terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Apologia da razão


“Tenho o hábito de me considerar um racionalista; e um racionalista, suponho, deve ser alguém que deseja que os homens sejam racionais. Mas nos dias de hoje a racionalidade recebeu muitos golpes duros e, por isso, é difícil saber o que os seres humanos possam alcançar. A questão da definição da racionalidade possui dois lados, o teórico e o prático: o que é uma opinião racional? O que é uma conduta racional? O pragmatismo enfatiza a opinião irracional, e a psicanálise enfatiza a conduta irracional. Ambos levaram as pessoas a perceber que não existe um ideal de racionalidade com o qual a opinião e a conduta possam estar em conformidade de forma vantajosa. A consequência parece ser que, se eu e você tivermos opiniões diferentes, é inútil apelar para o argumento, ou buscar a arbitragem de uma terceira pessoa imparcial; não há nada que possamos disputar pelos métodos da retórica, da propaganda ou da guerra, segundo o grau de nossas forças financeiras e militares. Acredito que essa perspectiva seja bastante perigosa e, a longo prazo, fatal para a civilização.”
Foi com tais palavras que Bertrand Russell iniciou o ensaio “Pode o homem ser racional?”, escrito na década de 1920. Hoje, passados cerca de 85 anos desde então, há motivos de sobra para considerar que os tantos “golpes duros” sofridos pela racionalidade tenham aumentado exponencialmente em relação à época em que o filósofo inglês redigiu seu texto. Depois dos frankfurtianos e da escola pós moderna, que  parece ter dado seus primeiros passos ainda no século XIX, por meio de nomes como Nietzsche e Bergson, passando pelos inúmeros profetas da decadência do Ocidente no século XX, o irracionalismo abraça vorazmente tudo a seu alcance, cada vez mais. A picaretagem conquistou o mundo, segundo o dito de Francis Wheen, um racionalista que de resto, é marxista demais para o meu gosto.
Se alguma vez um pensador genuinamente iluminista do século XVIII afirmou ipsis litteris que acreditava no Progresso, com “P” maiúsculo, linear e constante, hoje é certo que ninguém mais advoga tal pensamento. Qualquer estudante de Ensino Médio com um mínimo de senso histórico pode notar que isso é falacioso. Se fosse esta a ideia a mover tantos ataques contra a razão, os racionalistas não precisariam estar preocupados, embora ainda possa haver um certo número de ingênuos ou preguiçosos intelectualmente que estabeleçam sua contrariedade ao racionalismo a partir desse viés. Na verdade, a dúvida desdenhosa em relação ao potencial libertador da razão encontra sua tese em interpretações equivocadas, tanto no que tange à própria filosofia racionalista, incluindo aí a aposta nos benefícios da ciência, como também em campos do conhecimento surgidos no século XX, tais como a psicanálise e a linguística.
É óbvio que nenhum racionalista defende o ponto de vista de que o homem possa atingir um grau de razão em cem por cento. Se não fosse o absurdo que isso já parece pressupor logo de cara, seria possível recorrer àquilo que muitas filosofias orientais (o exemplo é proposital...) ensinam há milênios, a saber, que o homem é imperfeito. O lado irracional da mente é inerente ao ser humano, o que o racionalismo propõe, são métodos para se lidar com esse aspecto, de modo a tentar atenuá-lo. Quando somos postos a pensar apenas  por alguns segundos, fica fácil observar que em nossas ações do cotidiano, que ocupam uma quantidade bastante significativa do tempo, nos orientamos com base nos signos da razão. Se você encontra um vazamento na pia de sua cozinha, irá buscar primeiramente contê-lo; tão logo tenha feito isso, o próximo passo será identificar a causa do problema, para então solucioná-lo a partir das técnicas conhecidas. Quando vamos preparar uma macarronada, uma lógica deve obrigatoriamente ser seguida, desde o tamanho do caldeirão a ser usado, passando pela fervura da água e acréscimo dos temperos, até a retirada do cozimento no ponto certo, para finalmente juntar ao macarrão, o molho e o queijo. Se os passos não forem obedecidos na ordem correta, lógica e racionalmente, certamente a fome terá que ser saciada com uma massaroca indigesta. Exemplos básicos do dia-a-dia em que a razão é fundamental. Poder-se-ia objetar essa argumentação dizendo que a vivência e a inter-relação entre as pessoas envolvem fatores de ordem muito mais complexa, nos quais a objetividade empregada nos exemplos anteriores acaba por não existir. Claramente isso é verdade, mas antes de considerar a objeção, cabe perceber, seguindo o próprio Russell, que “um grande defeito dos filósofos é preferir os grandes exemplos do que aqueles que se passam em nossa vida comum e no cotidiano”.  