terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O partido que tenta se "limpar" com a própria sujeira


O ano de 2014 vai se encerrando, marcado, na política brasileira, por mais uma enxurrada de escândalos de corrupção envolvendo o (des)governo do PT. O Petrolão, evidentemente, é uma continuação do Mensalão, o que revela claramente o desmesurado objetivo petista de assaltar a máquina pública em todas a suas esferas para se perpetuar no poder. O ponto é esse, deve-se insistir, ou seja, se a corrupção não foi inventada pelo PT - e não foi mesmo, como bem se conhecem as histórias do Baixo Império Romano e de tantas outras cortes - adotá-la como método e como filosofia é sim uma estratégia sui generis do esquerdismo petista; assim, corromper vai muito além do desvio pontual de conduta a fim de obtenção de vantagens econômicas, pois é algo que se torna regra como modo de se alcançar, sobretudo, vantagens políticas. É exatamente isso que ainda requer entendimento aprofundado por parte da sociedade brasileira para que o PT, e não só ele, mas toda a organização esquerdista, sejam devidamente condenados e defenestrados.
O ministro petista Dias Toffoli declarou que os empresários privados são os principais beneficiários do Petrolão. Com isso, quis dar a entender que o mal não está instalado no Estado brasileiro. Ora, é uma análise absurda, uma vez que tenta esconder o simples fato de que os agentes corruptores estão instalados na esfera pública e que os corrompidos se favorecem de negócios escusos junto ao governo. O típico arranjo estatizante no qual o setor privado deixa de concorrer pelas vias de mercado, preferindo aliar-se aos "donos do poder", na expressão de Raymundo Faoro, é um péssimo hábito do socialismo. Isso porque as caixas de Pandora do BNDES e da Eletrobrás não foram abertas, pelo menos por enquanto...
A presidente Dilma Rousseff, em mais um de seus tantos discursos estapafúrdios, disse que as denúncias de corrupção não podem servir de pretexto para prejudicar as estatais. Tal fala, se já não fosse pelo absurdo do próprio conteúdo, é um acinte contra a sociedade brasileira, uma ridícula inversão da lógica, já que é justamente a corrupção que destrói as instituições nacionais.
A horda esquerdista, nela inclusos os militantes, os jornalistas vendidos e os intelectualóides procuram passar a ideia de que o PT combate a corrupção como nenhum outro partido ou governo anterior, daí exatamente a miríade de escândalos. Uma vez mais, prepondera a lógica de botequim: em primeiro lugar, desde o início das denúncias em 2005, o PT tenta desfazer o curso da realidade: ora a, corrupção é mera invenção da "mídia golpista" e da "zelite" (1), ora a cúpula do governo não sabia de nada (2), ora são apenas "coisas normais" que antes já se fazia (3). Os próceres petistas não podem sustentar as teses 1 e 2 ao mesmo tempo, pois não saber de nada não elimina a existência da corrupção; isoladamente, a tese 1 desmoronou tão logo as provas que culminaram no processo do Mensalão começaram a aparecer; a tese 2, ainda que contivesse um sopro de cabimento, ainda assim só serviria para indicar desatenção, irresponsabilidade e omissão por parte dos nomes mais importantes do governo; a tese 3 vai de encontro com o que expus no primeiro parágrafo e, ao contrário do efeito positivo que os adesistas do governo buscam conferir a ela, somente desnuda que o discurso petista enquanto oposição jamais passou de fachada. Na melhor das hipóteses, o PT seria igualzinho aos outros e, para quem tanto se gabava de ser o paladino único da ética e da transparência, agora está se contentando com muito pouco.
O PT não só não combate a corrupção, como tenta a todo momento varrê-la para baixo do tapete ou relativizá-la: além das três "justificativas" acima, continua tratando como heróis àqueles que foram condenados pela justiça, continua tentando calar a imprensa livre, elemento fundamental na investigação de tudo aquilo que se descobriu até hoje, tentou barrar o poder de investigação do Ministério Público, como também a CPI da Petrobrás. E nem é necessário lembrar que todas as denúncias até hoje partiram de dissidentes do petismo ou são fruto da delação premiada.
