sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Os absurdos nossos de cada dia



No comecinho desse ano, a imprensa esportiva brasileira teve surtos de euforia com duas ou três boas atuações de Ronaldinho Gaúcho no Campeonato Italiano. O jogador não realizava nada de minimamente significativo desde antes da Copa de 2006, competição na qual foi um dos comandantes do verdadeiro circo que se passou durante a fase de preparação. Quase quatro anos depois, eis que ele aparece novamente fazendo gols e enchendo os olhos dos comentaristas. Claramente, os programas esportivos não têm muito o que abordar nos primeiros dias do ano, fato que contribuiu ainda mais para a babação de ovo em relação a Ronaldinho. Veio o derbi Inter x Milan, partida que poderia confirmar sua ressurgência; resultado: vitória do time de Mourinho por 2x0. Ronaldinho, sumido na maior parte do tempo, só apareceu quando perdeu um pênalti. Até aí, nada de mais, até que nessa semana o jornal italiano Corriere della Sera publicou reportagem na qual apurou que Ronaldinho havia bancado uma noitada com direito à muita bebida e garotas para ele e amigos num hotel de luxo em Milão. Tudo isso na véspera do derbi. Há sempre aqueles que saem em defesa desse tipo de atitude alegando que a vida privada do jogador não interessa a ninguém. Pura tolice, pois não se trata disso, mas sim de uma questão de profissionalismo. Assim como outras celebridades que pecam pelo ridículo do estrelato narcisista e pela ausência completa de bom senso, Ronaldinho Gaúcho é um péssimo profissional. E ainda tem gente que quer o jogador na Copa de 2010, haja memória curta!

Estação do Verão, sol, calor, ahhh, tudo que delicia o brasileiro! E também que provoca incontáveis transtornos em cidades com problemas crônicos de falta de infraestrutura. Afora o calor insuportável, em quase todos os fins de tarde caem as famigeradas pancadas de chuva. Enchentes, ventanias, ruas que se tornam rios, prejuízos diversos, trânsito ainda mais caótico do que já é normalmente, cortes de energia, pânico, árvores despencando, morte. Desde que me conheço por gente, observo a mesma história nesses meses que abrem o ano. Depois de tanto oba-oba com obras como piscinões ou ampliação da calha do rio Tietê, o caos continua idêntico, talvez pior.  A verdade é que num país como o Brasil, o poder público corrupto e inoperante não realiza nem mesmo o básico, como podas nas árvores ou manutenção da rede de fornecimento de energia. Não há como aceitar que no século XXI, na maior cidade do país, uma árvore caia em plena Ponte das Bandeiras e mate uma pessoa. A vida nas grandes cidades se torna a cada dia mais inviável, ao mesmo tempo em que a especulação imobiliária prossegue avançando assustadoramente, significando mais trânsito, mais ilhas de calor, mais impermeabilização do solo, mais demanda por energia...
Só nos últimos dez dias, é a segunda vez que o bairro onde moro e outros da região Oeste da capital paulista, sofrem com prolongada falta de energia. Somadas as duas vezes, foram 13 horas às escuras. Que país é esse? País do futuro? Há quem propale essa ladainha há décadas! Futuro distante esse! É típico do ufanismo e da falta de seriedade de boa parte da população brasileira, projetar idílios anacrônicos, enquanto a acomodação e o improviso rolam soltos no presente, que tanto pede ao menos um espírito crítico diante da esbórnia tupiniquim. Em tempo: tudo ocorrendo no mesmo momento em que Lula deve ajudar o ditador Hugo Chávez na crise energética da Venezuela...

Ontem, 04/02, o jornal Folha de São Paulo divulgou matéria em que apresentava os gastos de verba pública na construção de estádios para a Copa de 2014. Como já vêm apontando aqueles que não se ufanam com eventos que nada irão acrescentar ao desenvolvimento do país, 94% do dinheiro a ser gasto virá dos cofres públicos! É de pasmar! Como se não bastasse, os estádios que irão sugar mais verba são justamente aqueles que mais farão uso do dinheiro do contribuinte. A se repetir, e é o que tudo indica, o que já ocorreu no Pan 2007, os gastos devem aumentar ainda mais. E isso diz respeito apenas à Copa, depois tem a Olimpíada! É a cara do Brasil!