Uma vez mais fazendo valer a reflexão de Russell, é dever reconhecer que o pragmatismo subjetivista teve o mérito de notar que as crenças humanas são vagas e complexas, não apontam para fatos precisos e unívocos, mas para diversas regiões de fatos vagos e díspares. Tais crenças, portanto, ao contrário das proposições esquemáticas da lógica, não são opostos definidos como verdadeiro ou falso, mas sim uma névoa imprecisa de verdade e falsidade; possuem tons variados de cinza, nunca pretos ou brancos. Dessa forma, uma vez feito jus às descobertas importantes do pragmatismo, o problema é confundir crença com verdade, eximindo-se da busca científica e filosófica pela aproximação possível da verdade, corrigindo, ao menos em parte, a distorção provocada pelas opiniões humanas, permeadas por grande dose de paixão. Essa seria, a meu ver, a função das ciências humanas. Ainda voltarei a isso. Quando a ideia simplista de que tudo é opinião satisfaz um intelecto indolente, é impossível proceder a um ajuste amigável das diferenças. Acaso não seriam as guerras e os totalitarismos do século XX, frutos justamente dessa forma de pensar e agir, ao contrário do que tentam transmitir os irracionalistas, afirmando que a razão e a ciência conduziram a humanidade ao estágio atual? Conferir peso exagerado à subjetividade, seria, mutatis mutandis, incorrer no mesmo erro de um pseudo racionalista, que nada enxerga além de uma objetividade que só existe a seus próprios olhos.
A ciência é um dos alvos de ataque preferidos do irracionalismo. Os obscurantistas, como comecei a destacar já no parágrafo anterior, afirmam que o sonho de um futuro paradisíaco apregoado pelos racionalistas a partir da ciência, não passou de uma grande quimera, dado as catástrofes observadas em escala cada vez maior a partir do ano de 1914. Primeiramente, nenhum racionalista sério defendeu alguma vez que tenha sido, que a ciência, por si só, levaria o homem à felicidade plena. Aliás, essa meta parece cair como uma luva em várias filosofias narcisistas pós modernas. Um racionalista sabe bem que felicidade, em seu estágio consumado, é algo interno, produto de um trabalho mental-filosófico e individual, não mantendo relação com fatores externos, como a ciência. Em segundo lugar, a ciência é impessoal e amoral, suas descobertas intrínsecas não estão preocupadas com a aplicação de seus resultados. A ciência não é um deus que escolhe suas ações. A ciência se faz e se desenvolve a partir de métodos racionais, não indo além disso. O uso que dela se faz, é preciso entender, trata-se de uma questão humana, sujeita aos desmandos e paixões da subjetividade; nada garante que, por ser a ciência racional no que se refere aos seus métodos, seja racional também em suas aplicações. A ciência é uma criação humana e, quando utilizada para o bem, não há dúvida de que melhora acentuadamente e a cada minuto a vida das pessoas. De outro modo, quando mal utilizada, gerou e ainda gera prejuízos imensos. Quem faz a escolha não é a ciência, é o homem. O pragmatismo é incapaz de condenar aquilo que ele próprio critica, pois fica preso em sua armadilha. Como desaprovar escolhas se a argumentação racional jamais pode prevalecer sobre o nevoeiro das opiniões e das crenças?
Muitos pensadores pós modernos consideram que a psicanálise foi um campo do saber responsável por impor ao racionalismo uma derrota da qual ele jamais poderia se recuperar. A meu ver, essa ideia resulta de uma noção errônea sobre a psicanálise e sobre a filosofia racionalista. O racionalismo jamais desconsiderou a existência e a importância da dimensão irracional da mente humana. Se fosse o contrário, não haveria nenhum motivo para a busca da razão, já que ela não se faria necessária diante da inexistência de seu oposto. Exatamente por enxergar o irracional, a filosofia racionalista deseja que os homens sejam racionais, pelo menos, tanto quanto possível, para modificarmos um pouco a formulação de Russell. Não é diferente com a psicanálise. Quando Freud descobriu e analisou as pulsões destrutivas do homem, não pretendeu com isso transmitir a ideia de que fosse impossível se libertar desses fantasmas da mente. O que é a psicanálise senão a tentativa, racional, diga-se de passagem, de fornecer um antídoto contra as pulsões? Desde Freud, vários meios, psicológicos ou filosóficos, foram expostos e praticados na tentativa de lidar com a questão da perda da satisfação total. Há bons motivos para acreditar que os meios racionais são os mais bens sucedidos nessa empreitada. Álcool e drogas, por exemplo, são tentativas irracionais de se lidar com as agruras da mente. Irracionais porque os resultados são paliativos, isolam as pessoas, tornando cada vez mais difícil a convivência social e a manutenção de laços afetivos de amor ou amizade; contribuem apenas para um maior autocentramento, o que sabidamente agrava ainda mais distúrbios psíquicos como depressão e síndrome do pânico. Nesse sentido, as filosofias pós modernas são igualmente prejudiciais em relação às doenças típicas da contemporaneidade, uma vez que o hedonismo, traço marcante dessas vias de pensamento, ao superstimar a subjetividade, confere grande margem para o egoísmo, porta de entrada a muitos males da mente.
