terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Apologia da razão


“Tenho o hábito de me considerar um racionalista; e um racionalista, suponho, deve ser alguém que deseja que os homens sejam racionais. Mas nos dias de hoje a racionalidade recebeu muitos golpes duros e, por isso, é difícil saber o que os seres humanos possam alcançar. A questão da definição da racionalidade possui dois lados, o teórico e o prático: o que é uma opinião racional? O que é uma conduta racional? O pragmatismo enfatiza a opinião irracional, e a psicanálise enfatiza a conduta irracional. Ambos levaram as pessoas a perceber que não existe um ideal de racionalidade com o qual a opinião e a conduta possam estar em conformidade de forma vantajosa. A consequência parece ser que, se eu e você tivermos opiniões diferentes, é inútil apelar para o argumento, ou buscar a arbitragem de uma terceira pessoa imparcial; não há nada que possamos disputar pelos métodos da retórica, da propaganda ou da guerra, segundo o grau de nossas forças financeiras e militares. Acredito que essa perspectiva seja bastante perigosa e, a longo prazo, fatal para a civilização.”
Foi com tais palavras que Bertrand Russell iniciou o ensaio “Pode o homem ser racional?”, escrito na década de 1920. Hoje, passados cerca de 85 anos desde então, há motivos de sobra para considerar que os tantos “golpes duros” sofridos pela racionalidade tenham aumentado exponencialmente em relação à época em que o filósofo inglês redigiu seu texto. Depois dos frankfurtianos e da escola pós moderna, que  parece ter dado seus primeiros passos ainda no século XIX, por meio de nomes como Nietzsche e Bergson, passando pelos inúmeros profetas da decadência do Ocidente no século XX, o irracionalismo abraça vorazmente tudo a seu alcance, cada vez mais. A picaretagem conquistou o mundo, segundo o dito de Francis Wheen, um racionalista que de resto, é marxista demais para o meu gosto.
Se alguma vez um pensador genuinamente iluminista do século XVIII afirmou ipsis litteris que acreditava no Progresso, com “P” maiúsculo, linear e constante, hoje é certo que ninguém mais advoga tal pensamento. Qualquer estudante de Ensino Médio com um mínimo de senso histórico pode notar que isso é falacioso. Se fosse esta a ideia a mover tantos ataques contra a razão, os racionalistas não precisariam estar preocupados, embora ainda possa haver um certo número de ingênuos ou preguiçosos intelectualmente que estabeleçam sua contrariedade ao racionalismo a partir desse viés. Na verdade, a dúvida desdenhosa em relação ao potencial libertador da razão encontra sua tese em interpretações equivocadas, tanto no que tange à própria filosofia racionalista, incluindo aí a aposta nos benefícios da ciência, como também em campos do conhecimento surgidos no século XX, tais como a psicanálise e a linguística.
É óbvio que nenhum racionalista defende o ponto de vista de que o homem possa atingir um grau de razão em cem por cento. Se não fosse o absurdo que isso já parece pressupor logo de cara, seria possível recorrer àquilo que muitas filosofias orientais (o exemplo é proposital...) ensinam há milênios, a saber, que o homem é imperfeito. O lado irracional da mente é inerente ao ser humano, o que o racionalismo propõe, são métodos para se lidar com esse aspecto, de modo a tentar atenuá-lo. Quando somos postos a pensar apenas  por alguns segundos, fica fácil observar que em nossas ações do cotidiano, que ocupam uma quantidade bastante significativa do tempo, nos orientamos com base nos signos da razão. Se você encontra um vazamento na pia de sua cozinha, irá buscar primeiramente contê-lo; tão logo tenha feito isso, o próximo passo será identificar a causa do problema, para então solucioná-lo a partir das técnicas conhecidas. Quando vamos preparar uma macarronada, uma lógica deve obrigatoriamente ser seguida, desde o tamanho do caldeirão a ser usado, passando pela fervura da água e acréscimo dos temperos, até a retirada do cozimento no ponto certo, para finalmente juntar ao macarrão, o molho e o queijo. Se os passos não forem obedecidos na ordem correta, lógica e racionalmente, certamente a fome terá que ser saciada com uma massaroca indigesta. Exemplos básicos do dia-a-dia em que a razão é fundamental. Poder-se-ia objetar essa argumentação dizendo que a vivência e a inter-relação entre as pessoas envolvem fatores de ordem muito mais complexa, nos quais a objetividade empregada nos exemplos anteriores acaba por não existir. Claramente isso é verdade, mas antes de considerar a objeção, cabe perceber, seguindo o próprio Russell, que “um grande defeito dos filósofos é preferir os grandes exemplos do que aqueles que se passam em nossa vida comum e no cotidiano”.  Uma vez mais fazendo valer a reflexão de Russell, é dever reconhecer que o pragmatismo subjetivista teve o mérito de notar que as crenças humanas são vagas e complexas, não apontam para fatos precisos e unívocos, mas para diversas regiões de fatos vagos e díspares. Tais crenças, portanto, ao contrário das proposições esquemáticas da lógica, não são opostos definidos como verdadeiro ou falso, mas sim uma névoa imprecisa de verdade e falsidade; possuem tons variados de cinza, nunca pretos ou brancos. Dessa forma, uma vez feito jus às descobertas importantes do pragmatismo, o problema é confundir crença com verdade, eximindo-se da busca científica e filosófica pela aproximação possível da verdade, corrigindo, ao menos em parte, a distorção provocada pelas opiniões humanas, permeadas por grande dose de paixão. Essa seria, a meu ver, a função das ciências humanas. Ainda voltarei a isso. Quando a ideia simplista de que tudo é opinião satisfaz um intelecto indolente, é impossível proceder a um ajuste amigável das diferenças. Acaso não seriam as guerras e os totalitarismos do século XX, frutos justamente dessa forma de pensar e agir, ao contrário do que tentam transmitir os irracionalistas, afirmando que a razão e a ciência conduziram a humanidade ao estágio atual? Conferir peso exagerado à subjetividade, seria, mutatis mutandis, incorrer no mesmo erro de um pseudo racionalista, que nada enxerga além de uma objetividade que só existe a seus próprios olhos.
A ciência é um dos alvos de ataque preferidos do irracionalismo. Os obscurantistas, como comecei a destacar já no parágrafo anterior, afirmam que o sonho de um futuro paradisíaco apregoado pelos racionalistas a partir da ciência, não passou de uma grande quimera, dado as catástrofes observadas em escala cada vez maior a partir do ano de 1914. Primeiramente, nenhum racionalista sério defendeu alguma vez que tenha sido, que a ciência, por si só, levaria o homem à felicidade plena. Aliás, essa meta parece cair como uma luva em várias filosofias narcisistas pós modernas. Um racionalista sabe bem que felicidade, em seu estágio consumado, é algo interno, produto de um trabalho mental-filosófico e individual, não mantendo relação com fatores externos, como a ciência. Em segundo lugar, a ciência é impessoal e amoral, suas descobertas intrínsecas não estão preocupadas com a aplicação de seus resultados. A ciência não é um deus que escolhe suas ações. A ciência se faz e se desenvolve a partir de métodos racionais, não indo além disso. O uso que dela se faz, é preciso entender, trata-se de uma questão humana, sujeita aos desmandos e paixões da subjetividade; nada garante que, por ser a ciência racional no que se refere aos seus métodos, seja racional também em suas aplicações. A ciência é uma criação humana e, quando utilizada para o bem, não há dúvida de que melhora acentuadamente e a cada minuto a vida das pessoas. De outro modo, quando mal utilizada, gerou e ainda gera prejuízos imensos. Quem faz a escolha não é a ciência, é o homem. O pragmatismo é incapaz de condenar aquilo que ele próprio critica, pois fica preso em sua armadilha. Como desaprovar escolhas se a argumentação racional jamais pode prevalecer sobre o nevoeiro das opiniões e das crenças?
Muitos pensadores pós modernos consideram que a psicanálise foi um campo do saber responsável por impor ao racionalismo uma derrota da qual ele jamais poderia se recuperar. A meu ver, essa ideia resulta de uma noção errônea sobre a psicanálise e sobre a filosofia racionalista. O racionalismo jamais desconsiderou a existência e a importância da dimensão irracional da mente humana. Se fosse o contrário, não haveria nenhum motivo para a busca da razão, já que ela não se faria necessária diante da inexistência de seu oposto. Exatamente por enxergar o irracional, a filosofia racionalista deseja que os homens sejam racionais, pelo menos, tanto quanto possível, para modificarmos um pouco a formulação de Russell. Não é diferente com a psicanálise. Quando Freud descobriu e analisou as pulsões destrutivas do homem, não pretendeu com isso transmitir a ideia de que fosse impossível se libertar desses fantasmas da mente. O que é a psicanálise senão a tentativa, racional, diga-se de passagem, de fornecer um antídoto contra as pulsões? Desde Freud, vários meios, psicológicos ou filosóficos, foram expostos e praticados na tentativa de lidar com a questão da perda da satisfação total. Há bons motivos para acreditar que os meios racionais são os mais bens sucedidos nessa empreitada. Álcool e drogas, por exemplo, são tentativas irracionais de se lidar com as agruras da mente. Irracionais porque os resultados são paliativos, isolam as pessoas, tornando cada vez mais difícil a convivência social e a manutenção de laços afetivos de amor ou amizade; contribuem apenas para um maior autocentramento, o que sabidamente agrava ainda mais distúrbios psíquicos como depressão e síndrome do pânico. Nesse sentido, as filosofias pós modernas são igualmente prejudiciais em relação às doenças típicas da contemporaneidade, uma vez que o hedonismo, traço marcante dessas vias de pensamento, ao superstimar a subjetividade, confere grande margem para o egoísmo, porta de entrada a muitos males da mente.
No campo da linguística, tem-se ao que parece, a maneira mais fácil de comprovar que os ataques do pós modernismo à razão constituem nada mais do que uma tentativa desesperada de justificar o impossível, ou seja, aquilo mesmo que a lógica e os argumentos desmistificam. Tornou-se comum ao longo do século XX o surgimento de filosofias e pensadores que, com base na interpretação dos signos da linguagem, ramo conhecido como semiótica, defenderam que qualquer tentativa de se chegar à verdade, ou mesmo de busca por probabilidade que possa tornar uma conclusão aceitável, esbarra impreterivelmente na textualidade e na subjetividade do autor do texto. Sendo assim, toda forma de apresentação de conclusões, descobertas, análises, ou seja lá o que for que se proponha a defender alguma ideia, é um discurso de poder, viciado pelo ponto de vista do autor. Essa ênfase na textualidade, logo de cara, descarta o fator ético como critério de validação de conclusões. Qualquer cientista sério deve ter compromisso com a verdade, mesmo que não chegue a ela, o fracasso nunca pode ser deliberado. Ainda que isso não bastasse e os pós modernos afirmassem que, mesmo preservando a ética, a subjetividade inconsciente impossibilite a descoberta de qualquer verdade ou probabilidade imparcial, há que se considerar que a aferição de uma conclusão é externa ao sujeito que a oferece. A experiência e a confrontação de descobertas e interpretações múltiplas pode sim, sem dúvida, tornar conclusões válidas, ou na pior das hipóteses, pode fazer com que uma boa dose de probabilidade praticamente seja capaz de desfazer hesitações. Como bem coloca o historiador Carlo Ginzburg ao pensar na pesquisa histórica especificamente, (ou nas Humanidades em geral, poderíamos dizer) corrigir a distorção de um documento, procurando indicar para que lado ou em que sentido essa distorção ocorre, já é uma atividade científica. Aqueles que dizem que história e literatura são a mesma coisa não possuem a menor noção de como atua um historiador, nem tampouco sabem alguma coisa sobre crítica documental. Seria ainda possível que os pós modernos defendessem que mesmo sendo a aferição externa ao sujeito, aqueles que aferem estão igualmente mergulhados na subjetividade, impedidos portanto de aferir imparcialmente. Os avanços da ciência e as descobertas que os próprios pós modernos desfrutam, servem para desmentir tal argumento, que pareceria absurdo até ao senso comum. Mais uma vez, torna-se complicado para um pós moderno argumentar em defesa de sua maneira de enxergar as coisas. O linguista e filósofo alemão Karl-Otto Apel foi lapidar quando formulou o conceito de autocontradição performativa, cilada que faz com que a filosofia subjetivista prove de seu veneno. Segundo Apel, uma vez que um cético pós moderno admita que nada há além de crenças parciais e contaminadas pela subjetividade, é necessariamente obrigado a negar aquilo que ele mesmo pensa, pois sua versão dos fatos não passa de um ponto de vista obscurecido pelo seu próprio achismo, não tendo validade alguma. Um pós moderno defende uma teoria e, quando a conclui, está implicitamente afirmando que tudo o que acaba de dizer é pura subjetividade.
O grande Russell, que me serviu de ponto de partida para essa reflexão, foi em toda sua vida, um otimista no que diz respeito às possibilidades de construir um mundo melhor a partir do racionalismo. Ele costumava dizer que se as pessoas fossem mais racionais, o mundo se tornaria um paraíso em relação ao que era, embora num certo momento, como deixa pressupor o excerto inicial, ele próprio tenha se desencantado um pouco. Hoje em dia, mesmo filósofos sérios como John Gray, zombam de Russell, atribuindo-lhe ingenuidade em sua esperança. Se esquecem que a maior parte de suas análises fori construída entre 1920 e 1965; quando se historiciza Russell e quando se atenta para o fato de que ele acreditava num mundo melhor em comparação àquele que ele viveu, não há ingenuidade alguma em seu otimismo. Se em certo sentido a humanidade está em situação pior do que há 70 ou 60 anos, isso não se deve a uma suposta falha do racionalismo, mas justamente ao crescimento dos irracionalismos. Eu, que me coloco como um seguidor de Russell, talvez seja menos otimista do que ele. Vivemos numa era em que o poder irracional dos meios de comunicação de massa e uma forma doentia de capitalismo que não exclui, mas coopta as massas de um modo absolutamente inadequado e imperfeito, além do crescimento assustador das filosofias subjetivistas, ameaçam seriamente as possibilidades de um racionalismo revigorado, muito mais do que a bárbarie do século XX, por serem muito menos explícitos. De outro modo, dentre muitos exemplos, considero absolutamente racional que nos dias de hoje o ser humano prescinda por completo do consumo de carne, o que traria benefícios ecológicos e espirituais de larga monta, assim como creio que conflitos devidos à particularidades culturais e religiosas poderiam ser resolvidos com base no diálogo racional, que não conhece pátria, credo, cor, ou seja lá qual tipo for de particularismo. Não vejo ingenuidade nisso. A razão é um atributo humano e universal, motivo pelo qual, apesar do pessimismo, ainda assim me inspirei a redigir esta apologia.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Indagações


