terça-feira, 8 de outubro de 2013

O micro e o macro da ilegalidade consentida


A ideia de ilegalidade consentida é cara à obra de pensadores liberais, no mundo e no Brasil, dentre os quais, nesse caso, José Osvaldo de Meira Penna merece ser citado nominalmente devido à qualidade e profundidade das reflexões do mesmo a respeito do tema. A tolerância com relação aos erros repetidos e deliberados é fruto de uma mentalidade histórica tipicamente brasileira que Meira Penna tão bem põe em discussão em muitos de seus escritos. Evidentemente, uma vez que se embrenham por paradigmas interpretativos de fundo mental, cultural e psicanalítico, os estudos do autor fogem completamente às simplificações e delírios esquerdistas, sendo por isso mesmo negligenciados dentro dos círculos intelectualóides.
A ilegalidade consentida pode ser notoriamente observada e experienciada no cotidiano brasileiro. Está presente nas relações de trabalho, entre pais e filhos, no trânsito, na política, na escola, ou em qualquer outro microcosmo. A tolerância com a ilegalidade e, mais do que isso, seu incentivo, embora já francamente latente desde os primórdios da colonização portuguesa, foi ganhando mais forte acentuação ao longo da história do Brasil à medida que certas escolas de pensamento, todas elas de algum modo direta ou indiretamente filiadas ao marxismo, passaram a atribuir a inobservância na maneira correta de agir a uma questão de inferioridade social ou resultado de esquemas de poder que, segundo tais cânones, podem ser desconstruídos a partir do relativismo moral. Quando se confronta a realidade atual do país com o sucesso logrado por esses esquemas de pensamento nas escolas, universidade e em enorme parte da imprensa, não há surpresa na verificação do estado lastimável em que nos encontramos.
Os condomínios residenciais, por reunirem uma considerável quantidade de pessoas, com diferentes formações, visões de mundo, valores, crenças e, em certos casos, até mesmo diferenças socioeconômicas, constituem locais privilegiados na ocorrência diária do fenômeno da ilegalidade consentida, microcosmo bastante adequado, portanto, para ilustrá-lo. Partindo do nível microscópico, torna-se mais fácil exemplificar e comprovar o problema da ilegalidade consentida como mais um aspecto negativo da brasilidade em sua esfera macroscópica, a esfera da "Grande Mãe", parafraseando o próprio Meira Penna. Assim, pais ausentes acreditam que os condôminos devem tolerar tudo aquilo que seus filhos fazem de errado: torneiras abertas no espaço comum, bate-bola em local indevido, correria no hall social, sujeira descartada fora das lixeiras, falta de cuidado com a grama e com o jardim, gritaria e por aí vai. O mau uso do espaço comum não é apanágio somente de crianças sem educação, mas também de adultos desrespeitosos que o tratam como sendo o espaço de ninguém ao invés do espaço de todos. Na entrada e saída da garagem, as normas de segurança são interpretadas como mera formalidade sem nenhuma importância: um condômino entra ou sai no vácuo de outro e jamais aciona o controle remoto para fechar o portão. Mesmo quando em seus espaços privados, em função da ampla dimensão do elemento de coletividade que a vida em condomínio implica, o vizinho é uma categoria inexistente, não havendo preocupação alguma em evitar ruídos fortes, nem mesmo em período noturno. Assim, morar em condomínio é um verdadeiro tour de force para aqueles que não compartilham da ilegalidade consentida.
Tolerar e incentivar o erro é algo que possui dois lados de uma mesma moeda: trata-se, concomitantemente, de uma prática e de uma visão de mundo, sendo que, quase sempre, a ação e a ideia são compartilhadas pelo sujeito que age. Quando se pensa especificamente a respeito da ideia, é possível notar a existência de um grande paradoxo: é corriqueira no âmbito do politicamente correto, também ele um mal disseminado entre o esquerdismo, a noção segundo a qual o individualismo é prejudicial. Já escrevi a respeito da confusão individualismo-egoísmo, quando ambos são tratados indistintamente. No discurso, as pessoas procuram repelir o individualismo sem terem a menor compreensão de seu sentido filosófico. Não querem ser individualistas, incapazes que são de entendê-lo, bem como permanecem imersos na ignorância em relação aos seus benefícios. Por outro lado, se revelam absolutamente egoístas, bastando observar como atuam nos espaços comuns e com relação às obrigações para com outrem, promovendo uma caótica superposição entre público e privado.
No Brasil, ao contrário do que sugerem a sobriedade e a resignação perante diversos aspectos ontológicos, fatores básicos de desenvolvimento, os direitos sempre aparecem antes dos deveres e, são tantos, que as responsabilidades que envolvem todas as relações sociais, ou seja, os próprios deveres, acabam esquecidos. É a cara do Brasil!

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