segunda-feira, 19 de março de 2012

Trinta anos sem Randy Rhoads


Há exatos trinta anos, em 19/03/1982, um acidente áereo que poderia ter sido facilmente evitado provocou a morte prematura de Randy Rhoads, um dos maiores gênios da guitarra em todos os tempos. Definitivamente, o Rock nunca mais seria o mesmo depois dele.
No final da década de 1970, em virtude da onda punk, o momento se mostrava bastante difícil para bandas e músicos que procuravam primar pelo apuro técnico, assim, só quem realmente fosse extremamente bom e perseverante, quando muito, estava apto a conseguir se manter em cenário tão desfavorável. Nessa época Rhoads já mostrava sua incrível perícia no pouco conhecido Quiet Riot, talento que não demoraria para ser reconhecido e cobiçado. Em 1979 o guitarrista foi convidado para fazer parte da banda do já consagrado Ozzy Osbourne, que havia deixado o Black Sabbath e começava a partir de então sua carreira solo. A parceria entre o carismático e impressivo Ozzy e o prodígio de genialidade representado por Rhoads legou dois álbuns essenciais para qualquer discoteca de Heavy Metal que se preze, Blizzard Of Ozz (1980) e Diary Of A Madman (1981), obras primas que podem ser ouvidas infinitas vezes sem jamais deixarem de revelar novos detalhes e minúcias a serem desvendadas. Sem dúvida, teria sido muito mais se Rhoads não fosse vítima da tragédia. É possível que até hoje ele estivesse fazendo música juntamente com Ozzy.
A importância de Rhoads para o Heavy Metal é de natureza grandiosa, não só devido ao repertório completíssimo de técnicas que ele possuía, como também pela intensa criatividade na elaboração de riffs, melodias, licks e solos, só possíveis de serem executados por um guitarrista monstruoso como ele. Combinados, esses elementos lhe conferiram o que a meu ver define um músico de alto gabarito, isto é, a posse de um estilo próprio. Assim como acontece com todos os outros músicos dotados de enorme talento, distingue-se a sonoridade produzida por Rhoads já nos primeiros acordes, atributo que faz do músico não apenas um tocador de instrumento, mas alguém que dá a sua identidade a esse instrumento. Não é só uma guitarra, é uma guitarra tocada por Randy Rhoads, o que faz toda a diferença. Apreciar clássicos como Crazy Train, Mr. Crowley, Flying High Again, Goodbye To Romance, Over The Mountain, You Can´t Kill Rock And Roll, Little Dolls, Tonight ou Diary Of A Madman, surfando em cada nota perfeitamente encaixada por Rhoads, é um verdadeiro deleite.
Nascido em Santa Mônica, na Califórnia, Rhoads foi um divisor de águas no Rock, um guitarrista que juntamente com alguns outros nomes da New Wave Of British Heavy Metal, gente que lutava pela sobrevivência da técnica no outro lado do Atlântico, influenciou muitas bandas e guitar heroes dos anos 1980, proporcionando novo fôlego a um estilo ameaçado por modismos e que precisava reencontrar caminhos alternativos ao Hard e ao Progressivo setentistas. Estudioso, metódico e perfeccionista, contrariando a tese admiradora da preguiça que advoga em favor da despreocupação e do improviso como fatores de genialidade, Rhoads foi um músico à frente de seu tempo, um dos pioneiros a trazer a influência do Barroco e do Neoclássico para o campo do Rock. Tem-se aí um alto grau de percepção e inventividade dado somente àqueles que farejam e pesquisam, não aos que esperam obter frutos a partir de alguma iluminação milagrosa, ideia ingenuamente comprada por muitos críticos.
Se a máxima “apenas os bons morrem jovens” (ele morreu aos 25) for verdadeira, Rhoads infelizmente a representa categoricamente. Mas talvez esteja nisso também uma lógica que, apesar de trágica, define o gênio: cedo se foi, mas produziu com tamanha qualidade e competência, que foi o bastante para privilegiar os ouvintes da boa música. Rhoads não precisava de mais nada par ter seu lugar merecidíssimo na seleta galeria que eterniza os monstros sagrados. Rhoads está vivo em cada nota de sua música!

segunda-feira, 12 de março de 2012

Planejamento familiar e desenvolvimento


O britânico Thomas Malthus (1766-1834) foi um dos primeiros estudiosos a abordar as relações entre economia e população, sendo bastante conhecida sua teoria da superpopulação que conduziria a um quadro de fome. Malthus escreveu na passagem do século XVIII para o XIX, período em que as condições médico-sanitárias haviam melhorado bastante na Europa, diminuindo a mortalidade infantil e elevando a expectativa de vida. O resultado disso foi que a população europeia cresceu à época como jamais se tinha antes observado, levando Malthus a concluir que enquanto a produção alimentar crescia segundo uma progressão aritmética, o aumento populacional se dava no ritmo de uma progressão geométrica, daí a insuficiência de alimentos que levaria à fome. Como remédio, Malthus apontou a importância da redução da natalidade, o que mais tarde, no século XX, iria influenciar a escola chamada neomalthusiana, porém, ele não deixou claro por quais métodos essa redução deveria ser posta em prática.
