quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O Iluminismo e a pós-modernidade


Virou lugar comum após meados do século XX, devido aos estudos de Max Horkheimer, Walter Benjamin, Adorno e Marcuse, membros/colaboradores da decantada e superestimada Escola de Frankfurt e, mais tarde, de acordo com os arautos da desconstrução, Foucault, Deleuze, Derrida e Barthes, julgar que o pensamento iluminista foi o grande responsável pelas desilusões da humanidade, depois que a Belle Époque se tornou poeira ao vento com a Primeira Guerra Mundial, com o nazi-fascismo e o socialismo na ex-URSS, com o crack de 1929 e com a Segunda Guerra Mundial.
Não é necessário demonstrar os inúmeros equívocos, imprecisões e anacronismos cometidos à exaustão pelos pensadores citados no parágrafo anterior. Quem quer ter mais conhecimento sobre o assunto, poderá ler Os dentes falsos de George Washington, de Robert Darnton, O modernismo reacionário, de Jeffrey Herf, ou As razões do Iluminismo e Mal estar na modernidade, ambos do filósofo brasileiro Sérgio Paulo Rouanet. A leitura desses excelentes livros não deixa a menor dúvida de que os críticos do Iluminismo jamais estudaram um texto sequer, de Voltaire, Montesquieu, Condorcet, Diderot, ou mesmo de Rousseau, o menos iluminista de todos os iluministas, e o que mais serve de parâmetro aos neohippies de boutique do século XXI.
Frankfurtianos e desconstrucionistas nunca fizeram mais do que traçar parcos panoramas essencialistas a partir de seus devaneios esquerdopatas, revisionismo marxista com pitadas de Freud. Lixo!
A confusão primária entre a aposta no poder de questionamento, na investigação e na prudência da razão, típicas do Iluminismo, e a fé desmedida, cega e autoritária no Progresso e no cientificismo, característica do Positivismo, ou a indistinção entre a frugalidade iluminista e a idealização e o exotismo românticos, são apenas alguns dos erros mais crassos da crítica pós-moderna ao pensamento do século XVIII. Nunca é demais frisar que o imperialismo e a Belle Époque são crias do século XIX, jamais do XVIII.
Mas o que torna o Iluminismo tão atual nos dias de hoje? Ora, nada mais do que o narcisismo e o egoísmo (ridiculamente confundido com o individualismo, por tantos desavisados e intelectuais desonestos, desde a direita conservadora, até a esquerda dita "revolucionária"), fenômenos típicos da atual sociedade massificada. A defesa da estética "alternativa", do relativismo, do performismo (que faz de qualquer descerebrado uma celebridade, exaltando o sucesso fácil e efêmero como qualidade), da falta de responsabilidade, do descompromisso, da imoralidade, do imediatismo, da descrença na autoridade (autoridade é totalmente diferente de autoritarismo), na democracia, na pesquisa e na ciência, são todas filhas dos manifestos libertários de Foucault, Deleuze e Derrida.
A idéia que faz a cabeça de tantos jovens hoje em dia, isto é, a noção de que uma pessoa é o centro de tudo e o resto que se dane, é uma contribuição macabra do pós-modernismo. É o próprio egoísmo de Narciso. Como tentar fazer quem age assim, entender valores como respeito ao próximo, à Natureza e aos animais? O Iluminismo pode ser uma ótima propedêutica.
Os iluministas jamais defenderam que o Homem controlasse a Natureza para explorá-la, numa relação de total dominação. Defendiam sim que a razão humana poderia ajudar a estabelecer uma postura mais harmônica do Homem com o meio natural, aproveitá-lo sem degradá-lo. Atual ou não? Quem nunca ouviu falar em "desenvolvimento sustentável"?
A razão iluminista é questionadora, procura colocar tudo em dúvida, refletir, pesquisar, examinar, para melhor nos capacitar a viver nesse planeta e poder apreciá-lo, para melhor nos adaptarmos ao que ele oferece de melhor, e também de pior.
O pensamento iluminista é o oposto extremo do descompromisso pós-moderno, pois não crê que exista algo de valor na preguiça e no "deixa assim porque não é comigo" (até parece que não!).
O Iluminismo sempre preservou intacta a diferença entre o certo e o errado, entre liberdade e libertinagem, entre conceito e opinião. Todas as grandes mentes que lutaram por um mundo melhor, também pensaram e agiram, invariavelmente, desse modo. Buda, Leonardo Da Vinci, Gandhi, Martin Luther King..., todos eles, antes e depois do Iluminismo, foram iluministas de algum modo.
Para encerrar, um pouco de otimismo: não é tão improvável que o mundo venha a nos legar outros grandes iluministas! Que assim seja!

