terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Memórias antipetistas


Quando eu era criança, escutava em casa conversas sobre o esquerdismo em geral e o PT especificamente que, àquela altura, já representava o leitmotiv da esquerda no Brasil. É claro que, sendo bastante novo, eu ainda não podia, nem de longe, estabelecer um quadro explicativo definitivo a respeito da questão. De todo modo, aquilo jamais deixou de fazer parte dos meus pensamentos, o que foi de utilidade cabal para meu futuro. Nos anos subsequentes, o mundo assistiu ao colapso da URSS e, antecipando as frias - e a-históricas - previsões de Francis Fukuyama, comentadores diversos davam como certo que não só um regime político e econômico localizado no tempo e no espaço havia ruído, mas também a ideia central que lhe servia como pedra de toque. Aquilo soava como uma constatação perigosamente simples: governos que se fiavam em premissas falhas, mais cedo ou mais tarde encontrariam seu fim, o que é correto, mas o que garantiria que as diretrizes teóricas terminariam junto?
Na escola, eu sempre me deparava com análises que pintavam quadro contrário ao que havia sido proclamado quase como um elemento do senso comum. Ao invés de consolidarem o sepultamento do comunismo, professores e livros didáticos promoviam descrições altamente enaltecedoras do pensamento de Marx e da doutrina por ele teorizada, ao passo que todas as mazelas do mundo eram colocadas na conta do capitalismo. Havia nisso, no mínimo, uma grande contradição.
Constantemente, eu me punha a comparar o que ouvia - e continuava ouvindo - desde criança com o mote que caracterizava o ensino escolar. Nesse momento, eu já era adolescente e possuía instrumental um pouco mais desenvolvido mas, mesmo assim, criava-se uma confusão em minha mente. Alguém havia errado, ou foram as pessoas que me transmitiram a educação no sentido moral do termo e cuja formação se deu em tempos nos quais o ensino, amplamente entendido, era muito melhor no Brasil, ou o equívoco estava bem ali, diante de mim, materializado em meus professores e nos livros didáticos que utilizávamos. Períodos de inquietação nos quais indaguei a mim mesmo se havia possibilidade de haver acerto em uma teoria que prega a violência e a eliminação de setores da sociedade, a completa submissão do indivíduo ao Estado e à marcha de uma história pré-estabelecida, além de inúmeras contradições internas, foram incontáveis. Moral e filosoficamente, porém, cada vez mais eu me aproximava da certeza de que não existia a mínima chance daquilo estar correto.
No Brasil da década de 1990, a social-democracia triunfou e logrou grande êxito ao colocar a economia do país no rumo certo, o que garantiu a FHC duas vitórias seguidas na corrida presidencial, ainda assim, no âmbito da cultura, a propaganda comunista se tornou ainda mais intensa na virada para o século XXI (já escrevi a respeito aqui: http://aristaire.blogspot.co.id/2012/10/pt-e-psdb-iguais-no-discurso-diferentes.html). No curso pré-vestibular e na faculdade de História, me deparei não só com o enaltecimento das ideias de Marx e com a demonização do capitalismo, mas com discursos absolutamente panfletários e enfurecidos a favor do esquerdismo. Em tais ambientes, como em uma pequena amostra da sociedade comunista, - o que ficou ainda mais nítido para mim - o patrulhamento ideológico e a completa eliminação do dissenso dão a tônica. Tanto o desconhecimento, como o corte seletivo de tudo aquilo que reduz Marx a pó são comuns nessas cátedras do pensamento único, o que obrigatoriamente leva os discordantes a terem que percorrer um trajeto completamente diferente (e cem por cento confidencial) daquele que é ditado. Internamente, eu continuava confrontando o esquerdismo com o que havia aprendido desde tempos àquela altura já remotos, somando a isso novos conhecimentos adquiridos em buscas autônomas por autores e ideias que se opunham às de Marx. Foi bastante interessante ter notado que os próprios esquerdistas, embora suas práticas os desmentissem, não usavam com recorrência o termo "comunismo", a não ser de maneira romantizada, tampouco admitiam que os retumbantes fracassos do comunismo fossem decorrentes das falhas desse paradigma. Também curioso era observar que aqueles que não se julgavam alinhados com Marx se revelavam incapazes de propor uma crítica contundente ao esquerdismo, deficiência visível sempre que, de acordo com esses, a denúncia aberta do comunismo era uma "paranoia", "coisa de quem ainda não sabia que o Muro de Berlim havia caído há muito". Sem sabê-lo, os não-marxistas davam combustível à esquerda, que havia ressuscitado Gramsci e descoberto que a melhor e mais eficaz tática para a tomada completa do poder se faz nos recônditos do sistema, no sequestro paulatino das mentes, por meio da destruição da cultura, do sistema de ensino e da ocupação de espaço nas diversas esferas da sociedade. Ficou óbvio para mim que a estratégia comunista, uma vez desmascarada sua perfídia, batia perfeitamente com as descrições que tive na infância e com os pensamentos dos autores que, em parte por sorte, em parte por impulso próprio, pude tomar contato. O próprio ambiente o qual eu frequentava, contribuía ainda mais para concluir que não bastava a queda de um regime no tempo-espaço, fato comum na história, mas que a verdadeira força que move os homens, para o mal, inclusive, está no imaginário, no campo das ideias e mentalidades. O comunismo não só não estava morto, como aumentava sua força a cada dia.
Na campanha presidencial de 2002 o PT adaptou o discurso às circunstâncias e à conjuntura a fim de conquistar o apoio de parcelas da sociedade que até então eram indiferentes às suas bandeiras, mas a essência não havia mudado, pelo contrário, era a mesma de qualquer partido de esquerda. Para aqueles que haviam se debruçado sobre a história das ideias políticas, os mesmos que em mais de duas décadas de existência do PT - àquela altura - sempre se dispuseram à árdua e importante tarefa de desnudar as verdadeiras intenções de tal grupamento político, era evidente que a chegada de Lula à presidência da República acarretaria consequências gravíssimas para o futuro da nação. Iludida pela maciça propaganda cultural de esquerda, inebriada pela retórica da "justiça social" e do anticapitalismo, grande parte da população brasileira, a despeito dos avisos, deu a vitória para o líder sindical. Leal ao falso clima de "daqui para a frente o país encontrará o caminho da justiça e da prosperidade", espécie de redenção milagrosa que por isso mesmo já faz denotar seu caráter frágil e vazio, boa parte da imprensa e muitos analistas tolos saudaram a eleição da nefasta figura de Lula, como se seu passado parasítico, sua retórica enfadonha e suas ideias horrorosas não existissem. O que valia é que ele era um "homem do povo", "alguém que, por ter supostamente vivido certas agruras, conhecia os males a serem curados e os remédios certos para fazer alcançar o paraíso"... Para os que não foram ouvidos, os que realmente sempre estiveram certos, a questão ia muito além do tempo curto dos atos políticos cotidianos, pois o alicerce do monstro que havia sido imprudentemente libertado repousava na própria natureza da ideia, tocava em temas morais, filosóficos e respondia pela história e pelas tentativas de aplicação de uma teoria que, invariavelmente, conduziu à tragédia. O PT não se degenerou, o PT é uma aberração política e filosófica desde sua essência, desde seu surgimento.
A situação que estamos vivendo no Brasil de hoje não me surpreende, não me causa espanto, pelo contrário, é o resultado inexorável do comunismo, - sistema que não produz outra coisa senão a desigualdade política, facilmente observável em função do enfraquecimento da sociedade civil diante dos poderes corruptos e cada vez mais autoritários do Estado e do aparelhamento das instituições - a miséria econômica, escancarada nos mais diversos indicadores, e a falência da moral e da ética, comprovada pelo domínio da incultura e pela ausência de valores que perpassa vastos segmentos populacionais, independentemente de fatores como classe ou origem étnica.
O Mensalão foi o sinal que deveria ter sido suficiente para que a sociedade brasileira acordasse diante da besta que lhe tomava de assalto, todavia, as armas da propaganda, do assistencialismo e a própria cultura sequestrada pela estratégia gramsciana se mostraram mais fortes do que qualquer evidência, por mais explícita que fosse. Como tão bem mostrou Czeslaw Milosz, mentes cativas não são facilmente recuperadas. Foram concedidos mais beneplácitos ao petismo e o que tivemos depois disso, os tantos outros escândalos e crimes cometidos contra o cidadão e contra as instituições, fazem parte do mesmo objetivo, isto é, a perpetuação no poder e sua concentração cada vez mais intensa nas mãos da organização criminosa. Ao invés de cortar o mal pela raiz sem lhe dar chance de sobrevivência, preferiu-se o método do sangramento lento, escolha de quem jamais conheceu a essência do esquerdismo ou de quem considerava positivo mantê-lo vivo...
Se, como discuti aqui (http://aristaire.blogspot.in/2015/10/um-partido-em-migalhas.html), o caos ao qual fomos conduzidos pelo PT ora se mostra de modo tão escancarado que já não é possível negá-lo sem cair no extremo do ridículo ou sem que rapidamente se revelem interesses escusos por parte de quem nega, fez com que crescesse o antagonismo, com contingentes populacionais que já não mais veem paranoia na acusação de comunismo contra o partido da presidência, a ação demandada na luta a que somos chamados ainda se mostra muitíssimo abaixo do necessário. O impeachment, momentaneamente enfraquecido por um STF aparelhado e caído de joelhos frente ao poder emanado do arcabouço de poder petista, caso se confirme, poderá ter importante significado simbólico, fazendo com que mais gente abra os olhos, tanto para a situação do país, como para a compreensão da verdadeira natureza maléfica do petismo e do esquerdismo, mas não será suficiente para reverter o quadro de apodrecimento institucional, nem para sanar a máquina pública dos vermes que dela se apoderaram de maneira estrutural. Para que o Brasil passe a percorrer a trilha do capitalismo liberal e do governo republicano, será necessário muito mais...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Giotto di Bondone e o demônio: um retorno ao paradigma indiciário


