segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O preço dos ingressos no futebol e os comentaristas populistas


O preço médio dos ingressos para partidas de futebol no Brasil, atualmente, não é barato. A maioria dos clubes brasileiros possui dívidas significativas e, muitos desses clubes, não têm conseguido gerar receitas, seja em função da gritante falta de organização administrativa que afeta a eles próprios, do descaso da CBF, do calendário do futebol tupiniquim, vetor de campeonatos deficitários e desprovidos de apelo e que impede ainda a realização de pré-temporadas em locais alternativos à praça de cada agremiação, fonte de montantes e marketing largamente adotada pelo europeus, ou devido à distorção promovida pela TV Globo, detentora dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, cuja atuação promove a progressiva "espanholização" do futebol nacional, contribuindo, além disso, com a fuga de patrocinadores, desinteressados de investir em um cenário no qual grande parte dos clubes mal tem a oportunidade de aparecer. Em vista disso, as altas quantias cobradas pelos ingressos acabam se tornando o caminho praticamente único para a obtenção de verbas, mesmo assim, esbarrando na máfia da meia-entrada e devendo-se considerar a questão recente dos programas de sócio-torcedor, em que o pagamento mensal por um plano oferece opções a preços bem mais baixos.
Não defendo que o valor dos bilhetes deva se manter elevado como um todo, descartando a possibilidade dos chamados "ingressos populares", mas no cenário vigente é inevitável que o torcedor venha a se deparar com preços salgados. Alguns clubes têm ensaiado a precificação por demanda, estratégia inteligente pela qual o valor dos ingressos varia de acordo com o apelo de cada partida, o que nada mais é do que uma simples e eficiente lei de mercado, mas que ainda requer maior desenvolvimento e transparência por parte dos dirigentes envolvidos com a coisa.
Comentaristas populistas, vide Flávio Gomes e Lúcio de Castro, conseguem seus minutos de fama com análises rasteiras e recheadas de clichês, como lhes é peculiar. Para eles, está em curso um processo de elitização/higienização do futebol brasileiro com o objetivo de eliminar dos estádios o torcedor de baixa renda, como se o problema girasse em torno do conceito de classe social. Também segundo tais comentaristas, o futebol é uma expressão da cultura popular que vem sendo paulatinamente transformada pelo "futebol negócio".
Visões contaminadas pelo ideologismo esquerdista, além de se mostrarem inúteis, são incapazes de avaliar a complexidade da questão. Em suas vidas particulares os indivíduos agem com base em escolhas e preferências, de modo que nada impede um cidadão de administrar seu dinheiro de acordo com o que melhor lhe aprouver. Há quem prefira ser mais assíduo em partidas de futebol do que comprar livros, ou até do que se alimentar minimamente bem. Por outro lado, é possível ficar juntando dinheiro durante um bom tempo para reformar a casa, comprar um carro ou fazer uma viagem, relegando a ida a jogos de futebol a um segundo plano, bem como gerir os ganhos dando prioridade a fatores como saúde, educação, vestimenta, etc.. E isso não é de hoje: lembro bem dos anos 1980 e 1990, quando frequentava estádios de maneira regular e cansei de ouvir torcedor dizendo que havia deixado de comprar leite para poder ir ao jogo. Torcedores cujos ganhos mensais são menores não estão alijados dos estádios: podem obter, legalmente ou não, carteiras de estudante, podem aderir a um plano de sócio-torcedor pagando R$ 20 ou R$ 30 por mês, o que confere bons descontos, podem ainda armar esquemas com organizadas e cambistas (o que não é coibido pelas autoridades), ou simplesmente torrar o que têm e o que não têm indo assistir às partidas. As escolhas valem também, obviamente, para o torcedor mais abastado: ir a um bom restaurante, assistir a um show, comprar um vinho importado ou ir ao estádio ver um bando de perebas às 22 horas em pleno dia de semana? O vazio das arquibancadas, observado desde meados da década de 1980, tem causas múltiplas.
