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sexta-feira, 29 de abril de 2011

José Simão e o Brasil passado a limpo


José Simão, colunista da Folha de São Paulo, sempre foi, como poucos, alguém capaz de combinar senso crítico mordaz, sarcasmo e humor inteligente. Isso não é nenhuma novidade, mas em um texto publicado há cerca de 3 meses, que só agora pude ler, ele superou a si próprio e atingiu as raias da genialidade. Tomando como contexto as Olímpiadas do Rio de Janeiro em 2016, Simão nos brindou com uma análise ímpar a respeito da cultura geral e do modo de sentir, pensar e agir típicos da sociedade brasileira. Um raio-X mais do que perfeito do Brasil e do seu Zé Povinho, da corrupção, da cordialidade, da incapacidade de se indignar diante da esbórnia, do jeitinho, da boçalidade, da pieguice e da inversão de valores que fazem parte desse deplorável universo tupiniquim. Com toda honra, José Simão em seu melhor...


Previsões para a Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro - Por José Simão

1. ONGs vão pipocar dizendo que apóiam o esporte, tiram crianças das ruas e as afastam das drogas. Após as olimpíadas estas ONGs desaparecerão e serão investigadas por desvio de dinheiro público. Ninguém será preso ou indiciado.

2. Um grupo de funk vai fazer sucesso com uma música que diz: vou pegar na tua tocha e você põe na minha pira.

3. Uma escola de samba vai homenagear os jogos, rimando "Barão de Coubertin" com "sol da manhã". Gilberto Gil virá no último carro alegórico vestido de lamê dourado representando o "espírito olímpico do carioca visitando a corte do Olimpo num dia de sol ao raiar do fogo da vitoria".

4. Haverá um concurso para nomear a mascote dos jogos que será um desenho misturando um índio, o sol do Rio, o Pão de Açúcar e o carnaval, criado por Hans Donner. Os finalistas terão nomes como: "Zé do Olimpo", "Chico Tochinha" e "Kaíque Maratoninha".

5. Luciano Huck vai eleger a Musa dos Jogos, concurso que durará um ano e elegerá uma modelo chamada Kathy Mileine Suellen da Silva.

Abertura dos jogos

1. A tocha olímpica será roubada ao passar pela Baixada Fluminense. O COB vai encomendar outra com urgência para um carnavalesco da Beija Flor.

2. Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e a bateria da Mangueira farão um show na praia de Copacabana para comemorar a chegada do fogo olímpico ao Rio. Por motivo de segurança, Zeca Pagodinho será impedido de ficar a menos de 500 metros da tocha.

3. Durante o percurso da tocha, os brasileiros vão invadir a rua e correr ao lado dela carregando cartolinas cor de rosa onde se lê "GALVÃO FILMA NÓIS, 100% FAVELA DO RATO MOLHADO."

4. Pelé vai errar o nome do presidente do COI, discursar em um Inglês de merda elogiando o povo carioca e, ao final, vai tropeçar no carpete que foi colado 15 minutos antes do início da cerimônia.

5. Claudia Leite e Ivete Sangalo vão cantar o "Hino das Olimpíadas" composto por Latino e MC Medalha. As duas vão duelar durante a música para aparecer mais na TV.

6. O Hino Nacional Brasileiro será entoado a capella por uma arrependida Vanuza, que jura que "não bota uma gota de álcool na boca desde a última Copa". A platéia vai errar a letra, em homenagem a ela, chorar como se entendesse o que está cantando, e aplaudir no final como se fosse um gol.

7. Uma brasileira vai ser filmada varias vezes com um top amarelo, um shortinho verde e a bandeira dos jogos pintada na cara. Ela posará para a Playboy sem o top e sem o shortinho e com a bandeira pintada na nádega.

8. Por falta de gás na última hora, já que a cerimônia só foi ensaiada durante a madrugada, a pira não vai funcionar. Zeca Pagodinho será o substituto temporário já que a Brahma é um dos patrocinadores. Em entrevista ao Fantástico ele dirá que não se lembra direito do fato.

9. Setenta e quatro passistas de fio-dental vão iniciar a cerimônia mostrando o legado cultural do Rio ao mundo: a bala perdida, o trafico, o funk, o sequestro-relâmpago e a favela.

10. Durante os jogos de tênis a platéia brasileira vai vaiar os jogadores argentinos obrigando o árbitro a pedir silencio 774 vezes. Como ele pedirá em Inglês ninguém vai entender e vão continuar vaiando. Galvão Bueno vai dizer que vaiar é bom, mas vaiar os argentinos é melhor ainda. Oscar concordará e depois pedirá desculpas chorando no programa do Gugu.

11. Um simpático cachorro vira-lata furará o esquema de segurança invadindo o desfile da delegação jamaicana. Será carregado por um dos atletas e permanecerá no gramado do Maracanã durante toda a cerimônia. Será motivo de 200 reportagens, apelidado de Marley, e será adotado por uma modelo emergente que ficará com dó do pobre animalzinho e dirá que ele é gente como a gente.