1. No ano de 1986, o historiador Carlo Ginzburg provocou frisson com seu ensaio "Sinais: Raízes de um paradigma indiciário". Desde então, a temática levantada pelo texto e pela própria obra do autor, na qual ele sempre usa a micro história como suporte, tem sido debatida em suas implicações teóricas, que são riquíssimas e de enorme abrangência. Por outro lado, no entanto, pesquisas historiográficas baseadas em tal arcabouço teórico parecem não ter tido, ao longo desse tempo todo, tanta recorrência, proporcional ao alarido trazido pela reflexão quando a mesma veio à tona, apesar de nomes importantes como Robert Darnton, Natalie Zemon Davies ou Giovanni Levi, que se não são discípulos de Ginzburg, no mínimo, abriram com ele vários caminhos de interlocução. De qualquer maneira, em linhas gerais, o que se observa ainda hoje é o predomínio de explicações tributárias das causas gerais, dos "processos históricos", entendendo-se essa expressão quando associada com quadros esquemáticos estruturais, sem conceder lugar para o que não se enquadra nos moldes preestabelecidos que invariavelmente acompanham tal linha de pensamento. Ainda que a micro história, em última análise, tenha sua busca voltada para a tipicidade, o "X" da questão é: onde podemos encontrá-la?

2. O que tenho em mente é levantar uma bola. Quem estará disposto a chutá-la com um mínimo de direção? Tomemos um dos afrescos de Giotto pintados na Basílica Superior de Assis (Itália), aquele que narra a vigésima cena da vida de São Francisco (imagem acima). É sabido que em 2011, Chiara Frugoni, historiadora e italiana como Ginzburg, descobriu um detalhe, um pormenor revelador que ficara oculto por oitos século na pintura de Giotto. Trata-se da face em perfil de um demônio, cujas feições se caracterizam pelo sarcasmo e pelo sorriso levemente irônico (imagem abaixo). Feita a descoberta, quem se dispõe a observar o afresco com atenção durante alguns segundos, nota que o detalhe foi incluído por Giotto nas nuvens bem ao centro da obra, estando o demônio do lado direito delas.


Por que o artista teria pintado esse pormenor de modo a deixá-lo implícito? Por que o teria feito aproveitando-se das nuvens? Não é segredo o fato de que, como pré-renascentista, Giotto lançasse mão de códigos figurativos em suas pinturas, tanto que essa estratégia foi largamente utilizada por pintores que o sucederam, como Botticelli, Da Vinci e Sanzio. Além de serem portadoras de mensagens, nem sempre aceitas pelo dogma católico, se pensarmos na teoria crítica da Arte proposta por homens como Aby Warburg e Ernst Gombrich, nos depararemos com reflexões a respeito dos vínculos entre forma e função na arte.

3. O efeito estético de uma obra de arte é dado pela técnica do artista, empregada de acordo com a escola à qual ele pertence e também com suas intenções. A busca por originalidade, embora não se relacione a princípio com questões estéticas do ponto de vista morfológico, pode se aproximar do tema à medida em que um artista procura dar seu toque pessoal à obra. Falsários são figuras comuns ao longo da história e seria interessante perguntar se algum deles, antes da descoberta de Frugoni, por acaso percebeu o demônio no afresco de Giotto. Quem possuir, por exemplo, um souvenir não muito recente de Assis, especialmente uma reprodução impressa da Vigésima Cena..., poderá tentar observar se o pormenor consta da cópia. É muitíssimo provável que não.
Para retomar Warburg, Gombrich e Ginzburg, o que define a marca de um mestre da arte não são seus caracteres gerais, seus padrões, mas o detalhe, o pormenor que, estando oculto, uma vez descoberto, traz revelações e indagações. Constatar uma falsificação, na melhor tradição que remonta a Lorenzo Valla e passa por Conan Doyle, se dá no nível dos detalhes. Para o artista, é uma forma de originalidade e de auto proteção contra os falsários, para um médico, um caminho profícuo na tentativa de curar doenças, ao invés de apenas eliminar sintomas, para um investigador, a chave que pode desvendar um crime, para os historiadores, uma maneira das mais sugestivas no objetivo de teorizar os exemplos que a história fornece e propor caminhos de compreensão acerca do passado e do presente. Esse é o paradigma indiciário, no qual nada é dado a priori, sendo necessário criar um trabalho de composição e imaginação criativa por parte do historiador. É como montar um quebra cabeça em que as peças parecem não manter conexão entre si.

4. As explicações para a presença do detalhe demoníaco no afresco de Giotto são várias: é possível que a criatura - ou sua figuração - represente um desafio post mortem para Francisco, ou seja, afastar o demônio seria abrir o caminho dos céus, não apenas a ele mesmo, mas também a seus discípulos e devotos que passaram a orar em seu nome. Essa ideia se coaduna com a disposição geral dos elementos no afresco, mas a representação pode prestar referência a algo além da criatura em si, estabelecendo uma relação com os chamados Estigmas de São Francisco: o homem simples que amou seus irmãos para além dos pecados e defeitos dos seres humanos, mas cuja fé e retidão são capazes de aplacar o Mal. São interpretações iniciais que ainda carecem de rigor científico e que futuramente poderão, através de pesquisas, trazer contribuições importantes.
Resta ainda, entretanto, uma discussão que invade o terreno da Antropologia e da Psicologia: coloquei acima como pergunta o fato da figura demoníaca ter sido representada nas nuvens. De início, parece uma banalidade, já que o demônio poderia estar em qualquer ponto do afresco sem que isso implicasse em mudanças no que foi fruto de reflexão até aqui. É banal só aparentemente..., não nos esqueçamos do pormenor que revela e, mais do que isso, levanta indagações...

5. Quem, quando criança, ou mesmo depois, jamais olhou para as nuvens no céu e tentou lhes atribuir alguma forma reconhecida? Certamente, todos já o fizeram e como se trata de um exercício simples e inocente, totalmente espontâneo, pode-se supor que transcenda tempo e espaço. Além disso, sabendo-se que observar o céu é uma prática remota, comum em sociedades chamadas tradicionais, a tese se reforça e assume um caráter bastante abrangente, vinculado a formas de religiosidade, xamãs e funcionamento da mente.
Ao longo da história, encontramos representações as mais diversas nas quais não apenas as nuvens em si marcam presença, como aparecem associadas a alguma forma (figuras seguintes).

Vincent Van Gogh - Noite Estrelada (1889). Nuvens em espiral. A mente do pintor holandês sempre esteve envolta em mistérios. Hoje, suscita estudos na Física e na Matemática, além da Psicologia.


Capa do álbum Brave New World - Iron Maiden (2000). Eddie toma forma a partir das nuvens na ilustração de Steve Stone e Derek Riggs.

Podemos pensar em duas ideias: a primeira delas é que, por serem efemérides em termos de duração e impermanentes em sua própria forma, além de, evidentemente, remeterem ao elemento celestial, o ser humano, inconscientemente, busca reconhecê-las por meio de um filtro capaz de conferir às nuvens alguma similaridade com o terreno, com o material, com o concreto. Dá-se a esse mecanismo mental, já estudado por cientistas como Carl Sagan (que não é exclusivo da associação de coisas reconhecíveis com nuvens), o nome de pareidolia. Apesar de explicar a motivação, ele não esgota a questão que apenas estou pretendendo abrir.
Desse entendimento, deriva o segundo, qual seja aquele que nos faz supor essa quase necessidade de transformar, na esfera do imaginário, massas amorfas de vapor d'água em coisas reconhecíveis, como um arquétipo.
Nessa aparente reviravolta, reencontramos Giotto em outro sentido além do contextual e do artístico e invadimos a esfera das ciências da mente. De um jeito ou de outro, não abandonamos a busca do pormenor revelador. Os segredos estão nos indícios.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Um partido em migalhas