sábado, 30 de janeiro de 2010

Vocábulos demoníacos


No círculo das Humanidades existem alguns vocábulos cujo uso enseja um ódio profundo, seus significados - quando deturpados - têm o poder mágico de atribuir tudo o que de mais abjeto, sórdido, desprezível e maléfico pode haver em nosso mundo. As pessoas que se aferram à dogmas pseudocientíficos, que na realidade, como frisou François Châtelet, não passam de religiões mundanas e laicizadas, são aqueles que conferem essa aura demoníaca a tais vocábulos. Cabe destacar que o conjunto dessas palavras é geralmente atribuído ao corpo de ideias de uma pessoa ou de grupos que fazem parte da sociedade, compondo na mente dos dogmáticos o estereótipo pronto e acabado do crápula. Partindo dessa reflexão, o crápula que aqui escreve, aborda a seguir alguns dos vocábulos do demônio.
Atualmente, a palavra tecnologia é bastante recorrente, pois vivemos em uma era de rapidíssimos avanços na ciência que, por sua vez, faz empregar técnicas ultra sofisticadas no processo produtivo, resultando então, como em um círculo, em produtos dotados de grande carga tecnológica. Obviamente, o uso que o homem faz da tecnologia pode ser bom ou mal, o que depende de inúmeras circunstâncias. Todavia, os dogmáticos, invariavelmente, veem na tecnologia um elemento de destruição dos (supostos) paraísos idílicos das sociedades tradicionais pré-modernas. Esse maniqueísmo está presente em filmes como Robôs ou o badaladíssimo Avatar. O curioso é que essas produções usam e abusam da tecnologia. No fim das contas, é lamentável que muitas pessoas não vislumbrem a que ponto a tecnologia se tornou essencial na preservação do meio ambiente, dela dependendo diretamente as pesquisas para desenvolvimento de materiais sintéticos que dispensem recursos da natureza, a busca por fontes limpas de energia e combustíveis não-poluentes, o melhor aproveitamento e economia da água ou até a construção de grandes estruturas refletoras que amenizariam o impacto da crescente atividade solar sobre a Terra, como indica o paleontólogo Peter Ward. Viva a tecnologia!
O vocábulo liberalismo, que nos últimos tempos tem aparecido no dicionário dogmático travestido de neoliberalismo, é sem dúvida um dos termos que mais suscita o ódio entre aqueles que gostam de atribuir a si próprios o apanágio da luta pela igualdade e pela justiça. Assim, o (neo)liberalismo seria um paradigma defendido por quem pratica a exploração econômica, não liga para a desigualdade e quer que o Estado desapareça por completo. Nada pode ser tão tolo e pueril. Essa trupe se esquece do básico, isto é, liberalismo, como fica claro pela própria etimologia do vocábulo, é uma filosofia que defende a liberdade, tanto no plano do indivíduo, como no da sociedade. O anátema do liberalismo é o autoritarismo. Nada mais. Ao contrário do que faz pensar o senso comum, o liberalismo clássico, da escola de Hume, Locke e Tocqueville (excluo aqui o pensamento radical-egoísta-anárquico-libertário dos seguidores da escola austríaca e de Ayn Rand) confere importantes funções ao Estado e jamais dispensa as leis da sociedade como forma de ajuste entre interesses individuais e coletivos. Sejamos mais liberais!
No que tange ao espectro político, cuja forma mais conhecida, ESQUERDA - CENTRO - DIREITA, é algo já ultrapassado e sem grandes significados, mas que ainda povoa fortemente o imaginário dos dogmáticos, o termo direita sempre traz consigo um perfeito monstro, um burguês reacionário, elitista e preconceituoso, como adora bradar esse pessoal. Chega a ser cômico. Assim como há tempos existe uma esquerda progressista, que já abandonou o dogma juvenil da revolução socialista, que é uma esquerda que valoriza a verdadeira ciência, que acredita na democracia e no diálogo, também há uma nova direita, embora seja um pouco mais difícil encontrá-la, que deixou de lado os preconceitos de classe, a homofobia, os dogmas do catolicismo e que também é científica e democrática. O esquematismo simplista do tradicional espectro político não permite avaliar que a complexidade das ideias político-filosóficas vai bem além do maniqueísmo dogmático, bem como não é capaz de ver que a existência da nova direita é positiva para reforçar a agenda da esquerda que superou a puberdade.
Para encerrar, a palavra que mais faz as hordas da “bondade e da justiça” agitar as foices, ele, o famigerado, o detestado, o demoníaco capitalismo! O pensamento dogmático ainda não conseguiu ir além da década de 1840! Essa turma de arautos ainda se orienta a partir dos preceitos do mais vulgar e ultrapassado marxismo, ainda acredita piamente que o sistema econômico é um monolito homogêneo e que, por si só, coordena todo o restante das dimensões sociais. Segundo esse aferrado dogma, sempre decorrerão do capitalismo, a exploração e a desigualdade. É um reducionismo que constrange qualquer um que seja dotado de um pouquinho a mais de sofisticação intelectual. Até mesmo para muitos marxistas, já se tornou óbvio há anos que dimensões sociais como a cultura, a política e a mentalidade se relacionam com a economia não mais a partir do esquema no qual a base econômica direciona por completo a superestrutura. Dessa forma, o funcionamento do sistema econômico não é independente de outros fatores que perfazem o todo da sociedade, mas varia também de acordo com os arranjos que se formam no âmago dessas dimensões todas. Existem assim, tipos diferentes de capitalismo, que podem ou não funcionar bem de acordo com o arranjo sociocultural. Pode-se objetar que o socialismo também não é um monolito, o que tem boa chance de ser verdade, entretanto, a maior parte dele ainda permanece arraigado na intolerância inerente às ideias de Marx, ainda que possa haver exceções dentro do próprio marxismo. Pensando assim, não há dúvida de que se o capitalismo fosse analisado a partir de um esquema não-rígido, livre de ideias pré-concebidas e moldadas com base numa única matriz, isso traria um ganho inestimável para as sociedades humanas.
Palavras são apenas palavras, o conceito que trazem consigo, e que vai além do mero verbete, assim como as mentes humanas que as empregam, é que podem abrir terreno para análises proveitosas. De outra forma, se caso a força dos dogmas obscurecer a razão, serão os preconceitos ideológicos que continuarão a viscejar e dar margem à construção de estereótipos simplistas, frutos de uma visão de mundo aferrada à religião mundana.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

