segunda-feira, 17 de abril de 2017

"Todos são iguais" e o Estado que eles querem


Depois da chamada "Delação do fim do mundo", mais um episódio que colocou na berlinda proeminentes e idolatradas figuras políticas da esquerda brasileira, vários adeptos da sinistra ideologia desde já estão procurando juntar os cacos na tentativa de reerguer seus bandidos de estimação.
É claro que a coisa toda chegou a tal ponto que os esquerdistas não podem mais simplesmente blindar e defender diretamente quem os representa - até mesmo Vladimir Safatle deu uma criticada em Lula - tendo restado somente a estratégia segundo a qual "todo mundo é podre", "todo mundo é igual" ou "não foi o PT que inventou a corrupção". Juca Kfouri, sociólogo uspiano (um dos inúmeros antros de formação e disseminação de ideias esquerdistas, falidas e geradoras de miséria econômica e opressão política), aproveitou novamente uma de suas colunas esportivas para dar pitaco em política, afirmando a respeito do embate Moro vs. Lula - na verdade não um simples confronto entre dois agentes individuais, mas sim um vis a vis representativo da oposição entre todo cidadão de bem, trabalhador de verdade, honesto e pagador de impostos, aviltado pelo Estado e pela classe política contra justamente um Estado infestado de discurso, espírito e práticas tipicamente esquerdistas, um Estado agigantado, totalmente ineficiente na prestação de serviços, um Estado sanguessuga e que nada oferece em troca, um Estado que, aparelhado pela ideologia e pela politicagem mais rasteira, visando somente o poder pelo poder, não tem peias em roubar cifras imensuráveis do erário público, um Estado que desde a Constituição de 1988 adota a famigerada retórica dos "benefícios e conquistas sociais", do "desenvolvimentismo", do "coletivismo", do pobrismo e da vitimização para, no fundo, se estabelecer como um "Estado camarão", segundo a formulação de Bolívar Lamounier, patrimonialista e que faz a sociedade lhe servir - que o mesmo "poderia ser evitado se não fossem os erros de muitas décadas". Para Kfouri, evidentemente cínico e mal intencionado, os erros teriam sido evitados se o PT fosse alçado ao poder antes de 2002, de tal forma que haveria então mais tempo para estruturar o Estado como ora se apresenta, portanto, mais tempo para a esquerda se aproveitar dele sem que os escândalos viessem à tona com tamanha força.
Na ótica dos esquerdistas o PT é vítima do sistema, pois este o corrompeu e o fez se distanciar de suas diretrizes originais. Pura balela, pura falácia! O PT nunca mudou a essência de seu cerne ideológico. Essa gente é tão pervertida que a partir de agora pretende lavar as mãos na própria sujeira com o objetivo de dar a entender que o lamaçal no qual se encontra o país é fruto das políticas de seus opositores. Nesse sentido, o fabianismo esquerdista do PSDB e o pragmatismo situacionista do PMDB, aliado do PT e sem o qual este não teria se mantido no poder por 13 anos, são "neoliberais", "de direita", "conservadores" e outras baboseiras do mesmo quilate.
Enquanto oposição, o PT se colocava como detentor único e ilibado da ética e da justiça, composto por quadros dotados da mais iluminada "consciência social" (vide acreditar na luta de classes e na suposta desigualdade social gerada pelo capitalismo), portadores de uma visão de mundo superior (entenda-se marxismo), conhecedores da fórmula infalível para erradicar os males do presente e instaurar um Futuro perfeito (a revolução, antes proletária, hoje cultural) - nada mais antiliberal. O mesmo PT que, nas palavras de José Dirceu, um de seus maiores mentores intelectuais, "não rouba e não deixa roubar"... e que depois de permanecer no poder durante 13 anos, pobrezinho, foi cooptado pelos abutres malfeitores, tendo se tornado "igual a todos os outros", o que serviria como uma espécie de vingança e de lição de moral contra "a classe média paneleira" que só atacou os petistas. "Viram só? Não éramos APENAS nós"! Quanto cinismo daqueles que não apenas não moveram uma palha para barrar a corrupção, como fizeram dela um mote!
Não é necessário mais uma vez esquadrinhar que a concepção de Estado esquerdista é inexorável quanto aos resultados que ora vivenciamos, não é necessário pela enésima vez mostrar por A+B que a corrupção foi estabelecida como modus operandi, como prática de governo sob a égide do PT, não é necessário repetir ad aeternum que todo o aparelhamento esquerdista, tanto no âmbito da política, quanto também fora dela - fator importantíssimo - foi programada desde um bom tempo de caso pensado para minar o dissenso e infectar por dentro o frágil e incipiente sistema democrático brasileiro. O mais desalentador é observar que o discurso da esquerda ainda é capaz de confundir a muitos e que assim ela se renova debaixo das fuças dos desavisados. É assim que os Kfouris já estão mexendo pauzinhos para passar a ideia de que eles não têm nada a ver com isso.
Em teoria, Marx propusera o fim do Estado, mas obviamente, e por vários fatores que excedem este artigo, foi incapaz de precisar quanto tempo levaria para que tal ocorresse, até porque em sua obra inexiste uma análise histórica do Estado e do sistema parlamentar. Calejados pela complexidade da realpolitik e também pelas vantagens que dela se pode obter, os continuadores de Marx, desde a Revolução Russa e até hoje se mostram como ferrenhos defensores da atuação estatal sobre a economia e sobre as vidas dos indivíduos. Reformar o Estado brasileiro de modo a torná-lo enxuto, eficiente, não-interventor, bem menos burocrático e livre daquela surrada ideia sempre exaustivamente presente em períodos eleitorais, de acordo com a qual, para que a democracia exista e se mantenha, basta votar - e cujo resultado é eleger políticos estatólatras que se locupletam  da máquina pública- é algo completamente fora de questão para esquerdistas, afinal, o Estado que aí está é o seu sonho de consumo há um século.

