terça-feira, 31 de janeiro de 2012

São Paulo aniversariou. Comemorar o que?!


A cidade de São Paulo comemorou 458 anos de fundação na semana passada. Realizaram-se as festividades costumeiras e, nas redes sociais, que têm intermediado uma quantidade assombrosa de relações entre as pessoas, foi comum observar internautas parabenizando a metrópole e postando uma foto com os dizeres “São Paulo é tão agradável que até o inverno resolveu tirar férias por aqui”, fazendo menção às temperaturas amenas deste verão até o momento. Será que há sentido em oferecer cumprimento de aniversário a uma cidade? O ato se torna ainda mais despropositado na medida em que é feito em meio virtual. Não seria exatamente porque a São Paulo dos dias de hoje quase não proporciona harmonização com seus habitantes? Como deixar de suspeitar que tais manifestações ocorrem somente como retrato claro de alienação, impertinência ou mero modismo virtual descoladinho?
O paulistano atento e dotado de senso crítico, aquele que faz questão de possuir cidadania e que sente por ter de viver em uma cidade de ares distantes, pouco aprazível e sufocante como São Paulo, não encontra motivos para homenageá-la. Trânsito caótico, transporte público deficiente, faixas ciclísticas enxertadas artificialmente que prejudicam a circulação até aos domingos, sujeira nas ruas, mato crescido nas praças e canteiros de ruas e avenidas, escassez de áreas verdes, enchentes, filas intermináveis, flanelinhas e um centro histórico abandonado e degradado perfazem as características mais visíveis da pauliceia desvairada.
A questão que envolve o centro é crucial para entender os descaminhos tomados por São Paulo nos últimos 60 anos, visto que uma cidade cujo centro histórico se tornou repulsivo ao cidadão só pode ser uma cidade sem alma. Os cafés de rua, os monumentos públicos e as tantas atrações culturais, bem como os passeios ajardinados, elementos ainda fortemente presentes em todas as grandes cidades europeias e até em algumas da América do Norte e da Oceania, são essenciais para que ocorra harmonização entre o habitante e o local onde ele vive, elementos que convidam o cidadão a frequentar uma cidade, a ser parte dela como sujeito que compõe a paisagem urbana e como predicado que usufrui dos benefícios que ela oferece. A tradição do flaneur, cara a autores como Flaubert, Baudelaire e Proust fica totalmente impossibilitada de ser posta em prática em uma cidade como a São Paulo de hoje, na qual o centro histórico foi paulatinamente esquecido.
Quando São Paulo começou a crescer de maneira mais intensa, por volta de 1960, as autoridades não se preocuparam em estabelecer qualquer planejamento urbano, falha grave que a situação atual do centro histórico faz ser bem visível. Não houve lei de zoneamento que exigisse manutenção de fachadas, que proibisse construções fora de padrão arquitetônico, abertura de certos tipos de comércio e ocupação irregular, tampouco foram colocadas regras para a circulação de veículos e manutenção paisagística. Vez por outra, ao longo de todo esse tempo, foram tentadas algumas medidas de revitalização, porém, sem elaboração, sem método, sem serem acompanhadas de legislação e sem continuidade. Hoje, a gestão de Gilberto Kassab, um prefeito que parece nunca ter ouvido falar em políticas públicas de urbanização, apenas faz acentuar o completo desinteresse pelo centro histórico. Se temos edificações históricas em razoável estado de conservação, como o Pátio do Colégio, o Palácio de Justiça, a Catedral da Sé e o Martinelli, o entorno desses locais sofre com o descaso, bastando passar pela Praça da República, pelo Viaduto do Chá ou pelo Largo do Arouche para notar o abandono. O governo Alckmin, trapalhão e ainda mais impopular do que sempre fora, promoveu a desocupação da chamada Cracolândia, mas de forma atropelada, sem direcionamento, resultado de uma ação atrasada que deveria ter sido levada a cabo há uma década, pelo mesmo partido do atual governador, que comanda o estado desde 1995. Como consequência de terem deixado o problema se agigantar, outras cracolândias estão surgindo em pontos diversos da cidade após o desmantelamento da original.
