terça-feira, 31 de janeiro de 2012

São Paulo aniversariou. Comemorar o que?!


A cidade de São Paulo comemorou 458 anos de fundação na semana passada. Realizaram-se as festividades costumeiras e, nas redes sociais, que têm intermediado uma quantidade assombrosa de relações entre as pessoas, foi comum observar internautas parabenizando a metrópole e postando uma foto com os dizeres “São Paulo é tão agradável que até o inverno resolveu tirar férias por aqui”, fazendo menção às temperaturas amenas deste verão até o momento. Será que há sentido em oferecer cumprimento de aniversário a uma cidade? O ato se torna ainda mais despropositado na medida em que é feito em meio virtual. Não seria exatamente porque a São Paulo dos dias de hoje quase não proporciona harmonização com seus habitantes? Como deixar de suspeitar que tais manifestações ocorrem somente como retrato claro de alienação, impertinência ou mero modismo virtual descoladinho?
O paulistano atento e dotado de senso crítico, aquele que faz questão de possuir cidadania e que sente por ter de viver em uma cidade de ares distantes, pouco aprazível e sufocante como São Paulo, não encontra motivos para homenageá-la. Trânsito caótico, transporte público deficiente, faixas ciclísticas enxertadas artificialmente que prejudicam a circulação até aos domingos, sujeira nas ruas, mato crescido nas praças e canteiros de ruas e avenidas, escassez de áreas verdes, enchentes, filas intermináveis, flanelinhas e um centro histórico abandonado e degradado perfazem as características mais visíveis da pauliceia desvairada.
A questão que envolve o centro é crucial para entender os descaminhos tomados por São Paulo nos últimos 60 anos, visto que uma cidade cujo centro histórico se tornou repulsivo ao cidadão só pode ser uma cidade sem alma. Os cafés de rua, os monumentos públicos e as tantas atrações culturais, bem como os passeios ajardinados, elementos ainda fortemente presentes em todas as grandes cidades europeias e até em algumas da América do Norte e da Oceania, são essenciais para que ocorra harmonização entre o habitante e o local onde ele vive, elementos que convidam o cidadão a frequentar uma cidade, a ser parte dela como sujeito que compõe a paisagem urbana e como predicado que usufrui dos benefícios que ela oferece. A tradição do flaneur, cara a autores como Flaubert, Baudelaire e Proust fica totalmente impossibilitada de ser posta em prática em uma cidade como a São Paulo de hoje, na qual o centro histórico foi paulatinamente esquecido.
Quando São Paulo começou a crescer de maneira mais intensa, por volta de 1960, as autoridades não se preocuparam em estabelecer qualquer planejamento urbano, falha grave que a situação atual do centro histórico faz ser bem visível. Não houve lei de zoneamento que exigisse manutenção de fachadas, que proibisse construções fora de padrão arquitetônico, abertura de certos tipos de comércio e ocupação irregular, tampouco foram colocadas regras para a circulação de veículos e manutenção paisagística. Vez por outra, ao longo de todo esse tempo, foram tentadas algumas medidas de revitalização, porém, sem elaboração, sem método, sem serem acompanhadas de legislação e sem continuidade. Hoje, a gestão de Gilberto Kassab, um prefeito que parece nunca ter ouvido falar em políticas públicas de urbanização, apenas faz acentuar o completo desinteresse pelo centro histórico. Se temos edificações históricas em razoável estado de conservação, como o Pátio do Colégio, o Palácio de Justiça, a Catedral da Sé e o Martinelli, o entorno desses locais sofre com o descaso, bastando passar pela Praça da República, pelo Viaduto do Chá ou pelo Largo do Arouche para notar o abandono. O governo Alckmin, trapalhão e ainda mais impopular do que sempre fora, promoveu a desocupação da chamada Cracolândia, mas de forma atropelada, sem direcionamento, resultado de uma ação atrasada que deveria ter sido levada a cabo há uma década, pelo mesmo partido do atual governador, que comanda o estado desde 1995. Como consequência de terem deixado o problema se agigantar, outras cracolândias estão surgindo em pontos diversos da cidade após o desmantelamento da original.
Alguém poderia lembrar que apesar de tamanhos problemas São Paulo possui um bom roteiro cultural e sobretudo gastronômico. De certo modo, não é uma ideia errada, mas também nesse aspecto as dificuldades de deslocamento e os transtornos com estacionamento acabam por prejudicar o pouco que a cidade tem a oferecer. Diante disso, não há o que comemorar no aniversário da maior metrópole do país, sendo que as manifestações efusivas por parte de muitos habitantes não podem ser pensadas como outra coisa senão sinal de masoquismo, desatenção, apego telúrico, pieguice sentimentalóide ou modismo.

PS: Quem é que está ligando para cultura, flaneurismo ou centro histórico, não é mesmo? O carnaval vem aí e tudo é festa... Teremos até mesmo o "pré-carnaval" da Vila Madalena, prato cheio para bêbados, mijões e bocas de esgoto. Comemore, cidadão!

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