sexta-feira, 17 de abril de 2015

Para que serve um museu? (1)


Quando me deparo com perguntas a respeito da utilidade de alguma coisa, seja um simples objeto ou instituições complexas como um museu, a primeira ideia que vem à mente é sua utilidade prática e imediata, talvez devido à acepção que a palavra "servir" suscita. Nesse sentido, não é difícil apontar, de maneira rápida e objetiva, para que serve um museu, a saber: adquirir, guardar, preservar, expor, estudar e gerar conhecimento a partir das peças materiais que compõem seu acervo. Um museu, todavia, não é como, por exemplo, uma camiseta, cuja utilidade prática não requer quase nenhuma discussão. Isto é, em função exatamente das complexidades que perpassam o conceito de museu, ficar restrito ao utilitarismo é uma perspectiva muito pobre. Aí começam as dificuldades...
Os museus, mesmo aqueles cujo acervo é composto total ou predominantemente por objetos mais recentes, lidam com a questão do tempo, daí o historiador Pierre Nora tê-los considerado como lugares de memória. Seja esta memória de indivíduos ou coletiva, de um povo ou sociedade, sempre irá carregar o elemento subjetivo como sua característica definidora. A memória, evidentemente, não é uma estrutura unívoca e pré-determinada, pelo contrário, obedece a seleções e recortes diretamente dependentes da subjetividade. A partir disso é possível perceber que um museu apenas tem sentido à medida em que é capaz de construir relações junto ao seu público que, dependendo, de cada museu, pode ser mais ou menos variado e dotado de inúmeras intenções.
Por meio da leitura de autores tais quais Stuart Davies (2) e Carlos Ojeda Sanchés (3), verifica-se que é fundamental um museu estar ciente das necessidades e expectativas de seu público, bem como apto a garantir a satisfação do mesmo. Isso se torna mais importante ainda no mundo contemporâneo, que fez com que os museus se tornassem prestadores de serviços culturais, inclusive com margem até para o simples desfrute. O binômio museu-público (sendo este segundo termo entendido como substantivo, ou seja, público de pessoas que visita e usa o espaço museal) nos permite compreender que através dele próprio se engendram relações de valor envolvendo a instituição e os visitantes/usuários. A experiência de visitação é que, justamente, a meu ver, engloba de modo fecundo a pergunta que determina esta reflexão. Cabe lembrar neste ponto, que um museu precisa conhecer bem o perfil de seu público, bem como reconhecer sua missão institucional, as metas e as estratégias que necessita seguir a fim de estabelecer junto a tal público relações e experiências positivas que, por sua vez, indicam a necessidade de criar um diálogo permanente entre museu e público, especialmente em um contexto histórico caracterizado por transformações aceleradas. É daí, inclusive, que se revela a extrema importância do Plano Diretor, um documento norteador das práticas e do modo de atuação do museu para com seu público.
Admitindo-se, portanto, que o sentido de um museu se dá na relação com o público, envolvendo elementos subjetivos, mnemônicos e experienciais, podemos recorrer a alguns autores para ilustrar a presente reflexão. Considero bastante fecundas as conceituações de Judith Spielbauer, quando a autora afirma que o Homem compreende a si mesmo através dos museus em um contexto mais amplo, em interdependência com os mundos natural, social e estético, de Deloche, segundo o qual os museus estão diretamente ligados com a experiência sensível de acúmulo e transmissão da cultura e ainda de Schärer, para quem o museu é um lugar em que as coisas e os valores que se ligam a elas são salvaguardados, estudados e comunicados enquanto signos para interpretar fatos ausentes (4). A reboque dessas ideias, me veio à mente um outro conceito, o Pathosformeln (“fórmula das emoções”), estabelecido pelo historiador alemão da arte Aby Warburg (5). De acordo com esse estudioso, e procurando traçar uma relação com aquele sentido de valor que deve ser criado entre o museu como instituição e seu público, penso ser muito profícua a noção de que um objeto museal está inserido no tempo-espaço em que foi produzido, cercado de determinadas intenções e tributário do contexto e das ideias de quem o realizou, ao passo que o observador visitante do museu o enxerga a partir de outra dimensão temporal e outros esquemas de pensamento. Com isso, cria-se então uma tensão entre temporalidades e contextos particularmente diferentes, cabendo ao observador contemporâneo o esforço de, com o auxílio das informações e serviços prestados pelo próprio museu, procurar transitar por estes tempos, ir e voltar, buscando tecer significações e ressignificações sobre a cultura, a história e o espaço-tempo que compõem o objeto. Ressalta-se que essa perspectiva, embora encontre seu ponto de partida na subjetividade, é capaz de se desdobrar, com base na atividade de pesquisa que um museu potencializa, na geração de conhecimentos nos quais certo grau de objetividade, maior ou menor dependendo do escopo da própria pesquisa, pode ser alcançado.
Em vista desta argumentação, um museu, para mim, funciona como uma janela entre os tempos que possibilita alcançar perspectivas entre as temporalidades e espacialidades, bem como um locus privilegiado para apreender o sentido das elaborações culturais ao longo da história (e também das relações cultura-natureza, Homem-meio natural).

NOTAS

1. Apresentei o texto acima no programa de especialização em Museografia e Patrimônio Cultural do Claretiano-Centro Univesitário para a disciplina "Introdução ao Trabalho em Museus", sob a tutoria do Prof. Rodrigo Touso Dias Lopes no último mês de março. 
2. DAVIES, Stuart. Plano Diretor. Série Museologia: Roteiros Práticos. São Paulo: Edusp/Fundação Vitae, 2001. v. 1.
3. SANCHÉS, Carlos Ojeda. La visita al museo como experiencia. Metodología para la medición del grade de satisfación del visitante. Revista del Instituto Iberoamericano de Museología. Caldas de Reis, Espanha. Novembro, 2012.
4. As três apreciações constam do verbete “Museu” in DESVALLÉES; Andre; MAIRESSE, François. Conceitos-chave de museologiaTradução e comentários de Bruno Brulon e Marília Xavier Cury. São Paulo: Comitê Brasileiro do ICOM / Pinacoteca do Estado de SP / Secretaria de Estado da Cultura, 2013, pp. 64 a 67.
5. Tomo o conceito assim como trabalhado na última obra do historiador Carlo Ginzburg, Medo, reverência, terror: Quatro ensaios de iconografia política. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.