Quem me conhece sabe que tenho ojeriza ao culturalismo, que expurga a liberdade individual em nome de forças culturais abstratas e castradoras, por isso, prefiro admitir a cultura como um fator semi-opcional em relação ao qual as pessoas se inserem mais ou menos em função de suas próprias escolhas, daí justamente a compreensão da cultura a partir do movimento histórico, que lhe confere caráter mutável e aberto. Se algum dia o futebol no Brasil foi realmente expressão da cultura popular, com toda generalização que a ideia traz embutida, sobretudo quando se leva em conta a diversidade cultural que caracteriza um país continental e mestiço, essa cultura se transformou e continuará se transformando. As opções de lazer que hoje estão disponíveis não existiam há trinta ou quarenta anos: internet, TV a cabo, pay-per-view, shoppings, salas de cinema, parques, lanchonetes, tudo isso cresceu de forma exponencial e passou a se apresentar como alternativa em relação aos estádios. É bem verdade que a gama de opções nem sempre é vasta dependendo da cidade ou região, todavia, nesses locais a presença do torcedor nas partidas costuma ser maior. Questão de escolha e de alternativas disponíveis.
Flavio Gomes e Lucio de Castro defendem a continuidade dos campeonatos estaduais, certames deficitários e que deixaram de ter apelo junto às torcidas, aí também um dado revelador de mudanças culturais que eles parecem não notar. A logística que uma partida de campeonato estadual demanda para um clube - pessoal, viagem, transporte, hospedagem, alimentação, material esportivo, iluminação, água e algumas vezes aluguel do estádio -  são elementos que, somados às baixas rendas, provocam déficits orçamentários altamente prejudiciais às agremiações. É o cúmulo sustentar a manutenção dos estaduais, que ainda por cima atrapalham o calendário, e depois reclamar dos preços dos ingressos. Risco de violência, horários absurdos de muitas partidas, carência de transporte no acesso aos estádios, dificuldade de mobilidade urbana, campeonatos desinteressantes e mal organizados, elencos repletos de jogadores ruins são fatores negativos que afastam os torcedores dos estádios, independente de classe social. Nunca observo os comentaristas populistas levantando essa temática, quanto menos tentando propor soluções acerca do problema. Se o futebol brasileiro realmente fosse pautado pelo negócio, nos moldes de um Bayern de Munique, por exemplo, não estaria na crise que ora se apresenta. A continuar desse jeito, e tudo indica que assim será, virão outros 7x1 por aí. Motivo para gargalhadas!

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Lógica petista


A lógica do atual governo brasileiro, se não fosse trágica, seria cômica. Trata-se muito mais, na verdade, de um caso de ausência de lógica. Até nesse quesito o PT foi capaz de promover uma manipulação dos conceitos que faz o partido permanecer no poder, mesmo diante da incompetência administrativa, dos equívocos na condução da política econômica, da política externa e, evidentemente, da corrupção sistêmica, oficialmente organizada e, repito novamente, praticada não como desvio fortuito para favorecimento econômico-financeiro de agentes individuais, mas sim como modus operandi cujo objetivo é a obtenção de vantagens políticas por meio de cooptação com vistas à perpetuação de poder, arcabouço infinitamente mais grave, pois compromete seriamente as liberdades civis, as instituições e os próprios alicerces do sistema democrático. O PT representa um claríssimo retrocesso às formas tirânicas de governo, embora grande parte das pessoas que deveriam ter isso em mente, não conseguem notá-lo.
De acordo com a lógica abstrusa do petismo, a realidade é o contrário da forma como se apresenta: quanto mais corrupção melhor, já que assim o governo pode vender a ideia de que está preocupado em investigar tudo e punir os culpados. Isso, no entanto, é absolutamente falso. Não há como o réu investigar a si próprio, mas uma vez estabelecido o aparelhamento da máquina pública, os comandantes do governo continuam blindados e se escondem atrás do véu da suposta desinformação: "não sabíamos de nada". Aqueles poucos representantes das esferas de poder que ainda se mantêm independentes, tão logo ousam se posicionar a favor das evidências, da ética, das instituições, da sociedade, da democracia e da liberdade, mas contra o PT, prontamente passam a ser perseguidos: foi assim com a tentativa de barrar a prerrogativa de investigação do MP, foi assim com Joaquim Barbosa, foi assim que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, agorinha mesmo, manifestou a intenção de abrir inquérito contra delegados da PF que teriam incorrido em "desvio de conduta", entenda-se, criticar o PT. É sempre assim com a imprensa de oposição, um dos últimos bastiões de resistência à ditadura petista, a qual o governo procura amordaçar a qualquer custo.
