terça-feira, 26 de julho de 2011

Impressões do Sul (Paraná e Santa Catarina)

Pedra Furada - Urubici/SC

Estive visitando cidades do Sul do Brasil (Paraná e Santa Catarina) juntamente com minha namorada durante este mês de julho. Deixo a seguir algumas impressões que obtivemos em relação aos locais que nos receberam.
Curitiba, capital paranaense, foi o primeiro ponto de parada. Já conhecíamos essa bela cidade de uma viagem anterior, quando desde então, seu charme, seu clima frio, sua limpeza, suas áreas verdes e sua urbanização nos agradaram demais. Dessa vez, paramos apenas para almoçar no bairro Santa Felicidade, que oferece ao visitante grande quantidade de cantinões italianos nos quais o rodízio de massas é fartíssimo. Novamente, foi um prazer estar em Curitiba, ainda que por um período de menos de duas horas.
A viagem seguiu até que, finalmente, já no crepúsculo, chegamos a Blumenau, onde passamos duas noites. A cidade catarinense carrega registros da cultura alemã, identificados principalmente na arquitetura da Vila Germânica e nas cervejarias da região. Vale uma visita ao Museu da Cerveja, modesto e de acervo tímido, mas instrutivo e simpático. É curioso notar como os tempos mais antigos da história da cerveja vão em sentido oposto ao consumo imoderado que dela se faz hoje. Para se ter uma ideia, na Idade Média a bebida era fabricada nos mosteiros... Falando em instituições religiosas, a Igreja Luterana de Blumenau é merecedora de atenção por parte do turista que vai à cidade. De bonita arquitetura, o templo não deixa dúvidas quanto ao germanismo trazido pelos primeiros colonizadores da região, adeptos das ideias do reformador de Wittenberg.
Em termos gerais, Blumenau transmite organização e bom planejamento, mas ficou a impressão de que lhe falta um pouco de vida, pois no domingo em que passeamos por ela, a grande maioria do comércio, incluindo bares e restaurantes, estava fechada, passando acentuada sensação de desterro. A despeito disso, cabe observar que no fim de tarde e à noite, o agito aumenta um pouco, com a abertura de alguns restaurantes.
Após as duas noites em Blumenau, deixamos a cidade e fizemos uma parada em Pomerode, possuidora de certa fama devido ao rótulo de "cidade mais alemã do Brasil". Ao turista, no entanto, um aviso: essa propalada cultura germânica não é nada evidente ao sentido visual, ficando muito mais por conta da descendência dos habitantes; nada de arquitetura ou algo mais concreto. Como ficamos pouquíssmo tempo, talvez eu esteja sendo injusto e tenha deixado de procurar por algum museu, por exemplo. Apesar do pouco apelo turístico, há em Pomerode uma ou outra loja capaz de atrair o visitante em busca de chocolates e artesanato local.

Urubici/SC

Depois da breve visita a Pomerode, saímos da região do Vale Europeu e seguimos na direção da Serra Catarinense até a cidade de Urubici, onde permaneceríamos por mais tempo, quatro noites. O forte da região são as belezas naturais, representadas por formações rochosas de altitude, grutas, cânions, cachoeiras, lagos, riachos e a típica vegetação de campos, salpicada, aqui e ali, pelos capões compostos da majestosa Araucária, o inconfundível pinheiro do Sul do Brasil.

Gralha Azul em Urubici/SC

Aproveitamos a estadia mais prolongada para conhecer essas paisagens magníficas, pouco tocadas pela mão destruidora do ser humano e para descansar na estalagem onde nos hospedamos, situada igualmente em local de exuberante e paradisíaca natureza (se alguém quiser, passo o contato). Trilhas, ar puro, pássaros, Cookie e Bala, dois cães extremamente dóceis e companheiros, a ótima cabana com lareira, bem como as excelentes refeições que nos foram preparadas, isentas dos inúmeros malefícios da carne, proporcionaram toda satisfação e conforto.

