domingo, 13 de março de 2011

O preconceito linguístico no Brasil


Uma das coisas mais estranhas que faz parte do universo mental das pessoas é a inclinação em travestir de certo aquilo que é logicamente errado. No Brasil, país onde o panorama intelectual está sempre retardado, o pensamento pós-moderno ainda insiste em deixar resquícios, o que provoca a grave confusão entre o certo e o errado também no campo da linguagem. Daí ocorre um desdobramento que, por sua vez, transforma em vanguarda algo absolutamente retrógrado e tacanha.
De acordo com o ceticismo relativista pós-moderno, a linguagem é uma criação da elite cujo objetivo é excluir as classes baixas da possibilidade de inserção no discurso. É isso, segundo tal ponto de vista, que provoca a cisão entre a norma culta da língua, que exige uma assimilação mais complexa e demorada, e as formas coloquiais de comunicação, mais simplificadas e que permitem, mesmo de maneira totalmente improvisada, a participação dos desprivilegiados no processo comunicativo. Esse improviso que tantos males é capaz de promover, em nada preocupa os pós-modernos.
Tal forma de ver as coisas não é apenas cruel e perigosa pelo equívoco intrínseco a ela, mas porque gera uma série de outras aberrações conceituais, acabando por distorcer a realidade até no âmbito moral. O efeito cascata advindo dessa salada mental corre sério risco de fomentar ódios, preconceitos e tornar inviável o bom convívio social.
Em primeiro lugar, cabe notar que a construção linguística não é um dado da natureza, mas sim um elemento cultural. Ninguém nasce sabendo a linguagem, ao contrário, ela é fruto de um aprendizado educacional que permite sua assimilação, até que um certo ponto desse trajeto de apropriação educacional é atingido e a partir do qual o usuário da língua passa a dominá-la na maioria de seus aspectos, sendo que daí em diante, resta somente aprimorá-la. Obviamente, se não fosse assim, se a língua fosse um dado natural, então não haveria a imensa variedade linguística que se observa nas populações humanas. O pensamento pós-moderno não consegue operar com o conceito de “usuário da língua”, exatamente porque não enxerga a construção socioeducacional da qual ele depende. Os pós-modernos acreditam que a linguagem é um elemento orgânico ex-nihilo, parecido, por exemplo, com a capacidade de ver ou de sentir odores, um sentido físico, por assim dizer. Evidentemente, trata-se de uma castração cultural que perde a noção da construção linguística. É curioso que o pensamento pós-moderno, em outros aspectos do entendimento, relacionados à psicologia do indivíduo, esqueçam a natureza humana onde, aí sim, a carga genética exerce grande grau de influência.
Além disso, a língua não pode ser admitida como um dado econômico-classista, pois isso cria um problema insolúvel de segregação. Temos aqui mais uma estultice do pensamento pós-moderno que, autoproclamado por seus representantes como uma inovação filosófica, logo se revela mero depositário do mais vulgar marxismo ortodoxo. Entender a construção linguística a partir do conceito de classe social só pode ser resultado de uma visão míope da história, que parece confundir cultura nacional com estratos sociais, dois conceitos antagônicos. Não conheço nenhum gramático rico, mas posso citar vários exemplos de celebridades acéfalas que fazem péssimo uso da linguagem e estão montadas em dinheiro.
A norma culta da língua consiste na expressão perfeita dela própria e existe, como não poderia deixar de ser, devido à necessidade da linguagem como instrumento comunicativo, coisa que muita gente não enxerga, assim como os números servem para contar. Vários gramáticos, linguistas e filósofos demonstraram com propriedade que a norma culta confere ao usuário da língua o conhecimento de uma gama rica e variada de vocábulos, indispensáveis à articulação de expressões verbais e à elaboração de frases compostas com clareza e inteligibilidade. O pensamento abstrato, vetor de operações mentais de interpretação, comparação, relação, dedução e indução, só pode ser expresso em norma culta, o que faz dela imprescindível para a posse de um bom repertório discursivo. A norma culta da língua é o terreno comum da comunicação, o pressuposto básico para que os cidadãos em geral tenham acesso ao uso da linguagem, o oposto da forma segregacionista e guetizante advogada pelo pós-modernismo, visão rasteira que parece acreditar que as pessoas mais pobres não sejam capazes de aprender e de utilizar a língua em seu potencial máximo. Se nem todo cidadão no Brasil tem oportunidade para se tornar bom usuário da língua culta, trata-se evidentemente de um problema que tem a ver com a educação, não com a linguagem em si. Não surpreende que em seus devaneios os pós-modernistas se mostrem avessos à educação, que segundo eles não contribuiria para resolver os problemas do país. O pós-modernismo mantém relação praticamente inexistente com a lógica e seus adeptos se contorcem em argumentação vazia e autoindulgente na tentativa de se mostrarem como alternativa de vanguarda em face dos problemas contemporâneos, mas em verdade, são facilmente desmascaráveis em filósofos charlatães e do tipo mais conservador que se possa ter.
Por fim, ao contrário do que querem os pseudopensadores dessa vertente,
no Brasil, país onde uma enorme parte da população é lamentavelmente formada por analfabetos funcionais, o preconceito linguístico se dirige exatamente no sentido oposto do que eles pensam, ou seja, as vítimas são aqueles que procuram usar a língua corretamente. Várias vezes me deparei com gente que costuma chamar de nerd e homossexual (com outro termo) quem fala e escreve como manda a norma culta, exemplo claro de que é o irracionalismo segregacionista, irresponsável e ignorante que gera preconceitos.
Num último apelo e num acesso desesperado de parco rousseauismo, os pós-modernos poderiam radicalizar e se manifestar em defesa de uma vida selvagem e desprovida de qualquer elemento de civilização, na qual então a linguagem como a conhecemos não seria mais necessária. Certo, deixemos os livros e brandemos os tacapes, ... Hobbes que nos acuda!

