sábado, 11 de fevereiro de 2012

A escolha moral que envolve a alimentação


Os sistemas socioeconômicos, em última análise, são abstrações, conceituação importante, mas esquecida pela maioria dos indivíduos. Isso porque quem determina os moldes concretos e os caminhos que a sociedade toma - e hoje seria corretíssimo pensar em termos de humanidade - são as pessoas, por meio de sua imaginação e das escolhas morais. É altamente necessário, de acordo com todos os grandes filósofos, ter uma diretriz capaz de reger a existência pessoal.
Talvez nada seja tão fácil de encontrar hoje em dia como aqueles que são antiamericanos e se põem contra o capitalismo. Muitos desses, ao mesmo tempo, são adeptos do Big Mac e consomem frequentemente montanhas de carne, mais ou menos o equivalente a 260 animais inteiros no período de um ano. A meu ver, o domínio das grandes corporações e os subsídios que tomaram o lugar da competitividade e do empreendedorismo, situação observável em países como EUA, China, Rússia ou Brasil, estão muito mais relacionados com o socialismo do que com o velho capitalismo puritano estudado por Max Weber. A nomenclatura mais comum para designar essa atual configuração econômica tem sido “capitalismo de estado”, porém, pouco importa a atribuição do nome. Hoje não vou escrever diretamente a respeito de economia política, meu objetivo é propor uma reflexão sobre as implicações que as escolhas pessoais têm com relação a uma extensa série de fatores que, em maior ou menor grau, interferem nos caminhos citados no primeiro parágrafo.
Hoje em dia nos EUA, 99% da carne consumida, considerando aves, porcos, bois e até peixes, provêm de criações industriais. Para quem ainda não sabe, esse tipo de criação, envolve o pior trato possível dos animais, submetidos a confinamento (não é confinamento num cercado, mas sim em espaços exíguos, similares a uma folha de papel A4 no caso das aves, ou a um cubículo de 1,5m X 1,5m para porcos; bois têm espaço um pouco maior, todavia, proporcionalmente também irrisório), regimes artificiais de engorda, antibióticos dados como alimento e técnicas de abate que pressupõem, muitas vezes, escaldamento vivo, para ficar em apenas um único exemplo. Fora dos EUA, por aproximação, é possível estimar com pouca margem de erro que algo em torno de 80% da carne consumida seja fruto de criações industriais. Isso tudo sem mencionar os danos ambientais (pense por instantes para aonde vão os excrementos dessa imensa quantidade de animais criados industrialmente) e os prejuízos econômicos de médio e longo prazo gerados pela pecuária industrial. A produção de alimentos a custos baixos, que muitas vezes serve de argumento para justificar tal tipo de prática é uma falácia, basta imaginar os milhões de hectares utilizados para plantio de soja e milho destinados não ao consumo humano, - que requereria uma área de 12 a 30 vezes menor - mas para o fabrico de ração animal. Além da questão do espaço, produzir 1 quilo de carne custa mais caro do que produzir 1 quilo da imensa maioria dos outros alimentos, até porque os animais precisam eles próprios de comida. Daí conclui-se que a pecuária industrial, apesar do lucro imediato que gera para os donos de corporações do setor, está na direção contrária à produção de alimentos mais baratos e da suplantação da fome. Num futuro não muito distante é um problema que afetará aos próprios pecuaristas. 
Não para por aí, podendo colocar-se outros aspectos: a China tem hoje aproximadamente 1,3 bilhões de habitantes e o consumo de carne no país aumentou acentuadamente nas últimas duas décadas e meia, já na África Subsaariana e nos países mais pobres da Ásia e da América Latina, 9 a cada 10 habitantes raramente consomem carne, ao passo que mais de 80% do solo agricultável dessas nações é tomado por culturas de grãos para exportação. Vale lembrar que no Brasil, um dos grandes celeiros agrícolas mundiais, menos de 5% da soja plantada se destina ao consumo humano. Como se vê, a lógica da pecuária industrial é indubitavelmente insustentável e, se nada mudar em breve, ela levará a um definitivo colapso socioeconômico planetário.
Há aqueles que ainda não raciocinaram de maneira suficientemente capaz de responder negativamente à pergunta crucial: "eu preciso realmente comer carne"? Se o paladar, que é a última fronteira do consumo de cadáveres, não pode se dobrar a implicações que vão da economia, passam pela ecologia e chegam até a moral e a ética, então é certo admitir, no mínimo, que o erro de consumir carne é um erro deliberado (muito já escrevi aqui abordando o combate que todo ser humano deve obrigatoriamente travar com a realidade se quiser alcançar a verdadeira liberdade). Nesse caso, quem foge à realidade são exatamente todos aqueles que não conseguem prescindir da carne.
A “carne orgânica” não é a resposta certa para o dilema moral aqui exposto. Na prática, ela é algo que não existe ou não pode existir permanentemente. As criações tradicionais compõem hoje em dia não mais do que cerca de 10% da produção pecuária mundial, quadro que se encontra assim justamente em virtude da demanda por carne, ou seja, é o consumo de carne como hábito alimentar cada vez mais difundido que levou ao predomínio das criações industriais. É possível optar por reduzir o consumo de carne, o que abriria novamente espaço para a pecuária tradicional, mas duvido que as corporações se manteriam produzindo menos e tendo mais despesas. Com o poder que possuem, arrumariam um jeito de virar o jogo novamente. Além disso, a pecuária tradicional não pode abolir a matança, o que faz voltar a pergunta crucial. Poderia-se vislumbrar um aumento das criações tradicionais sem que as industriais deixassem de existir, mas então teríamos outros questionamentos: os rótulos indicariam a procedência da carne?; e os matadouros? A esse segundo já é possível responder: praticamente só existem matadouros de larga escala, tanto para animais provindos de criações industriais, como de criações “orgânicas”, os mesmos que operam com base na morte em larga escala, cujos sistemas de abate mutilam seres vivos conscientes e os escaldam ainda vivos. A pergunta crucial sempre volta: você precisa realmente comer carne? Carne, no mínimo (e coloco esse "no mínimo" por ter que levar em conta os argumentos econômicos), implica em matança, constatação mais importante em termos éticos.
O caminho que o cadáver que se encontra em seu prato fez até que ali tenha chegado, quando ele aparentemente não é mais do que um pedaço de alimento, já está mais do que claro, juntamente com todas as atrocidades que envolve. Ninguém mais pode ficar indiferente à relação de extrema violência inerente ao hábito de comer carne, muito pior do que qualquer guerra da história humana. Fingir não saber não livra os animais do sofrimento intenso pelo qual passam até se transformarem em pedaços de cadáver dos quais você se alimenta. Escolher o que comer e o que não comer é uma escolha moral, que depende de uma imaginação moral, dilema que só pode ser individual e interior e que, obviamente, tem suas consequências. Não há como se furtar a essa escolha e, quando alguém pensa, consciente ou inconscientemente em não ter que refletir e fazer escolhas a respeito de sua alimentação, é porque não pode suportar o combate do eu interior com a realidade e, em consequência, não pode ser livre.

*PS: O que redigi aqui é, evidentemente, apenas uma pincelada sobre o assunto. Obras como O que há de errado em comer animais, de Didi Ananda Mitra ou o clássico Comer animais, de Jonathan Safran Foer devem ser lidas. Tomei ambas, e as pesquisas extensas que apresentam, além do site da Sociedade Vegetariana Brasileira (cujo link se encontra no lado esquerdo do blog),como base para os dados estatísticos que constam do artigo.

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