sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

À guisa de encerramento


Morreu Kim Jong-il, o lunático ditador norte-coreano, um homem cujo tempo de governo durava 17 anos, um homem a quem o culto rendido pelo artificialismo do regime comunista o colocava acima de tudo e de todos. Grande ironia o fato dos indivíduos que detêm o poder se sobressairem em tamanha escala num regime do tipo; o marxismo está desmentido também nesse aspecto. Muito antes do comunismo ser o próprio comunismo, trata-se de um sistema autoritário, algo que a análise histórica isenta permite atestar com facilidade. Na Coreia do Norte, viu-se a multidão mergulhada em prantos pela morte de seu ditador, pois a reverência obrigatória ao líder manda que seus súditos ajam de tal forma. Em parte, a manipulação na qual a população é mantida sob uma ditadura, a faz pensar, ignorantemente, que a ausência do ditador levará ao caos, como se este já não fosse inerente ao comunismo, por outro lado, nas brechas em que a sanidade mental se mantém a duras penas, as lágrimas de crocodilo podem servir como garantia de vida - é melhor ser visto chorando do que ser morto. Não me consta que a paranoia comunista tenha criado alguma maneira para identificar o choro fingido. Se nem a Inquisição, muito mais afeita aos mistérios do que os ditadores, percebeu que Galileu dizia uma coisa e pensava seu oposto, não será a ditadura comunista da Coreia do Norte a desbaratar simulações como esta.
Morreu também Vaclav Havel, intelectual e político tcheco, o homem que melhor soube conduzir o fim do regime comunista no leste europeu e estabelecer um sistema livre em seu país. Havel foi o mentor da Revolução de Veludo, processo que desmembrou a Tchecoslováquia de modo absolutamente pacífico no início dos anos 1990. Não é por acaso que hoje a República Tcheca seja a nação mais próspera da Europa Oriental, tampouco o fato de que Havel, assim como outros intelectuais de brilho daquela parte do planeta, vide Czeslaw Milosz e Leszek Kolakowski, sempre tenha sido um ferrenho opositor das ideias comunistas. Por ele também houve choro, sem pompa, sem culto à personalidade, mas devido à perda de uma mente defensora da dignidade e da liberdade humanas. Choro sofrido e autêntico. Seria bom para o mundo que houvesse mais homens como Havel.
                              
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O próximo ano está quase chegando e, com ele, as idiotices de sempre que caracterizam essa época de virada. Durante quase 12 meses completos muitas pessoas se agarram aos vícios, umas sem se darem conta dos mesmos, outras, conscientes, mas que não mudam por preguiça física ou espiritual. Não sei o que é pior. Tudo bem, os vícios fazem parte da condição humana, sendo dificílimo que alguém possa escapar a eles, - e eu mesmo os possuo - mas prometer a quem quer que seja, começando por si próprio, que no próximo ano as coisas irão ser diferentes como num passe de mágica, unicamente em função da mudança do ano é, na grande maioria das vezes, somente hipocrisia, balela ridícula de quem se deixa levar muito mais pelos devaneios típicos do Réveillon do que pelo compromisso e pelo esforço que uma mudança de comportamento impõe e, que ainda por cima, se for por autêntica força de vontade, pode ocorrer em qualquer período.
O pior de tudo nessa época são os fogos de artifício, uma das invenções mais execráveis que acompanha as festas de fim de ano. Por que não se proíbe esse verdadeiro lixo? Ah, porque as pessoas gostam, porque elas se divertem, porque é uma tradição, porque simbolizam alegria. As respostas mais odiáveis são aquelas que tomam a parte pelo todo, que generalizam. O mesmo acontece com outras ditas tradições, em que aqueles que não compartilham do gosto por tais, são sumariamente desconsiderados. Temos aqui um exemplo notório de tirania da tradição. Não seria problema sério caso se tratasse apenas de uma questão de gosto pessoal, contudo, o prejuízo é fortemente sentido por animais, tanto os domésticos como aqueles que não o são, tremendamente atordoados e assustados pela barulheira. Há os que se estressam, os que se perdem tentando encontrar um abrigo dos estampidos e até os que chegam a morrer. Entre as aves que vivem em liberdade, o pânico e o estresse provocado pelos fogos costuma ter consequências das mais lamentáveis. Uma vez que tantos gostam de fazer promessas para o ano vindouro, que tal começar agora, abolindo de vez a prática dos fogos de artifício? Você liga para o bem-estar animal, consegue se despir de uma tola “tradição”? Fará toda a diferença.
De resto, considero uma grande estupidez dar tanta importância a uma simples virada no calendário. Não, não desejo a ninguém um feliz 2012, o tempo cronológico é só um continuum, só uma maneira de marcar a passagem temporal, sem nenhuma relação com festejos, esperanças e superstições. Faço votos sim, que o ser humano busque viver mais de acordo com as regras da razão e das virtudes em seu cotidiano. O universo agradece. Obrigado.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Erro do passado, incompreensão do presente, dever e única esperança do futuro


Na segunda metade da década de 1990, o Plano Real, depois de muito tempo, proporcionou valorização ao dinheiro da classe média brasileira, período no qual o fantasma da hiperinflação foi devidamente exorcizado e o consumo pôde, ainda que brevemente, se estabelecer sobre parâmetros sólidos e saudáveis. Caso o governo tucano tivesse ido mais a fundo nas transformações que o país necessitava, além do próprio Real, e houvesse, por exemplo, implementado a reforma tributária naquele mesmo momento em que a conjuntura política e econômica lhe fornecia lastro suficiente, o Brasil de hoje estaria, sem dúvida, em condições bem melhores, muito possivelmente, livre do projeto de dominação autoritário do PT. Somada a esse erro, cometido em função de falta de coragem e da presença de uma oposição puramente ideológica do PT, sem qualquer compromisso com o desenvolvimento do país, a crise cambial de 1999 veio para jogar areia no ventilador da economia nacional e contribuir com o pesado desgaste sofrido por FHC em seu segundo mandato. Diante desse contexto, as portas se abriram de forma inédita para Lula e seu partido que, pela primeira vez em sua trajetória política, souberam construir um discurso brando na fachada sem abandonar os traços autoritários de retaguarda, característica típica do DNA histórico de um partido cujo sectarismo fica estampado desde o nome. A brandura aparente foi uma hábil sacada na conquista da porção do eleitorado que sempre havia faltado ao PT: boa parte dos setores médios urbanos e um quinhão do empresariado. Quanto a este último, mesmo perante a desindustrializção que ora o país vem sentindo, não se prejudica, já que o aparelhamento da máquina administrativa assim o favorece. O autoritarismo petista não deseja outra coisa a não ser impedir o desenvolvimento autônomo da sociedade em torno do valor político da democracia e do mercado competitivo e empreendedor, atuando para tanto, na cooptação de empresários ávidos por se locupletarem do butim econômico instaurado desde 2003. Chame-se a isso de capitalismo de estado ou socialismo em edificação, pouco importa, o fato é que uma quantidade significativa de empresários brasileiros ganha dinheiro a partir de favorecimentos e subsídios governamentais. O aspecto mais estarrecedor da tomada de poder pelo PT não é, todavia, a cooptação de empresários, fenômeno já observado em outros tantos regimes de cunho autoritário, mas diz respeito à anuência que a classe média ofereceu ao partido da estrela vermelha. Esse apoio sem precedentes pode ser explicado devido à ilusão causada por um partido de esquerda chegando à presidência reforçado pela figura de um ex-operário e pela ideia de justiça social e igualdade, bandeiras que o PT carregou desde de sua fundação. Em geral, o brasileiro não sabe que igualdade sem liberdade é somente uma maneira de tirania e que uma sociedade justa e desenvolvida jamais pode se constituir com um partido sectário, classista e gramsciano ocupando o poder. Seria pedir muito que a população brasileira estivesse atenta para esses detalhes e, entra igualmente na conta, e portanto no fato do PT estar em seu terceiro mandato consecutivo, podendo até aqui construir tranquilamente seu projeto de poder autoritário, a inépcia do PSDB enquanto oposição, bem como o ranço antiliberal do qual os tucanos jamais conseguiram se livrar, defeito que os fez cometer o erro citado de início, além de terem colocado em prática medidas corretas a partir de mecanismos falhos, o que cada vez mais tem dado munição aos adversários.
O projeto de poder do PT se assenta na centralização do estado e no populismo assistencialista, marcas que cobram caro da classe média, ainda que muitos dos seus representantes não se apercebam da situação. A economia brasileira, carente de investimentos em tecnologia, logística e educação de qualidade, assaltada pela carga tributária que subtrai 40% do salário anual dos trabalhadores sem lhes dar absolutamente nada em troca e comprometendo também a produtividade industrial e encarecendo os serviços, depois de passar alguns anos favorecida pela conjuntura internacional, começa a dar indícios de moléstia. Não é preciso nem indicar quem irá padecer do mal, mais ainda do que já vem acontecendo. A classe média, que perfaz a maioria desses trabalhadores, tem reivindicado sobretudo a reposição salarial, justa em muitas casos, ainda mais num país que ao invés de valorizar quem produz e quem possui qualificação, se ajoelha e faz reverência diante de todos os tipos de celebridades bizarras, aquelas que ajudam a compor o pão e circo. O problema, entretanto, situa-se bem menos no valor bruto dos salários pagos do que na carga tributária que emperra o consumo saudável e reduz brutalmente os rendimentos líquidos da classe produtiva. Os impostos cobrados no país servem para consolidar a centralização do estado, para aumentar ainda mais a corrupção, para bancar o assistencialismo populista, que tira de um lugar e põe em outro, sem evidentemente levar a qualquer desenvolvimento, e para manter o pão e circo, agora traduzido na realização de grandes eventos esportivos, o que também faz a festa daqueles empresários mancomunados com o governo. É a cara do Brasil!
Sem que a classe média passe a entender como funciona o projeto de poder do PT, o que se torna mais difícil conforme o tempo passa, e que a partir disso esteja apta a se opor contra tal situação, reivindicando o que lhe é mais justo, mais necessário e, a meu ver, o único modo de tentar mudar o rumo político que o país vem tomando, (o objetivo final de um projeto aos moldes petistas é conformar a sociedade à não-existência de seus indivíduos, à incapacidade política, por assim dizer) o autoritarismo não fará restar nada além de sua dominação completa. Ajam enquanto é tempo.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Bibliografia 2011