12. Adriane Galisteu posará para a capa de Caras ao lado do grande amor da sua vida, um executivo do COB.

13. Os pombos soltos durante a cerimônia serão alvejados por tiros disparados por uma favela próxima e vendidos assados na saída do Maracanã por "dois Real".

Durante os jogos

1. Caetano Veloso dará entrevista dizendo que o Rio é lindo, a cerimônia de abertura foi linda e que aquele negão da camiseta 74 da seleção americana de basquete é mais lindo ainda.

2. Uma modelo-manequim-piranha-atriz-ex-BBB vai engravidar de um jogador de hóquei americano. Sua mãe vai dar entrevista na Luciana Gimenez dizendo que sua filha era virgem até ontem, apesar de ter namorado 74 homens nos últimos seis meses, e que o atleta americano a seduziu com falsas promessas de vida nos EUA. Após o nascimento do bebê ela posará nua e terá um programa de fofocas numa rede de TV.

3. No primeiro dia os EUA, a China e o Canadá já somarão 74 medalhas de ouro, 82 de prata e 4 de bronze. Os jornalistas brasileiros vão dizer a cada segundo que o Brasil é esperança de medalha em 200 modalidades e certeza de medalha em outras 64.

4. Faltando 3 dias para o fim dos jogos, o Brasil terá 3 medalhas de bronze e 1 de ouro, esta ganha por atletas desconhecidos no esporte "caiaque em dupla". Eles vão ser idolatrados por 15 minutos (somando todas as emissoras abertas e a cabo) como exemplos de força e determinação. A Hebe vai dizer que eles são "uma gracinha" ao posarem mordendo a medalha, e nunca mais se ouvirá deles.

5. A seleção brasileira de futebol comanda por Ronaldo Fenômeno vai chegar como favorita. Passara fácil pela primeira fase e entrará de salto alto na fase final, perdendo para seleção de Sumatra.

6. A seleção americana de vôlei visitará uma escola patrocinada pelo Criança Esperança. Três meninos vão ganhar uma bola e um uniforme completo dos jogadores, sendo roubados e deixados pelados no dia seguinte.

7. Os traficantes da Rocinha vão roubar aquele pó branco que os ginastas passam na mão. Um atleta cubano será encontrado morto numa boate do Baixo Leblon depois de cheirá-lo. O COB, a fim de não atrasar as competições de ginástica, vai substituir o tal pó pelo cimento estocado nos fundos do ginásio inacabado.

8. Um atleta brasileiro nunca visto antes terminará em 57º lugar na sua modalidade e roubará a cena ao levantar a camiseta mostrando outra onde se lê: "JARDIM MATILDE NA VEIA."

9. Vários atletas brasileiros apontados como promessa de medalha serão eliminados logo no inicio da competição. Suas provas serão reprisadas em slow motion e 400 horas de programas de debate esportivo vão analisar os motivos das suas falhas.

Após os jogos

1. Um boxeador brasileiro negro de 1,85m estrelará um filme pornô para pagar as despesas que teve para estar nos jogos e por não obter patrocínio.

2. Faustão entrevistará os atletas brasileiros que não ganharam medalhas. Não os deixará pronunciar uma palavra sequer, mas dirá que esses caras são exemplos no profissional tanto quanto no pessoal, amigos dos amigos, e outras besteiras.

3. No início do ano seguinte, vários bebês de olhos azuis virão ao mundo e as filas para embarque nos voos para a Itália, Portugal e Alemanha serão intermináveis, com mães "ofendidas", segurando seus rebentos...