Há cerca de um mês foi publicado um artigo no jornal Folha de São Paulo que provocou euforia nos petistas e na esquerda em geral. Por motivos particulares, não vou entrar em detalhes sobre o mesmo. Por enquanto... De qualquer maneira, além de já ter sido categoricamente refutado devido à grande quantidade de inconsistências e contradições, seu conteúdo pode dar margem para incriminar o próprio autor. O PT faz sujeira e se "limpa" com ela...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O mágico poder da escuridão



"A cidade moderna praticamente desconhece a escuridão e o silêncio profundos, assim como o efeito de um lume solitário ou de uma voz distante". - Johan Huizinga, O outono da Idade Média

A última vez que pude observar o céu em sua plenitude, forrado de estrelas, foi em 2008, em Cambará do Sul (RS). A visão só ocorreu em virtude de eu estar em uma fazenda em local afastado e do fato da própria cidade ser pequena e desprovida de quantidade significativa de iluminação artificial, ou seja, o elemento propiciador foi a escuridão. Não só já faz um certo tempo, como constituiu uma das raras experiências desse tipo em se tratando de um sujeito moderno, o que comprova a apreciação de Huizinga.
Da Pré-História até o século XVIII, a observação dos astros foi responsável, ao mesmo tempo, por gerar distração e promover conhecimento ao ser humano. Antes mesmo do desenvolvimento científico se tornar mais sistemático no fim do período medieval e no Renascimento, muitos estudiosos antigos, tais quais Aristarco de Samos, Eratóstenes, Ptolomeu ou Abd al-Rahman al-Sufi já traziam contribuições notáveis no campo astronômico. As luzes das cidades e a poluição da era industrial, realidade que passou a dar a tônica da vida moderna há cerca de pouco mais de dois séculos, impediu que o céu continuasse sendo observado da mesma forma que outrora. Evidentemente, não estou tentando passar uma ideia anacrônica e contrária ao devir da história, pois seria utópico e inócuo imaginar uma volta ao passado pré-industrial. Tampouco se pode desprezar o avanço da Astronomia no mundo contemporâneo, tornado possível graças à tecnologia que permitiu descobertas e entendimentos precisos com os quais somente pouquíssimos homens de gênio à la Leonardo da Vinci poderiam vislumbrar em eras passadas. Trata-se apenas de pensar no completo afastamento, por parte das pessoas em geral, de determinadas situações que, uma vez experienciadas, poderiam tornar nossa vida mais rica. Isso é válido sobretudo porque as próprias atitudes do homem atual contribuem para que sua experiência de vida permaneça encerrada em certos limites, de algum modo, empobrecedores.
De cerca de vinte anos para cá, mais ou menos, com a progressiva verticalização de cidades como São Paulo, Campinas ou Rio de Janeiro, entre outras, a época do Natal tem feito com que a quantidade de luzes se torne ainda maior do que já é normalmente. Quem, por exemplo, de uma certa altura na janela de um prédio se ponha a olhar para o horizonte, terá diante das vistas um sem número de pisca-piscas, de várias cores, tamanhos e formatos. Andando pelas ruas, seja no comércio, ou nas próprias residências, encontra-se o mesmo. Há quem ache bonito e ajude a reproduzir esse efeito natalino contemporâneo. Eu mesmo, quando a prática começou a se tornar regra, confesso que me senti atraído pelos luminosos natalinos, mas agora, o extremo exagero tem me transmitido cada vez mais uma sensação de pastiche cafona. Além disso, o que é mais importante, aumenta as limitações quanto à atividade contemplativa em relação à escuridão e ao silêncio.
