terça-feira, 24 de novembro de 2009

O Brasil e o apagão


No último dia 10, uma queda de grandes proporções no fornecimento de energia se abateu sobre o Brasil. Segundo as informações do site Estadão, o apagão atingiu dezoito estados e fez com que cerca de 70 milhões de pessoas ficassem às escuras, mais da metade no estado de São Paulo, o centro econômico-financeiro do país.
Como quase sempre ocorre, as autoridades brasileiras prontamemte apontaram fenômenos naturais como causa do problema. Raios provenientes de uma tempestade teriam atingido uma estação de fornecimento no Paraná. É fácil afirmar tal coisa, de forma que se passa a suposta (e evidentemente falsa) noção de que ninguém pode ser responsabilizado, ou ao menos admitir que há falhas no fornecimento de energia no Brasil. A natureza é impessoal e malsã. Quem administra o país, foge da raia.
Não posso cravar que as causas não tenham sido naturais, entretanto, uma origem de tal monta não seria facilmente identificável? Duas semanas passadas desde o apagão e nenhuma autoridade respondeu coisa alguma. Outra questão: raios causarem um efeito tão acentuado no fornecimento de energia, não denota justamente que o sistema requer, no mínimo, manutenção? Pelo que se vê, as autoridades brasileiras não são capazes de reconhecer isso.
Após o problema, já adentrando na madrugada, descobri uma rara utilidade no rádio do celular, (como já coloquei neste espaço, tenho dó de quem depende de MP3) o único aparelho que naquele momento de blackout poderia trazer informações a respeito do que estava a se suceder. Decorridas aproximadamente duas horas do apagar das luzes, eis que ouço o ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, que é advogado e jornalista, sem a menor experiência em assuntos relacionados à sua pasta, alguém que só ocupa o cargo devido aos lobbies partidários que dominam a política brasileira, declarar em entrevista que a causa do problema havia sido na usina de Itaipu. Curiosa, a peremptória afirmação do ministro depois de duas horas. Se até hoje pouco foi esclarecido... Logo em seguida, o assessor de comunicação de Itaipu, Gilmar Piola, entrou ao vivo na rádio e disse que se a causa fosse em Itaipu, a energia não teria sido reestabelecida no Paraguai, o que já havia acontecido àquela altura. No dia seguinte, a hipótese de Piola se confirmava, desmentindo a afirmação do ministro.
Diante do apagão, afora os desencontros e incertezas, algumas colocações podem ser feitas. Em primeiro, evidencia-se o fato de que o Brasil é extremamente dependente de Itaipu. Um país de cerca de 194 milhões de habitantes que, não obstante o parco crescimento observado nas últimas décadas, demanda modernização urgente em seu sistema de fornecimento de energia, capaz de atender mais e melhor. Segundo, em tempos nos quais as questões relativas à natureza e à preservação dos ecossistemas se tornaram essenciais à qualidade e à continuidade da vida na Terra e das quais está atrelado mesmo o desenvolvimento econômico, (na contramão do contexto, Lula afirmou recentemente que não é possível o desenvolvimento sem devastação ambiental - é óbvio que ele está alheio ao que se vem fazendo na Coreia do Sul, na Holanda ou na Alemanha) é um aspecto lamentável que um país com tantas potencialidades naturais, cantadas em verso e prosa pelos próceres fossilizados do desenvolvimentismo trintista, mas pouquíssimo utilizadas hodiernamente, ainda dependa em alto grau de energia hidrelétrica, não-poluente, porém causadora de impacto ambiental em sua instalação e bem menos renovável do que se pensava há cerca de duas ou três décadas. E o investimento em energia solar e eólica? Um Brasil tropical e com várias áreas de incidência ventosa considerável, investir risivelmente nessas fontes alternativas e renováveis, é quase um crime. Isso, ao mesmo tempo em que o governo se desbunda com o pré-sal e com a Petrobrás. A reboque da segunda colocação, é absolutamente incompreensível notar que no início de 2009, a federação reduziu verbas para os ministérios das Minas e Energia e do Meio Ambiente. Nada poderia ser mais contraindicado no atual contexto! Por outro lado, o assistencialismo barato e inócuo continua a avançar. Tudo errado!
É por essas e outras que concordo integralmente com o jornalista Daniel Piza quando ele escreve “Porque não me ufano” ao responder com realismo as bravatas do presidente do “nunca antes na história desse país”. É a cara do Brasil.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Mais do mesmo. E o outro lado da moeda.