11 comentários:

  1. Achei muito interessante o seu texto. Relatando a importância do Iluminismo e suas más interpretações. Acredito que o projeto iniciado ali obviamente não se concretizou logo que a classe dominante percebeu o perigo daquelas idéias tratou de alienar a todos. Ou quase todos... não sei é por ai. Não tenho todo o seu conhecimento mas ao menos é a impressão que tenho... AbraÇo Continue escrevendo, se puder obviamente.
    Giselle
    pavaogi@gmail.com

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  2. Sim Giselle, creio que seja isso mesmo, exatamente o fato de que muitas ideias iluministas não se concretizaram, ou não pelo menos de modo unívoco em todas as partes do planeta - é o que defende o prof. Paulo Sergio Rouanet.
    O curioso é que quando o Iluminismo surgiu, era revolucionário, hoje, seus detratores o associam com uma filosofia conservadora. Sem dúvida, muitas confusões filosóficas e históricas se fazem aí!
    Obrigado pelo comentário!

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  3. uma historia antiga muito importante

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  4. Primeiro: Chamar "lixo" à Escola de Frankfurt, é revelador de pouca "iluminação".
    Segundo: O texto confunde «iluminismo» com «bem» e «iluminista» com «génio». Ao lê-lo, fiquei com a ideia que tudo o que acontece de bom no mundo é por exclusiva influência do iluminismo. Sobre o que achei uma certa graça ao fosso cavado entre o séc. XVIII (ilibado de toda e qualquer responsabilização) e o séc. XIX (fonte de TODOS os males).

    Calma. Em todas as épocas há coisas boas e más. O «bem-comum» não é exclusividade platónico-iluminista; está presente em muitas outras correntes filosóficas. Aliás, a própria Escola de Frankfurt procura cumprir o mesmo projecto da Aufklärung, mas sob uma nova abordagem. Associar Adorno ou Walter Benjamin a fenómenos aberrativos de celebrização fácil como um Big Brother (fenómenos que eles criticavam veemente!) é, também, revelador de uma interpretação superficial e estéril.

    É importante não esquecer o contexto em que a maioria dos colaboradores da Escola de Frankfurt escreveu os seus pensamentos: no exílio, para fugir ao regime nazi, deixando para trás familiares, amigos e as suas próprias vidas, como antes as conheciam. Não se trata de não concordar com os princípios iluministas (com que, de facto, concordavam), o que eles achavam é que o ideal iluminista deveria ser adaptado à nova realidade das massas, da "indústria da cultura". Isto porque, se tudo estivesse bem, a história não os teria conduzido ao nacional-socialismo nazi. A proposta deles parte daí, como diria Nietzsche: "do sangue".

    Há, de facto, imprecisões nas ideias dos autores (os humanos são assim, erram), mas a proposta é válida. Não pode ser liminarmente ignorada, sob pena de se perder um momento crítico de extraordinária importância histórica.

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  5. Luís, vamos lá, procurarei replicar seu comentário.

    Primeiramente, a confusão que você aponta de início me parece um sofisma. Se eu defendo uma escola filosófica, descontado o fato de que nela podem haver matizes, é evidente que a associo a fatores positivos. Daí você afirmar que confundo Iluminismo com "bem" é um argumento que torna a questão comodamente irredutível. Mais estranho ainda me parece a equivalência que você enxerga em meu texto no que se refere a "iluminista" e "gênio", quando eu apenas ressaltei que um iluminista é aquele que procura exercer a razão. A partir disso, caso se queira então pensar em genialidade, fica por sua conta, já que o que fiz foi citar o nome de algumas figuras importantes e que em uma ou outra medida podem ser associadas ao Iluminismo.

    A respeito do que se costuma chamar de Zeitgeist, algo que você traz à tona no comentário, em momento algum eu usei de essencialismo, mas procurei pensar exatamente na direção contrária, uma vez que há um claro equívoco por parte de muitos quando abordam o século XVIII como se tudo nele só tivesse a ver com Iluminismo e como se o mesmo tivesse sido um projeto unívoco e plenamente realizado. Daí para acreditarem que tudo de ruim no XX é obra iluminista, não falta mais nada, e é o que justamente muitos pensadores atuais inculcam nos estudantes. É contra esses que me posiciono. É óbvio que o XVIII gerou coisas boas e más, como qualquer época, inclusive o XIX, que de positivo trouxe avanços notáveis nas ciências biológicas e humanas. Darwin e Tocqueville que o digam...