Alguém poderia lembrar que apesar de tamanhos problemas São Paulo possui um bom roteiro cultural e sobretudo gastronômico. De certo modo, não é uma ideia errada, mas também nesse aspecto as dificuldades de deslocamento e os transtornos com estacionamento acabam por prejudicar o pouco que a cidade tem a oferecer. Diante disso, não há o que comemorar no aniversário da maior metrópole do país, sendo que as manifestações efusivas por parte de muitos habitantes não podem ser pensadas como outra coisa senão sinal de masoquismo, desatenção, apego telúrico, pieguice sentimentalóide ou modismo.

PS: Quem é que está ligando para cultura, flaneurismo ou centro histórico, não é mesmo? O carnaval vem aí e tudo é festa... Teremos até mesmo o "pré-carnaval" da Vila Madalena, prato cheio para bêbados, mijões e bocas de esgoto. Comemore, cidadão!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Mais estatolatria, mais impostos, menos desenvolvimento


Acaba de ser divulgado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT) o estudo abordando a relação entre impostos pagos e retorno ao cidadão. Em uma lista de trinta países, envolvendo desenvolvidos e emergentes, o Brasil ficou em último lugar pelo segundo ano consecutivo, atrás de vizinhos como Uruguai e Argentina. É a velha história que faz o país permanecer preso ao atoleiro: carga tributária pesadíssima, que cresce a cada ano, e serviços públicos de péssima qualidade. Uma contradição impensável para uma nação que deseja alcançar metas de desenvolvimento minimamente palpáveis.
Segundo os dados do IBPT, os impostos, taxas e contribuições cobrados no Brasil representam 35,13% do Produto Interno Bruto (PIB). Já o índice de retorno, calculado a partir de um cruzamento entre o PIB e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da Organização das Nações Unidas (ONU), é o mais baixo, 135,83. A Austrália, que aparece em primeiro no ranking, cobra 25,9% em carga tributária, mas tem índice de retorno de 164,18. Há países onde o peso do imposto é maior, como a Noruega (42,8% do PIB), Reino Unido (36%) e Alemanha (36,7%), mas que dão maior retorno ao cidadão. “O Brasil, com arrecadação altíssima e péssimo retorno desses valores à população em serviços como segurança, educação e saúde, fica atrás, inclusive, de países da América do Sul, como Uruguai, na 13ª posição e Argentina, na 16ª colocação”, afirma o presidente executivo do IBPT, João Eloi Olenike. Cabe ainda salientar que o contribuinte brasileiro não sabe o quanto paga em impostos quando adquire um produto, ao contrário de outros países, nos quais a alíquota do imposto é discriminada separadamente na nota fiscal. É curioso que aqui muita gente nem mesmo peça a nota fiscal, ademais, a prática da transparência é um antípoda dos governos autoritários, como o nosso.
Os ingênuos, que ficaram extasiados com o fato do Brasil ter se tornado a sexta economia do mundo, são facilmente cooptados pela propaganda governamental que lhes impede de enxergar o óbvio, ou seja, o PIB não indica absolutamente nada sobre o desenvolvimento humano de um país, o que fica uma vez mais provado no caso brasileiro pelo estudo do IBPT. Estatólatras contumazes, os adesistas do governo, bem representados por figuras como as dos senhores Paulo Moreira Leite e Marcio Pochmann, incapazes de estabelecer a diferença entre meritocracia e darwinismo social, se deleitam com a farra da gastança pública que impera no país. Travestido eufemisticamente de “transferência de renda”, o assistencialismo populista instalado na esfera federal pelo petismo é uma política que vai claramente na contramão do desenvolvimento, de vez que seus efeitos mais evidentes são a obstaculização do setor produtivo, do empreendedorismo e a diminuição da renda líquida do contribuinte. Ainda que o assistencialismo ofereça um socorro imediato para os mais pobres, não promove desenvolvimento humano a longo prazo, pois não consiste num programa gerador de igualdade de oportunidades. Eis aqui outra diferença de fundamental importância que os dirigentes políticos do país, a maior parte deles ainda a rezar pela cartilha do marxismo, não sabem identificar, a saber, aquela que existe entre igualdade de oportunidades e de resultados. As nações desenvolvidas reconheceram há pelo menos meio século que é a igualdade de oportunidades, pautada sobretudo em investimento na educação de qualidade, que gera desenvolvimento. Enquanto isso, no Brasil, impregnado pelo estatismo petista, perdura a crença retrógrada de que é o Estado o responsável único por desenvolver uma nação.