A História em migalhas é o título de um importante livro do historiador francês François Dosse. Ainda que o autor tenha certa dose de razão, haja vista que algumas pesquisas historiográficas empreendidas no último quartel do século XX pecam por seu caráter excessivamente idiossincrático e pela ausência de relações minimamente importantes com quadros sociais mais amplos, sempre desconfiei bastante das explicações baseadas nas ditas "causas gerais" e das teorias holísticas, sobretudo o marxismo, embutidas na reflexão de Dosse. Como nos atesta a boa micro-história, detalhes aparentemente secundários, de uma hora para outra podem passar a ocupar o centro do palco nas tramas do tempo, além do que, permitem observar as situações que se interpõem perante os sujeitos a partir de perspectivas até então negligenciadas, quase sempre de modo profícuo. O estudo dos pormenores se apresenta, então, como bom instrumento teórico para a análise do passado, mas também de conjunturas recentes. Tanto no que concerne às causas gerais como aos detalhes aparentemente ínfimos, o que se segue tem a ver com esse parágrafo inicial.
Migalhas, no sentido de "coisa pouca", é o que hoje mantém a sustentação de um certo partido no poder... . O Partido dos Trabalhadores surgiu no cenário da política brasileira portando ideias e discursos que, se em 1979 já representavam um grande equívoco, mesmo assim caíram bem (como grande embuste) no contexto de um país em vias de egresso da ditadura militar e já sem que a maior parte da população nutrisse apreço pela alta cultura, resultado da ocupação de espaço esquerdista em todos os níveis educacionais. As diretrizes políticas e a estrutura discursiva, apesar de se assentarem em falsas premissas, encontraram força no apelo à "justiça social", à ética inabalável e à administração "progressista". O que se chama de "canto de sereia" na sociologia política é um desses pormenores reveladores que conferiram elã ao PT e a tantos outros partidos de esquerda, hoje satélites daquele. Esse arcabouço foi mantido praticamente intacto até não muito tempo, embora com mudanças sutis usadas estrategicamente em momentos eleitorais, e o escamoteio deliberado dos detalhes reveladores de sua real natureza deram quatro mandatos presidenciais seguidos aos petistas. No plano cultural em geral, na grande imprensa e no sistema educacional, bem antes mesmo de tomar o poder federal, contando com a desatenção de uma população manipulada e incapaz de se libertar do politicamente correto e do zeitgeist anticapitalista, a esquerda deitou raízes no Brasil.
Todo esse sistema de poder erguido cuidadosamente em âmbito cultural, político  e social obedeceu a uma lógica totalizante e coerente do ponto de vista de sua estrutura interna. Funcionou bem, como todos sabem, mas agora se encontra esgotado. As promessas idílicas, típicas de qualquer discurso esquerdista, nada mais do que jogos de palavras cujo objetivo final é a própria tomada de poder em detrimento das liberdades individuais, se revelaram tremenda falácia, como não poderia deixar de ser. Somem-se à implosão do paradigma central os desastres adjacentes de um governo centralizador e comunista: distribuição de favores no interior da máquina pública e seu aparelhamento, corrupção sistêmica elevada a modus operandi, gastos crescentes e incessantes, baixa produtividade, economia em declínio franco e constante, inflação, recessão, falência completa da educação e dos serviços de saúde, e o quadro se completa. Mas por que, mesmo dando impressão clara de que tudo é apenas questão de tempo, o PT ainda se permanece no poder? Quem pode pensar em democracia diante de tal panorama? Voltemos às migalhas...
A cultura, que traz consigo um evidente componente moral, é algo cuja mudança se insere na longa duração e a alteração completa de nossa organização política só viria depois daquela. Pensar que o país dependa de temporalidade lenta para que mudanças aconteçam é desanimador, mas é possível que estejamos, ao menos, no fim de um ciclo conjuntural de média duração, porém, isso dependerá, em boa medida, das escolhas que fizermos... A esquerda que hoje está no poder se sustenta de modo tênue, presa em excrescências politicamente corretas, bandeiras de minorias sedentas dos favores estatais. Um partido cujas diretrizes se dissolveram por completo, até por serem falsas, sobrevive distribuindo migalhas para quem levanta ideias fragmentárias, também elas, no fim das contas, migalhas... Universitários e acadêmicos ainda crentes no ranço marxista, "movimentos sociais" e sindicatos bancados pelo dinheiro do contribuinte, gayzistas, feministas e afins. Esses grupelhos, evidentemente, não carregam projeto algum de sociedade, até porque sua ordenação é fragmentária, segregacionista e sua pretensão futura é o fim da própria sociedade, como procurei discutir, de certa forma, no artigo anterior. A análise da história nos revela que esses movimentos, invariavelmente, tiveram o totalitarismo como resultado, fazendo com que aquilo mesmo que sempre defenderam se tornasse algo impraticável em regimes que não podem existir sem o controle máximo dos indivíduos e a intensa centralização política nas mãos do Estado. O terror, a vigilância, as arbitrariedades, as perseguições e execuções são características inerentes de todos os sistemas criadores de nichos que subdividem o corpo social, colocando uns contra os outros de modo extremamente severo e aflorando ódios que culminam em guerra civil e na posterior consolidação, por tempo indeterminado, de um líder que se autoproclama o justiceiro de todos os males sobre a Terra. Isso lhe soa familiar?
Observar esse microcosmo que faz a esquerda se sustentar tem viés duplo: positivamente, nos leva a crer que, sem uma política coesa em termos de sociedade, qualquer organização partidária está fadada ao fracasso, algo que já tem sido notado claramente, já que o apoio restrito de grupos atomizados foi só o que restou ao PT, com a imensa maioria do corpo social estando na oposição; por outro lado, o problema pode ser muito maior em função da fraqueza da sociedade diante de um Estado semi-totalitário e da situação das instituições, corrompidas, aparelhadas e envoltas nos joguetes de poder, reflexo do próprio sistema instaurado pelo petismo. Essa ainda é sua característica mais forte.
Ao cidadão de bem, restam alguns meios de ação e, se levarmos em conta a máxima de Edmund Burke, é com extrema urgência que os bons necessitam agir para que o mal não triunfe. Fica mais difícil conforme o tempo passa, pois os inimigos da sociedade tornam seu poder mais independente e autocentrado à medida em que vão exterminando as forças livres. É hora de pressão intensa contra o (des)governo petista! Vamos ficar só assistindo passivamente?

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O gayzismo é totalitário (para quem ainda não sabe)


Diante da histeria cada vez mais exacerbada em certos setores da sociedade brasileira, notadamente entre aqueles que difundem e/ou seguem ideias de esquerda, não é de se estranhar que as pessoas alheias ao mais rasteiro senso comum sejam sumariamente acusadas com os adjetivos da moda proferidos por figuras como Jean Wyllys, sujeito que, caso vivesse em um país sério e cuja política, corroída pela ocupação de espaço gramsciana, fosse algo além dos joguetes de poder e das negociatas fisiológicas, - sintoma do estatismo que ele próprio defende - não seria reconhecido nem mesmo por participar de um péssimo programa do tipo reality show.
Sim, como liberal da linhagem humanista à la Irving Babbitt, sou de direita, pois acredito que a responsabilidade individual e os princípios de moralidade universais, atentos à essência humana ao invés da demasiada importância dada a determinismos culturais, geográficos, fenotípicos ou de gênero, são os elementos a partir dos quais se pode pensar na totalidade de um indivíduo. Portanto, ser liberal vai na contramão de ideias racistas e homofóbicas.
O que pode haver de mais importante em um ser humano, seus valores, sua ética, sua retidão, suas ações baseadas em princípios que devem ser válidos em qualquer tempo-espaço ou meros recortes parciais, muitos dos quais, incluída aí a própria homossexualidade, não dependem do poder de escolha individual e nem deveriam interferir nas condutas que norteiam sua atuação como sujeitos em âmbito individual e coletivo? A resposta é óbvia, exceto para aqueles que necessitam construir sistemas de interesse pautados pelo ódio fratricida e que exploram supostas fraquezas, erigidas como tal a partir do pensamento politicamente correto, uma máscara por trás da qual se revela a sanha de poder e o egoísmo psicótico. Trata-se de uma estratégia totalitária utilizada na tentativa de compensar recalques e promover vingança difusa, fruto de sofrimentos causados por algum agente que partia dos mesmos ditames sectaristas que agora, igualmente, alimentam os pretensos instauradores da "justiça social" e do "paraíso terrestre", sem que este tenha lugar para os que não compartilham da mesma visão, evidentemente...
A orientação sexual de uma pessoa, seja fruto de escolha deliberada ou um dado da natureza em relação ao qual haja ausência de poder de decisão - pouco importa - não é algo que define a essência dessa mesma pessoa. Aquilo que diz respeito sobretudo à alçada íntima, que direciona, mais do que qualquer outra coisa, o que o indivíduo faz entre quatro paredes, não indica nada a respeito de sua moralidade. É por isso, inclusive, que existem sujeitos heterossexuais imorais, bem como homossexuais que agem com base na diferenciação entre o certo e o errado. Preferências sexuais não podem ser utilizadas como parâmetro de moralidade e a legislação não deve servir a causas específicas deste ou daquele grupo - leis servem para normatizar e promover ajustes entre as pessoas em geral, única e exclusivamente com base em suas condutas como cidadãos.
É muito justo, nesse sentido, que casais homossexuais tenham os mesmos direitos civis que os heteros. O que ninguém deveria tolerar, seja qual for a orientação sexual, é a conotação de "movimento social" assumida pela causa LGBT, como se houvesse uma guerra entre homos e heteros. Quando uma questão social é tratada a partir de meios que sugerem enfrentamento entre grupos, com um deles sendo adjetivado sordidamente, desqualificado como retrógrado e como obstáculo a uma pretensa marcha histórica que requer eliminá-lo sob pena de não se atingir o progresso de toda a humanidade, então o que se deseja é o caos revolucionário alimentado pelo ódio e pela vingança, o poder político que se sustenta a partir do medo e da criação de bodes expiatórios. É exatamente esse tipo de discurso que sai da boca de Wyllys, ajudado por inúmeros inocentes úteis, ingenuamente crentes de que o que está em questão se resume aos seus direitos (sem que os mesmos reconheçam deveres), enredados pela trama do jogo de poder revolucionário que, uma vez vitorioso, não lhes daria a menor chance de escolha e de atuação individual, pois servem tão somente como massa de manobra totalitária, como grupo amorfo a serviço de arranjos políticos cuja estrutura se organiza em franco antagonismo às liberdades individuais.
Os próceres do gayzismo, ávidos por aglutinar pessoas humanas em torno de uma causa, retirando-lhes a capacidade de agir com base em princípios de universalidade, independentes da orientação sexual, mas condizentes com a defesa da liberdade individual, são eles, na verdade, os fascistas enrustidos, aproveitadores que precisam eliminar a diversidade em nome de um movimento criado com finalidades políticas totalitárias. Nada contra os gays e simpatizantes, tudo contra os gayzistas!

