variada de vocábulos, indispensáveis à articulação de expressões verbais e à elaboração de frases compostas com clareza e inteligibilidade. O pensamento abstrato, vetor de operações mentais de interpretação, comparação, relação, dedução e indução, só pode ser expresso em norma culta, o que faz dela imprescindível para a posse de um bom repertório discursivo. A norma culta da língua é o terreno comum da comunicação, o pressuposto básico para que os cidadãos em geral tenham acesso ao uso da linguagem, o oposto da forma segregacionista e guetizante advogada pelo pós-modernismo, visão rasteira que parece acreditar que as pessoas mais pobres não sejam capazes de aprender e de utilizar a língua em seu potencial máximo. Se nem todo cidadão no Brasil tem oportunidade para se tornar bom usuário da língua culta, trata-se evidentemente de um problema que tem a ver com a educação, não com a linguagem em si. Não surpreende que em seus devaneios os pós-modernistas se mostrem avessos à educação, que segundo eles não contribuiria para resolver os problemas do país. O pós-modernismo mantém relação praticamente inexistente com a lógica e seus adeptos se contorcem em argumentação vazia e autoindulgente na tentativa de se mostrarem como alternativa de vanguarda em face dos problemas contemporâneos, mas em verdade, são facilmente desmascaráveis em filósofos charlatães e do tipo mais conservador que se possa ter.
Por fim, ao contrário do que querem os pseudopensadores dessa vertente,
no Brasil, país onde uma enorme parte da população é lamentavelmente formada por analfabetos funcionais, o preconceito linguístico se dirige exatamente no sentido oposto do que eles pensam, ou seja, as vítimas são aqueles que procuram usar a língua corretamente. Várias vezes me deparei com gente que costuma chamar de nerd e homossexual (com outro termo) quem fala e escreve como manda a norma culta, exemplo claro de que é o irracionalismo segregacionista, irresponsável e ignorante que gera preconceitos.
Num último apelo e num acesso desesperado de parco rousseauismo, os pós-modernos poderiam radicalizar e se manifestar em defesa de uma vida selvagem e desprovida de qualquer elemento de civilização, na qual então a linguagem como a conhecemos não seria mais necessária. Certo, deixemos os livros e brandemos os tacapes, ... Hobbes que nos acuda!