 Vegetação típica em Urubici/SC

Costumo afirmar que país nenhum possui belezas naturais tão fartas e variadas quanto o Brasil, talvez o único ponto positivo que temos a destacar nesta nação, todavia, até nisso há defeitos graves, visto que muitos acessos são ruins, perigosos e mal sinalizados. Hoje em dia, as nações desenvolvidas têm no turismo uma atividade altamente rentável, sendo que o caso específico do ecoturismo, - totalmente aplicável no Brasil se não fosse pela falta de visão e interesse - quando bem planejado, deve ser visto como fator essencial na preservação da natureza. Permanecemos atrasados, muita vezes na contramão do desenvolvimento. Se a mentalidade capitalista e progressista em nosso país chega a ser rara mesmo nos grandes centros urbanos, nos rincões, está completamente ausente. Tome-se como exemplo o produtor de geleias artesanais em Urubici: ele expõe seus produtos numa cabaninha em meio à estrada de terra, só se para no local com informação obtida de antemão, nenhuma publicidade, nenhum chamativo. Depois de adquirirmos potes de geleia, muito boa, por sinal, (alguém já se deliciou com geleia de Physalis?) sugerimos que ele devesse aumentar sua exposição, vender no centro da cidade, tornar a coisa mais lucrativa, e então ele nos disse que vende no Supermercado Urubici. Fomos checar e constatamos que havia meia dúzia de potinhos escondidos num canto de balcão no fundo da loja. Esse é o pequeno produtor que, além de tudo, ainda paga pesados impostos ao governo, enquanto isso, ainda há aqueles que falam em "neoliberalismo" e "marxismo revolucionário como alternativa para o século XXI"...
Nesses dias serranos, encontramos tempo para uma ida até São Joaquim, famosa pela ocorrência de nevascas, fenômeno que também se verifica na vizinha Urubici. Mais um exemplo de precariedade turística e ausência de desenvolvimento, a cidade possui aspecto cinzento e descuidado, o que revela inexplicável desinteresse das autoridades em explorar economicamente o turismo. É sabido que neva na cidade, mas ao mesmo tempo, improvável que um turista recomende São Joaquim depois de conhecê-la. Urubici é mais jeitosa, mas nem por isso mais procurada, ao contrário, poucos sabem da existência desse refúgio ecológico. E que não venha ninguém dizer que se houvesse divulgação, perderia a vocação ecoturística. Suiça, Noruega, Finlândia, Austrália e Nova Zelândia são exemplos que desmentem categoricamente as visões românticas terceiromundistas.

Forte de São José - Florianópolis/SC

Ao fim da estadia em Urubici, deixamos para trás o campo, naquilo que ele tem de natural e ecológico, seus traços positivos, para alcançar uma etapa mais bem mais urbana na capital de Santa Catarina, Florianópolis. Belíssima cidade, metropolitana, mas sem desprezar as áreas verdes e as bonitas praias, vazias nessa época de temperaturas mais baixas, por isso mesmo, mais atraentes ao turista que mantém aversão à bagunça. São passeios imprenscindíveis que vão além das praias: Forte de São José, - edificação do século XVIII construída em pedra, muito bem conservada, de grande valor histórico e que, como não poderia deixar de ser, oferece visão privilegiada do mar - mirante da Lagoa da Conceição, Centro Velho e Avenida Beira-Mar, local onde Florianópolis faz perceber de maneira clara que é uma cidade possuidora de urbanização e voltada para o lazer e conforto do habitante-cidadão. Oxalá possa permanecer assim, para tanto, o trânsito volumoso em alguns horários e as ocupações irregulares nos morros que circundam o perímetro urbano são problemas merecedores da mais alta atenção. À noite, o turista que vai à Floripa não deixará de contar com variada gama de restaurantes e pizzarias, presentes em praticamente toda a extensão da ilha. Tente tirar uma foto noturna da Ponte Hercílio Luz, o efeito pode ser bem interessante.

Arenitos em Vila Velha/PR

O último ponto do nosso roteiro constituiu-se de uma visita ao Parque Estadual de Vila Velha, em Ponta Grossa, Paraná. Impossível não ficar maravilhado com os Arenitos, formações rochosas que remetem aos períodos Paleozóico e Mesozóico, continuamente esculpidos pela erosão que lhes confere as mais curiosas e impressionantes formas. Se der sorte de estar um dia limpo, como foi nosso caso, a coloração avermelhada das rochas e sua geometria recortada se combinam singularmente com a vegetação de Cerrado/Campos e com o azul do céu, compondo paisagem de beleza intensa. Na segunda metade da trilha dos Arenitos, que é opcional, o visitante percorre um bosque no qual o silêncio é totalmente recomendável, único modo de aproveitar melhor o contato com a natureza e permitir a chance de ver alguma espécie da fauna local. Aos finais de semana é bem mais difícil contar com esse silêncio, pois se torna recorrente a presença de famílias numerosas e desavisadas que fazem a visitação juntamente com crianças barulhentas e mal educadas, assim como seus próprios pais. As Furnas, lagoas formadas pelo desabamento de rochas, e a Lagoa Dourada (nada dourada, dependendo da época do ano) completam o passeio, embora não sejam essenciais como os Arenitos.
Essas são as impressões que colhemos ao longo da viagem, reveladoras de parte das inúmeras belezas naturais de um país que ainda está longe de oferecer estrutura turística, cabendo ao viajante paciência, organização, informação, esforço, cuidado e espírito de aventura, aspectos exigidos para que se desfrute de momentos de lazer em harmonia com corpo, mente e com a preservação da natureza.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Isenção fiscal para o "Indecentão" e as cifras inexplicáveis