Escrevi há poucos dias sobre o caso Uniban e mostrei que, a meu ver, a aluna Geisy Villa Nova, apesar de ter dado, como se diz, sopa para o azar, foi a vítima do episódio em si. Isso parece óbvio.
Outro ponto que envolve a questão e que a faz ser analisada sob outro ângulo, é o fato da vítima estar se aproveitando do ocorrido para se autopromover debaixo dos holofotes da mídia. Geisy já recebeu convite para participar de filme pornô e para posar nua na Playboy. Deplorável!
Na atual sociedade de massas, contexto no qual, como bem destacou o crítico Lee Siegel em Against the Machine, a cultura já nem é feita mais para as massas, mas pelas massas, tudo se torna motivo para celebrização. Celebrização do grotesco, do ordinário, do mau gosto, daquilo que há de mais baixo na condição humana. O problema é que muitos caem nessa e defendem tais práticas, relutando em buscar os antídotos, que podem ser encontrados na alta cultura - nem seria preciso dizer que o que se entende por "alta cultura" é algo independente do fator econômico-classista; existe muita coisa valorosa na cultura popular de raiz. Todavia, devido à mediocridade intelectual e à incapacidade de sublimação diante das manifestações culturais mais herméticas ou que exigem mais da reflexão, da contemplação, que não são passivas de registro imediato e mais dependentes de um delay sensitivo e interpretativo, a alta cultura é tida pelos tipos comuns como chatice, já que exige esforço intelectual. Sinal dos tempos. Tudo que cai fácil no gosto das massas, vende bem e satisfaz de bate-pronto. Vai embora com a mesma facilidade, tornando quem é dependente, ávido por mais droga.
Quando finalizei o artigo de 12/11, coloquei que o pior no caso Uniban era o paradoxo da violência contra a mulher num país que costuma exaltar a coisificação do feminino. Também afirmei que muitas mulheres brasileiras, desatentas para o fato evidente de que a ideia da mulher-objeto pesa contra elas próprias, acabam em várias ocasiões contribuindo para perpetuar tal noção. Geisy Villa Nova o confirma categoricamente quando se expõe à mídia, aproveitando-se da execração sórdida da qual ela mesma foi vítima para tentar extrair disso algum proveito. Onde está o problema, poderiam perguntar alguns. Está simplesmente no absurdo de buscar se beneficiar a partir de um episódio que a tornou conhecida por meio de extrema violência, fazendo com que um ato covarde e criminoso possa adquirir status positivo na psicologia de uma sociedade massificada. A grosso modo, cai-se no chavão do "falem mal, mas falem de mim". Estar nos holofotes é o que importa, dane-se a perpetuação da imbecilidade, da violência, da coisificação da mulher... Quem cala consente, portanto, que ninguém que costuma compactuar com essas práticas, venha reclamar.

Pensando nisso tudo...
... cabe, a propósito, lembrar que o dia de hoje marca os 50 anos da morte de Heitor Villa-Lobos, ele que foi, sem sombra de dúvida, o melhor e maior músico e compositor da história do Brasil. A genialidade e o talento de Villa-Lobos lhe permitiram algo dificílimo, ou seja, a mescla entre elementos clássicos, historicamente estranhos ao universo musical brasileiro, e tipos sonoros característicos da natureza e da (alta) cultura local, também eles de complicada compatibilidade com o classicismo. Daí vem a obra ímpar deste artista monstruoso em sua capacidade e originalidade. Enquanto isso, a nefasta rede Globo promove um especial para homenagear Cazuza depois de 20 anos de sua morte. E assim vamos...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Desmesura