Hoje em dia o mercado editorial brasileiro apresenta lançamentos quase diários, o que torna impossível ao leitor tomar conhecimento sequer de um terço daquilo que chega às livrarias, seja em função da quantidade ou do preço de um livro no Brasil, salgado muitas vezes. A pessoa acostumada à leitura é inevitavelmente obrigada a selecionar títulos que lhe sejam mais atraentes ou úteis, como eu mesmo venho fazendo há cerca de dez anos, momento a partir do qual passei a ler com mais frequência. Seleciono a seguir, pois, três ou quatro livros que julgo terem sido os melhores de 2011 na área de Humanidades, assunto que perfaz 80% de minhas leituras.
No mês de abril li Américo: o homem que deu seu nome ao continente, do historiador inglês Felipe Fernandéz-Armesto, (Companhia das Letras) uma biografia ágil e envolvente do navegador florentino. Fernandéz-Armesto chegou a um resultado nem sempre factível no gênero, isto é, a compreensão de um contexto amplo a partir do personagem histórico individual, perspectiva entre micro e macro reservada somente aos historiadores de talento. A descrição analítica da Florença renascentista é riquíssima e capaz de transportar o leitor até o berço do Renascimento. No fim, descobre-se um Vespúcio distante do lugar-comum que ainda predomina no Ensino Básico.
Logo após o livro de Fernandéz-Armesto mergulhei na leitura de A estranha derrota, (Zahar) do grande Marc Bloch, um dos monstros sagrados da historiografia em todos os tempos. Há muito esperava-se uma edição brasileira deste clássico que ajudou a estabelecer os Annales, a escola historiográfica mais profícua e criativa que se tem até hoje. Na obra, Bloch faz jus a seu reconhecimento como historiador da longa duração e das mentalidades, explicando a rápida derrota da França na Segunda Guerra Mundial a partir de elementos profundamente enraizados na mente e na cultura do povo francês. A análise é reveladora do atavismo burocrático na França, bem como do drama pessoal de Bloch que, como historiador, sempre enxergou as causas da derrota, pouco podendo fazer todavia, como soldado, para modificar a impotência francesa diante do dinamismo alemão.
Em agosto foi a vez de Os redentores, do historiador mexicano Enrique Krauze, (Benvirá) obra composta por pequenos ensaios biográficos (nem tão pequeno no caso de Octavio Paz) de personagens que marcaram o pensamento político e cultural da América Latina desde o final do século XIX. O título do livro, segundo o próprio Krauze, refere-se ao fardo contido na ideia de salvação, praticamente um fantasma que povoou e permanece povoando o pensamento não só das figuras analisadas pelo autor, mas de tantos intelectuais latino-americanos, muitos deles levados à ilusão das paixões revolucionárias. O mérito de Krauze, além obviamente do trabalho documental e da qualidade do texto, é desmantelar mistificações como Che Guevara, Eva Perón ou Gabriel García Marquez, nomes ingenuamente cultuados na América Latina, apóstolos de ideias e regimes políticos incapazes de contribuir com desenvolvimento e liberdade. Lutando contra os demônios políticos que assaltam a mente de quase todos os homens que se propõem a pensar intelectualmente a América Latina, enfrentando com esmero e coragem as imposturas que seus próprios pensamentos insistiram em colocar no caminho e, finalmente, arrancados das quimeras utópicas por uma pujança de ideias continuamente construídas ao longo da vida, Mario Vargas Llosa e sobretudo Octavio Paz, que domina a maior parte de Os redentores, são os dois nomes que emergem com grande destaque na análise de Krauze. Homens que alcançaram a sobriedade e conseguiram se despir do fanatismo da redenção para defender “utopias” plausíveis: democracia e liberdade.
Por último, foi a vez de Lembranças de 1848, (Penguin-Companhia) do multipensador francês Alexis de Tocqueville. O título foi relançado no Brasil depois de muito tempo, mais do que merecidamente. Como ator político das jornadas revolucionárias de 1848, mas também como sagaz analista, Tocqueville brinda com louvor a seus leitores, embora ele desejasse que seus escritos permanecessem confidenciais, no mínimo até sua morte. Lembranças é uma espécie de autobiografia na qual Tocqueville expõe causas, efeitos e impressões pessoais a respeito de um período de turbulência na história da França. Ao contrário da maioria de seus contemporâneos, homens de um século no qual as teorias holísticas e a ideia de leis históricas obscureceram a compreensão dos fenômenos sociais, Tocqueville adiantou em mais de cem anos a nova história política, pautada nas contextualizações, nas visões de mundo dos sujeitos e nas suas ações cotidianas. Sem desprezar processos mais gerais, como a formação e as transformações de classes na França ou a estrutura administrativa desde a Idade Média, o autor traz à tona o turbilhão da política diária, destrincha com frieza e perspicácia assustadoras o espírito e as ideias do povo, de seus companheiros e adversários políticos, bem como dele mesmo. No complexo entrelaçamento entre causas gerais e específicas, entre estrutura, conjuntura e fatos pontuais, Tocqueville ilustra com vivos tons aquilo que outros pensadores do século XIX fizeram embaçar perante as névoas da abstração. Um livro útil, inclusive, para refletir sobre as mazelas políticas do Brasil atual, comparando-as com as da França oitocentista.

PS: Cabe uma menção honrosa ao livro Guia politicamente incorreto da América Latina, (Leya) de Leandro Narloch. A obra não tem seu valor pela pesquisa, já que se baseia em fontes secundárias, nem pela originalidade, pois traz ideias já conhecidas, pelo menos por aqueles que não se submetem a ideologias falidas. É válida, no entanto, por difundir ao público leigo verdades negligenciadas pelo pensamento esquerdopata que domina amplos setores das Humanidades em nosso continente. Em nível mais primário, Narloch destrói mistificações, assim como Krauze. Ainda que certas colocações do autor mereçam ponderações, eu adotaria o Guia tranquilamente como livro didático, de vez que se mostra muito mais crítico e isento de ideologizações do que mais de 90% dos manuais escolares destinados aos estudantes brasileiros e latino-americanos.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Blasé


Não sei se o que vou expor nas linhas subsequentes é uma satisfação perante os leitores, algo que, ao mesmo tempo que não desejo, não tenho poder para determinar como será interpretado pelas pessoas. Talvez seja uma satisfação a mim mesmo, dada a vontade de escrever sem saber ao certo a respeito do que, aspecto em relação ao qual também não posso e nem devo me preocupar muito. Num país em que a propriedade privada é permanentemente aviltada pelos impostos, ao menos possuo soberania sobre este espaço. O fato é que nesse ano escrevi mais do que nos dois anteriores, isso sem que 2011 tenha terminado; até esta data, a média é de cerca de um artigo por semana, um bom número se considerado que em muitos períodos, como o atual, aumenta o trabalho a ser realizado em casa. Não que o fator quantidade esteja acima da qualidade, porém isto é um blog, um veículo que faz parte de um meio no qual a atualização não pode ser descartada, ainda que o perfil que procuro manter aqui seja outro, não tendo nada tem a ver com o que se poderia chamar de um folhetim diário.
Postei menos em novembro, situação que vislumbro se repetir em dezembro. Estou sem grande inspiração, embora, como já salientado, satisfeito com o que produzi desde janeiro. Assuntos e ideias nunca faltam, pois estão sempre passando irriquietamente por minha cabeça. Tem faltado, sim, organizá-los devidamente e torná-los públicos. Quem sabe não resida exatamente aí a carência de inspiração? Me encontro um tanto quanto perdido no meio do turbilhão, sem a fleuma e a habilidade necessárias para encontrar um foco por vez e escrever sobre o mesmo.
Nos últimos dias que se passaram pensei em abordar a figura de Sócrates, o ex-jogador falecido, contudo, quando delineava o texto ainda em mente, logo percebi que não teria nada considerável a acrescentar diante de tanta coisa que já havia sido colocada, correndo sério risco de, ainda por cima, ser incomodado pelo politicamente correto e ter que estorvar a mim mesmo em dar respostas para um povo que, em geral, tem compulsão quase patológica em fabricar mártires. A pieguice do brasileiro o impede muitas vezes de tirar lições dos erros que são cometidos.
O Campeonato Brasileiro acabou e me veio a ideia de discutir o certame, assunto que poderei expor em breve, mas que, por ora, deixei de lado em função das paixões clubísticas ainda latentes devido ao término recente da competição. Além disso, é sabido de qualquer um que não se furte a uma observação um pouco mais atenta, que o vencedor representa o status quo do atual futebol brasileiro, assaltado pela podridão dos dirigentes, da imprensa esportiva dominante e do poder maior que rege a nação. O século XX inaugurou as formas de poder ditatoriais baseadas no apoio das massas ignorantes e sujeitas à manipulação. O uso do futebol - esporte das massas no Brasil - com finalidades políticas é hoje mais comum no país do que durante o milagre brasileiro. Quem diria?! Para qual público eu iria escrever, para o torcedor zumbi? Não, seria chover no molhado. Quanto aos admiradores dos outros times, eles já conhecem a história decor e salteado.
Após ter escanteado os temas anteriores, eis que surgiu a polêmica acerca da hidrelétrica de Belo Monte. De um lado, o Movimento Gota d´Água vociferando contra, de outro, um grupo de estudantes tecendo loas. Um bom assunto a ser posto em discussão,... ou não. Quando me pus a refletir que, evidentemente, há ainda muita informação negligenciada, tanto para se colocar contra, como para se mostrar a favor da construção da usina, percebi de imediato que não deveria manifestar nada sobre a questão. A princípio, sou totalmente contrário à construção dessa usina, uma vez que o potencial eólico e solar do Brasil deveria prevalecer sobre outas fontes de energia, mas ainda é preciso aguardar para tecer comentários mais aprofundados. Belo Monte pode nem ser o monstro que atores globais nunca antes engajados em causas ambientais, muito pelo contrário, tentaram pintar, nem o bálsamo cantado em prosa e verso por alguns universitários recém-saídos do Ensino Médio usando de discurso elíptico. Por enquanto, ao contrário do que divulgou a revista Veja, o debate está bem longe de ser sério.
Outra ideia que me ocorreu em função de conversas travadas esporadicamente, diz respeito ao pensamento rígido de certas pessoas, quadro que sempre as leva a encarar fenômenos socioculturais sob um viés essencialista. Essas pessoas acreditam, para citar um único exemplo, que existe um antagonismo de princípios entre o Ocidente e o Oriente de maneira a tornar impensável toda e qualquer reflexão na busca de aproximações e perspectivas em relação a aspectos filosóficos universais. Para elas, não existe nem mesmo a possibilidade da presença de filosofia no Oriente, o que é um tremendo absurdo. Quem adota esse estilo de postura, nunca atentou para os estudos de um Louis Gernet, de um Marcel Granet ou de um Jean-Pierre Vernant, se esquece até de que o cristianismo surgiu no Oriente, que a Álgebra e que o número zero são invenções árabes e que Marco Polo foi à China, de onde trouxe coisas que hoje nos são comuns. Como os essencialistas lidariam com os impasses do mundo global? Fazendo uso da teoria do choque de civilizações, que eles mesmos rejeitam quase sempre? Tirando da cartola a ideia de tolerância? Mas como, se são justamente essencialistas? Este tema é bastante complexo em seus desdobramentos, retornarei a ele num momento mais adequado.
Quando achar por bem, ou quando a urgência de algum fato assim o fizer necessário, volto a escrever. Por enquanto, peço licença para me concentrar nos afazeres cotidianos, afinal, é época de trabalho árduo para professores que o ano inteiro se viram às voltas com alunos que não cumprem jamais o exigido e que agora  precisam passar pela tal da recuperação.