Abaixo, a lista dos questionamentos que mais me perturbaram em 2009, de acordo com o que pude observar em relação àqueles que nelas estão envolvidos e/ou por meio de terceiros. Os meus comentários não têm a pretensão de serem respostas definitivas, são somente hipóteses, desabafos, perspectivas... Aí vai...

1. Como pode o atual presidente da República ter aprovação acima de 70% entre os brasileiros? Uma explicação plausível é que a propaganda autoritária vem sendo muitíssimo bem feita.

2. Por que Nietzsche, mesmo tendo responsabilidade indireta em regimes totalitários do século XX e na atual tendência de autocentramento das pessoas, especialmente jovens, é tão idolatrado, tendo até mesmo virado moda nos estudos acadêmicos? Não é de se surpreender que o narcisismo pós-moderno esteja cada vez mais forte.

3. Por que a maior parte da torcida do Palmeiras ainda coloca Marcos como um grande ídolo se o jogador, visivelmente fora de forma, defasado tecnicamente e psicologicamente desequilibrado, a todo momento soltando a língua para a imprensa e contribuindo repetidas vezes para desagregar o grupo, continua atuando por puro egoísmo e prejudicando o time? Ah, que saudade dos verdadeiros ídolos!

4. Até quando a diretoria do Palmeiras irá administrar o clube como se este fosse uma fabriqueta de macarrão, perpetuando todos os arcaísmos, mantendo a repetida falta de planejamento notada há décadas (exceto pelo período Parmalat), acreditando em lendas como o ex-treinador em atividade/manager Wanderley Luxemburgo e nos tantos jogadores de péssima qualidade contratados ano após ano, cometendo o absurdo de até hoje não ter um departamento de marketing decente, um programa de sócio-torcedor eficaz e categorias de base livres de interesses escusos? Acorda Palmeiras! E pensar que existem tantos torcedores iludidos que acham que gritar "porco" adianta algo. A culpa é desses também!

5. Como é possível que, chegando mais um verão, em pleno século XXI, as grandes cidades brasileiras como São Paulo ainda sofram com as enchentes? É óbvio que os rios, quando transbordam, apenas tomam o lugar de suas várzeas, outrora livres, hoje tomadas pela ocupação desplanejada e irregular. Nenhum político fala em obras de infraestrutura nesse sentido, pois não conferem visibilidade. A política se transformou em puro performismo (essa, uma constatação que vale também para a questão 1).

6. Por que muitas pessoas ainda insistem em comprar animais se tantos deles esperam para ser adotados nos abrigos e nos CCZ´s (ou vagando pelas ruas, é claro)? Animais não são mercadorias.

7. Por que muitos donos de cães ainda insistem em cruzá-los, fazendo proliferar o número de filhotes, potencialmente futuros animais abandonados, jogados à própria sorte, sujeitos ao sofrimento e à morte? Castração já!

8. Por que tantas pessoas encherão a pança com cadáveres nas festas de fim de ano, as custas de sofrimento, exploração, derramamento de sangue e morte? Olhem para um presépio e reflitam...

9. Até quando, sempre que um final de ano se aproxima, as pessoas irão manter enfadonhas promessas para o ano seguinte? E as ridículas superstições? Tudo por causa de uma virada no calendário! Fora isso, há ainda o costume cretino de usar fogos de artifício, responsáveis por tantos transtornos aos animais e acidentes com os próprios humanos. Mentalidade excessivamente festiva só faz mal.

10. Por fim, o que você espera de 2010? Eu não espero nada, pois como já frisei na questão 9, não é uma mudança de 31/12 para 01/01 que me faz esperar algo. O que eu espero, é poder a cada dia de minha vida agir segundo critérios justos e virtuosos. É preciso mais?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Heavy Metal: arte e cultura

That is not dead
Which can eternal lie
Yet with strange aeons
Even death may die - H. P. Lovecraft