sábado, 5 de março de 2011

Uma decisão histórica, um marco na proteção animal*


A primeira vez que fui dormir com a sensação de que vivo num país sério foi quando o marqueteiro do ex-presidente Lula, Duda Mendonça, foi preso por prática de rinha de galo. Obviamente, voltei à realidade quando nada aconteceu a ele e o delegado, responsável pela prisão, foi transferido.
Recentemente, tive essa mesma sensação. Não é para menos, afinal, não é sempre que se tem uma decisão favorável à liberdade de expressão. Muito menos, quando se defende o direito de falar sobre maus tratos cometidos contra animais.
Em 2007, os organizadores do rodeio de Barretos, Os Independentes, ingressaram em juízo contra a PEA - Projeto Esperança Animal, uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) por esta haver divulgado em seu web site informações sobre todo tipo de sofrimento a que os animais são submetidos nesse evento.
Todas as informações eram baseadas em laudos elaborados por médicos veterinários que atestaram o quanto é cruel se utilizar o sedém (artefato de couro que aperta a região dos testículos do boi, fazendo-o pular como um touro bravio) e dar choques, pontapés e socos no touro, ainda no brete, antes de sair para a arena. Não há um laudo, mas vários provando a mesma coisa, ou seja, que rodeios causam maus tratos nos animais. Faço aqui, apenas, um resumo minúsculo diante do vasto estudo realizado pelos profissionais que verificaram, para se ter uma ideia, que os animais de rodeio deveriam ter a diminuição das pupilas devido à grande exposição às luzes do evento, porém, ocorre o inverso, a dilatação das pupilas (midríase), que é uma das reações do animal ao medo e ao sofrimento. A esta reação, acrescente-se a taquicardia, o aumento da pressão arterial, entre outras.
Não temos conhecimento de laudos que atestem que o animal pula porque é bravio e que os animais não sofrem. O que existe é um laudo que afirma que o animal pula porque sente cócegas.
Há dois pontos que parecem muito pouco verossímeis nesse laudo. O primeiro é a dúvida quanto a saber como alguém consegue provar que um animal sente cócegas. A não ser que o touro caia no chão, de barriga para cima, se matando de tanto rir, não vejo como provar de outra forma. O outro detalhe é que tal laudo foi assinado por um médico veterinário que era membro dos Independentes. Parcial, não-isento, portanto.
Voltando ao processo, apesar de toda informação divulgada ter sido baseada em documentos e fatos, já que a PEA publicou os nomes da maioria das empresas que patrocinavam rodeios, para que as pessoas que levam suas vidas de acordo com princípios éticos, repudiando empresas causadoras de qualquer mal aos animais, pudessem fazer suas escolhas, a PEA foi condenada por um juiz de Barretos a retirar todo o material do site sob pena de multa diária. Inconformada, a associação recorreu, contando com a experiência e conhecimento dos desembargadores do Tribunal de Justiça. Outra decepção, pois a corte manteve a censura.
Importante registrar aqui que o site não mencionava o rodeio de Barretos e sim, falava em “rodeios”. Os magistrados ignoraram isso, cedendo aos apelos do autor da ação, imaginando (sim, porque não leram a defesa) que estava escrito que Barretos maltrata animais.
O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal na esperança de se reestabelecer a liberdade de expressão, direito fundamental garantido pela Constituição Federal. Foi o que ocorreu e, numa decisão histórica, o Ministro Joaquim Barbosa devolveu à associação, à população e ao país o direito de se expressar e estar ciente da verdade. Verdade essa que ganha ainda mais importância na medida em que vai contra uma máquina poderosa e rica, que movimenta empresas, políticos e interesses, verdade que defende seres que não falam, não votam e que não têm poder nem dinheiro, mas que têm direitos em relação aos quais é dever do ser humano estar atento, zelar e respeitar. Basta que uma pessoa decida fazer o que é certo para que as coisas funcionem como deveriam. Parabéns ao ministro e obrigada! Agora nos resta aguardar pela decisão do Plenário do STF. Se os demais magistrados seguirem o relator, os animais agradecem.

* Este texto foi escrito por Fernanda Bonagamba, no qual eu apenas colaborei com algumas linhas.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Mais 25 músicas essenciais


Quando escrevi sobre minhas 25 músicas preferidas em maio de 2010, fiz a promessa de apresentar uma segunda listagem futura. É o que venho então a realizar passados esses 9 meses. Os critérios de seleção são exatamente os mesmos que respeitei na primeira relação, sendo que talvez eu devesse, todavia, salientar que todas essas músicas são aquelas que considero essenciais apenas dentro do gênero Rock, mas uma vez que o próprio Rock comporta inúmeras vertentes e que minha concepção de música esteja focada nesse estilo, deixo de lado tal ressalva. Vamos às músicas!

IRON MAIDEN/THE TROOPER - possui os ingredientes mais valiosos no Heavy Metal, (riff, solos, agressividade, melodia) uma música muito bem trabalhada e simples ao mesmo tempo, pois lapidar em suas características.

EUROPE/THE FINAL COUNTDOWN - um clássico do Hard, influência cabal para a sonoridade oitentista, revela a perícia extrema de John Norum e os outros membros da banda no auge da forma técnica.

DEMONS & WIZARDS/LOVE´S TRAGEDY ASUNDER - uma composição poderossísima, forte, pujante, coloca, a meu ver, o D&W como melhor banda de Heavy Metal surgida no século XXI, apesar de ser, na realidade, um projeto paralelo ao invés de uma banda.

JASON BECKER/DWELLAR IN THE CELLAR - música que descortina a técnica soberba de Becker e seu estilo peculiaríssimo de esmerilhar uma guitarra; homenagem a esse grande músico que passou a sofrer de grave e rara doença degenerativa.

HELLOWEEN/WE GOT THE RIGHT - os pioneiros do chamado "Heavy Melódico" em uma música mais cadenciada do que sugere o estilo, rica em feeling e melodia.

