quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Ética conservadora e direitos animais


No que se refere às últimas discussões observadas sobre a questão que envolve os direitos dos animais, - e logo de início deve-se deixar claro que tais direitos, sempre que considerados por quem procura respeitá-los, são vistos como uma obrigação da racionalidade humana para com outras criaturas sencientes - é importante derrubar um certo tipo de argumento que, embora rasteiro e totalmente incoerente, aparece de modo recorrente nas discussões acerca do tema.
Todos aqueles que por algum motivo não se importam com a ética em relação aos animais adotam uma postura contraditória sempre que tentam analisar a questão alçando o ser humano a uma condição de suposta superioridade. Estranhamente, essa superioridade assume contornos que muitas vezes desembocam em um rebaixamento do mesmo ser humano que se procurou privilegiar no bojo da argumentação especista. O homem tem direito de fazer o que bem entende com os animais não-humanos? A justificativa dos que respondem positivamente à pergunta tem como cerne a ideia segundo a qual o ser humano, por possuir um cérebro que lhe concede maior capacidade de pensamento racional, é capaz então de dominar a natureza cujas imposições as outras criaturas não conseguem modificar, ao contrário do próprio homem. Nisso a condição humana seria superior e daria direito ao domínio sobre as demais criaturas. Antropológica e biologicamente, é possível contestar esse entendimento: o homem não é o mais forte dentre os animais, nem o mais veloz, nem o melhor nadador, além de não ser capaz de voar. O desenvolvimento da cultura permitiu ao ser humano a capacidade de transformar o ambiente natural, mas a cultura é dinâmica, noção que não se pode perder de vista porque nem sempre as transformações são positivas e também porque a permanente interação do homem com o meio implica na necessidade de mudanças que devemos empreender de acordo com aquilo que a racionalidade e a ética indicam como sendo mais acertado. O homem produz cultura, no entanto, não se situa em um plano externo à natureza, pelo contrário, pertence a ela. Se somos racionais, o que antes de ser um indicativo de superioridade subjetiva é um sinal de diferença objetiva, devemos usar a razão a fim de mantermos uma simbiose com o meio natural e não simplesmente para tratá-lo de maneira irresponsável, ao bel-prazer, sem ética, sem prudência, sem respeito.
Defender uma relação utilitarista sobre a natureza alegando que o estado natural não conhece a ética, como advoga o sr. Luiz Felipe Pondé, além de não enxergar que o atributo ético é uma construção cultural e capaz de oferecer ao homem, nisto sim, um ângulo privilegiado de observação ontológica, peca por ser um raciocínio fortemente incoerente: primeiro coloca o ser humano no pedestal de uma superioridade abstrata e vazia, mas no fim o arrasta para o primitivismo selvagem: o leão caça a zebra, assim como o homem faz testes, confina, mata e come. Afinal, ele considera a espécie humana superior ou igual às demais criaturas? De maneira diferente dos animais não-humanos, entre os quais as ações instintivas excluem a possibilidade de agir fora das determinações do próprio instinto, não possuímos a capacidade de racionalizar, ponderar e fazer escolhas? Lembrando novamente que o dever ético é humano.
Os estudos históricos apontam que muitas vezes, em suas experiências mundanas, o homem relativizou a ética, sendo diametralmente oposta a lição de grandes líderes como Buda ou Jesus Cristo, homens de princípios éticos universais e inabaláveis. O culturalismo relativista, o desprezo para com os padrões acumulados desde os tempos mais remotos, bem como a soberba em relação ao conhecimento do passado, preferindo-se apostar no atípico, no marginal ou no improviso, caracteriza atitude comum de escolas filosóficas que sempre estiveram do lado errado. Ao sr. Luiz Felipe Pondé, que se julga de direita, mas que em se tratando do tema em questão se comporta como um cético esquerdista, afirmo que sou um conservador moral e estou com os animais; quem se contradiz é ele.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Ibi inconstantia


E eis que volto a este espaço após um longo tempo de inatividade. A vontade de escrever esteve em baixa e, ainda permanece, mas talvez hoje tenha havido um laivo suficiente o bastante para me trazer até aqui. Pensei em encerrar com os artigos e deixar que o blog sobrevivesse apenas de seu passado. Vislumbrei que não era o caminho e, logo depois, levantei a possibilidade de acabar em definitivo com o mesmo. Um segundo se passou e refleti que não seria necessário. Não ainda...