O governo brasileiro, cada vez mais assolado pela corrupção e por grupos de interesse, gasta muito mal as cifras substanciais que o contribuinte lhe paga. Quem mais sofre é a classe média, que mais produz e cujos salários se tornam quase sempre defasados em função da tributação tão pesada. Quando necessita de um serviço público, o mesmo é praticamente uma quimera, daí ter que se recorrer à educação e saúde privadas, serviços, estes sim, pelos quais o governo deveria primar.
Enquanto a lógica assistencialista e o financiamento dos grupos de interesse ligados ao governo, atualmente representados principalmente por grandes empreiteiros, ávidos pelo repasto proporcionado por Copa do Mundo e Olimpíadas, não for rompido, o Brasil continuará padecendo da contradição que emperra qualquer possibilidade de desenvolvimento. A mudança de tal quadro lastimável passa fundamentalmente pela reforma tributária, mas antes dessa solução pontual, a mentalidade estatólatra do brasileiro requer uma guinada em direção ao liberalismo, do contrário, com a manutenção da atual classe política anti-liberal, nenhum de seus representantes estará disposto a abrir mão do butim obtido às expensas da classe média.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A construção da liberdade


O argumento do livre-arbítrio é sempre um dos mais utilizados quando se quer defender a existência divina. De acordo com essa ideia, o ser humano é livre para decidir entre o bem e o mal, o certo e o errado, juízos que dependem da presença ou da ausência de fé. Assim, o que determina que as escolhas sejam corretas é o simples endosso de Deus, isto é, a crença na entidade divina encaminha para o bem, o seu contrário, a descrença, implica em decisões equivocadas. É uma noção extremamente pobre de liberdade, pois admite que as escolhas sejam puras, independentes de qualquer fator baseado na existência concreta das pessoas, como se a metafísica que envolve as questões de fé pudesse varrer por completo todos os condicionamentos que se impõem sobre nós e que tornam as escolhas bem mais complexas do que leva a pensar o tema do livre arbítrio. Nesse argumento não há espaço para entender a liberdade como um processo interior de construção, pois ser livre não vai além da dualidade ter ou não ter fé, algo que vem antes da interioridade e dela não se diferencia.
Dentre tantas indagações relacionadas com esta discussão, seria pertinente, por exemplo, perguntar porque Hitler conseguiu chegar ao poder na Alemanha. Certamente, a opção pelo totalitarismo nazista obedeceu a uma série de fatores coligados com a experiêcia coletiva e individual dos alemães que em nada pode ser reduzida a decisões advindas da crença em Deus, ou então, estaríamos forçados a concluir que uma boa parte da sociedade alemã se desviou dos caminhos da fé e, devido a isso, fez a escolha errada. Não seria mais prudente que Deus não nos permitisse a hipótese de negar a fé, impossibilitando escolhas de consequências trágicas?
Nietzsche proclamou a morte de Deus e foi tocado por uma certa percepção ao constatar que as escolhas não dependem de uma moral estabelecida teologicamente, mas sim da vontade humana. O ato volitivo, concreto e permeado de condicionamentos tanto de longo prazo, tais quais a bagagem genética, a história de vida, o contexto sociocultural e as próprias ideias, inclusive religiosas, como também os de médio e curto prazo, aqueles emanados do discurso, da propaganda e da influência da persuasão, elementos que podem contribuir acentuadamente com a mudança dos nossos próprios pontos de vista, é crucial na determinação das escolhas humanas. Ao observar que essas mesmas escolhas dependem de fatores advindos da existência e da experiência, Nietzsche no entanto, não prosseguiu em suas especulações e foi incapaz de apontar aquilo que origina e direciona a volição para um ou outro caminho. Ao eleger a vontade como princípio norteador e dar a ela poder absoluto, o filósofo de Röcken promoveu a eliminação não apenas da moral religiosa, mas da própria moral filosófica como propiciadora de conhecimento do eu interior. Estava cortado o nó górdio de um estilo de pensamento destrutivo, que aprisiona o indivíduo aos desejos impulsivos, sem fornecer antídoto ao conflito permanente com a realidade, que inevitavelmente é o fruto colhido por quem não se impõe mecanismos internos de controle. Trata-se, não por mero acaso, de um problema que atormenta enorme contingente de pessoas na pós-modernidade. Da mesma maneira que descartar a vida e a experiência, característica inerente ao argumento do livre arbítrio, não faz restar lugar para o conhecimento, proclamar a vontade como se ela não demandasse antes um tête à tête do homem com o mundo que o cerca, acarreta em irresponsabilidade face às escolhas, muitas vezes impossibilitadas de serem entendidas como escolhas.