sábado, 23 de abril de 2011

Economia e moral: distinguindo ordens


Em um livro muito original e valioso, evidentemente pouquíssimo conhecido no Brasil e cujo título é O capitalismo é moral?, o filósofo francês André Comte-Sponville busca responder a questão utilizando-se das reflexões de outro pensador, bem anterior a ele, o também francês Blaise Pascal. Na obra, o autor traz à tona, adaptando-o ao mundo contemporâneo, o conceito das ordens pascalianas, abordagem que possui o grande mérito de clarear nosso pensamento no que se refere à enorme confusão que costuma pairar sobre o senso comum quando se trata de economia e questões ético-morais.
Se quisermos acompanhar Comte-Sponville, e temos razões de sobra para isso, já que o livro citado é excelente, poderemos aceitar com tranquilidade que é plenamente possível haver moralidade e ética em uma sociedade que adote formato econômico capitalista. A moral marca presença ou ausência em cada um de nós, nas pessoas, por assim dizer, não na economia. O economicismo de cunho marxista se equivoca claramente ao tentar erigir a moral no âmbito econômico, que pertence a uma ordem distinta. Erra ainda ao interpretar de modo grosseiro o já confuso hegelianismo, uma vez que Marx confunde o predicado da ideia com enunciados sobre fatos, como destacado por Eric Voegelin. É um estranho paradoxo que o marxismo, tão arraigado nas tais “leis históricas”, não seja capaz de lidar com a possibilidade do sujeito histórico, já que o enxerga preso a uma falsa concepção da realidade, a menos que ocorra o enxerto de uma suposta consciência de classe criada pela cabeça de Marx ao “observar cientificamente a história”. No fim das contas, o marxismo de Marx é muito mais idealista do que materialista.
Ao tomarmos a distinção das ordens que Comte-Sponville retirou de Pascal, temos que os sistemas econômicos, como o capitalismo, pertencem à ordem tecnocientífica, a mais restrita delas e que não envolve questões morais. A economia é amoral, o que quer dizer que as regras que dão sustento ao econômico não se situam dentro dessa ordem da tecnociência. Deixando a ordem tecnocientífica, adentra-se ao terreno mais amplo da ordem jurídico-política, na qual se aplicam as leis governamentais, que têm a função de estabelecer normas, julgar e punir devidamente as transgressões. Uma vez considerada a ordem jurídico-política, outro absurdo do marxismo de Marx é o objetivo de abolir o Estado, mais ainda se pensarmos que seu socialismo, em relação ao qual as explicações por ele oferecidas são praticamente inexistentes, enceta a necessidade de planificação. Como se não bastasse o fato de Marx acreditar que a economia pudesse impor sanções a si própria, ele ainda por cima desejava eliminar um instrumento de controle externo a ela. Não por acaso, Raymond Aron foi certeiro ao frisar que o marxismo é grande em seu equívoco e equivocado em sua grandeza.
Todavia, mesmo que a ordem jurídico-política sirva de freio à amoralidade da ordem tecnocientífica, isso só pode ocorrer até certo ponto, pois nenhuma lei é capaz de podar o “canalha legalista”. Sobretudo num sistema legalmente falho e politicamente corrupto, a ordem jurídico-política não somente é ineficaz, como age em favor dos crápulas. Os limites então devem ser buscados novamente no exterior, em uma ordem ainda mais abrangente.
Chegamos à ordem da moral, aquela que nos permite identificar a diferença entre o certo e o errado, e consequentemente, distinguir direitos e deveres. A moral é o que válido para uma consciência tranquila, o que determina um importante impedimento sobre possíveis atos prejudiciais que se possa infringir a outrem. Parece que tudo se completa com a ordem da moral, mas deve-se entretanto atentar para o fato de que ela comporta um alto grau de subjetividade. Em decorrência disso é possível que alguém atue com base na lei e exerça seus deveres e direitos, mas realize somente aos seus deveres. Fica faltando algo e, como afirma então Comte-Sponville, é preciso “completar” a moral.
O final do percurso conduz à mais abrangente de todas as ordens, a ordem ética, dentro da qual abre-se a possibilidade de estarmos coadunados com a verdade, com a liberdade e com o respeito aos outros. Aqui, vale citar Comte-Sponville: "a ética intervém nas ordens precedentes mas sem aboli-las, e muito mais como motivação para o sujeito do que como regulação para o sistema. A economia, aliás, bastaria para prová-lo: o amor ao dinheiro e ao bem estar tem seu papel, é claro, mas não basta para proporcionar nem um nem outro." Sendo assim, temos que as quatro ordens têm seu papel, todas juntas são necessárias, nenhuma, por si só, é suficiente.
David Hume e Adam Smith foram defensores do livre-comércio, ambos lidavam de modo soberbo com a noção de que a riqueza pode ser gerada, disseminada e capaz de fazer as sociedades prosperarem, desde que exista um terreno fértil, ou seja, um ambiente econômico, político, cultural e mental que a isso favoreça. No completo oposto do que acontecia durante o colonialismo, quando as metrópoles tolhiam toda e qualquer hipótese de livre-comércio por parte das colônias, o que resultava em soma zero e na concentração de toda riqueza produzida sobre o pólo metropolitano, o comércio praticado livremente enseja ganhos de parte à parte e sem as imposturas arbitrárias estabelecidas por algum tipo de dominação. A tal da “mão-invísivel”, citada fora de contexto e de maneira totalmente pejorativa pelos apólogos das limitações à economia por ela mesma, não significa nada mais do que concorrência e lei da oferta e da procura, dois princípios econômicos vigentes desde tempos muito anteriores a qualquer forma de capitalismo. Como já escrevi anteriormente, nenhum liberal clássico como os dois escoceses citados no início do parágrafo, jamais defendeu que não devessem haver mecanismos de controle sobre a economia, sendo mais importante indagar: como controlar, de onde vem o controle? Mais do que tergiversar rasteiramente a respeito de estado forte ou estado mínimo, tipo de discussão colegial e ideológica sem vínculo com a realidade, seria de fundamental importância atentar para questões morais e éticas considerando a distinção das ordens. Termino lembrando que Hume e Smith, assim como todos os grandes pensadores do século XVIII, foram pregadores éticos e morais de extrema sofisticação. Não há dialética nenhuma que possa superar a ideia de que o certo é certo e o errado é errado, um não brota do outro...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A loucura do clima (e das pessoas)


