sábado, 30 de janeiro de 2010

Vocábulos demoníacos


No círculo das Humanidades existem alguns vocábulos cujo uso enseja um ódio profundo, seus significados - quando deturpados - têm o poder mágico de atribuir tudo o que de mais abjeto, sórdido, desprezível e maléfico pode haver em nosso mundo. As pessoas que se aferram a dogmas pseudocientíficos, que na realidade, como frisou François Châtelet, não passam de religiões mundanas e laicizadas, são aqueles que conferem essa aura demoníaca a tais vocábulos. Cabe destacar que o conjunto dessas palavras é geralmente atribuído ao corpo de ideias de uma pessoa ou de grupos que fazem parte da sociedade, compondo na mente dos dogmáticos o estereótipo pronto e acabado do crápula. Partindo dessa reflexão, o crápula que aqui escreve, aborda a seguir alguns dos vocábulos do demônio.
Atualmente, a palavra tecnologia é bastante recorrente, pois vivemos em uma era de rapidíssimos avanços na ciência que, por sua vez, faz empregar técnicas ultra sofisticadas no processo produtivo, resultando então, como em um círculo, em produtos dotados de grande carga tecnológica. Obviamente, o uso que o homem faz da tecnologia pode ser bom ou mal, o que depende de inúmeras circunstâncias. Todavia, os dogmáticos, invariavelmente, veem na tecnologia um elemento de destruição dos (supostos) paraísos idílicos das sociedades tradicionais pré-modernas. Esse maniqueísmo está presente em filmes como Robôs ou o badaladíssimo Avatar. O curioso é que essas produções usam e abusam da tecnologia. No fim das contas, é lamentável que muitas pessoas não vislumbrem a que ponto a tecnologia se tornou essencial na preservação do meio ambiente, dela dependendo diretamente as pesquisas para desenvolvimento de materiais sintéticos que dispensem recursos da natureza, a busca por fontes limpas de energia e combustíveis não-poluentes, o melhor aproveitamento e economia da água ou até a construção de grandes estruturas refletoras que amenizariam o impacto da crescente atividade solar sobre a Terra, como indica o paleontólogo Peter Ward. Viva a tecnologia!
O vocábulo liberalismo, que nos últimos tempos tem aparecido no dicionário dogmático travestido de neoliberalismo, é sem dúvida um dos termos que mais suscita o ódio entre aqueles que gostam de atribuir a si próprios o apanágio da luta pela igualdade e pela justiça. Assim, o (neo)liberalismo seria um paradigma defendido por quem pratica a exploração econômica, não liga para a desigualdade e quer que o Estado desapareça por completo. Nada pode ser tão tolo e pueril. Essa trupe se esquece do básico, isto é, liberalismo, como fica claro pela própria etimologia do vocábulo, é uma filosofia que defende a liberdade, tanto no plano do indivíduo, como no da sociedade. O anátema do liberalismo é o autoritarismo. Nada mais. Ao contrário do que faz pensar o senso comum, o liberalismo clássico, da escola de Hume, Locke e Tocqueville (excluo aqui o pensamento radical-egoísta-anárquico-libertário dos seguidores da escola austríaca e de Ayn Rand) confere importantes funções ao Estado e jamais dispensa as leis da sociedade como forma de ajuste entre interesses individuais e coletivos. Sejamos mais liberais!
No que tange ao espectro político, cuja forma mais conhecida, ESQUERDA - CENTRO - DIREITA, é algo já ultrapassado e sem grandes significados, mas que ainda povoa fortemente o imaginário dos dogmáticos, o termo direita sempre traz consigo um perfeito monstro, um burguês reacionário, elitista e preconceituoso, como adora bradar esse pessoal. Chega a ser cômico. Assim como há tempos existe uma esquerda progressista, que já abandonou o dogma juvenil da revolução socialista, que é uma esquerda que valoriza a verdadeira ciência, que acredita na democracia e no diálogo, também há uma nova direita, embora seja um pouco mais difícil encontrá-la, que deixou de lado os preconceitos de classe, a homofobia, os dogmas do catolicismo e que também é científica e democrática. O esquematismo simplista do tradicional espectro político não permite avaliar que a complexidade das ideias político-filosóficas vai bem além do maniqueísmo dogmático, bem como não é capaz de ver que a existência da nova direita é positiva para reforçar a agenda da esquerda que superou a puberdade.
Para encerrar, a palavra que mais faz as hordas da “bondade e da justiça” agitar as foices, ele, o famigerado, o detestado, o demoníaco capitalismo! O pensamento dogmático ainda não conseguiu ir além da década de 1840! Essa turma de arautos ainda se orienta a partir dos preceitos do mais vulgar e ultrapassado marxismo, ainda acredita piamente que o sistema econômico é um monolito homogêneo e que, por si só, coordena todo o restante das dimensões sociais. Segundo esse aferrado dogma, sempre decorrerão do capitalismo, a exploração e a desigualdade. É um reducionismo que constrange qualquer um que seja dotado de um pouquinho a mais de sofisticação intelectual. Até mesmo para muitos marxistas, já se tornou óbvio há anos que dimensões sociais como a cultura, a política e a mentalidade se relacionam com a economia não mais a partir do esquema no qual a base econômica direciona por completo a superestrutura. Dessa forma, o funcionamento do sistema econômico não é independente de outros fatores que perfazem o todo da sociedade, mas varia também de acordo com os arranjos que se formam no âmago dessas dimensões todas. Existem assim, tipos diferentes de capitalismo, que podem ou não funcionar bem de acordo com o arranjo sociocultural. Pode-se objetar que o socialismo também não é um monolito, o que tem boa chance de ser verdade, entretanto, a maior parte dele ainda permanece arraigado na intolerância inerente às ideias de Marx, ainda que possa haver exceções dentro do próprio marxismo. Pensando assim, não há dúvida de que se o capitalismo fosse analisado a partir de um esquema não-rígido, livre de ideias pré-concebidas e moldadas com base numa única matriz, isso traria um ganho inestimável para as sociedades humanas.
Palavras são apenas palavras, o conceito que trazem consigo, e que vai além do mero verbete, assim como as mentes humanas que as empregam, é que podem abrir terreno para análises proveitosas. De outra forma, se caso a força dos dogmas obscurecer a razão, serão os preconceitos ideológicos que continuarão a viscejar e dar margem à construção de estereótipos simplistas, frutos de uma visão de mundo aferrada à religião mundana.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

