terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Um curso com Noel Remo


Volto hoje depois de muito tempo com um conto que remete a determinado episódio de minha época de graduando. Em breve, escreverei mais uns dois ou três com o objetivo de retratar os absurdos e as agruras enfrentados no curso de História. Não há dúvida de que alunos universitários espalhados pelo Brasil afora se veem diante de situações semelhantes àquelas que vivi e, dependendo de seu caráter, de sua orientação política e do grau de compromisso que colocam para si próprios, encontram grande dificuldade em aceitar situações que, para outros - pouco ou nada afeiçoados pela busca do conhecimento -  são vistas como normais ou mesmo passam bastante desapercebidas. Depositar altas expectativas em algo que deveria naturalmente ser sério e levado com a mais esmerada responsabilidade, muitas vezes, pode ser absolutamente frustrante.
O nome verdadeiro do personagem do conto foi modificado por questões éticas - não que ele merecesse esse respeito, pelo contrário, mas ética é algo que se tem ou não, independente do sujeito ou do objeto envolvidos. Boa leitura!
***
O professor Noel Remo entrou na sala de aula, olhou com alguma dose de desdém e arrogância para os alunos que o aguardavam e começou a arranhar um portunhol arrastado e difícil de ser compreendido. Suas calças, com a barra pela canela, e os calçados, alguma coisa entre um sapato meio cano e um coturno, somados ao aspecto geral de sua pessoa, causavam uma impressão bizarra. Alunos, inevitavelmente, julgam pela aparência. Muitas vezes erram redondamente, em outras, a própria bizarrice, aos poucos, vai se revelando o menor dos males... . Ele ministrava a disciplina História Contemporânea - não me lembro mais se Contemporânea I, II, III..., me recordo apenas que o primeiro texto - e um dos únicos minimamente trabalhados por ele - tinha R. H. Tawney como autor.
Após decorridas algumas aulas Remo propôs uma espécie de seminário que deveria ser realizado a partir de um conjunto de textos previamente selecionados por ele. A atividade era em grupo e nosso texto foi... o Manifesto do Partido Comunista! Àquela altura - deveria estar no 5° semestre, algo assim - eu passava por uma espécie de catarse quando me deparava com escritos de Marx. Desde o início do curso, as overdoses cavalares do barbudão de Trier eram recorrentes até mesmo em disciplinas nas quais a ementa pouco ou nada tinha a ver com alguma coisa saída da pena daquele que ensejou a fina definição de Raymond Aron, "o marxismo é o ópio dos intelectuais". Marx não me assustava mais, não me surpreendia em nada, eu já sabia a essência de suas ideias, já conhecia bem a sua linguagem e a maneira pela qual ele tendia sempre a simplificar o mundo e as relações sociais. Não posso negar que foi positivo ter lido Marx à exaustão; quanto mais eu o lia, quanto mais o estudava, quanto mais submetia seu pensamento ao teste da realidade histórica e social, mais me afastava dele, mais me tornava ávido em refutá-lo. É claro que eu ainda não dominava por completo a crítica ao marxianismo/marxismo, missão que até hoje faz parte de meu roteiro intelectual (autores críticos de Marx e de suas ideias não fazem parte do rol bibliográfico acadêmico), ainda assim, já naquela época eu havia descoberto leituras extremamente proveitosas, um pouco por sorte, um pouco porque eu sempre estivera atento às raríssimas brechas que de vez em quando se abriam no claustro de esquerdismo e anti-capitalismo que me sufocavam no cotidiano de aluno universitário. Posteriormente, atuando de forma autônoma, fui ampliando continuamente meus conhecimentos em relação à crítica de Marx, aspecto que, devo confessar, muito me orgulha.
Voltando ao seminário, expusemos o assunto e fizemos as devidas considerações diante de um impassível Remo que, durante todo o tempo de exposição, limitou-se a proferir as seguintes palavras: "podem falar mal de Marx, podem falar mal dele". Nenhum membro do grupo havia dito nada desabonador acerca do autor do texto, pois apenas estávamos procurando deslindar os elementos internos do mesmo, sem lugar, pelo menos até aquele momento no qual fomos bruscamente interrompidos, para julgamentos ad hominem (embora muitos possam ser aplicados no caso de Marx). Indignado, mas quieto, fiquei pensando que Remo, possivelmente, tivesse prestado bastante atenção à minha expressão facial blasé, afinal, como um marxista poderia conceber que um aluno seu se mostrasse desprovido de qualquer empolgação ao tratar do hiperbólico e colérico Manifesto?! Ou, por outro lado, minha postura talvez fosse o reflexo da própria falta de originalidade e de apuro bibliográfico e historiográfico por parte do professor..., contudo, além de mim, outros alunos nem tão avessos a Marx estavam apresentando o seminário junto comigo. No fim, Remo não atribuiu nota alguma ao seminário.