PS: de última hora, vejo reportagem na TV noticiando a aprovação do aumento  de salário para cargos político-administrativos no município de São Paulo; as majorações são claramente abusivas e ultrajantes, chegando a mais de 200% em alguns casos; piores, só mesmo as justificativas escabrosas do deputado Marco Aurélio Cunha (DEM) e do prefeito Gilberto Kassab, ambos afirmando que é uma forma de valorizar os tais cargos e de propiciar cobrança em relação aos beneficiados; não sabem diferenciar trabalho produtivo de não-produtivo, não sabem que o mérito independe da questão financeira e não fazem ideia de que a cobrança deveria se fazer em cima das responsabilidades, também não guardando nenhuma relação com aquilo que se recebe em forma de salário.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Crítica e tradicionalismo sociológico no Brasil


Quando alguém faz a pergunta “para que serve a história?”, um questionamento até certo ponto banal, embora justo, a melhor resposta sempre será aquela que é dada por meio de exemplos, esclarecendo o que, dito de outro modo, com base na teoria e portanto mais sujeito a hermetismos, correria o risco de ser considerado deveras abstrato por parte do inquiridor. A qual exemplo recorrer vai do gosto, do acaso ou do conhecimento de quem responde, sendo o mais importante salientar a carga de passado que o presente pode comportar. Para se compreender o contexto presente é imprenscindível conhecer os caminhos trilhados por uma sociedade, caminhos esses que, por sua especificidade, contribuíram para estabelecer um determinado presente, e não outro.
Nas sociedades tradicionais, entendidas em âmbito sociológico¹, isto é, nas quais ainda preponderam o patriarcalismo, o familismo e as relações pessoais, mesmo na esfera pública, é fácil sentir e observar uma carga de passado que, não pode deixar de se apontar, resulta em traços bastante negativos. Não é necessário ter senso lá muito aguçado para classificar o Brasil dentre as sociedades desse tipo, isso não somente em localidades distantes dos grandes centros urbanos, mas inclusive neles. A indistinção entre público e privado é uma marca sui generis da sociedade brasileira, tributária do passado de colonização ibérica. Não posso deixar de concordar com a professora Lucília Siqueira, quando esta afirma que não podemos mais considerar a estrutura colonial lusitana como responsável por nossas mazelas atuais, afinal, a Independência, a República, a industrialização e a democratização são realidades que, bem ou mal, capengas como se apresentaram ou ainda se apresentam, fizeram ou fazem parte da história do Brasil, tornando-o uma realidade diferente em relação ao que foi até 1808. Isso não quer dizer que seja possível descartar os efeitos da longa duração e dos traços culturais e mentais que se fazem perdurar no povo brasileiro, algo que a professora Lucília, arguta como sempre se mostrou, também sabe perfeitamente.
Os sinais e pormenores que definem a confusão entre público e privado no Brasil se reproduzem todos os dias nas relações entre patrões e empregados, na esfera da política oficial, nas escolas e universidades, no trânsito, nas conversas entre amigos e até entre pessoas desconhecidas, situação em que o trato familista configura um paradoxo dos mais incríveis. Tudo isso revela que o Brasil está a anos luz de distância de ser um país liberal, coisa que muita gente não pode e nem quer perceber.
Aqui tendo chegado, noto que talvez eu feito uma digressão muito longa, desviando-me do tema sugerido pelo título, mas creio também, que o leitor poderá entender os motivos deste trajeto. A crítica no Brasil, ao contrário do que deveria ser, ainda é assunto tratado sob espesso véu de familismo e personalismo. No geral, o brasileiro tem ojeriza à crítica, logo tomando-a por um ataque pessoal, seja por parte do próprio alvo criticado ou, o que é comum, por parte de quem toma suas dores. A noção de que a crítica, quando bem feita, se fundamenta em ideias, é estranha ao povo que habita estas terras. Desde Platão na Antiguidade, passando pela contribuição de importantes pensadores medievais e modernos, vide um São Tomás de Aquino ou até um Hegel expurgado de marxismo, é sabido que o conceito de ideia demanda impessoalidade, algo que, no entanto, não tem logrado sucesso face à mentalidade tradicionalista do brasileiro. Daí ser tão recorrente que as réplicas se percam completamente em argumentação ad hominem, o que faz a discussão se tornar pobre e arredia ao debate.
Na esteira do anticriticismo, muitas vezes vem à tona a questão da verdade, o que é fruto da suposição, também ela resultado do tradicionalismo, de que toda crítica esteja presa ao dualismo verdadeiro-falso. Este ponto é muito espinhoso quando a crítica se refere a assuntos referentes às Ciências Humanas, terreno cujo estatuto epistemológico é bastante específico. Em áreas do saber nas quais se lida muito mais com probabilidade e verossimilhança, uma argumentação pautada pela oposição entre verdadeiro-falso estará sempre comprometida. Nesses casos, deve se considerar, além do elemento subjetivo adjacente ao discurso das Humanidades, a noção de que uma concepção geral que norteia as ideias de determinado pensador pode, na maioria das vezes, não ser de sua própria autoria. Disto decorre que uma possível crítica dirigida a esse mesmo pensador não busca colocar em discussão se ele é ou não o dono da verdade, pretensão pouco aplicável em Humanas ou mesmo à crítica em si, mas sim chamar atenção para pressupostos teóricos e ideológicos equivocados que podem comprometer uma argumentação, ainda que formalmente bem construída. Evidentemente, o erro e o acerto estão em jogo, mas não em uma perspectiva totalizante, que inclusive esvaziaria em grande medida o propósito da crítica.
Penso ser correto admitir que quando uma sociedade atinge um nível sofisticado de crítica, livre de personalismos, tem-se aí um sinal de seu desenvolvimento mental e cultural, quadro que, pelo exposto, ainda não começou nem mesmo a engatinhar no Brasil, país de claro tradicionalismo sociológico.


NOTA

1. O conceito de “sociedades tradicionais” em Sociologia, muito utilizado pela Escola de Chicago e presente nas obras de Talcott Parsons e Gino Germani, refere-se, grosso modo, a sociedades permeadas por valores oligárquicos, tais como exemplificados no texto. Este conceito não deve ser confundido com sua definição antropológica, usada para caracterizar sociedades pré-históricas ou pré-modernas, (em sentido lato) remotíssimas, nômades/semi-nômades, formadas por caçadores e coletores. Tem ainda menos a ver com o conservadorismo humanista à la Irving Babbitt, cujo princípio é a valorização de padrões morais e filosóficos que tendem a favorecer a vida civilizada e a liberdade autêntica.

