terça-feira, 28 de junho de 2011

A miséria do imediatismo


Final de semestre, últimos dias de aula, férias se aproximando. Quórum de alunos mais baixo do que o normal, matéria já ministrada, resolvo fazer uma gincana com alunos do 7° ano, cuja faixa etária média é de 12 ou 13 anos. Comecei perguntando sobre tópicos relacionados às disciplinas que leciono e, à medida que a brincadeira foi se desenrolando, os temas passaram a variar, mas sem que o passado histórico deixasse de ser abordado. Reclamações já se faziam ouvir...
Eis que então assuntos esportivos começaram a ser foco atendendo ao pedido dos próprios alunos. Pergunto quem foi o Campeão Brasileiro de uma data já um tanto distante e a resposta, como era de se esperar, foi errada. Nesse momento, um aluno de desempenho reconhecidamente bastante fraco, dispara: "ahhh, eu nem tinha nascido ainda nessa época!" A partir daí, me enervei sobremaneira com o desdém desses jovens em relação a tudo que é passado, o que já estava claro desde o início da brincadeira, claro, para falar a verdade, desde sempre. Jovens totalmente anti-históricos, jovens levados a pensar tola e arrogantemente, que o mundo surgiu no dia em que eles nasceram. Incomodado, não pensei duas vezes e passei a martelar mais ainda, propositadamente, em coisas já passadas. O tal aluno topetudo e imediatista, como 95% de seus colegas, é torcedor do time sem cores da zona Leste. Um outro de sua equipe e, tão insubordinado quanto ele, também.
Lá vou eu: "quem foi o principal idealizador da democracia corint...?" Resposta: "ahn, o que?!; o que é isso?!" Eles são torcedores incolores e não fazem a menor ideia de quem foi Sócrates. Não pude deixar de continuar provocando: "quem foi Neto?" No máximo, conhecem o comentarista.
Me dirijo a outro aluno, desta feita, um palmeirense que costuma ter bom desempenho: "que jogador do Palmeiras marcou 2 gols na final do Paulista em 1993, quando o alviverde massacrou seu rival por 4x0?" Não obtenho resposta. O jovem palmeirense, depois que cito Evair, diz que já tinha ouvido falar "desse cara" através do tio.
Garotos que não sabem o óbvio, isto é, que a grandeza dos times para os quais torcem é tributária da história dessas agremiações. Questão que tem a ver também, além do imediatismo, com a carência de ídolos. Na era da Internet e da hiperexposição, todos eles sabem, mesmo os que não ligam para futebol, quem são Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho ou Adriano, essas celebridades vazias que deixam o profissionalismo e a postura passarem bem distante, mas que mesmo assim se tornam ídolos de uma geração anti-histórica e incapaz de boa imaginação. Alguns poderão sair em defesa de seus ídolos de barro e afirmar que eles fizeram história. Será, todavia, que terá sido por seu passado que são tão conhecidos? Temo que não.
Mudo de esporte, abordo o vôlei, segundo na preferência do brasileiro, responsável em tempos mais recentes, por conquistas superiores ao futebol. Pergunto a respeito de um dos nomes dentre os campeões olímpicos de 1992... nada! Carlão, Paulão, Maurício, Tande, Giovane, Marcelo Negrão, são figuras completamente desconhecidas por esses jovens. Com isso, é esquecida também a primeira medalha de ouro em esportes coletivos conquistada pelo Brasil, esse país que irá sediar Olímpiada e no qual os atletas fora do mainstream treinam a duríssimas penas. Os jovens têm ainda menos noção de quem seja Robert Scheidt. Um lá, malemal sabe sobre Gustavo Kuerten, Maria Esther Bueno, evidentemente, nem em sonho! Lembremos que eles próprios pediram perguntas que tivessem o esporte como tema. Nem é preciso avisar que em assuntos diversos verifica-se o mesmo alheamento em relação a nomes ou acontecimentos que se imortalizaram, seja na área em que for.
O imediatismo desses jovens é claramente um malefício terrível, porém, não o imediatismo em si, mas as consequências que ele carrega. Um imediatismo inerentemente e, por definição, anti-histórico e que, como indiquei acima, responsável pela incapacidade imaginativa. Quem possui uma imaginação completa - e devo frisar aqui que estou considerando o fenômeno imaginativo não em seu sentido banal de fantasia, mas sim como a habilidade de perceber, conceber e discriminar - estará apto a exercer uma existência verdadeiramente profícua, dado que só a imaginação completa e em seu sentido filosófico, aliada à razão, que assim estará isenta de ser uma razão puramente mecânica, é capaz de nos legar o sentido superior de interioridade humana.
Aqueles que assumem conduta imediatista e, portanto, anti-histórica, estão apartados do potencial libertador da história, como ensinou Benedetto Croce, pois jamais poderão imaginar de modo completo. O imediatista, quando muito, pode atingir o estágio da percepção, o primeiro e mais basilar das etapas imaginativas. Uma percepção, todavia, sem que se procedam as mediações necessárias e possibilitadas pela relação passado-presente, não poderá avançar rumo a qualquer tipo de concepção. Por sua vez, a ausência de concepção impede que se chegue à etapa final do processo imaginativo, que é a discriminação, ou classificação, para usar um vocábulo mais recorrente, haja vista que não há como classificar sem comparar, algo só tornado possível a partir de uma maneira histórica de pensamento, que fornece os parâmetros e termos comparativos.
Estamos num tempo em que o imediatismo e suas consequências afetam sobretudo os jovens, mas o andar da carruagem aponta de modo cada vez mais claro que não tardará o momento no qual este será um mal comum nas gerações adultas, até porque os jovens de hoje estarão mais velhos amanhã. Então, nada mais faltará para que o problema da degenerescência moral esteja completo. A história e a capacidade de imaginação se farão ainda presentes, mas quem saberá usá-las, quem poderá tê-las como instrumentos de valorização da interioridade humana?