Voltei de viagem e logo estarei postando a respeito da expedição que realizei em certos locais do Sul do Brasil. Antes, porém, devo escrever sobre o assunto Copa do Mundo no Brasil em virtude da oficialização por parte da Prefeitura da Cidade de São Paulo, da isenção fiscal de R$ 420 milhões concedida ao SCCP para a construção de seu estádio, que deverá abrir a competição.
Não faço a menor questão dessa malfadada Copa - que usará e abusará de recursos públicos - em solo brasileiro, muito menos no Estado de São Paulo. Farei questão, isso sim, de estar bem distante do país no exato período em que o torneio irá se realizar e, para tanto, já começo a planejar uma viagem ao exterior, o que me poupará, ao menos em parte, da idiotice, da falta de indignação perante os absurdos e do ufanismo, elementos típicos da cordialidade brasileira, ao contrário do que pensa o péssimo comentarista e historiador de botequim, o Sr. Lúcio de Castro, da ESPN Brasil.
Dito isso, ainda que eu não dê a mínima para a competição em si, ela que se tornou não mais do que um evento particular da FIFA, com todos os seus escândalos de corrupção, como cidadão, não posso me furtar à própria indignação diante das ignomínias da classe política e dos dirigentes esportivos do país. O prefeito, Sr. Gilberto Kassab, afirmou durante o evento da assinatura da isenção, que a abertura da Copa sendo realizada em Itaquera, a cidade obterá um retorno de mais de R$ 1,5 bilhão (ele não considera os valores que a Prefeitura deixará de arrecadar devido à isenção, o que reduzuria essa soma). Pergunto onde está o estudo que permite tal asseveração, se é que o mesmo existe. Se existir, quem o fez? Por que nenhuma autoridade ou especialista ainda não veio a público explicar detalhadamente como se alcançará essa cifra?
Supondo que haja estudo comprovando o valor declarado e que alguém venha futuramente a detalhá-lo, - e aqui seria preciso estar imbuído de uma esperança muito inverossímil - ainda assim permanecem aspectos totalmente inexplicáveis. O Palmeiras está construindo um estádio com capacidade praticamente igual ao de Itaquera, sendo que o custo é quase 2,5 vezes inferior, além do que as verbas utilizadas são inteiramente particulares. Caso a abertura da Copa fosse realizada na Arena Palestra Itália, sem ter que conceder centavo algum de isenção fiscal, a Prefeitura poderia obter a mesma quantia de retorno que ela própria garante que atingirá. Ou seja, os lucros seriam bem maiores, aproximadamente de R$ 1,1 bilhão com Itaquera, contra R$ 1,5 bilhão no caso do estádio palmeirense, uma diferença, para mais, de R$ 400 milhões, valor superior, inclusive, ao custo da Arena Palestra Itália.
Nenhum político ou dirigente traz esses dados à tona e os coloca em discussão, o mínimo que se esperaria em uma real democracia. Por outro lado, pululam os discursos vazios, recheados de informações estranhas e duvidosas, enquanto muita gente idiota comemora, achando o máximo o fato de que seu time terá um estádio. Esses mesmos são aqueles que continuarão a ter seu dinheiro usurpado devido à excessiva carga tributária brasileira, e os mesmos também que não podem contar com serviços públicos básicos minimamente qualitativos, tais quais educação, saúde, segurança e transporte. Esse é o país da Copa, esse é o país em que vivemos. É a cara do Brasil!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Urbanização à brasileira: o problema das ciclovias em São Paulo