Em abril de 2010 escrevi o artigo A Páscoa está ficando cada vez mais chata, isso porque o clima outonal que combina com essa época do ano no Hemisfério Sul e, assim sendo, também com a Páscoa, passou nos últimos tempos a ser substituído por calor e altas temperaturas. Um ano depois, a situação se repete de modo idêntico.
Não sou climatólogo nem cientista natural, mas face a todos os claros sinais da brutal alteração climática que estamos vivenciando, me inclino fortemente a pensar que sem dúvida alguma o ser humano tem participação importante nesse aumento das temperaturas médias no planeta, ainda que possa não ser o único fator. O próprio argumento das possíveis distorções envolvidas em análises climáticas realizadas em áreas urbanas devido à formação das ilhas de calor, contrário à responsabilidade humana, já aponta que o homem provoca alterações impactantes sobre a natureza.
Os livros didáticos, quase todos eles mergulhados em pensamento esquerdista de botequim, se apressam em afirmar que os países mais ricos são os grandes responsáveis pelas alterações no clima, já que é onde há mais produção industrial e consumo. OK, mas será que a economia mista da China, segundo país mais poluente do mundo, se enquadra nessa classificação? Vale lembrar que a Rússia fica em terceiro na lista e a Índia em quinto, enquanto nações altamente desenvolvidas como Suécia, Finlândia, Noruega, Dinamarca, Austrália e Nova Zelândia, são ecologicamente viáveis. Esses mesmos livros são pródigos em negligenciar a pecuária como atividade que colabora acentuadamente com emissões de CO2 - sem falar no metano - na atmosfera. Por que será que omitem a informação? Gostaria de saber o percentual de "ecólogos marxistas" que se abstêm de churrasco... O Brasil, país subdesenvolvido, é o maior exportador de carne bovina do mundo e, além dos malefícios ao ar, a pecuária é também responsável pelo acelerado desmatamento no Cerrado, visto que as lavouras de soja que aí avançam mais a cada dia, direcionam-se quase que totalmente ao fabrico de ração para o gado. É preciso ainda ressaltar o fato de que os problemas ecológicos devem ser pensados em escala mundial, pois afetam a todos, independentemente da nacionalidade, e não abordados numa perspectiva de conflito ricos vs. pobres.
Fora todas essas discussões e argumentos contra ou a favor da parcela de culpa humana no aquecimento global, causa profunda estranheza assistir às previsões do tempo na TV. Hoje mesmo no SPTV, como já pude observar várias outras vezes, Carlos Tramontina e a moça da previsão vibraram alegres e sorridentes com a estimativa de muito sol e temperatura acima dos 30°C no final de semana. "Tempo bom", segundo eles. Tempo bom?! Calor fortíssimo em pleno mês de abril, no outono? Como tanta gente, a dupla de apresentadores não atenta a pensar que algo deve estar errado, ainda que se considere o gosto pelo calor, comum em muitas pessoas. Tempo bom no outono certamente não pode estar associado a temperaturas altas, mas sim ao clima ameno e ao ventinho fresco da manhã e da noite, algo que há muito não se sente face ao comportamento climático alterado pelo aquecimento global. Quem não souber isso é porque não estudou Geografia direito, ou então é alienado mesmo.
Quando no mesmo dia de hoje eu voltava do trabalho por volta das 18h30, cansado e quase destruído pela horrível sensação que o calor me provoca, um advogado conhecido do bairro perguntou se eu não queria tomar uma cerveja num boteco sujo e que descarta lixo sem acondicionamento na calçada. Eu respondi "não, obrigado", e continuei meu caminho. Logo pensei: brasileiro, em geral, se regozija com calor, que combina com cerveja e boteco. Eu nasci no lugar errado, abomino calor e "breja". Bom seria estar a contemplar um fjorde norueguês, com temperaturas baixas e uma boa bebida quente.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Comoção, explicação sociológica e racionalidade do combate à violência


