sexta-feira, 22 de maio de 2015

Você brasileiro, você cordial


As evidências de que a grande maioria do povo brasileiro não possui conhecimento cultural, tampouco nutre interesse pela alta cultura, são muitas. Algumas dessas evidências são facilmente verificáveis cotidianamente, bastando observar, por exemplo, o gosto musical ou os tipos de entretenimento que muitas pessoas buscam em nosso país. Outras, de caráter sutil, representam problemas bem mais graves quanto ao desenvolvimento das ideias em território tupiniquim, pois dizem respeito à baixa qualidade das universidades, ao doutrinarismo esquerdista e à preguiça intelectual, males que assolam, já não é de agora, uma grande parcela dos que são responsáveis pelos diversos níveis de ensino no Brasil. Aquelas são consequências, estas, são causas.
Uma amostra típica desse segundo tipo de demência intelectual brasileira ocorreu nesta semana, com a vinda do sociólogo de esquerda Manuel Castells para proferir uma série de palestras. Em uma delas, o tal se pôs a falar sobre "o mito da cordialidade brasileira". Não sei se esse cidadão tem audiência em seu país de origem, mas o fato é que o mesmo foi aclamado por aqui, tendo merecido alusão até de apresentador de programa esportivo (sintomático...). A zelite intelectualóide, por sua vez, mostrou sua costumeira efusividade de botequim com as palavras do sociólogo, para o qual é uma farsa a imagem simpática e benevolente do brasileiro. Uau, sério?!
Qualquer um cujo grau de idiotice não seja dos mais elevados sabe, faz tempo, que esse perfil é realmente falso, de vez que se trata de uma construção proveniente do mais rasteiro senso comum. O absurdo se manifesta quando um estudioso a quem são atribuídas todas as pompas do academicismo terceiro-mundista dá uma declaração banal como essa contando com os aplausos da plateia de sandeus amestrados que povoa as universidades do país. A idiotice no Brasil só cresce desde que a esquerda se tornou hegemônica nos círculos de propagação de ideias e opiniões...
Se uma observação recheada de banalidade fosse tudo, não estaríamos tão mal, mas a reverência que a acompanha serve para revelar, aí sim, um quadro lastimável. Quase oitenta anos após a publicação de Raízes do Brasil (1936), algo como sete ou oito entre dez indivíduos - isso porque esses se intitulam conhecedores de causa - não entendeu bulhufas sobre a análise de Sérgio Buarque de Holanda. Não existe mito nenhum em relação à cordialidade do brasileiro, pois, de fato, ele é cordial ao extremo. Quando comparada com outros estudos sociológicos, filosóficos e históricos (leia-se, por exemplo, um Gilberto Freyre, um Evaldo Cabral de Mello, um Olavo de Carvalho, ou um Bolívar Lamounier), ainda que determinadas atualizações se façam precisas, a argumentação de Holanda se mostra das mais convincentes. Quando trouxe à tona o tema da cordialidade, o autor de Raízes... jamais, em nenhum momento, quis dizer com isso que o brasileiro fosse marcado pela simpatia e pela bondade, traços que até podem existir aqui e acolá, mas teve como objetivo demonstrar que o povo de nosso país, em termos gerais, se carateriza pelos aspectos emotivos da personalidade, contrariamente à frieza racional das populações nórdicas e anglo-saxônicas. Ler Max Weber, estabelecendo perspectivas entre a questão da cordialidade com o catolicismo ibérico em contraposição ao protestantismo, também faria bem aos intelectualóides tupiniquins... Ora, a emotividade não é só simpatia e bondade, antes, e sobretudo nas relações profissionais, sociais (quando ampliadas além do círculo íntimo familiar), econômicas e éticas, facilmente ganha conotação prejudicial. O jeitinho, a malandragem, o improviso irresponsável, a preguiça, o orgulho vazio e a inveja são práticas e estados psicológicos diretamente derivados da cordialidade, elementos que tornam extremamente difícil o estabelecimento de relações racionais de impessoalidade, necessárias ao trabalho producente, à retidão profissional e ao trato ético no dia-a-dia. O que isso tudo tem a ver com simpatia e benevolência? Nada! A cordialidade (cordis, do latim = coração, emoção) é um mito? Só se for um mito que orienta fortemente a sociedade brasileira!
A própria violência, que se manifesta com cada vez mais intensidade no Brasil de hoje, é também ela um mal que guarda ligação com a cordialidade. Quando Castells afirma que a rotina violenta que tem vitimado o país é um dado que contraria o tema do homem cordial, ele confunde as bolas, como a maior parte dos nossos "entendidos". E por falar nisso, quando um bando de idiotas baixa as orelhas e aplaude um pretenso douto sem nem saber ao certo os motivos mais importantes, não estamos diante da ausência de crítica, também uma manifestação típica da cordialidade brasileira?