O que a moral cristã enuncia adotando um conceito metafísico de liberdade, externo ao eu, somente oferecido ao indivíduo como graça divina, sem portanto conferir autonomia cognitiva, e que Nietzsche desmistifica sem o substituir por uma ideia capaz de lidar responsavelmente com a experiência e com a realidade, é exatamente o que o humanismo consegue propor de forma concreta e plenamente realizável. Se é certo que nossas escolhas são determinadas pela vontade, é preciso descobrir porque essa vontade age de modos diferentes e leva também a consequências múltiplas. Em última istância, ela é regida pela imaginação, cujo âmbito envolve percepção, discriminação e concepção, os três processos fundamentais da imaginação racional, sóbria e compenetrada, único entendimento que permite ao indivíduo conhecer sua interioridade e estar capacitado a construir a liberdade, que não pode ser outra coisa senão o autocontrole, o frein vital. Ser livre é conceber nosso lugar no universo, reconhecer nossos defeitos e limitações, exercer nossos direitos e deveres respeitando as criaturas que compartilham conosco a vida neste cosmos. É ainda renunciar aos desejos expansivos e destrutivos, tarefa só alcancável se estivermos sempre dispostos a buscar o conhecimento de nossa interioridade, conhecimento este que é também o princípio da felicidade, uma vez que é aquele que nos faz testemunhar nossos próprios atos, sem aferição externa e, portanto, base da ética. Não existe liberdade antes do conhecimento, tampouco volição que deva permanecer isenta do dever de autocontrole.
O  grande crítico e historiador Aby Warburg afirmou que Deus está no particular, ideia que posso aceitar perfeitamente se com isso se fizer entender que o ser humano possui uma interioridade na qual indícios podem e devem ser buscados por meio do conhecimento, até que se atinja uma imaginação completa e o exercício do autocontrole. É possível que essa capacidade tenha nos sido dada como graça divina, mas a partir daí, não cabe esperar que Deus seja sujeito do conhecimento e da liberdade que cabe a nós construir e realizar nessa vida e nesse universo. Para finalizar, nada mais cabível do que a máxima de André Comte-Sponville, segundo a qual ninguém nasce livre, torna-se livre.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Santo uma ova


Nelson Rodrigues costumava dizer que toda unanimidade é burra, ideia com a qual não concordo incondicionalmente, mas que se encaixa bem em diversas situações. Ao contrário do que possa parecer, o goleiro Marcos, que nesta semana anunciou sua aposentadoria, não é a unanimidade que o senso comum faz transparecer. Sei de jornalistas que, quando estiveram sob holofotes, elogiaram Marcos, mas que em off mantinham opinião contrária. Conheci por meio de redes sociais alguns palestrinos de senso crítico apurado cuja apreciação a respeito de Marcos sempre foi das mais negativas. Ainda assim, devido àquilo que as pessoas são levadas a pensar por osmose, não há dúvida de que Marcos é uma figura bem vista por nove entre dez torcedores de futebol, não somente palmeirenses, mas também por fãs de outras equipes, inclusive torcedores dos maiores rivais. Dessa forma, em termos práticos, o ex-goleiro pode ser considerado uma unanimidade. Uma unanimidade burra.
Marcos passou a ocupar o gol alviverde em 1999, quando o até então titular Velloso sofreu uma grave contusão na mão. Pouco depois, foi figura de fundamental importância na eliminação do arquirrival incolor nas quartas de final da Libertadores, fechando o gol no segundo jogo e defendendo, na decisão por pênaltis, a cobrança de Vampeta. O Palmeiras se sagraria campeão sulamericano naquele ano. Começava a ser erigido o mito de São Marcos.