Uma tragédia macabra no Rio de Janeiro. Um episódio revoltante, bizarro, estarrecedor e incomum no Brasil. Tudo isso é verdade e a repercussão que o caso vem tendo não deixa de ser compreensível, mas é verdade também que muitas reações suscitadas pelo ataque de um maníaco fogem ao cerne da questão e geram um sensacionalismo patético, a começar por setores da imprensa que, já não é de hoje, se alimentam da desgraça.
O brasileiro tem um gosto quase genético em querer formular teorias que acabam se tornando mirabolantes quando utilizadas na explicação de acontecimentos que não se encaixam em esquemas sociologizantes. O que ocorreu na escola do Rio de Janeiro foi uma fatalidade que não poderia ter ser sido evitada. Caso típico no qual não cabe imputar falha ou responsabilidade a ninguém, nem mesmo sobre os colegas que supostamente submeteram Wellington Menezes de Oliveira a humilhações - o chamado bullying - num passado já distante, pois não se trata de culpa direta, nem de algo que determina necessariamente a produção de assassinos psicóticos.
Há aqueles que têm se aproveitado do caso para levantar temas como falta de segurança nos estabelecimentos de ensino, desvalorização do professor e da escola, perda de valores na sociedade atual e até mesmo irreligiosidade, desprezando completamente o fato de que a carta deixada pelo atirador antes do massacre contém forte teor religioso. Nada disso se aplica, uma vez que a tragédia tem muito mais a ver com uma patologia do indivíduo do que com qualquer fator de ordem social, embora seja possível estudar distúrbios mentais a partir de uma abordagem sociológica, porém, não é o que fazem os sensacionalistas. Nenhuma medida de segurança, por mais planejada e bem implantada que seja, é capaz de excluir a possibilidade de topar com um lunático a fim de matar quem estiver na sua frente. Não à toa, esse tipo de crime já aconteceu várias vezes em países cuja segurança é considerada muito boa.
Wellington escolheu um cenário óbvio para sua ação, uma vez que foi ex-aluno do colégio, ambiente que lhe provocava ressentimentos e atormentações. A escola, como local onde crianças e jovens se encontram para estudar e onde supõe-se que a chance de algo ruim acontecer é pequena, contribuiu para despertar comoção e revolta ainda maiores. Pode-se questionar o fato de um ex-aluno ter aparecido sem mais nem menos no local e adentrado o mesmo sem que ninguém tomasse satisfação junto a ele, contudo, de nada adiantaria. O assassino iria matar de qualquer jeito, se não fosse ontem, se não fosse no próprio colégio, seria em outro dia, em outro lugar. Alguém, independente de quem fosse, seria fatalmente vitimado pela fúria de Wellington, tipo de sujeito que não consegue suportar nem a si nem à realidade, que não sente emoção nenhuma diante do sofrimento alheio, diante da morte, que não possui freio algum perante os interditos reconhecidos por uma pessoa normal. Não vou entrar em discussões jurídicas, em relação às quais sou leigo, a respeito da inimputabilidade de um criminoso que, ao que tudo indica, sofria de perturbações mentais. O assassino está morto, melhor assim.
O episódio impressiona pela violência incomum, mas a violência corriqueira que faz parte do cotidiano do brasileiro torna muitas pessoas coniventes com atos agressivos menos impactantes, mas que produzem males maiores e mais recorrentes do que se observou em Realengo. A violência no Brasil registra números que remetem às guerras civis, nosso trânsito é o mais violento do mundo, seja pelos próprios acidentes, pelas brigas que se sucedem a eles, ou até mesmo sem eles. Há ainda a violência antropológica, aquela das facções uniformizadas nos estádios de futebol, a violência psicológica, resultado do já citado bullying, ou do assédio moral, a violência sexual ou contra a mulher em geral, a violência dentro das salas de aula na relação professor-aluno. A indignação contra essas violências do cotidiano é absolutamente tênue se comparada à que se observa quando da ocorrência de episódios mais impressionantes, bem como é difícil notar a ação das autoridades para coibí-las, aí sim de caráter propedêutico e passível de ser empreendida.
Em geral, as vítimas da violência são apenas números, exceto evidentemente para quem é próximo a elas. Sendo assim, o combate deveria focar no aspecto quantitativo, pois se estaria contribuindo para a diminuição do número das vítimas. É, nesse sentido, um utilitarismo válido, mas por um paradoxo da psique humana, as vozes costumam se ouvir de modo mais forte quando o crime assume brutalidade maior, nem sempre gerando tantas vítimas, até porque são crimes mais raros e pontuais. Em todo caso, parece se esquecer que vítimas são "apenas" vítimas, independente do crime, ainda que a punição deva ser mais acentuada conforme o tipo de crime. Além disso, combate é uma coisa, punição é outra, sendo que uma maior atenção à prevenção, quando pertinente, gera resultados bem melhores do que comoções compreensíveis, todavia inúteis e esquecidas relativamente rápido, ou tentativas mirabolantes e empoladas de explicar sociologicamente o que é da alçada das ciências da mente.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Porque a Donzela de Ferro é imortal