Há cerca de dez anos, Greg Graffin, vocalista da banda punk Bad Religion, entrevistado pela revista Rock Brigade, declarava em tom apocalíptico que o fim do Heavy Metal estava próximo, pois, na sua visão, era um estilo musical absolutamente superficial. Um equívoco monumental, uma declaração extemporânea. Os anos 90 foram pródigos em tentativas sucessivas de derrubar o mais poderoso gênero musical do século XX, gente do próprio meio, tal como Rob Halford, vocal do Judas Priest, deu declarações semelhantes. No início da mesma década, o estilo grunge surgiu com força, fazendo estourar bandas como Nirvana e Pearl Jam. Apenas alguns anos mais tarde e um suicídio depois, o grunge havia morrido mais depressa do que apareceu. Ah sim, os fãs do Pearl Jam já irão colocar os dedos em riste e..., chega! O Pearl Jam é uma banda que nada representa na história da música.
Em 1999 a afirmação de Graffin já não condizia em nada com a realidade, não demoraria para que o próprio Halford voltasse ao Judas Priest, Bruce Dickinson havia lançado dois excelentes álbuns na companhia do excepcional Adrian Smith e, em abril daquele ano, ambos voltavam ao Iron Maiden. O lendário Black Sabbath se reunia novamente e tantas outras bandas históricas se colocavam com toda imponência no cenário, fazendo jorrar no mercado discos pesados e tecnicamente primorosos, como manda o bom Heavy Metal, além de porem pé na estrada e riffs no palco, estabelecendo memoráveis turnês, principalmente na Europa e na América do Sul. Os assassinos frustrados do Heavy Metal é que jaziam em suas covas, carcomidos impiedosamente, incautos que se mostraram. Após uma década, o poder hercúleo do Heavy Metal se revela mais intacto do que nunca. Os fãs são leais e a música imorredoura, pois não se rende às podridões e efemérides do mainstream pop contemporâneo e a perícia técnica da maioria dos músicos do estilo, algo que não acontece com o pop e com o que se pode chamar de "rockzinhos", é altíssima. Além disso, e esse é o fator principal, que contraria a declaração de Graffin, o Heavy Metal é um estilo profundo em sua arte.
O vocalista do Bad Religion apenas repetiu um chavão corrente entre muitos intelectuais de botequim, a saber, que a arte só tem valor enquanto mostra-se por meio de função sociológica. Lixo! Essa laia, escória das Humanidades, é incapaz de enxergar que a parte estética da arte é inerente a ela própria. A performance técnica dos músicos de Heavy Metal ocupa importante função entre os apreciadores do gênero, uma vez que a adrenalina descarregada quando da junção entre a própria música e os malabarismos executados por um Yngwie Malmsteen com sua Fender, ou por um Tommy Aldridge atrás de sua imensa bateria, faz com que muitos impulsos humanos sejam canalizados em direção ao elemento artístico. É possível, caso se queira assim, chamar isso de “função sociológica”, embora não seja preciso. Aqui, a expressão artística enquanto tal, se basta. Não se trata de parnasianismo, já me explico. Cabe antes destacar que a arte não precisa necessariamente vetorizar uma ação direta e prática, nem criar uma “consciência” mundana posta a serviço da sociedade. Isso soa ridículo. O punk sempre teve a pretensão de incitar ideologias políticas. Não me consta que tenha feito serviço algum nesse sentido, o mundo não se tornou mais politizado e nem mais justo por conta das letras de “protesto” do punk. Fora isso, o Heavy Metal não trata somente de dragões ou de idealizações da Idade Média (outro chavão), podendo inúmeras vezes conter letras mais voltadas para a temática política, histórica ou filosófica. Tem mais, isto é, não todos evidentemente, mas uma enorme parcela dos apreciadores de Heavy Metal, possui nível cultural acima da média.
Creio que já comecei a mostrar que o Heavy Metal está longe de ser um esteticismo parnasiano. Vale ir além e argumentar que o potencial do gênero para despertar, por exemplo, o gosto pela literatura ou pela história, é imenso. Nos anos 70 o Black Sabbath foi pioneiro na introdução da literatura macabra na música, remetendo às obras do mago Aleister Crowley e de H. P. Lovecraft. Um pouco mais tarde, os britânicos do Saxon utilizaram sagas medievais em suas composições. Nos anos 80, o Iron Maiden se aproveitou magistralmente de temas relacionados à ficção sombria de Edgar Allan Poe, da obra, também de ficção (científica) Dune, da poesia místico-romântica de Samuel Taylor Coleridge e de elementos históricos, traduzidos em figuras como Gêngis Khan, Alexandre, o Grande ou narrativas a respeito da Pré-História e da conquista do fogo. O Metallica (banda que não aprecio), recorreu novamente a H. P. Lovecraft, mestre da literatura-terror para dar título à faixa "The Call Of Cthulhu", (álbum Ride The Lightining - 1984) aludindo ao Necronomicon, obra máxima do escritor. O mesmo fizeram Mercyful Fate, Blue Oyster Cult, e os já citados Yngwie Malmsteen e Iron Maiden, entre outros. Manowar e Virgin Steele, também bandas oitentistas, são conhecidas por agregarem elementos da Antiguidade em suas músicas, tal qual se observa na faixa (do Manowar) que narra o combate de Heitor contra Pátroclo, bem como a morte deste na Guerra De Tróia, ou ainda a tragédia dos Átridas e o assassinato de Pompeu (Virgin Steele). No caso do Manowar, nota-se também a presença da mitologia nórdica nas faixas "Thor, The Powerhead", "Guyana," "Sign Of The Hammer" e tantas outras. A história Contemporânea igualmente marca presença, inaugurada pelo Running Wild quando conta epicamente a Batalha de Waterloo. Também aqui, uma vez mais, o destaque vai para o Iron Maiden, trazendo temática ligada à II Guerra Mundial no discurso de Churchill que serve de intro a "Aces High", nessa própria faixa, em "Two Minutes To Midnight" e em "Tailgunner", mencionando o Enola Gay e as bombas atômicas lançadas contra o Japão. Os exemplos abundam... Diante disso e considerando-se os gêneros musicais do século XX, apenas o Heavy Metal propicia um contato tão intenso com a alta cultura. Os sociólogos de plantão e os “graffins” não veem isso porque a relação, no caso, é mais complexa.
Deve-se frisar, por fim, que a cultura musical mainstream dos tempos atuais chega a ser tão pobre, que uma grande quantidade de pessoas não é capaz de notar as conexões do Heavy Metal com a música clássica, arregalando os olhos quando isso lhes é informado. Bach, Paganini, Tomaso Albinoni, Chopin, Beethoven, estão todos presentes nas composições para guitarra de nomes como o já mencionado Malmsteen, Vinnie Moore, Tony Macalpine, Borislav Mitic, Jason Becker e Eddie Van Halen. Só a argúcia técnica de tais guitarristas lhes permite emular e adaptar os gênios do Classicismo e do Barroco.
São óbvias, apesar de obscuras para tanta gente, as relações de parentesco e fonte de inspiração entre a alta cultura e o Heavy Metal. A sociologização fanática e rasteira não pode, evidentemente, dar conta de tal apreciação. Azar dos que assim pensam, podem promover suas análises desajeitadas, podem tentar matar o Heavy Metal, mas não se esqueçam que “não está morto quem vive eternamente”...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O Brasil e o apagão


No último dia 10, uma queda de grandes proporções no fornecimento de energia se abateu sobre o Brasil. Segundo as informações do site Estadão, o apagão atingiu dezoito estados e fez com que cerca de 70 milhões de pessoas ficassem às escuras, mais da metade no estado de São Paulo, o centro econômico-financeiro do país.
Como quase sempre ocorre, as autoridades brasileiras prontamemte apontaram fenômenos naturais como causa do problema. Raios provenientes de uma tempestade teriam atingido uma estação de fornecimento no Paraná. É fácil afirmar tal coisa, de forma que se passa a suposta (e evidentemente falsa) noção de que ninguém pode ser responsabilizado, ou ao menos admitir que há falhas no fornecimento de energia no Brasil. A natureza é impessoal e malsã. Quem administra o país, foge da raia.
Não posso cravar que as causas não tenham sido naturais, entretanto, uma origem de tal monta não seria facilmente identificável? Duas semanas passadas desde o apagão e nenhuma autoridade respondeu coisa alguma. Outra questão: raios causarem um efeito tão acentuado no fornecimento de energia, não denota justamente que o sistema requer, no mínimo, manutenção? Pelo que se vê, as autoridades brasileiras não são capazes de reconhecer isso.
Após o problema, já adentrando na madrugada, descobri uma rara utilidade no rádio do celular, (como já coloquei neste espaço, tenho dó de quem depende de MP3) o único aparelho que naquele momento de blackout poderia trazer informações a respeito do que estava a se suceder. Decorridas aproximadamente duas horas do apagar das luzes, eis que ouço o ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, que é advogado e jornalista, sem a menor experiência em assuntos relacionados à sua pasta, alguém que só ocupa o cargo devido aos lobbies partidários que dominam a política brasileira, declarar em entrevista que a causa do problema havia sido na usina de Itaipu. Curiosa, a peremptória afirmação do ministro depois de duas horas. Se até hoje pouco foi esclarecido... Logo em seguida, o assessor de comunicação de Itaipu, Gilmar Piola, entrou ao vivo na rádio e disse que se a causa fosse em Itaipu, a energia não teria sido reestabelecida no Paraguai, o que já havia acontecido àquela altura. No dia seguinte, a hipótese de Piola se confirmava, desmentindo a afirmação do ministro.
Diante do apagão, afora os desencontros e incertezas, algumas colocações podem ser feitas. Em primeiro, evidencia-se o fato de que o Brasil é extremamente dependente de Itaipu. Um país de cerca de 194 milhões de habitantes que, não obstante o parco crescimento observado nas últimas décadas, demanda modernização urgente em seu sistema de fornecimento de energia, capaz de atender mais e melhor. Segundo, em tempos nos quais as questões relativas à natureza e à preservação dos ecossistemas se tornaram essenciais à qualidade e à continuidade da vida na Terra e das quais está atrelado mesmo o desenvolvimento econômico, (na contramão do contexto, Lula afirmou recentemente que não é possível o desenvolvimento sem devastação ambiental - é óbvio que ele está alheio ao que se vem fazendo na Coreia do Sul, na Holanda ou na Alemanha) é um aspecto lamentável que um país com tantas potencialidades naturais, cantadas em verso e prosa pelos próceres fossilizados do desenvolvimentismo trintista, mas pouquíssimo utilizadas hodiernamente, ainda dependa em alto grau de energia hidrelétrica, não-poluente, porém causadora de impacto ambiental em sua instalação e bem menos renovável do que se pensava há cerca de duas ou três décadas. E o investimento em energia solar e eólica? Um Brasil tropical e com várias áreas de incidência ventosa considerável, investir risivelmente nessas fontes alternativas e renováveis, é quase um crime. Isso, ao mesmo tempo em que o governo se desbunda com o pré-sal e com a Petrobrás. A reboque da segunda colocação, é absolutamente incompreensível notar que no início de 2009, a federação reduziu verbas para os ministérios das Minas e Energia e do Meio Ambiente. Nada poderia ser mais contraindicado no atual contexto! Por outro lado, o assistencialismo barato e inócuo continua a avançar. Tudo errado!
É por essas e outras que concordo integralmente com o jornalista Daniel Piza quando ele escreve “Porque não me ufano” ao responder com realismo as bravatas do presidente do “nunca antes na história desse país”. É a cara do Brasil.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Mais do mesmo. E o outro lado da moeda.