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Anote esses nomes e não se esqueça deles!

Na noite desta quarta-feira (15/06) a Câmara dos Deputados aprovou por 272 votos a favor, 76 contra, com 3 abstenções, a MP n° 527, que define o "Regime Diferenciado de Contratações", pelo qual os orçamentos referentes às obras da Copa 2014 e da Olímpiada 2016 serão "flexibilizados". Eliminado o eufemismo, temos que as licitações serão dispensadas em nome do caráter de urgência. Além disso, a MP determinou também que os orçamentos, nos quais há uma enormidade de dinheiro público envolvido, sejam sigilosos. Algo mais deplorável e absurdo do que esse, impossível! Segue abaixo a lista com os nomes dos deputados que votaram a favor da aprovação da MP, bem como a orientação de cada partido que compõe a casa. Não se esqueça disso e proteste como puder!

Orientação dos partidos:

PT: Sim
PMDB: Sim
PSB PTB Pc do B: Sim
PR PRB PT do B PRTB PRP PHS PTC PSL: Sim
PSDB: Não
DEM: Não
PP: Sim
PDT: Liberado
PPS: Liberado
PSC: Sim
PMN: Sim
PSOL: Não
PV: Liberado
Oposição: Não
Base governista: Sim

DEM
Fernando Torres BA
Jairo Ataide MG
Paulo Magalhães BA

PC do B
Alice Portugal BA
Assis Melo RS
Chico Lopes CE
Daniel Almeida BA
Edson Pimenta BA
Evandro Milhomen AP
Jandira Feghali RJ
Jô Moraes MG
João Ananias CE
Luciana Santos PE
Osmar Júnior PI

PDT
André Figueiredo CE
Ângelo Agnolin TO
Brizola Neto RJ
Damião Feliciano PB
Flávia Morais GO
Giovani Cherini RS
Giovanni Queiroz PA
José Carlos Araújo BA
Manato ES
Marcelo Matos RJ
Oziel Oliveira BA
Paulo Pereira da Silva SP
Salvador Zimbaldi SP
Vieira da Cunha RS
Zé Silva MG