Apesar de Malthus ter vivido um contexto no qual a indústria inglesa se consolidava a cada dia, ele ainda era alguém que pensava de acordo com a mentalidade pré-industrial, sendo assim, não atentou para o fato de que a tecnologia, ao permitir que o ser humano resolvesse melhor a equação clima-agricultura, seria capaz de promover maior produção de alimentos, determinando o equívoco central de sua teoria. Sabe-se agora que a fome é um problema de fundo econômico, isto é, quem sofre com a carestia alimentar é em função da insuficiência de dinheiro para comprar alimentos, que não faltam, mas sobram em várias partes do mundo. Essa constatação torna o malthusianismo um paradigma obsoleto, resgatado somente nos cursos de Geografia, entretanto, há muita gente que não percebe que a discussão concernente ao tema da superpopulação nos dias de hoje não deve estar focada somente na fome, nem que o neomalthusianismo, mais voltado para pensar o quadro geral do desenvolvimento e do subdesenvolvimento,  se aproveita apenas de alguns traços deixados por Malthus.
Segundo o argumento marxista, tanto o malthusianismo, mas sobretudo o neomalthusianismo, são equivocados porque a superpopulação é uma consequência da pobreza, não a causa dela. A ideia não está errada, pois é correto admitir que quando se estabelecem políticas eficazes de desenvolvimento, a pobreza se reduz e, desse modo, contribui-se com a queda nas taxas de natalidade. De resto, não é preciso ser marxista para saber disso. O leigo poderia se perguntar o que o desenvolvimento tem a ver com a queda da natalidade, ao que responderíamos que em sociedades desenvolvidas há uma tendência maior da mulher na ocupação de postos de trabalho, as informações a respeito de métodos anticoncepcionais são mais difundidas e postas em prática, bem como ocorre maior valorização de aspectos culturais e de lazer, além do que inexiste a concepção perversa, mas recorrente em meios subdesenvolvidos, de que mais filhos significam mais pessoas para sustentar o lar. Assim, pode-se afirmar que nas sociedades desenvolvidas uma série de elementos está diretamente relacionada a taxas de natalidade reduzidas.
Atualmente, os neomalthusianos - talvez a alusão a Malthus não seja precisa, o que contribui com a má compreensão do neomalthusianismo - são aqueles que defendem a tese segundo a qual é preciso haver redução populacional para que o desenvolvimento venha de modo mais ágil e eficaz. Estes não negam que a superpopulação é consequência da pobreza, como espero ter deixado suficientemente claro no parágrafo anterior, mas não desprezam a noção de que o desenvolvimento também é dependente de um perfil populacional que já tenha, no mínimo, entrado no estágio de transição demográfica, quando as taxas de natalidade passam a apresentar curva descendente, pois só assim é possível haver desenvolvimento efetivo. A redução da natalidade seria assim, ela própria uma estratégia política para a implementação do desenvolvimento, feita concomitantemente a ele e como vetor para sua agilização. É mais fácil promover desenvolvimento quanto menor o número de pessoas, afinal, se a pobreza gera a superpopulação, esta acentua aquela.
Da mesma maneira que acontece com o liberalismo, pesa sobre o neomalthusianismo uma pecha atribuída pela má-fé de muitos marxistas, como o senhor Ignacy Sachs. Tomado por grande falta de honestidade intelectual, Sachs acusa os neomalthusianos de desejarem exterminar populações, o que não poderia ser mais falso, abjeto e deploravelmente execrável. Neomalthusianos defendem planejamento familiar e Sachs teria o dever de apontar que genocídios marcam, isso sim, as políticas empreendidas por experiências marxistas que ele advoga. Na quimera utópica do paraíso terreno, o comunismo legou invariavelmente o fruto da instalação do horror no presente como justificativa para alcançar um futuro inalcançável, posto que assentado sobre uma ideia absurda e geradora de ódio.
O neomalthusianismo, ao contrário do marxismo, jamais pregou a eliminação de pessoas, mas tão somente a necessidade de redução no número de nascimentos, resultado que pode ser alcançado de forma simples e pragmática por meio de planejamento familar, requerendo apenas campanhas de educação, políticas de assistência social, divulgação de métodos anticoncepcionais e distribuição de preservativos, ao mesmo tempo que, obviamente, deve-se implementar desenvolvimento humano e econômico. Cabe ainda lembrar aos marxistas dois pontos importantes: primeiro, que não há um compasso exato entre a promoção do desenvolvimento e a automática e rápida queda na natalidade, como o provam China e Índia, países que vêm se desenvolvendo há mais de três décadas, mas permanecem apresentando taxas de natalidade elevadas (escusa-se salientar que as políticas de redução de natalidade em ambos os países não são baseadas em estratégias neomalthusianas de planejamento familiar, embora a Índia dê sinais de mudança nesse sentido, quanto à China, seu governo é comunista...); em segundo lugar, o neomalthusianismo não é uma teoria que se resume a levar em conta elementos econômicos isolados de outras dimensões sociais, de vez que atenta também para o viés ecológico, considerando a disponibilidade de recursos naturais e, algo que me sinto totalmente à vontade para colocar, a questão dos hábitos alimentares, muitíssimo responsável pela ocorrência da fome em vastas porções da Terra, já que a pecuária favorece também o colapso econômico e agrícola.

terça-feira, 6 de março de 2012

Entre chutes no traseiro e boquirrotos vagabundos, viva as bananas!