O Heavy Metal é um fenômeno que transcende o tempo, um estilo musical que se perpetua há mais de quarenta anos e que conquista uma crescente legião de seguidores leais à medida que esses anos passam, bem ao contrário do que um dia ousaram supor os profetas decadentes que se apressaram em anunciar a morte do gênero. Não é preciso dizer que muitos deles, como Rob Halford, depois de desprezarem a música pesada que praticavam, voltaram rápido e de rabinho entre as pernas para o cenário metálico. O Heavy Metal os perdoou, pobres mortais.
Mais fenomenal do que o próprio Heavy Metal, no entanto, é o Iron Maiden, banda que desde finais da década de 1970, portanto há cerca de 35 anos, levanta a bandeira daquilo que é mais tradicional e mais característico do gênero em questão: a técnica, a força, o peso, a melodia e a agressividade. Nenhuma banda do segmento consegue o mesmo sucesso que o sexteto inglês. A música pesada da Donzela atravessa gerações, sendo que hoje muitos pais e até mesmo alguns avôs veem seus filhos e netos curtindo a banda que eles começaram a ouvir desde os primórdios. Pude comprovar isso durante o show do Iron Maiden que tive o privilégio de acompanhar pessoalmente no último sábado (26/03), a terceira apresentação que os vi fazer ao vivo, depois de uma sofrida abstinência de 13 anos. Foi ao mesmo tempo surpreendente e emocionante observar duas garotinhas irmãs, ambas com idade não superior a 10 ou 11 anos chegando para o show devidamente trajadas com o indefectível Eddie em suas camisetas. Elas, que ainda estavam muito longe de nascer quando comecei a ter contato com a sonoridade maideniana, algo formador de certos aspectos da minha vivência, se mostram como prova viva do legado imortal da Donzela se materializando através do tempo. As duas garotinhas são o exemplo mais notório da imortalidade do Iron Maiden, mas apenas um dentre tantos outros, dada a quantidade de crianças e jovens adolescentes imunes às modas comerciais, supra-sumo da podridão musical enfiada goela abaixo pela alienação chamada MTV. Cenas gratificantes, reveladoras de que a cultura de boa qualidade não está totalmente perdida entre o público jovem. Grande revanche da música pesada, marginalizada e estigmatizada pelo mainstream, provando todavia que sobrevive muito bem sem ele ou, mais do que isso, sobrevive ainda mais poderosamente sem ele.
Mas como explicar o arrebatamento provocado pelo Iron Maiden? Ao que se deve este verdadeiro fenômeno metálico? Bruce Dickinson, com seu carisma, sua potência vocal, sua teatralidade no palco, sua interação praticamente como um elemento visível que o conecta à plateia? O líder Steve Harris, apólogo-mór do gênero, herói da autenticidade do Heavy Metal, um mestre da literatura no estilo, além, é claro, das proezas que executa com um baixo nas mãos? Dizem os magos sibaritas que os cavalos aprenderam a cavalgar escutando Harris tocar seu Fender Precision. O trio de guitarristas, responsável por tantos riffs criativos, solos de extrema perícia, melodia e feeling cativantes?; Dave Murray, cortando o ar com seus ligados afiadíssimos, Adrian Smith, preciso em cada nota, ambos extremamente técnicos, Janick Gers, nem tão técnico, mas dono da mais eletrizante performance de palco, capaz de levantar um defunto de seu sono eterno? Nicko Mc Brain, que massacra sua imensa bateria em perfeito compasso com o restante do grupo?
Não há dúvida de que a conjunção magistralmente erigida entre todos esses fatores positivos alça a Donzela a patamares só alcançáveis pelos monstros da música e por aqueles que exercem sua atividade com denodo e paixão, aspecto também completamente palpável no que se refere ao Iron Maiden. Competência técnica, carisma, criatividade e apreço profissional compõem uma parte da resposta, mas não toda ela. A banda nascida no East Side londrino tem o melhor marketing do Heavy Metal. Sim, marketing! Pode parecer estranho à primeira vista, porém, um exame atento e uma concepção de marketing isenta de preconceitos ideológicos completa o quadro. Para uma banda como o Iron Maiden o marketing não tem relação nenhuma com o fato de se vender continuamente aos ditames da moda, mas é exatamente o oposto disso. O marketing maideniano, tratado com todo cuidado pelo excelente empresário Rod Smallwood, explora exatamente as qualidades históricas da banda que a caracterizam desde sua origem. O som do Iron Maiden permance ligado às raízes da NWOBHM, se alterou ao longo da extensa carreira, é claro, - hoje tem vários elementos prog - mas mantém intactas aquelas características heavy que mencionei acima. É sempre importante lembrar que a Donzela chegou ao lugar que hoje ocupa porque se recusou a aderir ao punk que dava o tom do cenário Rock em fins dos anos 1970. Assim, a figura de Eddie marca presença constante nas capas dos discos de modo a tecer uma história do mascote, mais do que um desenho, um personagem que traz em si a expressão do poder do conjunto. Os fãs veem em Eddie o poder do Iron Maiden e o poder do qual eles mesmos se imbuem ao escutar o som produzido por Harris, Murray, Smith, Gers, Mc Brain e Dickinson. Assim também é que a Donzela lança no mercado tantos discos, DVD´s, camisetas, pôsters, calendários e outros itens de publicidade dotados de produção com o mais alto grau de qualidade. Tudo isso em plena era da MP3, formato que comprometeu seriamente a venda de produtos relacionados às bandas. O marketing do Iron Maiden, criativo e qualitativo, permite que seus materiais continuem seduzindo os fãs, estes que além de se deleitarem com a música da banda, são colecionadores de seu material.
A perpetuação, a lealdade e a renovação dos chamados maidenmaníacos é uma realidade observada in loco, fato que nos deixa em extremo otimismo com relação ao futuro ainda longo que a Donzela tem pela frente, banda que há muito já é imortal para a legião que sempre irá acompanhar e ouvir os acordes da Besta. “Iron Maiden gonna get you no matter how far!