sexta-feira, 24 de março de 2017

O brasileiro: um grande problema. O maior problema.


"Não há nada mais perigoso no mundo do que um idiota persuadido de sua normalidade" - Olavo de Carvalho

O problema do Brasil não é econômico, nem político. O problema do Brasil é cultural, é de mentalidade. O problema do Brasil é o brasileiro. O brasileiro é um perfeito idiota latino-americano.
O brasileiro ainda não sabe que o atual governo se originou do governo do PT.
O brasileiro ainda não sabe que sem o PMDB o PT não teria ganho as eleições de 2014, nem de 2010.
O brasileiro ainda não sabe que o PMDB é um partido de centro ESQUERDA (bem como o PSDB, social-democrata, fabiano, em franco antagonismo com princípios liberal-conservadores).
O brasileiro pensa que esquerdismo é paz e amor e que ser de direita significa ser malvado.
O brasileiro ainda não sabe que treze anos de descalabros econômicos, administrativos, de corrupção sistêmica, de total aparelhamento de TODAS as esferas públicas e de interesses partidários e ideológicos colocados acima de qualquer virtude de governança republicana não podem ser recuperados em dez meses. Talvez nem em mais treze.
O brasileiro compartilha charge esquerdista atacando o "neoliberalismo" como fonte de todos os males sem saber que quem lhe rouba todos os dias é o Estado.
O brasileiro, mesmo de modo inconsciente, quer mais Estado sem saber que o Estado, além de lhe roubar, não oferece nem mesmo o básico.
O brasileiro não sabe que quanto maior a presença do Estado e maior o seu tamanho, menor é o grau de liberdade politica e maior é o potencial de corrupção.
O brasileiro execra a classe política, mas mesmo assim não se despe de sua estatolatria.
O brasileiro enxerga e pensa o Estado praticamente como uma entidade metafísica e benfeitora, administrada por criaturas angelicais, como certa vez colocou João Pereira Coutinho.
O brasileiro não sabe que a aliança espúria entre governo e empresas que não querem competir no mercado e ganham privilégios do próprio governo em troca de propina é um arranjo tipicamente anticapitalista.
O brasileiro não sabe o que é uma pirâmide etária. O brasileiro não sabe o que é expectativa de vida, nem que ela tem aumentado. O brasileiro não sabe que a taxa de crescimento vegetativo tem diminuído. O brasileiro não conhece rudimentos matemáticos. O brasileiro não sabe que não existe uma conta individual para cada trabalhador no INSS. O brasileiro não sabe que sua "contribuição" (na verdade, um imposto) ao INSS é gasta pelo governo assim que ele a paga para sustentar um contingente cada vez maior de aposentados. O brasileiro nunca reivindicou o fim das "contribuições" em prol de um sistema livre e privado.
Agora que, bem ou mal, o atual governo, com todos os seus defeitos oriundos exatamente da mentalidade estatólatra e esquerdista, ainda assim toma medidas tímidas, mas que contribuem um pouco com a melhora do quadro socioeconômico, o brasileiro débil mental, idiota útil, analfabeto em todos os sentidos, tomado pelo discurso falso, equivocado e hipócrita do esquerdismo, grita ridiculamente contra o que lhe pode trazer certos benefícios a médio e longo prazos, conferindo assim, ganho político para o PT.
O brasileiro, por sua ignorância, por sua preguiça intelectual, pela falta de apreço com relação à leitura e ao conhecimento e por sua incapacidade de discernimento entre o certo e o errado, bem merece sofrer o que tem sofrido há tanto tempo.