Os patrioteiros estão dando chiliques, não se aguentam de raiva com a declaração do secretário-geral da FIFA, Jerôme Valcke, ao dizer que o Brasil merece um chute no traseiro. Preocupado com a total desordem que impera na organização da Copa 2014 no país, - não só alguns estádios estão com obras atrasadas, mas principalmente a parte de infraestrutura e a Lei Geral da Copa mal saíram do papel - Valcke perdeu as estribeiras. Particularmente, considero a declaração do mandatário francês uma rara réstia de lucidez - ainda que não intencional - em meio a tanta coisa errada que marca esse famigerado mundial em terras tupiniquins.
Ter trazido a realização da Copa 2014 para o Brasil foi um devaneio (mais um!) da personalidade autoritária e megalomaníaca do ex-presidente Lula, amicíssimo de Ricardo Teixeira, inclusive. Muitos bem sabem que a FIFA está distante de merecer qualquer elogio, pois nos últimos tempos mergulhou num espesso lodaçal de interesses escusos que levou a instituição máxima do futebol a enxergar o esporte apenas como negócio. Negócio esse que obviamente engorda os bolsos de seus altos dirigentes e de seus aliados espalhados mundo afora, sobretudo em países nos quais a esbórnia é favorecida pelo desrespeito às leis e pela idiotice da população em catarse com o pão e circo.
Marco Aurélio Garcia, acessor do governo federal e um dos mais típicos próceres do autoritarismo gramsciano-petista, respondeu enfurecido às palavras de Valcke, acusando o secretário-geral de boquirroto e vagabundo. Alguns comentaristas, também eles patrioteiros de ocasião, disseram que a resposta foi justa e à altura, uma vez que alguém deve mostrar que o Brasil não é uma república das bananas. É aí que se enganam redondamente, dado que a réplica de Garcia acentua de modo ainda mais gritante a condição que este país tem feito questão de vender há tempos como imagem. O Brasil é sim, sem a menor sombra de dúvida, uma república das bananas e a realização da Copa 2014 nos moldes em que está sendo empreendida é mais uma prova disso. Se Garcia - que nessa troca de farpas invocou até mesmo a colonização francesa, fazendo referência à nacionalidade de Valcke e deixando desnuda sua mentalidade rancorosa e terceiromundista - fosse uma pessoa de ideias corretas, teria dito em resposta alguma coisa como: “infelizmente o secretário-geral da FIFA, embora tenha pecado por certa falta de educação, está coberto de razão, o Brasil não tem a menor condição de sediar uma Copa do Mundo e tudo que envolve esse mundial implica em equívocos ainda mais graves quando se reconhecem os caminhos sórdidos que estão por trás da realização do evento”. Somente uma argumentação nessa linha poderia mostrar que pelo menos alguns neste país não querem de fato ser súditos de uma república das bananas, mas desejam, ao contrário, ser cidadãos de  uma nação séria. O chilique de Garcia não faz mais do que dar carta branca para que a FIFA continue se utilizando de seu modus operandi em conluio com a CBF e com o governo federal petista. Há quem diga que Dilma tem batido de frente com Ricardo Teixeira, só não percebem que ela não é quase nada além de uma marionete de Lula a quem, inclusive, a presidente veio tomar conselhos na última sexta-feira, encontro que ocorreu quase na surdina. Lula ainda tem mais força que Dilma, quem governa o Brasil é o PT, não ela.
A Copa do Mundo de 2010 foi na África do Sul, 2014 será no Brasil, 2018 na Rússia, que acaba de reeleger Vladimir Putin para a presidência, 2022 no Catar, nação do mundo árabe cujas somas abundantes de dinheiro são obtidas com o petróleo e com o poder dos sheiks. Países assim, de instituições frágeis e governados por autarquias que, como não poderia deixar de ser, costumam desprezar tenazmente condutas democráticas, constituem-se em terrenos perfeitos para a organização de eventos esportivos cujos interesses nada têm a ver com esporte.
Valcke percebeu que o Brasil, tamanhas suas deficiências e desorganização, não tem  condições de sediar uma Copa e não, evidentemente, que tenha sido tomado dessa percepção por alguma causa nobre, afinal, ele é um homem da FIFA. Sua lucidez se deu por vias tortas e efêmeras. Mais do que em tempo o secretário-geral da entidade máxima do futebol já se desculpou da declaração, culpando os tradutores, e diz que banca o mundial no Brasil. O ufanismo patrioteiro, os idiotas do pão e circo, Lula, Marco Aurélio Garcia, a marionete Dilma (quo vadis, Dilma?), o faz tudo (e não faz nada certo) Aldo Rebelo e toda a cúpula gramsciana, megalomaníaca e autoritária petista podem ficar sossegados, a Copa 2014 será no Brasil, a maior república das bananas do planeta.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O que Buda disse. E o que não disse


O sr. Olavo de Carvalho, filósofo a quem respeito por muito mais do que uma opinião, não sendo à toa o fato de seu site estar linkado neste blog, dá mostras de não compreender o budismo, o que é uma enorme pena! Em um artigo (“Meus caros críticos II” - www.olavodecarvalho.org/semana/120204msm.html) no qual responde a seu crítico Júlio Lemos, Olavo afirma não haver contradição em associar budismo e socialismo, isso porque há alguns anos o Dalai Lama se declarou marxista em termos políticos e sociais.
