segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Crítica e tradicionalismo sociológico no Brasil


Quando alguém faz a pergunta “para que serve a história?”, um questionamento até certo ponto banal, embora justo, a melhor resposta sempre será aquela que é dada por meio de exemplos, esclarecendo o que, dito de outro modo, com base na teoria e portanto mais sujeito a hermetismos, correria o risco de ser considerado deveras abstrato por parte do inquiridor. A qual exemplo recorrer vai do gosto, do acaso ou do conhecimento de quem responde, sendo o mais importante salientar a carga de passado que o presente pode comportar. Para se compreender o contexto presente é imprenscindível conhecer os caminhos trilhados por uma sociedade, caminhos esses que, por sua especificidade, contribuíram para estabelecer um determinado presente, e não outro.
Nas sociedades tradicionais, entendidas em âmbito sociológico¹, isto é, nas quais ainda preponderam o patriarcalismo, o familismo e as relações pessoais, mesmo na esfera pública, é fácil sentir e observar uma carga de passado que, não pode deixar de se apontar, resulta em traços bastante negativos. Não é necessário ter senso lá muito aguçado para classificar o Brasil dentre as sociedades desse tipo, isso não somente em localidades distantes dos grandes centros urbanos, mas inclusive neles. A indistinção entre público e privado é uma marca sui generis da sociedade brasileira, tributária do passado de colonização ibérica. Não posso deixar de concordar com a professora Lucília Siqueira, quando esta afirma que não podemos mais considerar a estrutura colonial lusitana como responsável por nossas mazelas atuais, afinal, a Independência, a República, a industrialização e a democratização são realidades que, bem ou mal, capengas como se apresentaram ou ainda se apresentam, fizeram ou fazem parte da história do Brasil, tornando-o uma realidade diferente em relação ao que foi até 1808. Isso não quer dizer que seja possível descartar os efeitos da longa duração e dos traços culturais e mentais que se fazem perdurar no povo brasileiro, algo que a professora Lucília, arguta como sempre se mostrou, também sabe perfeitamente.
Os sinais e pormenores que definem a confusão entre público e privado no Brasil se reproduzem todos os dias nas relações entre patrões e empregados, na esfera da política oficial, nas escolas e universidades, no trânsito, nas conversas entre amigos e até entre pessoas desconhecidas, situação em que o trato familista configura um paradoxo dos mais incríveis. Tudo isso revela que o Brasil está a anos luz de distância de ser um país liberal, coisa que muita gente não pode e nem quer perceber.
Aqui tendo chegado, noto que talvez eu feito uma digressão muito longa, desviando-me do tema sugerido pelo título, mas creio também, que o leitor poderá entender os motivos deste trajeto. A crítica no Brasil, ao contrário do que deveria ser, ainda é assunto tratado sob espesso véu de familismo e personalismo. No geral, o brasileiro tem ojeriza à crítica, logo tomando-a por um ataque pessoal, seja por parte do próprio alvo criticado ou, o que é comum, por parte de quem toma suas dores. A noção de que a crítica, quando bem feita, se fundamenta em ideias, é estranha ao povo que habita estas terras. Desde Platão na Antiguidade, passando pela contribuição de importantes pensadores medievais e modernos, vide um São Tomás de Aquino ou até um Hegel expurgado de marxismo, é sabido que o conceito de ideia demanda impessoalidade, algo que, no entanto, não tem logrado sucesso face à mentalidade tradicionalista do brasileiro. Daí ser tão recorrente que as réplicas se percam completamente em argumentação ad hominem, o que faz a discussão se tornar pobre e arredia ao debate.
Na esteira do anticriticismo, muitas vezes vem à tona a questão da verdade, o que é fruto da suposição, também ela resultado do tradicionalismo, de que toda crítica esteja presa ao dualismo verdadeiro-falso. Este ponto é muito espinhoso quando a crítica se refere a assuntos referentes às Ciências Humanas, terreno cujo estatuto epistemológico é bastante específico. Em áreas do saber nas quais se lida muito mais com probabilidade e verossimilhança, uma argumentação pautada pela oposição entre verdadeiro-falso estará sempre comprometida. Nesses casos, deve se considerar, além do elemento subjetivo adjacente ao discurso das Humanidades, a noção de que uma concepção geral que norteia as ideias de determinado pensador pode, na maioria das vezes, não ser de sua própria autoria. Disto decorre que uma possível crítica dirigida a esse mesmo pensador não busca colocar em discussão se ele é ou não o dono da verdade, pretensão pouco aplicável em Humanas ou mesmo à crítica em si, mas sim chamar atenção para pressupostos teóricos e ideológicos equivocados que podem comprometer uma argumentação, ainda que formalmente bem construída. Evidentemente, o erro e o acerto estão em jogo, mas não em uma perspectiva totalizante, que inclusive esvaziaria em grande medida o propósito da crítica.
Penso ser correto admitir que quando uma sociedade atinge um nível sofisticado de crítica, livre de personalismos, tem-se aí um sinal de seu desenvolvimento mental e cultural, quadro que, pelo exposto, ainda não começou nem mesmo a engatinhar no Brasil, país de claro tradicionalismo sociológico.