As lições dos sábios mestres corneteiros de Palestra Itália



O torcedor palmeirense é diferente dos rivais, muito diferente, algo que faz dele próprio e de sua amada agremiação esmeraldina, infinitamente superiores aos adversários. Que fique bem entendido, o palmeirense não possui o afetamento blasé de uns e outros, que torcem apenas por ocasião e tiram do armário a camisa mofada do time apenas quando esse tem chance de ganhar um título. Essa turma é tão sem graça quando torce, que faz jus à pobre história de seu time. Tampouco o palmeirense é um zumbi massificado, “maria vai com a mídia”, tal qual esses torcedores que gostam de times que são desprovidos de cores em sua bandeira e uniforme. Essa patota torce por conveniência, confunde paixão com irrazão. Dá dó.
Segundo reza a  tradição palestrina, -  e para um time protagonista de uma história incomparavelmente rica, zelar pela tradição significa entesourar as glórias - nos primeiros tempos de Palestra Itália havia na rua Turiaçu uma fábrica de ferramentas chamada “Corneta”, diante da qual, sobretudo em dias de contenda, a nata palestrina, formada então pelos oriundi e que influenciaria gerações e gerações de novos palmeirenses, se reunia para discutir os assuntos políticos e esportivos referentes ao time e ao clube. Muito racionais, extremamente exigentes, críticos e invariavelmente valorizando a qualidade acima de tudo, ficaram conhecidos como corneteiros. Sempre transmitindo aos futuros apaixonados palmeirenses as lições de como ser um torcedor diferenciado e superior, os corneteiros são até hoje um dos maiores patrimônios da Sociedade Esportiva Palmeiras.
Nos últimos tempos, porém, nossa amada agremiação esmeraldina vem sendo acometida de uma grave enfermidade causada por criaturas peçonhentas que contaminam as estruturas palestrinas com seu veneno tomado de perfídia. Esses seres monstruosos adoram jogadores ruins, aferram-se ao poder, assim como o carrapato à pele, fazem intrigas e politicagem e são os mais ineptos administradores. Os ares insalubres vitimaram até mesmo parte da torcida palmeirense, que se acostumou a aplaudir fracassos, se contentar com pouco, banalizar o conceito de ídolo e fechar os olhos aos problemas da instituição. Pobrezinhos, foram levados a acreditar que gritar "porco" adianta alguma coisa. Ora, isso é depravação de quem gosta de chamar a si próprio de louco.
Tudo bem, os corneteiros ainda existem e são fortes. Não deixarão que a tradição se perca, não permitirão jamais que a enfermidade tome conta de tudo e destrua o glorioso alviverde, afinal, ele é imortal. É preciso apenas que as essenciais e poderosas lições da mais genuína tradição dos torcedores corneteiros estejam sempre em voga. Elas seguem-se abaixo, certamente o bálsamo redentor que sempre socorreu o Palmeiras quando foi preciso. Siga as lições, seja diferenciado e viva o alviverde imponente!

Lição n°1: qualquer título conquistado por nossa amada agremiação é fruto direto das críticas, das exigências e das pressões exercidas por nossa sapiente cornetagem.

Lição n°2: qualquer forma de apoio injustificado a bagres, vagabundos ou diretoria inepta, constitui em grave perniciosidade contra a própria história da SEP; por outro lado, críticas e exigências visam sempre ao bem supremo da instituição, no sentido de que objetivam afastar as iniquidades, banir as incompetências e evidenciar os equívocos para que não se repitam.

Lição n° 3: um autêntico corneteiro jamais deve furtar-se à responsabilidade máxima das críticas e exigências; deve ainda manter o ceticismo até que as evidências não mais assim o exijam e nunca considerar que dúvidas ou questionamentos sejam demasiados, sempre pelo bem maior de nossa amada agremiação esmeraldina.

Lição n° 4: um autêntico corneteiro sabe bem que, acreditar no time, em princípio, nada significa, não mantém nenhuma relação direta e fundamental com sucesso e conquistas; o fator essencial para as glórias da SEP reside na exigência de qualidade e excelência para que os méritos, enfim, sejam traduzidos em vitórias e títulos.

Lição n° 5: um autêntico corneteiro tem para consigo a ideia elementar de que não existe a menor contradição entre "torcer" e "cornetar"; qualquer um pode torcer, mas apenas os corneteiros, do alto de sua clarividência, são capazes de enxergar o que o clube e o time precisam para amealhar sucesso, sendo que isso ocorre sem que haja nenhum prejuízo ao ato de torcer.

Lição n° 6: um autêntico corneteiro sabe perfeitamente que cornetar é um ato muito mais importante e mais amplo do que torcer; quem somente torce, o faz apenas enquanto o time está em campo atuando, ao passo que a cornetagem envolve não só as partidas, mas também os bastidores e a política do clube, aspecto de suma importância para os sucessos do mesmo, assim sendo, quem se resume a torcer, torna-se um perfeito alienado em todo o restante do tempo, que perfaz o dia-a-dia da agremiação, passividade que contribui de modo nefasto com a perpetuação de equívocos administrativos.

Lição n° 7: um autêntico corneteiro jamais banaliza o conceito de ídolo; para ele, ídolo é somente aquele jogador que tenha conquistado pelo menos um título importante, seja se destacando pelo lado técnico ou pelo fator garra, mais do que isso, um ídolo não mancha seu currículo com erros graves fora de campo, não metralha os próprios companheiros e sabe a hora exata de parar e se tornar eterno no rol dos herois esmeraldinos.

Confiando na indefectível racionalidade dos genuínos torcedores do gloriosíssimo e campeoníssimo alviverde, este corneteiro que vos escreve deseja os mais sinceros votos para que um profícuo estudo das veneráveis lições acima, possa sempre conduzir nossa amada agremiação esmeraldina aos píncaros da glória. Scoppia che la vittoria è nostra!
  