*PS: antes que alguém se sinta ofendido pelo teor generalizante, tomo como base de análise o brasileiro médio; se a carapuça não lhe servir, não faça questão de vesti-la; também sou brasileiro.

sábado, 18 de março de 2017

Os tais direitos


Em seu livro imprescindível, A rebelião das massas, José Ortega Y Gasset foi ao ponto quando afirmou que o homem das sociedades de massa, esse homem contemporâneo, que se debate na vã tentativa de encontrar um lugar no mundo sem olhar para dentro de si, sem saber qual o significado da liberdade e de onde ela vem, é um homem que apenas reivindica direitos esquecendo-se de que para tê-los, alguém necessariamente precisa concedê-los. Somente clamar por direitos deixando de reconhecer deveres conduz a sociedade de massa a uma anomalia na qual inexiste qualquer nobreza de propósitos.
Onde, além da massificação contemporânea, as pessoas padecem da falta de apreço pelo conhecimento e mergulham em um estado contínuo, letárgico e modorrento de ignorância quase tido como natural, a situação é ainda pior.
É um paradoxo que no presente hi-tech da contemporaneidade, o homem massificado e ignorante viva em um estado no qual a cultura mal consegue se diferenciar da natureza, um quase retorno aos primordiais tempos em que prevaleciam largamente a lei do mais forte e o puro instinto. Sempre que imerso no desespero da sobrevivência sem propósitos e na carência do bem-estar que o cultivo do intelecto é capaz de conferir, qualquer farolete de luz, mesmo que leve a paragens nada aprazíveis, irá servir como orientação (e provocará, inexoravelmente, a catástrofe). As seitas que descobriram essa fraqueza na mente do homem das sociedades de massa obtiveram sucesso na divulgação, na disseminação e na implantação de regimes políticos cuja promessa de resolver todas as questões humanas, aqui e agora, como num passe de mágica, seduzem facilmente uma turba de ignorantes. A propaganda de massas é a chave para conquistar as pessoas por seus corações.
Talvez a coisa mais difícil para alguém imbuído de boas intenções seja convencer um incauto de que há quem o esteja enganando da maneira mais pérfida possível. É extremamente trabalhoso do ponto de vista psicológico refletir e estar constantemente reexaminando os próprios pensamentos, sobretudo se não são autônomos, se foram enxertados e transmitidos de modo a propor que não é preciso muito mais do que delegar esperanças (mesquinhas) e a consecução dos tais direitos a uma liderança autoproclamada. O homem de massas é preguiçoso porque foi privado de sua individualidade, de sua vida interior, do afã de realizar esforços próprios para atingir objetivos e manter responsabilidade sobre suas escolhas. Presa fácil, ele prefere ouvir discursos que lhe colocam como vítima de um sistema e de um grupo de usurpadores que agem única e exclusivamente para deixá-lo distante dos direitos. Para mudar esse quadro, basta se revoltar contra o suposto vitimismo e deixar que ele se transforme em ódio. Uma vez no poder, aquela liderança que conquistou seu coração, que encantou seus ouvidos, que insuflou seus sentimentos mais emotivos e irascíveis e que lhe fez se sentir alguém no meio da massa, por ser a detentora única do entendimento acerca do devir da história, se encarregará de garantir um reino de prosperidade e harmonia eternas. Neste mundo.
O mantra dos tais direitos atinge não só aqueles que, por sua incapacidade intelectual, são mais facilmente enredados na teia do discurso ideológico, mas também (e até em maior quantidade) pessoas que aparentemente não vivenciam o universo das ideias politicas em seu cotidiano. Sob um ar blasé de não afetação, aprioristicamente distante do embate na ágora, de repente, essas mesmas pessoas estão repetindo de maneira totalmente inconsciente o discurso da liderança popular, o que contribui decisivamente para lhe outorgar pertinência, não evidentemente por trazer à tona entendimentos profundos ou por se aproximar de verdades, mas pelo fato de que uma mentira sedutora penetra por osmose no imaginário e se transmuta em suposta Verdade à velocidade da luz. É um processo silencioso e imperceptível para a maioria e resulta, para aqueles que conseguiram se manter imunes, em um afastamento forçado, defensivo, de autopreservação, mas perverso pois acarreta em estigmatizações.
Quem acredita ser dono da chave da História só pode manter influência às custas da mentira, bem como participar de disputas pelo poder e/ou se manter nele lançando mão de estratégias totalitárias, no mínimo autoritárias. Será possível que o homem na sociedade de massas tome consciência de sua individualidade, que adquira propósitos dotados de algum caráter de nobreza, que seja capaz de exercer sua liberdade com o devido e indispensável grau de responsabilidade? Tem sido cada vez mais utópico acreditar que sim, mas se não restar uma centelha disso, então não haverá mais nada a e fazer.