sábado, 3 de outubro de 2015

Patrimônio imaterial e populismo no Brasil (1)


Dada a riqueza e diversidade culturais que fazem parte do Brasil, facilmente, pode-se afirmar que o patrimônio cultural do país está espalhado por todo seu território. Os monumentos históricos, os sítios arqueológicos, os museus e bibliotecas se fazem presentes nos quatro cantos do Brasil, seja em áreas mais próximas ao litoral, seja em locais situados na imensidão do interior.
No entanto, é preciso considerar que o conceito de patrimônio sofreu uma ampliação a partir de meados do século XX, passando a abarcar não apenas os bens materiais, mas também as manifestações imateriais (teatro, música, dança, ritos, culinária...), e os conhecimentos que dão suporte a tais práticas, ou seja, o chamado patrimônio imaterial(2). Dessa perspectiva, o patrimônio cultural não se restringe somente àquilo que foi oficialmente definido como sendo dotado de valor histórico ou artístico (uma igreja do Período Colonial ou uma moeda cunhada em comemoração à Proclamação da República, por exemplo), pois vai além, abrangendo ainda as apropriações coletivas e individuais, testemunhos da memória e da história de um povo e das inúmeras comunidades que o compõem.
De acordo com tais apontamentos, e já procurando responder ao primeiro questionamento proposto, é correto pensar que o patrimônio cultural, não só o do Brasil, mas o de qualquer país ou sociedade, está em todos os lugares, mas mais do que isso, no cotidiano das gentes, no seu saber-fazer, em todas as manifestações artísticas e ritualísticas que trazem embutidos seus sentimentos, seus costumes, sua memória, sua identidade, sua pertença, enfim, sua história. Um patrimônio, cuja marca principal, por assim dizer, é a diversidade cultural.
Ninguém poderá negar a extrema importância da ampliação do conceito de patrimônio e do reconhecimento da imaterialidade como um dado sem o qual o assunto permaneceria incompleto e incapaz de atingir o cerne de inúmeras manifestações culturais que tecem a rica trama do cotidiano das sociedades. Não sei exatamente como outros países têm tratado a questão, embora seja perceptível que no mundo desenvolvido, o cuidado em relação aos monumentos históricos, bem como a valorização, em todos os sentidos, no que se refere a museus e outras instituições culturais, são intensos. Reconhecer a existência do patrimônio imaterial e estabelecer mecanismos que possam contribuir com sua preservação não implica, evidentemente, em esquecer o patrimônio material. Em função de várias experiências que já tive no Brasil e depois de fazer a leitura de Educação patrimonial: histórico, conceitos e processos (3), fica a impressão de que tudo que não se encaixa dentro de uma certa visão populista é logo relegado ao status de "atraso conservador".
Quem percorre nosso país de norte a sul e de leste a oeste, infelizmente, se depara com inúmeros monumentos e construções históricas abandonadas e sujeitas ao vandalismo. Falta pessoal para fiscalizar, falta estrutura que possa fazer do turismo uma atividade rentável e sustentável, falta educação para tornar o patrimônio reconhecido e valorizado, não apenas, em termos imediatos, porque ele mantém relações com esta ou aquela comunidade, mas porque, em âmbito mais geral, é obra do espírito humano, porque carrega valores que de alguma forma condensam aspirações estéticas, históricas, religiosas... As pinturas rupestres da serra catarinense, que pouquíssimos conhecem e cuja divulgação e preservação dependem de um punhado de abnegados, ou o complexo de estátuas e esculturas barrocas de Bom Jesus de Matosinhos, muitas delas vandalizadas pelo turismo massificado e pela ausência de cuidados, são apenas dois exemplos que atestam o descaso com o patrimônio brasileiro.
Educação patrimonial: histórico, conceitos e processos (4), em muitos momentos, soa como mera e descarada propaganda governamental. Em nome de um apego populista ao comunitário, ao local, ao regional, não sobra praticamente nada a respeito do patrimônio material. Ainda que as políticas governamentais alcançassem sucesso quanto à preservação do patrimônio imaterial (o que seria extremamente louvável, mas que na prática só tem revelado a ineficiência burocrática do Estado brasileiro – quantas comissões, quantos comitês, quantos órgãos, quantos seminários e oficinas... ?), nem assim se justificaria a negligência no que concerne à necessidade de preservação dos bens materiais, como se esse aspecto já estivesse plenamente resolvido e como se nossos monumentos recebessem a mesma atenção e cuidado que se verifica em Pompeia ou em Paris.
Para finalizar, dois apontamentos: em primeiro lugar, é preciso romper com o culturalismo pós-moderno, que confunde funcionalidade com valor, e segundo o qual, tudo o que existe em termos de cultura, apenas por existir, merece beneplácito (nesse sentido, touradas são abjetas e execráveis por sua crueldade e sofrimento imputado a seres vivos, bem como a música funk atual não tem valor cultural nenhum, já que não traz nada positivo no que se refere à estética ou aos valores que cultua); e por falar em funk, não deixa de ser um paradoxo que tanto apego populista demonstrado por nossas autoridades, venha tendo resultado inverso ao alardeado, ou seja, a cultura popular está cada vez mais tributária de importações estrangeiras, como o próprio funk e o rap, ao passo que alguns regionalismos genuinamente brasileiros caíram no completo esquecimento.
Só posso pensar que estejamos bem distantes da correta preservação de nosso patrimônio...


NOTAS

1. Este texto foi apresentado ao programa de especialização em Museografia e Patrimônio Cultural do Claretiano-Centro Univesitário para a disciplina "Educação Patrimonial e Educação em Museus", sob a tutoria da Profª. Elza Silva Cardoso Soffiatti. A partir das leituras indicadas, deveriam ser respondidas as seguintes questões: "Onde está localizado o patrimônio cultural do Brasil"?; "Como ele está sendo preservado"? Na versão aqui presente, fiz levíssimas modificações.

2. Verbete “Patrimônio” in DESVALLÉES; Andre; MAIRESSE, François. Conceitos-chave de museologiaTradução e comentários de Bruno Brulon e Marília Xavier Cury. São Paulo: Comitê Brasileiro do ICOM / Pinacoteca do Estado de SP / Secretaria de Estado da Cultura, 2013, pp. 73 a 77.

3. FLORÊNCIO, S. R. et al. Educação patrimonial: histórico, conceitos e processos. Brasília, DF: Iphan/DAF/Cogedip/ Ceduc, 2014.