As lições dos sábios mestres corneteiros de Palestra Itália


O torcedor palmeirense é diferente dos rivais, muito diferente, algo que faz dele próprio e de sua amada agremiação esmeraldina, infinitamente superiores aos adversários. Que fique bem entendido, o palmeirense não possui o afetamento blasé de uns e outros, que torcem apenas por ocasião e tiram do armário a camisa mofada do time apenas quando esse tem chance de ganhar um título. Essa turma é tão sem graça quando torce, que faz jus à pobre história de seu time. Tampouco o palmeirense é um zumbi massificado, “maria vai com a mídia”, tal qual esses torcedores que gostam de times que são desprovidos de cores em sua bandeira e uniforme. Essa patota torce por conveniência, confunde paixão com irrazão. Dá dó.
Segundo reza a  tradição palestrina, -  e para um time protagonista de uma história incomparavelmente rica, zelar pela tradição significa entesourar as glórias - nos primeiros tempos de Palestra Itália havia na rua Turiaçu uma fábrica de ferramentas chamada “Corneta”, diante da qual, sobretudo em dias de contenda, a nata palestrina, formada então pelos oriundi e que influenciaria gerações e gerações de novos palmeirenses, se reunia para discutir os assuntos políticos e esportivos referentes ao time e ao clube. Muito racionais, extremamente exigentes, críticos e invariavelmente valorizando a qualidade acima de tudo, ficaram conhecidos como corneteiros. Sempre transmitindo aos futuros apaixonados palmeirenses as lições de como ser um torcedor diferenciado e superior, os corneteiros são até hoje um dos maiores patrimônios da Sociedade Esportiva Palmeiras.
Nos últimos tempos, porém, nossa amada agremiação esmeraldina vem sendo acometida de uma grave enfermidade causada por criaturas peçonhentas que contaminam as estruturas palestrinas com seu veneno tomado de perfídia. Esses seres monstruosos adoram jogadores ruins, aferram-se ao poder, assim como o carrapato à pele, fazem intrigas e politicagem e são os mais ineptos administradores. Os ares insalubres vitimaram até mesmo parte da torcida palmeirense, que se acostumou a aplaudir fracassos, se contentar com pouco, banalizar o conceito de ídolo e fechar os olhos aos problemas da instituição. Pobrezinhos, foram levados a acreditar que gritar "porco" adianta alguma coisa. Ora, isso é depravação de quem gosta de chamar a si próprio de louco.
Tudo bem, os corneteiros ainda existem e são fortes. Não deixarão que a tradição se perca, não permitirão jamais que a enfermidade tome conta de tudo e destrua o glorioso alviverde, afinal, ele é imortal. É preciso apenas que as essenciais e poderosas lições da mais genuína tradição dos torcedores corneteiros estejam sempre em voga. Elas seguem-se abaixo, certamente o bálsamo redentor que sempre socorreu o Palmeiras quando foi preciso. Siga as lições, seja diferenciado e viva o alviverde imponente!