Ora, Olavo bem deve saber que não é porque uma pessoa - no caso o Dalai Lama, por mais que este seja o líder budista - dá uma declaração a respeito de suas concepções, que isso basta para que seja possível associar filosofias tão amplamente antagônicas quanto o budismo e o marxismo. A contradição em questão deve recair inteiramente sobre o Dalai Lama que, isso sim, cometeu um tremendo equívoco, tanto mais grave na medida em que os budistas tibetanos sofrem perseguição execrável do governo comunista chinês, assim como ocorre com os seguidores de Buda por parte do poder instituído em Mianmar.
A filosofia budista é totalmente fundada em princípios morais, no autodomínio, princípio que põe o indivíduo em primeiro plano, e na compaixão, elementos notoriamente contrários ao marxismo. Aqueles que tentam limpar a teoria de Marx das relações claras com a violência, com o ódio de classe e com os genocídios perpetrados pelas experiências nela inspiradas, assim como o Dalai Lama, estão a incorrer em contradição. Sobretudo no que tange às questões de fundo moral, é preciso ser dito, o budismo oferece reflexões muito mais precisas do que o cristianismo, do qual a mácula da Inquisição não pode ser apagada.
Como um filósofo que guarda lugar tão importante e justo para as discussões envolvendo a imaginação moral e conhecedor da obra de Irving Babbitt, o mais brilhante diálogo de um pensador ocidental com os ensinamentos de Buda, me parece bastante estranho que Olavo endosse qualquer aproximação entre budismo e socialismo. Prefiro acreditar que ele tenha feito tal afirmação somente no afã de responder a seu adversário e, como também é de seu conhecimento, inclusive mencionado no artigo em questão, existem contradições no pensamento dos teólogos da libertação, que produzem uma mescla esdrúxula entre cristianismo e marxismo. Quem já não foi pego de assalto ao ouvir a máxima: “Jesus Cristo era comunista”? Nessa caso, quem estaria se contradizendo, o cristianismo ou os teólogos da libertação?! Se deixarmos de apontar que o equívoco é destes, seríamos obrigados a não enxergar contradição na associação entre cristianismo e marxismo.
Para finalizar, cabe deixar claro que os milenares ensinamentos de Buda não devem jamais ser confundidos com as pseudofilosofias pós-modernas que estiveram em moda até pouco tempo, hoje já merecidamente padecendo do esquecimento, tais quais o transcendentalismo zen e o misticismo oriental, cujo principal guru é o sr. Fritjof Capra, defensor do irracionalismo, o que se mantém em completa oposição ao budismo, filosofia essencialmente racional. Como mostrou tão bem o historiador Robert Darnton, essa linha de pensamento é responsável por uma patética idealização do Oriente, aquela velha forma essencialista que cria um abismo tolo e intransponível entre ele e o Ocidente (poucos são os que se lembram que o cristianismo surgiu no Oriente). Curiosamente, no mesmo artigo que eu trouxe à baila, Olavo cita palavras do economista Cláudio de Moura Castro, segundo as quais os brasileiros (e acrescento: não apenas eles) não leem o que um autor escreve, mas sim o que imaginam que ele pensou. A asserção é absolutamente correta e vale tanto para o Dalai Lama e o budismo, como para qualquer outra filosofia.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Os idiotas


Norbert Elias escreveu Os alemães para explicar a longa gênese que culminou no pensamento nazista na Alemanha. João Fabio Bertonha é autor de Os italianos, obra que busca traçar o DNA histórico-cultural do povo da bota. Há mais outros exemplos de estudos que procuram desvendar histórias a partir da nacionalidade, mas no caso do Brasil, bastaria algo como “Os idiotas” e já seria possível perceber que o escopo estivesse a tratar deste país. O Brasil é uma nação onde predominam idiotas, o tempo todo, do primeiro até o último dia do ano, contudo, é no Carnaval, manifestação indefectível do cretinismo identitário tupiniquim, que a idiotice se torna mais nítida e recorrente.
Ao longo dos últimos dias, navegando pela Internet, me deparo com notícias do tipo: “fulana de tal diz que se prepara o ano inteiro para o Carnaval”; “membro do Filho de Gandhi confirma a fama e beija quatro mulheres em vinte minutos”; “garotas em Salvador avisam aos homens que é só chegar; “Lívia Andrade afirma que desfilar com os seios de fora é mais prático”; apuração em São Paulo tem confusão e vandalismo”. São apenas alguns dos disparates que marcam a idiotice acentuada do período carnavalesco.
Mulheres sendo tratadas como objetos descartáveis. Elas poderão reclamar?! Homens inseguros tentando provar masculinidade. O que pensariam se outros como eles fizessem o mesmo com suas irmãs? Pessoas que enxergam a si próprias somente como números, quantidade ao invés de qualidade, adeptos da insalubridade bucal e genital. E Lívia Andrade, quem é ela? Tem algum talento, alguma chance de aparecer sem que seja nua num desfile de “escola” de samba? Que exemplo oferece para o público feminino?
É comum ouvir mulheres na faixa etária que vai dos vinte e poucos aos trinta anos reclamarem que os homens não querem nada sério. O problema é que elas mesmas são bastante responsáveis por essa situação, pois enquanto adolescentes, - não só cronológica, mas também mentalmente - não se fazem de rogadas em servir de número aos machões. Os mais recatados, que não tomam parte da idiotice, demoram mais tempo até encontrar alguém, mas quando encontram, geralmente se estabelecem. Aí então, quem restou? Ora, os machões já mais velhos, sem os mesmos músculos, com as gorduras bem pronunciadas e o mesmo cérebro vazio de sempre. Uma vez idiota, idiota sempre. Idiotas de ambos os sexos se merecem.