Escrevi há poucos dias sobre o caso Uniban e mostrei que, a meu ver, a aluna Geisy Villa Nova, apesar de ter dado, como se diz, sopa para o azar, foi a vítima do episódio em si. Isso parece óbvio.
Outro ponto que envolve a questão e que a faz ser analisada sob outro ângulo, é o fato da vítima estar se aproveitando do ocorrido para se autopromover debaixo dos holofotes da mídia. Geisy já recebeu convite para participar de filme pornô e para posar nua na Playboy. Deplorável!
Na atual sociedade de massas, contexto no qual, como bem destacou o crítico Lee Siegel em Against the Machine, a cultura já nem é feita mais para as massas, mas pelas massas, tudo se torna motivo para celebrização. Celebrização do grotesco, do ordinário, do mau gosto, daquilo que há de mais baixo na condição humana. O problema é que muitos caem nessa e defendem tais práticas, relutando em buscar os antídotos, que podem ser encontrados na alta cultura - nem seria preciso dizer que o que se entende por "alta cultura" é algo independente do fator econômico-classista; existe muita coisa valorosa na cultura popular de raiz. Todavia, devido à mediocridade intelectual e à incapacidade de sublimação diante das manifestações culturais mais herméticas ou que exigem mais da reflexão, da contemplação, que não são passivas de registro imediato e mais dependentes de um delay sensitivo e interpretativo, a alta cultura é tida pelos tipos comuns como chatice, já que exige esforço intelectual. Sinal dos tempos. Tudo que cai fácil no gosto das massas, vende bem e satisfaz de bate-pronto. Vai embora com a mesma facilidade, tornando quem é dependente, ávido por mais droga.
Quando finalizei o artigo de 12/11, coloquei que o pior no caso Uniban era o paradoxo da violência contra a mulher num país que costuma exaltar a coisificação do feminino. Também afirmei que muitas mulheres brasileiras, desatentas para o fato evidente de que a ideia da mulher-objeto pesa contra elas próprias, acabam em várias ocasiões contribuindo para perpetuar tal noção. Geisy Villa Nova o confirma categoricamente quando se expõe à mídia, aproveitando-se da execração sórdida da qual ela mesma foi vítima para tentar extrair disso algum proveito. Onde está o problema, poderiam perguntar alguns. Está simplesmente no absurdo de buscar se beneficiar a partir de um episódio que a tornou conhecida por meio de extrema violência, fazendo com que um ato covarde e criminoso possa adquirir status positivo na psicologia de uma sociedade massificada. A grosso modo, cai-se no chavão do "falem mal, mas falem de mim". Estar nos holofotes é o que importa, dane-se a perpetuação da imbecilidade, da violência, da coisificação da mulher... Quem cala consente, portanto, que ninguém que costuma compactuar com essas práticas, venha reclamar.

Pensando nisso tudo...
... cabe, a propósito, lembrar que o dia de hoje marca os 50 anos da morte de Heitor Villa-Lobos, ele que foi, sem sombra de dúvida, o melhor e maior músico e compositor da história do Brasil. A genialidade e o talento de Villa-Lobos lhe permitiram algo dificílimo, ou seja, a mescla entre elementos clássicos, historicamente estranhos ao universo musical brasileiro, e tipos sonoros característicos da natureza e da (alta) cultura local, também eles de complicada compatibilidade com o classicismo. Daí vem a obra ímpar deste artista monstruoso em sua capacidade e originalidade. Enquanto isso, a nefasta rede Globo promove um especial para homenagear Cazuza depois de 20 anos de sua morte. E assim vamos...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Desmesura

Conforme o tempo passa, sinto menos reconhecimento e identificação com o mundo em que vivo. Sinto tal impressão em vários episódios e situações, sejam aqueles, de duração mais curta, ou essas, mais afeitas à conjuntura.
Os acontecimentos recentes na Uniban me fizeram pensar uma vez mais na questão. Num programa de debates da MTV Brasil, o presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), que participava da mesa, afirmou que universidades do tipo possuem um caráter muito autoritário, pois encerradas em seu ranço mercantilista, criam das catracas para dentro, um mundo à parte, no qual os "fiscais de disciplina", os bedéis, vigiam os estudantes em cada passo, nem mesmo permitindo a existência de CA´s, grêmios ou jornais internos. Ele pode ter razão em parte do que disse, mas não creio ser esse o foco do problema. Não posso deixar de observar que uma tal colocação se prende ao economicismo rasteiro, típico de um presidente da UNE. O caso não ocorreu por ter sido no interior dos muros da Uniban, mas revela algo que se processa no próprio mundo em que vivemos, faz parte do modo de agir e da visão de mundo de inúmeros jovens de nossa sociedade. Não que estaria dando conta de uma boa análise sobre o tema, longe disso, mas teria sido bem mais simples se ele dissesse que o perfil de alguns alunos que frequentam universidades desse tipo, não é lá muito interessante. Exigiria mais coragem, logo, é mais fácil atacar a instituição, por sua impessoalidade.
Não vou discutir a qualidade do ensino na Uniban, já frequentei uma universidade análoga e a estrutura é péssima, apesar dos altos valores cobrados na mensalidade. Essas instituições praticam uma espécie tupiniquim de capitalismo de fundo de quintal. Não primam pelo aspecto qualitativo, previdente e de longo prazo, estando interessadas somente no lucro do dia seguinte, indo desde as próprias mensalidades, até o pirulito vendido na cantina. Repito, não é esse o foco, nem posso aceitar a ideia de que o caso de Geisy Villa Nova tenha se passado por conta de excesso de autoritarismo na Uniban, pelo contrário, pois se houvesse um zelo maior pela disciplina, o que não é justamente o caso de capitalistas dos trópicos, teriam conversado com a aluna no sentido de orientá-la a respeito da inadequação de seus trajes para um ambiente acadêmico, evitando que se chegasse aos absurdos subsequentes. O caso não foi uma consequência derivada das particularidades que desqualificam a Uniban em vários aspectos. Problemas mais graves do que esse, de outra ordem, mas com forte semelhança de fundo, já ocorreram nas mais conceituadas universidades do país. Os trotes violentos, sempre acontecem aqui ou ali, basta lembrar da morte do calouro de medicina da USP, Edison Tsung-Chi Hsueh, em 1999. Toda vez que me lembro desse rapaz e de sua família, me dá vontade de chorar.
É preciso deixar claro que o que se passou na Uniban, se deveu, repito, à doença das massas em nossa sociedade contemporânea. Vivemos num mundo de total e completa desmesura. Não há valores, não há virtudes, tem-se a noção inglória de que isso diz respeito aos tolos e caretas. Não há parâmetros para se julgar o certo e o errado, o que não possibilita referências para condenar aquilo que não é devido, que é atroz. Não existem limites, essenciais, para que a liberdade consciente possa ser estendida a todos. Talvez não haja nada mais distante do nosso mundo do que o elemento centrípeto da liberdade, tão bem conceitualizado por Irving Babbitt.
Nada havia de valor ou ideologia naquilo que Geisy sofreu, mesmo valores ou ideologias que pudessem ser qualificadas como as mais vis, injustas e cruéis. Um grupo de senhoras católicas extremamente radicais, se lhes fosse possível, poderia chegar ao ponto, se estivéssemos em outras eras, de queimar Geisy na fogueira. Horripilante, deplorável, decerto, mas ao menos por conta de uma concepção religiosa, de uma visão de mundo. Os estudantes que gritaram vitupérios, palavras obscenas e odiosas à Geisy, não possuem qualquer ideologia ou a mais tosca visão de mundo que seja. Estavam exercendo aquilo que os antropólogos conhecem bem e que pode-se denominar de "propensão à violência grupal em situações de exceção", ainda que essa exceção não fosse mais do que o vestido curto e o jeitão provocante da aluna ofendida. Os agressores, desprovidos de qualquer senso de polidez, ponderação, justiça ou tolerância, como tantas pessoas numa sociedade incapaz de julgar com propriedade e sensatez, porque desvirtuadas, agiam no mais cruento instinto selvagem hobbesiano. Sem dúvida nenhuma, Geisy teria sido estuprada se os agressores não fossem contidos. Os jovens não estavam condenando a vítima pela inadequação de seus trajes, mas colocando-se no direito de violentá-la por considerarem-na uma prostituta. Muitas pessoas de nosso mundo já não atribuem nenhum valor naquilo que elas próprias poderiam cultivar como suas próprias qualidades, quanto mais são capazes de enxergar qualificativos que façam incidir algum tipo de generosidade ou tolerância para com os outros.
Incrível ainda, o fato de que até mesmo mulheres estavam envolvidas na violência contra Geisy. É um paradoxo de causar o mais profundo espanto que num país que se gaba à exaustão dos atributos físicos de suas mulheres mais típicas, pessoas do sexo feminino tenham mantido uma postura tão execrável. Outro absurdo é que, de modo geral, as jovens brasileiras pouco notam os problemas que uma cultura tão voltada para a mulher-objeto possa trazer a elas próprias. Desmesura dos nossos tempos, será possível ao menos atenua-lá?!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O mito do Povo Feliz