No campo da linguística, tem-se ao que parece, a maneira mais fácil de comprovar que os ataques do pós modernismo à razão constituem nada mais do que uma tentativa desesperada de justificar o impossível, ou seja, aquilo mesmo que a lógica e os argumentos desmistificam. Tornou-se comum ao longo do século XX o surgimento de filosofias e pensadores que, com base na interpretação dos signos da linguagem, ramo conhecido como semiótica, defenderam que qualquer tentativa de se chegar à verdade, ou mesmo de busca por probabilidade que possa tornar uma conclusão aceitável, esbarra impreterivelmente na textualidade e na subjetividade do autor do texto. Sendo assim, toda forma de apresentação de conclusões, descobertas, análises, ou seja lá o que for que se proponha a defender alguma ideia, é um discurso de poder, viciado pelo ponto de vista do autor. Essa ênfase na textualidade, logo de cara, descarta o fator ético como critério de validação de conclusões. Qualquer cientista sério deve ter compromisso com a verdade, mesmo que não chegue a ela, o fracasso nunca pode ser deliberado. Ainda que isso não bastasse e os pós modernos afirmassem que, mesmo preservando a ética, a subjetividade inconsciente impossibilite a descoberta de qualquer verdade ou probabilidade imparcial, há que se considerar que a aferição de uma conclusão é externa ao sujeito que a oferece. A experiência e a confrontação de descobertas e interpretações múltiplas pode sim, sem dúvida, tornar conclusões válidas, ou na pior das hipóteses, pode fazer com que uma boa dose de probabilidade praticamente seja capaz de desfazer hesitações. Como bem coloca o historiador Carlo Ginzburg ao pensar na pesquisa histórica especificamente, (ou nas Humanidades em geral, poderíamos dizer) corrigir a distorção de um documento, procurando indicar para que lado ou em que sentido essa distorção ocorre, já é uma atividade científica. Aqueles que dizem que história e literatura são a mesma coisa não possuem a menor noção de como atua um historiador, nem tampouco sabem alguma coisa sobre crítica documental. Seria ainda possível que os pós modernos defendessem que mesmo sendo a aferição externa ao sujeito, aqueles que aferem estão igualmente mergulhados na subjetividade, impedidos portanto de aferir imparcialmente. Os avanços da ciência e as descobertas que os próprios pós modernos desfrutam, servem para desmentir tal argumento, que pareceria absurdo até ao senso comum. Mais uma vez, torna-se complicado para um pós moderno argumentar em defesa de sua maneira de enxergar as coisas. O linguista e filósofo alemão Karl-Otto Apel foi lapidar quando formulou o conceito de autocontradição performativa, cilada que faz com que a filosofia subjetivista prove de seu veneno. Segundo Apel, uma vez que um cético pós moderno admita que nada há além de crenças parciais e contaminadas pela subjetividade, é necessariamente obrigado a negar aquilo que ele mesmo pensa, pois sua versão dos fatos não passa de um ponto de vista obscurecido pelo seu próprio achismo, não tendo validade alguma. Um pós moderno defende uma teoria e, quando a conclui, está implicitamente afirmando que tudo o que acaba de dizer é pura subjetividade.
O grande Russell, que me serviu de ponto de partida para essa reflexão, foi em toda sua vida, um otimista no que diz respeito às possibilidades de construir um mundo melhor a partir do racionalismo. Ele costumava dizer que se as pessoas fossem mais racionais, o mundo se tornaria um paraíso em relação ao que era, embora num certo momento, como deixa pressupor o excerto inicial, ele próprio tenha se desencantado um pouco. Hoje em dia, mesmo filósofos sérios como John Gray, zombam de Russell, atribuindo-lhe ingenuidade em sua esperança. Se esquecem que a maior parte de suas análises fori construída entre 1920 e 1965; quando se historiciza Russell e quando se atenta para o fato de que ele acreditava num mundo melhor em comparação àquele que ele viveu, não há ingenuidade alguma em seu otimismo. Se em certo sentido a humanidade está em situação pior do que há 70 ou 60 anos, isso não se deve a uma suposta falha do racionalismo, mas justamente ao crescimento dos irracionalismos. Eu, que me coloco como um seguidor de Russell, talvez seja menos otimista do que ele. Vivemos numa era em que o poder irracional dos meios de comunicação de massa e uma forma doentia de capitalismo que não exclui, mas coopta as massas de um modo absolutamente inadequado e imperfeito, além do crescimento assustador das filosofias subjetivistas, ameaçam seriamente as possibilidades de um racionalismo revigorado, muito mais do que a bárbarie do século XX, por serem muito menos explícitos. De outro modo, dentre muitos exemplos, considero absolutamente racional que nos dias de hoje o ser humano prescinda por completo do consumo de carne, o que traria benefícios ecológicos e espirituais de larga monta, assim como creio que conflitos devidos à particularidades culturais e religiosas poderiam ser resolvidos com base no diálogo racional, que não conhece pátria, credo, cor, ou seja lá qual tipo for de particularismo. Não vejo ingenuidade nisso. A razão é um atributo humano e universal, motivo pelo qual, apesar do pessimismo, ainda assim me inspirei a redigir esta apologia.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Indagações