12 comentários:

  1. Amigo, vc precisa ler mais sobre preconceito linguístico para saber do que se trata. Sugiro "Nada na língua é por acaso", de Marcos Bagno.

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  2. Caro Anônimo, grato pela sua recomendação de leitura. Não só já li de Bagno a obra que você cita, como outras. O autor tem uma concepção historicista da linguagem que o conduz ao relativismo, exatamente aquilo que critico no artigo.
    Permita-me lhe indicar a leitura de "O novo irracionalismo brasileiro", ensaio do filósofo brasileiro Sergio Paulo Rouanet e ainda "O a priori da comunidade de comunicação", do linguista alemão Karl-Otto Apel, além do artigo mais pontual que citei ao final do meu.
    É custoso dizer, mas é por conta de irracionalistas como Bagno, que dominam as academias brasileiras, que o panorama intelectual do país beira o ridículo.
    Abraço.

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  3. O relativismo deve ser combatido, com certeza. Mas tenho certeza que você não leu Bagno. Meu querido, ele é um racionalista. Sabe qual é o pensamento dele? É o seguinte: Sendo um fato que o indivíduo é competente para sua língua nativa, ele é capaz de se comunicar. Sendo um fato também que a língua muda, é IRRACIONAL achar que uma forma específica no tempo-espaço seja tomada como universal. Universal é somente a própria linguagem, inata a cada ser humano.

    Todas as formas no tempo-espaço são relativas. Mas isso não é relativismo, sabe por que? Porque existe o absoluto (coisa que os relativistas de verdade negam), e este consiste na pura abstração e negatividade. A própria razão é absoluta, o agora é absoluto, a linguagem é absoluta. Esta é a diferença entre racionalismo e relativismo: o primeiro sabe que todas as formas relativas surgem do absoluto, o segundo acredita que só há formas relativas, e não há absoluto. Este último deve ser combatido, sim, mas não confunda as coisas.

    E pare de ler o Rouanet antes do seu cérebro atrofiar de vez.

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  4. Bem, vou deixar de lado a consideração sobre interpretar Bagno como um racionalista, o que me parece uma aberração. De qualquer modo, o cerne da questão é: se o usuário de determinada língua consegue se comunicar, ainda que não seja por meio da norma culta, permanece a indagação, "se comunica como, com que qualidade?" Não há como fugir dessa problemática.
    Já quanto às mudanças pelas quais a língua passa ao longo da história, são perfeitamente passíveis de aceitação e nada têm a ver com o desuso da norma culta; tais mudanças não determinam construções tais quais "nós vai" ou "seje lá o que for", ou "há tantos anos atrás".
    E creio que o seu cérebro é que está atrofiado, já que não afirmei possuirem as línguas (note-se o plural!) nenhum caráter universal, o que seria um paradoxo total, mas apenas que a norma culta existe com objetivo contrário do que pretendem fazer entender os relativistas, isto é, permite uma melhor comunicação dentro de conjuntos comuns formados por uma população usuária da língua. Nada a ver com universalismo. Que viagem! A passagem "Em primeiro lugar, cabe notar que a construção linguística não é um dado da natureza, mas sim um elemento cultural. Ninguém nasce sabendo a linguagem, ao contrário, ela é fruto de um aprendizado educacional que permite sua assimilação, até que um certo ponto desse trajeto de apropriação educacional é atingido e a partir do qual o usuário da língua passa a dominá-la na maioria de seus aspectos, sendo que daí em diante, resta somente aprimorá-la. Obviamente, se não fosse assim, se a língua fosse um dado natural, então não haveria A IMENSA VARIEDADE LINGUÍSTICA QUE SE OBSERVA NAS POPULAÇÕES HUMANAS." - aborda exatamente essa ideia.
    Por fim, muito grato por sua recomendação a respeito de Rouanet. Levei bastante a sério e vou reler Bagno, além de dar atenção redobrada aos anônimos do mundo virtual.