De modo geral, como já cansei de destacar neste espaço, o brasileiro praticamente não possui senso da realidade. O brasileiro é festivo, adora o prazer fácil, mesmo que efêmero e o pior disso, é que confunde felicidade com prazer. É devido a essa visão das coisas, que muitos dentre nós costumam afirmar que "apesar de tudo, o Brasil é um país bom porque nosso povo é feliz". Em nome de uma suposta "felicidade", esquece-se o "tudo".
A felicidade, levando-se em conta uma análise filosófica do termo, e até mesmo científica, haja vista o avanço no campo da neurociência nos dias de hoje, é um estado da mente, um estado interior, subjetivo, que pouquíssimo mantém relação com dados da realidade externa. Não existe parâmetro definitivo e único para medir-se objetivamente a felicidade, não pelo menos no sentido mais comum do termo, que é justamente aquele que muitas pessoas querem fazer valer. Considerada essa colocação, quando se discute a respeito dos problemas de um país, o que interessa são os fatos passivos de quantificação e qualificação objetivas, tais quais o acesso ao lazer, à cultura, a renda per capita, as condições de saúde e educação. Não são necessariamente aspectos que determinam grau de felicidade, seja de indivíduos, muito menos de uma sociedade, e nem faz parte do escopo das ciências estatísticas aplicadas à análise social, medir a felicidade de uma nação, algo que seria impossível e inócuo.
Não há fundamento algum em afirmar que um país é bom porque seu povo é feliz. Trata-se de um equívoco grosseiro, próprio da mentalidade brasileira, que não diferencia, como já exposto, felicidade de prazer e que pouco domina a noção de que desenvolvimento e prosperidade são conceitos objetivos, assim como subdesenvolvimento, pobreza e miséria. Obviamente é possível ser feliz na pobreza e infeliz na riqueza, as religiões e algumas tradições filosóficas ensinam tal coisa, São Francisco de Assis e os estudos de Durkheim sobre o suicídio fornecem mostras convincentes que evidenciam as duas asserções. Isso serve para indicar que os problemas de um país nada têm que ver com a felicidade das pessoas. Que cada um seja feliz em seu estado particular de espírito. Existem aqueles que se sentem felizes sendo masoquistas, há os que "são felizes por serem católicos", já eu, sou feliz por ter a certeza de que as religiões são falácias fantasiosas e por prescindir totalmente de qualquer mensagem religiosa. Há os que são felizes por terem formado uma família, há os que preferem ser solteiros e felizes, existe também quem seja feliz com sua escolha profissional e com seu trabalho, há por outro lado, pessoas inteiramente insatisfeitas com a atividade que exercem, tal qual esse que vos escreve. Há exemplos infindáveis. Nada disso exime o cidadão de estar atento e de considerar as tantas mazelas que fazem parte do cotidiano desse país. É a velha noção do reconhecimento, por parte desse cidadão, de que ele possui responsabilidades e deveres. Do contrário, se fosse uma questão de "felicidade", o cidadão deixaria de lado sua condição pública e se tornaria um autômato autossuficiente, vivendo dentro de uma bolha apartada do mundo exterior. Lá dentro, ele poderia curtir sua felicidade. Muitas sociedades caíram ao longo da história justamente pelo fato de que as virtudes públicas foram jogadas para escanteio em nome do prazer privado. Foi assim na Grécia pós Guerra do Peloponeso, na Roma do Baixo Império ou, como no nosso caso, das democracias massificadas da contemporaneidade, perigo já apontado pelo grande Tocqueville.
Com tudo isso, não estou afirmando que outros países não têm problemas, pois todos eles os têm, em maior ou menor grau. O ser humano é imperfeito e, dessa forma, os problemas de uma sociedade são parte dela, independendo de serem os problemas do Brasil, da Holanda, da China... O que muda, é essencialmente a forma de encarar os problemas e o modo como são pensadas as possíveis soluções ou amenizações dos mesmos. Dar de ombros e desdenhar dos problemas não conduz à felicidade alguma e confundir festividade tola com desenvolvimento e prosperidade é próprio de uma visão de mundo irresponsável e fantasiosa.
Felicidade é um aspecto subjetivo. Problemas, soluções, desenvolvimento e prosperidade são dados objetivos, passíveis de análise social, pertencem ao coletivo de uma nação, não a um estado de espírito individual. O brasileiro é alheio à realidade, faz de conta que a corrupção na política, a guerra civil no Rio de Janeiro e em São Paulo, ou a nossa péssima educação não são com ele. Brasileiro quer "curtir", por isso estabeleceu-se entre nós o mito do Povo Feliz.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Anti-Brasil


O atual presidente da República é omisso, conivente, intelectualmente prejudicado, demagogo, populista, bravateiro, autoindulgente, politicamente anódino. Recentemente, em mais uma de suas sandices, declarou que o terrorista Ahmadhinejad, líder iraniano, tem direito de afirmar que o Holocausto não existiu. Como afirmou o brilhante jornalista Daniel Piza, essa afirmação é assombrosa, isso para dizer o mínimo. Seria o presidente brasileiro antissemita? Não duvido. Lula é a cara do Brasil, e eu não gosto do Brasil.
O Brasil é o país mais corrupto do mundo e, antes que algum patriota bobo diga que há corrupção em todo lugar, qualquer um que tenha lido rudimentos básicos de Filosofia, sabe disso. Acontece que aquilo que difere o Brasil dos países desenvolvidos é a lei. A lei pune corruptos. Brasileiro tem aversão à lei e, muitas e muitas vezes, não a cumpre. O brasileiro acha bonito ser malandro e a lei lhe tolhe a malandragem. Brasileiro é irresponsável.
Eu não aprecio grande parte da cultura brasileira. Não gosto de MPB e daquelas músicas mais faladas do que cantadas, daquelas letras pseudointeligentes, detesto samba e Carnaval (cabe destacar que o Carnaval brasileiro é uma distorção ridícula de tradições pagãs europeias).
O brasileiro se considera um povo alegre e hospitaleiro mas, devido à ignorância histórica que também lhe é típica, desconhece o fato de que a escravidão possuiu conotação estamental no país. O racismo no Brasil é velado. O brasileiro é acentuadamente acrítico e inculto, a maioria não leu uma das obras fundantes da historiografia local, Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda. Entre os que leram, muitos interpretam a teoria do "homem cordial" como se a mesma fizesse apologia da suposta alegria do povo verde e amarelo. Demência. O homem cordial é uma crítica mordaz do familismo, do fatalismo, da mentalidade arcaica, servil, antiliberal, antirracional, antimeritória, da preguiça, da falta de impessoalidade e da falta de distinção entre público e privado, traços característicos da sociedade brasileira. Eu sou a favor de tudo aquilo que não é comum no Brasil, portanto, nada mais óbvio do que eu não gostar nem um pouco do Brasil.
Sim, o brasileiro possui uma alegria. Alegria tola, afeita ao humor pobre e barato e que invariavelmente descamba em direção à baixaria e a um estado festivo da alma que não passa de pura falta de senso de realidade. Na última semana, enquanto uma parcela de brasileiros sérios trabalhava, uma horda de tolos e desocupados pulava nas areias de Copacabana para comemorar a escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos em 2016. É uma tristeza observar que este mísero país nunca é notícia internacional por motivos relacionados à ciência, tecnologia, arte, cultura ou educação. E o povo ainda festeja a farra do dinheiro público que aumentará ainda mais com Copa e Olimpíadas. A tolice e a alienação brasileiras são deploráveis.
O Brasil é o país dos impostos, possui a pior relação entre carga tributária-retorno ao cidadão na forma de benefícios. Essa situação revela claramente um Estado tentacular e um governo gastador, sobretudo com o PT no poder. Ainda se gastasse bem, vá lá, mas gasta pessimamente. Diante disso, é jocoso constatar que o país está cheio de marxistas extemporâneos, cuja paixão ideológica, absolutamente cega, os faz acreditar que FHC implantou o "neoliberalismo" no Brasil. Que grande piada! Como se não fosse todo o resto, que já obstaculiza qualquer tentativa de liberalismo nesse país, ainda por cima o Estado brasileiro tem o peso de um brontossauro. Belo liberalismo dos impostos...
O Brasil é um país tropical. O calor faz mal ao intelecto, causa moleza e torpor, faz o corpo transpirar e ficar cansado. O clima quente não favorece a aptidão pelo trabalho, nem o esforço, por outro lado, contribui com a devassidão, com a malemolência e com a vulgaridade. Ter orgulho do Brasil, por que?!
O Brasil tem inúmeras belezas naturais. O governo brasileiro até hoje investe mal em turismo. De que adianta? Antes os nossos prodígios da natureza estivessem em outro canto qualquer do mundo. Falando nisso, não posso deixar de salientar o fato de que por mais irreal, paranoica e tosca que tal ideia possa parecer, ainda há quem afirme que os EUA pensam que a Amazônia é dele. É para rir! Enquanto isso, a floresta é desmatada por madeireiras, garimpo e outras atividades clandestinas brasileiras (no governo petista, o desmatamento da Amazônia e de outros biomas alcançou níveis jamais notados anteriormente). Além disso, as FARC fungam nas fronteiras amazônicas e a Petrobrás leva um chute no traseiro do cocaleiro autoritário Evo Morales, que Lula tem como amigo...
O Palmeiras é um clube brasileiro. Encontrei algo do qual gosto no Brasil. A premissa não resiste a cinco segundos de reflexão. As origens do Palmeiras estão na Itália.
Não sou nada patriota e a essa altura é um truísmo escrever isso. Como sempre costumo colocar, sou habitante do planeta Terra e as fronteiras políticas não passam de invenções humanas pela sede de poder. Meu cosmopolitismo deriva de minha afinidade intelectual com o Iluminismo. Estou interessado em questões planetárias, como a ecologia ou a relação do Homem com o planeta e com as outras formas de vida. Que se dane o Brasil!
Durante o regime militar, autoritário, nacionalista e patriota, ficou famosa a máxima "Brasil, ame-o ou deixe-o!" Lanço aqui, um novo aforismo, "Brasil, não o amo, dê-me a oportunidade de deixá-lo!". Por fim, destaco o óbvio, isto é, não pedi para nascer nesse mísero país. Sou anti-Brasil e não abro!

sábado, 26 de setembro de 2009

Para que servem os comentários sobre arbitragem?