domingo, 20 de novembro de 2011

Manifestações muito válidas de indignação


O filósofo político Renato Janine Ribeiro escreveu no Estado de São Paulo de hoje um artigo ("Inimiga da república") versando sobre a corrupção no Brasil. Segundo o autor, é um assunto que não pode ser tratado a partir de viés partidário, ou seja, a crítica à corrupção tem que ser total e incondicional, não somente feita se estiverem em jogo preferências por um ou outro partido. Assim, quem fica indignado contra corrupção praticada pelo partido X, deve manter postura idêntica se for levada a cabo pelo partido Y, do contrário, estará incorrendo em extrema incoerência.
Janine está certíssimo nesse aspecto, porém, parece não ir a fundo nas implicações morais que seu próprio ponto de vista enseja. No mesmo artigo o autor julga que as manifestações de indignação dirigidas aos corruptos são vazias, uma vez que aqueles que criticam não oferecem propostas para o Brasil. Aí cabe então a pergunta: desde quando ser intolerante em relação a um modo de agir criminoso exige, como complemento, indicar propostas? Um professor de ética como ele não poderia desconsiderar jamais que, se existe uma situação na qual a moral é jogada no lixo, ser intolerante em relação a esta situação adquire um valor por si só.
O pior é que Janine usa o Facebook como fonte para corroborar sua ideia. Convenhamos que a rede social não fornece o melhor indicativo quando se tem o objetivo de refletir acerca da política de uma nação, sobretudo se essa nação é o Brasil. A maior parte dos brasileiros não saberia propor soluções aplicáveis para a política brasileira, simplesmente porque não possui instrumental para tanto e porque vivemos sob uma democracia representativa, na qual cabe justamente aos representantes eleitos a tarefa de coordenar as ações políticas. Se eles não o fazem em nosso país, tem sido acima de tudo por conta dos gravíssimos e frequentes desvios de conduta, logo, tudo que seja para repudiar a corrupção é de total validade e importância. A democracia brasileira ainda não se consolidou e está longe disso, o que nos revela que seria esperar demais que os brasileiros fizessem, no momento, algo além do que se indignar contra a corrupção, um mal que se instalou nas entranhas da política nacional.
Janine teria se saído bem melhor se constatasse o mais evidente, isto é, o fato de que são poucos os brasileiros que se mostram indignados contra uma corrupção que se tornou institucionalizada no governo do PT, partido que sempre se colocou como paladino da ética enquanto esteve fora do poder. Depois que o conquistou, passou a tratar do tema como preciosismo/moralismo burguês. O populismo lulista soube se aproveitar bem dos desejos mais prementes da população carente e mesmo de boa parte das classes médias urbanas, o que resultou na passividade política que domina a fragilizada democracia brasileira. Bom para quem ocupa o poder e que pretende mantê-lo sobre traços autoritários.
Por sorte, e talvez por uma centelha de percepção, o cenário dá sinais de mudança, aponta que a intolerância contra a corrupção tem aumentado, sendo isso exatamente o que nosso autor observou no Facebook. Ao mesmo tempo em que a rede social representa apenas uma excrescência do universo político, pouco ainda diante de tantas mazelas, é também motivo para se ter alguma esperança, afinal de contas a passividade reinou sozinha de 2003 para cá, levando o lulismo a um grau de aceitação e aprovação completamente incompatíveis com o governo que era realizado. Notando que existem indicativos de alteração na atmosfera, Janine poderia ter visto a coisa de modo positivo, mas como alguém que ainda consegue enxergar no PT um partido comprometido com a democracia, acaba por ir na contramão daquilo que ele mesmo condena, acertadamente, como sendo partidarismo, ao invés de intolerância contra a corrupção em essência. O autor deveria ter a coragem e o desprendimento necessários para atacar a corrupção insitucionalizada no governo petista, reforçando que foi com Lula e obedecendo ao discurso, à postura e as medidas do ex-presidente, que as práticas políticas ignominiosas passaram a ser não só aceitas, o que já é uma aberração, mas também legitimadas. Toda corrupção, por mais ínfima que seja, merece repúdio, mas é a corrupção sistemática e institucionalizada que mais torna enferma a vida política de um país, pois é aí que passa a ser vista como algo corriqueiro, levando por sua vez, à apatia e à passividade da população. Se o povo tem dado algumas demonstrações de estar farto de tamanha corrupção, fenômeno observado por Janine, é motivo de louvor que não pode ser desprezado.
O autor crê que a discussão política no Brasil é pobre, uma afirmação absolutamente óbvia, sendo estranho, desse modo, que ele negue a validade de sinais que apontam uma possível mudança de direção. É significativo que mais pessoas estejam se manifestando contra a corrupção no Brasil, daí a querer que o brasileiro adquira uma cultura democrática que lhe capacite a propor soluções para o país, é algo que demanda, além de paciência, mudanças em outras esferas, como a educação, o que de maneira nenhuma, no entanto, retira a importância de se manifestar veementemente contra os corruptos. Para que haja o estabelecimento de cultura democrática no Brasil, arranjo bem mais complexo e rico do que se tem aqui, é necessário que o brasileiro comece a pensar e sentir a liberdade como fator mais valioso em sua experiência de cidadão. Só então, passará também a admitir que Estado centralizador e assistencialismo não são os responsáveis pelo desenvolvimento de uma nação, bem como poderá se dar conta de que a liberdade e a democracia exigem o cumprimento de deveres - não só o exercer de direitos - que são, por definição, elementos construtivos da verdadeira liberdade. Caso isso venha a acontecer algum dia, poderá ser percebido nos espíritos das pessoas, em seus costumes e nas leis da sociedade, não só nas expressões residuais de redes como o Facebook. Nesse caso, que até pode ser visto como idealizado, temo que certas paixões ideológicas, tais como demonstradas por Janine, ainda assim fariam dele um insatisfeito.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Comunistas criminosos


Os falsos estudantes, criminosos, rebeldes sem causa, baderneiros, comunistas e buchas de canhão do tráfico que ocuparam a reitoria da USP foram obrigados a deixar seu acampamento depois da ação, corretíssima, diga-se de passagem, da Polícia Militar, que fez cumprir uma determinação judicial desobedecida por essa minoria autoritária. Foram indiciados por descumprimento da ordem e danos ao patrimônio público. Que sejam agora devidamente punidos, inclusive, o que seria absolutamente justo, com o jubilamento da universidade.
As pessoas que praticaram esses atos são débeis mentais que se aproveitaram do pretexto da detenção de três dos seus, por PM´s, quando fumavam maconha nas dependências da USP, uma universidade pública (público significa algo que é de todos, de uso comum, não um lugar onde não há lei e no qual cada um faz o que bem entender) para organizar uma rebelião cujas reivindicações, além de serem completamente estapafúrdias, se confundem numa miríade de clichês pueris, sem nenhuma pertinência.
Segundo essa gentalha, a presença da PM no campus não condiz com um espaço destinado à educação nem garante a segurança da comunidade universitária. A argumentação não poderia ser mais inconsistente, mais do que isso, não poderia ser mais contraditória, um exemplo cabal da má fé e da cara de pau que toma conta da mente de comunistas extemporâneos. Pode-se questionar a ideia de que policiais não combinam com um espaço cuja função é o estudo a partir de quatro pontos: 1) PM´s não impedem nenhum estudante de estudar, nem de pensar livremente, um privilégio exclusivo de quem é cidadão de regimes livres, algo que vai na contramão do ideário político dos comunistas; 2) a presença da PM no campus em nada interfere na rotina de quem vai à universidade para realmente estudar, ao contrário do uso de maconha em local público, o que aí sim invade o espaço das outras pessoas; 3) como falsos estudantes, os baderneiros não frequentam a universidade com o objetivo de estudar, longe disso, praticamente não são vistos em sala de aula, passando quase todo o tempo na vadiagem, na trama de ideias revolucionárias e na pintura de cartazes de papel pardo com gritaria marxistóide; 4) no oposto do que prega o esquerdismo radical e sua cria pós-moderna, o relativismo, a PM é essencialmente uma instituição que existe para proteger o cidadão de bem, (estados de exceção e desvios de conduta de policiais não são a regra) portanto, é evidente que criminosos que andam de rosto coberto se posicionem contra a presença da PM, não só na USP, mas em qualquer outro local.
A questão das drogas e do policiamento serviu somente como fachada para a verdadeira intenção dessa minoria que, estando ligada a certos partidos políticos da esquerda revolucionária, tenta de dentro da universidade, contando com o apoio de alguns professores, também eles relacionados a esses partidos, alterar o sistema vigente na sociedade, que eles pensam ser o capitalismo pronto e acabado a serviço da elite (qual elite, cara pálida?!). Por mais ridículo e absurdo que possa ser, é exatamente isso. Não é nem preciso frisar que esse pessoal está se lixando para a criminalidade no interior da cidade universitária ou para a morte de estudantes que eles consideram como “burgueses alienados”. São eles que representam o crime no campus da USP, logo, são inimigos de quem atua combatendo o crime. Quando argumentam que o “poder estabelecido a favor do grande capital criminaliza os movimentos sociais” não estão agindo nada diferentemente do que preconizam os manuais da esquerda terrorista, de Netchaiev a Lamarca, passando por Lenin e Gramsci. É o pior marxismo possível, se é que se pode piorar aquilo que já é horrível. É a lógica da manipulação da verdade, da autovitimização, do nivelamento por baixo, o que se traduz no lobo em pele de cordeiro, na tática da subversão dos cupins, lenta e silenciosa, mas que aparece de surpresa em estágio avançado. Já passou faz tempo da hora das pessoas em geral admitirem que o emblema da foice e do martelo conota crimes tão perversos e execráveis quanto a suástica e, desse modo, de colocá-lo no mesmo estatuto de proibição.
Não adianta, como declarou o governador Geraldo Alckmin, dizer que essa gentalha precisa de uma “aula de democracia”. Eles não reconhecem a democracia, que no Brasil é só uma quimera, senão como um “falseamento da sociedade burguesa”. Nunca defenderão sistema democrático algum, já que comunistas são autoritários e totalitários, não democratas. Comunistas não sabem o que é teoria política, não enxergam a dimensão política à parte daquilo que assumem como sendo a superestrutura, subordinada à base material e econômica e, assim sendo, como alguma coisa secundária e sem maior importância. Não há política entendida como debate de ideias no regime que defendem e seus atos agressivos, violentos e arbitrários assim o provam. Não há lei para essas pessoas, senão a “lei histórica” que condena os “elementos contrarrevolucionários” à eliminação. Para eles, a história é a “parteira da revolução”, uma história já determinada a priori, bastando apenas que a ação revolucionária a coloque em movimento. “Toda história é a história das lutas de classe”, segundo as primeiras frases do Manifesto Comunista, um dos escritos mais fraudulentos que a estupidez humana já produziu.
Esses revolucionários extemporâneos só podem ser tratados como criminosos e qualquer coisa que não seja isso, é apenas eufemismo que os fortalece e joga contra as pessoas de bem e com as ideias de liberdade, de humanismo, de democracia e de respeito ao indivíduo e à sociedade. Não seria, a princípio, um horizonte difícil de vislumbrar, contudo, ele só será alcançado no dia em que as aberrações de cunho marxista forem completamente esquecidas, projeção bem mais difícil de se concretizar.

sábado, 29 de outubro de 2011

Paul Di'Anno. Quem?!