Lição n°1: qualquer título conquistado por nossa amada agremiação é fruto direto das críticas, das exigências e das pressões exercidas por nossa sapiente cornetagem.

Lição n°2: qualquer forma de apoio injustificado a bagres, vagabundos ou diretoria inepta, constitui em grave perniciosidade contra a própria história da SEP; por outro lado, críticas e exigências visam sempre ao bem supremo da instituição, no sentido de que objetivam afastar as iniquidades, banir as incompetências e evidenciar os equívocos para que não se repitam.

Lição n° 3: um autêntico corneteiro jamais deve furtar-se à responsabilidade máxima das críticas e exigências; deve ainda manter o ceticismo até que as evidências não mais assim o exijam e nunca considerar que dúvidas ou questionamentos sejam demasiados, sempre pelo bem maior de nossa amada agremiação esmeraldina.

Lição n° 4: um autêntico corneteiro sabe bem que, acreditar no time, em princípio, nada significa, não mantém nenhuma relação direta e fundamental com sucesso e conquistas; o fator essencial para as glórias da SEP reside na exigência de qualidade e excelência para que os méritos, enfim, sejam traduzidos em vitórias e títulos.

Lição n° 5: um autêntico corneteiro tem para consigo a ideia elementar de que não existe a menor contradição entre "torcer" e "cornetar"; qualquer um pode torcer, mas apenas os corneteiros, do alto de sua clarividência, são capazes de enxergar o que o clube e o time precisam para amealhar sucesso, sendo que isso ocorre sem que haja nenhum prejuízo ao ato de torcer.

Lição n° 6: um autêntico corneteiro sabe perfeitamente que cornetar é um ato muito mais importante e mais amplo do que torcer; quem somente torce, o faz apenas enquanto o time está em campo atuando, ao passo que a cornetagem envolve não só as partidas, mas também os bastidores e a política do clube, aspecto de suma importância para os sucessos do mesmo, assim sendo, quem se resume a torcer, torna-se um perfeito alienado em todo o restante do tempo, que perfaz o dia-a-dia da agremiação, passividade que contribui de modo nefasto com a perpetuação de equívocos administrativos.

Lição n° 7: um autêntico corneteiro jamais banaliza o conceito de ídolo; para ele, ídolo é somente aquele jogador que tenha conquistado pelo menos um título importante, seja se destacando pelo lado técnico ou pelo fator garra, mais do que isso, um ídolo não mancha seu currículo com erros graves fora de campo, não metralha os próprios companheiros e sabe a hora exata de parar e se tornar eterno no rol dos herois esmeraldinos.