PHS
Felipe Bornier RJ
José Humberto MG

PMDB
Alberto Filho MA
Alceu Moreira RS
Almeida Lima SE
Arthur Oliveira Maia BA
Átila Lins AM
Benjamin Maranhão PB
Carlos Bezerra MT
Celso Maldaner SC
Danilo Forte CE
Edinho Araújo SP
Edson Ezequiel RJ
Eduardo Cunha RJ
Fabio Trad MS
Fátima Pelaes AP
Fernando Jordão RJ
Flaviano Melo AC
Francisco Escórcio MA
Gabriel Chalita SP
Gean Loureiro SC
Geraldo Resende MS
Íris de Araújo GO
João Arruda PR
João Magalhães MG
Joaquim Beltrão AL
José Priante PA
Júnior Coimbra TO
Leandro Vilela GO
Leonardo Quintão MG
Luciano Moreira MA
Lucio Vieira Lima BA
Manoel Junior PB
Marçal Filho MS
Marcelo Castro PI
Marinha Raupp RO
Marllos Sampaio PI
Mauro Lopes MG
Mendes Ribeiro Filho RS
Moacir Micheletto PR
Nelson Bornier RJ
Newton Cardoso MG
Nilda Gondim PB
Osmar Serraglio PR
Osmar Terra RS
Paulo Piau MG
Pedro Chaves GO
Professor Setimo MA
Raimundão CE
Renan Filho AL
Rogério Peninha Mendonça SC
Ronaldo Benedet SC
Saraiva Felipe MG
Teresa Surita RR
Valdir Colatto SC
Washington Reis RJ
Wladimir Costa PA

PMN
Dr. Carlos Alberto RJ
Fábio Faria RN
Jaqueline Roriz DF

PP
Afonso Hamm RS
Carlos Souza AM
Cida Borghetti PR
Dilceu Sperafico PR
Dimas Fabiano MG
Iracema Portella PI
Jair Bolsonaro RJ
Lázaro Botelho TO
Missionário José Olimpio SP
Neri Geller MT
Rebecca Garcia AM
Renzo Braz MG
Roberto Balestra GO
Roberto Britto BA
Roberto Dorner MT
Roberto Teixeira PE
Simão Sessim RJ
Toninho Pinheiro MG
Vilson Covatti RS
Waldir Maranhão MA
Zonta SC

PPS
César Halum TO
Geraldo Thadeu MG
Moreira Mendes RO

PR
Aracely de Paula MG
Davi Alves Silva Júnior MA
Dr. Paulo César RJ
Francisco Floriano RJ
Giacobo PR
Giroto MS
Henrique Oliveira AM
Homero Pereira MT
Izalci DF
José Rocha BA
Liliam Sá RJ
Lúcio Vale PA
Maurício Quintella Lessa AL
Milton Monti SP
Neilton Mulim RJ
Ronaldo Fonseca DF
Tiririca SP
Vicente Arruda CE
Wellington Fagundes MT
Zoinho RJ

PRB
Acelino Popó BA
Antonio Bulhões SP
Cleber Verde MA
George Hilton MG
Heleno Silva SE
Jhonatan de Jesus RR
Jorge Pinheiro GO
Márcio Marinho BA
Otoniel Lima SP
Ricardo Quirino DF
Vilalba PE
Vitor Paulo RJ

PRP
Jânio Natal BA

PSB
Alexandre Roso RS
Ariosto Holanda CE
Domingos Neto CE
Edson Silva CE
Glauber Braga RJ
Jefferson Campos SP
Jonas Donizette SP
José Stédile RS
Keiko Ota SP
Laurez Moreira TO
Leopoldo Meyer PR
Luiz Noé RS
Luiza Erundina SP
Mauro Nazif RO
Pastor Eurico PE
Ribamar Alves MA
Romário RJ
Valadares Filho SE

PSC
Andre Moura SE
Carlos Eduardo Cadoca PE
Deley RJ
Erivelton Santana BA
Filipe Pereira RJ
Lauriete ES
Marcelo Aguiar SP
Pastor Marco Feliciano SP
Ratinho Junior PR
Stefano Aguiar MG

