sexta-feira, 7 de março de 2014

Cultura e evolução


Um conhecido filósofo afirmou que, em última análise, o darwinismo significa perpetuação da espécie. A afirmação foi feita com vistas a relacionar o aumento da taxa de fecundidade em certos países desenvolvidos e a crença no catolicismo, concluindo-se daí, que a execração religiosa por parte de muitos darwinistas é contraditória, de vez que a religião católica atua como sustentáculo para o darwinismo.
Estatisticamente, nem eu nem o filósofo em questão sabemos o porcentual de católicos no mundo contemporâneo que leva rigidamente em conta a sugestão da procriação como vetor da perpetuação da espécie humana, até porque, se o darwinismo for corretamente entendido, o ato sexual com o objetivo exclusivo de procriar é mais instintivo do que qualquer outra coisa, não podendo ser associado com uma construção cultural, como no caso da religião. Sim, formar uma família é um ideal plenamente merecedor de louvores e que se relaciona com a religiosidade, mas aí já não cabe nenhum tipo de exclusivismo católico. Há mais: quando se presume que homens determinados se unem a mulheres férteis com a intenção de perpetuar a espécie, certamente o Carnaval brasileiro, no qual o sexo rola solto e muitas vezes sem que haja as devidas precauções, se mostra bem mais eficiente do que o fervor religioso, tendencialmente monogâmico na maioria das grandes religiões, fora a diminuição do período fértil da mulher, outra tendência fortemente ligada a diversos aspectos da vida atual.
Sabe-se também, de acordo com Darwin, independente de se aceitar ou não sua teoria, que de nada adianta uma espécie "querer" se perpetuar, haja vista animais cuja reprodução envolve dificuldades, mas que nem por isso desapareceram (perpetuação não significa quantidade). Muito mais determinante é a capacidade de adaptação ao meio natural, bem como a noção de que transformações nocivas a este meio ocorrem várias vezes em função do ser humano. E pensando em capacidade de adaptação, afloram inúmeros questionamentos: a despeito de sua enorme adaptabilidade e do fato do ser humano ser capaz de utilizar recursos e inventos que lhe permitem sobreviver mesmo em ambientes potencialmente hostis, até que ponto o crescimento vegetativo é uma vantagem na senda da evolução quando se conhecem os problemas gravíssimos que a superação da capacidade limite pode acarretar? Malthusianamente falando (e pelo menos até aqui não se vislumbra uma revolução tecnológica tão ampla e suficiente que possa nos desmentir), em termos dos próprios recursos, tantos deles esgotáveis, não seria um risco para a perpetuação da espécie humana aumentar a prole ao passo que a disponibilidade de tais recursos diminui? O homo sapiens sapiens é o último ponto da escala evolutiva? Nada indica que sim, muito pelo contrário, então, considerando as acentuadas modificações observadas no meio natural e a possibilidade concreta do escasseamento de recursos, a sanha praticamente instintiva da procriação seria inútil, no mínimo.
Até agora, abordei o tema quase exclusivamente de uma perspectiva da natureza, entretanto, é no bojo dos elementos culturais que o assunto se torna mais intrigante. A crise cultural é hoje em dia uma realidade, não só em países desenvolvidos, mas até mesmo em algumas nações desenvolvidas (quando um zoológico dinamarquês assassina uma girafa sadia, disseca o animal recém-abatido e serve partes do mesmo aos leões na frente do público, é sinal claro de que as coisas estão longe do normal), percepção bastante assustadora na medida em que a produção da alta cultura e o acesso a ela constituem o leitmotiv privilegiado que não só diferencia o ser humano, mas que acima de tudo lhe permite entender e lidar com tudo aquilo que faz parte de sua experiência material e espiritual. O caráter do indivíduo depende em larga escala da boa formação cultural e do conhecimento que ela enseja. Partindo disso, é extremamente legítimo perguntar se os pais de hoje em dia levam a sério o dever de proporcionar alta cultura a seus filhos. Caso estejam imbuídos dessa intenção, poderão empreendê-lo, seja por obstáculos econômicos, práticos ou influências externas? Indo além, embora a condição humana não se encontre inteiramente extinta nem mesmo sob a égide de sistemas totalitários, como demonstrou Hannah Arendt, em qual estrutura política os pais enfrentarão a missão que lhes é inerente desde o momento em que os filhos nascem? Eles estão atentos a essa situação? Se estiverem, então, antes de perpetuar a espécie, é fundamental lutar pela liberdade individual e pela própria possibilidade de existência da família, sem o que não há futuro. Desprovido de alta cultura, o ser humano não passa de uma besta daninha, um vetor da destruição de tudo aquilo que o cerca e de si mesmo. Perpetuação não vale mais do que evolução, até porque esta só se torna real e positiva em termos de interioridade. Quem quer se perpetuar?