Confiando na indefectível racionalidade dos genuínos torcedores do gloriosíssimo e campeoníssimo alviverde, este corneteiro que vos escreve deseja os mais sinceros votos para que um profícuo estudo das veneráveis lições acima, possa sempre conduzir nossa amada agremiação esmeraldina aos píncaros da glória. Scoppia che la vittoria è nostra!
  

domingo, 17 de janeiro de 2010

Estado brasileiro: um caso de desgovernança e inversão de valores



Em reportagem apresentada nos últimos dias de 2009, o Jornal Nacional abordou a pouca difusão cultural no Brasil. De acordo com a matéria, várias formas de cultura não chegam aos rincões mais distantes do Brasil, cidades pobres do interior brasileiro não contam com salas de cinema, teatros, shows musicais e exposições não ocorrem nesses locais, livrarias nem em sonho e, por aí vai.
É estranho que a maior emissora do país, que tem uma responsabilidade na divulgação da cultura, apresente uma reportagem dessas. A Rede Globo bem poderia contribuir mais do que o faz em termos culturais se pensasse menos em IBOPE, deixando de lado lixos como BBB ou programas do Faustão e do Luciano Huck, e exibisse mais minisséries de época e bons filmes em horários acessíveis. Não é esse o foco que me proponho a tratar, no entanto. O que me chama a atenção são os equívocos da ação do Estado brasileiro quando o tema é a cultura, bem como em outros assuntos, que também analisarei a seguir.
Na reportagem citada, o presidente do IPEA, Marcio Pochmann, petista de carteirinha, ao ser entrevistado, afirmou que a falta de oferta cultural se deve à ausência do Estado brasileiro na promoção da cultura. Afirmação vaga, que suscita dúvidas em relação ao teor da ideia. Entretanto, conhecendo-se a postura ideológica de Pochmann e as práticas políticas do PT, torna-se evidente aquilo que está por trás de tal afirmação. Ora, o Estado até pode se incumbir de ajudar na divulgação da cultura e, embora isso não deva ser um dos principais itens de sua agenda governamental, - o mais correto nessa questão é buscar o estabelecimento de parcerias público-privadas, algo que o governo não faz por motivações ideológicas - é bastante louvável em vários casos. Acontece que não é a simples contribuição na divulgação da cultura que esse governo deseja. O buraco é bem mais embaixo. Pochmann acredita piamente que o Estado deve ser inteiramente responsável por todo e qualquer “desenvolvimento” do país, inclusive no que se refere à cultura. Mesmo com todo o peso sufocante da burocracia brasileira, o presidente do IPEA acha que o Estado brasileiro é pequeno em seu tamanho. Num devaneio político-ideológico, ele associa a qualidade dos serviços prestados pelo Estado, sem ao menos enxergar o que é ou não função estatal, à quantidade de burocratas que o Estado possui. Na sua lógica, quanto mais burocracia e burocratas, melhor e mais atuante será o Estado.
O que o governo petista quer e que se coaduna inteiramente com seu arcabouço ideológico, é ele próprio ser o vetor direto na criação da cultura, ser, através de suas instituições, o órgão responsável por julgar o valor de manifestações culturais, considerando-se aí, obviamente, o caráter político de tais manifestações, naquilo que se ajustam à ideologia do governo e, finalmente, a partir dessas duas primeiras premissas, ser o promotor único e oficial da cultura no país. Mao Tse-tung e Mussolini se regozijariam com isso. Em vista de tais intenções, não é nada surpreendente que o Estado brasileiro tenha destinado verbas para a filmagem do longa metragem que conta a vida de Lula. Culto à personalidade, mitificação de uma figura política que não só está viva, como governa o país. Propaganda e enaltecimento do presidente, com carga de pieguice e romantização da pobreza, como muita gente adora nesse país. Um filme que supera o ridículo. Na consolidação de um projeto do tipo, não se tem mais cultura, mas sim uma prescrição de manifestações e práticas mais políticas do que culturais, endossadas e legitimadas por um governo de claros traços autoritários, forma das mais eficazes para a docilização e arregimentação de apoio irrestrito das massas. Vai bem esse Brasil...
Ao mesmo tempo que tenta cada vez mais impor seu autoritarismo ao atuar como vetor direto da cultura no país, o Estado brasileiro, aí também incluindo as esferas estadual e municipal, se exime de estar presente em um dos aspectos básicos da governança, a saber, no estabelecimento e na fiscalização das regras para a ocupação e urbanização do território. A tragédia de Angra dos Reis é fruto sobretudo da extrema desatenção do Estado em relação a esse ponto.
Incidem sobre tal problema dois fatores fundamentais; em primeiro, é claro, a questão eleitoral, ou seja, a ocupação e construção de moradias se faz aos ollhos do poder público, mas esse nada realiza para impedir - ou prevenir, o que seria bem mais correto -  porque do contrário, os políticos envolvidos perdem votos em eleições; em segundo, o desconhecimento das autoridades no que concerne à geografia e geologia do local; - aqui é sempre bom lembrar que para o governo Lula, ciência é assunto menor - o litoral brasileiro, que está sob influência do clima tropical úmido, é área de ocorrência de chuvas durante todo o ano, tornando-se mais intensas no verão, somado a isso, os grandes paredões escarpados que dividem as serras do Sudeste das planícies litorâneas, constituem terrenos íngremes e de estrutura geológica instável, equação ideal para deslizamentos de terra em épocas de chuva intensa. Não poderia haver construção de moradias na Enseada do Bananal, nem no Morro da Carioca, como em inúmeras outras áreas de grande risco potencial.
É diante de questões como essas, apenas algumas dentre tantas, que ficam claros o descalabro e o desgoverno que vive o país. Em tempo: Lula declarou na semana passada, que a fiscalização dos gastos públicos envolvidos na organização da Copa e das Olimpíadas não deve ser rigoroso. Como bem colocou o sempre atento Mauro Cezar Pereira da ESPN Brasil, é de estarrecer! É a cara do Brasil!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O povo em catarse: um dos efeitos da cordialidade no Brasil das massas