Ainda em 1999, no mundial de clubes no Japão, Marcos protagonizou a falha grotesca que acabou ajudando o Manchester United a derrotar o alviverde, tendo este que amargar o vice. Aquela foi a primeira de inúmeras presepadas que marcaram a carreira de Marcos, mas desde então, a maioria dos palmeirenses já estava disposta a conceder crédito infinito ao goleiro. Até o fim de sua carreira, nada mudou - de maneira rápida o caipira piadista de fala mansa e contador de “causos” conquistou o coração de muitos palestrinos que invariavelmente passaram a lhe dar o beneplácito.
No ano 2000 novamente o Palmeiras encarou seu mais odiado adversário na Libertadores, desta feita, nas semifinais. O escrete incolor era melhor no papel mas, heroicamente, o alviverde se superou e, após dois jogos, se repetiria a decisão por pênaltis. Marcos defendeu a cobrança derradeira do detestável Marcelinho Carioca, classificando o Palmeiras para a final. Foi a glória para a torcida palestrina, eliminar os marginais tendo um time inferior e às custas do jogador mais detestado do adversário, fato mais do que suficiente para alçar Marcos à condição definitiva de santo imaculado. É evidente que meus agradecimentos a Marcos por um desempenho tão importante e memorável contra o rival de Itaquera serão eternos, de coração. Embora entre os dois jogos de Libertadores mencionados tenha havido a falha do Japão, Marcos não deve ser crucificado se levarmos em conta apenas seu início de carreira, pelo contrário, já que ele foi louvável nesses momentos. Enquanto jovem, foi um guarda-metas de agilidade altamente significativa.
O goleiro recém-aposentado ainda brilharia em outras ocasiões de sua carreira, como nas Libertadores de 2001 contra São Caetano e Cruzeiro e de 2009, contra o Sport, - ele costumava se dar bem no torneio continental, sobretudo nas decisões por pênaltis - em jogos pontuais de outras competições e na Copa do Mundo de 2002, - como algumas pessoas sabem, desejo mais é que a selenike se dane, a despeito de eu ter torcido por certos nomes que compuseram o grupo de 2002, inclusive o próprio Marcos - quando foi, no meu entendimento, o melhor arqueiro do mundial.
Se Marcos brilhou, e isso é algo que não se pode negar, houve também não poucas lambanças que, no mínimo, precisariam ser lembradas, mas que sempre passaram incólumes na mente de muitos palmeirenses, esquecidas ou diminuídas por detrás da carapuça de santo. A ideia do Marcos imaculado se construiu praticamente devido a dois jogos, muito pouco, convenhamos, para uma carreira de cerca de vinte anos, ainda que dois jogos de suma importância. Dois também é o número de títulos que Marcos ganhou pelo Palmeiras como titular, igualmente um número baixo, mesmo que ele não tenha culpa pelo clube ter se transformado na bagunça que suga sua grandeza há mais de uma década. Com o tempo e com as lesões repetidas, algumas delas devidas a um certo descuido, Marcos se tornou cada vez mais um goleiro pesado, lento e com reflexo defasado, o que lhe custou um amplo cardápio de presepadas. Em várias ocasiões passou a nítida impressão de ter entrado em campo sem ter condições de atuar de acordo com o que se espera de um atleta profissional do Palmeiras, o que prejudicou o time. Será que isso é ter amor ao clube?
Além das quatro linhas a postura de Marcos também se revelou bastante inadequada. Quantas não foram as entrevistas que ele concedeu fazendo chacota dos insucessos do Palmeiras? E sempre os bobos de plantão alisando a careca de seu ídolo: “ah, é o jeito dele, o cara é boa praça!” De minha parte, devo ressaltar que não tenho a menor paciência com atitudes sonsas. Não consigo ver graça em derrotas e não forneço indulto a piadas ridículas. O jeito falsamente bonachão de Marcos que o fez se tornar autoindulgente e se colocar acima do Palmeiras gerou também situações constrangedoras em relação ao ambiente entre o elenco, isso porque sempre que o time colhia algum insucesso acentuado, ele se manifestava aos quatro ventos e para quem quisesse escutar, se eximindo de culpa e metralhando companheiros. Ora, por que não fazer isso internamente, apenas? Será mesmo que Marcos teve o amor a camisa que tanto lhe atribuíram? “Ah, ele recusou oferta milionária do Arsenal!” Não tenho certeza nenhuma disso, pois viajou para fazer exames médicos e assinar com o time inglês, depois voltou alegando a recusa. Por que não recusou logo de cara?