domingo, 17 de janeiro de 2010

Estado brasileiro: um caso de desgovernança e inversão de valores



Em reportagem apresentada nos últimos dias de 2009, o Jornal Nacional abordou a pouca difusão cultural no Brasil. De acordo com a matéria, várias formas de cultura não chegam aos rincões mais distantes do Brasil, cidades pobres do interior brasileiro não contam com salas de cinema, teatros, shows musicais e exposições não ocorrem nesses locais, livrarias nem em sonho e, por aí vai.
É estranho que a maior emissora do país, que tem uma responsabilidade na divulgação da cultura, apresente uma reportagem dessas. A Rede Globo bem poderia contribuir mais do que o faz em termos culturais se pensasse menos em IBOPE, deixando de lado lixos como BBB ou programas do Faustão e do Luciano Huck, e exibisse mais minisséries de época e bons filmes em horários acessíveis. Não é esse o foco que me proponho a tratar, no entanto. O que me chama a atenção são os equívocos da ação do Estado brasileiro quando o tema é a cultura, bem como em outros assuntos, que também analisarei a seguir.
Na reportagem citada, o presidente do IPEA, Marcio Pochmann, petista de carteirinha, ao ser entrevistado, afirmou que a falta de oferta cultural se deve à ausência do Estado brasileiro na promoção da cultura. Afirmação vaga, que suscita dúvidas em relação ao teor da ideia. Entretanto, conhecendo-se a postura ideológica de Pochmann e as práticas políticas do PT, torna-se evidente aquilo que está por trás de tal afirmação. Ora, o Estado até pode se incumbir de ajudar na divulgação da cultura e, embora isso não deva ser um dos principais itens de sua agenda governamental, - o mais correto nessa questão é buscar o estabelecimento de parcerias público-privadas, algo que o governo não faz por motivações ideológicas - é bastante louvável em vários casos. Acontece que não é a simples contribuição na divulgação da cultura que esse governo deseja. O buraco é bem mais embaixo. Pochmann acredita piamente que o Estado deve ser inteiramente responsável por todo e qualquer “desenvolvimento” do país, inclusive no que se refere à cultura. Mesmo com todo o peso sufocante da burocracia brasileira, o presidente do IPEA acha que o Estado brasileiro é pequeno em seu tamanho. Num devaneio político-ideológico, ele associa a qualidade dos serviços prestados pelo Estado, sem ao menos enxergar o que é ou não função estatal, à quantidade de burocratas que o Estado possui. Na sua lógica, quanto mais burocracia e burocratas, melhor e mais atuante será o Estado.
O que o governo petista quer e que se coaduna inteiramente com seu arcabouço ideológico, é ele próprio ser o vetor direto na criação da cultura, ser, através de suas instituições, o órgão responsável por julgar o valor de manifestações culturais, considerando-se aí, obviamente, o caráter político de tais manifestações, naquilo que se ajustam à ideologia do governo e, finalmente, a partir dessas duas primeiras premissas, ser o promotor único e oficial da cultura no país. Mao Tse-tung e Mussolini se regozijariam com isso. Em vista de tais intenções, não é nada surpreendente que o Estado brasileiro tenha destinado verbas para a filmagem do longa metragem que conta a vida de Lula. Culto à personalidade, mitificação de uma figura política que não só está viva, como governa o país. Propaganda e enaltecimento do presidente, com carga de pieguice e romantização da pobreza, como muita gente adora nesse país. Um filme que supera o ridículo. Na consolidação de um projeto do tipo, não se tem mais cultura, mas sim uma prescrição de manifestações e práticas mais políticas do que culturais, endossadas e legitimadas por um governo de claros traços autoritários, forma das mais eficazes para a docilização e arregimentação de apoio irrestrito das massas. Vai bem esse Brasil...
Ao mesmo tempo que tenta cada vez mais impor seu autoritarismo ao atuar como vetor direto da cultura no país, o Estado brasileiro, aí também incluindo as esferas estadual e municipal, se exime de estar presente em um dos aspectos básicos da governança, a saber, no estabelecimento e na fiscalização das regras para a ocupação e urbanização do território. A tragédia de Angra dos Reis é fruto sobretudo da extrema desatenção do Estado em relação a esse ponto.
Incidem sobre tal problema dois fatores fundamentais; em primeiro, é claro, a questão eleitoral, ou seja, a ocupação e construção de moradias se faz aos ollhos do poder público, mas esse nada realiza para impedir - ou prevenir, o que seria bem mais correto -  porque do contrário, os políticos envolvidos perdem votos em eleições; em segundo, o desconhecimento das autoridades no que concerne à geografia e geologia do local; - aqui é sempre bom lembrar que para o governo Lula, ciência é assunto menor - o litoral brasileiro, que está sob influência do clima tropical úmido, é área de ocorrência de chuvas durante todo o ano, tornando-se mais intensas no verão, somado a isso, os grandes paredões escarpados que dividem as serras do Sudeste das planícies litorâneas, constituem terrenos íngremes e de estrutura geológica instável, equação ideal para deslizamentos de terra em épocas de chuva intensa. Não poderia haver construção de moradias na Enseada do Bananal, nem no Morro da Carioca, como em inúmeras outras áreas de grande risco potencial.
É diante de questões como essas, apenas algumas dentre tantas, que ficam claros o descalabro e o desgoverno que vive o país. Em tempo: Lula declarou na semana passada, que a fiscalização dos gastos públicos envolvidos na organização da Copa e das Olimpíadas não deve ser rigoroso. Como bem colocou o sempre atento Mauro Cezar Pereira da ESPN Brasil, é de estarrecer! É a cara do Brasil!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O povo em catarse: um dos efeitos da cordialidade no Brasil das massas