Certa vez, num livro de entrevistas, a historiadora Emília Viotti da Costa afirmou sempre ter duvidado da existência de uma mentalidade nacional, comum a diferentes classes e grupos em um país tão diverso como o Brasil. Assim, ela fez sua crítica ao conceito de “homem cordial”, formulado por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. Equivocou-se a historiadora. Equivocou-se, pois não foi capaz de enxergar que em sociedades de massa, a tendência é justamente o afloramento do que é mais típico de uma mentalidade.
Na década de 1930, quando da publicação da obra norteadora sobre a formação do Brasil, o país consolidava-se como nação, pleiteava, ao menos formalmente, uma colocação dentre as nações modernas e, se assim pudermos chamar, tornava-se um país de massas. Buarque de Holanda, arguto como sempre, viu nesse novo Brasil a emergência da cordialidade como traço mais profundo e mais definidor da mente do brasileiro comum. Advinda historicamente da maneira como fora colonizado o país, a cordialidade encontrou na era Vargas a confluência ideal de fatores humanos para seu estabelecimento definitivo. A cordialidade, se bem entendida, consiste em patrimônio imaterial da cultura brasileira, com todo sarcasmo que isso implica.
A atual conjuntura vivida pelo Brasil, governado por Lula, demarca nitidamente a cordialidade como elemento característico da forma de pensar de nosso povo. Um dos desdobramentos mais evidentes da cordialidade é a comoção gerada por eventos festivos que supostamente conferem à nação um ar de importância e engrandecimento. Ufanismo. Virou moda, de uns meses para cá mais do que nunca, gritar aos quatro ventos que o status alcançado pelo Brasil junto a chefes de Estado e à opinião pública no exterior atingiu níveis altaneiros. O Brasil é o país do momento! Lula é o cara, segundo Barack Obama. O verdeamarelismo se deleita em seu mais intenso orgasmo. Quem acha que não, quem não vê nisso nada mais do que cordialidade ufanista é, segundo o festivo presidente brasileiro, chato, ranzinza e do contra. Vários brasileiros, imersos na euforia e no sambinha de Copacabana, concordam. Não lhes ocorre que a atitude blasé diante do otimismo infundado possa estar embasada em análise fria e racional, distante do picadeiro no qual a cordialidade hipnotiza os incautos.
Em boa parte, a festinha verde e amarela se deve ao fato do Rio de Janeiro ter sido escolhido como sede das Olimpíadas em 2016. Some-se a isso, o outro evento esportivo, a Copa do Mundo do Brasil em 2014. Olimpíadas e Copa do Mundo, eventos efêmeros que durarão um mês, o suficiente para a alegria do povo, o suficiente para quase tornar completo o set list da esbórnia coletiva. Acríticas e seduzidas pela propaganda governamental, característica de governos autoritários, as massas se esqueceram rapidinho do legado do Pan-2007, no qual o dinheiro público foi gasto a rodo, sem que as instalações pudessem deixar legado algum, sequer para a população do próprio Rio de Janeiro. Não vai mudar na Copa, nem nas Olimpíadas, a menos que se crie um comitê civil totalmente independente para fiscalizar os gastos. Mas quem vai pensar nisso enquanto estiver anestesiado pela catarse do verdeamarelismo? Não há, nem de longe no Brasil, cultura democrática suficiente para tal ato. Além disso, os interesses políticos obviamente não permitiriam uma tal ingerência democrática em seus negócios. Seria de um liberalismo político impensável num regime centralizador. O método mais correto, no entanto, seria fazer com que a verba para a construção das instalações necessárias viesse da iniciativa privada. Por razões elementares de cunho ideológico, algo do tipo não é nem sonhado pelo governo, tampouco atenderia aos tais interesses políticos.
