domingo, 9 de outubro de 2011

Francisco de Assis: pensador da interioridade humana


Em 4 de outubro celebra-se o dia de São Francisco de Assis, um dos santos que mais tem atraído o fervor das pessoas. Desde a Antiguidade, não só no Ocidente, mas antes, inclusive, no Oriente budista e confucionista, as questões éticas e as virtudes têm sido trabalhadas como um elemento de interioridade humana, algo cuja consideração no mundo pós-moderno ocidental se mostra em vias de esgotamento. É quase um crime contra a existência humana esquecer que os grandes líderes da história foram pessoas de caráter formado a partir de sólidas bases morais.
No Ocidente, durante a Idade Média, com a prevalência da Igreja Católica, a fé suplantou a filosofia especulativa e os ensinamentos religiosos transmitiram a ideia de que a vida terrena deveria ser orientada com foco no temor a Deus, único caminho para a remissão dos pecados e para a eterna Salvação. Evidentemente, como homem medieval, Francisco inseriu seu pensamento dentro dos parâmetros possíveis à época e, como tal, a fé religiosa foi um aspecto fundamental da regra franciscana. Do contrário, Francisco não teria sido canonizado logo em 1228, apenas dois anos depois de sua morte, tampouco arrebataria tamanha quantidade de devotos, praticantes ou eventuais, nos dias contemporâneos, uma vez que sua mensagem extrai força muito em função do culto que o catolicismo lhe rende.
Por outro lado, e aí começamos a pensar no santo sob uma perspectiva menos convencional e mais confidencial, a meu ver exatamente aquela que desperta maior interesse, se o Francisco católico é o mais conhecido e se sua imagem não pode de modo algum se desvincular da Igreja Católica, há um outro franciscanismo cujo pensamento situa-se em âmbito filosófico, ao invés de religioso.
Um dos problemas historiográficos mais pertinentes e intrigantes que, creio eu, ainda não teve a devida atenção, diz respeito à inserção, ultra rápida, como vimos, de Francisco no interior da ortodoxia católica. No período medieval, enquanto a Igreja Católica formulava essa ortodoxia, precisou definir o que a ela não pertencia, ou seja, aquilo que poderia se enquadrar como heresia, perigo bem maior do que a apostasia, já que os hereges eram parte do ecúmeno católico, diferentemente dos apóstatas, situados mais nitidamente à margem da religião e da Igreja. Não seria nada surpreendente se hoje nossas fontes de conhecimento informassem que o franciscanismo, assim como o arianismo, o joaquimismo ou o catarismo, fosse uma doutrina considerada herética. Teria a Igreja Católica rapidamente inserido o franciscanismo na ortodoxia já prevendo o poder de persuasão de uma parte, ao menos, de sua mensagem? Francisco esteve em Roma tratando com o papa a respeito de sua regra, tarefa na qual foi hábil e contou com a ajuda de autoridades eclesiásticas como o cardeal Ugolino. No entanto, são explicações insuficientes para responder porque o pensamento de Francisco não foi classificado como herético.
A mensagem franciscana, apesar de religiosa, é também filosófica, pois ainda que Francisco admirasse bastante o Evangelho de João e tenha se inspirado nele para estabelecer sua regra, o cerne de seu pensamento é o Cristo dos primeiros tempos, o Cristo anterior à Igreja Católica. A evidência disso é a estrita observância da pobreza, elemento principal do franciscanismo e que se manifestava totalmente contrário à opulência da Igreja, já consolidada na Alta Idade Média. O pensamento de Francisco revela um fortíssimo senso de interioridade e de subordinação do eu ordinário à vontade superior, em seu caso, uma vontade superior que emana de Deus, mas que ao mesmo tempo se traduz em forma de ação cotidiana nas virtudes da coragem, da generosidade, da compaixão por todos os seres sencientes, da humildade, da simplicidade, da doçura e da alegria. A integridade moral, para Francisco, é exercer todas essas virtudes de bom grado e de bom humor, com base na obediência interna que restringe desejos expansivos e destrutivos. A felicidade, assim, é obedecer as virtudes com alegria, tal como Jesus Cristo pregava.
No mundo de hoje, para o cidadão comum, não é mais possível realizar o voto de pobreza, seguindo o exemplo inscrito na regra de Francisco, todavia, a interioridade humana permanecerá sempre como o único depósito confiável da ética e das virtudes, - deveres humanos - algo que confere caráter universal e grandeza de propósitos à mensagem franciscana. A contemporaneidade se encontra repleta de filosofias externalistas, extremamente perniciosas, já que incapazes de oferecer qualquer solução para o problema da falibilidade dos homens. Segundo tais teorias, o fator impeditivo da felicidade humana, nesse caso claramente confundida com prazer, é uma conspiração externa e independente ao sujeito, advinda, seja de fatores econômicos e políticos, ou existenciais num sentido bem superficial. Admitindo a vontade imediata, irrefreada e isenta de reflexão moral como resposta para a libertação, as filosofias externalistas se mostram não mais do que ilusões paliativas, geradoras de degradação progressiva para o sujeito que não atenta para as verdades da interioridade, dado que o real, em última instância, será sempre independente desse sujeito, indiferente e muitas vezes incompatível com os desejos expansivos. É exatamente em tempos como estes em que, apesar do entusiasmo que a filosofia de Francisco de Assis consegue despertar de maneira mais despreocupada, um exame aprofundado de sua mensagem filosófica, nem sempre merecedor da reflexão devida, se faz mais do que necessário.

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