sábado, 21 de maio de 2016

Vladimir Safatle: mais um esquerdista cérebro de minhoca


O sr. Vladimir Safatle, como todo esquerdista, vira e mexe se vê na necessidade de elaborar explicações mirabolantes para tentar salvar suas ideias do fracasso. Logicamente, trata-se de tarefa impossível, dados os equívocos incontornáveis (para usar um termo caro ao "pensador" em questão) do esquerdismo e, se não fosse assim, não haveria justamente uma tal necessidade.
Em artigo publicado na última sexta-feira (20/05) na Folha de São Paulo, Safatle defende que não foi pela corrupção que milhões de brasileiros saíram às ruas exigindo uma alternativa para um país em queda livre (na visão dos lacaios petistas, esses milhões compõem uma oligarquia, análise cujo único efeito é provocar riso). Esses milhões, sufocados por um governo altamente incompetente, autoritário, sem projeto algum de administração, inebriado pelo poder, e que destruiu quase completamente a saúde, a educação, a cultura e uma série de empresas estatais, adoradas pelo próprio esquerdismo enquanto fornecedoras de pixulecos, manifestaram-se por uma série de insatisfações. É evidente que não foi apenas pela corrupção!
Não deveria ser preciso explicar pela enésima vez a mentes rasteiras como o sr. Safatle que, de fato, o PT não foi o inventor da corrupção e nem que seria a mais absoluta ingenuidade acreditar no fim da corrupção como consequência da destituição de Dilma Rousseff. O que o PT fez, foi arranjar justificativa e legitimação para a corrupção, pois é impossível manter uma máquina governamental centralizadora, autoritária, desenvolvimentista e assistencialista sem tornar os benefícios espúrios entre membros dessa mesma máquina uma regra, um método sistemático, um modus operandi. A corrupção no desgoverno petista, portanto, foi uma consequência inelutável da concepção ideológica de esquerda e da forma de organizar o aparelho estatal, inchado e montado a partir de critérios político-ideológicos. Não havia outro resultado possível a ser obtido no seio desse arcabouço, algo reconhecido por qualquer cientista político minimamente sério, mas que passa ao largo da cabecinha de minhoca do sr. Safatle.
O PT não apenas manteve, como acentuou fortemente uma miríade de práticas paternalistas que destroçaram valores públicos e os fizeram vetor de favores privados a erigir um projeto de poder autoritário, pesado, ineficiente e economicamente nefasto - práticas essas que, vale lembrar, sempre foram vituperadas pelos petistas enquanto estavam fora do poder, mas somente pelo fato de que eles mesmos precisavam criar um discurso aparentemente ético que lhes conferisse apoio e também porque, estando na oposição, lhes era difícil fazer parte do repasto. Antes que o primeiro mandato de Dilma se encerrasse, em 2012/2013, não foram poucos aqueles que procuraram alertar a presidente a respeito do que aconteceria se os rumos da administração não fossem mudados. Palavras ao vento, primeiro em função da natureza ideológica do PT, que não lhe permitiria nada diferente, segundo, porque o primeiro que ousasse criticar o governo era rapidamente achincalhado e estigmatizado em pronunciamentos oficiais do governo (já na era Lula, a catástrofe era prevista por alguns, mas naquela época, as conquistas proporcionadas pelo capitalismo e o bom momento econômico mundial, aliados a um quadro interno satisfatório devido ao ajuste econômico dos anos 1990, cegaram a opinião pública e a oposição, fraca por si só).
Assim sendo, a corrupção nunca foi mais do que uma consequência de um modo de administração pautado no sequestro da máquina pública com finalidades partidárias e relacionadas ao poder autoritário. A maior parte da população brasileira se levantou contra o todo dessa prática por questões ideológicas, já que diante de tamanhos descalabros, as ideias liberais conseguiram ganhar algum terreno à medida em que não apenas os escândalos iam sendo paulatinamente revelados, como, mais ainda, se tornara escancarado o fracasso das políticas petistas e o avanço devastador da recessão econômica. O sr. Safatle, petista e intelectualmente desonesto, não pode assumir essa situação, logo, só o que lhe resta é mostrar indignação por não mais estar ouvindo panelas (ele jamais se revoltou contra o aparelhamento, contra a desindustrialização, contra a gastança ineficiente e desenfreada sem contrapartida, contra o rombo das contas públicas, contra as falências no comércio, contra a inflação na casa dos dois dígitos, contra o desemprego em massa, contra os cortes bilionários na saúde e na educação, contra o dinheiro público roubado do contribuinte brasileiro para ser injetado em ditaduras de esquerda mundo afora, contra a destruição da Petrobrás, do BNDES, da Eletrobrás,.. contra nada daquilo que caracterizou a horripilância do desgoverno petista). Por pura desonestidade, pela vaidade típica de todo esquerdista, que se considera acima do bem e do mal, dos fatos mais concretos, pelo falso consolo que as tentativas tragicômicas de passar supostas lições intelectuais baseadas em ideias ridículas e ultrapassadas geram nos tolos, o sr. Safatle não pode ir além do palavreado gasto e vazio e é incapaz de observar que a população brasileira está bastante atenta às atitudes do novo governo e, na atual conjuntura, concede um voto de confiança (mas sempre pronto a desconfiar) a Michel Temer, para que no tempo que lhe resta até 2018, procure consertar os estragos sem precedentes provocados por treze anos de lixo petista.