4. Idem, ibid.

sábado, 4 de julho de 2015

Educação e esquerdismo



Uma educação humanista deve estar imbuída, principalmente, da preocupação com a formação do caráter da pessoa humana. Entretanto, tal paradigma educacional está longe de ser a realidade das escolas brasileiras, por dois motivos: primeiro, e em nível mais imediato, em função do viés pragmático e tecno-científico exigido pelos vestibulares que, embora seja uma linha a ser mantida até certo ponto, deveria passar por uma remodelagem considerável nos currículos do Ensino Médio, de modo a equacionar com maior otimização os conteúdos disciplinares com as carreiras profissionais a serem seguidas pelos alunos (ainda que um jovem de 14 ou 15 anos possa não fazer ideia clara de qual profissão seguir, uma orientação sólida traduzida em testes vocacionais bem elaborados é capaz de conferir um norte seguro; a partir de certa idade já é plenamente possível saber se há vocação para ramos mais próximos das Exatas, Humanas ou Biológicas, assim, se o desejo for Biologia, por exemplo, deve estar claro que Química e Física terão que ser estudadas, mas sem grande ênfase em Atomística ou em Eletricidade, do mesmo modo que um aluno que se incline pela Engenharia não necessita estudar as minúcias do Período Regencial, ou seja, tornar o currículo mais enxuto e mais voltado para a área de vocação, seria bastante salutar); em segundo lugar, num âmbito mais relacionado à política, à cultura e ao campo das ideologias, a educação predominante no Brasil, e isso inclui também os vestibulares e o ENEM, pauta-se nos pressupostos do marxismo e do relativismo pós-moderno, este como uma derivação daquele. É nesse segundo ponto que pretendo me deter com mais atenção no que segue abaixo.
É certo que a educação escolar, dependendo daquilo que é estudado e como é estudado em disciplinas tais quais a Filosofia, ou até a História, pode contribuir com uma formação humanista. Ocorre que, para tanto, um aspecto fundamental que serve de base para as preocupações do humanismo a serem complementadas em ambiente escolar é a educação em termos de questões básicas referentes à moral e às regras elementares de convívio social. É com os pais e com os avós que uma criança deve aprender a respeitar o próximo, a ser minimamente polida, a deixar de lado as pulsões egoístas e a não prejudicar os outros em nome de seus próprios desejos. Desde os primeiros dias de vida e durante boa parte da primeira infância os familiares mais próximos carregam a missão de transmitir esses rudimentos que, em conjunto com a carga genética e com o próprio ambiente familiar, ajudarão a sedimentar o substrato do caráter humano. É depois dessa fase, com a educação humanista, que a formação do caráter então se completa. Logicamente, não se trata de uma receita pronta e livre da influência de fatores nem sempre ponderáveis (a escola não abarca a totalidade da vida de um indivíduo, até por isso, os apelos mais sedutores provenientes de todo o lixo cultural que nos cerca e que levam aos descaminhos, têm preponderado como determinante a desorientar jovens e mesmo adultos) e que, por determinadas circunstâncias, podem escapar do controle da família (inclusive, há a possibilidade da família não ser um bom referencial, malefício que tem sido cada vez mais recorrente, daí não surpreender tanto o caos ora instalado), mas é um método que precisa ser seguido, tomado com esforço, carinho e responsabilidade, pois quase sempre influencia fortemente a conformação da pessoa humana. Se uma criança não presta reverência aos familiares mais próximos, muito menos o fará com relação aos professores, sendo que um acompanhamento deficiente ou inexistente dentro do seio familiar, compromete seriamente as pretensões de uma educação humanista.
A grande maioria dos profissionais da educação, inclusive aqueles que seguem posições de esquerda, é categórica em afirmar que a escola não pode transmitir mais do que a escolaridade, isto é, o saber pragmático e tecno-científico ou, de maneira mais fiel ao que de fato ocorre nas salas de aula, uma educação exclusivamente voltada para orientações político-ideológicas tributária do pensamento marxista de Paulo Freire com pitadas de Foucault e afins, cujo objetivo não é outro senão o de formar quadros revolucionários, ou pelo menos simpáticos às causas esquerdistas. Quando se tem claro um panorama como esse, fica fácil entender a hostilidade ferrenha do esquerdismo contra a família e as tentativas de destruí-la, bem como a defesa da tese segundo a qual é de educação, entendida logicamente nos parâmetros de esquerda, que os jovens precisam.
É óbvio que um país que precisa se desenvolver, precisa também de educação de qualidade, não aquela que o esquerdismo quer transmitir. Também é uma evidência afirmar que pessoas já a partir de uma certa idade, ainda na infância e que venham a cometer crimes, devem passar por julgamentos baseados nos saberes jurídicos e psiquiátricos, de modo que, caso fique comprovado o conhecimento de causa, a punição ocorra sem atenuantes fundados na imprecisão dos cortes etários. Um assassino juvenil, um estuprador adolescente, têm que ser retirados do convívio social e permanecer em reclusão o tempo que for preciso para, se houver essa possibilidade, algo igualmente dependente da análise de especialistas, serem soltos quando recuperados, ainda assim mantidos sob acompanhamento. E se for constatada a impossibilidade de recuperação, devem ficar definitivamente presos.
O marxismo, uma filosofia que obviamente não é racional-humanista, mas sim racionalizadora-cientificista, não está preocupado com a formação do caráter da pessoa humana, ao contrário disso, seu objetivo é a luta violenta contra o mercado para a instauração de um regime ditatorial, cujos resultados são a concentração total do poder político e o fim das liberdades individuais. O pós-modernismo, por sua vez, niilista em essência, não reconhece qualquer valor universal de ética e moralidade, tendo como consequência a destruição da civilização. É a educação baseada em tais linhas de pensamento que irá conduzir à diminuição da criminalidade? Como se pode notar, não só a resposta é não, como se tratam de ideias que servem inclusive de incentivo ao crime. Não é por acaso que apesar da universalização de nosso ensino de base, ocorrida há cerca de 15 ou 20 anos, os índices de criminalidade tenham aumentado desde então.
Os que creem na educação como remédio para a construção de uma sociedade próspera, com índices praticamente inexistentes de criminalidade, devem tomar o cuidado de classificar exatamente o tipo de educação que defendem. Se for a educação humanista de matriz liberal, que sejam capazes de lutar para que a mesma, um dia, venha a ser tornar hegemônica, ao mesmo tempo que precisam ter a coragem para rechaçar o discurso pérfido da esquerda, que se serve do caos e da criminalidade como subterfúgios da revolução comunista. O caminho é dos mais difíceis, visto que hoje o Brasil é comandado pelas hostes de esquerda, tanto no âmbito dos poderes institucionais, como na grande sociedade, repleta de milícias esquerdistas sustentadas, muitas vezes com dinheiro público, a serviço de partidos como PSOL, PC do B e do próprio PT. Cabe lembrar, por fim, que mesmo em uma sociedade desenvolvida e na qual a educação for orientada pelos melhores princípios do humanismo liberal, nada garante a inexistência completa de criminalidade: nesse caso, e também naquele que estamos vivenciando hoje, ser a favor de um ambiente penal virtuoso (não essa redução atenuada ao extremo em função do lobby esquerdista e que pouco vai mudar as coisas) tem a ver com punir devidamente as transgressões sem deixar margem para que criminosos ou criminosos em potencial, seja lá de qual idade, se sintam atraídos pela prática do crime por saberem que as punições são brandas ou inexistentes, abrindo espaço, ainda por cima, para o recrutamento facilitado de banidos juvenis. Educação de qualidade e esquerdismo são conceitos antitéticos.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Futebol e sociedade no Brasil


O futebol pertence à esfera dos jogos e do esporte, sendo assim, uma atividade que, em primeiro lugar, deveria servir para fins de diversão, sem ir muito além disso. Comentar a respeito de futebol somente levando em consideração o lado esportivo não tem grande importância, pois é mero passatempo para preencher páginas de jornais ou para alimentar discussões enfadonhas em programas do gênero, mas como esporte mais popular no Brasil, ele resvala em aspectos significativos que perfazem o âmbito social em sentido mais amplo.
No programa Seleção Sportv da última terça-feira (16/06), o economista Sérgio Besserman foi o convidado especial para abordar o tema "futebol e sociedade brasileira". Fugindo de certo modo aos clichês típicos que costumam dar o tom a tais debates, a conversa passou por inúmeros assuntos transversais, inclusive tratando da questão que abarca a atual crise técnica do futebol brasileiro. A princípio, poderia ser uma discussão restrita ao caráter técnico e exclusivamente futebolístico, porém, ela foi tomada de modo um pouco mais aprofundado, desvelando conexões interessantes com o lado sociocultural. Ainda assim, em alguns momentos, fiquei com a impressão de que determinadas ideias, ainda que levadas a termo por especialistas, prontamente se revelaram disparatadas.
Muito se diz que as peladas de rua com "golzinho" de pedra quase não existem mais e, como consequência, dificultam o aparecimento dos garotos habilidosos, praticantes do chamado "futebol moleque", baseado no improviso e na irreverência. Reside nessa análise, a meu ver, um equívoco que, em parte, explica o contexto dos 7x1, ainda vigente após quase um ano do Mineiraço (no último jogo do escrete tupiniquim, atuação pífia e derrota por 1x0 para a Colômbia, que poderia ter feito mais).
É fato que as peladas de rua rarearam bastante em vista da violência, um dado patológico da atual sociedade brasileira, mas também devido a transformações históricas e culturais em relação às quais não cabe nenhum romantismo utópico. Hoje, os jovens passam horas jogando videogame ou navegando na internet, além do que, a maior parte deles vive em centros urbanos médios e grandes que, por diversos aspectos, não combinam com peladas de rua. Não há o que se fazer para mudar esse curso, nem deveria haver preocupação com isso, por outro lado, a construção de centros esportivos nas cidades é uma possível solução que, obviamente, não faz parte das políticas públicas no país. Há mais: nas escolas atuais, a prática esportiva regular e realizada com equipamentos de qualidade é muito mais frequente do que há décadas, até porque a quantidade de alunos matriculados aumentou ao longo do tempo, tendo o ensino de base se tornado universalizado. Se falta identificar os talentos e lhes proporcionar direcionamento, são outros quinhentos, mas não é porque garotos estão jogando bem menos bola na rua que a qualidade do futebol brasileiro escasseou tanto. Na verdade, o buraco é bem mais embaixo, isto é, em pleno século XXI, esporte, em sentido lato, ainda não é visto como cultura no Brasil.
Os grandes jogadores da história do futebol brasileiro, na imensa maioria dos casos, nunca primaram apenas pela habilidade e pelo improviso, ao invés disso, nomes como Leônidas, Zizinho, Ademir de Menezes, Didi, Nilton Santos, Djalma Santos, Pelé, Ademir da Guia, Zico, Falcão ou Rivaldo souberam como aliar disciplina tática, posicionamento, inteligência e domínio magistral dos fundamentos com fatores de ordem natural, como o dom. Acreditar somente em habilidade e improviso é um devaneio simplista, irracionalismo pós-moderno e, cada vez mais, em um futebol que exige perfeito ajuste coletivo, organização tática e versatilidade, pensar o jogo se torna essencial, o que, por sua vez, demanda treinamento e comprometimento. A Europa tem se destacado nesse contexto, bem como seleções sulamericanas de pouca tradição estão conseguindo desenvolver e melhorar substancialmente seu jogo pautando-se em tais parâmetros e conforme muitos de seus jogadores atuam em clubes europeus.
No vôlei, modalidade essencialmente indoor e predominantemente escolar, o Brasil tem obtido excelentes resultados nos últimos trinta anos. Nesse esporte, o treinamento e o apuro tático são pilares, enquanto isso, no futebol, ainda há quem continue batendo na tecla do improviso. Não seria profícuo utilizar conceitos do vôlei no futebol? Treinadores de futebol da base espalhados pelo Brasil, segundo informações dos próprios jogadores e de jornalistas que cobrem o assunto, não dão atenção ao trabalho com fundamentos - detalhe de suma importância que alçou à condição de mestres respeitados homens como Cilinho e Telê Santana -, resumindo-se basicamente à formação de jogadores cujo ponto mais forte é a marcação. A pobreza em termos de estudos e implantação de táticas é notória, bem como o amálgama entre talento individual e os aspectos coletivos que compõem a trama do jogo.
Histórica e sociologicamente, a mentalidade do brasileiro tem uma forte inclinação pela arrogância. No futebol, como em outras atividades, o ufanismo verde e amarelo faz com que muitos ingênuos acreditem que as coisas daqui são melhores, não porque houve esforço, em algum sentido, para que a excelência fosse atingida, mas em função de privilégios místicos, de um milagre brasileiro que escolheu o país para ser abençoado por Deus, pelos orixás ou por quaisquer outras entidades metafísicas. O futebol brasileiro está deitado há décadas sobre os louros do passado, o que se comprova sempre que vem à tona o surrado tema do "futebol moleque", como se uma condição fortuita e sem fundamentos técnicos pudesse se repetir ad eternum e sem nenhuma estrutura a lhe fornecer subsídios. Acordem! Estamos na era da informação, dos intercâmbios, da fisiologia, da tecnologia integrada ao esporte, elementos sem os quais é impossível obter alto rendimento. Além disso, se em outros países a formação do atleta é pensada sem desprezar valores intelectuais, importantes para entender a complexidade crescente em termos de táticas e outros aspectos comuns ao jogo, no Brasil, predominam os holofotes e a celebrização, dando aos boleiros, antes a conotação de popstars do que de esportistas.
No dia em que a arrogância e o ufanismo brasileiros forem colocados sob controle, se é que esse dia irá chegar, não só o futebol, mas também atividades mais importantes poderão alcançar resultados positivos, demonstrando a ocorrência do desenvolvimento que todos desejam, mas poucos fazem para alcançar.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Você brasileiro, você cordial