    Finalmente, sobre sua interpretação dos frankfurtianos, à primeira vista ela me parece bastante original. Não posso aceitar sua ideia de que o irracionalismo típico dessa escola esteja de acordo com a prudência racional do Iluminismo, em todo caso, talvez até seja possível enxergar algo nessa direção em um Horkheimer, por exemplo. Vejo os frankfurtianos, no entanto,como frisei no artigo, muito mais revisionistas do marxismo, misturado com Nietszche e Freud do que "readaptadores de um Iluminismo em época de cultura de massas". Mais do que a minha visão, volto a frisar, isso é o que se pensa e se transmite acerca da filosofia pós-moderna na maior pate das academias brasileiras. E isso é, no meu conceito, um lixo, sem dúvida alguma. Sim, os pós-modernos têm aversão à massificação, eu não afirmei o oposto e nem tampouco eu escrevi que eles acreditavam que o mundo ia ou vai bem, afinal adotam uma concepção pessimista do Ocidente. Eu ironizei no artigo. Agora, é inegável que esses filósofos ditos "libertários" em sua crítica à massificação, defendem uma postura egocêntrica e celebrizadora do indivíduo. É aí mesmo que eles bebem na fonte nietzscheana e, não por acaso, já que é uma forma de tentar redimir o esquerdismo frustrado de cunho marxista-orotodoxo, ou seja, fazer a "revolução" a partir dos próprios indivíduos, não mais focada em classe social. A cultura de massas emburrece de um lado e então, como bem coloca Robert Darnton, os pós-modernos abraçam o irracional como remédio à massificação. Irracionalismo por irracionalismo, eu prefiro ficar com os iluministas. Negar que o pós-modernismo dos frankfurtianos ao menos dê margem ao narcismo atual é cegueira.

    Repito Luís, caso você tenha uma interpretação revisionista dos próprios frankfurtianos, como me parece, seria interessante contar mais sobre ela.

    Abraço.

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  6. *PS: é bom lembrar ainda que o exílio de muitos frankfurtianos não pode ser usado como argumento para contextualizar suas ideias; caberia indagar a partir de qual critério esses pensadores estariam aptos a criticar os movimentos totalitários, uma vez que suas posturas relativistas perdem de vista o certo e o errado.

    Houve tantos outros pensadores de sofisticação intelectual absolutamente superior aos representantes da Escola de Frankfurt, também exilados, tais como Hannah Arendt, Eric Voegelin, Isaiah Berlin ou Czeslaw Milosz, exceto no caso da primeira, lamentavelmente esquecidos hoje no Brasil, que ofereceram análises de enorme perspicácia sobre o século XX, e o que é melhor, livres de egolatria irracionalista.

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  7. Uma vez que alguns leitores que por aqui passam parecem ainda não ter entendido o óbvio, eu o repito: TODO COMENTÁRIO DEVE SER FEITO COM ELEGÂNICA, RESPEITANDO A NORMA CULTA DO PORTUGUÊS E COM O MÍNIMO DE LUCIDEZ.

    A leitora Lucia Medeiros escreveu o que se segue abaixo:

    "Vc Não intendeu NADA de Foucault para colocá-lo ao lado de Deleuze e Derrida...Foucault tem um texto fantástico, aliás dois textos maravilhosos sobre o iluminismo...ë melhor se inteirar antes de falar assim!"

    PRIMEIRO: "intender", eu desconheço.
    SEGUNDO: o adjetivo "maravilhoso" é bastante inadequado para se referir a textos filosóficos.
    TERCEIRO: eu não falei nada, mas sim escrevi.
    QUARTO: o comentário teria sido muito mais pertinente caso a leitora citasse os textos a que se refere, bem como se argumentasse em defesa de sua interpretação.
    QUINTO: é possível que eu não tenha entendido NADA de Foucault, bem mais difícil todavia, é crer que os autores que citei no artigo, além de Carlo Ginzburg, Marshall Berman e Francis Wheen também não o tenham.

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  8. Sem dúvida é a melhor postagem de seu blog !
    Parabéns !

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  9. Pesquisei pós-iluminismo, apareceu pós-modernidade e iluminismo. É a mesma coisa?

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  10. Olá!
    Não, o pós-iluminismo abrange inúmeros conceitos e paradigmas. A pós-modernidade é apenas um deles.
    Você procura exatamente pelo que no âmbito do pós-iluminismo?

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