PSDB
Alberto Mourão SP
Manoel Salviano CE

PT
Alessandro Molon RJ
Amauri Teixeira BA
André Vargas PR
Arlindo Chinaglia SP
Artur Bruno CE
Assis Carvalho PI
Assis do Couto PR
Benedita da Silva RJ
Beto Faro PA
Cândido Vaccarezza SP
Carlinhos Almeida SP
Carlos Zarattini SP
Chico D`Angelo RJ
Cláudio Puty PA
Dalva Figueiredo AP
Décio Lima SC
Devanir Ribeiro SP
Domingos Dutra MA
Dr. Rosinha PR
Eliane Rolim RJ
Erika Kokay DF
Fernando Marroni RS
Francisco Praciano AM
Gabriel Guimarães MG
Gilmar Machado MG
Janete Rocha Pietá SP
Jesus Rodrigues PI
Jilmar Tatto SP
João Paulo Lima PE
José Airton CE
José De Filippi SP
José Guimarães CE
José Mentor SP
Joseph Bandeira BA
Josias Gomes BA
Leonardo Monteiro MG
Luci Choinacki SC
Luiz Alberto BA
Luiz Couto PB
Márcio Macêdo SE
Marcon RS
Marina Santanna GO
Miriquinho Batista PA
Nazareno Fonteles PI
Nelson Pellegrino BA
Newton Lima SP
Odair Cunha MG
Padre João MG
Padre Ton RO
Pedro Eugênio PE
Pedro Uczai SC
Policarpo DF
Reginaldo Lopes MG
Ricardo Berzoini SP
Ronaldo Zulke RS
Rubens Otoni GO
Rui Costa BA
Ságuas Moraes MT
Sérgio Barradas Carneiro BA
Sibá Machado AC
Taumaturgo Lima AC
Valmir Assunção BA
Vander Loubet MS
Vicentinho SP
Waldenor Pereira BA
Weliton Prado MG
Zé Geraldo PA
Zeca Dirceu PR

PTB
Alex Canziani PR
Arnaldo Faria de Sá SP
Celia Rocha AL
Danrlei De Deus Hinterholz RS
Eros Biondini MG
José Augusto Maia PE
José Chaves PE
Josué Bengtson PA
Jovair Arantes GO
Nilton Capixaba RO
Ronaldo Nogueira RS
Sabino Castelo Branco AM
Sérgio Moraes RS
Silvio Costa PE

PTC
Edivaldo Holanda Junior MA

PT do B
Lourival Mendes MA

PV
Alfredo Sirkis RJ
Fábio Ramalho MG
Guilherme Mussi SP
Henrique Afonso AC
Lindomar Garçon RO
Paulo Wagner RN
Penna SP
Ricardo Izar SP
Roberto de Lucena SP
Roberto Santiago SP
Rosane Ferreira PR
Sarney Filho MA

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O renascimento do futebol uruguaio