terça-feira, 5 de abril de 2016

História como modo de conhecimento


Certa vez, em O historiador pedante, escrevi sobre a arrogância intelectual dos historiadores que, em última análise, não deixa de fazer parte da maneira de pensar da grande maioria dos cientistas sociais, segundo eles, detentores de um conhecimento definitivo, apto a desfazer todo e qualquer impasse sobre a experiência humana e capaz mesmo de oferecer o caminho não para um futuro, mas para o futuro. As razões disso, repito, não são fáceis de se explicar.
De um modo geral, campos do saber como a Antropologia e a Sociologia, tanto por seus métodos como por seus objetos de investigação, estão interessadas em discutir aspectos estruturais, e a Filosofia, ao menos em suas grandes correntes, tende naturalmente à criação de sistemas holísticos. Não há necessariamente nenhum equívoco nisso nem o estabelecimento de teorias abrangentes deveria ser motivo de pedantismo, mas no que tange à História, é bem possível que ela venha seguindo uma tendência de perda de identidade. De um lado, um pouco talvez pelo fato dos Annales terem sido mal interpretados, de outro, provavelmente em função do amplo predomínio da historiografia marxista, não apenas em países subdesenvolvidos, mas também devido a um eco que a Europa ainda deixa soar, dentro e fora dela.
A História é um modo de conhecer o mundo, com suas especificidades, mas um modo que não está acima de outros e que se enriquece justamente na busca de interlocução com disciplinas distintas, marcando fronteira em relação a essas. A tentativa de decifrar o passado histórico, até onde for possível, implica na busca de conhecimento, por si só algo que se justifica, não sendo necessário lhe conferir outro sentido, especialmente de ordem prática. Como diria Michael Oakeshott, a confusão entre passado histórico e passado prático é própria daqueles que carregam a pretensão de orientar o continuum do tempo de acordo com uma lógica pré-estabelecida, esta por sua vez, visando atingir no presente-futuro - e neste mundo - um estado totalizante de suposta perfeição. Isso não é História, mas sim política retrospectiva.
O marxismo se arraiga à história na suposição de que existem leis históricas que seguem um padrão permanente e que se repetem, ignorando o simples fato de que o conhecimento histórico só pode ser produzido a partir de mediações e que os grandes sistemas, especialmente quando considerados em termos historiográficos, são criações post facto. Em outras palavras, a historiografia marxista - que é aquilo que interessa neste artigo - não distingue conjunturas/estruturas de eventos, sendo esses últimos apenas excrescências que se perdem e se conformam a um arcabouço totalizante advindo daquelas. É bem possível que decorra de tal forma de entendimento o total desprezo do marxismo para com o indivíduo. Ora, é bastante contraditório que uma filosofia pretensamente atenta à história faça vistas grossas às evidências históricas: o problema do totalitarismo soviético não foram as políticas ou as pequenas diferenças de compreensão da ideologia por parte desta ou daquela liderança comunista, foi o próprio comunismo, uma teoria totalitária per se, como já podia fazer compreender qualquer análise séria da ideia marxiana e sobretudo das evidências históricas resultantes de sua aplicação prática. O problema do Brasil hoje é só um: é o comunismo, e as evidências tantas que permitem classificar o atual governo como ditatorial saltam aos olhos. É lógico que o PT e seus seguidores não podem admitir isso - nunca um ditador assim o fez -, pois estaria condenando a si mesmo.
Não há dúvida de que para manipular a realidade de acordo com seus interesses práticos, uma ditadura age basicamente em duas frentes: a) nega todas as evidências que depõem contra si e procura jogá-las na conta daqueles que a combatem; b) cria uma conduta (imoral) própria que abole a previsibilidade das leis, estratégia que funciona tanto para confundir a população como para dar curso mais fácil à dominação.
É preciso lembrar que as leis, embora existam para coordenar à vida em sociedade, atuam fundamentalmente na esfera do indivíduo: elas garantem a observância dos trâmites corretos e regulatórios que perfazem os acordos voluntários entre indivíduos livres e perseguidores de suas próprias escolhas. Não é por acaso que no regime comunista não pode haver liberdade, dado que a condição de ser livre vai na contramão dos interesses práticos da ditadura, colocando em risco a sustentação da totalidade ditatorial.
Nas últimas décadas o marxismo descobriu que a tomada de poder nas sociedades modernas de massa requer a elaboração e a perpetração de uma cultura marxista, no que seus adeptos lograram enorme sucesso. Um dia, mais cedo ou mais tarde, o regime petista cairá, entretanto o combate contra o esquerdismo não terá atingido seu fim, já que o esquerdismo responde por um pensamento que não se molda somente a partidos políticos, podendo se reorganizar dentro de qualquer espaço que lhe for dado a caber. Uma das formas que esse combate deve tomar - e nesse sentido, mesmo sendo difícil escapar do pragmatismo, será melhor adotar uma postura que tenha como escopo preservar as liberdades - diz respeito à mudança do estatuto epistemológico predominante na História e na historiografia: um ramo do conhecimento que é essencialmente investigativo e inferencial, precisa necessariamente estar focado em evidências e uma visão histórica responsável que não busque outra coisa senão o conhecimento, não pode se manter devota de ideologias, quanto mais daquelas cuja natureza é equivocada e ditatorial.