MOB RULES/SECRET SIGNS - composição bastante curta, mas muito marcante, com grande riff e um toque de folk germânico sem cair no exagero típico de tantos outros conjuntos que seguem essa linha; vejo esses alemães como a melhor banda de Heavy Metal surgida nos anos 1990.

MICHAEL LEE FIRKINS/FREEWAY LINES - música representante do estilo Southern Rock, traz técnica e sofisticação bem acima da média nesse estilo, comprovando a competência monstruosa de Firkins.

QUEENSRYCHE/EYES OF A STRANGER - nascido em Seattle antes da famigerada onda grunge, o Queensryche inaugurou o estilo Prog Metal, executando-o despido do pedantismo insuportável característico das bandas atuais da vertente; pena terem se desvirtuado ao longo da carreira, caindo num quase pop insosso.

RAINBOW/RAINBOW EYES - uma música com carga de emoção pouquíssimas vezes notada, some-se a isso a mágica interpretação do saudoso Dio e está pronta a receita de uma obra prima.

SAVATAGE/DEVASTATION - os mestres do Power Metal oitentista atacam aqui com mais um de seus riffs que fazem jus ao título da composição: completamente devastador!; "RIP Criss Oliva".

STEVE VAI/FOR THE LOVE OF GOD - não sou grande fã deste que é considerado um dos mestres da guitarra, mas nessa composição ele superou seu ponto fraco com grande maestria, conseguindo aliar técnica e feeling de modo perfeito.

MARTY FRIEDMAN/THUNDER MARCH - música grandiosa, melodia belíssima, lembra uma trilha sonora de filme; Friedman teria produzido melhor deixando o Megadeth para se dedicar à carreira solo.

TALISMAN/BLISSFUL GARDEN - hoje em dia o Funk é visto com péssimos olhos no Brasil, não à toa, dada a extrema aberração musical que é tocada nos bailes cariocas; o Funk setentista, porém, nada tem a ver com a tal anomalia e o Talisman foi a banda que primeiro mesclou elementos desse estilo com o Rock, por sinal, de modo muito mais original e competente do que uma certa pimenta vermelha...

TONY MACALPINE/CITY BENEATH THE SEA - composição de grande força e melodia, fazendo jorrar livremente a veia fusion e a genialidade de Macalpine.

VINNIE MOORE/LIFEFORCE - música possuidora de um riff alucinante e na qual o maior Guitar Hero de todos os tempos desfila toda sua técnica e criatividade.

YNGWIE MALMSTEEN/ICARUS DREAM SUITE - o mago sueco das 6 cordas expõe aqui um exemplo da mais perfeita aliança entre erudição e técnica guitarrística; composição magnífica.

BORISLAV MITIC/CELTIC LEGENDS - música na qual o competentíssimo guitarrista sérvio brinda o ouvinte com um memorável e soberbo épico.

BOSTON/MORE THAN A FEELING - excelente balada Hard/Prog setentista; homenagem ao já falecido Brad Delp,  grande vocalista e vegetariano, como todos os integrantes da banda.

JOEY TAFOLLA/NINE TOMORROWS - música recheada de técnica e melodia, representante do estilo neoclássico.

STRATOVARIUS/KISS OF JUDAS - ótima composição da banda finlandesa de Heavy Melódico, é uma música muito bem arranjada e livre dos excessos comuns a muitas bandas desse estilo.

PATRICK RONDAT/CLOUDY MOUNTAIN - excelente música, exemplo inconfundível da vertente neoclássica diretamente da palheta do exímio guitarrista francês.

IMPELLITTERI/WARRIOR - trata-se de um Hard/Power dotado de refrão pegajoso, forte riff e vocais assinados po Rob Rock, genial como sempre.

QUIET RIOT/CUM ON FEEL THE NOIZE - a música é uma regravação da banda Slade, mas muito mais poderosa, a meu ver, executada pelo competentíssimo quarteto formado por Kevin DuBrow, Rudy Sarzo, Carlos Cavazo e Frank Banali; homenagem ao já falecido vocalista Du Brow.