Certa vez, num livro de entrevistas, a historiadora Emília Viotti da Costa afirmou sempre ter duvidado da existência de uma mentalidade nacional, comum a diferentes classes e grupos em um país tão diverso como o Brasil. Assim, ela fez sua crítica ao conceito de “homem cordial”, formulado por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. Equivocou-se a historiadora. Equivocou-se, pois não foi capaz de enxergar que em sociedades de massa, a tendência é justamente o afloramento do que é mais típico de uma mentalidade.
Na década de 1930, quando da publicação da obra norteadora sobre a formação do Brasil, o país consolidava-se como nação, pleiteava, ao menos formalmente, uma colocação dentre as nações modernas e, se assim pudermos chamar, tornava-se um país de massas. Buarque de Holanda, arguto como sempre, viu nesse novo Brasil a emergência da cordialidade como traço mais profundo e mais definidor da mente do brasileiro comum. Advinda historicamente da maneira como fora colonizado o país, a cordialidade encontrou na era Vargas a confluência ideal de fatores humanos para seu estabelecimento definitivo. A cordialidade, se bem entendida, consiste em patrimônio imaterial da cultura brasileira, com todo sarcasmo que isso implica.
A atual conjuntura vivida pelo Brasil, governado por Lula, demarca nitidamente a cordialidade como elemento característico da forma de pensar de nosso povo. Um dos desdobramentos mais evidentes da cordialidade é a comoção gerada por eventos festivos que supostamente conferem à nação um ar de importância e engrandecimento. Ufanismo. Virou moda, de uns meses para cá mais do que nunca, gritar aos quatro ventos que o status alcançado pelo Brasil junto a chefes de Estado e à opinião pública no exterior atingiu níveis altaneiros. O Brasil é o país do momento! Lula é o cara, segundo Barack Obama. O verdeamarelismo se deleita em seu mais intenso orgasmo. Quem acha que não, quem não vê nisso nada mais do que cordialidade ufanista é, segundo o festivo presidente brasileiro, chato, ranzinza e do contra. Vários brasileiros, imersos na euforia e no sambinha de Copacabana, concordam. Não lhes ocorre que a atitude blasé diante do otimismo infundado possa estar embasada em análise fria e racional, distante do picadeiro no qual a cordialidade hipnotiza os incautos.
Em boa parte, a festinha verde e amarela se deve ao fato do Rio de Janeiro ter sido escolhido como sede das Olimpíadas em 2016. Some-se a isso, o outro evento esportivo, a Copa do Mundo do Brasil em 2014. Olimpíadas e Copa do Mundo, eventos efêmeros que durarão um mês, o suficiente para a alegria do povo, o suficiente para quase tornar completo o set list da esbórnia coletiva. Acríticas e seduzidas pela propaganda governamental, característica de governos autoritários, as massas se esqueceram rapidinho do legado do Pan-2007, no qual o dinheiro público foi gasto a rodo, sem que as instalações pudessem deixar legado algum, sequer para a população do próprio Rio de Janeiro. Não vai mudar na Copa, nem nas Olimpíadas, a menos que se crie um comitê civil  totalmente independente para fiscalizar os gastos. Mas quem vai pensar nisso enquanto estiver anestesiado pela catarse do verdeamarelismo? Não há, nem de longe no Brasil, cultura democrática suficiente para tal ato. Além disso, os interesses políticos obviamente não permitiriam uma tal ingerência democrática em seus negócios. Seria de um liberalismo político impensável num regime centralizador. O método mais correto, no entanto, seria fazer com que a verba para a construção das instalações necessárias viesse da iniciativa privada. Por razões elementares de cunho ideológico, algo do tipo não é nem sonhado pelo governo, tampouco atenderia aos tais interesses políticos.
Cabe ainda deixar claro que o desenvolvimento de um país nada tem a ver com eventos esportivos que nele se realizem. Não é preciso Copa do Mundo ou Olimpíadas para serem feitas as urgentes melhorias e reformas que o Brasil requer, elas sim geradoras de desenvolvimento. Só que as mesmas não conferem votos, são de efeito a médio e longo prazo, enquanto os eventos esportivos apresentam fachada deslumbrante e destilam o mesmo poder de sedução que faz o barqueiro naufragar perante o canto da sereia. A cordialidade incapacita o povo festivo de enxergar a política do pão e circo por trás desse contexto. Só uma pergunta: diante da falência completa do futebol nas três regiões mais pobres do país, onde os clubes estão endividados até os cotovelos, onde os estádios na maior parte das ocasiões permanecem vazios, o que será feito dos elefantes brancos que estão sendo construídos com dinheiro público para a Copa após o evento? Se alguém tiver ideia, comente, por favor.
Deixando de lado os acontecimentos de fachada e buscando fatores de análise que, por seu caráter mais técnico, não se colocam no horizonte das massas em catarse, torna-se inconteste a falácia da bonança tupiniquim. No que tange ao comércio mundial, a participação do Brasil considerando todos os setores da economia, fica em torno de 2%. Índice risível, que só não é mais baixo por conta do agronegócio. Ora, um país desenvolvido não pode depender apenas do setor primário, além disso, como o Brasil investe pouco em pesquisa de meio ambiente, os efeitos do agronegócio sobre a natureza são pouco debatidos e as possibilidades de atenuá-los estão distantes. Se o Programa Nacional de Direitos Humanos do governo petista for aprovado no Congresso, então até mesmo o agronegócio estará seriamente ameaçado. No setor industrial, o Brasil vem perdendo fatias de mercado, já que os investimentos em tecnologia e logística são parcos, bem como a corrupção sistemática e a carga tributária exacerbada constituem-se em fortíssimos entraves à produção. Finalmente, o terciário pouco qualificado em face de uma educação falida, nada representa em termos práticos sobre a participação brasileira no comércio mundial.
Levando em conta outros aspectos importantes que perfazem o cálculo do IDH, os índices do país se mostram igualmente bem aquém do desejável. É assim com a educação, com a saúde e com a renda per capita. Nesse último quesito, o assistencialismo petista enforca a classe média, a mais produtiva do país, com uma quantidade imensa de impostos e transfere a renda aos mais pobres, sem que isso evidentemente os tire da pobreza e lhes permita acesso à oportunidades.
Há motivos para acreditar que o Brasil é o país do momento? Só entre quem é dominado pelo ufanismo cordial. Há quem sempre vá se lembrar das palavras elogiosas de Obama em relação a Lula, ou que vá ainda mencionar a eleição do presidente festivo como personalidade do ano por jornais da França e da Espanha. Mero joguete diplomático, especialmente em relação à França, que está prestes a vender aviões de caça ultrapassados ao Brasil. Lula vai salvar a Dassault da falência, a fabricante dos jatos. Já de minha parte, eu veria com bons olhos se algum pesquisador brasileiro tivesse faturado um Nobel, mas devo me lembrar sempre que pesquisa e ciência não são coisas afeitas à cordialidade. Nenhum, entre os brasileiros típicos, valorizaria devidamente um conterrâneo ganhador de Nobel. É a cara do Brasil...