segunda-feira, 7 de março de 2016

O paradoxo da Polícia Federal e de Sérgio Moro e outras questões


Sou cético por natureza, postura que tem me servido desde há muito para evitar decepções. Se as coisas acontecem de acordo com o que espero, tanto melhor, do contrário, vida que segue.
Na última sexta-feira (04/03/2016), o Brasil acordou com a notícia de que Lula estava sendo conduzido coercitivamente (ao contrário do que ele declarou, fugiu duas vezes quando instado anteriormente a dar depoimento sem ter havido coerção) a depor na Polícia Federal em São Paulo, além de ser alvo de mandato de busca e apreensão. A parcela instruída e decente da sociedade comemorou aquilo que poderia representar o início de uma vitória definitiva não apenas sobre o próprio Lula, mas sobre toda a hoste do PT, dada a importância da figura do ex-presidente. Todavia, acredito que a comemoração tenha sido prematura: não afirmo que não irão haver novos desdobramentos (a ação da PF não teve a ver com as declarações bombásticas e gravíssimas dadas por Delcídio Amaral e divulgadas pela revista Isto é), mas fiquei com a impressão de que houve mais estardalhaço do que efetividade, propriamente dita. Não sei se por falta de eficiência ou se tudo não passou de circo pré-orquestrado, portanto, ficam algumas perguntas:

1. Será que Lula, de fato, prestou depoimento?

2. Caso tenha prestado, por que este foi tão curto?

3. Quem é suspeito de vários crimes e é investigado por uma série de práticas ilícitas não deveria ser interrogado por horas a fio, sem que se desse a Lula e ao seu partido chance de se organizar tão rapidamente a ponto do ex-presidente conceder entrevista em rede nacional pouco tempo depois de deflagrada a operação?

4. Por mais que o teor do suposto depoimento deva permanecer em sigilo, por que não estamos observando nenhum comentário sequer a respeito das possíveis respostas fornecidas por Lula?