No último dia de Carnaval tivemos a apuração dos desfiles das “escolas” de samba de São Paulo. As cenas protagonizadas pelos tantos idiotas presentes no Anhembi são trágicas porque os prejuízos causados são pagos com dinheiro do contribuinte. Só de pensar que essas “escolas” recebem dinheiro público dá uma vontade enorme de fazer justiça com as próprias mãos, e escrevo isso como adversário ferrenho da anarquia e defensor convicto das leis da sociedade. Quando se tem uma torcida de futebol que virou também “escola” de samba homenageando uma figura desprezível como Lula, um sujeito vivo, presidente da República até ontem, cujo partido ocupa o poder e que pode ainda voltar ele mesmo ao cargo de comandante máximo do país, em uma explícita forma de campanha política, fica difícil acreditar que algo possa se transformar pelo caminho do bem em uma nação de idiotas como o Brasil. E não coloco essa ideia para alfinetar a torcida do time incolor, já que vale exatamente da mesma forma para a Mancha Verde, que inclusive, jamais defendi. Torcedores deveriam se perguntar quanto uma torcida (des)organizada paga ao clube para usar seu escudo... geralmente, não só não pagam nada, mas ainda recebem... Caso todo esse pessoal que costuma ficar indignadíssmo com Carnaval e futebol agisse do mesmo modo com relação aos descalabros da política nacional, o país seria melhor, porém, o zé povinho tupiniquim em toda sua idiotice, fornece o molde mais do que perfeito para o pão e circo.
Se o lado trágico dos fatos da apuração é inconteste, a parte cômica não passa batida, afinal de contas, já que a idiotice carnavalesca é tão óbvia e não vai deixar de se fazer presente, quem está fora disso deve aproveitar a mixórdia para rir um pouco! Brasileiro: povo alegre, festeiro... bem feito para a imprensa, sobretudo a nefasta Globo, que tenta enfiar o adesismo goela abaixo. Que vá para o inferno com seu IBOPE! Após o desfecho tragicômico da apuração no Anhembi, comentaristas debatiam os fatos numa rádio FM, lá pelas tantas, um ouvinte enviou a seguinte mensagem: “país lixo”. Então, um dos comentaristas, com medo de se comprometer e assolado pelo polticamente correto e por aquele velho patriotismo anódino disse: “o Brasil não é um lixo, alguns lixos fazem parte dele”. Alguns?! Faz-me rir, haja lixo, haja idiotas! É a cara do Brasil!

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A escolha moral que envolve a alimentação


Os sistemas socioeconômicos, em última análise, são abstrações, conceituação importante, mas esquecida pela maioria dos indivíduos. Isso porque quem determina os moldes concretos e os caminhos que a sociedade toma - e hoje seria corretíssimo pensar em termos de humanidade - são as pessoas, por meio de sua imaginação e das escolhas morais. É altamente necessário, de acordo com todos os grandes filósofos, ter uma diretriz capaz de reger a existência pessoal.
Talvez nada seja tão fácil de encontrar hoje em dia como aqueles que são antiamericanos e se põem contra o capitalismo. Muitos desses, ao mesmo tempo, são adeptos do Big Mac e consomem frequentemente montanhas de carne, mais ou menos o equivalente a 260 animais inteiros no período de um ano. A meu ver, o domínio das grandes corporações e os subsídios que tomaram o lugar da competitividade e do empreendedorismo, situação observável em países como EUA, China, Rússia ou Brasil, estão muito mais relacionados com o socialismo do que com o velho capitalismo puritano estudado por Max Weber. A nomenclatura mais comum para designar essa atual configuração econômica tem sido “capitalismo de estado”, porém, pouco importa a atribuição do nome. Hoje não vou escrever diretamente a respeito de economia política, meu objetivo é propor uma reflexão sobre as implicações que as escolhas pessoais têm com relação a uma extensa série de fatores que, em maior ou menor grau, interferem nos caminhos citados no primeiro parágrafo.
Hoje em dia nos EUA, 99% da carne consumida, considerando aves, porcos, bois e até peixes, provêm de criações industriais. Para quem ainda não sabe, esse tipo de criação, envolve o pior trato possível dos animais, submetidos a confinamento (não é confinamento num cercado, mas sim em espaços exíguos, similares a uma folha de papel A4 no caso das aves, ou a um cubículo de 1,5m X 1,5m para porcos; bois têm espaço um pouco maior, todavia, proporcionalmente também irrisório), regimes artificiais de engorda, antibióticos dados como alimento e técnicas de abate que pressupõem, muitas vezes, escaldamento vivo, para ficar em apenas um único exemplo. Fora dos EUA, por aproximação, é possível estimar com pouca margem de erro que algo em torno de 80% da carne consumida seja fruto de criações industriais. Isso tudo sem mencionar os danos ambientais (pense por instantes para aonde vão os excrementos dessa imensa quantidade de animais criados industrialmente) e os prejuízos econômicos de médio e longo prazo gerados pela pecuária industrial. A produção de alimentos a custos baixos, que muitas vezes serve de argumento para justificar tal tipo de prática é uma falácia, basta imaginar os milhões de hectares utilizados para plantio de soja e milho destinados não ao consumo humano - que requereria uma área de 12 a 30 vezes menor - , mas para o fabrico de ração animal. Além da questão do espaço, produzir 1 quilo de carne custa mais caro do que produzir 1 quilo da imensa maioria dos outros alimentos, até porque os animais precisam eles próprios de comida. Daí conclui-se que a pecuária industrial, apesar do lucro imediato que gera para os donos de corporações do setor, está na direção contrária à produção de alimentos mais baratos e da suplantação da fome. Num futuro não muito distante é um problema que afetará aos próprios pecuaristas. 