A resposta já pode ser dada de cara, isto é, servem apenas para fomentar discussões inúteis e acirrar desnecessariamente as rivalidades clubísticas.
Na última quarta feira, dia 23/09, Cruzeiro e Palmeiras fizeram o jogo isolado que completou a 25a. rodada do Brasileiro 2009. A partida foi transferida para o meio da semana a pedido da Rede Globo, emissora que presta péssimos serviços ao país. Como destacou o excelente jornalista Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, o erro já começou aí, pois foi um duelo envolvendo o líder do campeonato, com todas as atenções voltadas para ele, exibido por dois canais da TV aberta, um jogo que atraiu a máxima atenção, sendo que um erro da arbitragem daria margem para discussões infindáveis, como de fato aconteceu.
O árbitro Evandro Rogério Roman, que já havia cometido alguns equívocos gritantes ao apitar outros jogos do certame, inclusive errando absurdamente contra o próprio Palmeiras quando este enfrentou o Goiás no primeiro turno, foi acusado de não ter apitado vários pênaltis pró Cruzeiro. Segundo José Roberto Wright, da Globo, Oscar Roberto Godói, da Band e Renato Maurício Prado, da Sportv, que nem é do ramo da arbitragem, teria havido de 2 pênaltis para mais a favor da equipe estrelada. O último dos três senhores chegou ao ridículo de afirmar que se o árbitro quisesse, poderia ter marcado tranquilamente 5 ou 6 pênaltis. Nada leva a crer que uma tal opinião possa ser imparcial, uma vez que nenhum observador neutro em estado mental de sanidade seria capaz de endossá-la. Sou palmeirense, portanto tampouco sou neutro, porém, despindo-me ao máximo da paixão, posso afirmar que houve dois lances discutíveis, Jumar em cima de Fabrício, Figueroa em cima de Diego Renan. No primeiro, pênalti, no segundo, uma disputa onde ambos os jogadores se enroscam, sem que o lateral alviverde tenha prevalecido na suposta ação faltosa. Chega-se à ponderação de que o árbitro poderia no máximo ter apitado duas penalidades para o Cruzeiro, o que é bem diferente de 5 ou 6, sr. Renato.
Wright e Godói, quando analisam os lances, se colocam como donos da verdade, coisa que não são, nem de longe. Duvido que eles próprios marcassem 5 ou 6 pênaltis num jogo, ao que me consta jamais marcaram. Mesmo vendo e revendo a imagem trocentas vezes, recurso que o árbitro não possui dentro do gramado, a análise é interpretativa em vários casos. Depois que o lance não tem mais volta, não adianta e nem há motivo para ficar batendo na tecla, já que isso pode, dependendo do alarde que a discussão ganhar, condicionar a arbitragem nas rodadas seguintes. Não duvido que seja esse o objetivo de parte da imprensa com relação ao Palmeiras.
E por falar em alarde, jamais vi a imprensa esportiva abordar tanto o tema quando o time envolvido não é o Palmeiras, mais um motivo para pensar que as opiniões nem sempre sejam isentas. Por que não falaram nada quando o sr. Roman operou o Palmeiras em Goiânia? Por que se calaram quando o próprio Cruzeiro foi prejudicado pelo mesmo árbitro em partida contra o São Paulo, também nesse campeonato? Por que fizeram vistas grossas quando o time de Itaquera venceu o Inter graças a dois gols em impedimento e, na rodada seguinte, empatou com o Botafogo devido a erros monumentais de arbitragem a seu favor? É sabido que tanto Globo quanto Band são anti-Palmeiras e altamente tendenciosas em favor do rival da zona Leste. Onde fica o respeito para com a imensa torcida palestrina? Roman pegou considerável suspensão após o jogo. Estranho, porque só agora, apenas quando o suposto favorecido é o Palmeiras e depois desse árbitro já ter errado tanto? No mais, a CBF está distante de ser uma entidade que mereça crédito.
Avante Palmeiras, mesmo com muitos secando e fazendo de tudo para que o título não venha, mesmo com um elenco formado por tantos cabeças de bagre, a chance de título existe e a liderança vem sendo firmemente mantida!

Em discussões depois da partida, cheguei a escutar que houve 8 pênaltis para o Cruzeiro. Sandices do tipo exacerbam a rivalidade, fazem aumentar a violência, em nada contribuem com o esporte. É preciso que a imprensa esportiva pontue suas análises com base na isenção, é uma questão de ética e responsabilidade. Poucos são os veículos que agem assim. A imprensa esportiva no Brasil é sensacionalista e prostituta.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Republicanismo e ideias autoritárias na América Espanhola


A figura pomposa e as ideias apenas aparentemente louváveis de Simon Bolívar são presença mais do que constante nos livros didáticos de História e até de Geografia do Ensino Básico no Brasil, são obrigatórias, uma profissão de fé para cientistas humanos que permanecem ainda hoje centrando suas análises em paixões ideológicas, em conceitos ultrapassados e carentes de rigor científico. Nesses manuais, Bolívar aparece da maneira mais descarada possível como "o libertador", tornando a atuação histórica de homens como Sucre, O´Higgins e sobretudo San Martín, relegada ao plano do absoluto esquecimento. Não para por aí, sendo que o ideário do venezuelano é apresentado de modo a fazer o estudante entendê-lo como perfeitamente plausível, apenas não tendo logrado sucesso devido às forças de uma elite, a qual os autores nem se esforçam para qualificar por quem foi composta ou quais eram seus interesses, que inclusive - e obviamente essa é uma informação omitida - muitas vezes se assemelhavam muito aos do próprio Bolívar.
Fazer da América Espanhola uma só nação pós independente, a Gran Colômbia, nome em homenagem, vejam só os paradoxos da história, a Cristóvão Colombo, o europeu que primeiro pisou na América, ao menos considerando aquilo que é documentado. Esse foi o maior intento de Bolívar, ele que como todo criollo dos séculos XVIII e XIX, estudou na Europa e manteve contato com o pensamento iluminista. Quem enxerga a América Espanhola em toda sua diversidade, quem sabe esmiuçar a mentalidade política de Bolívar e quem principalmente conhece as possibilidades de florescimento de um sistema livre e republicano, logo vê que a ideia bolivariana jamais passou de megalomaníaca e autoritária.
O libertador da esquerda tradicional, na realidade, sempre se autoprojetou como um Napoleão dos trópicos, justo o corso, que na política, representou a negação dos ideais iluministas, inicialmente norteadores da Revolução Francesa. Os trajes militares e o cavalo branco, emulados do déspota europeu, não deixam enganar. Bolívar sempre manteve o claro objetivo de governar autoritariamente a Gran Colômbia e exercer seu despotismo sobre uma massa de gente inculta. O caudilhismo dos chefes locais suplantou o bolivarianismo, mas essa fragmentação do poder, apenas fez surgir filhotes do tirano-pai, não mudou tanta coisa, talvez tivesse sido ainda pior se ele conseguisse seu intento.
O argentino San Martín lutou tanto quanto Bolívar pela independência da América Espanhola, mas seu nome não tem merecido nem sequer mínimas menções em nossos manuais escolares. Ora, por que? A resposta é simples: as ideias de San Martín são contrárias ao marxismo das velhas esquerdas. San Martín fora um liberal-republicano e, ao comandar exércitos de libertação na América Espanhola, desejava que as terras livres pudessem fazer brotar verdadeiras repúblicas nas ex-colônias. Cedo ele notou que a sanha de poder de homens com o mesmo pensamento de Bolívar constituía obstáculo fortíssimo ao republicanismo democrático, além do que a própria ignorância política deixada por mais de três séculos de exploração, tornava pobre o solo da ideia liberal.
San Martín também estudou na Europa setecentista, captou com senso agudo os ensinamentos de Voltaire, Montesquieu, Condorcet, Kant e adquiriu o conhecimento de que sistemas livres nascem do seio da própria sociedade, dependem de uma cultura democrática, que se gesta lentamente nas mentes da população, requerem atuação política, separação entre público e privado, noção sofisticada de ética, gosto pela história, pela filosofia, pelas artes, tudo que infelizmente não se via na recém independente América Espanhola, contexto que serviu de prato cheio para líderes autoritários, entre os quais Bolívar foi só mais um. Diante de tal quadro social, San Martín lavou as mãos e, tendo cumprido o papel na luta pela independência, se retirou de cena e voltou à Europa. A glória pessoal e o poder definitivamente não lhe atraíam, afinal, era um liberal.
Hoje em dia, o maior herdeiro político de Bolívar só poderia mesmo ter surgido num país miserável como a Venezuela. Trata-se de Hugo Chávez, ditador e fanfarrão, cujas ideias vão na contramão do mundo moderno e da integração socioeconômica que a globalização requer. Oxalá o povo venezuelano continue bravo em sua luta pela liberdade do país. Está difícil, Chávez já até espalhou suas crias pelo continente, vide o cocaleiro-déspota Evo Morales, que em nada representa as etnias indígenas bolivianas.
A continuarem os estudantes latino-americanos sendo ensinados que Bolívar foi exemplo de ideário político, o continente permanecerá sofrendo da miséria. Já é mais do que hora de resgatar San Martín de seu exílio.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Alexis de Tocqueville: as múltiplas dimensões da história e a questão da igualdade