As evidências de que a grande maioria do povo brasileiro não possui conhecimento cultural, tampouco nutre interesse pela alta cultura, são muitas. Algumas dessas evidências são facilmente verificáveis cotidianamente, bastando observar, por exemplo, o gosto musical ou os tipos de entretenimento que muitas pessoas buscam em nosso país. Outras, de caráter sutil, representam problemas bem mais graves quanto ao desenvolvimento das ideias em território tupiniquim, pois dizem respeito à baixa qualidade das universidades, ao doutrinarismo esquerdista e à preguiça intelectual, males que assolam, já não é de agora, uma grande parcela dos que são responsáveis pelos diversos níveis de ensino no Brasil. Aquelas são consequências, estas, são causas.
Uma amostra típica desse segundo tipo de demência intelectual brasileira ocorreu nesta semana, com a vinda do sociólogo de esquerda Manuel Castells para proferir uma série de palestras. Em uma delas, o tal se pôs a falar sobre "o mito da cordialidade brasileira". Não sei se esse cidadão tem audiência em seu país de origem, mas o fato é que o mesmo foi aclamado por aqui, tendo merecido alusão até de apresentador de programa esportivo (sintomático...). A zelite intelectualóide, por sua vez, mostrou sua costumeira efusividade de botequim com as palavras do sociólogo, para o qual é uma farsa a imagem simpática e benevolente do brasileiro. Uau, sério?!
Qualquer um cujo grau de idiotice não seja dos mais elevados sabe, faz tempo, que esse perfil é realmente falso, de vez que se trata de uma construção proveniente do mais rasteiro senso comum. O absurdo se manifesta quando um estudioso a quem são atribuídas todas as pompas do academicismo terceiro-mundista dá uma declaração banal como essa contando com os aplausos da plateia de sandeus amestrados que povoa as universidades do país. A idiotice no Brasil só cresce desde que a esquerda se tornou hegemônica nos círculos de propagação de ideias e opiniões...
Se uma observação recheada de banalidade fosse tudo, não estaríamos tão mal, mas a reverência que a acompanha serve para revelar, aí sim, um quadro lastimável. Quase oitenta anos após a publicação de Raízes do Brasil (1936), algo como sete ou oito entre dez indivíduos - isso porque esses se intitulam conhecedores de causa - não entendeu bulhufas sobre a análise de Sérgio Buarque de Holanda. Não existe mito nenhum em relação à cordialidade do brasileiro, pois, de fato, ele é cordial ao extremo. Quando comparada com outros estudos sociológicos, filosóficos e históricos (leia-se, por exemplo, um Gilberto Freyre, um Evaldo Cabral de Mello, um Olavo de Carvalho, ou um Bolívar Lamounier), ainda que determinadas atualizações se façam precisas, a argumentação de Holanda se mostra das mais convincentes. Quando trouxe à tona o tema da cordialidade, o autor de Raízes... jamais, em nenhum momento, quis dizer com isso que o brasileiro fosse marcado pela simpatia e pela bondade, traços que até podem existir aqui e acolá, mas teve como objetivo demonstrar que o povo de nosso país, em termos gerais, se carateriza pelos aspectos emotivos da personalidade, contrariamente à frieza racional das populações nórdicas e anglo-saxônicas. Ler Max Weber, estabelecendo perspectivas entre a questão da cordialidade com o catolicismo ibérico em contraposição ao protestantismo, também faria bem aos intelectualóides tupiniquins... Ora, a emotividade não é só simpatia e bondade, antes, e sobretudo nas relações profissionais, sociais (quando ampliadas além do círculo íntimo familiar), econômicas e éticas, facilmente ganha conotação prejudicial. O jeitinho, a malandragem, o improviso irresponsável, a preguiça, o orgulho vazio e a inveja são práticas e estados psicológicos diretamente derivados da cordialidade, elementos que tornam extremamente difícil o estabelecimento de relações racionais de impessoalidade, necessárias ao trabalho producente, à retidão profissional e ao trato ético no dia-a-dia. O que isso tudo tem a ver com simpatia e benevolência? Nada! A cordialidade (cordis, do latim = coração, emoção) é um mito? Só se for um mito que orienta fortemente a sociedade brasileira!
A própria violência, que se manifesta com cada vez mais intensidade no Brasil de hoje, é também ela um mal que guarda ligação com a cordialidade. Quando Castells afirma que a rotina violenta que tem vitimado o país é um dado que contraria o tema do homem cordial, ele confunde as bolas, como a maior parte dos nossos "entendidos". E por falar nisso, quando um bando de idiotas baixa as orelhas e aplaude um pretenso douto sem nem saber ao certo os motivos mais importantes, não estamos diante da ausência de crítica, também uma manifestação típica da cordialidade brasileira?

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Para que serve um museu? (1)