DEEP PURPLE/BURN - os mestres da lisergia setentista não poderiam ficar de fora, sobretudo considerando-se essa composição, dotada de tecnicalidade absurda e abrilhantada ainda mais pela voz avassaladora de David Coverdale em pareceria com Glenn Hughes, outro monstro dos vocais.

BLACK SABBATH/SUPERNAUT - para encerrar, mais setentismo, diretamente do ocultismo sabático; riferrama e peso, como manda o bom Metal!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Culturas, gritos de liberdade e valores universais


Fiquei uma semana pensando em escrever um artigo a respeito da onda de manifestações anti-ditatoriais que varre o mundo árabe no Oriente Médio e no norte da África. Nesse ínterim, assisti a alguns programas de TV nos quais o tema entrou em debate, quando então fui sentindo de modo cada vez mais claro que tudo aquilo que tem sido afirmado sobre a situação é vago e impreciso. Os especialistas não concluem absolutamente nada e não vão além da abertura de um leque de possibilidades totalmente amplo, o que dá a impressão final de se saber menos em relação ao assunto do que no início da conversa. O mais engraçado nisso tudo é ver a frustração de alguns âncoras despreparados, procurando eles próprios alguma opinião que possa dar manchete, mas tendo que se contentar com o ar blasé dos especialistas.
Talvez os estudiosos não estejam errados, pois é melhor e menos comprometedor ficar no terreno do possível diante de um quadro ainda turvo, do que se comprometer com uma análise peremptória que depois venha a se mostrar equivocada. Parece que os intelectuais têm se apropriado bem das estratégias discursivas que marcam a superação do paradigma pirronista pós-moderno, afinal, os estudos humanos possuem estatuto científico particular, de vez que seu objetivo é tentar ajustar distorções e oferecer interpretações verossímeis, ao invés de previsões deterministas e verdades tachativas. É preciso apenas cuidado para não expulsar o fanatismo relativista pela porta da frente, mas se descuidar permitindo que ele entre novamente pela janela.
Feita esta digressão introdutória, válida também como ressalva, fica nítido que se nem os estudiosos do mundo árabe podem oferecer análises mais definidas em relação aos acontecimentos que se verificam, tampouco eu o tentarei. Assim como eles, apenas vou traçar um rascunho da situação, sem ter nesse caso qualquer pretensão erudita.
A primeira ideia que vem à mente ao observar o que tem se sucedido nesses países árabes é que as manifestações, de caráter laico e pró-democrático, podem servir como contra-argumento para aqueles culturalistas ocidentais que sempre acreditaram na cultura como um bloco estanque e impermeável a exotismos, de modo que projetar a hipótese do desenvolvimento de sistemas democráticos no mundo árabe sempre lhes pareceu de um etnocentrismo criminoso. É curioso que pensadores desse tipo estejam sempre armados até os dentes para atacar o etnocentrismo ocidental, mas fechem os olhos para o fato de que tantas culturas não-ocidentais mantêm fortíssimas práticas etnocêntricas.