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Apologia da razão



“Tenho o hábito de me considerar um racionalista; e um racionalista, suponho, deve ser alguém que deseja que os homens sejam racionais. Mas nos dias de hoje a racionalidade recebeu muitos golpes duros e, por isso, é difícil saber o que os seres humanos possam alcançar. A questão da definição da racionalidade possui dois lados, o teórico e o prático: o que é uma opinião racional? O que é uma conduta racional? O pragmatismo enfatiza a opinião irracional, e a psicanálise enfatiza a conduta irracional. Ambos levaram as pessoas a perceber que não existe um ideal de racionalidade com o qual a opinião e a conduta possam estar em conformidade de forma vantajosa. A consequência parece ser que, se eu e você tivermos opiniões diferentes, é inútil apelar para o argumento, ou buscar a arbitragem de uma terceira pessoa imparcial; não há nada que possamos disputar pelos métodos da retórica, da propaganda ou da guerra, segundo o grau de nossas forças financeiras e militares. Acredito que essa perspectiva seja bastante perigosa e, a longo prazo, fatal para a civilização.”
Foi com tais palavras que Bertrand Russell iniciou o ensaio “Pode o homem ser racional?”, escrito na década de 1920. Hoje, passados cerca de 85 anos desde então, há motivos de sobra para considerar que os tantos “golpes duros” sofridos pela racionalidade tenham aumentado exponencialmente em relação à época em que o filósofo inglês redigiu seu texto. Depois dos frankfurtianos e da escola pós moderna, que  parece ter dado seus primeiros passos ainda no século XIX, por meio de nomes como Nietzsche e Bergson, passando pelos inúmeros profetas da decadência do Ocidente no século XX, o irracionalismo abraça vorazmente tudo a seu alcance, cada vez mais. A picaretagem conquistou o mundo, segundo o dito de Francis Wheen, um racionalista que de resto, é marxista demais para o meu gosto.
Se alguma vez um pensador genuinamente iluminista do século XVIII afirmou ipsis litteris que acreditava no Progresso, com “P” maiúsculo, linear e constante, hoje é certo que ninguém mais advoga tal pensamento. Qualquer estudante de Ensino Médio com um mínimo de senso histórico pode notar que isso é falacioso. Se fosse esta a ideia a mover tantos ataques contra a razão, os racionalistas não precisariam estar preocupados, embora ainda possa haver um certo número de ingênuos ou preguiçosos intelectualmente que estabeleçam sua contrariedade ao racionalismo a partir desse viés. Na verdade, a dúvida desdenhosa em relação ao potencial libertador da razão encontra sua tese em interpretações equivocadas, tanto no que tange à própria filosofia racionalista, incluindo aí a aposta nos benefícios da ciência, como também em campos do conhecimento surgidos no século XX, tais como a psicanálise e a linguística.
É óbvio que nenhum racionalista defende o ponto de vista de que o homem possa atingir um grau de razão em cem por cento. Se não fosse o absurdo que isso já parece pressupor logo de cara, seria possível recorrer àquilo que muitas filosofias orientais (o exemplo é proposital...) ensinam há milênios, a saber, que o homem é imperfeito. O lado irracional da mente é inerente ao ser humano, o que o racionalismo propõe, são métodos para se lidar com esse aspecto, de modo a tentar atenuá-lo. Quando somos postos a pensar apenas  por alguns segundos, fica fácil observar que em nossas ações do cotidiano, que ocupam uma quantidade bastante significativa do tempo, nos orientamos com base nos signos da razão. Se você encontra um vazamento na pia de sua cozinha, irá buscar primeiramente contê-lo; tão logo tenha feito isso, o próximo passo será identificar a causa do problema, para então solucioná-lo a partir das técnicas conhecidas. Quando vamos preparar uma macarronada, uma lógica deve obrigatoriamente ser seguida, desde o tamanho do caldeirão a ser usado, passando pela fervura da água e acréscimo dos temperos, até a retirada do cozimento no ponto certo, para finalmente juntar ao macarrão, o molho e o queijo. Se os passos não forem obedecidos na ordem correta, lógica e racionalmente, certamente a fome terá que ser saciada com uma massaroca indigesta. Exemplos básicos do dia-a-dia em que a razão é fundamental. Poder-se-ia objetar essa argumentação dizendo que a vivência e a inter-relação entre as pessoas envolvem fatores de ordem muito mais complexa, nos quais a objetividade empregada nos exemplos anteriores acaba por não existir. Claramente isso é verdade, mas antes de considerar a objeção, cabe perceber, seguindo o próprio Russell, que “um grande defeito dos filósofos é preferir os grandes exemplos do que aqueles que se passam em nossa vida comum e no cotidiano”.  Uma vez mais fazendo valer a reflexão de Russell, é dever reconhecer que o pragmatismo subjetivista teve o mérito de notar que as crenças humanas são vagas e complexas, não apontam para fatos precisos e unívocos, mas para diversas regiões de fatos vagos e díspares. Tais crenças, portanto, ao contrário das proposições esquemáticas da lógica, não são opostos definidos como verdadeiro ou falso, mas sim uma névoa imprecisa de verdade e falsidade; possuem tons variados de cinza, nunca pretos ou brancos. Dessa forma, uma vez feito jus às descobertas importantes do pragmatismo, o problema é confundir crença com verdade, eximindo-se da busca científica e filosófica pela aproximação possível da verdade, corrigindo, ao menos em parte, a distorção provocada pelas opiniões humanas, permeadas por grande dose de paixão. Essa seria, a meu ver, a função das ciências humanas. Ainda voltarei a isso. Quando a ideia simplista de que tudo é opinião satisfaz um intelecto indolente, é impossível proceder a um ajuste amigável das diferenças. Acaso não seriam as guerras e os totalitarismos do século XX, frutos justamente dessa forma de pensar e agir, ao contrário do que tentam transmitir os irracionalistas, afirmando que a razão e a ciência conduziram a humanidade ao estágio atual? Conferir peso exagerado à subjetividade, seria, mutatis mutandis, incorrer no mesmo erro de um pseudo racionalista, que nada enxerga além de uma objetividade que só existe a seus próprios olhos.
A ciência é um dos alvos de ataque preferidos do irracionalismo. Os obscurantistas, como comecei a destacar já no parágrafo anterior, afirmam que o sonho de um futuro paradisíaco apregoado pelos racionalistas a partir da ciência, não passou de uma grande quimera, dado as catástrofes observadas em escala cada vez maior a partir do ano de 1914. Primeiramente, nenhum racionalista sério defendeu alguma vez que tenha sido, que a ciência, por si só, levaria o homem à felicidade plena. Aliás, essa meta parece cair como uma luva em várias filosofias narcisistas pós modernas. Um racionalista sabe bem que felicidade, em seu estágio consumado, é algo interno, produto de um trabalho mental-filosófico e individual, não mantendo relação com fatores externos, como a ciência. Em segundo lugar, a ciência é impessoal e amoral, suas descobertas intrínsecas não estão preocupadas com a aplicação de seus resultados. A ciência não é um deus que escolhe suas ações. A ciência se faz e se desenvolve a partir de métodos racionais, não indo além disso. O uso que dela se faz, é preciso entender, trata-se de uma questão humana, sujeita aos desmandos e paixões da subjetividade; nada garante que, por ser a ciência racional no que se refere aos seus métodos, seja racional também em suas aplicações. A ciência é uma criação humana e, quando utilizada para o bem, não há dúvida de que melhora acentuadamente e a cada minuto a vida das pessoas. De outro modo, quando mal utilizada, gerou e ainda gera prejuízos imensos. Quem faz a escolha não é a ciência, é o homem. O pragmatismo é incapaz de condenar aquilo que ele próprio critica, pois fica preso em sua armadilha. Como desaprovar escolhas se a argumentação racional jamais pode prevalecer sobre o nevoeiro das opiniões e das crenças?
