quarta-feira, 6 de julho de 2011

Urbanização à brasileira: o problema das ciclovias em São Paulo


O conceito de urbanização envolve a otimização do espaço urbano de modo a conferir qualidade de vida ao habitante, oferecendo-lhe condições e serviços, tais como moradia, transportes, vias de circulação, asfaltamento, rede de esgoto e água encanada, iluminação, coleta de lixo, segurança pública, escolas, creches, hospitais, postos de saúde, correspondência, comércio e emprego.
É esquisito que muitos livros didáticos de Geografia produzidos no Brasil, quando se põem a abordar o tema “cidades”, usem o termo “urbanização” para se referir a nações subdesenvolvidas. Ora, uma vez conhecido o exato conceito de urbanização, nada mais evidente do que a percepção da inexistência desse tipo de processo em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Cidade do México, nas quais o enorme contingente populacional agravou drasticamente a própria ausência disso que se entende por urbanização. Talvez esse uso inadvertido do conceito esteja atrelado à falsa ideia, nutrida por muita gente, de que qualidade de vida significa ir ao shopping fazer compras e comer sanduíches insípidos, deturpação típica da atual era de massificação, que leva os incautos a confundir prazer com felicidade, divertimento efêmero, com qualidade de vida. Sendo assim, nos vemos obrigados a adjetivar, isto é, pensar em “urbanização à brasileira”, por exemplo, ainda que não se possa esquecer o correto entendimento de que urbanização, na acepção do termo, se refira exclusivamente ao mundo desenvolvido, enquanto que em países como o Brasil, deve-se usar “crescimento urbano”.
Atualmente, o trânsito caótico em cidades como São Paulo e a poluição atmosférica gerada pelos motores a combustão levou à discussão sobre a utilização de meios de transporte alternativos, sendo a bicicleta o mais comum entre eles. A princípio, é um debate dos mais salutares, mas em muitas situações as pessoas pensam em soluções adequadas, porém, adotam meios desastrosos para objetivá-las. Em vários países europeus a bicicleta é correntemente utilizada no dia-a-dia, serve, em dias de semana, note-se bem, para que os habitantes sejam conduzidos de casa para o trabalho e vice-versa. No centro de Firenze, por exemplo, não são permitidos veículos automotores particulares, em Amsterdam, Berna ou Copenhague, são avistadas cerca de cinco bicicletas, quando não mais, para um carro. Nessas cidades existe uma cultura voltada para o uso de bicicletas, a começar pela educação da população, que respeita o ciclista em sua vulnerabilidade inerente quando em trânsito. As ciclovias são implantadas criteriosamente, havendo até mesmo faróis específicos para os ciclistas. O volume de trânsito, que já seria menor em vista de populações bem mais diminutas, reduz-se ainda mais acentuadamente em uma estrutura que se organizou racionalmente para ajustar problemas passíveis de ocorrer em meio urbano. Este é um tipo de situação exemplar para se pensar em urbanização e qualidade de vida. É uma situação europeia.
Em São Paulo, uma das mais antigas ciclovias, se não a mais antiga, situa-se na Avenida Sumaré, zona oeste da capital. Possui em torno de 1,3 km de extensão e fica no canteiro central da avenida. É uma ciclovia viável, na qual os ciclistas ficam bem protegidos dos veículos. Poderia e deveria ter sido ampliada, mas não o foi. Falta-lhe manutenção, não há recapeamento e a grama do canteiro vira mato deixado livre para crescer por eras a fio. Além disso, o que era uma ciclovia, transformou-se também em pista de cooper. É uma característica lamentável do Brasil que não se mantenha em boas condições aquilo que já existe, mais ainda quando o que existe possui a rara condição de ser bom.
Ao mesmo tempo em que a ciclovia da Sumaré é relegada ao limbo e que nota-se a ausência de um projeto bem raciocinado para uso de transporte alternativo na cidade, as autoridades paulistanas resolveram de uns meses para cá enxertar de maneira totalmente impensada e quixotesca, um trecho de “ciclovias” que perpassa regiões a oeste e sul de São Paulo. O tal trecho, que opera somente aos domingos, não passa de uma faixa de trânsito que fica fechada e separada por cones das outras nas quais trafegam os veículos. Tosco, é o que melhor pode definir uma coisa desse tipo! A falta de planejamento é tão escancarada que esse arremedo de ciclovia se faz presente em algumas vias de maior circulação e onde os motoristas costumam desenvolver velocidades mais elevadas. Em suma, um Frankstein, uma úlcera, um tumor enxertado nas ruas de São Paulo, algo que não tem relação alguma com a implantação de transporte alternativo e cujo efeito mais palpável é tornar o trânsito congestionado até mesmo aos domingos, o dia mais adequado para que o cidadão use veículos automotores. 
A gestão de Gilberto Kassab se revela pior a cada dia. Dentre tantos outros graves defeitos, um engenheiro civil que deveria possuir conhecimentos mínimos a respeito de urbanização, permite que uma ciclovia-tumor seja implantada na cidade. Não me surpreenderei se em 2012 Paulo Maluf sair novamente como candidato a prefeito, ele também engenheiro e, assim como Kassab, uma nulidade em termos de urbanização, cujo mote sempre foi o de construir obras faraônicas para a circulação de veículos automotores, incapaz de qualquer visão de longo prazo sobre os problemas do trânsito em São Paulo. Estamos bem servidos... 
Em cidades nas quais ocorreu urbanização, a população advinda do êxodo rural, fenômeno tornado cada vez mais comum a partir do século XVIII e intensificado no XX, foi absorvida e bem alocada no espaço urbano, processo que se deu concomitantemente ao crescimento dessas tais cidades, a grande maioria delas, situada nos países desenvolvidos.


* PS: o blog ficará sem postagens novas por cerca de 20 dias; boas férias para aqueles que as estarão gozando e até o retorno.

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