Sempre defendi, graças à leitura de Tocqueville, a noção de que, no fundo, a democracia é muito mais do que um sistema, já que depende da prática e da gestão de uma cultura democrática que só nasce no seio das sociedades. Assim, a democracia não pode, de fato, ser enxertada, pois ela é um vir-a-ser cultural. Cabe frisar que embora a democracia seja uma questão de cultura, seu antídoto contra o peso de um possível autoritarismo cultural, desde que ela própria não se massifique, é preservar o poder da liberdade individual. Qualquer pessoa está muitíssimo distante de poder afirmar que a democracia se tornará um valor e uma prática no mundo árabe, - há extensa gama de variáveis no processo, algumas delas ainda nem mesmo passíveis de vislumbre - mas se por acaso isso vier a ocorrer, estaríamos então perante uma evidência de transformação cultural das mais interessantes e emblemáticas, além do que, uma vez germinada a democracia árabe, nascida no interior dessas próprias sociedades, estaria seriamente comprometida a visão culturalista. A liberdade individual, um dos pilares de qualquer democracia real, sempre deve estar acima dos sistemas culturais: ideia com a qual terei afinidade permanente.
Outro aspecto muitas vezes negligenciado pelo Ocidente - e aqui devo fazer um mea culpa - está relacionado com o advento da modernidade, sua materialização e seus desdobramentos. Não que seja correto, como querem muitos representantes da velha esquerda reacionária, defender a noção de que nenhum tipo de inovação devesse chegar ao mundo árabe, - estaríamos caindo de novo na ladainha do culturalismo - mas muitas vezes os analistas ocidentais acreditaram que a possibilidade de haver modernização em sociedades permeadas pelo tradicionalismo islâmico nunca passou de quimera. O estudo mais aprofundado do Islã de eras passadas, bem como o próprio conceito de trocas culturais poderia modificar essa descrença. Além disso, é certamente uma grande novidade o fato de que todas essas manifestações estejam se disseminando por meio das tais redes sociais, exemplo de que a virtualidade pode se espraiar para a realidade e também de que uma tecnologia nascida no Ocidente esteja se concretizando e contribuindo politicamente em solo árabe.
Ainda é bastante cedo para traçar perspectivas, sejam elas otimistas ou pessimistas, oriundas de uma ou outra orientação ideológica. O islamismo em sua vertente terrorista poderá tirar proveito do caos que se instala após a queda de regimes, líderes oposicionistas autoritários podem derrubar um ditador e implantar outra ditadura, a cultura democrática corre o risco de não encontrar mentes virtuosas que a fertlizem e que a tornem prática, a violência humana é um fator sempre à espreita, mostrando que os acontecimentos não são pacíficos como alguns veículos insistem em afirmar, até pela reação promovida por comandantes que se arraigam ao poder. O que acontecerá em cada país que hoje se encontra sob revolução permanece como mistério e creio que seja melhor se despir da sanha de exercícios futurológicos e deixar que corra a temporalidade histórica, múltipla, incerta, desprovida de ritmo unívoco. No máximo, pode-se pensar que, dependendo dos arranjos, o abismo que criamos entre Ocidente e culturas não-ocidentais se revele mais estreito do que supomos, ou que o gênero humano ainda seja capaz de torná-lo assim, caso passe a pensar menos em culturas e tradições impermeáveis umas às outras e mais na liberdade como um valor universal. Não terá sido pouco, pelo contrário.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Estado como ídolo e como farsa