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  5. "Já quanto às mudanças pelas quais a língua passa ao longo da história, são perfeitamente passíveis de aceitação e nada têm a ver com o desuso da norma culta" Então, por favor, me diga como a língua muda ao longo da história sem o desuso da norma culta, porque, para que a língua mude, a norma culta de um período específico cai em desuso, caso contrário a população falaria português e a língua oficial seria latim.

    E sim, quando você afirma que a norma culta deve ser comum para todos os conjuntos de usuários de uma língua, você atribui a ela caráter absoluto NAQUELA LÍNGUA (admito que neste caso absoluto é mais apropriado que universal). A universalidade que mencionei pertence à LINGUAGEM, que não é o mesmo que LÍNGUA. Linguagem é a capacidade fruto da EVOLUÇÃO NATURAL do ser humano (logo universal), enquanto LÍNGUA é um produto cultural, ou seja, tudo o que está fora da mente humana molda a linguagem em uma forma específica: a LÍNGUA. É aí que está a sua mencionada "IMENSA VARIEDADE LINGUÍSTICA QUE SE OBSERVA NAS POPULAÇÕES HUMANAS". Porque a cultura e o espaço moldam a linguagem de cada grupo, criando a tal imensa variedade, tão grande quanto a variedade de ambientes e organização sociais.

    Portanto, tomar a gramática normativa como forma absoluta de uma língua é IRRACIONAL, já que esta é apenas uma forma específica no espaço-tempo. O que se propõe não é a destruição dela, mas sim o reconhecimento do absurdo que é tomá-la como absoluta, e da desqualificação das outras. É claro que existe uma série de variedades socialmente prestigiadas, dentre elas a literária (que se subdivide em diversos períodos).

    Um sistema educacional eficiente deve permitir que todos compreendam todas elas. Por exemplo, mesmo que você aprenda inglês (e é a variedade padrão de prestígio que você aprenderá), terá dificuldades para ler Shakespeare, que serão superadas caso você expanda seu conhecimento linguístico em direção àquela variação do século XVI.

    Aliás, lendo novamente seu texto, pude notar que você não é nerd, nem "homossexual", já que, em que várias ocorrências, você foge da tão "bem pensada" e "complexa" norma padrão. Qual a justificativa: incapacidade ou preguiça?