Isto posto, o foco deste conto não é Marx, mas sim Noel Remo. A disciplina por ele ministrada foi algo tão inútil, tão sem substância, tão superficial, que as poucas lembranças advindas de suas aulas são tragicômicas. Modestia à parte, eu fui um excelente aluno universitário e, mesmo quando um professor ou a matéria me desagradavam, situação comum em vista da insistência enfadonha de muitos professores em torno dos mesmos temas, clichês, conclusões ridículas, do maniqueísmo entre os bons (os esquerdistas portadores de uma missão redentora) e os maus ("os porcos burgueses capitalistas" e os "alienados", "os mantenedores do status quo opressivo e dominador"), minha dedicação não deixava de existir e não foi diferente com o próprio Remo.
Em determinado momento do curso, ele aplicou uma avaliação em relação à qual não tive grandes dificuldades. Os critérios de avaliação eram totalmente subjetivos: MB (muito bom), B (bom), R (regular), RU (ruim). Essa sopa de letras era ainda mais problemática à medida que precisava ser convertida em uma média de zero a dez que representaria a média final na disciplina. Tirei "B", mas o que representava um "B"? Um 7.5, segundo raciocínio lógico-matemático, porém, nada que se referisse a Remo possuía teor lógico.
Mais para o fim do curso, outra avaliação e, desta feita, atingi um "MB". Tratava-se de um 8, de um 9.5, de um dez? Como traduzir aquele vago conceito em um número? Nem mesmo Remo tinha resposta para tal pergunta.
O curso chegou ao seu final, um alívio para mim! Como era chato e maçante ouvir aquele sujeito, que não demonstrava nenhuma nobreza de espírito ao dar aquelas aulas, nenhum contentamento, que não realizava o mínimo esforço para trazer um autor diferente, para ensaiar uma linha de raciocínio alternativa que fugisse do marasmo acadêmico esquerdista. Remo, então com 76 anos de idade, só se entusiasmava nos momentos em que alunas se debruçavam sobre sua mesa no intuito de dirimir alguma dúvida ou simplesmente trocar com ele palavras ao vento. Certa vez ele tocou no braço de uma aluna e disse: "ahh, olha aqui, um fiozinho do meu bigode na sua roupa". Sim, ele fez isso, chegou a esse ponto!
Quando fiz a consulta eletrônica de meu boletim, eis que lá constava na disciplina de Remo a nota 5. Obviamente, eu não entendi como poderia ter levado um 5 se nas avaliações obtive "B" e "MB". Será que ele havia detestado o seminário a respeito do Manifesto? Mas como, se nem ao menos atribuiu uma nota ou sequer fez algum comentário que não aquele já mencionado? Não, as coisas não estavam batendo! Que raio de cálculo o cretino fez?! Cálculo?
Fui obrigado a pedir a famigerada Revisão de Nota. Dias depois da requisição, uma funcionária do departamento liga em minha casa (uma funcionária!) informando que Remo, face ao pedido, havia solicitado um trabalho sobre o programa de seu curso. Lá fui eu para o computador munido do tal programa - que o professor não cumprira em quase nada, mesmo em se tratando de um roteiro trivial - para fazer o trabalho. Entreguei no prazo estipulado e, decorrido mais um tempo, em nova consulta ao sistema, verifiquei que minha média tinha subido para 8, com o quê me dei por satisfeito. Era preciso encerrar com aquilo, virar a página!
Anos se passaram e comecei a pensar que o fato dele ter solicitado o trabalho depois de ter atribuído uma média sem pé nem cabeça foi um grande absurdo, afinal, eu não deixei de cumprir as obrigações e a incongruência era toda da parte dele. Que raio de cálculo o cretino fez?! Cálculo? O cara era um perfeito idiota! Um perfeito idiota latino-americano, esse personagem tão bem descrito e analisado por Plínio Apuleyo Mendoza, Carlos Alberto Montaner e Álvaro Vargas Llosa, praga mais comum em um curso de Humanidades!
Até hoje não me conformo em ter sido tão trouxa ao aceitar fazer o trabalho! Deveria ter batido o pé, soltado os cachorros, gritado aos quatro ventos que ele estava totalmente equivocado, que ele tinha obrigação de rever uma média atribuída sem critério nenhum! Revisão de nota significa que uma média obtida deve ser revisada a partir do que já foi avaliado erradamente!
Como tão bem trouxe à baila Yuri Vieira, a vida acadêmica no Brasil é uma tragédia! E ainda tem gente que se orgulha de um diploma e acredita que com isso vira intelectual e adquire o direito de opinar a respeito de tudo, ... e com o máximo de pedantismo!

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