Quando me deparo com perguntas a respeito da utilidade de alguma coisa, seja um simples objeto ou instituições complexas como um museu, a primeira ideia que vem à mente é sua utilidade prática e imediata, talvez devido à acepção que a palavra "servir" suscita. Nesse sentido, não é difícil apontar, de maneira rápida e objetiva, para que serve um museu, a saber: adquirir, guardar, preservar, expor, estudar e gerar conhecimento a partir das peças materiais que compõem seu acervo. Um museu, todavia, não é como, por exemplo, uma camiseta, cuja utilidade prática não requer quase nenhuma discussão. Isto é, em função exatamente das complexidades que perpassam o conceito de museu, ficar restrito ao utilitarismo é uma perspectiva muito pobre. Aí começam as dificuldades...
Os museus, mesmo aqueles cujo acervo é composto total ou predominantemente por objetos mais recentes, lidam com a questão do tempo, daí o historiador Pierre Nora tê-los considerado como lugares de memória. Seja esta memória de indivíduos ou coletiva, de um povo ou sociedade, sempre irá carregar o elemento subjetivo como sua característica definidora. A memória, evidentemente, não é uma estrutura unívoca e pré-determinada, pelo contrário, obedece a seleções e recortes diretamente dependentes da subjetividade. A partir disso é possível perceber que um museu apenas tem sentido à medida em que é capaz de construir relações junto ao seu público que, dependendo, de cada museu, pode ser mais ou menos variado e dotado de inúmeras intenções.
Por meio da leitura de autores tais quais Stuart Davies (2) e Carlos Ojeda Sanchés (3), verifica-se que é fundamental um museu estar ciente das necessidades e expectativas de seu público, bem como apto a garantir a satisfação do mesmo. Isso se torna mais importante ainda no mundo contemporâneo, que fez com que os museus se tornassem prestadores de serviços culturais, inclusive com margem até para o simples desfrute. O binômio museu-público (sendo este segundo termo entendido como substantivo, ou seja, público de pessoas que visita e usa o espaço museal) nos permite compreender que através dele próprio se engendram relações de valor envolvendo a instituição e os visitantes/usuários. A experiência de visitação é que, justamente, a meu ver, engloba de modo fecundo a pergunta que determina esta reflexão. Cabe lembrar neste ponto, que um museu precisa conhecer bem o perfil de seu público, bem como reconhecer sua missão institucional, as metas e as estratégias que necessita seguir a fim de estabelecer junto a tal público relações e experiências positivas que, por sua vez, indicam a necessidade de criar um diálogo permanente entre museu e público, especialmente em um contexto histórico caracterizado por transformações aceleradas. É daí, inclusive, que se revela a extrema importância do Plano Diretor, um documento norteador das práticas e do modo de atuação do museu para com seu público.
Admitindo-se, portanto, que o sentido de um museu se dá na relação com o público, envolvendo elementos subjetivos, mnemônicos e experienciais, podemos recorrer a alguns autores para ilustrar a presente reflexão. Considero bastante fecundas as conceituações de Judith Spielbauer, quando a autora afirma que o Homem compreende a si mesmo através dos museus em um contexto mais amplo, em interdependência com os mundos natural, social e estético, de Deloche, segundo o qual os museus estão diretamente ligados com a experiência sensível de acúmulo e transmissão da cultura e ainda de Schärer, para quem o museu é um lugar em que as coisas e os valores que se ligam a elas são salvaguardados, estudados e comunicados enquanto signos para interpretar fatos ausentes (4). A reboque dessas ideias, me veio à mente um outro conceito, o Pathosformeln (“fórmula das emoções”), estabelecido pelo historiador alemão da arte Aby Warburg (5). De acordo com esse estudioso, e procurando traçar uma relação com aquele sentido de valor que deve ser criado entre o museu como instituição e seu público, penso ser muito profícua a noção de que um objeto museal está inserido no tempo-espaço em que foi produzido, cercado de determinadas intenções e tributário do contexto e das ideias de quem o realizou, ao passo que o observador visitante do museu o enxerga a partir de outra dimensão temporal e outros esquemas de pensamento. Com isso, cria-se então uma tensão entre temporalidades e contextos particularmente diferentes, cabendo ao observador contemporâneo o esforço de, com o auxílio das informações e serviços prestados pelo próprio museu, procurar transitar por estes tempos, ir e voltar, buscando tecer significações e ressignificações sobre a cultura, a história e o espaço-tempo que compõem o objeto. Ressalta-se que essa perspectiva, embora encontre seu ponto de partida na subjetividade, é capaz de se desdobrar, com base na atividade de pesquisa que um museu potencializa, na geração de conhecimentos nos quais certo grau de objetividade, maior ou menor dependendo do escopo da própria pesquisa, pode ser alcançado.
Em vista desta argumentação, um museu, para mim, funciona como uma janela entre os tempos que possibilita alcançar perspectivas entre as temporalidades e espacialidades, bem como um locus privilegiado para apreender o sentido das elaborações culturais ao longo da história (e também das relações cultura-natureza, Homem-meio natural).

NOTAS

1. Apresentei o texto acima no programa de especialização em Museografia e Patrimônio Cultural do Claretiano-Centro Univesitário para a disciplina "Introdução ao Trabalho em Museus", sob a tutoria do Prof. Rodrigo Touso Dias Lopes no último mês de março. 
2. DAVIES, Stuart. Plano Diretor. Série Museologia: Roteiros Práticos. São Paulo: Edusp/Fundação Vitae, 2001. v. 1.
3. SANCHÉS, Carlos Ojeda. La visita al museo como experiencia. Metodología para la medición del grade de satisfación del visitante. Revista del Instituto Iberoamericano de Museología. Caldas de Reis, Espanha. Novembro, 2012.
4. As três apreciações constam do verbete “Museu” in DESVALLÉES; Andre; MAIRESSE, François. Conceitos-chave de museologiaTradução e comentários de Bruno Brulon e Marília Xavier Cury. São Paulo: Comitê Brasileiro do ICOM / Pinacoteca do Estado de SP / Secretaria de Estado da Cultura, 2013, pp. 64 a 67.
5. Tomo o conceito assim como trabalhado na última obra do historiador Carlo Ginzburg, Medo, reverência, terror: Quatro ensaios de iconografia política. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

segunda-feira, 30 de março de 2015

A importância de conhecer Marx... para se libertar dele


Em recentíssimo artigo publicado na Folha de São Paulo, Reinaldo Azevedo, evidentemente em tom de ironia, afirmou que petistas devem ler Marx. Em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte o filósofo de Trier, lá pelas tantas, escreve que o monarca em questão "havia se tornado vítima de sua própria concepção de mundo". A "história se repetia como farsa", até que a revolução proletária, de acordo com o entendimento do autor, estivesse em ponto de bala para colocar as coisas no rumo certo.
Diante de mais uma gritante incapacidade do PT de perceber o que se passa debaixo de suas fuças, Azevedo recomenda aos partidários da sigla a leitura marxiana a fim de que abram os olhos, mas mesmo que o façam, tal não irá ocorrer - nisso reside a ironia -, pois no esquematismo dual e maniqueísta de Marx, como também é válido para os petistas, não existe o "homem médio", que não é nem aquele opressor que reage, tampouco o proletário que revoluciona. É, ao contrário, o verdadeiro sujeito da história, aquele que constrói a civilização e a repõe quando o caos se instala. Esse cidadão comum, cuja ausência na obra de Marx já era denunciada por Bakunin, vicejou livremente nos países que adotaram o capitalismo e o caminho político parlamentar, desmentindo categoricamente as profecias do teórico comunista.
Se, por um lado, o viés irônico do artigo de Azevedo está muito bem colocado, por outro, não há ironia alguma em aconselhar não só petistas, mas esquerdistas em geral, a lerem aquele que consideram como seu mestre intelectual. Sempre defendo a ideia de que algo em torno de sete a cada dez esquerdistas nunca leu nada que vá muito além do Manifesto Comunista e do 18 de Brumário..., obras curtas, dotadas de linguagem direta e fácil compreensão, o que pode ser comprovado quando se debate com os mesmos. A ignorância dos próprios esquerdistas em relação a Marx explica, em certa medida, porque ainda se atrelam ao marxismo e se posicionam como sendo de esquerda. É impossível concordar com Marx se a pessoa, de fato, conhece Marx. Quem o descarta depois de conhecer seu pensamento presta um bem inestimável a si mesmo e à humanidade, embora não se trate de tarefa nada fácil para quem continua acreditando que o esquerdismo tenha algo de positivo.
A título de ilustração e de amostragem, certa ocasião, durante um debate a respeito da Revolução Russa de 1917 com uma professora marxista-leninista, perguntei a ela se a promessa do comunismo como capaz de instaurar o melhor dos mundos não se apresentava falaciosamente e contraditoriamente à ditadura do proletariado, etapa anterior à extinção do Estado (e da sociedade), porquanto um regime ditatorial, com centralização de poder e consequente necessidade de planejamento, se manifesta em total contraste com o télos comunista. Ela me respondeu, com a pretensão de ser esclarecedora, dizendo que a ditadura se faria por toda uma classe, o que me fez notar seu desconhecimento não somente em relação a Marx, mas também sobre Lenin. O primeiro, restrito aos limites de um materialismo tosco, não deixou nenhuma teoria convincente das classes, já o segundo, o que é pior ainda, além de defender a revolução sem a necessidade do proletariado, a empreendeu na prática. Lenin levou a Rússia à guerra civil, massacrou os sovietes, estatizou a economia e nem por um único momento mostrou qualquer reticência ao comandar o genocídio de todos aqueles que julgava como elementos contrarrevolucionários, inclusive artistas e intelectuais. Nem mesmo se depois disso o paraíso terreno estivesse completo (verificou-se o total oposto disso) o derramamento de sangue seria justificável. Esquerdistas, contudo, parecem enxergar no ser humano apenas um meio para a revolução violenta... 
A morte de Lenin em 1924 fez de Stalin o líder da já existente URSS, escancarando de vez o totalitarismo comunista. A professora, do mesmo jeito que todos os marxistas atuais, afirmou que o ditador georgiano desviou a revolução marxista-leninista de seu curso. Esse devaneio faz pressupor que mesmo diante das tantas tragédias que sempre estiveram lado a lado com a engenharia social comunista, um dia, em um futuro qualquer, a coisa ainda pode dar certo... Se nos saíssemos lembrando que a ideia de conduzir a sociedade por um curso pré-determinado por si só é totalitária, já não seria necessário ir adiante. Acontece que, além de tudo, o totalitarismo de Stalin não representou um rompimento com Marx coisíssima nenhuma! Se não fosse por aquilo mesmo de genocida e totalitário que Lenin promoveu desde o advento revolucionário, também nesse aspecto é possível levantar os equívocos da teoria de Marx para proceder com correção à análise histórica. Assumindo a primazia da base material-econômica sobre a superestrutura, exatamente como Marx pensava, tem-se que o poder emanado da figura de Stalin é um fator político e, por conseguinte, pertencente à superestrutura, logo, subordinada à base material. Ora, considerando que Lenin havia anteriormente consolidado a organização estrutural da URSS, o stalinismo só pode ter sido a consequência direta do que foi plantado a partir de outubro de 1917, caso contrário, uma vez completado o arranjo comunista, cuja estrutura de comando se dá a partir do econômico-material, assim como a perfeita harmonia prometida por tal arranjo, como pensar que o elemento político sobrepujou o econômico? É impossível validar a teoria de Marx ao mesmo tempo em que se tenta negar a filiação marxista do stalinismo. Ou Marx estava errado e não é possível admitir o primado do materialismo histórico - o que derruba por terra seu pensamento - ou o stalinismo manifestou o desfecho de uma teoria que conduz inexoravelmente ao totalitarismo, das duas uma!
Marx, além de não ter estabelecido uma teoria das classes, igualmente se mostrou incapaz de conceber uma teoria do Estado. Em Lenin, o completo desprezo pela via democrática, tributário das teses marxianas, ganhou contornos reais. Stalin foi o resultado natural da aplicação prática do marxismo. Compreender os enganos de Marx é necessário para se livrar de suas ideias sanguinárias, um exercício de sanidade mental, responsabilidade política e coragem intelectual. A despeito da dificuldade que uma mudança de postura política e intelectual envolve, não é inimaginável supor que um esquerdista possa realizar esse tour de force, (muitos personagens já o fizeram). Há que se despir do orgulho e, se é verdade que ao menos uma centelha da dimensão espiritual permaneça como característica da condição humana, ainda que em uma mente esquerdista, qualquer um está apto a se libertar de tão execrável filosofia.

