terça-feira, 15 de outubro de 2013

Chafurdando no foie gras


O sr. Nirlando Beirão é um jornalista que passa despercebido em todas as esferas, já que não contabiliza nenhum préstimo digno de nota em sua atividade profissional. Ele já circulou pelas redações de certos veículos de imprensa com orientações políticas e ideológicas bastante díspares entre si, o que talvez esteja na raiz do que possa ser apontado como um caso de alma fragmentária, deplorável defeito daqueles que, por desconhecimento, ausência de convicção ou intelecto reduzido, não são capazes de construir uma personalidade sólida e digna de respeito. Se não fosse por um artigo publicado a respeito do foie gras, o sr. Beirão continuaria no limbo da insignificância, mas uma vez que o destino inexorável dos meros escrevinhadores é se destacar apenas pela extrema negatividade, fui obrigado a lhe enviar uma resposta. Segue abaixo:


Devo afirmar que discordo integralmente de V.S.ª com relação ao artigo "Goela abaixo" publicado em O Estado de São Paulo neste domingo (13/10).
De fato, a legislação que proíbe a comercialização do foie gras não protege outros animais, todos eles vítimas de uma pecuária/avicultura e de uma indústria alimentícia cujas considerações éticas em relação aos mesmos se tornou absolutamente nula (basta um mínimo de informação e a leitura de certos autores como Jonathan Safran Foer para saber do que se trata). Contudo, mesmo se fosse de tal modo, o senhor estaria igualmente vociferando. Some-se a isso a constatação óbvia de que a produção do patê envolve uma crueldade ainda mais exacerbada do que comumente se nota nas demais formas de se obter alimento com a criação de animais.
Comer um fígado supersaturado de gordura, um fígado doente, produzido às custas de evidente artificialiadade e brutalidade vai bem além de uma questão de paladar. Liberdade? Seria mais digno, sem dúvida, se a abolição de modos alimentares selvagens e vetores de todo tipo de prejuízo individual e coletivo partisse de um exame de consciência por parte de cada um mas, a começar por suas ideias, é uma utopia das maiores. E não adianta o senhor apelar para artifícios retóricos e falsamente historicistas na tentativa de justificar que um animal seja submetido a extremos de crueldade, pois se formos lançar mão desse tipo de argumento, iremos elencar uma miríade de atos considerados normais em tal ou qual época e sociedade: o que o senhor pensa sobre canibalismo, ordálias ou execuções públicas? Tosco relativismo!
É curioso, inclusive, como o senhor manipula o relativo e o universal sem critério algum, chegando ao cúmulo do ridículo quando afirma ter "visto" gansos "felizes", inferindo tal interpretação a partir do instintivo grasnado desses animais. Ora, a partir de quais categorias chegou a essa conclusão? Categorias humanas desvinculadas da existência fisiológica dos gansos, revelando um argumento filosoficamente vazio. Seria o mesmo se um homem das cavernas visse a senhora sua mãe ou sua irmã sendo estupradas e daí concluísse que elas estivessem se sentindo felizes. Por outro lado, do ponto de vista biológico, já se sabe há um bom tempo que animais dotados de sistema nervoso estão sujeitos ao desconforto, ao medo e à dor, sendo que obviamente não se trata de eles estarem preocupados com o que nós sentimos em relação a eles próprios, mas da compaixão que é devida por nós aos seres sencientes, por uma questão de racionalidade, bom senso e nobreza de espírito, qualidades que devemos sempre almejar e praticar. E voltando ao tema da liberdade, cujo conceito o sr. usa tão mal (tome contato com a reflexão de Irving Babbitt a respeito da liberdade centrípeta e depois ouse refletir algo acerca disso), pesquisas no campo da psicologia e das neurociências têm apontado que seres humanos incapazes de um mínimo de sensibilidade para com os animais, geralmente não carregam a liberdade como valor.
A alimentação vegeteriana/vegana, muito mais rica, variada, econômica e ecologicamente viável e isenta de crueldade não precisa nem do bife do dia a dia, nem de outras nojeiras apontadas como "iguarias". Alimentação que carrega todas as recomendações possíveis, mas que é ridicularizada por formadores de opinião como o senhor, ou até mesmo por comerciais de cerveja dirigidos a jovens de mente vazia, desprovidos de cultura e valores morais.
Por fim, e não menos ridícula, foi a suposição de que o turismo gastronômico em São Paulo estaria ameaçado se legislação parecida se difundisse mais. Fique tranquilo, a proibição da "iguaria" é uma exceção. No mais, é puro preciosismo de um cidadão que parece viver em torre de marfim, chafurdando no foie gras, acreditar que a proibição de comercializar o execrável patê vá comprometer o turismo gastrônomico da metrópole. Problemas graves e que interferem de maneira decisiva na qualidade de vida dos sujeitos, como a péssima mobilidade urbana, a carência de áreas verdes, a poluição dos rios, a insegurança e a violência, estes sim atuam seriamente no comprometimento de qualquer tipo de turismo na cidade, não apenas o gastronômico.
Ao invés de escrever artigos dignos de pasquim, seria mais proveitoso se o sr. se dirigisse a um restaurante vegetariano indiano da região da Paulista para constatar que o mundo possui fronteiras mais amplas do que o limitado e pútrido universo do consumo de carne e derivados.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O micro e o macro da ilegalidade consentida