O conceito de urbanização envolve a otimização do espaço urbano de modo a conferir qualidade de vida ao habitante, oferecendo-lhe condições e serviços, tais como moradia, transportes, vias de circulação, asfaltamento, rede de esgoto e água encanada, iluminação, coleta de lixo, segurança pública, escolas, creches, hospitais, postos de saúde, correspondência, comércio e emprego.
É esquisito que muitos livros didáticos de Geografia produzidos no Brasil, quando se põem a abordar o tema “cidades”, usem o termo “urbanização” para se referir a nações subdesenvolvidas. Ora, uma vez conhecido o exato conceito de urbanização, nada mais evidente do que a percepção da inexistência desse tipo de processo em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Cidade do México, nas quais o enorme contingente populacional agravou drasticamente a própria ausência disso que se entende por urbanização. Talvez esse uso inadvertido do conceito esteja atrelado à falsa ideia, nutrida por muita gente, de que qualidade de vida significa ir ao shopping fazer compras e comer sanduíches insípidos, deturpação típica da atual era de massificação, que leva os incautos a confundir prazer com felicidade, divertimento efêmero, com qualidade de vida. Sendo assim, nos vemos obrigados a adjetivar, isto é, pensar em “urbanização à brasileira”, por exemplo, ainda que não se possa esquecer o correto entendimento de que urbanização, na acepção do termo, se refira exclusivamente ao mundo desenvolvido, enquanto que em países como o Brasil, deve-se usar “crescimento urbano”.
Atualmente, o trânsito caótico em cidades como São Paulo e a poluição atmosférica gerada pelos motores a combustão levou à discussão sobre a utilização de meios de transporte alternativos, sendo a bicicleta o mais comum entre eles. A princípio, é um debate dos mais salutares, mas em muitas situações as pessoas pensam em soluções adequadas, porém, adotam meios desastrosos para objetivá-las. Em vários países europeus a bicicleta é correntemente utilizada no dia-a-dia, serve, em dias de semana, note-se bem, para que os habitantes sejam conduzidos de casa para o trabalho e vice-versa. No centro de Firenze, por exemplo, não são permitidos veículos automotores particulares, em Amsterdam, Berna ou Copenhague, são avistadas cerca de cinco bicicletas, quando não mais, para um carro. Nessas cidades existe uma cultura voltada para o uso de bicicletas, a começar pela educação da população, que respeita o ciclista em sua vulnerabilidade inerente quando em trânsito. As ciclovias são implantadas criteriosamente, havendo até mesmo faróis específicos para os ciclistas. O volume de trânsito, que já seria menor em vista de populações bem mais diminutas, reduz-se ainda mais acentuadamente em uma estrutura que se organizou racionalmente para ajustar problemas passíveis de ocorrer em meio urbano. Este é um tipo de situação exemplar para se pensar em urbanização e qualidade de vida. É uma situação europeia.
Em São Paulo, uma das mais antigas ciclovias, se não a mais antiga, situa-se na Avenida Sumaré, zona oeste da capital. Possui em torno de 1,3 km de extensão e fica no canteiro central da avenida. É uma ciclovia viável, na qual os ciclistas ficam bem protegidos dos veículos. Poderia e deveria ter sido ampliada, mas não o foi. Falta-lhe manutenção, não há recapeamento e a grama do canteiro vira mato deixado livre para crescer por eras a fio. Além disso, o que era uma ciclovia, transformou-se também em pista de cooper. É uma característica lamentável do Brasil que não se mantenha em boas condições aquilo que já existe, mais ainda quando o que existe possui a rara condição de ser bom.
Ao mesmo tempo em que a ciclovia da Sumaré é relegada ao limbo e que nota-se a ausência de um projeto bem raciocinado para uso de transporte alternativo na cidade, as autoridades paulistanas resolveram de uns meses para cá enxertar de maneira totalmente impensada e quixotesca, um trecho de “ciclovias” que perpassa regiões a oeste e sul de São Paulo. O tal trecho, que opera somente aos domingos, não passa de uma faixa de trânsito que fica fechada e separada por cones das outras nas quais trafegam os veículos. Tosco, é o que melhor pode definir uma coisa desse tipo! A falta de planejamento é tão escancarada que esse arremedo de ciclovia se faz presente em algumas vias de maior circulação e onde os motoristas costumam desenvolver velocidades mais elevadas. Em suma, um Frankstein, uma úlcera, um tumor enxertado nas ruas de São Paulo, algo que não tem relação alguma com a implantação de transporte alternativo e cujo efeito mais palpável é tornar o trânsito congestionado até mesmo aos domingos, o dia mais adequado para que o cidadão use veículos automotores. 
A gestão de Gilberto Kassab se revela pior a cada dia. Dentre tantos outros graves defeitos, um engenheiro civil que deveria possuir conhecimentos mínimos a respeito de urbanização, permite que uma ciclovia-tumor seja implantada na cidade. Não me surpreenderei se em 2012 Paulo Maluf sair novamente como candidato a prefeito, ele também engenheiro e, assim como Kassab, uma nulidade em termos de urbanização, cujo mote sempre foi o de construir obras faraônicas para a circulação de veículos automotores, incapaz de qualquer visão de longo prazo sobre os problemas do trânsito em São Paulo. Estamos bem servidos... 
Em cidades nas quais ocorreu urbanização, a população advinda do êxodo rural, fenômeno tornado cada vez mais comum a partir do século XVIII e intensificado no XX, foi absorvida e bem alocada no espaço urbano, processo que se deu concomitantemente ao crescimento dessas tais cidades, a grande maioria delas, situada nos países desenvolvidos.


* PS: o blog ficará sem postagens novas por cerca de 20 dias; boas férias para aqueles que as estarão gozando e até o retorno.