Muitos pensadores pós modernos consideram que a psicanálise foi um campo do saber responsável por impor ao racionalismo uma derrota da qual ele jamais poderia se recuperar. A meu ver, essa ideia resulta de uma noção errônea sobre a psicanálise e sobre a filosofia racionalista. O racionalismo jamais desconsiderou a existência e a importância da dimensão irracional da mente humana. Se fosse o contrário, não haveria nenhum motivo para a busca da razão, já que ela não se faria necessária diante da inexistência de seu oposto. Exatamente por enxergar o irracional, a filosofia racionalista deseja que os homens sejam racionais, pelo menos, tanto quanto possível, para modificarmos um pouco a formulação de Russell. Não é diferente com a psicanálise. Quando Freud descobriu e analisou as pulsões destrutivas do homem, não pretendeu com isso transmitir a ideia de que fosse impossível se libertar desses fantasmas da mente. O que é a psicanálise senão a tentativa, racional, diga-se de passagem, de fornecer um antídoto contra as pulsões? Desde Freud, vários meios, psicológicos ou filosóficos, foram expostos e praticados na tentativa de lidar com a questão da perda da satisfação total. Há bons motivos para acreditar que os meios racionais são os mais bens sucedidos nessa empreitada. Álcool e drogas, por exemplo, são tentativas irracionais de se lidar com as agruras da mente. Irracionais porque os resultados são paliativos, isolam as pessoas, tornando cada vez mais difícil a convivência social e a manutenção de laços afetivos de amor ou amizade; contribuem apenas para um maior autocentramento, o que sabidamente agrava ainda mais distúrbios psíquicos como depressão e síndrome do pânico. Nesse sentido, as filosofias pós modernas são igualmente prejudiciais em relação às doenças típicas da contemporaneidade, uma vez que o hedonismo, traço marcante dessas vias de pensamento, ao superstimar a subjetividade, confere grande margem para o egoísmo, porta de entrada a muitos males da mente.
No campo da linguística, tem-se ao que parece, a maneira mais fácil de comprovar que os ataques do pós modernismo à razão constituem nada mais do que uma tentativa desesperada de justificar o impossível, ou seja, aquilo mesmo que a lógica e os argumentos desmistificam. Tornou-se comum ao longo do século XX o surgimento de filosofias e pensadores que, com base na interpretação dos signos da linguagem, ramo conhecido como semiótica, defenderam que qualquer tentativa de se chegar à verdade, ou mesmo de busca por probabilidade que possa tornar uma conclusão aceitável, esbarra impreterivelmente na textualidade e na subjetividade do autor do texto. Sendo assim, toda forma de apresentação de conclusões, descobertas, análises, ou seja lá o que for que se proponha a defender alguma ideia, é um discurso de poder, viciado pelo ponto de vista do autor. Essa ênfase na textualidade, logo de cara, descarta o fator ético como critério de validação de conclusões. Qualquer cientista sério deve ter compromisso com a verdade, mesmo que não chegue a ela, o fracasso nunca pode ser deliberado. Ainda que isso não bastasse e os pós modernos afirmassem que, mesmo preservando a ética, a subjetividade inconsciente impossibilite a descoberta de qualquer verdade ou probabilidade imparcial, há que se considerar que a aferição de uma conclusão é externa ao sujeito que a oferece. A experiência e a confrontação de descobertas e interpretações múltiplas pode sim, sem dúvida, tornar conclusões válidas, ou na pior das hipóteses, pode fazer com que uma boa dose de probabilidade praticamente seja capaz de desfazer hesitações. Como bem coloca o historiador Carlo Ginzburg ao pensar na pesquisa histórica especificamente, (ou nas Humanidades em geral, poderíamos dizer) corrigir a distorção de um documento, procurando indicar para que lado ou em que sentido essa distorção ocorre, já é uma atividade científica. Aqueles que dizem que história e literatura são a mesma coisa não possuem a menor noção de como atua um historiador, nem tampouco sabem alguma coisa sobre crítica documental. Seria ainda possível que os pós modernos defendessem que mesmo sendo a aferição externa ao sujeito, aqueles que aferem estão igualmente mergulhados na subjetividade, impedidos portanto de aferir imparcialmente. Os avanços da ciência e as descobertas que os próprios pós modernos desfrutam, servem para desmentir tal argumento, que pareceria absurdo até ao senso comum. Mais uma vez, torna-se complicado para um pós moderno argumentar em defesa de sua maneira de enxergar as coisas. O linguista e filósofo alemão Karl-Otto Apel foi lapidar quando formulou o conceito de autocontradição performativa, cilada que faz com que a filosofia subjetivista prove de seu veneno. Segundo Apel, uma vez que um cético pós moderno admita que nada há além de crenças parciais e contaminadas pela subjetividade, é necessariamente obrigado a negar aquilo que ele mesmo pensa, pois sua versão dos fatos não passa de um ponto de vista obscurecido pelo seu próprio achismo, não tendo validade alguma. Um pós moderno defende uma teoria e, quando a conclui, está implicitamente afirmando que tudo o que acaba de dizer é pura subjetividade.
O grande Russell, que me serviu de ponto de partida para essa reflexão, foi em toda sua vida, um otimista no que diz respeito às possibilidades de construir um mundo melhor a partir do racionalismo. Ele costumava dizer que se as pessoas fossem mais racionais, o mundo se tornaria um paraíso em relação ao que era, embora num certo momento, como deixa pressupor o excerto inicial, ele próprio tenha se desencantado um pouco. Hoje em dia, mesmo filósofos sérios como John Gray, zombam de Russell, atribuindo-lhe ingenuidade em sua esperança. Se esquecem que a maior parte de suas análises foram construídas entre 1920 e 1965; quando se historiciza Russell e quando se atenta para o fato de que ele acreditava num mundo melhor em comparação àquele que ele viveu, não há ingenuidade alguma em seu otimismo. Se em certo sentido a humanidade está em situação pior do que há 70 ou 60 anos, isso não se deve a uma suposta falha do racionalismo, mas justamente ao crescimento dos irracionalismos. Eu, que me coloco como um seguidor de Russell, talvez seja menos otimista do que ele. Vivemos numa era em que o poder irracional dos meios de comunicação de massa e uma forma doentia de capitalismo que não exclui, mas coopta as massas de um modo absolutamente inadequado e imperfeito, além do crescimento assustador das filosofias subjetivistas, ameaçam seriamente as possibilidades de um racionalismo revigorado, muito mais do que a bárbarie do século XX, por serem muito menos explícitos. De outro modo, dentre muitos exemplos, considero absolutamente racional que nos dias de hoje o ser humano prescinda por completo do consumo de carne, o que traria benefícios ecológicos e espirituais de larga monta, assim como creio que conflitos devidos à particularidades culturais e religiosas poderiam ser resolvidos com base no diálogo racional, que não conhece pátria, credo, cor, ou seja lá qual tipo for de particularismo. Não vejo ingenuidade nisso. A razão é um atributo humano e universal, motivo pelo qual, apesar do pessimismo, ainda assim me inspirei a redigir esta apologia.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Indagações