Até mesmo nas situações em que membros do governo petista são punidos, dá-se um jeito de aliviar a barra dos condenados, haja vista o que se sucedeu quando da aceitação dos Embargos Infringentes pelo STF: depois da aposentadoria de Ayres Britto e com a indicação programada de dois ministros alinhados ao petismo, as penas do núcleo político foram abrandadas. Hoje, o mentor do Mensalão, José Dirceu, cumpre pena reduzida em regime domiciliar, enquanto Marcos Valério, o laranja em torno do qual o PT conseguiu jogar a maior responsabilidade, foi condenado a 37 anos de prisão. Esse governo quer mesmo investigar, julgar e punir culpados? Se você acredita nisso, não passa de um tolo completo!
Ainda que, sem correr risco de ingenuidade (há poucos dias chegou a notícia de que o ministro Augusto Nardes, presidente do TCU, avisou pessoalmente a Lula e Dilma Rousseff com relação ao superfaturamento em obras da Petrobrás; avisos tais, que foram reiteradamente desprezados), alguém pudesse permanecer sustentando que a alta cúpula petista jamais soube de nada sobre os mais amplos, mais pandêmicos e mais vultosos esquemas de corrupção envolvendo o próprio partido, não seria a atuação governamental exemplo inadmissível de omissão, negligência ou falta de cuidado com a coisa pública? Já em 2005 o PT tentava se safar usando dessa tática e, passados nove anos desde então, a ladainha continua, as mesmas pessoas afirmando, sem um pingo de vergonha, a mesmíssima coisa! Omissão, negligência e falta de cuidado elevados à enésima potência! Ou seria cinismo? Você é quem sabe...
Em 1992, os chamados caras-pintadas foram saudados, sobretudo pelo PT, como representantes das virtudes democráticas e do apreço pela ética na política. Saíram às ruas, gritaram contra o governo Collor, fez-se um impeachment. Justo. Quase duas décadas e meia depois, em um contexto marcado por escândalos de corrupção imensamente piores, na medida em que envolvem mais agentes - corruptores ou corrompidos - , valores maiores e principalmente porque visam solapar a liberdade e a democracia, parte da sociedade que não aceita uma governança dessa natureza volta a se manifestar nas ruas. Para o PT, que arrasta consigo os intelectualóides da marxologia extemporânea e os fanáticos desinformados, ainda crentes no desenvolvimentismo e na "justiça social", são ações de uma "elite reacionária e fascista", seja lá o que isso possa significar. Estranhamente (ou nem tanto...) quando black blocks depredam patrimônio alheio, ateiam fogo em veículos de civis e matam cinegrafistas ou quando um defensor do totalitarismo comunista como Guilherme Boulos organiza passeatas para pedir a criação de conselhos revolucionários à moda cubana, são gente do bem, segundo o governo. Contradição ou lógica petista, não importa, é mais uma faceta da lastimável realidade política que nos assola.

sábado, 1 de novembro de 2014

O verdadeiro foco do ódio e do preconceito. A quem interessar possa...


Após findada a corrida presidencial, com a vitória do PT e a nefasta consequência que tal desfecho significa para o presente e o futuro nacionais, o governo e sua imprensa amestrada trataram logo de promover um discurso cujo objetivo é fazer as pessoas esquecerem aquilo mesmo que pautou a campanha petista. Se, por um lado, não deixa de ser impressionante observar como muitos compram a ideia, por outro, é trivial a noção de que as ditaduras de massa na história mais recente precisaram contar com o apoio leniente da população para se estabelecerem. Trata-se de um sinal importante.
Os pensadores liberais devem levar em conta que uma mudança se processou neste pleito eleitoral: a reeleição de Dilma foi bem mais apertada do que as disputas de 2002, 2006 e 2010 e, dois aspectos somados, a quantidade de abstenções altíssima - irresponsável, é verdade - e a própria votação obtida por Aécio Neves, revelam um enorme porcentual de eleitores que rejeitam o governo e as práticas petistas. Um quadro pintado com essas cores talvez sirva de alento se pensarmos que o apoio de massa necessário ao PT para consolidar de vez seu autoritarismo encontra um obstáculo poderoso em cerca de 80 milhões de eleitores (quem será que tenta a todo custo jogar uns contra os outros?!).