Onde quer que existam representantes da velha esquerda, há também o argumento do “estado mínimo” como forma de desqualificar o pensamento liberal. Mais uma ideia tola comprada por tanta gente, até por quem não possui uma concepção assentada a respeito de política e economia. Segundo reza a cartilha anti-liberal, o estado mínimo significa um governo o mais ausente possível, talvez até inexistente, que larga o corpo civil ao léu e oferece larga margem para a competição irrefreada, voraz e devoradora. Sinto informar, mas o tal do estado mínimo é típico de muitos países africanos, do Haiti ou de Bangladesh, lugares nos quais qualquer tipo de economia capitalista está absolutamente fora de contexto. Um detalhe que poderia já encerrar a discussão é o simples fato de que a síntese final de Marx é a abolição do estado. Mas vamos além, já que os marxistas de leitura rasteira perderam esse exato detalhe...
Em seu livro Adam Smith em Pequim, o sociólogo e economista italiano Giovanni Arrighi, em relação ao qual guardo inúmeras divergências a respeito da história econômica pós-1945 e do atual mundo globalizado, ofereceu, devo admitir, - faço isso sem o menor esforço - uma interpretação absolutamente original do pensamento de Smith. Se por um lado Arrighi ainda carrega certos dogmatismos, por outro, foi capaz de se despojar do lugar-comum que quase sempre reduz as teses smithsonianas à manjada “mão-invisível” que auto-regula o mercado. Arrighi, infelizmente, não chega a ter uma opinião positiva sobre o liberalismo, mas sua obra pode ajudar a acabar com um mal-entendido: nenhum liberal clássico, da escola de Hume, Locke, Tocqueville e do próprio Smith, despreza as importantes funções que devem ser da responsabilidade do estado. Um liberal dessa linha jamais afirmou que o estado não pode atuar como fiscalizador das leis do mercado, acredita - e isso não invalida a primeira asserção - que o estado não é o promotor do desenvolvimento, papel esse que cabe aos indivíduos e à sociedade a partir de um ajuste que maximize a igualdade das oportunidades e a valorização do mérito e da criatividade. Desse modo, observar o bom cumprimento das regras econômicas (qualquer capitalismo que se preze as possui) não entra de modo algum em contradição com a crença na iniciativa individual e privada como forma de promoção do desenvolvimento.
O liberalismo clássico crê ainda que a educação de base, a saúde e a segurança da população são incumbências das quais o estado não pode se eximir, ainda que tais serviços ocorram também fruto da atividade privada. Em qualquer nação desenvolvida o quadro observado é justamente esse, isto é, estado eficiente e cumpridor das atribuições de sua alçada própria, arranjo que inclusive e, evidentemente, possibilita um melhor funcionamento da máquina estatal, livre de interesses políticos, naturalmente conflitantes com o que é fundamentalmente público e que garante também, por consequência, uma melhor justiça. Definitivamente, o estado livre de funções que não são as suas, ou seja, tudo que foge ao gerenciamento das leis, do preparo básico do cidadão e da garantia de suas perfeitas condições de saúde e segurança, nada tem a ver com um estado de abandono, muito pelo contrário, pois se traduz na pedra de toque de um estado que atua melhor em prol do corpo civil.
No Brasil, onde a velha esquerda já deitou raízes, as privatizações são invariavelmente associadas ao roubo do “patrimônio público”. Não passa em momento algum pela cabeça dos anti-liberais que muitas de suas próprias bandeiras estarão mais em pauta exatamente se o estado estiver isento de fardos que não são os dele. Também escapa aos estatólatras vítimas do paternalismo a trivialidade matemática: empresas privadas pagam imposto ao estado e engordam seus cofres. E atente-se para a abundância faraônica da carga tributária brasileira...
A Cidade do Samba pegou fogo, escolas tiveram seu carnaval posto em prejuízo. Tudo bem que para os envolvidos com a folia seja algo gravíssimo, mas é verdade também tratar-se de uma coisa sem a menor importância para tantos outros. Seria perfeitamente normal a contribuição de empresas privadas no intuito de salvar o divertimento dos foliões e o desfile das escolas afetadas pelo incêndio. Nem um pouco normal, no entanto, uma afronta das mais absurdas eu diria, o poder público carioca fornecer verbas do contribuinte, inclusos aqueles que abominam samba e carnaval, para ajudar essas mesmas escolas, instituições particulares.
O brasileiro comum é bobo e estatólatra, paradoxalmente, não irá ver nenhum mal no estado que ele tanto julga como benfeitor dar dinheiro arrecadado a partir do trabalho e do esforço do cidadão para escolas de samba, ao invés de empregá-lo em educação, saúde e segurança, ou mesmo em causas nobres como a proteção animal, no fundo, também uma questão relacionada com convívio social.  A função do estado no Brasil é fazer festa com dinheiro público; nas próximas eleições, como já vem sendo há um bom tempo, ao político que quiser ser eleito bastará grana para o marketing e um discurso que erija o estado como ídolo, bem ao gosto da velha esquerda.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Ser simples é sempre melhor