O futebol uruguaio voltou a ser forte. Talvez ainda não seja possível afirmar que a constatação é definitiva, mas o cenário futebolístico recente oferece pistas convincentes para se pensar que estamos diante do renascimento da velha Celeste Olímpica. Bom para o futebol da América do Sul, bom para o futebol mundial.
O Uruguai dominou o esporte durante a primeira metade do século XX, ganhando duas medalhas de ouro em Olimpíadas (Paris 1924 e Amsterdam 1928), fato que rendeu à seleção nacional o apelido de Celeste Olímpica e duas Copas do Mundo, em 1930, realizada no próprio Uruguai e, vinte anos depois, no Brasil. A final do mundial de 1950, disputada no dia 16 de julho daquele ano no estádio Mario Filho, mais conhecido como Maracanã, e construído exatamente para ser palco dos jogos mais importantes do evento, constituiu-se em uma das partidas mais dramáticas do futebol e o resultado, uma enorme zebra. Quanto ao drama, a qualificação é das mais legítimas, visto que a circunstância de uma final de Copa do Mundo é inerentemente dramática, além do que, o Brasil buscava seu primeiro título em mundiais, jogando em casa e com o estádio lotado. Ter saído na frente e depois levar a virada dos uruguaios, só aumentou ainda mais o desespero da torcida e dos jogadores brasileiros. O já falecido goleiro Barbosa foi injustamente apontado como bode expiatório pela derrota e, mais do que ninguém, ele sentiu o drama no fundo da alma, pois passou o resto de sua vida carregando o pesado fardo do fracasso.
Se a dramaticidade do jogo foi violenta, não se pode contudo, como muitos acreditaram e alguns ainda acreditam, defender a ideia de que a vitória da Celeste por 1x2 tenha sido realmente uma zebra. Não foi! Pesou no episódio o velho e manjado ufanismo brasileiro. Relatos dão conta de que o clima de “já ganhou” havia se instalado nas mentes da imprensa e do torcedor verde e amarelo bem antes da bola rolar. Cegueira diante do poderoso adversário, desprezo pela história, deu-se de ombros face à tradição de um escrete bi-campeão olímpico e vencedor da primeira Copa. Como mais tarde escreveria magistralmente Jules Rimet, “tudo estava previsto, menos a vitória do Uruguai”.
Obdulio Varela era o capitão do time em 1950, talvez o exemplo mais perfeito de jogador-líder que o futebol já produziu. Nas conversas que antecederam o jogo e na preleção, foi ele quem tomou a palavra.  Enalteceu os brios e lembrou que futebol se decide dentro das quatro linhas (naquela época, ao menos). Em campo, mostrou a raça e a liderança habituais. No quesito técnico, Andrade, Julio Perez, o soberbo Schiafino e o veloz e oportunista Gigghia se encarregariam do resto. Maracanazzo consolidado, Uruguai campeão, contra tudo e contra todos.
Depois disso o futebol uruguaio foi minguando progressivamente. Ainda se mostrou forte em termos de clubes até os anos 1980, mas a seleção nunca mais conseguiu repetir os feitos grandiosos do passado, exceto por alguns títulos de Copa América, competição que se degradou acentuadamente e incapaz de refazer a grandeza da Celeste. De cerca de vinte e cinco anos para cá, até mesmo os mais tradicionais clubes uruguaios, Peñarol e Nacional, caíram no marasmo, juntamente com a equipe nacional. Francescoli e Recoba foram jogadores acima da média, insuficientes porém para curar a mediocridade de um futebol que parecia condenado a viver apenas de lembranças.
Após décadas de inexpressão, o quadro começou a dar mostras de estar mudando. A Copa da África do Sul em 2010 foi o marco da inflexão. Nessa competição, a campanha da Celeste ficou acima das expectativas, um quarto lugar bastante significativo e o prêmio de melhor jogador do torneio merecidamente concedido a Diego Forlán, craque que apresentou um futebol altamente qualificado nos gramados sul-africanos. Agora em 2011, depois de tanto tempo, o Peñarol resgatou a grande tradição da qual ele mesmo havia se esquecido e voltou à final da Libertadores. É digno de nota e de saudações que a força da camisa Carbonera esteja novamente disputando títulos, sobretudo quando se verifica que as equipes que mais vinham representando o Uruguai na mais importante competição de futebol da América do Sul são times genéricos e sem torcida. Não sei se o Peñarol irá se sagrar campeão, considero o Santos favorito e chego a torcer para que Muricy Ramalho, de longe o melhor técnico em atividade no futebol brasileiro, obtenha sucesso e vença o título continental, mas é fato que a reascensão do futebol uruguaio, passa necessariamente pelo reavivamento de sua tradicional agremiação.
O futebol, a meu ver, ficou mais chato nos últimos vinte e poucos anos, excessivamente defensivo, monótono. Fora de campo, permeado pela celebrização e pelo sucesso fácil. Essa derrocada coincide exatamente com o colapso da tradição uruguaia. Faço votos então, em tempos de um barcelonismo que encanta por ser o antípoda da modorra predominante, para que o renascimento do futebol uruguaio, aquele que, juntamente com o argentino, melhor alia garra e técnica, possa a seu modo contribuir para a valorização desse esporte naquilo que ele possui de mais abrilhantador, algo um tanto raro de se observar em nossos dias.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