5. Um interrogatório bem conduzido, ainda mais se o interrogado tem uma imensa série de questões a esclarecer, sempre deve gerar intenso cansaço físico e psicológico, daí a importância de se alongar o depoimento e lançar questionamentos contundentes que façam com que o investigado caia em contradição. Por que Lula saiu da PF com ares triunfais, sem dar nenhum sinal de ter sofrido pressão, sem apresentar sinais de estafa física e mental? Não, por mais que o ex-presidente seja macaco velho, delegados da PF deveriam saber como colocá-lo em uma sinuca de bico, ainda mais em função do capital político de Lula ser quase inteiramente dependente de sua retórica e dos caracteres imediatos de sua postura e de seu gestual. Era preciso ter minado seu arsenal retórico e ferido com força sua imagem. Não foi isso que se viu...

6. Não se trata de um grande paradoxo, por um lado, que se deposite tanta esperança em Sérgio Moro e na PF e, por outro, notar que a condução coercitiva, pelo menos em termos imediatos, não causou nenhum estrago na retórica e na imagem de Lula? Volto a indagar, houve falha ou tudo isso foi uma farsa?

7. Se em um arranjo ditatorial como aquele que ora estamos vivenciando o trâmite dos acontecimentos, tanto em âmbito oficial como fora dele, não se dá de acordo com a lógica normal, mas segue uma hierarquia de comando mutável, multidirecional, imprevisível, justamente com o objetivo de gerar desorientação nas pessoas, não cabe ponderar sobre a possibilidade de Sérgio Moro ser somente uma peça no tabuleiro do complicadíssimo jogo de xadrez que envolve os poderes de Lula e do PT? Nos  bastidores, ninguém sabe ao certo quanto a ameaças e chantagens que podem ocorrer.

Ao fim da operação Aletheia, seria óbvio pensar que Lula devesse estar mais fraco do que antes dela. Não foi isso que notei. Quem é antípoda do PT não precisava desse estardalhaço todo para aumentar seu repúdio contra a organização criminosa que assola o país há treze anos. Teria sido uma excelente oportunidade para causar estrago em Lula e no PT, amealhando aqueles que possivelmente ainda não se deram conta da gravidade que representa a continuidade do atual (des)governo no poder, contudo, o que se viu na tarde de sexta-feira foi a figura de Lula, senão fortalecida, o que seria muito diante dos crimes que cometeu, no mínimo tendo a chance de emitir uma mensagem, algo considerável em se tratando do que expus acima e que lhe confere algumas possibilidades de recuperar porções de um terreno que a esta altura já deveriam ter sido definitivamente conquistadas por quem lhe combate.
Não se pode bobear com um psicopata como Lula e, contrariando Sun Tzu, nesse caso, não se deve deixar qualquer brecha para o inimigo, ou então ele irá mentir descaradamente, fará jogo de cena e continuará posando de vítima até conseguir convencer gente incapaz de entender o funcionamento de uma mente pérfida e doentia. Lula só será derrotado quando estiver cem por cento fora de ação.

Aguardemos...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O PT e a microfísica do poder