Cada vez menos as pessoas se contentam em ser simples e levar a vida orientadas pela busca de propósitos honestos e pelo cultivo de virtudes frugais. Em oposição a isso, necessitam doentiamente de simulacros e vaidades que fazem elas próprias e os outros pensarem que são detentoras de algum encanto mágico, externo ao sujeito, artificial portanto, e sempre passível de ser desmascarado. Vai ver que é por isso que observamos tamanha quantidade de estados patológicos que afetam acentuadamente a alma e o comportamento nesses tempos atuais.
Já escrevi mais de uma vez a respeito do narcisismo e do egoísmo, esses males típicos da celebrização e da sanha por fama e desejos que quase sempre se revelam efêmeros e paliativos. Com isso, além de muitas pessoas deixarem de ser elas mesmas, transmutando-se em criaturas mesquinhas e bizarras, se afastam também das qualidades que porventura possam deter.
Impossível não bater na tecla de que o brasileiro, em geral, é uma das maiores vítimas desse envaidecimento e o meio futebolístico é um dos cenários que não nos deixa enganar. Alguns exemplos bastam: Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho estão entre as celebridades grotescas. O primeiro é um profissional que há 5 anos não entra em boas condições de jogo, completamente descuidado em relação à forma física. Profissional?! Critico esse jogador faz um bom tempo, nesse blog mesmo, redigi textos dando conta de sua ausência de seriedade e comprometimento. Onde estão aqueles que em 2009 só faltavam ajoelhar diante de Ronaldo? Devem estar pixando muros com xingamentos dirigidos a ele... Ah, por sinal, muitíssimo bem feito para o time provinciano da zona Leste. Quanto ao segundo, não consegue jogar absolutamente nada desde a Copa das Confederações de 2005, a partir de então, só enganou... e frequentou baladas. Eis que chega 2011 e, depois de ser disputado ridiculamente por Palmeiras, Grêmio e Flamengo, fechou contrato não menos ridiculamente com o clube da Gávea. Fácil. Irá fazer seus golzinhos contra os times semi-amadores do interior do Rio e dos rincões do país na Copa do Brasil. Vamos ver o que ele fará no longo, cansativo e difícil Campeonato Brasileiro...
Ronaldo, como não poderia deixar de ser, já vive seu melancólico e fracassado canto de cisne. Eu aposto que o Gaúcho seguirá o mesmo script, afinal, é ele que tem feito por onde desde que se envaideceu após ter brilhado no Barcelona, quando ainda se mantinha como uma pessoa normal. Falando nisso, alguém já reparou como ele anda inchado e com dificuldade de movimentação? Será efeito das noitadas? O jornalista Lucio de Castro toma as dores dos boleiros celebrizados sempre que alguém levanta a questão da falta de profissionalismo por parte dos mesmos. Lucio batizou de “manja” o pessoal que, segundo ele, se mete na vida particular dos jogadores. Eu digo que não há ninguém que irá pagar com mais amargura a ausência de profissionalismo do que esses próprios jogadores, mas há só um detalhe: esses atletas são ídolos e servem de exemplo para muitos jovens, o que é lamentável. No dia em que o brasileiro abrir o olho e enxergar quem de fato merece valor, não estarei mais nem um pouco preocupado com celebridades anódinas.
O argentino Lionel Messi vem sendo considerado o melhor jogador de futebol há duas temporadas. Não noto no meia-atacante do Barcelona nenhum traço de envaidecimento. Vejo, pelo contrário, que ele faz questão de se concentrar cada vez mais, única e exclusivamente, em jogar futebol. Não se ouve nem se lê nada sobre Messi quando o assunto não é esporte. Será por acaso a impressionante regularidade que ele vem mantendo?
Rivaldo é brasileiro, veterano com 38 anos de idade, forma física de um garoto de menos de 20. Sério e humilde exatamente do mesmo jeito que o era quando apareceu como jogador do Mogi-Mirim. Fui contra sua saída da presidência do clube do interior paulista, entretanto, depois de mostrar sua enorme categoria nos gramados do mundo, depois de conquistar tantos títulos, inclusive uma Copa, quando atuou de maneira soberba, depois de eleito melhor do mundo em 1999, o pernambucano não deixou de ser quem sempre foi, seu jeito simples, seu propósito de jogar futebol e seu profissionalismo se mostram intactos. Rivaldo tem tudo para encerrar a carreira com toda dignidade, ele merece isso, pois sempre seguiu o caminho da retidão.
Posso ser chamado de moralista e de desejar mau agouro. Não importa, pois sei que não se trata disso, mas sim da constatação que comprova o velho ditado, “quem procura acha”. Não é nem preciso desejar boa sorte às pessoas simples, uma vez que elas mesmas constroem seu sucesso. Aos envaidecidos, nada mais justo do que a indiferença.