"Conhece-te a ti mesmo" - o panóptico interior


O panóptico, assim designado originariamante por Jeremy Bentham ainda no século XVIII e posteriormente muito assíduo na obra de Michel Foucault, é um tipo de construção que passou a ser adotado no século XIX, na Europa e nos Estados Unidos, em edifícios destinados a abrigar sanatórios e prisões de segurança máxima. A conformação de um panóptico se dá de maneira na qual a vigilância sobre os internos de um presídio ou de uma instituição psiquiátrica seja a mais eficaz possível. Em outras palavras, o panóptico segue a lógica do observador que vê sem ser visto. Os motivos que ensejam esse estilo de edificação em se tratando das instituições referidas são bem conhecidos, mais ainda quando se pensa nas prisões em que são encarcerados bandidos de alta periculosidade. É possível que no caso dos sanatórios a ciência psiquiátrica tenha se desenvolvido nos últimos cem anos, o suficiente para que se aposte em modificações desse projeto.
Foucault, como relativista que foi, refletiu sobre o panóptico com o objetivo de criticar a dominação envolvida no processo de vigilância e punição. Não se pode descartar que muitos sanatórios, no passado, e certas prisões até os dias de hoje, praticam métodos inadequados no tratamento de seus internos. Contudo, tais métodos são capazes de atuar independentemente do panóptico e, além disso, é possível objetar que há boas chances de que Foucault jamais tenha se preocupado com métodos punitivos cruéis, mas sim com a obsessão irracional de desancar a ciência. Segundo o pensador francês, os conceitos de loucura e mentalidade criminosa são construídos historicamente, como se o estatuto científico não dependesse de pesquisas, evidências e provas e como se a aferição das descobertas da ciência não fosse externa ao sujeito e baseada em argumentação perante a comunidade científica. O mesmo Foucault que satanizou a ciência, jamais teria artifícios filosóficos para assumir postura crítica com relação a rituais sacrificiais ou ordálias, recorrentes em eras anteriores ao pensamento científico sistematizado.
Ainda que as ideias foucaultianas sejam totalmente falhas em seu historicismo mal arranjado, o pior desse contexto veio através da pena de outros pensadores pós-modernos, tais quais o próprio Foucault, discípulos de Nietzsche, que passaram a usar o conceito do panóptico no intuito de pensar a cultura nos dias atuais. Que a cultura massificada seja de dar nojo, não se discute, mas o entendimento sobre suas causas e seu modus operandi certamente gera as mais grandiosas confusões.
A cultura das celebridades é o que mais está em voga nesse início de século XXI, algo que se apresenta da maneira mais abjeta possível e responsável, se não por todas, no mínimo por grande parte das patologias contemporâneas. Essa celebrização, presente em inúmeras situações do cotidiano, indica claramente que, caso se queira refletir acerca da cultura em termos de panóptico, é necessário assumir que a exposição visual possui agora, mão dupla. O panóptico tradicional, aquele do ver sem ser visto, que inicialmente não se relacionava em nada com temas culturais propriamente ditos, não serve para dar conta de explicar a era das celebridades, cujo mote da exponenciação infinita do estar exposto, pede que todos sejam vistos por todos. Além de sua duplicidade, o panóptico cultural contemporâneo não mais opera com base na relação vertical entre dominadores e dominados, mas sim em uma horizontalidade que configura a vasta rede de olhares entrecruzados. Estar em cena, ser o centro das atenções, ver e ser visto. Eis aí a regra de ouro da celebrização, fenômeno que está necessariamente ligado com a massificação do século XXI. Cabe aqui lembrar que, se é verdade que os pós-modernos não são adeptos da massificação, o antídoto por eles proposto contra esse efeito acaba se voltando contra o feiticeiro, visto que sem autodomínio, o caminho a percorrer só pode ser na direção dos ditames massificados. Lembro ainda, na esteira do que já foi colocado por alguns pensadores, que estamos em um período da história humana em que a cultura é feita pelas próprias massas, de acordo com suas próprias vontades e preferências.