Abaixo, a lista dos questionamentos que mais me perturbaram em 2009, de acordo com o que pude observar em relação àqueles que nelas estão envolvidos e/ou por meio de terceiros. Os meus comentários não têm a pretensão de serem respostas definitivas, são somente hipóteses, desabafos, perspectivas... Aí vai...

1. Como pode o atual presidente da República ter aprovação acima de 70% entre os brasileiros? Uma explicação plausível é que a propaganda autoritária vem sendo muitíssimo bem feita.

2. Por que Nietzsche, mesmo tendo responsabilidade indireta em regimes totalitários do século XX e na atual tendência de autocentramento das pessoas, especialmente jovens, é tão idolatrado, tendo até mesmo virado moda nos estudos acadêmicos? Não é de se surpreender que o narcisismo pós-moderno esteja cada vez mais forte.

3. Por que a maior parte da torcida do Palmeiras ainda coloca Marcos como um grande ídolo se o jogador, visivelmente fora de forma, defasado tecnicamente e psicologicamente desequilibrado, a todo momento soltando a língua para a imprensa e contribuindo repetidas vezes para desagregar o grupo, continua atuando por puro egoísmo e prejudicando o time? Ah, que saudade dos verdadeiros ídolos!

4. Até quando a diretoria do Palmeiras irá administrar o clube como se este fosse uma fabriqueta de macarrão, perpetuando todos os arcaísmos, mantendo a repetida falta de planejamento notada há décadas (exceto pelo período Parmalat), acreditando em lendas como o ex-treinador em atividade/manager Wanderley Luxemburgo e nos tantos jogadores de péssima qualidade contratados ano após ano, cometendo o absurdo de até hoje não ter um departamento de marketing decente, um programa de sócio-torcedor eficaz e categorias de base livres de interesses escusos? Acorda Palmeiras! E pensar que existem tantos torcedores iludidos que acham que gritar "porco" adianta algo. A culpa é desses também!

5. Como é possível que, chegando mais um verão, em pleno século XXI, as grandes cidades brasileiras como São Paulo ainda sofram com as enchentes? É óbvio que os rios, quando transbordam, apenas tomam o lugar de suas várzeas, outrora livres, hoje tomadas pela ocupação desplanejada e irregular. Nenhum político fala em obras de infraestrutura nesse sentido, pois não conferem visibilidade. A política se transformou em puro performismo (essa, uma constatação que vale também para a questão 1).