Paul Di'Anno, primeiro vocalista oficial do Iron Maiden, é um artista de capacidade no mínimo discutível. Os álbuns Iron Maiden e Killers, os dois primeiros gravados pelo grupo britânico, possuem o altíssimo padrão de qualidade maideniano, fato que se deve exclusivamente à atuação de Steve Harris, Dave Murray, Adrian Smith (que ainda não fazia parte da banda no primeiro disco) e Clive Burr; Di'Anno não foi mais do que mero coadjuvante, um vocalista sempre muito mais afeito ao gênero punk do que ao Heavy/Hard.
Recentemente, o ex-vocalista do IM fez mais uma de suas maçantes aparições, que invariavelmente nada acrescentam à música, e concedeu entrevista na qual, lá pelas tantas, a entrevistadora lhe propôs dar nota de zero a dez para alguns vocalistas. Como seria absolutamente previsível, um dos avaliados foi Bruce Dickinson, que recebeu algo em torno de 7,25. Justificando-se, Di'Anno saiu-se com a tática tipicamente utilizada por quem padece da carência de talento: "Bruce é alguém treinado para cantar, ele não tem emoção". Uma avaliação patética, tremendamente equivocada não só porque o óbvio recomenda nota bem mais elevada, (se Di'Anno fosse elegante e humilde não teria problema em enaltecer a extrema perícia vocal de Dickinson) mas também porque o IM conquistou reconhecimento fenomenal graças inclusive ao trabalho daquele que causa profunda inveja em Di'Anno, o próprio Bruce. Mais ainda: opor técnica e feeling como se fossem quesitos mutuamente excludentes é uma maneira simplista e até mesmo inocente de enxergar a arte. Ninguém pode atestar objetivamente que o feeling de Di'Anno é de causar inveja ou que Dickinson não possua tal dom. Por outro lado, atribuir qualidade técnica é uma tarefa objetivamente verificável e quem ouve Dickinson cantar Hallowed By Thy Name, Alexander The Great, Seventh Of A Seventh Son ou The Talisman, sabe que ele é infinitamente superior a Di'Anno, mesmo quando este demonstra algo mais, como por exemplo, em Phantom Of The Opera.
Fora do Iron Maiden entre 1993 e 1999, Dickinson realizou trabalhos memoráveis como Accident Of Birth e Chemical Wedding, já Di'Anno, desde 1981, nada fez que seja digno de nota. Diante da avaliação de Di'Anno só se pode concluir que a desculpa atrás da qual se refugia um sujeito cujos vocais não representam nada - somente mais um dentre tantos que nunca saíram do anonimato, ao contrário dele, a quem o posto de frontman do IM caiu do céu, acaso rapidamente reparado em função de seu comportamento incompatível com o profissionalismo, além da própria falta de talento - é o discurso manjado que denota inveja e complexo de inferioridade perante a ausência de competência. Di'Anno, quem é você? Não é ninguém, a não ser um cantor insignificante que trinta anos depois de ser despedido do IM continua não sendo capaz de aparecer sem que seja às expensas da banda em que um dia as circunstâncias ousaram colocá-lo. Foi tarde, ainda bem. Up the Irons!

sábado, 22 de outubro de 2011

Torres de marfim: traços do atraso mental latino-americano


A América Latina é mesmo um continente fadado à desgraça. Mais de três séculos de colonização ibérica desprovida de qualquer intuito filosófico ou espiritual, um megalomaníaco personalista com complexo de Napoleão considerado até hoje "El Libertador"; no pós-independência, uma aristocracia agrária tradicionalista ocupando o poder político até o século XX e, depois dela, transmutando-se em seu lugar, uma casta política corrupta e muitas vezes autoritária, aquela que define os rumos da nossa sociedade, não sem a ajuda fundamental dos tolos em catarse que lhe outorgam poder. A pobreza econômica, como nem poderia ser diferente, é fruto desse desenvolvimento histórico peculiarmente nefasto. Quanto à intelectualidade latino-americana, boa parte de seus representantes permanece confinada à estreiteza de visão, atrasada em cerca de 50 anos, que a faz adotar em pleno século XXI as teses do marxismo vulgar.
Diante de uma tal miséria de pensamento, ninguém há de estranhar os paradoxos que abundam no cotidiano desse pobre continente. Poucos, inclusive, são capazes de escapar do véu de ignorância que cobre a reflexão devida, minuciosa e necessária a respeito dos erros da América Latina, algo a fazer destas terras uma massa inerte sempre presa ao atraso - até Hegel, e depois, Marx, já pensavam assim, para desespero velado de seus arautos que abundam por aqui. Apenas quando as pessoas se propuserem a destrinchar o que está por trás de tamanha confusão de ideias e inversão de valores que assolam a América Latina, tarefa difícil, é que poderão, talvez, se indignar contra esse panorama.
Muitos cientistas humanos, enclausurados em suas torres de marfim, enxergam a si próprios como seres iluminados por uma espécie de conhecimento obtido por vias metafísicas. Eles se apegam a mitos, ideias e paixões ideológicas cristalizados pelo tempo, quimeras supostamente imunes às mudanças históricas, mas que na verdade não podem pretender explicar contextos em constante mutação. Uma das grandes contradições inerentes a tais formas mitômanas de pensamento se dá em função delas manterem discursos que recorrem exaustivamente à história, ao mesmo tempo que deixam de prestar atenção ao novo, equivocando-se em relação ao velho. Os fenômenos da mentalidade, geralmente desprezados pelos ideólogos mais radicais, são aqueles que se perpetuam com maior resistência no tempo histórico - tem-se aqui, sendo assim, outra enorme contradição - e que, apesar de tênues, difusos e de requererem análise acurada, quando bem esquadrinhados, fornecem o quadro detalhado de uma sociedade e de sua cultura. Os exemplos que trago a seguir são pormenores aparentemente desimportantes, contudo, extremamente reveladores dos traços mentais que se refletem na cultura e na visão de mundo de uma considerável parcela dos habitantes da América Latina, evidência de como as ideias interferem vivamente na realidade, mesmo que elaboradas em completo desacordo com o real.
O jornalista e historiador Lúcio de Castro, típico representante da esquerdopatia latinoamericana, é alguém que ainda se presta a contorcionismos argumentativos para pensar na ditadura cubana e em Che Guevara como dignos de louvor e elogio. Nessa semana, ele ganhou o Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo por uma série de reportagens que realizou sobre o Haiti. Lúcio afirmou no dia seguinte à premiação, que o mais importante é estar sempre denunciando o desrespeito aos direitos humanos que vigora naquele país. Não passa em nenhum momento pela cabeça do premiado, que as mazelas haitianas são, em parte, resultado dos problemas internos do Haiti. Daí nem surpreende que ele silencie sobre a absoluta desconsideração que a população haitiana mantenha com relação aos animais. Lúcio pode acreditar, juntamente com os haitianos e sua religiosidade de matriz africana, que os sacrifícios de animais não representam mal algum, pois são oferendas ao deuses. Se tais deuses existem, uma coisa é certa: eles, na verdade, detestam os sacrifícios de animais, do contrário o Haiti teria IDH maior que o da Noruega.
É claro que os direitos humanos devem ser valorizados e que deve haver denúncia quando não forem observados, caso do Haiti, mas se a pobreza lá só fosse devido a isso, resolvê-la seria mais fácil do que realmente é. Além do mais, com que propriedade um admirador de Che Guevara é capaz de abordar qualquer tema ligado a direitos humanos?
Luiz Felipe Pondé é filósofo e colunista da Folha de São Paulo. Suas opiniões políticas são muitas vezes bastante interessantes e isentas de ideologismo retrógrado. Ele já foi, por exemplo, autor de um excelente artigo acerca da Revolução Francesa, desmistificando os turbulentos e violentíssimos acontecimentos que marcaram a época Terror, momento no qual a ideia de liberdade passou tão longe quanto a França dista das Ilhas Fiji. Melhor do que qualquer livro didático que conheço. Por outro lado, Pondé é dono de argumentação execrável quando escreve a respeito de ética. Ele crê que qualquer discussão sobre o tema não passa de blá-blá-blá e que a Filosofia nunca entrou em consenso quando se trata da questão. A menos que Pondé seja da corrente que interpreta a Filosofia como sendo uma ciência, posição praticamente insustentável atualmente, ele se veria obrigado a admitir a falta de consenso em tudo aquilo que é discutido pelos filósofos, dada a natureza especulativa do ato filosófico. Além do mais, se há tema na Filosofia que estabeleça acordo muito maior do que os outros, esse tema é a ética, cuja reflexão aristotélica, datada de mais de 2 milênios, é até hoje a mais poderosa. Se filósofos como o próprio Aristóteles ou Kant puseram-se a pensar nas bases da ética, tal não ocorreu, como defende Pondé, em função da idealização de um mundo perfeito, mas devido ao exato oposto, ou seja, à imperfeição e à incompletude humanas, causas das tragédias da existência do Homem no mundo, como já ensinavam Sófocles, Ésquilo e Eurípedes. É estarrecedor que um latinoamericano, brasileiro, como Pondé, ache que a ética não deva ser assunto trazido à tona, ainda mais quando se vive uma época em que a observância de deveres éticos esteja tão desprezada. O lapso pondeano serve bem para explicar porque ele entende que seres humanos não precisam se preocupar em respeitar animais, afinal, seu especismo antiético não pode reservar lugar para compaixão em relação a criaturas sobre as quais a ética deve existir em grau igual ou maior do que com humanos. Pondé parece ter receio de incorrer na pieguice do politicamente correto, equívoco recorrente da velha esquerda da qual ele não faz parte, mas peca por não perceber que a ética é um elemento de interioridade do indivíduo, não tendo nada a ver com experiência coletiva. Sr. Pondé, de fato, os animais não são iguais aos seres humanos, como pensa Peter Singer,... são bem superiores.
No âmbito do público leigo, o pensamento latinoamericano arrisca colocar as asas para fora das torres de marfim, contaminando desse modo as opiniões daqueles que são míopes histórica, filosófica e politicamente. Há alguns dias o craque argentino Lionel Messi, geralmente avesso a entrevistas, resolveu falar. Deu declarações não a respeito de futebol, mas sobre política e sociedade, defendendo Che Guevara (ele de novo, torcedor do Real Madrid!) e afirmando que o problema das drogas não é responsabilidade da pessoa que se vicia, e sim da falta de oportunidades. Era melhor se Messi tivesse permanecido calado, ele que já foi tema de artigo escrito por aqui para enaltecer sua seriedade e humildade. O jogador do Barcelona mostrou que nada sabe em matéria de história da América Latina, provavelmente derivando a lamentável defesa do sanguinário Che daquilo que ouviu de algum ex-professor seu, filhote de Abimael Guzmán. Como se não bastasse, ao mencionar a questão das drogas, revelou que não reconhece nenhum sopro de vida interior, algo bastante estranho para quem mantém perfil como o dele, eximindo completamente o indivíduo de suas escolhas e responsabilidades.
Na semana em que a abertura da Copa 2014 foi anunciada para o estádio de Itaquera, que está sendo erguido às custas de dinheiro público, algo que já seria um absurdo tremendo mesmo se não fosse destinado a uma entidade particular, como é o caso, imbecis de plantão em redes sociais e fóruns de discussão mostraram seu contentamento. Gente ufanista, ingênua e incoerente, gente que sofre com carência de serviços básicos, mas que põe paixão clubística e patriotismo tolo acima da dignidade, da decência e da cidadania. Gente que não pode reclamar de injustiça alguma, já que aplaude a esbórnia e a manipulação dos políticos, dos dirigentes e da Rede Globo. Há sujeitos tão idiotizados, néscios e estúpidos que chegam ao cúmulo de acreditar que se opor à forma como essa Copa está sendo montada representa "interesses burgueses de quem não quer ver a periferia se desenvolver". Não sei se fico com raiva de tamanha ignorância ou com dó pela facilidade com que se engana esse pessoal.
Assim como suas referências, vide o tal Che Guevara que insiste em assombrar este continente, o idiota latinoamericano apenas consegue pensar com base em oposições antagônicas, lutas de classe e maniqueísmos. Assim, as ideias divergentes significam obstáculos a uma suposta justiça social, apanágio de quem possui "sensibilidade política" e aqueles que as defendem devem ser varridos para que o curso histórico prossiga desimpedido e a justiça se faça. Essa lógica tragicômica determina quatro resultados: 1) a crença em ideias falaciosas, 2) a incapacidade de diálogo e análise da realidade isenta de paixões, 3) a inversão de valores e, o quarto e mais deplorável, o atraso latino-americano. Pobre da América Latina, econômica e espiritualmente.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Que educação?