As ideologias mais simplistas e extemporâneas não fazem cerimônia alguma em apontar o capitalismo como substrato fomentador da espetaculização exacerbada. OK, um certo tipo de capitalismo pode estar por trás disso, mas o fatalismo econômico, que enxerga o capitalismo como uma totalidade sem matizes e isolada das outras dimensões socio-históricas, é também outra forma de análise que não tem como oferecer explicações elaboradas a respeito de um problema que se origina em âmbitos profundos da interioridade humana.
A filosofia pós-moderna deu uma nova roupagem à crítica considerada de esquerda. Houve um deslocamento, de Marx e Lenin, para Nietzsche, Freud (interpretado equivocadamente) e Lacan. O esloveno Slavoj Zizek é uma exceção, pois se trata de alguém que utiliza as duas vertentes filosóficas em sua crítica do capitalismo, não evidentemente, sem ser confuso, superficial e, no fim das contas, equivocado do mesmo modo (futuramente, procurarei escrever sobre esse apólogo da chacina revolucionária e da "hipótese" comunista). Segundo essa linha pós-moderna de pensamento, focada na ideia de que o ser humano - a menos que seja instaurada uma ordem "justa" - não é mais do que um falsete (ideia essa que já era comum no próprio Marx), o capitalismo insere nas mentes e nas práticas uma ação destrutiva, anti-ética e alienante. Até aqui, nada diferente do que Marx já havia colocado, mas uma vez que os pós-modernos não acreditam na possibilidade da ação coletiva revolucionária e no aspecto caracteristicamente classista da obra marxiana, adotam o indivíduo como potencial libertador de si próprio. O que esse indivíduo precisa fazer? A resposta pós-moderna informa que ele deve se despojar das normas impostas e das obrigações morais e éticas, todas elas baseadas em construções tornadas supostamente verdadeiras de acordo com o discurso de poder dominante. Daí, assim que libertado das amarras da dominação, tem-se o perfeito super homem nitzscheano. Não mais o proletário revolucionário de Marx, representante de uma classe, mas o sujeito-individual narcisista, portador de vontade e de potência. O que começa com um nobre ideal de liberdade, logo se desmantela face ao culto à irresponsabilidade e à defesa dos impulsos ególatras. Quem não consegue ver que vivemos em uma era de absoluto desprezo no que se refere à ética, à moral e ao autodomínio, aí sim pode, com toda justiça, ser considerado um alienado. Será que a volição irrefreada e o egoísmo narcisista não têm nenhuma responsabilidade no culto às celebridades e na valorização doentia da celebrização dos outros e de si? É claro que têm!
O erro grotesco do pensamento pós-moderno, desde Nietzsche, até chegar em seus seguidores atuais, vem da ilusão tola de que é possível sacudir uma árvore e fazer cair dela apenas os bons frutos. Ao descartar a interioridade humana, confundindo-a com os desejos irracionais e perversos, o pós-modernismo deixa de perceber que a realidade não admite subornos. Não é nada por acaso que as pessoas venham tendo dificuldades enormes em lidar com escolhas, contrariedades e insucessos, inerentes à experiência humana. O pós-modernismo é um tipo de pensamento incapaz de identificar parâmetros, quaisquer que sejam eles, mas essenciais para que o ser humano possa viver em sociedade sem que seja acometido de patologias egoístas. Em suma, o grande equívoco pós-moderno é que sua defesa da liberdade não se baseia no elemento construtivo dessa mesma liberdade, sem o qual inexiste a possibilidade de ser livre. A exacerbação das vontades somente pode resultar em cerceamento da liberdade, aspecto para o qual já chamavam a atenção os grandes juristas da Roma Antiga, bem como muitos da era Moderna, vide, por exemplo, um Samuel Pufendorf. Por outro lado, o autodomínio, posto em prática por meio do controle dos impulsos imperialistas, é o vetor para a liberdade, é o panóptico interior - "conhece-te a ti mesmo" - que nos livra da ignorância e dos desejos incompatíveis com a realidade e com a natureza humana.