sábado, 4 de fevereiro de 2012

Defensores do indefensável


Todo comunista é um adorador de ditaduras de esquerda, fato que não é segredo, exceto talvez para eles próprios, que se fingem de cordeirinhos, ao menos quando se comunicam com seu público em atos que denotam profunda desonestidade intelectual. O sr. Lúcio de Castro, da ESPN Brasil, é um dos que fazem parte dessa turba, alguém que promove contorcionismos tragicômicos para defender Che Guevara e o regime cubano. Nesta semana ele postou em seu blog no site da emissora um texto confuso e mal escrito, como sempre, na tentativa de desmascarar a dissidente Yoani Sánchez. Ao próprio texto, segue-se uma entrevista dada por Sánchez ao jornalista francês Salim Lamrani, cuja grafia correta do nome nem mesmo foi checada por Lúcio, que escreve “Lanrani”.
De acordo com Lúcio, as críticas de Sánchez à ditadura castrista e à violação dos direitos humanos na ilha são feitas com base nos interesses de Washington, tese que ele pretende corroborar lançando mão da “entrevista” citada. Coloco entre aspas porque as perguntas (muitas vezes não chegam a ser perguntas, mas sim afirmações peremptórias) de Lamrani dirigidas à Sanchez mais se parecem com indagações de um inquisidor, que lhe permitem concluir o que deseja de antemão. Algo do tipo não pode ser qualificado de entrevista, apreciação que, como historiador, Lúcio não poderia omitir, (ou então ele jamais ouviu falar a respeito do clássico ensaio de Carlo Ginzburg: O inquisidor como antropólogo) além do que, existem dúvidas quanto à autenticidade das respostas dadas por Sánchez, isto é, existe a hipótese de que Lamrani as tenha editado, o que ainda precisa ser devidamente esclarecido.
Amparando-se na duvidosa “entrevista” de Lamrani, Lúcio vai ao cúmulo do absurdo na defesa de Cuba, apontando as surradas estatísticas sobre educação e saúde no país. Eu perguntaria a ele e aos defensores da ditadura cubana qual é a função da educação em um regime autoritário; serve para que os estudantes se tornem críticos e conscientes? Se os jovens cubanos passam bastante tempo dentro das escolas, este é um índice negativo, já que eles estão sob doutrinação por mais tempo! Quanto às estatísticas relativas à saúde, no mínimo cabe manter um pé atrás em relação aos dados fornecidos pela ditadura, (por que Fidel Castro se tratou com médicos espanhois?) sem deixar de salientar as suspeitas de que Cuba possa apresentar o maior índice de abortos do mundo, o que reduziria artificialmente a mortalidade infantil, uma vez que os abortos não são computados. Todas as comparações entre os indicadores cubanos que têm por objetivo limpar a barra do país são claramente obtusos: compara-se Cuba com outras ditaduras e republiquetas da América Latina, (inclusive o Brasil, cujo governo do PT é defendido pela maioria dos adoradores de Cuba, uma contradição se se deseja afirmar que a ilha tem índices melhores do que os daqui) muitas delas governadas, pasmem, por regimes de esquerda, o que nem assim autoriza uma interpretação positiva dos indicadores! A comparação com nações desenvolvidas não é normalmente realizada, uma vez que revelaria o desastre da ilha de modo ainda mais gritante, mesmo com a Europa mergulhada em crise. Fica outra pergunta bem simples acaso haja insistência em ver os risíveis índices cubanos com bons olhos: é preciso que uma nação possua um regime dos mais autoritários, que dura mais de cinquenta anos, com direito a perseguições políticas, prisões arbitrárias, tortura e paredón para que alcance status em indicadores sociais? É claro que não, nem se fossem índices bons! A comparação isenta é aquela que for feita entre Cuba e países livres e de alto IDH, coisa que passa longe de quem acredita que o castrismo é benéfico para os cubanos.
É muito curiosa a afirmação de Lúcio, apoiada na “entrevista” de Lamrani, ousando passar a ideia de que a ditadura cubana não desrespeita direitos humanos mais do que outros países ditos democráticos. Quem pode acreditar numa baboseira destas? Quem pode acreditar que a Anistia Internacional possua dados seguros fornecidos pelo regime castrista a respeito disso? Quem pode acreditar que a Anistia Internacional tenha livre trânsito em território cubano? É como supor que pessoas minimamente inteligentes não saibam como funcionam as distorções da verdade em uma ditadura. Gente que defende ditaduras precisa entender que não existe nenhum lugar do mundo no qual as garantias de não-violação dos direitos humanos sejam de 100%, contudo, é necessário analisar se casos de violação são investigados, julgados e sentenciados, processo que obviamente não ocorre em um país como Cuba, já que o próprio governo ditatorial é o agente das violações.
De acordo com Lúcio, tudo que se conhece a respeito do regime castrista é invenção dos EUA e da “mídia ocidental”. É de se pensar, sendo assim, que deveríamos crer na “mídia oriental” da Coreia do Norte, da China, do Irã ou da Síria. Ou então, quem sabe, (?) na “mídia ocidental isenta” representada por Caros Amigos, Carta Capital, Hora do Povo e, logicamente no próprio sr. Lúcio de Castro, fazendo força para esquecer que ele atua na ESPN Brasil... Estranha Revolução Cubana, enaltecida em seus sujeitos vistos como heróis pelos amantes da ditadura, mas tão vulnerável às armações e sabotagens do inimigo imperial... Ao invés das parcas teorias conspiratórias que somente enxergam os sujeitos históricos quando é conveniente, não seria o caso dos defensores do indefensável finalmente admitirem que o desastre de Cuba é o resultado inexorável da falência a