Embora o pós-modernismo tenha atribuído a si mesmo ares de pensamento vanguardista, no fundo e em última análise, seu esquerdismo o manteve sempre preso ao arcabouço teórico de Marx. Em Microfísica do poder, Michel Foucault, um dos baluartes do pós-modernismo, escreveu, de maneira geral, que as relações de poder nas sociedades de massa haviam se disseminado por redes difusas que abrangem o cotidiano dos indivíduos, considerando-se aí praticamente todas as trocas (no sentido de relações) que perfazem a vivência dos mesmos. Apesar de ter rompido, até certo ponto, com o conceito (jamais plenamente explanado e definido) marxiano de classe e ter dado maior ênfase ao indivíduo, Foucault não deixou, em momento algum, de permanecer atrelado à questão da dominação burguesa e da base econômica. Assim, segundo ele, os burgueses, pelo fato de serem detentores do capital, não apenas o capital dinheiro, mas principalmente o capital cultural, eram responsáveis por dominar uma massa indistinta de oprimidos. Onde isso desemboca? Na necessidade, de acordo com Foucault e todos os esquerdistas, de superação do capitalismo. O que ficaria em seu lugar é a utopia socialista-comunista como já a conhecemos e, em termos reais, traduzida pela tragédia que representou sempre que tentada na prática.
Desde Tocqueville, pelo menos, os liberais sabem que o elemento político, desprezado pela esquerda, é fundamental para se entender as sociedades, sobretudo aquelas nas quais - e aí estamos pensando no mundo moderno - existe, ou deveria existir, um sistema parlamentar garantidor da resolução de conflitos com base nas leis e na isonomia jurídica. Pelo fato de não haver em Marx uma teoria do Estado, tampouco uma história que dê conta de explicar seu desenvolvimento, tanto o autor de O capital como seus discípulos nunca puderam enxergar que um sistema centralizador invariavelmente gera uma intensa desigualdade política. Se a instauração do comunismo como regime econômico ideal direcionasse a superestrutura, como quisera Marx, então por que Lenin implantou um regime de terror? Não deveria ter a estrutura econômico-material conduzido à harmonia? Não foi o que aconteceu justamente devido à impossibilidade de se apontar o elemento político apenas como acessório secundário, em outras palavras, a centralização bolchevista determinou, como não poderia deixar de ser, um Estado totalitário.
No que diz respeito ao fator econômico, também estão cientes os liberais, graças à contribuição da Escola Austríaca, de que no capitalismo as trocas econômicas ocorrem com base em interesses livres e voluntários de indivíduo para indivíduo. A Economia, nesse sentido, não é uma pesada ciência de gabinete, mas uma dimensão corriqueira da vida humana. A intromissão estatal nos assuntos econômicos nasce da ideia de centralização e, à medida em que o Estado procura controlar o dia a dia de milhares de pessoas, ele apenas poderá fazê-lo a partir de abstrações ideológicas que ferem os mais elementares princípios da Economia, - como fazer cálculo se não há mercado?; como ter a pretensão de planejar se não há cálculo?; como alocar os recursos de modo correto e eficiente; como precificar? Sendo assim, por entrar em contradição com suas próprias premissas, o intervencionismo socialista só se constrói a partir da gritante desigualdade política que o caracteriza e só pode se manter lançando mão de uma política ditatorial. Algum marxista ainda poderia colocar que a meta final do comunismo é a abolição do Estado, ao que retrucaríamos afirmando ser altamente improvável - senão impossível - passar do planejamento econômico socialista, que exige intensa atuação estatal, à sua ausência. Daí advém a necessidade de controle e a consequente ditadura, inerente a esse sistema.
Retornando a Foucault, penso que este acertou no que concerne à difusão das relações de poder e sua consequente abrangência em níveis microscópicos, porém, tais relações devem ser esmiuçadas antes em termos políticos do que econômicos. Quando o pensamento de esquerda passa a dar as cartas no âmbito cultural, quando pauta grande parte da grande imprensa, quando norteia o ensino nas escolas e universidades de acordo com a bússola de Marx, quando aparelha instituições com quadros que lhe são dóceis e subservientes, - até o STF! - quando controla centrais sindicais na mais autêntica tradição peleguista, quando coopta "artistas", "intelectuais" e "jornalistas" para que estes sirvam como porta-vozes, quando possui uma rede de milícias reais e virtuais que buscam vigiar seus opositores, quando faz uso de sua influência para obter lobby junto a empresários, estamos diante do poder - no nosso caso atual, do poder de Estado - que visa controlar o cotidiano dos indivíduos em diversos níveis. Trata-se da própria microfísica do poder que, em sua origem, é política e, enquanto tal, envolve, por tabela, aspectos econômicos. Aqueles que não conseguem observar nesse arranjo a descrição exata do poder de Estado instalado pelo PT no Brasil, ou são cegos e ingênuos, ou de algum modo extraem vantagens dele, isto é, são vetores da desigualdade política que caracteriza sistemas autoritários e ditatoriais.
O poder de Estado não tem a conotação de classe econômica, muito menos advém do capitalismo, como pretendiam Marx (para o qual o Estado funcionava como "comitê executivo da burguesia"), Foucault e todos os outros esquerdistas. É um poder, afinal de contas, fiel ao próprio conceito de poder na sua acepção política autoritária, um poder que, através de redes difusas, microscópicas e, portanto, muitas vezes de percepção nem tão fácil e imediata, abarca e tenta - com altíssimo grau de sucesso - controlar as mínimas relações pessoais. Na minha opinião, não será com manifestações dominicais pré-agendadas que a sociedade cujo clamor pela liberdade, pela isonomia jurídica e pelos valores republicanos de boa governança irá lograr êxito no combate ao autoritarismo petista. Liberdade é algo que costuma exigir posturas mais contundentes e que se estendam por mais tempo do que desfiles de avenida...