Sempre afirmei que a educação é o fator primordial para que um país consiga se desenvolver. Continuo com a mesmíssima opinião, mas quando penso no Brasil, e isso já faz um certo tempo, sou obrigado a ressalvar, afinal, não é de modo algum a educação que aqui se tem hoje aquela que irá conduzir o país em bons rumos. Que educação, então? Eis a pergunta a ser colocada.
A resposta é bastante simples: a educação nos moldes da Coreia do Sul, da Finlândia ou da Suiça. Acontece que não é possível, evidentemente, aplicar a mesma educação dessas nações no Brasil como num passe de mágica. Seria preciso, isso sim, desenvolver uma educação propriamente brasileira mirando-se no exemplo fornecido por aqueles que possuem sistemas educacionais virtuosos, missão mais difícil ainda na medida em que a cultura da sociedade brasileira, ao contrário do que se observa nos países citados, não favorece a construção de um projeto educacional bem estabelecido. Ainda que pudéssemos implantar algo do tipo desde já, levaria no mínimo umas três décadas para que se colhessem os resultados.
Fui graduando no passado, sou professor e historiador no presente e, desde o momento no qual de alguma forma passei a estar envolvido com a educação, presenciei situações em que ela é tratada somente como um fim em si mesmo. Na sala de aula da faculdade topei com professores que não acreditavam que a educação fosse caminho para coisa nenhuma, a não ser para a perpetuação de um sistema econômico que eles julgavam falho. Viés ideológico que em nada contribui para pensar sequer na possibilidade de modificar o sistema, caso de perguntar, então, o que eles pretendiam com a atividade docente. Já verifiquei também quem não pudesse admitir que só a educação desse jeito no desenvolvimento de uma nação. Ninguém em sã consciência acha que é o único fator, mas pensa sim que uma educação sucateada e muitas vezes ausente, jamais irá permitir o florescimento e a manutenção de prerrogativas essenciais para a vivência individual e coletiva. Sendo assim, não consigo vislumbrar possibilidade de reflexão acerca de questões que estão na ordem do dia, tais como preservação ambiental, desenvolvimento tecnológico, liberdade política e cumprimento de direitos e deveres sem haver educação para tanto. Vem daí justamente a noção de que a educação não deve nunca ser entendida sem que se considerem seus desdobramentos positivos. Educação tem a ver com formação humanista, uma das únicas utopias que estamos autorizados a aspirar.
No Brasil, as instâncias governamentais têm discutido o aumento da carga horária no Ensino Básico sem atentar para o trivial: quantidade não significa qualidade. O número de dias letivos atualmente já é maior do que foi no passado e isso não melhorou o perfil do sistema educacional no país, pelo contrário. Há ainda aqueles que nunca passaram nem perto de uma sala de aula, mas que ainda assim se atrevem a emitir pareceres supostamente abalizados sobre o assunto, quase sempre atribuindo ao professor as responsabilidades pelo fracasso educacional. Não se nega que certos professores estejam mal preparados, mas nesse caso a culpa é também do próprio empregador que não investe em aprimoramento e em reciclagem, bem como da instituição de Ensino Superior que formou o docente. Nunca é demais lembrar que na maioria das vezes o professor não tem autonomia para poder escolher a melhor didática em situações específicas, é obrigado a trabalhar com alunos de perfil extremamente variado dentro de uma única sala, não raro superlotada, tem que resolver problemas particulares dos pupilos, tem que lidar com preguiça, desinteresse e desrespeito, não conta com apoio pedagógico da coordenação, não conta com boa infraestrutura oferecida pelas escolas, sofre com material didático viciado pela vulgata marxista, atua de acordo com uma legislação extremamente permissiva em relação ao corpo dicente, resultando em aprovações automáticas, e recebe salários baixos.
Além dos tantos problemas internos à escola, ocorrem prejuízos de caráter difuso e de matriz cultural muito difíceis de serem resolvidos. O termo “mercantilização” é exaustivamente utilizado quando se aborda o interesse das instituições de ensino pelos lucros, o que parece uma perspectiva douta, mas não passa de visão politicamente correta, quando muito. Quando se trata da educação básica, caberia aos pais estarem atentos à qualidade da instituição, determinando valor cobrado por qualidade oferecida. Quem quisesse dinheiro fácil sem oferecer bom produto, ficaria em maus lençóis. Infelizmente, esse contrapoder que o consumidor deve exercer não faz parte dos hábitos do brasileiro. Aqueles que condenam o lucro mesmo quando obtido com qualidade, são os mesmos que se veem sem argumentação quando precisam desaprovar o lucro sem razão de ser, patologia típica do capitalismo tupiniquim, que atinge tanto quem vende, como quem compra. No Ensino Superior, a proliferação de universidades seria até mesmo benéfica se a qualidade fosse uma meta, mas como não é, o simples desejo por diplomas acaba satisfazendo a alunos que mal precisam assistir às aulas. Eles pagam para obter a graduação e as universidades vendem canudos. Aqui, o governo que tanto cuida de assuntos que não lhe competem, peca por omissão, já que se os processos seletivos - que na prática não têm acontecido - se voltassem com maior ênfase para o desempenho dos alunos durante os anos de Ensino Básico, o público alvo seria melhor selecionado, forçando os vestibulandos a se comprometerem enquanto alunos escolares; já as escolas, por uma questão de reputação, se veriam mais condicionadas a preservar a qualidade.
Ninguém que analise com critério o panorama educacional brasileiro irá acreditar que esse modelo falido de educação possa resolver os problemas do país e abrir as portas para seu desenvolvimento. Tenho trabalhado repetidamente com meus alunos o tema discutido no presente artigo, sinto porém, que numa sociedade que se acostumou tão passivamente a acreditar em um governo falastrão, assim como criancinhas acreditam em contos de fadas, e para a qual a ignorância e a falta de conhecimento não são considerados prejuízos gravíssimos, nem façam muita diferença, falar de educação de qualidade como fator essencial de desenvolvimento é quase como pregar no deserto. Em tempo: enquanto o PIB brasileiro destinado à educação fica bem abaixo do recomendado pelos organismos internacionais, o governo do PT gasta atualmente, via BNDES, R$ 5,3 bilhões construindo obras em alguns de seus países vizinhos. É a cara do Brasil...

domingo, 9 de outubro de 2011

Francisco de Assis: pensador da interioridade humana


Em 4 de outubro celebra-se o dia de São Francisco de Assis, um dos santos que mais tem atraído o fervor das pessoas. Desde a Antiguidade, não só no Ocidente, mas antes, inclusive, no Oriente budista e confucionista, as questões éticas e as virtudes têm sido trabalhadas como um elemento de interioridade humana, algo cuja consideração no mundo pós-moderno ocidental se mostra em vias de esgotamento. É quase um crime contra a existência humana esquecer que os grandes líderes da história foram pessoas de caráter formado a partir de sólidas bases morais.
No Ocidente, durante a Idade Média, com a prevalência da Igreja Católica, a fé suplantou a filosofia especulativa e os ensinamentos religiosos transmitiram a ideia de que a vida terrena deveria ser orientada com foco no temor a Deus, único caminho para a remissão dos pecados e para a eterna Salvação. Evidentemente, como homem medieval, Francisco inseriu seu pensamento dentro dos parâmetros possíveis à época e, como tal, a fé religiosa foi um aspecto fundamental da regra franciscana. Do contrário, Francisco não teria sido canonizado logo em 1228, apenas dois anos depois de sua morte, tampouco arrebataria tamanha quantidade de devotos, praticantes ou eventuais, nos dias contemporâneos, uma vez que sua mensagem extrai força muito em função do culto que o catolicismo lhe rende.
Por outro lado, e aí começamos a pensar no santo sob uma perspectiva menos convencional e mais confidencial, a meu ver exatamente aquela que desperta maior interesse, se o Francisco católico é o mais conhecido e se sua imagem não pode de modo algum se desvincular da Igreja Católica, há um outro franciscanismo cujo pensamento situa-se em âmbito filosófico, ao invés de religioso.
Um dos problemas historiográficos mais pertinentes e intrigantes que, creio eu, ainda não teve a devida atenção, diz respeito à inserção, ultra rápida, como vimos, de Francisco no interior da ortodoxia católica. No período medieval, enquanto a Igreja Católica formulava essa ortodoxia, precisou definir o que a ela não pertencia, ou seja, aquilo que poderia se enquadrar como heresia, perigo bem maior do que a apostasia, já que os hereges eram parte do ecúmeno católico, diferentemente dos apóstatas, situados mais nitidamente à margem da religião e da Igreja. Não seria nada surpreendente se hoje nossas fontes de conhecimento informassem que o franciscanismo, assim como o arianismo, o joaquimismo ou o catarismo, fosse uma doutrina considerada herética. Teria a Igreja Católica rapidamente inserido o franciscanismo na ortodoxia já prevendo o poder de persuasão de uma parte, ao menos, de sua mensagem? Francisco esteve em Roma tratando com o papa a respeito de sua regra, tarefa na qual foi hábil e contou com a ajuda de autoridades eclesiásticas como o cardeal Ugolino. No entanto, são explicações insuficientes para responder porque o pensamento de Francisco não foi classificado como herético.
A mensagem franciscana, apesar de religiosa, é também filosófica, pois ainda que Francisco admirasse bastante o Evangelho de João e tenha se inspirado nele para estabelecer sua regra, o cerne de seu pensamento é o Cristo dos primeiros tempos, o Cristo anterior à Igreja Católica. A evidência disso é a estrita observância da pobreza, elemento principal do franciscanismo e que se manifestava totalmente contrário à opulência da Igreja, já consolidada na Alta Idade Média. O pensamento de Francisco revela um fortíssimo senso de interioridade e de subordinação do eu ordinário à vontade superior, em seu caso, uma vontade superior que emana de Deus, mas que ao mesmo tempo se traduz em forma de ação cotidiana nas virtudes da coragem, da generosidade, da compaixão por todos os seres sencientes, da humildade, da simplicidade, da doçura e da alegria. A integridade moral, para Francisco, é exercer todas essas virtudes de bom grado e de bom humor, com base na obediência interna que restringe desejos expansivos e destrutivos. A felicidade, assim, é obedecer as virtudes com alegria, tal como Jesus Cristo pregava.
No mundo de hoje, para o cidadão comum, não é mais possível realizar o voto de pobreza, seguindo o exemplo inscrito na regra de Francisco, todavia, a interioridade humana permanecerá sempre como o único depósito confiável da ética e das virtudes, - deveres humanos - algo que confere caráter universal e grandeza de propósitos à mensagem franciscana. A contemporaneidade se encontra repleta de filosofias externalistas, extremamente perniciosas, já que incapazes de oferecer qualquer solução para o problema da falibilidade dos homens. Segundo tais teorias, o fator impeditivo da felicidade humana, nesse caso claramente confundida com prazer, é uma conspiração externa e independente ao sujeito, advinda, seja de fatores econômicos e políticos, ou existenciais num sentido bem superficial. Admitindo a vontade imediata, irrefreada e isenta de reflexão moral como resposta para a libertação, as filosofias externalistas se mostram não mais do que ilusões paliativas, geradoras de degradação progressiva para o sujeito que não atenta para as verdades da interioridade, dado que o real, em última instância, será sempre independente desse sujeito, indiferente e muitas vezes incompatível com os desejos expansivos. É exatamente em tempos como estes em que, apesar do entusiasmo que a filosofia de Francisco de Assis consegue despertar de maneira mais despreocupada, um exame aprofundado de sua mensagem filosófica, nem sempre merecedor da reflexão devida, se faz mais do que necessário.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Feiras vendendo filhotes? Fuja desse crime!