Não para por aí, podendo colocar-se outros aspectos: a China tem hoje aproximadamente 1,3 bilhões de habitantes e o consumo de carne no país aumentou acentuadamente nas últimas duas décadas e meia, já na África Subsaariana e nos países mais pobres da Ásia e da América Latina 9 a cada 10 habitantes raramente consomem carne, ao passo que mais de 80% do solo agricultável dessas nações é tomado por culturas de grãos para exportação. Vale lembrar que no Brasil, um dos grandes celeiros agrícolas mundiais, menos de 5% da soja plantada se destina ao consumo humano. Como se vê, a lógica da pecuária industrial é indubitavelmente insustentável e, se nada mudar em breve, ela levará a um definitivo colapso socioeconômico planetário.
Há aqueles que ainda não raciocinaram de maneira suficientemente capaz de responder negativamente à pergunta crucial: "eu preciso realmente comer carne"? Se o paladar, que é a última fronteira do consumo de cadáveres, não pode se dobrar a implicações que vão da economia, passam pela ecologia e chegam até a moral e a ética, então é certo admitir, no mínimo, que o erro de consumir carne é um erro deliberado (muito já escrevi aqui abordando o combate que todo ser humano deve obrigatoriamente travar com a realidade se quiser alcançar a verdadeira liberdade). Nesse caso, quem foge à realidade são exatamente todos aqueles que não conseguem prescindir da carne.
A “carne orgânica” não é a resposta certa para o dilema moral aqui exposto. Na prática, ela é algo que não existe ou não pode existir permanentemente. As criações tradicionais compõem hoje em dia não mais do que cerca de 10% da produção pecuária mundial, quadro que se encontra assim justamente em virtude da demanda por carne, ou seja, é o consumo de carne como hábito alimentar cada vez mais difundido que levou ao predomínio das criações industriais. É possível optar por reduzir o consumo de carne, o que abriria novamente espaço para a pecuária tradicional, mas duvido que as corporações se manteriam produzindo menos e tendo mais despesas. Com o poder que possuem, arrumariam um jeito de virar o jogo novamente. Além disso, a pecuária tradicional não pode abolir a matança, o que faz voltar a pergunta crucial. Poderia-se vislumbrar um aumento das criações tradicionais sem que as industriais deixassem de existir, mas então teríamos outros questionamentos: os rótulos indicariam a procedência da carne?; e os matadouros? A esse segundo já é possível responder: praticamente só existem matadouros de larga escala, tanto para animais provindos de criações industriais, como de criações “orgânicas”, os mesmos que operam com base na morte em larga escala, cujos sistemas de abate mutilam seres vivos conscientes e os escaldam ainda vivos. A pergunta crucial sempre volta: você precisa realmente comer carne? Carne, no mínimo (e coloco esse "no mínimo" por ter que levar em conta os argumentos econômicos), implica em matança, constatação mais importante em termos éticos.
O caminho que o cadáver que se encontra em seu prato fez até que ali tenha chegado, quando ele aparentemente não é mais do que um pedaço de alimento, já está mais do que claro, juntamente com todas as atrocidades que envolve. Ninguém mais pode ficar indiferente à relação de extrema violência inerente ao hábito de comer carne, muito pior do que qualquer guerra da história humana. Fingir não saber não livra os animais do sofrimento intenso pelo qual passam até se transformarem em pedaços de cadáver dos quais você se alimenta. Escolher o que comer e o que não comer é uma escolha moral, que depende de uma imaginação moral, dilema que só pode ser individual e interior e que, obviamente, tem suas consequências. Não há como se furtar a essa escolha e, quando alguém pensa, consciente ou inconscientemente em não ter que refletir e fazer escolhas a respeito de sua alimentação, é porque não pode suportar o combate do eu interior com a realidade e, em consequência, não pode ser livre.

*PS: O que redigi aqui é, evidentemente, apenas uma pincelada sobre o assunto. Obras como O que há de errado em comer animais, de Didi Ananda Mitra ou o clássico Comer animais, de Jonathan Safran Foer devem ser lidas. Tomei ambas, e as pesquisas extensas que apresentam, além do site da Sociedade Vegetariana Brasileira (cujo link se encontra no lado esquerdo do blog),como base para os dados estatísticos que constam do artigo.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Defensores do indefensável


Todo comunista é um adorador de ditaduras de esquerda, fato que não é segredo, exceto talvez para eles próprios, que se fingem de cordeirinhos, ao menos quando se comunicam com seu público em atos que denotam profunda desonestidade intelectual. O sr. Lúcio de Castro, da ESPN Brasil, é um dos que fazem parte dessa turba, alguém que promove contorcionismos tragicômicos para defender Che Guevara e o regime cubano. Nesta semana ele postou em seu blog no site da emissora um texto confuso e mal escrito, como sempre, na tentativa de desmascarar a dissidente Yoani Sánchez. Ao próprio texto, segue-se uma entrevista dada por Sánchez ao jornalista francês Salim Lamrani, cuja grafia correta do nome nem mesmo foi checada por Lúcio, que escreve “Lanrani”.