6. Por que muitas pessoas ainda insistem em comprar animais se tantos deles esperam para ser adotados nos abrigos e nos CCZ´s (ou vagando pelas ruas, é claro)? Animais não são mercadorias.

7. Por que muitos donos de cães ainda insistem em cruzá-los, fazendo proliferar o número de filhotes, potencialmente futuros animais abandonados, jogados à própria sorte, sujeitos ao sofrimento e à morte? Castração já!

8. Por que tantas pessoas encherão a pança com cadáveres nas festas de fim de ano, as custas de sofrimento, exploração, derramamento de sangue e morte? Olhem para um presépio e reflitam...

9. Até quando, sempre que um final de ano se aproxima, as pessoas irão manter enfadonhas promessas para o ano seguinte? E as ridículas superstições? Tudo por causa de uma virada no calendário! Fora isso, há ainda o costume cretino de usar fogos de artifício, responsáveis por tantos transtornos aos animais e acidentes com os próprios humanos. Mentalidade excessivamente festiva só faz mal.

10. Por fim, o que você espera de 2010? Eu não espero nada, pois como já frisei na questão 9, não é uma mudança de 31/12 para 01/01 que me faz esperar algo. O que eu espero, é poder a cada dia de minha vida agir segundo critérios justos e virtuosos. É preciso mais?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Heavy Metal: arte e cultura

That is not dead
Which can eternal lie
Yet with strange aeons
Even death may die - H. P. Lovecraft