que o comunismo conduz? Significativo, de igual modo, e indo contra todas as ideias castristas, não apenas as dos irmãos ditadores, mas igualmente do sr. Lúcio... de CASTRO, é o trecho que pode ser lido no site da Anistia Internacional: “as autoridades cubanas continuam a restringir severamente a liberdade de expressão, associação, reunião de dissidentes políticos, jornalistas e ativistas de direitos humanos; dissidentes, jornalistas e ativistas de direitos humanos estão sujeitos a prisão domiciliar arbitrária e outras restrições que têm o objetivo de impedi-los de exercer atividades legítimas e pacíficas; além disso, o governo cubano está negando a autorização de saída como uma medida punitiva contra os críticos e dissidentes do governo". Num dos comentários no blog de Lúcio enviado por um ativista da Anistia Internacional, lê-se também: “o articulista [Lúcio de Castro] menciona nossa organização, Anistia Internacional, cuja posição sobre Cuba tem sido às vezes mal entendida; nós sempre reconhecemos que as violações aos DH na ilha foram, pelo menos em parte, deflagradas pelo estado de permanente tensão que se vive no território, submetido a uma bloqueio como não sofreu nenhum outro país na história, e alvo de milhares de atentados terroristas; também acreditamos que a maioria dos países da América Latina, salvo Costa Rica e alguns outros, violam os direitos humanos numa proporção maior à de Cuba; entretanto, não pensamos que este critério comparativo possa se usar para caracterizar as violações existentes em Cuba como simples invenções dos inimigos, aliás, qualquer violação aos DH deve ser criticada, inclusive em países ultrademocráticos; no caso de Yoani Sánchez, pessoalmente não digo que esteja bem intencionada, nem que atua por espírito libertário, simplesmente, creio que qualquer pessoa tem direito de expressão”.
O bloqueio que os EUA promove sobre Cuba é outro argumento do sr. Lúcio de Castro na tentativa de justificar as mazelas da ilha. Sou contra o bloqueio, pois ele tem servido apenas para dar munição ao castrismo e fazer sofrer não os mandatários da ditadura, protegidos pelo aparato repressivo estatal e no frescor de seus gabinetes acarpetados, mas a população miserável nas ruas de Cuba. Por outro lado, se do alto da soberba comunista a ilha “rompeu” com o lixo capitalista norteamericano, por que precisaria dele para se dar bem? O sr. Lúcio de Castro deveria se lamentar pelo fim da URSS, país que sustentava a ditadura castrista até o momento em que caiu na vala do atraso e se extinguiu, destino inerente ao comunismo.
Depois de todo o exposto acima que, confesso, é coisa sabida por qualquer um dotado de discernimento, ao contrário do sr. Lúcio de Castro, capaz de admitir que é preciso se “despir dos preconceitos” ao mesmo tempo que vocifera contra tudo aquilo que está fora do seu estreito pensamento ideológico, é engraçado que não tenha havido ninguém para alertá-lo sobre o fato já manjado de que Sánchez seja alvo de suspeita por críticos da ditadura cubana, o que faria dela não um agente de Washignton, mas uma opositora chapa branca de Havana, hipótese que pouparia nosso jornalista da ESPN Brasil de seus contorcionismos típicos. O passado de Sánchez é pouco conhecido, ela vive bem para padrões cubanos e critica Cuba mesmo estando lá, coisas de se estranhar quando se considera um regime que mantém tamanha quantidade de presos políticos. Convenhamos, apesar de pop e, talvez por isso mesmo, ela não é a melhor autoridade para escancarar os males da ditadura cubana, tampouco o sr. Lamrani é alguém com créditos suficientes para defender o castrismo. Lúcio já deve ter houvido falar em intelectuais como Enrique Krauze, Mario Vargas Llosa e Guillermo Cabrera Infante ou dissidentes como José Daniel Ferrer, Elizardo Sánchez, Guillermo Fariña Hernandez e Orlando Zapata Tamayo. O que teria ele a dizer, então, sobre José Saramago, comunista histórico que antes de morrer teve a hombridade de repudiar o regime castrista? Esse sim é um time que tem conhecimento de causa, como coloca o sr. Lúcio, para nos legar retratos fiéis a respeito de Cuba.
Nessa história toda, o que está em jogo acima de tudo é o respeito à liberdade e à dignidade das pessoas. As preferências ideológicas dificilmente escapam aos preconceitos que precisam ser eliminados, segundo o próprio sr. Lúcio de Castro, daí ser inconcebível sair em defesa de uma ditadura, seja ela a cubana ou qualquer outra, seja de esquerda ou de direita. Todas são condenáveis. Atualmente, fica bastante claro que nove entre dez comunistas jamais leram Marx de modo que vá pouco além do superficial. Defendem o comunismo, mas se aferram ao aparato estatal, defendem, ao mesmo tempo, a liberação sexual e o moralismo religioso islâmico extremista, são a favor de minorias, mas também de ditaduras que as sufocam. Não perceberam até hoje que podem se posicionar politicamente sem cair em contradições ideológicas absurdas, fruto da religião laicizada que é o marxismo. Lúcio de Castro trabalha na ESPN Brasil e é pago por ela, um veículo da “mídia ocidental” que ele execra e julga ser mentirosa. Seus meios de ação, portanto, são financiados por quem ele ataca, por uma emissora que, para citar apenas dois exemplos, possui direitos de transmissão da NBA e da NFL, cujos anunciantes são empresas capitalistas. Para ser menos incoerente na defesa do indefensável, se é que isso seja possível, ele deveria ir viver na Havana que adora e pleitear um cargo no repressivo governo castrista. Que tal, sr. Lúcio?

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