A ideia de ilegalidade consentida é cara à obra de pensadores liberais, no mundo e no Brasil, dentre os quais, nesse caso, José Osvaldo de Meira Penna merece ser citado nominalmente devido à qualidade e profundidade das reflexões do mesmo a respeito do tema. A tolerância com relação aos erros repetidos e deliberados é fruto de uma mentalidade histórica tipicamente brasileira que Meira Penna tão bem põe em discussão em muitos de seus escritos. Evidentemente, uma vez que se embrenham por paradigmas interpretativos de fundo mental, cultural e psicanalítico, os estudos do autor fogem completamente às simplificações e delírios esquerdistas, sendo por isso mesmo negligenciados dentro dos círculos intelectualóides.
A ilegalidade consentida pode ser notoriamente observada e experienciada no cotidiano brasileiro. Está presente nas relações de trabalho, entre pais e filhos, no trânsito, na política, na escola, ou em qualquer outro microcosmo. A tolerância com a ilegalidade e, mais do que isso, seu incentivo, embora já francamente latente desde os primórdios da colonização portuguesa, foi ganhando mais forte acentuação ao longo da história do Brasil à medida que certas escolas de pensamento, todas elas de algum modo direta ou indiretamente filiadas ao marxismo, passaram a atribuir a inobservância na maneira correta de agir a uma questão de inferioridade social ou resultado de esquemas de poder que, segundo tais cânones, podem ser desconstruídos a partir do relativismo moral. Quando se confronta a realidade atual do país com o sucesso logrado por esses esquemas de pensamento nas escolas, universidade e em enorme parte da imprensa, não há surpresa na verificação do estado lastimável em que nos encontramos.
Os condomínios residenciais, por reunirem uma considerável quantidade de pessoas, com diferentes formações, visões de mundo, valores, crenças e, em certos casos, até mesmo diferenças socioeconômicas, constituem locais privilegiados na ocorrência diária do fenômeno da ilegalidade consentida, microcosmo bastante adequado, portanto, para ilustrá-lo. Partindo do nível microscópico, torna-se mais fácil exemplificar e comprovar o problema da ilegalidade consentida como mais um aspecto negativo da brasilidade em sua esfera macroscópica, a esfera da "Grande Mãe", parafraseando o próprio Meira Penna. Assim, pais ausentes acreditam que os condôminos devem tolerar tudo aquilo que seus filhos fazem de errado: torneiras abertas no espaço comum, bate-bola em local indevido, correria no hall social, sujeira descartada fora das lixeiras, falta de cuidado com a grama e com o jardim, gritaria e por aí vai. O mau uso do espaço comum não é apanágio somente de crianças sem educação, mas também de adultos desrespeitosos que o tratam como sendo o espaço de ninguém ao invés do espaço de todos. Na entrada e saída da garagem, as normas de segurança são interpretadas como mera formalidade sem nenhuma importância: um condômino entra ou sai no vácuo de outro e jamais aciona o controle remoto para fechar o portão. Mesmo quando em seus espaços privados, em função da ampla dimensão do elemento de coletividade que a vida em condomínio implica, o vizinho é uma categoria inexistente, não havendo preocupação alguma em evitar ruídos fortes, nem mesmo em período noturno. Assim, morar em condomínio é um verdadeiro tour de force para aqueles que não compartilham da ilegalidade consentida.
Tolerar e incentivar o erro é algo que possui dois lados de uma mesma moeda: trata-se, concomitantemente, de uma prática e de uma visão de mundo, sendo que, quase sempre, a ação e a ideia são compartilhadas pelo sujeito que age. Quando se pensa especificamente a respeito da ideia, é possível notar a existência de um grande paradoxo: é corriqueira no âmbito do politicamente correto, também ele um mal disseminado entre o esquerdismo, a noção segundo a qual o individualismo é prejudicial. Já escrevi a respeito da confusão individualismo-egoísmo, quando ambos são tratados indistintamente. No discurso, as pessoas procuram repelir o individualismo sem terem a menor compreensão de seu sentido filosófico. Não querem ser individualistas, incapazes que são de entendê-lo, bem como permanecem imersos na ignorância em relação aos seus benefícios. Por outro lado, se revelam absolutamente egoístas, bastando observar como atuam nos espaços comuns e com relação às obrigações para com outrem, promovendo uma caótica superposição entre público e privado.
No Brasil, ao contrário do que sugerem a sobriedade e a resignação perante diversos aspectos ontológicos, fatores básicos de desenvolvimento, os direitos sempre aparecem antes dos deveres e, são tantos, que as responsabilidades que envolvem todas as relações sociais, ou seja, os próprios deveres, acabam esquecidos. É a cara do Brasil!