Em meio à infinitude de luzes regulares da cidade, realidade que, como já expus acima, se manifesta de modo inerente ao mundo de hoje, somam-se os efeitos sazonais de Natal. A tentativa de empreender um contraponto a esse quadro praticamente só pode se situar no âmbito do que nos restou, isto é, no plano de um exercício imaginativo - e um tanto quanto místico. Se desconsiderarmos algumas dúvidas históricas que pairam a respeito do nascimento de Jesus na manjedoura e da visita dos reis magos, seremos capazes de pensar que a fogueira acesa para aquecer o filho de José e Maria era o único ponto de luz em meio à escuridão, bem como o caminho de Baltazar, Gaspar e Melquior fora iluminado tão somente pelo luar e pelas estrelas.
O silêncio da noite é - ou pelos menos deveria ser - também um silêncio visual. As luzes do pensamento e da reflexão se intensificam à medida em que o breu exterior é mais profundo. Não há dúvida de que nós, modernos, somos extremamente carentes dessa experiência de escuridão e silêncio. Ainda que fosse apenas por algumas horas e até para que tivéssemos a oportunidade de pensar e refletir livres de todos os tipos de ruído, não seria interessante passar a noite de Natal, momento tão propício à quietude e ao desvendar da interioridade, sem o turbilhão ensurdecedor das luzes?

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O Palmeiras e as estruturas antimercadológicas do futebol brasileiro ou, qual futuro será escolhido?


Não sei se o Palmeiras será rebaixado na última rodada do Brasileiro 2014. A chance existe e não é pequena, muito maior do que qualquer cálculo probabilístico, em que o imponderável, típico do futebol, não atua. Em todo caso, escrevo antes do desfecho, seja da queda, seja da permanência na elite do futebol nacional.
Se o Palmeiras se mantiver na primeira divisão, a campanha horrorosa não será apagada, muito pelo contrário, pois o time terá alcançado a salvação no 16o. lugar, o primeiro fora do chamado Z4. Há quem tenha dito estes dias que se o Palmeiras escapar no próximo domingo, ainda assim deveria solicitar uma vaga na segunda divisão, dada a extrema ruindade de seu elenco. Esquecendo por um instante a paixão de torcedor, devo confessar que concordo plenamente com a ideia: uma instituição dona de tamanha tradição e história gloriosa não pode ter uma equipe tão abaixo da média, recheada por jogadores tão pernas de pau, comandada por um técnico fraco e paneleiro. Esse Palmeiras atual não merece a série A, a despeito dessa estar bem longe da excelência técnica.
Independente do resultado vindouro, no entanto, o que quero discutir vai bem além da mera consequência das péssimas administrações que têm marcado a história mais recente do alviverde. Todos sabem como a politicagem e os interesses escusos que imperam nas alamedas do Palestra Itália contribuem decisivamente para o atual estado de degeneração do futebol esmeraldino. Aos que agora têm investido sua fúria contra a modernidade futebolística de maneira indistinta, com relação a todos os aspectos dessa modernidade, pode-se inferir que aprovam as gestões dos Mustaphás e dos Belluzzos, exemplos claros de arcaísmo. Para quem nunca se sentou no cimento de uma arquibancada ou jamais precisou fugir de torcedores adversários na saída de um estádio, é fácil romantizar. Mas deixemos isso para lá...