sábado, 19 de março de 2011

Liberdade no âmago - um conto


A multidão fervilhava em uma mistura de ódio e pavor contido face à marcha inexorável que confirmava o cumprimento da profecia. Era cinco de maio de 1935, Kazyrin, do alto do palanque, ergueu a mão esquerda com o punho cerrado e vociferou execrações contra o lumpesinato. Os desviantes eram criaturas anti-históricas que seriam eliminadas pela própria necessidade da causa. A natureza, concebida pelos líderes ideológicos como palco das ações humanas, não lhes dava a mínima chance de continuar existindo.
No mesmo dia, a cerca de mil quilômetros de distância de Níjni Novgorod, a Waffen SS incursionava no pequeno vilarejo de Lauchhammer. No apertado sótão localizado na parte detrás do celeiro, encoberto por feixes de trigo, Schoppelmann improvisou um esconderijo para sua irmã mais nova, para ele próprio e para dois amigos da vizinhança. Os quatro eram jovens judeus-alemães, feitos órfãos pelo regime nazista. Conseguiram sair ilesos e, três meses depois, com a ajuda de uma professora da escola local, emigraram para a América.
A infância de Schoppelmann fôra das mais difíceis. Órfão já aos dez anos, passou a cuidar sozinho da irmã de cinco. Sempre esteve longe de ser popular na escola e suas amizades eram poucas. Às vezes tem-se a impressão de que as pessoas são escolhidas. O jovem garoto da região de Brandenburg soube desde cedo tirar proveito das agruras que a vida lhe impôs já em tão tenra idade.
Schpoppelmann era sério, carrancudo, não fazia concessões moralmente aviltantes, odiava o sucesso fácil e jamais se deixava levar pelas efusividades de fachada. Para ele, nada poderia ser mais revelador do que a interioridade humana, o mérito, não só pragmático, mas sobretudo moral, a humildade, a tolerância, a coragem, a justiça, a simplicidade e a boa fé sempre foram as virtudes que mais prezou, pois nelas, e só nelas, é que se pode encontrar os universais que perfazem o ser humano em sua completude, o próprio spoudaios aristotélico.
Schoppelmann dedicou o restante de sua vida aos estudos. Na América, se formou filósofo, lecionou em Princeton e deu palestras no mundo inteiro. Escreveu cerca de 45 livros, publicados em vários línguas, além de uma quantidade imensurável de artigos e ensaios. Os temas da interioridade humana e da liberdade individual, pilares do senso do dever e da responsabilidade, elementos que ele conhecia tão bem desde a infância, compuseram o norte de sua obra como grande humanista. Trabalhou incansavelmente em prol do que é mais nobre na experiência humana, inclusive em relação a qualquer forma de vida, a própria liberdade.
E quanto a Kazyrin? Bem, digamos que na prática nunca conseguiu realizar nada pelos outros, nada de positivo. Seu erro foi nunca ter deixado de lado o apego ferrenho à religião mundana cujos dogmas promovem a reificação de uma realidade paralela, transfigurada, ilusória e portanto, de impossível materialização. Acabou, de maneira previsível e fatal, apanhado por essas armadilhas tão típicas das ideologias paranóicas que só podem se alimentar do medo e da fabricação de culpados, aqueles que existem e são execrados para justificar a irrealização da causa no presente, bem como para manter a crença patológica de sua suposta materialização num futuro que, evidentemente, jamais chegará. Os inimigos da causa nunca deixarão de existir, do contrário, é a causa mesma que se torna extinta.
Schoppelmann sempre esteve atento aos universais intemporais. Schoppelmann vive por seu legado de liberdade. Kazyrin provou do próprio veneno, morreu pelas mãos dos assassinos ideológicos. Outrora, ele havia sido um deles. Hoje ninguém mais o conhece. A ideologia sobrevive e continua fazendo vítimas expiatórias. Por sorte, os homens podem contar, se assim o quiserem, com o bálsamo dos que sabem que nem tudo é possível.