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  6. Ora, ora, o que temos aqui a não ser uma tentativa atrapalhada de soar filosoficamente?! Sem dúvida, um caso de incapacidade ou preguiça! Imagine só Kant ou Hegel misturando categorias tão distintas quanto "absoluto" e "universal".
    Agora, caro(a) anônimo(a), você tem mesmo certeza de que o "absoluto" está situado onde pensa que ele está? A meu ver, o "absoluto" tem sido cada vez mais o inverso do que você enxerga; está presente no BBB, nos discursos de Lula, nas redes sociais ou nos escritos rasteiros de um Bagno, não na obra de um Pe. Antonio Vieira, de um Alexandre Herculano ou de um Guimarães Rosa, talvez o mais belo exemplo de que variações de léxico e sintaxe podem e devem seguir a norma culta.
    Meu texto foi motivado sobretudo em função do tema do preconceito: ele ocorre por parte de quem?; daqueles cuja defesa da norma culta, não apenas no que se refere ao seu uso, mas mais ainda quanto à sua difusão, se faz pelo fato da mesma proporcionar uma comunicação mais plena e dotada de qualidade, ou do outro lado, dos Bagnos da vida, que talvez não estejam dispostos a realizar o esforço necessário para difundir a língua em sua norma culta? Ou seria pela incapacidade destes?
    O grande problema do pós-modernismo é lidar com todos os aspectos socioculturais a partir da ideia de poder e dominação, o que é IRRACIONAL. A língua não foi criada por uma elite, sabe-se lá qual, a fim de excluir da comunicação aqueles fora de seu círculo, não pelo menos em se tratando das línguas modernas. É o oposto disso!
    Quanto às transformações históricas pelas quais passa a norma culta, como já indiquei nesse mesmo comentário, são resultado de processos de longa duração que envolvem um contexto muito mais amplo do que a própria língua. Disso decorrem adaptações de léxico, sintaxe, ou até de ortografia, mas dentro de padrões que se acumularam de acordo com a própria experiência, o que é bem diferente de promover um uso anárquico da língua descartando esses mesmos padrões sem critério algum, outro exemplo de IRRACIONALIDADE!
    Por fim, suponha-se que a língua seja uma mera questão de improviso, um artifício cuja função é se fazer entender, quando muito, aos trancos e barrancos, como você procura mostrar. Caso essa tese se confirmasse, proporcionando o surgimento das supostas variações ricas e identitárias, tal qual no delírio relativista pós-moderno, então notaríamos alguma coisa bem diferente do que ora se apresenta: padronizações cifradas em torno do "internetês", que vira e mexe invadem textos cujo teor linguístico deveria ser outro (quem é professor sabe bem o que é isso), comprometendo gravemente a possibilidade de interpretação e de aprofundar ideias (o analfabetismo funcional atinge algo em torno de 65% dos brasileiros) ou, pensando na língua falada, o advento quase "absoluto" do gerundismo, um enxerto esdrúxulo da língua estrangeira sobre o Português. "Absolutamente" lamentável!

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  7. Defender o não uso da gramática normativa é fácil, pois prega-se o falar e escrever de qualquer jeito.
    A língua portuguesa é difícil e as pessoas se apegam a qualquer argumento para não falarem corretamente.
    As regras têm uma finalidade muito definida: fazer com que a pessoa se faça entender da melhor maneira. Não usar uma vírgula bem posicionada, não usar um acento corretamente, usar o tempo verbal errado atrapalham a comunicação.

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  8. E se a gramática normativa estivesse adaptada para o Brasil atual e não para o Portugal de anos atrás... será que a língua portuguesa seria ainda seria "difícil"?

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  9. Prezado Jonathan, creio que ao longo dos tempos tenham sido feitas várias adaptações da normatividade para o que se pode chamar de "Português do Brasil", tanto em termos ortográficos como de estruturação sintática, basta comparar, por exemplo, escritores do século XIX com os mais atuais.
    No caso desse último acordo ortográfico, que tem viés homogeneizante, me parece que não tem sido muito bem aceito e já cheguei a ouvir dizer que o mesmo poderá cair.
    Exatamente em quais aspectos você acredita que a Gramática é arcaica?

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  10. Qualquer pessoa que leia o ensaio "o irracionalismo brasileiro", de Sérgio P. Rouanet, conforme apontado anteriormente, perceberá que o relativismo que caracteriza linguistas como M. Bagno pode gerar problemas mais danosos do ponto de vista social, político e cultural do que a posição tradicional que defende a universalização da norma culta.

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  11. E outro detalhe: li por cima os comentários aqui postados, mas percebi que num deles se levanta a seguinte hipótese: "sendo um instrumento intersubjetivo de comunicação, a língua só pode ser avaliada de acordo com critérios relacionados à comunicação; logo, se o registro linguístico permite ao sujeito se comunicar, a língua está cumprindo sua função e é, por assim dizer, válida". Bem, parece-me que tal argumentação ignora que existem diversos níveis de comunicação, uns mais complexos, outros menos. A maioria dos eventos linguísticos do cotidiano são simples, e a linguagem coloquial dá conta perfeitamente deles. No limite da simplicidade, existem situações comunicacionais que dispensam até mesmo o uso de língua e são realizáveis meramente por sinais (como pedir a conta para o garçom). Agora, há situações de expressão muito mais complexas, para as quais a linguagem de sinais ou mesmo a linguagem coloquial não servem. Uma obra de filosofia ou de literatura quase sempre lança mão da norma culta, inclusive porque esta tem uma riqueza vocabular que a linguagem coloquial não possui (e muito menos a linguagem corporal), que permite a expressão de ideias e conceitos de modo mais preciso e claro.

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  12. Colocações absolutamente precisas, Raphael!

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