terça-feira, 17 de março de 2015

Política e sociedade brasileiras hoje: breve reflexão


O tempo tem sido escasso e, como se pode observar, as postagens se tornaram bem menos frequentes. Assim permanecerá por período indeterminado, todavia, passo por aqui hoje apenas para deixar breves apontamentos pessoais a respeito da situação político-social do país, como segue abaixo (perdoem-me aqueles que já leram essas palavras no Facebook, de qualquer maneira, o texto foi levemente aprimorado):
Eis que, decorrido mais de século e meio desde que Marx começou a erigir seu sistema, no Brasil de hoje, a burguesia dos textos marxianos se transformou na classe média, pelo menos em se tratando da corja PeTralha (caberia perguntar aos defensores do governo, ou mesmo aos que parecem não se importar com os descalabros da administração federal, que elevou a corrupção a modus operandi, que carrega como marca a incompetência gerencial e que se afina a par e passo com ideias totalitárias: o que têm a dizer sobre os ricos?; por que os mesmos deixaram de ser o alvo do esquerdismo?; acaso os que ocupam os primeiros degraus da pirâmide social deixaram de existir?; ou será que uma ordenação política que não pode sobreviver sem a distribuição de favores, tal como Max Weber explanou, os cooptou em grande parte?!).
Se no plano teórico, a oposição burguesia x proletariado, ainda que se mostrasse uma grandiosa inconsistência a julgar exatamente pelo ulterior desenrolar histórico, permitia a Marx elementos para preencher suas aspirações proféticas, a realidade de tantos países nos quais o capitalismo floresceu virtuosamente revela que o surgimento das camadas médias desmente de modo categórico uma das teses centrais do autor de O capital. O capitalismo baseado nas liberdades individuais, na valorização da criatividade, na geração de oportunidades, no respeito ao sistema jurídico e na disseminação da alta cultura foi pródigo em promover prosperidade. A partir dele é que as nações desenvolvidas seguiram o caminho que lhes conduziu ao desenvolvimento. Não ocorreu, como acreditava Marx, um alargamento do fosso entre burgueses e proletários, ao contrário, houve uma redução de tal diferença com o crescimento da classe média.
No seio das complexidades que estruturam a sociedade brasileira, nem mesmo o partido que ocupa o poder se entende sobre o conceito de classe média (Marx nunca foi capaz de estabelecer uma teoria das classes, mas tão somente se aproveitou dos estudos de François Guizot, sem extrair de tal desdobramentos válidos): por um lado, o PT se jacta de ter "tirado milhões da pobreza", - para aonde teriam ido?! - por outro, através de seus próceres e idiotas úteis, afirma odiar o próprio fenômeno que alega ter ampliado tanto - por essa lógica, que tamanha ingratidão por parte da criatura para com seu Criador! Escusa-se afirmar que o PT não criou classe média alguma, tendo esta se consolidado a partir da estabilização econômica dos anos 1990, a qual, no momento, o partido detentor do poder põe em gravíssimo risco devido aos erros que comete na condução da economia.
O fato, entretanto, é um, apenas um: a reboque de seu marxismo para lá de caduco (Marx jamais atentou para o dinamismo da política e para sua independência em relação ao que chamava de base estrutural), a PeTralhada é incapaz de enxergar a política como processo, como dissenso e como gestão de demandas, logo, só o que resta, é destilar o ódio contra o setor da sociedade que, por estar livre do cabresto assistencialista que assola os mais pobres, assim como fica de fora (também por questões morais) do butim que assalta a máquina pública e promove o repasto dos amigos do poder, é o único com possibilidade de colocar ponto final à doença cancerosa que faz o país sofrer há mais de doze anos. Não é em função, evidentemente, de "consciência de classe", mas simplesmente por um arranjo social e político nefasto criado, aí sim, pelo PT. Não se trata, tampouco, do "nós contra eles", também um expediente político tipicamente totalitário. Não, um país que deseja o verdadeiro desenvolvimento requer que seu governo administre para todos sem lugar para populismo assistencialista e para cooptação.
Não nos calaremos!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Uma anedota sobre o pesadelo igualitarista



Imagine-se uma situação inicial de completo igualitarismo em determinada sociedade: o governo distribuiu a renda total de modo equitativo entre cada habitante (excluem-se, para tornar a coisa mais simples, as crianças, os inativos e os inválidos). No momento exato da distribuição, portanto, todos possuem o mesmo quinhão em termos financeiros. Pergunta-se: quanto tempo tal estado de igualitarismo total se mantém?
Só é possível vislumbrar a continuidade da situação colocada acima se a economia fosse imediata e permanentemente paralisada no âmbito da sociedade e da iniciativa privada e passasse a haver um controle governamental extremamente rígido. Não é isso, justamente, que ocorre nas ditaduras socialistas? Todavia, suponha-se que o governo concedesse um grau de liberdade para que os indivíduos pudessem fazer uso de seu dinheiro de acordo com as próprias escolhas e prioridades.
Caso fosse permitido o uso e a aplicação livres do dinheiro, desde o primeiro instante em que a liberdade econômica estivesse vigorando, o igualitarismo não mais existiria. Uns iriam investir certa quantia, seja em poupança, seja em algum outro tipo de capital, gastando apenas o estritamente necessário. Outros, para os quais a previdência não trouxesse interesse, torrariam montantes elevados em jogos, bebida, prostituição ou mesmo em qualquer bem de consumo. Com o tempo, os mais empreendedores, estudiosos, criativos e esforçados teriam acumulado um capital monetário muito maior do aqueles que preferiram fazer uso imprevidente do dinheiro.
Fica bastante claro que, em uma sociedade livre, o igualitarismo não pode existir, exatamente porque as capacidades, os interesses e os desejos diferem de pessoa para pessoa. É óbvio que a criação de oportunidades e a implantação de alguns mecanismos de ajuste podem e devem ser colocados em prática, o que de maneira nenhuma elimina as diferenças entre os indivíduos, tampouco endossa o intervencionismo estatal. Neste ponto, surge uma segunda pergunta: em que condições pode haver igualitarismo?
A resposta exige uma tipificação conceitual: uma coisa é a igualdade que, para se sustentar como algo virtuoso, necessita da companhia da liberdade. Tocqueville mostrou esse arranjo igualdade-liberdade como ninguém, de modo que a igualdade louvável e possível é a igualdade jurídico-política, o que se costuma chamar de isonomia perante as leis. No quesito econômico, a única igualdade que pode haver no seio de um aparato governamental que propicie liberdade é a igualdade de oportunidades, a partir da qual cada um dirige a própria vida como quiser. Uma vez eliminada a liberdade, descarta-se também a possibilidade de igualdade jurídico-política, pois na sanha de controlar as pessoas o governo irá concentrar fortemente o poder político, ou seja, será estabelecida uma ditadura. A igualdade de oportunidades é então distorcida e o governo ditatorial procura impor o artificialismo da igualdade de resultados, o mesmo que igualitarismo. Sabe-se bem os resultados socioeconômicos catastróficos dessa prática. A miséria econômica e a extrema opressão política observadas em nações como a China de Mao Tse-tung, o Cambodja de Pol Pot, a Romênia de Ceaucescu, a Cuba dos irmãos Castro, a Venezuela de Chávez-Maduro ou a Coreia do Norte dos Kim Jong não são meros acasos, muito pelo contrário.
Aqueles que defendem o igualitarismo e nele acreditam são idiotas perfeitos cujo entendimento histórico não pode ser alcançado em função da fé cega em uma ideologia falida, genocida e geradora de miséria. O igualitarismo, nas palavras de Gonzalo Fernández de la Mora, não chega nem mesmo a ser uma utopia, mas sim um pesadelo impossível.