Muita coisa errada nesse ínterim, mais do que normalmente já acontece. Só coisa errada, a bem da verdade. Cansa. Não irei me estender e só dividirei com o leitor algumas impressões a respeito do tema da incoerência.
Li um sujeito afirmando que a direita ainda vive a época da Guerra Fria e enxerga o comunismo em tudo que é lugar. Pode ser que ele tenha alguma razão, o que até seria bom. Contudo, onde está a esquerda que, totalmente desprovida de capacidade para erigir qualquer reflexão sobre aspectos verdadeiramente filosóficos, só consegue promover a crítica rasteira de um capitalismo abstrato que nem ela sabe qual é? Se a direita cheira a bolor, a esquerda é farinha de ossos, encerrada não na Guerra Fria, mas no século XIX.
E por falar em aspectos filosóficos, é estranho observar em um país tão repleto de problemas como o Brasil, uma religiosidade predominantemente permeada por aspectos salvacionistas ao invés de servir como instrumento de orientação quanto ao certo e ao errado. E quanto mais preces advindas dessa credulidade vazia, pior fica a nação. Não, não é tão estranho assim...
"Menos prédios e carros, mais parques e bikes". Assim pude ver pichado em muro por aí. Parece bastante justo e "consciente". Mas é possível que não.... A verticalização é um fenômeno derivado do crescimento urbano desordenado, da especulação imobiliária sim, como preferem os esquerdistas "conscientes", - e com quantos cifrões não engordará os cofres da Prefeitura Paulista, uma das cidades com mais especulação imobiliária, o sr. Fernando Haddad, este prefeito de esquerda, prodigamente dotado de "consciência social"?! - mas também, e sobretudo, do crescimento demográfico, ainda alto para um país que deseja sair do lodo do subdesenvolvimento. Engana-se quem pensa que a geração de rebentos é exclusiva dos rincões. Neomalthusianos, uni-vos! Ah..., já ia me esquecendo das bikes que, segundo levantamento do movimento Bicicleta Para Todos, têm 72% de impostos embutidos no valor final ao consumidor, resultando em um sobrepreço de 230% na comparação com outros países. Esquerdistas gostam de bikes, mas também de Estado agigantado e sugador de tributos...
Demografia é um tema interessante, especialmente em época de apoio irrestrito ao movimento gay: perguntam então a um casal de heterossexuais se querem ter filhos, ao que respondem negativamente. E que arregalar de olhos se estampa na face do interlocutor, egrégio paladino da causa homossexual!
E esse capitalismo tupiniquim, entranhado nas práticas econômicas e na mente do povo, é mesmo sui generis. Ouve-se tanto discurso sobre modernização dos clubes, clube empresa, managers, benchmark, marketing e o raio que o parta, porém, é cena corriqueira nos gramados Brasil afora aquela em que se vê um jogador acéfalo comemorar seu gol atirando a camisa pelos ares: no momento em que as câmeras estão todas focadas no sujeito..., cadê os patrocinadores?! Será que nenhum dirigente, nenhum diretor de futebol ou criatura semelhante orienta essa boleirada ignara?!
Bem, talvez seja em função dessas comemorações acima mencionadas que os patrocinadores do futebol estejam se mostrando tão acentuadamente reticentes em oferecer quantias em troca do logotipo estampado nas camisas de times. A estatal Caixa Econômica Federal é quem passou a dominar amplamente o nicho dos patrocínios futebolísticos, desembolsando valores bem acima do mercado e, a despeito de muita gente ser contra tamanha imoralidade, há não poucos que consideram normal ou nem se importam: "não tem problema, é uma verba que seria destinada à propaganda" ou, "que se dane de onde vem o dinheiro, quero ver meu time campeão", como se as verbas de uma instituição pública não devessem ser endereçadas ao público, como se fosse verdade o mantra segundo o qual a CEF concorre normalmente com bancos privados, sem que possuísse monopólio em relação aos direitos do trabalhador. Indigna tanto quanto o próprio fato pensar que grande parte dos que apoiam tal prática vergonhosa sejam defensores do Estado provedor, aquele que funciona como suposto guardião dos bens públicos. É a "esquerda consciente", é a cara do Brasil! Até logo.