Marcos não está entre os cinquenta maiores jogadores da história do Palmeiras, quiçá nem entre os cem. Quem o coloca como maior ídolo alviverde profere tal absurdo sem possuir conhecimento mínimo a respeito do passado do clube, deixando ao limbo nomes muito mais honoráveis, como Bianco, Heitor Marcelino, Primo, Forte, Lara, Tuffy, Avelino, Junqueira, Imparato, Echevarrieta, Oberdan, Del Nero, Lima, Liminha, Og Moreira, Waldemar Fiúme, Procópio, Rodrigues, Humberto Tozzi, Djalma Santos, Valdir, Jair da Rosa Pinto, Tupãzinho, Vavá, Geraldo Scotto, Julio Botelho, Chinesinho, Romeiro, Mazzola, Zequinha, Servílio, Ademar Pantera, Leão, Leivinha, Edu Bala, Ronaldo, César, Nei, Luís Pereira, Dudu, Jorge Mendonça, César Sampaio, Mazinho, Evair, Zinho, Rivaldo e Alex. Nem é preciso citar Ademir da Guia, totalmente óbvio. O torcedor que adora Marcos acima do Palmeiras é aquele que se acostumou com os fracassos dos últimos tempos, aquele que não tem a correta dimensão do apequenamento que o clube vem sofrendo de 2000 para cá e que tem parcela de culpa sobre o atual estado de coisas. Marcos já está aposentado não é de agora, mas há uns cinco ou seis anos, só faltava ele próprio e os torcedores iludidos enxergarem. O ex-goleiro perdeu várias oportunidades de pendurar as luvas em momentos nos quais seu currículo ainda não havia sofrido tantas manchas, mas preferiu ser teimoso. Azar o dele... e também do Palmeiras. Foi tarde.
É fundamental valorizar os verdadeiros ídolos do passado palestrino, aqueles que vestiram com competência o manto esmeraldino e ajudaram a compor a história mais rica que um clube pode ter. Todavia, hoje o mais urgente para o Palmeiras é a necessidade de correr rápido atrás da grandeza que se desgarra cada vez mais em função de péssimas administrações e do endeusamento exagerado de um jogador que cometeu vacilos grandiosos. Avanti Palestra!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

À memória de Daniel Piza


O jornalismo cultural brasileiro está de luto. Inexorável, o destino abreviou a vida de Daniel Piza, aos 41 anos. A notícia trágica pegou de surpresa a todos que acompanhavam o trabalho deste brilhante intelectual, sobretudo por meio da leitura de sua coluna dominical no Estado de São Paulo.
É bem difícil aceitar que um jovem como ele, no auge de sua produção, com tantas contribuições ainda a oferecer aos quadros do pensamento no Brasil, país carente de alta cultura, tenha que partir e deixar órfãos àqueles que bebiam na fonte de suas excelentes reflexões. Muito do que escrevo neste blog vem da influência de Piza, de sua escrita fluída e contundente, de seu liberalismo progressista, de sua defesa do capitalismo, bem como das críticas mais do que justas à política brasileira e a seu governo atual. Ele deplorava também irracionalidades atestadas pelo culto exagerado ao corpo, pelo consumismo narcisista e patológico e pelas superstições religiosas. Costumava afirmar que hoje em dia muitas pessoas preferem acreditar naquilo que não tem evidência alguma do que na pesquisa e na ciência. Piza se mostrava como um iconoclasta do pesadelo pós-moderno ao qual boa parte da sociedade atual foi levada devido à inversão de valores e à picaretagem de pretensos pensadores.
Os leitores que frequentavam assiduamente as reflexões de Piza sabem que a lacuna deixada por ele é bastante vasta. Não há hoje na imprensa alguém que saiba tanto e sobre tanta coisa como ele, que exponha com a mesma verve e clareza assuntos que deviam ser do interesse geral, temas polêmicos e uma argumentação precisa em favor da cultura de qualidade, da ética e de valores que cada vez mais se perdem.
“Uma lágrima”, era o que Piza escrevia quando prestava homenagem a alguma personalidade merecedora de destaque. Para ele, não deixo apenas uma lágrima, mas várias. Caberá a todos que creem nas ideias e na cultura como único caminho que vale a pena percorrer na tentativa de atenuar as imperfeições humanas, fazer com que o rico pensamento de Piza permaneça sempre vivo. Descanse em paz.