Conforme o tempo passa, sinto menos reconhecimento e identificação com o mundo em que vivo. Sinto tal impressão em vários episódios e situações, sejam aqueles, de duração mais curta, ou essas, mais afeitas à conjuntura.
Os acontecimentos recentes na Uniban me fizeram pensar uma vez mais na questão. Num programa de debates da MTV Brasil, o presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), que participava da mesa, afirmou que universidades do tipo possuem um caráter muito autoritário, pois encerradas em seu ranço mercantilista, criam das catracas para dentro, um mundo à parte, no qual os "fiscais de disciplina", os bedéis, vigiam os estudantes em cada passo, nem mesmo permitindo a existência de CA´s, grêmios ou jornais internos. Ele pode ter razão em parte do que disse, mas não creio ser esse o foco do problema. Não posso deixar de observar que uma tal colocação se prende ao economicismo rasteiro, típico de um presidente da UNE. O caso não ocorreu por ter sido no interior dos muros da Uniban, mas revela algo que se processa no próprio mundo em que vivemos, faz parte do modo de agir e da visão de mundo de inúmeros jovens de nossa sociedade. Não que estaria dando conta de uma boa análise sobre o tema, longe disso, mas teria sido bem mais simples se ele dissesse que o perfil de alguns alunos que frequentam universidades desse tipo, não é lá muito interessante. Exigiria mais coragem, logo, é mais fácil atacar a instituição, por sua impessoalidade.
Não vou discutir a qualidade do ensino na Uniban, já frequentei uma universidade análoga e a estrutura é péssima, apesar dos altos valores cobrados na mensalidade. Essas instituições praticam uma espécie tupiniquim de capitalismo de fundo de quintal. Não primam pelo aspecto qualitativo, previdente e de longo prazo, estando interessadas somente no lucro do dia seguinte, indo desde as próprias mensalidades, até o pirulito vendido na cantina. Repito, não é esse o foco, nem posso aceitar a ideia de que o caso de Geisy Villa Nova tenha se passado por conta de excesso de autoritarismo na Uniban, pelo contrário, pois se houvesse um zelo maior pela disciplina, o que não é justamente o caso de capitalistas dos trópicos, teriam conversado com a aluna no sentido de orientá-la a respeito da inadequação de seus trajes para um ambiente acadêmico, evitando que se chegasse aos absurdos subsequentes. O caso não foi uma consequência derivada das particularidades que desqualificam a Uniban em vários aspectos. Problemas mais graves do que esse, de outra ordem, mas com forte semelhança de fundo, já ocorreram nas mais conceituadas universidades do país. Os trotes violentos, sempre acontecem aqui ou ali, basta lembrar da morte do calouro de medicina da USP, Edison Tsung-Chi Hsueh, em 1999. Toda vez que me lembro desse rapaz e de sua família, me dá vontade de chorar.
É preciso deixar claro que o que se passou na Uniban, se deveu, repito, à doença das massas em nossa sociedade contemporânea. Vivemos num mundo de total e completa desmesura. Não há valores, não há virtudes, tem-se a noção inglória de que isso diz respeito aos tolos e caretas. Não há parâmetros para se julgar o certo e o errado, o que não possibilita referências para condenar aquilo que não é devido, que é atroz. Não existem limites, essenciais, para que a liberdade consciente possa ser estendida a todos. Talvez não haja nada mais distante do nosso mundo do que o elemento centrípeto da liberdade, tão bem conceitualizado por Irving Babbitt.
Nada havia de valor ou ideologia naquilo que Geisy sofreu, mesmo valores ou ideologias que pudessem ser qualificadas como as mais vis, injustas e cruéis. Um grupo de senhoras católicas extremamente radicais, se lhes fosse possível, poderia chegar ao ponto, se estivéssemos em outras eras, de queimar Geisy na fogueira. Horripilante, deplorável, decerto, mas ao menos por conta de uma concepção religiosa, de uma visão de mundo. Os estudantes que gritaram vitupérios, palavras obscenas e odiosas à Geisy, não possuem qualquer ideologia ou a mais tosca visão de mundo que seja. Estavam exercendo aquilo que os antropólogos conhecem bem e que pode-se denominar de "propensão à violência grupal em situações de exceção", ainda que essa exceção não fosse mais do que o vestido curto e o jeitão provocante da aluna ofendida. Os agressores, desprovidos de qualquer senso de polidez, ponderação, justiça ou tolerância, como tantas pessoas numa sociedade incapaz de julgar com propriedade e sensatez, porque desvirtuadas, agiam no mais cruento instinto selvagem hobbesiano. Sem dúvida nenhuma, Geisy teria sido estuprada se os agressores não fossem contidos. Os jovens não estavam condenando a vítima pela inadequação de seus trajes, mas colocando-se no direito de violentá-la por considerarem-na uma prostituta. Muitas pessoas de nosso mundo já não atribuem nenhum valor naquilo que elas próprias poderiam cultivar como suas próprias qualidades, quanto mais são capazes de enxergar qualificativos que façam incidir algum tipo de generosidade ou tolerância para com os outros.
Incrível ainda, o fato de que até mesmo mulheres estavam envolvidas na violência contra Geisy. É um paradoxo de causar o mais profundo espanto que num país que se gaba à exaustão dos atributos físicos de suas mulheres mais típicas, pessoas do sexo feminino tenham mantido uma postura tão execrável. Outro absurdo é que, de modo geral, as jovens brasileiras pouco notam os problemas que uma cultura tão voltada para a mulher-objeto possa trazer a elas próprias. Desmesura dos nossos tempos, será possível ao menos atenua-lá?!