domingo, 13 de março de 2011

O preconceito linguístico no Brasil


Uma das coisas mais estranhas que faz parte do universo mental das pessoas é a inclinação em travestir de certo aquilo que é logicamente errado. No Brasil, país onde o panorama intelectual está sempre retardado, o pensamento pós-moderno ainda insiste em deixar resquícios, o que provoca a grave confusão entre o certo e o errado também no campo da linguagem. Daí ocorre um desdobramento que, por sua vez, transforma em vanguarda algo absolutamente retrógrado e tacanha.
De acordo com o ceticismo relativista pós-moderno, a linguagem é uma criação da elite cujo objetivo é excluir as classes baixas da possibilidade de inserção no discurso. É isso, segundo tal ponto de vista, que provoca a cisão entre a norma culta da língua, que exige uma assimilação mais complexa e demorada, e as formas coloquiais de comunicação, mais simplificadas e que permitem, mesmo de maneira totalmente improvisada, a participação dos desprivilegiados no processo comunicativo. Esse improviso que tantos males é capaz de promover, em nada preocupa os pós-modernos.
Tal forma de ver as coisas não é apenas cruel e perigosa pelo equívoco intrínseco a ela, mas porque gera uma série de outras aberrações conceituais, acabando por distorcer a realidade até no âmbito moral. O efeito cascata advindo dessa salada mental corre sério risco de fomentar ódios, preconceitos e tornar inviável o bom convívio social.
Em primeiro lugar, cabe notar que a construção linguística não é um dado da natureza, mas sim um elemento cultural. Ninguém nasce sabendo a linguagem, ao contrário, ela é fruto de um aprendizado educacional que permite sua assimilação, até que um certo ponto desse trajeto de apropriação educacional é atingido e a partir do qual o usuário da língua passa a dominá-la na maioria de seus aspectos, sendo que daí em diante, resta somente aprimorá-la. Obviamente, se não fosse assim, se a língua fosse um dado natural, então não haveria a imensa variedade linguística que se observa nas populações humanas. O pensamento pós-moderno não consegue operar com o conceito de “usuário da língua”, exatamente porque não enxerga a construção socioeducacional da qual ele depende. Os pós-modernos acreditam que a linguagem é um elemento orgânico ex-nihilo, parecido, por exemplo, com a capacidade de ver ou de sentir odores, um sentido físico, por assim dizer. Evidentemente, trata-se de uma castração cultural que perde a noção da construção linguística. É curioso que o pensamento pós-moderno, em outros aspectos do entendimento, relacionados à psicologia do indivíduo, esqueçam a natureza humana onde, aí sim, a carga genética exerce grande grau de influência.
Além disso, a língua não pode ser admitida como um dado econômico-classista, pois isso cria um problema insolúvel de segregação. Temos aqui mais uma estultice do pensamento pós-moderno que, autoproclamado por seus representantes como uma inovação filosófica, logo se revela mero depositário do mais vulgar marxismo ortodoxo. Entender a construção linguística a partir do conceito de classe social só pode ser resultado de uma visão míope da história, que parece confundir cultura nacional com estratos sociais, dois conceitos antagônicos. Não conheço nenhum gramático rico, mas posso citar vários exemplos de celebridades acéfalas que fazem péssimo uso da linguagem e estão montadas em dinheiro.
A norma culta da língua consiste na expressão perfeita dela própria e existe, como não poderia deixar de ser, devido à necessidade da linguagem como instrumento comunicativo, coisa que muita gente não enxerga, assim como os números servem para contar. Vários gramáticos, linguistas e filósofos demonstraram com propriedade que a norma culta confere ao usuário da língua o conhecimento de uma gama rica e variada de vocábulos, indispensáveis à articulação de expressões verbais e à elaboração de frases compostas com clareza e inteligibilidade. O pensamento abstrato, vetor de operações mentais de interpretação, comparação, relação, dedução e indução, só pode ser expresso em norma culta, o que faz dela imprescindível para a posse de um bom repertório discursivo. A norma culta da língua é o terreno comum da comunicação, o pressuposto básico para que os cidadãos em geral tenham acesso ao uso da linguagem, o oposto da forma segregacionista e guetizante advogada pelo pós-modernismo, visão rasteira que parece acreditar que as pessoas mais pobres não sejam capazes de aprender e de utilizar a língua em seu potencial máximo. Se nem todo cidadão no Brasil tem oportunidade para se tornar bom usuário da língua culta, trata-se evidentemente de um problema que tem a ver com a educação, não com a linguagem em si. Não surpreende que em seus devaneios os pós-modernistas se mostrem avessos à educação, que segundo eles não contribuiria para resolver os problemas do país. O pós-modernismo mantém relação praticamente inexistente com a lógica e seus adeptos se contorcem em argumentação vazia e autoindulgente na tentativa de se mostrarem como alternativa de vanguarda em face dos problemas contemporâneos, mas em verdade, são facilmente desmascaráveis em filósofos charlatães e do tipo mais conservador que se possa ter.
Por fim, ao contrário do que querem os pseudopensadores dessa vertente,
no Brasil, país onde uma enorme parte da população é lamentavelmente formada por analfabetos funcionais, o preconceito linguístico se dirige exatamente no sentido oposto do que eles pensam, ou seja, as vítimas são aqueles que procuram usar a língua corretamente. Várias vezes me deparei com gente que costuma chamar de nerd e homossexual (com outro termo) quem fala e escreve como manda a norma culta, exemplo claro de que é o irracionalismo segregacionista, irresponsável e ignorante que gera preconceitos.
Num último apelo e num acesso desesperado de parco rousseauismo, os pós-modernos poderiam radicalizar e se manifestar em defesa de uma vida selvagem e desprovida de qualquer elemento de civilização, na qual então a linguagem como a conhecemos não seria mais necessária. Certo, deixemos os livros e brandemos os tacapes, ... Hobbes que nos acuda!