De acordo com Lúcio, as críticas de Sánchez à ditadura castrista e à violação dos direitos humanos na ilha são feitas com base nos interesses de Washington, tese que ele pretende corroborar lançando mão da “entrevista” citada. Coloco entre aspas porque as perguntas (muitas vezes não chegam a ser perguntas, mas sim afirmações peremptórias) de Lamrani dirigidas à Sanchez mais se parecem com indagações de um inquisidor, que lhe permitem concluir o que deseja de antemão. Algo do tipo não pode ser qualificado de entrevista, apreciação que, como historiador, Lúcio não poderia omitir, (ou então ele jamais ouviu falar a respeito do clássico ensaio de Carlo Ginzburg: O inquisidor como antropólogo) além do que, existem dúvidas quanto à autenticidade das respostas dadas por Sánchez, isto é, existe a hipótese de que Lamrani as tenha editado, o que ainda precisa ser devidamente esclarecido.
Amparando-se na duvidosa “entrevista” de Lamrani, Lúcio vai ao cúmulo do absurdo na defesa de Cuba, apontando as surradas estatísticas sobre educação e saúde no país. Eu perguntaria a ele e aos defensores da ditadura cubana qual é a função da educação em um regime autoritário; serve para que os estudantes se tornem críticos e conscientes? Se os jovens cubanos passam bastante tempo dentro das escolas, este é um índice negativo, já que eles estão sob doutrinação por mais tempo! Quanto às estatísticas relativas à saúde, no mínimo cabe manter um pé atrás em relação aos dados fornecidos pela ditadura, (por que Fidel Castro se tratou com médicos espanhois?) sem deixar de salientar as suspeitas de que Cuba possa apresentar o maior índice de abortos do mundo, o que reduziria artificialmente a mortalidade infantil, uma vez que os abortos não são computados. Todas as comparações entre os indicadores cubanos que têm por objetivo limpar a barra do país são claramente obtusos: compara-se Cuba com outras ditaduras e republiquetas da América Latina, (inclusive o Brasil, cujo governo do PT é defendido pela maioria dos adoradores de Cuba, uma contradição se se deseja afirmar que a ilha tem índices melhores do que os daqui) muitas delas governadas, pasmem, por regimes de esquerda, o que nem assim autoriza uma interpretação positiva dos indicadores! A comparação com nações desenvolvidas não é normalmente realizada, uma vez que revelaria o desastre da ilha de modo ainda mais gritante, mesmo com a Europa mergulhada em crise. Fica outra pergunta bem simples acaso haja insistência em ver os risíveis índices cubanos com bons olhos: é preciso que uma nação possua um regime dos mais autoritários, que dura mais de cinquenta anos, com direito a perseguições políticas, prisões arbitrárias, tortura e paredón para que alcance status em indicadores sociais? É claro que não, nem se fossem índices bons! A comparação isenta é aquela que for feita entre Cuba e países livres e de alto IDH, coisa que passa longe de quem acredita que o castrismo é benéfico para os cubanos.
É muito curiosa a afirmação de Lúcio, apoiada na “entrevista” de Lamrani, ousando passar a ideia de que a ditadura cubana não desrespeita direitos humanos mais do que outros países ditos democráticos. Quem pode acreditar numa baboseira destas? Quem pode acreditar que a Anistia Internacional possua dados seguros fornecidos pelo regime castrista a respeito disso? Quem pode acreditar que a Anistia Internacional tenha livre trânsito em território cubano? É como supor que pessoas minimamente inteligentes não saibam como funcionam as distorções da verdade em uma ditadura. Gente que defende ditaduras precisa entender que não existe nenhum lugar do mundo no qual as garantias de não-violação dos direitos humanos sejam de 100%, contudo, é necessário analisar se casos de violação são investigados, julgados e sentenciados, processo que obviamente não ocorre em um país como Cuba, já que o próprio governo ditatorial é o agente das violações.