O PT, único partido brasileiro que possui militância organizada em base nacional, alocada em estatais, órgãos de educação, sindicatos e parte considerável da imprensa, sabe muito bem disso e passa a fazer uso de estratégia sorrateira na tentativa de se travestir com pele de cordeiro. O dissenso democrático é ruim para o PT, portanto, o partido procura agora, ao término do pleito, criar um consenso incondicional e antidemocrático, elemento que não pode existir em uma sociedade livre. O terrorismo eleitoral de campanha passou a ceder lugar à retórica do diálogo e da união. Ora, uma sigla sectarista e que até hoje ainda aposta em luta de classes somente pode acenar em termos de diálogo e união enquanto tática gramsciana de cooptação. O PT só pode passar ileso de um discurso de ódio, pautado no "nós contra eles, pobres contra ricos" para a retórica pacificadora, se a própria população embarcar nesta ideia. Aí mora o perigo.
Ninguém pode esquecer, ressalto novamente, o viés sectário que o PT encarna desde sua sigla, bem como a orientação político-ideológica que compõe o cerne de suas orientações, direcionadas para a necessidade de eliminar um setor da sociedade. Se tais características tivessem sido lembradas anteriormente, é possível que jamais um partido como esse chegasse ao poder, mas não adianta chorar sobre o leite derramado. O que resta é ter em mente a mudança que mencionei de início e estar atento ao falso discurso petista. Desse modo, vale refrescar a memória também com relação a acontecimentos que desnudam a natureza do PT: quem acusou "brancos de olhos azuis" como responsáveis pela crise econômica de 2008?; quem não admite a oposição democrática, tachando a mesma de "fascista"?; quem exultou a fúria vândala e intolerante de um grupelho esquerdista contra a imprensa livre?; quem odeia a classe média?; quem advoga a tese absurda segundo a qual o antipetismo é fruto de preconceitos étnicos e raciais?; quem faz terrorismo eleitoral, manipulando a pobreza e a falta de instrução como modo de demonizar a simples possibilidade de alternância de poder?; quem lança mão de sórdida adjetivação - "filhinho de papai", "playboy", "riquinho" - para se referir não aos que têm mais posses, mas a todos que não compactuam com o coitadismo e com o populismo assistencialista?
Não existem diferenças profundas entre o voto de cabresto praticado na época da República Velha e o que ocorre atualmente no governo do PT. Alguns poderão dizer que os coronéis agiam com base em ameaças físicas e que a votação não era secreta, no entanto, se alguns avanços democráticos conquistados de lá para cá impedem a mesma forma de intimidação, o forte apelo populista do discurso de Lula confere violência psicológica acentuada ao estilo petista de campanha e um sistema de votação em relação ao qual crescem suspeitas a cada dia, deixa sérias dúvidas quanto à lisura do processo eleitoral. O fato é que o populismo assistencialista foi explorado à exaustão pelo PT, dando margem ao voto de cabresto do século XXI e mantendo sob tutela governamental um contingente de pessoas que, na realidade, são vítimas. Não se trata de acusar nordestinos e nortistas de não saberem votar, como quer dar a entender o PT com o objetivo de semear o ódio, mas de denunciar uma prática que, ao invés de gerar votos, gera troca de favores. Isso é democracia?
Até agora nas redes sociais, acompanhado do título "a quem interessar possa", multiplica-se um gráfico mostrando o total absoluto de votos de cada candidato considerando-se, de um lado, Norte e Nordeste e, de outro, Sul, Sudeste e Centro-Oeste, sendo que Dilma obteve maior votação nestas três últimas regiões, o que então revelaria o suposto preconceito da porção rica do país contra os mais pobres. Quem se presta a divulgar isso ou é idiota ou age de ma-fé. Se forem somados os eleitores do Norte e do Nordeste, não se chega a 40% do eleitorado, logo, a estatística correta deve se basear no porcentual de votos de cada candidato por região. É evidente que o cabresto torna o PT muito mais votado proporcionalmente no Norte e Nordeste. São vítimas, ressalte-se uma vez mais. Ao contrário do petismo, aí sim preconceituoso e propagador dó ódio contra aqueles que se opõem ao seu autoritarismo, os liberais devem considerar que mesmo nos grotões a oposição obteve votos. Em um país mestiço como o Brasil, repleto de diversidades regionais e no qual as migrações internas, apesar de terem diminuído, ainda ocorrem, não há como pensar em separatismo. Nosso papel é apontar claramente de onde exala o odor fétido do ódio e do autoritarismo, típicos das práticas esquerdistas, típicos do PT, desde sua gênese e nítidos em seu modo de governar. Separatismo? Não. Quem sabe o federalismo? Assunto para um artigo futuro.