Os escritos que seguem abaixo iriam ser alocados a princípio no tópico "E ENTÃO", porém, como o assunto é sério demais para merecer menos destaque, abro uma postagem exclusiva para trazer à tona mais um crime que acontece à luz do dia e debaixo dos narizes da população brasileira.
A venda de filhotes de cães de raça em frente à Cobasi Villa Lobos (SP) continua rolando solta. Em São Paulo a lei nº14.483/07 proíbe a venda de animais em locais públicos, onde geralmente ficam expostos debaixo de intempéries, sem água nem comida durante horas, mas como estamos em um país no qual leis existem para ser descumpridas, a infração é praticada sem que os infratores se preocupem com possíveis punições, que na maioria das vezes, não ocorrem. Quantas dessa feiras ilegais não são realizadas Brasil afora?
Além dos inúmeros maus tratos que os criadores cometem, chegando até mesmo a descartar animais que nascem com alguma anomalia ou aqueles que "encalham" e, já mais crescidos, não encontram mercado, os desdobramentos negativos muitas vezes envolvidos nesse tipo de comércio são bem conhecidos por pessoas minimamente conscientes e informadas (escrevi neste blog o artigo Porque não comprar animais, abordando exatamente tal situação).
Como se não bastassem esses problemas graves, há animais para adoção dentro da própria Cobasi. Há animais para adoção em ONG´s, em abrigos e em pet shops. Há ainda animais nas ruas esperando para serem resgatados. Só mesmo quem é totalmente estúpido e ignorante pode fechar os olhos diante desse quadro e chegar ao ponto de comprar animais.
Denunciar não basta nesse país, pois as coisas não são levadas a sério. O jeito é gritar contra esse absurdo e tentar convencer quem pensa em comprar algum bicho de estimação a não fazê-lo de modo algum, optando pela adoção. Quem sustenta esse comércio indecente, afinal de contas, é o comprador, para o qual as feiras existem. Aqui, ainda que seja o mínimo a se fazer, este blog tenta cumprir seu papel na prestação de informação. JAMAIS COMPRE ANIMAIS, ADOTE-OS!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Quo vadis, Dilma?


Passados nove meses da presidência de Dilma Rousseff, há pouco de novo o que refletir sobre seu governo, até porque a sucessora de Lula ainda não deixou claro a que veio, um absurdo depois desse tempo na gerência do país. No máximo, é possível compará-la com o ex-presidente, em relação ao qual ela tem algumas vantagens, mas também, vários pontos negativos em comum, sobretudo a incapacidade para realizar as mudanças estruturais necessárias, sem as quais o Brasil não sairá de seu atraso institucional e socioeconômico.
Ao contrário de Lula, Dilma é muito mais discreta e bem menos autoindulgente, mais preocupada com o cotidiano administrativo e menos palanqueira, o que seria bem significativo se ela pudesse usar tais características para se desvencilhar de seu antecessor, o pior político que já governou o país. Acontece que a presidente não tem como fazer isso, pois é Lula quem fornece o lastro velado que possibilita a governança dilmista. Arrisco afirmar que todo o mandato de Dilma irá se desenrolar sob o prisma do banho maria, tática que atende bem ao objetivo de deixar o terreno em pousio até que o ex-presidente retorne como presidenciável em 2014.
Na semana anterior Dilma discursou na ONU, causando aquele típico furor ingênuo entre seus correligionários. Nada surpreendente em se tratando da militância petista que, historicamente e em qualquer situação, coloca o partidarismo bem acima dos projetos de governo. Estranho, isso sim, foi ter observado a presidente malhando o Partido Republicano dos EUA por ser partidarista, ao mesmo tempo em que ela é do PT, a mais partidária das siglas brasileira. Por sinal, as contradições deram a tônica do fraco discurso de Dilma, obedecendo ao velho “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”. Primeiro, como mulher ocupante do cargo de líderança máxima da nação mais influente da América Latina, ao menos em tese,  ela abordou o feminismo, mas sem que o assunto tenha sido alguma vez utilizado como mote de sua campanha e de seu programa. Oportunamente, ela se disse favorável à criação do Estado Palestino, porém, não fez qualquer menção crítica aos governos tirânicos do mundo árabe, algo que inclusive, tem muito a ver com a condição feminina.
Dilma discursou também a respeito do protecionismo, atacando países europeus que adotam a prática, no entanto, falou isso dias depois de ter autorizado o aumento do IPI sobre veículos importados, medida absurda, inexplicável, tiro fatal na tentativa de obrigar as montadoras brasileiras a entrar na competitividade. Com o aumento desse imposto, o governo promove dois disparates de uma única vez, isto é, passa a causar receio no investidor estrangeiro e mantém no atraso a parca indústria automobilística nacional. Se quisesse tomar uma medida saudável e inserir o automóvel brasileiro na corrida de mercado, teria reduzido os impostos, que chegam a alcançar cerca de 37% do valor de compra, o dobro verificado em outros países emergentes. Levantar essa bola no Brasil, porém, é ser “neoliberal”. Em termos de política interna, as contradições não se diluíram, muito pelo contrário. Dilma fez uso do clichê “substituir teorias defasadas, de um mundo velho, por novas formulações para um mundo novo”. Bonito e... ordinário! É o pessoal do partido dela que ainda vê a globalização como imposição econômica e unilateral dos países do Norte, são os mesmos que acreditam na aplicação de teorias desenvolvimentistas e estatizantes para o mundo atual e que enxergam no liberalismo não mais do que uma ideologia burguesa.

O Brasil precisa de uma renovação urgente em seus alicerces, que permanecem fincados no lodaçal do paternalismo, do clientelismo, do populismo, dos interesses familistas e dos privilégios da casta política, mas Dilma não tem estofo nenhum para enfrentar os fantasmas da velha (des) ordem nacional. O próprio PT nunca foi marcado por interesses verdadeiramente modernos e democráticos, ilusão de tanta gente que não tem noção alguma a respeito de democracia. Foi um partido que nasceu apenas na tentativa de fazer valer o seu autoritarismo, sobre outro, então vigente.
A inépcia do governo Dilma, como já ocorria na era Lula, comprova-se na medida em que certos índices são postos em análise: o investimento em educação é de aproxidamente 4,5% do PIB, metade do que se gasta em países desenvolvidos, algo gravíssimo para uma nação que vai bem mal das pernas nesse indicador; em tecnologia, não passam de 1,6%, até quatro vezes menos do que o recomendável; finalmente, no tocante aos gastos com meio ambiente, o Brasil fica abaixo de inúmeras outras nações, com R$ 4,43 por hectare, relação péssima entre a extensão das áreas a serem preservadas e as despesas investidas na preservação. É inconcebivel que num país com carga tributária tão pesada, os investimentos em setores chave do desenvolvimento socioeconômico se situem em patamares bem abaixo do necessário. Governo que gasta muito no que não deve - vide eventos esportivos inú
teis - e pouco no que é preciso. E então, presidente Dilma Rousseff, cadê a reforma tributária, cadê a correção dos investimentos devidos?!
A atual presidente do Brasil está há nove meses no cargo e sua administração efetiva ainda não se iniciou. Fica evidente a falta de habilidade, personalidade, coragem e interesse de Dilma Rousseff em lidar com os problemas do país e dar um jeito na falência de nossas instituições. Poderão afirmar que, pelo menos, ela vem promovendo a tal faxina contra a corrupção, o que não seria pouco. Acreditei nisso até que Dilma trocou o ministro do Turismo por um apadrinhado político do clã de Sarney. Para onde vais, Dilma Rousseff? Certamente, vai na contramão do desenvolvimento. É a cara do Brasil!