Abaixo, a lista dos questionamentos que mais me perturbaram em 2009, de acordo com o que pude observar em relação àqueles que nelas estão envolvidos e/ou por meio de terceiros. Os meus comentários não têm a pretensão de serem respostas definitivas, são somente hipóteses, desabafos, perspectivas... Aí vai...

1. Como pode o atual presidente da República ter aprovação acima de 70% entre os brasileiros? Uma explicação plausível é que a propaganda autoritária vem sendo muitíssimo bem feita.

2. Por que Nietzsche, mesmo tendo responsabilidade indireta em regimes totalitários do século XX e na atual tendência de autocentramento das pessoas, especialmente jovens, é tão idolatrado, tendo até mesmo virado moda nos estudos acadêmicos? Não é de se surpreender que o narcisismo pós-moderno esteja cada vez mais forte.

3. Por que a maior parte da torcida do Palmeiras ainda coloca Marcos como um grande ídolo se o jogador, visivelmente fora de forma, defasado tecnicamente e psicologicamente desequilibrado, a todo momento soltando a língua para a imprensa e contribuindo repetidas vezes para desagregar o grupo, continua atuando por puro egoísmo e prejudicando o time? Ah, que saudade dos verdadeiros ídolos!

4. Até quando a diretoria do Palmeiras irá administrar o clube como se este fosse uma fabriqueta de macarrão, perpetuando todos os arcaísmos, mantendo a repetida falta de planejamento notada há décadas (exceto pelo período Parmalat), acreditando em lendas como o ex-treinador em atividade/manager Wanderley Luxemburgo e nos tantos jogadores de péssima qualidade contratados ano após ano, cometendo o absurdo de até hoje não ter um departamento de marketing decente, um programa de sócio-torcedor eficaz e categorias de base livres de interesses escusos? Acorda Palmeiras! E pensar que existem tantos torcedores iludidos que acham que gritar "porco" adianta algo. A culpa é desses também!

5. Como é possível que, chegando mais um verão, em pleno século XXI, as grandes cidades brasileiras como São Paulo ainda sofram com as enchentes? É óbvio que os rios, quando transbordam, apenas tomam o lugar de suas várzeas, outrora livres, hoje tomadas pela ocupação desplanejada e irregular. Nenhum político fala em obras de infraestrutura nesse sentido, pois não conferem visibilidade. A política se transformou em puro performismo (essa, uma constatação que vale também para a questão 1).

6. Por que muitas pessoas ainda insistem em comprar animais se tantos deles esperam para ser adotados nos abrigos e nos CCZ´s (ou vagando pelas ruas, é claro)? Animais não são mercadorias.

7. Por que muitos donos de cães ainda insistem em cruzá-los, fazendo proliferar o número de filhotes, potencialmente futuros animais abandonados, jogados à própria sorte, sujeitos ao sofrimento e à morte? Castração já!

8. Por que tantas pessoas encherão a pança com cadáveres nas festas de fim de ano, às custas de sofrimento, exploração, derramamento de sangue e morte? Olhem para um presépio e reflitam...

9. Até quando, sempre que um final de ano se aproxima, as pessoas irão manter enfadonhas promessas para o ano seguinte? E as ridículas superstições? Tudo por causa de uma virada no calendário! Fora isso, há ainda o costume cretino de usar fogos de artifício, responsáveis por tantos transtornos aos animais e acidentes com os próprios humanos. Mentalidade excessivamente festiva só faz mal.

10. Por fim, o que você espera de 2010? Eu não espero nada, pois como já frisei na questão 9, não é uma mudança de 31/12 para 01/01 que me faz esperar algo. O que eu espero, é poder a cada dia de minha vida agir segundo critérios justos e virtuosos. É preciso mais?