NOTA

1. O conceito de “sociedades tradicionais” em Sociologia, muito utilizado pela Escola de Chicago e presente nas obras de Talcott Parsons e Gino Germani, refere-se, grosso modo, a sociedades permeadas por valores oligárquicos, tais como exemplificados no texto. Este conceito não deve ser confundido com sua definição antropológica, usada para caracterizar sociedades pré-históricas ou pré-modernas, (em sentido lato) remotíssimas, nômades/semi-nômades, formadas por caçadores e coletores. Tem ainda menos a ver com o conservadorismo humanista à la Irving Babbitt, cujo princípio é a valorização de padrões morais e filosóficos que tendem a favorecer a vida civilizada e a liberdade autêntica.

domingo, 20 de novembro de 2011

Manifestações muito válidas de indignação


O filósofo político Renato Janine Ribeiro escreveu no Estado de São Paulo de hoje um artigo ("Inimiga da república") versando sobre a corrupção no Brasil. Segundo o autor, é um assunto que não pode ser tratado a partir de viés partidário, ou seja, a crítica à corrupção tem que ser total e incondicional, não somente feita se estiverem em jogo preferências por um ou outro partido. Assim, quem fica indignado contra corrupção praticada pelo partido X, deve manter postura idêntica se for levada a cabo pelo partido Y, do contrário, estará incorrendo em extrema incoerência.
Janine está certíssimo nesse aspecto, porém, parece não ir a fundo nas implicações morais que seu próprio ponto de vista enseja. No mesmo artigo o autor julga que as manifestações de indignação dirigidas aos corruptos são vazias, uma vez que aqueles que criticam não oferecem propostas para o Brasil. Aí cabe então a pergunta: desde quando ser intolerante em relação a um modo de agir criminoso exige, como complemento, indicar propostas? Um professor de ética como ele não poderia desconsiderar jamais que, se existe uma situação na qual a moral é jogada no lixo, ser intolerante em relação a esta situação adquire um valor por si só.
O pior é que Janine usa o Facebook como fonte para corroborar sua ideia. Convenhamos que a rede social não fornece o melhor indicativo quando se tem o objetivo de refletir acerca da política de uma nação, sobretudo se essa nação é o Brasil. A maior parte dos brasileiros não saberia propor soluções aplicáveis para a política brasileira, simplesmente porque não possui instrumental para tanto e porque vivemos sob uma democracia representativa, na qual cabe justamente aos representantes eleitos a tarefa de coordenar as ações políticas. Se eles não o fazem em nosso país, tem sido acima de tudo por conta dos gravíssimos e frequentes desvios de conduta, logo, tudo que seja para repudiar a corrupção é de total validade e importância. A democracia brasileira ainda não se consolidou e está longe disso, o que nos revela que seria esperar demais que os brasileiros fizessem, no momento, algo além do que se indignar contra a corrupção, um mal que se instalou nas entranhas da política nacional.
Janine teria se saído bem melhor se constatasse o mais evidente, isto é, o fato de que são poucos os brasileiros que se mostram indignados contra uma corrupção que se tornou institucionalizada no governo do PT, partido que sempre se colocou como paladino da ética enquanto esteve fora do poder. Depois que o conquistou, passou a tratar do tema como preciosismo/moralismo burguês. O populismo lulista soube se aproveitar bem dos desejos mais prementes da população carente e mesmo de boa parte das classes médias urbanas, o que resultou na passividade política que domina a fragilizada democracia brasileira. Bom para quem ocupa o poder e que pretende mantê-lo sobre traços autoritários.