O ano de 2009 faz completar o sesquicentenário da morte de Alexis de Tocqueville, historiador, sociólogo, filósofo, jurista e moralista francês do século XIX, herdeiro da mais genuína tradição iluminista.
No Brasil, pelo menos até o momento, o fato não foi nem sequer minimamente comentado. Trivial, pois se até nos maiores centros de estudos de Humanidades, como a França, terra-mãe do próprio Tocqueville, ou a Inglaterra, o marxismo ainda predomina largarmente, o que dizer de um país no qual os estudos do tema somente ressoam o que ocorre no Velho Mundo? Justiça seja feita, a exceção fica por conta da editora Martins Fontes, que lançou edição atualizada de O Antigo Regime e a Revolução, um dos clássicos do autor.
Tocqueville, sua obra e todos aqueles que não têm receio em seguir suas ideias, são mal vistos em boa parte dos círculos acadêmicos das Humanidades, tudo, evidentemente, devido a preconceitos ideológicos. Sua origem nobre, apesar do berço nunca ter moldado seu intelecto, bem como o caráter liberal de sua obra, o tornam oposto ao marxismo e à concepção de história das esquerdas revolucionárias. Curiosamente, a grande maioria de seus detratores nunca leu nada de seus escritos, tendo ouvido falar dele apenas superficialmente, como um conservador. Teria acontecido comigo na própria graduação, não fossem a isenção e o conhecimento de professores como os grandes Ottaviano de Fiore e Alexandre Hecker. A ignorância em relação ao pensamento de Tocqueville é ainda normal, se considerado o fato de que os "revolucionários" nem mesmo leram a fundo aquilo que veio da pena do próprio Marx, quanto mais a daquele que é seu antípoda.
A comparação entre Tocqueville e Marx é sempre profícua, já que a despeito da enorme vantagem do segundo em relação à divulgação da obra, o poder de explicação imensamente superior do primeiro fica patente quando o assunto é o valor das reflexões de ambos. Enquanto Marx, possuído por sua visão progresso-cientificista e sustentado pelas verbas do burguês velado Engels, deu à história o peso de uma marcha pré-programada e unívoca, necessitando para tanto elaborar um esquema cheio de etapas simplistas e desprovidas das outras dimensões históricas que não a econômica, Tocqueville erigiu a linha mestra de suas ideias sempre estando presente no palco das ações humanas. Por um lado, como político na velha França, por outro, como pesquisador de campo - algo evidentemente raro na historiografia - na novíssima América da democracia moderna. Ao invés das tautologias classistas de Marx, que lhe fizeram pensar nos sujeitos históricos a partir de características unidimensionais, sem atentar para a noção de que a política, a cultura, a filosofia, a mentalidade, podem elas mesmas direcionar as relações de classe, Tocqueville, de forma bem mais clara e perspicaz, viu nos processos históricos da era Contemporânea o emergir de um elemento novo e comum: a igualdade.
A igualdade para Tocqueville é resultado de um processo histórico fruto da imbricação entre as várias dimensões históricas e os sujeitos históricos que perfazem a coletividade, também eles imbuídos e partícipes dessas dimensões. Não é um elemento inexorável, produto único e exclusivo de uma história que não é reconhecida pelo elemento humano, empreendida tão somente pelas forças meta-históricas da Economia, como para Marx, no que então ela não seria mais do que uma consequência da base material. Na obra de Tocqueville, a igualdade é gestada na história, passível de avanços e retrocessos, é uma tendência da modernidade, ratificada ou não de acordo com as variações na forma dos sujeitos sociais entenderem e atuarem sobre as dimensões históricas. Em Tocqueville, a igualdade não é uma situação forçada e a-histórica de condições a fortiori, uma igualdade de resultados, como nas reflexões marxianas, mas sim um desejável sinal de avanço social e histórico fruto da gestão inteligente dos problemas humanos em sociedade, por assim dizer, uma igualdade de oportunidades.
É de suma importância ressaltar que, segundo Tocqueville, a igualdade só é fecunda se acompanhada de liberdade, uma inteligente sutileza teórica do francês, observada por ele na prática, que nos leva a perceber que em sociedades adaptadas à modernidade, os interesses individuais se coadunam com os públicos. Já no caso de Marx, a liberdade só chega (na realidade não chega, mas sim a opressão da ditadura do partido único) após o banho de sangue da revolução, desfecho da necessidade pré-estabelecida da derrubada da "sociedade burguesa" e instauração do comunismo, típica aberração de uma teoria que perde de vista qualquer elemento de ética iluminista. Como já frisei em outra ocasião, Marx leu Hobbes, mas não aprendeu muita coisa. Marx não percebeu, assim como os marxistas não percebem, que o comunismo sempre descamba no próprio Leviatã hobbesiano, com a diferença importante de que na obra do inglês, o controle social tem uma base contratual, não revolucionária. O que garantiria a harmonia do estado sem classes se o primeiro impulso humano é a autopreservação? Marx é muito mais um romântico, fanático pelo lumpem e pelo anti-semitismo, do que um discípulo do Iluminismo.
Tanto Tocqueville como Marx foram homens do século XIX e, enquanto o primeiro observou a tendência da igualdade na contemporaneidade, o segundo previu o fim do capitalismo. Passado um século e meio desde então, não só o capitalismo mostra capacidade de renovação e, claramente, potencial para reduzir desigualdades, fato que qualquer um que não seja dominado por paixões ideológicas consegue notar, como também a teoria marxiana, invariavelmente quando tentada na prática, pariu os lênins, os stálins, os maos, os pol pots e os fidéis da história. Cada um que escolha quem foi o mais perspicaz...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A degeneração de um bairro tradicional

Estou com 32 anos de idade, contabilizo 25 como morador do bairro da Lapa, região Oeste da capital paulista. Mesmo nos períodos em que não residi no coração lapeano, frequentei o mesmo semanalmente.
Tenho história na Lapa, história que ela própria tanto possui, pois é um dos bairros mais antigos da pauliceia, produto da imigração italiana na segunda metade do século XIX, crescido e desenvolvido em um dos primeiros surtos de industrialização do Brasil, no início do século XX, momento no qual os lucros do café decaíram e passaram a ser investidos no setor secundário. Obviamente, as mudanças ocorridas desde então foram totais e a Lapa ganhou outra paisagem, outra condição, tornando-se um bairro que, a exemplo de vários outros da megalópole, adentraram junto com ela na modernidade, ainda que em países como o Brasil, esse processo tenha se dado da forma mais atropelada possível, sem o acompanhamento da melhoria na infraestrutura.
O que posso afirmar, conhecendo muito bem a Lapa, é que ela jamais esteve em uma situação de tão gritante abandono e degradação como se encontra no momento presente. Ao mesmo tempo em que observa-se a instalação de grandes empreendimentos imobiliários, - com tudo que trazem de negativo, ainda podem ser a solução - o bairro virou local de proliferação de prostíbulos da mais baixa categoria, antros de dar nojo, dos quais o cheiro de naftalina exala e se mistura ao ar já poluído da rua. Há alguns anos eles estão em funcionamento, denúncias feitas, fecham por algum período, mas voltam a abrir portas novamente. Onde estão as autoridades?
Não acaba por aí..., a quantidade de lixo depositado inadequadamente nas ruas lapeanas é de assustar. Há de todos os tipos, desde simples sacos colocados na rua fora do horário de coleta, passando por sujeira comum, - copinhos, papéis de bala, panfletos e afins, descartada por transeuntes inconsequentes e sujismundos que não são moradores do bairro, até entulho, sofá, restos de comida que provocam náusea ou mesmo o que sobrou de um velho portão, também ele permeado por histórias lapeanas de antanha. Uma imensa variedade de lixo, espalhada por todo o bairro, em cada via, em cada maltratado canteiro ao pé das árvores, o puro retrato do descaso e da total falta de respeito para com o cidadão-morador-contribuinte. Onde estão as autoridades?
Soninha Francine é a atual subprefeita do bairro, cargo que ocupa desde o início desse ano. De lá para cá, só houve piora na situação e me pergunto qual a relação de Soninha com a Lapa. Será que tem alguma? Recentemente, ela declarou que o salário de R$ 6 mil (!) que fatura para administrar a Lapa é uma brincadeira. A subprefeita poderia renunciar ao cargo e ficar apenas com as cifras polpudas que deve obter como comentarista esportiva na ESPN Brasil, algo que inclusive ela faz quase tão mal quanto administra o bairro. Ninguém de bom senso faz questão de sua gestão. Soninha pretende se candidatar ao governo do Estado... Soninha, o que você me diz sobre a situação da Lapa?
O panorama é triste e revoltante, a esperança é que alguém de mais capacidade administrativa possa, a algum momento, tomar as rédeas, se bem que a cada dia o ceticismo em relação a políticos competentes aumenta mais e mais. Tal esperança se assemelha a uma quimera. Talvez, os tantos empreendimentos imobiliários anteriormente citados, possam pressionar pelas urgentes providências, afinal, irá o comprador de tão alto poder aquisitivo conformar-se em residir num bairro francamente degenerado? Tudo é uma questão de cidadania...

domingo, 16 de agosto de 2009

Fragmentos da miséria intelectual brasileira

Os trechos abaixo foram extraídos de um fórum de discussão na Internet (Viciados em livros - isso tem um forte significado!), o qual, em um de seus tópicos, aborda os livros da escritora de temática teen, Sthephenie Meyer. A discussão teve início a partir de uma postagem que colocava em questão a qualidade da literatura de Meyer, tendo espraiado para temas paralelos ao longo do debate. O ideal é acompanhar a discussão por inteiro no próprio fórum (não vou postar o link aqui, mas basta acessar o Orkut e procurar pela comunidade Viciados em Livros e entrar no tópico "Stephenie Meyer, uma referencial?") para que o leitor possa tirar suas próprias conclusões. O que trago a seguir, é uma seleção de sentenças que, observe-se bem, pelo rumo tomado na discussão, revelam o perfil intelectual do brasileiro médio (preservei o texto original dos postantes). Ria, ou chore...

Ainda não podemos, em nossa própria voz, contrariar o público de Meyer, que ao meu ver são tantos, pelo fato de estarmos em um país desvalorizado quanto à literatura, e principalmente ao meio jovem; porém creio piamente que surgirão escritores com potencial de trazer aos jovens e adolescentes uma qualidade em romances de modo que se interessem mais tarde por escritores como William Shakespeare e Jane Austen. Ah, se lêssemos mais romances! - Esse é o criador do tópico, tentando transmitir uma ideia audaciosa através de uma escrita bem confusa. Note-se que ele tenta se imbuir de uma postura intelectual.