Cabe ainda deixar claro que o desenvolvimento de um país nada tem a ver com eventos esportivos que nele se realizem. Não é preciso Copa do Mundo ou Olimpíadas para serem feitas as urgentes melhorias e reformas que o Brasil requer, elas sim geradoras de desenvolvimento. Só que as mesmas não conferem votos, são de efeito a médio e longo prazo, enquanto os eventos esportivos apresentam fachada deslumbrante e destilam o mesmo poder de sedução que faz o barqueiro naufragar perante o canto da sereia. A cordialidade incapacita o povo festivo de enxergar a política do pão e circo por trás desse contexto. Só uma pergunta: diante da falência completa do futebol nas três regiões mais pobres do país, onde os clubes estão endividados até os cotovelos, onde os estádios na maior parte das ocasiões permanecem vazios, o que será feito dos elefantes brancos que estão sendo construídos com dinheiro público para a Copa após o evento? Se alguém tiver ideia, comente, por favor.
Deixando de lado os acontecimentos de fachada e buscando fatores de análise que, por seu caráter mais técnico, não se colocam no horizonte das massas em catarse, torna-se inconteste a falácia da bonança tupiniquim. No que tange ao comércio mundial, a participação do Brasil considerando todos os setores da economia, fica em torno de 2%. Índice risível, que só não é mais baixo por conta do agronegócio. Ora, um país desenvolvido não pode depender apenas do setor primário, além disso, como o Brasil investe pouco em pesquisa de meio ambiente, os efeitos do agronegócio sobre a natureza são pouco debatidos e as possibilidades de atenuá-los estão distantes. Se o Programa Nacional de Direitos Humanos do governo petista for aprovado no Congresso, então até mesmo o agronegócio estará seriamente ameaçado. No setor industrial, o Brasil vem perdendo fatias de mercado, já que os investimentos em tecnologia e logística são parcos, bem como a corrupção sistemática e a carga tributária exacerbada constituem-se em fortíssimos entraves à produção. Finalmente, o terciário pouco qualificado em face de uma educação falida, nada representa em termos práticos sobre a participação brasileira no comércio mundial.
Levando em conta outros aspectos importantes que perfazem o cálculo do IDH, os índices do país se mostram igualmente bem aquém do desejável. É assim com a educação, com a saúde e com a renda per capita. Nesse último quesito, o assistencialismo petista enforca a classe média, a mais produtiva do país, com uma quantidade imensa de impostos e transfere a renda aos mais pobres, sem que isso evidentemente os tire da pobreza e lhes permita acesso a oportunidades.
Há motivos para acreditar que o Brasil é o país do momento? Só entre quem é dominado pelo ufanismo cordial. Há quem sempre vá se lembrar das palavras elogiosas de Obama em relação a Lula, ou que vá ainda mencionar a eleição do presidente festivo como personalidade do ano por jornais da França e da Espanha. Mero joguete diplomático, especialmente em relação à França, que está prestes a vender aviões de caça ultrapassados ao Brasil. Lula vai salvar a Dassault da falência, a fabricante dos jatos. Já de minha parte, eu veria com bons olhos se algum pesquisador brasileiro tivesse faturado um Nobel, mas devo me lembrar sempre que pesquisa e ciência não são coisas afeitas à cordialidade. Nenhum, entre os brasileiros típicos, valorizaria devidamente um conterrâneo ganhador de Nobel. É a cara do Brasil...