Por sorte, e talvez por uma centelha de percepção, o cenário dá sinais de mudança, aponta que a intolerância contra a corrupção tem aumentado, sendo isso exatamente o que nosso autor observou no Facebook. Ao mesmo tempo em que a rede social representa apenas uma excrescência do universo político, pouco ainda diante de tantas mazelas, é também motivo para se ter alguma esperança, afinal de contas a passividade reinou sozinha de 2003 para cá, levando o lulismo a um grau de aceitação e aprovação completamente incompatíveis com o governo que era realizado. Notando que existem indicativos de alteração na atmosfera, Janine poderia ter visto a coisa de modo positivo, mas como alguém que ainda consegue enxergar no PT um partido comprometido com a democracia, acaba por ir na contramão daquilo que ele mesmo condena, acertadamente, como sendo partidarismo, ao invés de intolerância contra a corrupção em essência. O autor deveria ter a coragem e o desprendimento necessários para atacar a corrupção insitucionalizada no governo petista, reforçando que foi com Lula e obedecendo ao discurso, à postura e as medidas do ex-presidente, que as práticas políticas ignominiosas passaram a ser não só aceitas, o que já é uma aberração, mas também legitimadas. Toda corrupção, por mais ínfima que seja, merece repúdio, mas é a corrupção sistemática e institucionalizada que mais torna enferma a vida política de um país, pois é aí que passa a ser vista como algo corriqueiro, levando por sua vez, à apatia e à passividade da população. Se o povo tem dado algumas demonstrações de estar farto de tamanha corrupção, fenômeno observado por Janine, é motivo de louvor que não pode ser desprezado.
O autor crê que a discussão política no Brasil é pobre, uma afirmação absolutamente óbvia, sendo estranho, desse modo, que ele negue a validade de sinais que apontam uma possível mudança de direção. É significativo que mais pessoas estejam se manifestando contra a corrupção no Brasil, daí a querer que o brasileiro adquira uma cultura democrática que lhe capacite a propor soluções para o país, é algo que demanda, além de paciência, mudanças em outras esferas, como a educação, o que de maneira nenhuma, no entanto, retira a importância de se manifestar veementemente contra os corruptos. Para que haja o estabelecimento de cultura democrática no Brasil, arranjo bem mais complexo e rico do que se tem aqui, é necessário que o brasileiro comece a pensar e sentir a liberdade como fator mais valioso em sua experiência de cidadão. Só então, passará também a admitir que Estado centralizador e assistencialismo não são os responsáveis pelo desenvolvimento de uma nação, bem como poderá se dar conta de que a liberdade e a democracia exigem o cumprimento de deveres - não só o exercer de direitos - que são, por definição, elementos construtivos da verdadeira liberdade. Caso isso venha a acontecer algum dia, poderá ser percebido nos espíritos das pessoas, em seus costumes e nas leis da sociedade, não só nas expressões residuais de redes como o Facebook. Nesse caso, que até pode ser visto como idealizado, temo que certas paixões ideológicas, tais como demonstradas por Janine, ainda assim fariam dele um insatisfeito.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Comunistas criminosos