Eu mereço! - O primeiro post do tópico! (risos)

meu!!!
exite livros pra todos os gostos.. todos os estilos e pra todos momentos da vida de uma pessoa...
cada um é cada um...a maioria q leu Stephenie Meyer adorou.. e leu a serie toda!
por que nao???
muitos leem Stephenie e le classicos tbm. qual o preconceito???
o importante é ler algo.. ocupar a mente.. ativar a memoria .. a imaginação...
muito melhor do que ficar em frente da tv.. ou vendo bobeiras na net....
seja Stephenie ou Shakespeare!!!
cada um q cuide da sua vida!
cada um q escolha seus livros!!!

Adoro ler mas não gosto de ler clássicos, nem por isso me considero menos inteligente por isso.
Não li nenhum livro dela ainda, só comentários, mas acho que a gente deve ler aquilo que nos faz bem e se isso for Crepúsculo, que seja Viva la Vida.

Brasil nos faz ter esses pensamentos, bem compreensível. - Este é o criador do tópico. Ele foi bem...

Certamente a autora citada NÃO é um referencial, pois sua literatura passa longe, muito longe da qualidade dos clássicos. Não precisa nem de um clássico, se pensarmos em valores mais novos, como Philip Roth ou Milton Hatoum, Meyer parece uma anedota infantil. Tudo isso se levarmos em conta VALOR LITERÁRIO.
Por outro lado, por questões citadas ao longo do tópico, parece interessante que adolescentes se sintam atraídos pela leitura de Meyer. Como frisou um membro, fica difícil, de acordo com o atual estilo de vida e gostos do público dessa faixa etária, exigir que leiam literatura mais elaborada, sendo que nem o vocabulário deles pode ser qualificado de razoável. Vivo isso a cada dia, pois sou professor. Se os livros de Meyer despertarem algum gosto pela literatura, o que não deixa de ser possível, quem sabe os livros dela não estarão prestando um bom serviço? No mínimo, melhora-se o vocabulário, a escrita e a comunicação verbal. - Minha contribuição.

Acho que Mesk (criador do tópico) precisa aprender a escrever textos mais compreensíveis, sua crítica aos livros da Meier é uma bela amostra de pedantismo redacional e pseudointelectualidade literária. Ah, se tivessemos o hábito de escrever... nossos textos seriam mais claros! - Um membro que tentou dar toque mais sofisticado à discussão, embora eu não tenha concordado com ele em tudo.

E Paulo Coelho é outro que soube transformar suas experiências em livros populares, escrevendo de forma simples e atingindo as necessidades das pessoas de seu tempo. Com isso atraiu a ira dos pseudointelectuais. - O mesmo membro do post anterior. Ele foi mal...

Eu leio qualquer tipo de livro. Mesmo. Gostei da série Crepúsculo assim como gosto de vários outros livros que falam de coisas completamente diferentes. A Meyer soube escrever e acertar em cheio o tipo de leitura dos jovens de hoje em dia. Não que os jovens estejam certos em ler livros com histórias tão "banais", mas deixa a mulher escrever o que ela gosta e ganhar o dinheiro dela, ela não tá fazendo mal a ninguém. Simples assim. - Simples...

É popular porque alcança o povo, entendido como uma grande massa, mesmo que segmentada por faixa etária. Livros herméticos não alcançam o povo, só uma pequena classe de arrogantes pseudointelectuais. Esses pedantes só produzem obras-primas entre aspas, faltou colocá-las no post de ontem. Na verdade, são excrementos de literatura.

Só uma coisa óbvia, mas que nem sempre é entendida como tal, isto é, não é porque uma obra se torna best seller que isso faz dela algo de boa qualidade, pelo contrário, sobretudo no Brasil e na atual sociedade do espetáculo e da cultura de massa. - Minha contribuição, em resposta ao post anterior.

Meyer é ótima escritora porque conhece o gosto de seu público e sabe escrever como ele quer. Está plenamente sintonizada com seus leitores. É evidente que uma obra de Descartes não é desqualificada porque poucos conseguem ler. Também é fato que filósofos acham que só conseguem prestígio se escreverem de forma difícil, mas A Crítica da Razão Pura de Kant é obra fundamental da humanidade. O problema é esconder incompetência debaixo de linguagem pedante e falsa intelectualidade, coisa muito comum.

A acessibilidade, por si só, não garante qualidade, do contrário, o que pensar de um Pe. Antonio Vieira ou de um Alphonsus de Guimaraens?
Do mesmo modo, o rebuscamento, quando anódino, é uma lástima, vide pós-modernistas como Hayden White, Giles Deleuze, para não falar do superestimado Foucalt. - Eu, de novo.

Vorou papo de "intelectual" ... - Um dos membros, após verificar o rumo que a discussão vinha tomando...

Locke?
Descartes?
Maquiavel?
Kant?
Pe. Antonio Vieira? (de qual igreja?)
Alphonsus de Guimaraens? (que nome feio)
Quem são esses?
Acho melhor vocês lerem crepúsculo!
Melhor livro que eu já li em minha vida. - O mesmo membro do post anterior.

quem fica criticando qualquer escritor que seja, deveria escrever melhor e fazer mais sucesso que o alvo da ira.
Esse mundo é cheio de pseudos... pseudos sabedores de literatura, de cinema , de teatro. É gente que acha que só o que é clássico é bom... ou só o que ele gosta é bom. Tudo que cai no gosto popular é ruim...
Já faz tempos que certas coisas já deixaram de ser feitas só para os pseudos, elite etc e tals... hoje quem não escreve pra todo mundo ler, ou não faz filme-industria... I'm sorry... mas não vai conseguir ir muito longe não.
Graças a Deus, hoje em dia estão fazendo cultura e informação para todo mundo, para todos os gostos.
Se eu tivesse que me contentar em ler somente Locke, Kant, Maquiavel...leitura seria algo que não faria parte da minha vida e com certeza de GRANDE parte das pessoas!!!
Desde que desperte algum tipo de emoção: curiosidade, amor, ódio, tristeza, alegria seja Stephenie Meyer, Shakespeare, Carlos Drummond ou Paulo Coelho tudo tá valendo...depende do gosto de cada um. E feliz do que gosta de todos e não tem preconceito!!! - Eu não poderia ter escolhido outro excerto para encerrar o artigo! Lindo, não é mesmo?! É a cara do Brasil!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O peso dos dogmas e a libertação filosófica

A religião sempre foi e sempre será um assunto polêmico. Aqueles que se colocam como ateus, sofrem ainda hoje de forte preconceito, sem que a maioria dos crentes saiba que certas religiões não advogam a fé numa entidade criadora, primordial, onipotente e onisciente, com toda a contradição que esses dois últimos atributos implicam. Assim é o budismo, uma religião que está muito mais para a filosofia do que propriamente para uma questão de fé, daí minha inclinação e interesse pelos ensinamentos de Siddharta.
Religiões de revelação, tais como o cristianismo e o islamismo, me soam aterrorizantes, são autênticas prisões espirituais, uma vez que a carga de pecaminosidade que incide sobre o homem segundo seu corpo dogmático, não confere nenhuma possibilidade de construção espiritual ao crente. Resta a fé revelada e dogmática e aquele que não segui-la corretamente, está condenado à ira divina.
Essas religiões não servem às mentes inquisitivas, que buscam uma relação de interação com os mistérios, de forma que isso possa legar engrandecimento filosófico e espiritual. Deus, nas religiões reveladas, acaba se manifestando como um escape aos mistérios, uma entidade capaz de conceder o bem, caso o crente tenha uma postura de retidão religiosa. Já em caso da não obtenção da graça, fica o falso consolo de que "Ele sabe o que faz", "Ele quis assim", uma lógica perversa, pois Deus, por ser considerado acima de tudo, não permite a relação com nenhum mistério e, consequentemente, aquele engrandecimento filosófico espiritual inexiste. Assim, Deus é o próprio mistério. A mim não satisfaz, fica faltando algo.
Diferentemente da maior parte das tradicionais religiões de matriz judaico-cristã, o budismo traz consigo uma grande noção de responsabilidade individual, já que a pessoa deve procurar, a partir do diálogo com sua própria mente, a cessação, ou Nirvana, estado pelo qual se alcança a percepção da conexão de todas a formas de vida e, com isso, da impermanência e ao mesmo tempo da infinitude do Universo. É exatamente nesse sentido que a filosofia budista abre de modo inequívoco a possibilidade de engrandecimento espiritual. Ao contrário das religiões reveladas, o budismo ensina a busca da sabedoria, não fazendo pesar sobre ninguém pecados retroativos derivados de corpos dogmáticos que funcionam como tenebrosos sinais de alerta, sempre prontos a soar pelos "guardiões da fé".
O budismo não possui dogmas, apenas alguns princípios simples que auxiliam a fascinante jornada em direção ao Nirvana, dentre eles, o vegetarianismo, uma prática que, por preservar vidas, faz observar a conexão entre as criaturas sencientes e o consequente respeito pelas mesmas. É ainda por meio dessas práticas filosóficas que o budismo oferece uma relação muito mais saudável com os mistérios, porque nos ensina a não recuar diante deles, a não enquadrá-los em dogmas pré-fabricados, mas sim a encará-los com viés filosófico e espírito racional.
Experimentar o Nirvana é alcançar a mais perfeita e maravilhosa percepção de que somos todos uma única e grande entidade cósmica, é obter a compreensão de nossa finita existência individual, mas também de nossa infinitude enquanto partícipes de um processo de recriação que mantém o Universo. No momento mesmo em que se adquire a noção de que todo o Universo está interconectado numa flor ou num animal, seja ele um pequeno inseto ou um grandioso mamífero, o respeito à vida surge como consequência simples, clara e natural, respeito esse que nos responsabiliza pelo meio em que vivemos e que é parte íntima de nossa existência.