Há cerca de dez anos, Greg Graffin, vocalista da banda punk Bad Religion, entrevistado pela revista Rock Brigade, declarava em tom apocalíptico que o fim do Heavy Metal estava próximo, pois, na sua visão, era um estilo musical absolutamente superficial. Um equívoco monumental, uma declaração extemporânea. Os anos 90 foram pródigos em tentativas sucessivas de derrubar o mais poderoso gênero musical do século XX, gente do próprio meio, tal como Rob Halford, vocal do Judas Priest, deu declarações semelhantes. No início da mesma década, o estilo grunge surgiu com força, fazendo estourar bandas como Nirvana e Pearl Jam. Apenas alguns anos mais tarde e um suicídio depois, o grunge havia morrido mais depressa do que apareceu. Ah sim, os fãs do Pearl Jam já irão colocar os dedos em riste e..., chega! O Pearl Jam é uma banda que nada representa na história da música.
Em 1999 a afirmação de Graffin já não condizia em nada com a realidade, não demoraria para que o próprio Halford voltasse ao Judas Priest, Bruce Dickinson havia lançado dois excelentes álbuns na companhia do excepcional Adrian Smith e, em abril daquele ano, ambos voltavam ao Iron Maiden. O lendário Black Sabbath se reunia novamente e tantas outras bandas históricas se colocavam com toda imponência no cenário, fazendo jorrar no mercado discos pesados e tecnicamente primorosos, como manda o bom Heavy Metal, além de porem pé na estrada e riffs no palco, estabelecendo memoráveis turnês, principalmente na Europa e na América do Sul. Os assassinos frustrados do Heavy Metal é que jaziam em suas covas, carcomidos impiedosamente, incautos que se mostraram. Após uma década, o poder hercúleo do Heavy Metal se revela mais intacto do que nunca. Os fãs são leais e a música imorredoura, pois não se rende às podridões e efemérides do mainstream pop contemporâneo e a perícia técnica da maioria dos músicos do estilo, algo que não acontece com o pop e com o que se pode chamar de "rockzinhos", é altíssima. Além disso, e esse é o fator principal, que contraria a declaração de Graffin, o Heavy Metal é um estilo profundo em sua arte.
O vocalista do Bad Religion apenas repetiu um chavão corrente entre muitos intelectuais de botequim, a saber, que a arte só tem valor enquanto mostra-se por meio de função sociológica. Lixo! Essa laia, escória das Humanidades, é incapaz de enxergar que a parte estética da arte é inerente a ela própria. A performance técnica dos músicos de Heavy Metal ocupa importante função entre os apreciadores do gênero, uma vez que a adrenalina descarregada quando da junção entre a própria música e os malabarismos executados por um Yngwie Malmsteen com sua Fender, ou por um Tommy Aldridge atrás de sua imensa bateria, faz com que muitos impulsos humanos sejam canalizados em direção ao elemento artístico. É possível, caso se queira assim, chamar isso de “função sociológica”, embora não seja preciso. Aqui, a expressão artística enquanto tal, se basta. Não se trata de parnasianismo, já me explico. Cabe antes destacar que a arte não precisa necessariamente vetorizar uma ação direta e prática, nem criar uma “consciência” mundana posta a serviço da sociedade. Isso soa ridículo. O punk sempre teve a pretensão de incitar ideologias políticas. Não me consta que tenha feito serviço algum nesse sentido, o mundo não se tornou mais politizado e nem mais justo por conta das letras de “protesto” do punk. Fora isso, o Heavy Metal não trata somente de dragões ou de idealizações da Idade Média (outro chavão), podendo inúmeras vezes conter letras mais voltadas para a temática política, histórica ou filosófica. Tem mais, isto é, não todos evidentemente, mas uma enorme parcela dos apreciadores de Heavy Metal, possui nível cultural acima da média.
Creio que já comecei a mostrar que o Heavy Metal está longe de ser um esteticismo parnasiano. Vale ir além e argumentar que o potencial do gênero para despertar, por exemplo, o gosto pela literatura ou pela história, é imenso. Nos anos 70 o Black Sabbath foi pioneiro na introdução da literatura macabra na música, remetendo às obras do mago Aleister Crowley e de H. P. Lovecraft. Um pouco mais tarde, os britânicos do Saxon utilizaram sagas medievais em suas composições. Nos anos 80, o Iron Maiden se aproveitou magistralmente de temas relacionados à ficção sombria de Edgar Allan Poe, da obra, também de ficção (científica) Dune, da poesia místico-romântica de Samuel Taylor Coleridge e de elementos históricos, traduzidos em figuras como Gêngis Khan, Alexandre, o Grande ou narrativas a respeito da Pré-História e da conquista do fogo. O Metallica (banda que não aprecio), recorreu novamente a H. P. Lovecraft, mestre da literatura-terror para dar título à faixa "The Call Of Cthulhu", (álbum Ride The Lightining - 1984) aludindo ao Necronomicon, obra máxima do escritor. O mesmo fizeram Mercyful Fate, Blue Oyster Cult, e os já citados Yngwie Malmsteen e Iron Maiden, entre outros. Manowar e Virgin Steele, também bandas oitentistas, são conhecidas por agregarem elementos da Antiguidade em suas músicas, tal qual se observa na faixa (do Manowar) que narra o combate de Heitor contra Pátroclo, bem como a morte deste na Guerra De Tróia, ou ainda a tragédia dos Átridas e o assassinato de Pompeu (Virgin Steele). No caso do Manowar, nota-se também a presença da mitologia nórdica nas faixas "Thor, The Powerhead", "Guyana," "Sign Of The Hammer" e tantas outras. A história Contemporânea igualmente marca presença, inaugurada pelo Running Wild quando conta epicamente a Batalha de Waterloo. Também aqui, uma vez mais, o destaque vai para o Iron Maiden, trazendo temática ligada à II Guerra Mundial no discurso de Churchill que serve de intro a "Aces High", nessa própria faixa, em "Two Minutes To Midnight" e em "Tailgunner", mencionando o Enola Gay e as bombas atômicas lançadas contra o Japão. Os exemplos abundam... Diante disso e considerando-se os gêneros musicais do século XX, apenas o Heavy Metal propicia um contato tão intenso com a alta cultura. Os sociólogos de plantão e os “graffins” não veem isso porque a relação, no caso, é mais complexa.
Deve-se frisar, por fim, que a cultura musical mainstream dos tempos atuais chega a ser tão pobre, que uma grande quantidade de pessoas não é capaz de notar as conexões do Heavy Metal com a música clássica, arregalando os olhos quando isso lhes é informado. Bach, Paganini, Tomaso Albinoni, Chopin, Beethoven, estão todos presentes nas composições para guitarra de nomes como o já mencionado Malmsteen, Vinnie Moore, Tony Macalpine, Borislav Mitic, Jason Becker e Eddie Van Halen. Só a argúcia técnica de tais guitarristas lhes permite emular e adaptar os gênios do Classicismo e do Barroco.
São óbvias, apesar de obscuras para tanta gente, as relações de parentesco e fonte de inspiração entre a alta cultura e o Heavy Metal. A sociologização fanática e rasteira não pode, evidentemente, dar conta de tal apreciação. Azar dos que assim pensam, podem promover suas análises desajeitadas, podem tentar matar o Heavy Metal, mas não se esqueçam que “não está morto quem vive eternamente”...