Os falsos estudantes, criminosos, rebeldes sem causa, baderneiros, comunistas e buchas de canhão do tráfico que ocuparam a reitoria da USP foram obrigados a deixar seu acampamento depois da ação, corretíssima, diga-se de passagem, da Polícia Militar, que fez cumprir uma determinação judicial desobedecida por essa minoria autoritária. Foram indiciados por descumprimento da ordem e danos ao patrimônio público. Que sejam agora devidamente punidos, inclusive, o que seria absolutamente justo, com o jubilamento da universidade.
As pessoas que praticaram esses atos são débeis mentais que se aproveitaram do pretexto da detenção de três dos seus, por PM´s, quando fumavam maconha nas dependências da USP, uma universidade pública (público significa algo que é de todos, de uso comum, não um lugar onde não há lei e no qual cada um faz o que bem entender) para organizar uma rebelião cujas reivindicações, além de serem completamente estapafúrdias, se confundem numa miríade de clichês pueris, sem nenhuma pertinência.
Segundo essa gentalha, a presença da PM no campus não condiz com um espaço destinado à educação nem garante a segurança da comunidade universitária. A argumentação não poderia ser mais inconsistente, mais do que isso, não poderia ser mais contraditória, um exemplo cabal da má fé e da cara de pau que toma conta da mente de comunistas extemporâneos. Pode-se questionar a ideia de que policiais não combinam com um espaço cuja função é o estudo a partir de quatro pontos: 1) PM´s não impedem nenhum estudante de estudar, nem de pensar livremente, um privilégio exclusivo de quem é cidadão de regimes livres, algo que vai na contramão do ideário político dos comunistas; 2) a presença da PM no campus em nada interfere na rotina de quem vai à universidade para realmente estudar, ao contrário do uso de maconha em local público, o que aí sim invade o espaço das outras pessoas; 3) como falsos estudantes, os baderneiros não frequentam a universidade com o objetivo de estudar, longe disso, praticamente não são vistos em sala de aula, passando quase todo o tempo na vadiagem, na trama de ideias revolucionárias e na pintura de cartazes de papel pardo com gritaria marxistóide; 4) no oposto do que prega o esquerdismo radical e sua cria pós-moderna, o relativismo, a PM é essencialmente uma instituição que existe para proteger o cidadão de bem, (estados de exceção e desvios de conduta de policiais não são a regra) portanto, é evidente que criminosos que andam de rosto coberto se posicionem contra a presença da PM, não só na USP, mas em qualquer outro local.
A questão das drogas e do policiamento serviu somente como fachada para a verdadeira intenção dessa minoria que, estando ligada a certos partidos políticos da esquerda revolucionária, tenta de dentro da universidade, contando com o apoio de alguns professores, também eles relacionados a esses partidos, alterar o sistema vigente na sociedade, que eles pensam ser o capitalismo pronto e acabado a serviço da elite (qual elite, cara pálida?!). Por mais ridículo e absurdo que possa ser, é exatamente isso. Não é nem preciso frisar que esse pessoal está se lixando para a criminalidade no interior da cidade universitária ou para a morte de estudantes que eles consideram como “burgueses alienados”. São eles que representam o crime no campus da USP, logo, são inimigos de quem atua combatendo o crime. Quando argumentam que o “poder estabelecido a favor do grande capital criminaliza os movimentos sociais” não estão agindo nada diferentemente do que preconizam os manuais da esquerda terrorista, de Netchaiev a Lamarca, passando por Lenin e Gramsci. É o pior marxismo possível, se é que se pode piorar aquilo que já é horrível. É a lógica da manipulação da verdade, da autovitimização, do nivelamento por baixo, o que se traduz no lobo em pele de cordeiro, na tática da subversão dos cupins, lenta e silenciosa, mas que aparece de surpresa em estágio avançado. Já passou faz tempo da hora das pessoas em geral admitirem que o emblema da foice e do martelo conota crimes tão perversos e execráveis quanto a suástica e, desse modo, de colocá-lo no mesmo estatuto de proibição.
Não adianta, como declarou o governador Geraldo Alckmin, dizer que essa gentalha precisa de uma “aula de democracia”. Eles não reconhecem a democracia, que no Brasil é só uma quimera, senão como um “falseamento da sociedade burguesa”. Nunca defenderão sistema democrático algum, já que comunistas são autoritários e totalitários, não democratas. Comunistas não sabem o que é teoria política, não enxergam a dimensão política à parte daquilo que assumem como sendo a superestrutura, subordinada à base material e econômica e, assim sendo, como alguma coisa secundária e sem maior importância. Não há política entendida como debate de ideias no regime que defendem e seus atos agressivos, violentos e arbitrários assim o provam. Não há lei para essas pessoas, senão a “lei histórica” que condena os “elementos contrarrevolucionários” à eliminação. Para eles, a história é a “parteira da revolução”, uma história já determinada a priori, bastando apenas que a ação revolucionária a coloque em movimento. “Toda história é a história das lutas de classe”, segundo as primeiras frases do Manifesto Comunista, um dos escritos mais fraudulentos que a estupidez humana já produziu.
Esses revolucionários extemporâneos só podem ser tratados como criminosos e qualquer coisa que não seja isso, é apenas eufemismo que os fortalece e joga contra as pessoas de bem e com as ideias de liberdade, de humanismo, de democracia e de respeito ao indivíduo e à sociedade. Não seria, a princípio, um horizonte difícil de vislumbrar, contudo, ele só será alcançado no dia em que as aberrações de cunho marxista forem completamente esquecidas, projeção bem mais difícil de se concretizar.