sábado, 17 de setembro de 2011

Nenhuma ovelha negra para o marxismo


Escrevi há tempos o artigo intitulado A inglória tentativa de salvar Stalin, procurando delinear evidências históricas que ajudam a desmentir qualquer possibilidade de conferir ao ditador totalitário algo de positivo e que o isente do horror que comandou.
Um liberal, por princípio, se coloca em posição de absoluto antagonismo aos que defendem o regime stalinista. No entanto, a linha de pensamento pró-Stalin tem uma vantagem, ou seja, permite identificar claramente a doutrina comunista e todo o ideário daqueles que a adotam. É também uma postura mais autêntica, na medida em que não precisa fazer uso de distorções para assumir o pensamento de Marx em seus fundamentos, ou pelo menos, o mais próximo possível deles.
Na década de 1950, antes mesmo da abertura dos arquivos de Moscou, portanto sem dispor de muita documentação, mas dotado de enorme percepção histórica, Waldemar Gurian, com seu brilhante Bolshevism: An introduction to Soviet Communism, até hoje infelizmente sem tradução para o Português, foi um dos primeiros a concluir que jamais houve ruptura de preceitos entre Marx, Lenin e Stalin. Depois desse estudo pioneiro, autores como Leszek Kolakowski, Czseslaw Milosz, Orlando Figes, Robert Service, Simon Sebag Montefiore e Robert Gellattely, já dispondo de farta documentação acerca do totalitarismo soviético, confirmaram aquilo que Gurian havia trazido à tona. Na década de 1960, alguns anos após o escancaramento dos crimes stalinistas, vários escritores, políticos e historiadores romperam com o comunismo. Outros, por apego ferrenho à ideologia, continuaram fiéis à tradição de Marx e, assim sendo, mantiveram-se igualmente fiéis a Stalin.
Apesar do stalinismo estar vivo até hoje, inclusive motivando estudos recentes que buscam mais do que nunca reabilitá-lo para o grande público, - daí o artigo que escrevi - a corrente stalinista não é majoritária dentro do pensamento de cunho marxista. Tal papel cabe à vertente leninista, que de sua parte insiste em afirmar que Stalin é a negação dos ideais de Marx, a ovelha negra do marxismo, protagonista de um regime brutal que nada teve a ver com a teoria exposta pelo pensador alemão. Lenin, segundo essa visão, seria um homem virtuoso, bem intencionado, cujo grande objetivo foi curar a Rússia dos males provocados pelo czarismo através da distribuição da riqueza e da mudança para um regime de liberdade política, algo que ele teria consolidado se vivesse por mais tempo. Não é preciso ressaltar que a interpretação leninista não consegue enxergar a figura de Stalin como exato representante da consolidação da revolução de Outubro de 1917, além do fato, mais óbvio ainda, de que a realidade revolucionária sob o próprio Lenin, transcorreu de maneira totalmente contrária ao que estava presente nos discursos e na manifestação das intenções.
Na obra prima de Gurian podemos verificar que a teoria revolucionária veio da pena de Marx, o estabelecimento dos meios táticos concretos ficou por conta de Lenin, algo que qualquer um reconhece e que não é novidade, mas também que a consolidação dos fins a partir da teoria e da tática preconcebidas, coube a Stalin. A luta de classes jamais deixou de fazer parte do regime stalinista, por isso a necessidade constante de impor o terror e os expurgos, situação inerente ao que Marx pregou desde as primeiras linhas do Manifesto Comunista. Não por acaso Stalin sempre ter citado Marx e Lenin como justificativa para suas ações.
O teórico do comunismo nunca conseguiu resolver a questão do motor da história como fator direto das leis da história ou da necessidade da ação revolucionária. O primeiro dos fatores serve somente para desmentir Marx, restando o segundo, não como manifestação proletária, mas sim como resultado das práticas de líderes encarnados por Lenin, Stalin e outros ditadores comunistas. Se Stalin e, logicamente Lenin, em algum ponto contrariam Marx, é justamente com relação ao papel do indivíduo na história.
Analisar intenções históricas querendo com isso isentar alguma personalidade política é uma empreitada arriscadíssima, tentativa cuja chance de incoerências e fracassos é notória. Não é nenhum absurdo acreditar que as intenções de Marx e de Lenin fossem as melhores possíveis. Por que as de Stalin seriam diferentes? Hitler vislumbrava um futuro reluzente para o povo alemão, seus pensamentos e discursos estão repletos de boas intenções. Entretanto, o que conhecemos na história acerca da experiência humana, é aquilo que tem existência prática e real, os métodos. Métodos completamente equivocados quando se trata das doutrinas totalitárias das quais o comunismo, incontestavelmente, faz parte. Métodos tais que jamais poderiam ser reavaliados por seus executores, pois constituintes essenciais de doutrinas que mantêm um descompasso característico para com a realidade, fruto, sem dúvida, do fanatismo que as abarca. Logo nos primeiros meses depois da revolução, Lenin, amparado pelo argumento peremptório do cumprimento da lei histórica, passou a eliminar os sovietes ou qualquer outro suposto inimigo da causa, implantando a ditadura dentro do próprio partido.
O comunismo não pode ser interpretado como uma ideia boa que não deu certo, mas que alguma vez poderá dar. Não, ao contrário, é uma ideia cujos fins podem ser bons na intenção, mas que inelutavelmente conduz a métodos brutais. Marx sempre frisou a violência como elemento característico da revolução, Lenin cansou de dizer que uma revolução sem pelotão de fuzilamento não faria sentido, Stalin institucionalizou os gulags e os expurgos, métodos sem os quais as leis da história não se processariam. Métodos que, analisados historicamente, nos revelam que o marxismo real, aquele que foi posto em prática e que só poderia resultar em um único caminho, não legou nenhuma ovelha negra, mas sim filhos legítimos das páginas escritas por Marx.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O ideólogo e o cientista - um diálogo


Um estudante do sétimo semestre do curso de Sociologia vai até o balcão de uma papelaria para comprar uma caneta esferográfica e um líquido corretivo. O dono do estabelecimento se formou há muitos anos em Biologia, concluiu doutorado e aposentou-se do cargo de botânico em uma grande instituição de pesquisa. Além de microempresário, tornou-se ávido leitor de livros de Humanas. O diálogo começa com o estudante ideólogo perguntando sobre o valor da compra, seguido pela resposta do cientista microempresário, obedecendo até o fim a mesma alternância.

- Quanto é?
- Ficou em um total de oito Reais e trinta centavos.
- Caro, hein? Fazer o que? É o capitalismo.
- Desculpe, mas não está caro, é o preço de mercado.
- O capitalismo age assim, ele promove lucro para poucos e pobreza para muitos.
- Meu amigo, não é por nada, mas preciso atender outros clientes...
- Claro, claro, quanto mais vender melhor, mais lucros! Capitalistas só pensam em ganhar dinheiro!
- Olhe, primeiro que esse termo "capitalismo" é genérico e ao mesmo tempo estigmatizado. Quem o usa quer explicar tudo, mas não explica nada. Se quiser falar em "economia de mercado", estará sendo mais preciso, mais específico. Segundo, estou fazendo meu trabalho.
- O mercado é a expressão da exploração capitalista! O senhor é o que, vendedor de canetas? Não enxerga as mazelas sociais, não tem noção da realidade, não percebe a alienação.
- Sou biológo aposentado, se quer saber.
- Ahhh, biólogo, está explicado! Não é um intelectual.
- Bem, cientistas não são considerados intelectuais no Brasil, o que é lamentável.

À  essa altura o dono da papelaria já havia sido obrigado a deixar o atendimento aos clientes da loja. Os funcionários continuavam o serviço.

- Intelectual é aquele que denuncia as contradições da sociedade!
- Caso esteja achando que o preço não é justo, não há problema, pode desistir da compra. Há uma outra papelaria a 10 minutos daqui, indo reto depois de virar à direita na próxima travessa.
- Não, deixa pra lá, estou com preguiça. Só fiz meu protesto.
- Se é assim... Só saiba que a concorrência existe justamente para isso nas economias de mercado. Cliente não está satisfeito aqui, pode procurar o mesmo produto ali ou acolá. Oferta e demanda...
- Não há ética no capitalismo!
- Está certo meu caro, o sistema econômico em si, não envolve questões éticas. A ética é um elemento puramente humano, são as pessoas que têm ética ou não.
- Conversa! Quem defende o capitalismo é indigno! Enquanto a burguesia se diverte em iates, em quadras de tênis e apartamentos de não sei quantos metros quadrados, o trabalhador passa fome. Todo burguês deveria doar um boi por mês para que o governo os redistribuísse às classes laboriosas.
- Bem, assistencialismo não elimina a pobreza. Além disso, eu por exemplo, sou um trabalhador, mas não quero que o governo me dê bois, a não ser que seja para eu cuidar deles. Acho muito estranho você fazer discurso sobre ética, dignidade, contradições, mazelas...
- Ah é, posso saber porque?!
- O que você pensa sobre o respeito que o ser humano deve ter com os animais? Como cientista e como cidadão ético, eu já aboli faz tempo o consumo de carne.
- Ahn? Está brincando, é vegetariano? Como pode não gostar de um churrasco? É muito bom! O senhor é um burguês que come folha!
- É..., como eu disse, a ética está nas pessoas, ou não... Já ouviu falar em emissão de metano na atmosfera? Sabe algo a respeito do consumo de água envolvido na pecuária? E o intenso sofrimento provocado por regimes de engorda e confinamento? E o próprio abate?
- Animais? Me preocupo com pessoas, o resto é alienação burguesa!
- Ora, ora, temos aqui um típico exemplar do pensamento especista, incapaz de enxergar qualquer relação ecossistêmica, alguém que não percebe que o ser humano faz parte do meio natural e não meramente o ocupa. Que lástima! Você pesquisa por empresas que respeitam padrões de sustentabilidade?
- Escute aqui, aonde você quer chegar com todo esse papo furado? O que tudo isso tem a ver com a exploração capitalista?
- Digamos que eu já tenha chegado até os fundamentos da sua ignorância. Eu poderia continuar e alertá-lo para o fato de que o consumidor possui o contrapoder de pressionar as empresas e assim proporcionar elementos de ajuste sobre possíveis desregramentos do sistema. Mas isso é demais para sua cabecinha de ideólogo!
- Opa, opa, você está me ofendendo!
- Ah é? Até agora foi exatamente só o que você fez! Sabe de uma coisa? A loja já passou do horário de encerrar o expediente, o dia foi muito cansativo e os funcionários precisam descansar, assim como eu.
- Quanto eu devo por essa droga?
- Nada! Não vou vender para você.
- O que?!
- É isso mesmo que escutou. Agora, ponha-se daqui para fora, vá estudar e tente obter maior ganho de consciência ao invés de propagar esse discursinho panfletário, simplista e cheio de clichês idiotas!

* PS: deve-se ressaltar, apesar de óbvio (nem todos enxergam um palmo além do nariz), que a parábola envolvida no diálogo não tem qualquer objetivo de depreciar sociólogos e estudantes e enaltecer biólogos, cientistas e microempresários; o cerne da questão é outro, evidentemente.