De acordo com Lúcio, tudo que se conhece a respeito do regime castrista é invenção dos EUA e da “mídia ocidental”. É de se pensar, sendo assim, que deveríamos crer na “mídia oriental” da Coreia do Norte, da China, do Irã ou da Síria. Ou então, quem sabe, (?) na “mídia ocidental isenta” representada por Caros Amigos, Carta Capital, Hora do Povo e, logicamente no próprio sr. Lúcio de Castro, fazendo força para esquecer que ele atua na ESPN Brasil... Estranha Revolução Cubana, enaltecida em seus sujeitos vistos como heróis pelos amantes da ditadura, mas tão vulnerável às armações e sabotagens do inimigo imperial... Ao invés das parcas teorias conspiratórias que somente enxergam os sujeitos históricos quando é conveniente, não seria o caso dos defensores do indefensável finalmente admitirem que o desastre de Cuba é o resultado inexorável da falência a que o comunismo conduz? Significativo, de igual modo, e indo contra todas as ideias castristas, não apenas as dos irmãos ditadores, mas igualmente do sr. Lúcio... de CASTRO, é o trecho que pode ser lido no site da Anistia Internacional: “as autoridades cubanas continuam a restringir severamente a liberdade de expressão, associação, reunião de dissidentes políticos, jornalistas e ativistas de direitos humanos; dissidentes, jornalistas e ativistas de direitos humanos estão sujeitos a prisão domiciliar arbitrária e outras restrições que têm o objetivo de impedi-los de exercer atividades legítimas e pacíficas; além disso, o governo cubano está negando a autorização de saída como uma medida punitiva contra os críticos e dissidentes do governo". Num dos comentários no blog de Lúcio enviado por um ativista da Anistia Internacional, lê-se também: “o articulista [Lúcio de Castro] menciona nossa organização, Anistia Internacional, cuja posição sobre Cuba tem sido às vezes mal entendida; nós sempre reconhecemos que as violações aos DH na ilha foram, pelo menos em parte, deflagradas pelo estado de permanente tensão que se vive no território, submetido a uma bloqueio como não sofreu nenhum outro país na história, e alvo de milhares de atentados terroristas; também acreditamos que a maioria dos países da América Latina, salvo Costa Rica e alguns outros, violam os direitos humanos numa proporção maior à de Cuba; entretanto, não pensamos que este critério comparativo possa se usar para caracterizar as violações existentes em Cuba como simples invenções dos inimigos, aliás, qualquer violação aos DH deve ser criticada, inclusive em países ultrademocráticos; no caso de Yoani Sánchez, pessoalmente não digo que esteja bem intencionada, nem que atua por espírito libertário, simplesmente, creio que qualquer pessoa tem direito de expressão”.
O bloqueio que os EUA promove sobre Cuba é outro argumento do sr. Lúcio de Castro na tentativa de justificar as mazelas da ilha. Sou contra o bloqueio, pois ele tem servido apenas para dar munição ao castrismo e fazer sofrer não os mandatários da ditadura, protegidos pelo aparato repressivo estatal e no frescor de seus gabinetes acarpetados, mas a população miserável nas ruas de Cuba. Por outro lado, se do alto da soberba comunista a ilha “rompeu” com o lixo capitalista norteamericano, por que precisaria dele para se dar bem? O sr. Lúcio de Castro deveria se lamentar pelo fim da URSS, país que sustentava a ditadura castrista até o momento em que caiu na vala do atraso e se extinguiu, destino inerente ao comunismo.
Depois de todo o exposto acima que, confesso, é coisa sabida por qualquer um dotado de discernimento, ao contrário do sr. Lúcio de Castro, capaz de admitir que é preciso se “despir dos preconceitos” ao mesmo tempo que vocifera contra tudo aquilo que está fora do seu estreito pensamento ideológico, é engraçado que não tenha havido ninguém para alertá-lo sobre o fato já manjado de que Sánchez seja alvo de suspeita por críticos da ditadura cubana, o que faria dela não um agente de Washignton, mas uma opositora chapa branca de Havana, hipótese que pouparia nosso jornalista da ESPN Brasil de seus contorcionismos típicos. O passado de Sánchez é pouco conhecido, ela vive bem para padrões cubanos e critica Cuba mesmo estando lá, coisas de se estranhar quando se considera um regime que mantém tamanha quantidade de presos políticos. Convenhamos, apesar de pop e, talvez por isso mesmo, ela não é a melhor autoridade para escancarar os males da ditadura cubana, tampouco o sr. Lamrani é alguém com créditos suficientes para defender o castrismo. Lúcio já deve ter houvido falar em intelectuais como Enrique Krauze, Mario Vargas Llosa e Guillermo Cabrera Infante ou dissidentes como José Daniel Ferrer, Elizardo Sánchez, Guillermo Fariña Hernandez e Orlando Zapata Tamayo. O que teria ele a dizer, então, sobre José Saramago, comunista histórico que antes de morrer teve a hombridade de repudiar o regime castrista? Esse sim é um time que tem conhecimento de causa, como coloca o sr. Lúcio, para nos legar retratos fiéis a respeito de Cuba.
Nessa história toda, o que está em jogo acima de tudo é o respeito à liberdade e à dignidade das pessoas. As preferências ideológicas dificilmente escapam aos preconceitos que precisam ser eliminados, segundo o próprio sr. Lúcio de Castro, daí ser inconcebível sair em defesa de uma ditadura, seja ela a cubana ou qualquer outra, seja de esquerda ou de direita. Todas são condenáveis. Atualmente, fica bastante claro que nove entre dez comunistas jamais leram Marx de modo que vá pouco além do superficial. Defendem o comunismo, mas se aferram ao aparato estatal, defendem, ao mesmo tempo, a liberação sexual e o moralismo religioso islâmico extremista, são a favor de minorias, mas também de ditaduras que as sufocam. Não perceberam até hoje que podem se posicionar politicamente sem cair em contradições ideológicas absurdas, fruto da religião laicizada que é o marxismo. Lúcio de Castro trabalha na ESPN Brasil e é pago por ela, um veículo da “mídia ocidental” que ele execra e julga ser mentirosa. Seus meios de ação, portanto, são financiados por quem ele ataca, por uma emissora que, para citar apenas dois exemplos, possui direitos de transmissão da NBA e da NFL, cujos anunciantes são empresas capitalistas. Para ser menos incoerente na defesa do indefensável, se é que isso seja possível, ele deveria ir viver na Havana que adora e pleitear um cargo no repressivo governo castrista. Que tal, sr. Lúcio?