O que considero bastante importante em termos de reflexão sobre o momento presente, não só do Palmeiras, mas do futebol brasileiro, está relacionado com o mercado, esse fator moderno que os populistas mencionados no artigo anterior tanto ojerizam. Foi surpreendentemente positivo observar Fábio Sormani dizer que o mercado não comporta três ou quatro times grandes com sede em uma mesma cidade, como é o caso da capital paulista. Os salários pagos a técnicos decadentes incapazes de entender as evoluções táticas dos últimos 15 ou 20 anos, bem como a jogadores, mesmo os medíocres ou abaixo disso, são pornográficos. Não há dinheiro suficiente para sustentar essa esbórnia. Por que chegou-se a tal ponto? Talvez porque o futebol tenha sido levado a sério mais do que deveria, atribuiu-se ao esporte mais significância do que ele possui. Muitas vinhetas televisivas tratando um jogo como se fosse uma guerra, muitos "analistas" discutindo o sexo dos anjos como se estivessem debatendo a respeito de metafísica kantiana. De tanto ser levado a sério, o tiro saiu pela culatra e o futebol brasileiro virou uma completa palhaçada. A meu ver, Paulo Nobre agiu corretamente quando instituiu o contrato por produtividade: jogador é funcionário do clube (que precisa ser pensado como empresa) e tem que receber de acordo com o que produz.
Hoje, em função da tragédia econômica causada pelo governo petista, o Brasil é um país que não atrai investimentos, menos ainda no futebol, tomado pela deficiência técnica, pelas cifras irreais e pelos desmandos da TV Globo. Quantias proibitivas continuam circulando, mas geralmente não estão atreladas a fatores como desempenho dentro de campo, tampouco são pagas de modo minimamente equitativo entre os clubes. Os patrocinadores fugiram quase completamente, exceto por parte de um banco estatal que investe dinheiro do contribuinte em entidades particulares. Trata-se de um quadro em que, na verdade, o mercado fica suplantado pelo poder político, com todos os interesses e disputas de poder que o mesmo traz a reboque. Capitalismo de Estado, nome mais pomposo para "socialismo".
Dos três clubes grandes sediados na cidade de São Paulo, um deles é o beneficiário dos esquemas de poder, aliado da politicagem e instrumento do pão e circo sem o qual o PT não teria fincado raízes na governança federal. Outro, é dono de uma riqueza patrimonial construída há várias décadas, mas que já não vem obtendo resultados tão satisfatórios nos últimos anos, ao contrário, as dívidas estão crescendo e os patrocinadores não têm dado as caras. Além disso, é uma instituição cuja torcida não pode ser considerada das mais apaixonadas nem está distribuída em âmbito nacional. O terceiro, é o Palmeiras, com sua torcida fanática, enorme consumidora de produtos oficiais, espalhada em várias regiões do Brasil como poucos clubes do país possuem.
O Palmeiras é uma instituição com potencial praticamente único no cenário nacional para galgar espaços de mercado até agora inexplorados pelos clubes brasileiros, em parte, devido à incompetência administrativa, caso em que o alviverde é exemplo característico, mas também porque as próprias estruturas futebolísticas tupiniquins são orientadas por diretrizes avessas ao mercado, como praticamente tudo no Brasil. Paulo Nobre terá o segundo mandato inteiro como presidente da SEP pela frente; terá que repensar inúmeros aspectos de sua gestão para o futebol do clube, área em que cometeu erros homéricos (não seriam fruto exatamente do arcaísmo que ainda vigora?), todavia, continua com a faca e o queijo na mão para ser pioneiro no sentido de estabelecer padrões administrativos voltados ao empreendedorismo esportivo e à eficiência de mercado, fatores salutares que a modernidade exige. É necessário valorizar a marca (e que potencial ela tem!), não apenas economizar, mas sobretudo ousar visando gerar novas receitas, criar estratégias agressivas de marketing, saber atrair investidores, enfim, gerir o clube como uma empresa - levar boutiques móveis em jogos fora da cidade de São Paulo, promover sessões de autógrafo com ídolos do passado nessas mesmas ocasiões, tornar mais atrativo o programa de sócio-torcedor, precificar os ingressos de acordo com a demanda das partidas, elaborar mais parcerias como no caso da Diletto, são apenas algumas das possibilidades que o clube tem ao seu dispor. As estruturas antimercado serão um obstáculo difícil de remover, contudo, é preciso começar de algum ponto. Ponto crucial para que o futebol brasileiro escolha pela modernidade mercadológica ou por outros 7x1...