terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O que Buda disse. E o que não disse


O sr. Olavo de Carvalho, filósofo a quem respeito por muito mais do que uma opinião, não sendo à toa o fato de seu site estar linkado neste blog, dá mostras de não compreender o budismo, o que é uma enorme pena! Em um artigo (“Meus caros críticos II” - www.olavodecarvalho.org/semana/120204msm.html) no qual responde a seu crítico Júlio Lemos, Olavo afirma não haver contradição em associar budismo e socialismo, isso porque há alguns anos o Dalai Lama se declarou marxista em termos políticos e sociais.
Ora, Olavo bem deve saber que não é porque uma pessoa - no caso o Dalai Lama, por mais que este seja o líder budista - dá uma declaração a respeito de suas concepções, que isso basta para que seja possível associar filosofias tão amplamente antagônicas quanto o budismo e o marxismo. A contradição em questão deve recair inteiramente sobre o Dalai Lama que, isso sim, cometeu um tremendo equívoco, tanto mais grave na medida em que os budistas tibetanos sofrem perseguição execrável do governo comunista chinês, assim como ocorre com os seguidores de Buda por parte do poder instituído em Mianmar.
A filosofia budista é totalmente fundada em princípios morais, no autodomínio, princípio que põe o indivíduo em primeiro plano, e na compaixão, elementos notoriamente contrários ao marxismo. Aqueles que tentam limpar a teoria de Marx das relações claras com a violência, com o ódio de classe e com os genocídios perpetrados pelas experiências nela inspiradas, assim como o Dalai Lama, estão a incorrer em contradição. Sobretudo no que tange às questões de fundo moral, é preciso ser dito, o budismo oferece reflexões muito mais precisas do que o cristianismo, do qual a mácula da Inquisição não pode ser apagada.
Como um filósofo que guarda lugar tão importante e justo para as discussões envolvendo a imaginação moral e conhecedor da obra de Irving Babbitt, o mais brilhante diálogo de um pensador ocidental com os ensinamentos de Buda, me parece bastante estranho que Olavo endosse qualquer aproximação entre budismo e socialismo. Prefiro acreditar que ele tenha feito tal afirmação somente no afã de responder a seu adversário e, como também é de seu conhecimento, inclusive mencionado no artigo em questão, existem contradições no pensamento dos teólogos da libertação, que produzem uma mescla esdrúxula entre cristianismo e marxismo. Quem já não foi pego de assalto ao ouvir a máxima: “Jesus Cristo era comunista”? Nessa caso, quem estaria se contradizendo, o cristianismo ou os teólogos da libertação?! Se deixarmos de apontar que o equívoco é destes, seríamos obrigados a não enxergar contradição na associação entre cristianismo e marxismo.
Para finalizar, cabe deixar claro que os milenares ensinamentos de Buda não devem jamais ser confundidos com as pseudofilosofias pós-modernas que estiveram em moda até pouco tempo, hoje já merecidamente padecendo do esquecimento, tais quais o transcendentalismo zen e o misticismo oriental, cujo principal guru é o sr. Fritjof Capra, defensor do irracionalismo, o que se mantém em completa oposição ao budismo, filosofia essencialmente racional. Como mostrou tão bem o historiador Robert Darnton, essa linha de pensamento é responsável por uma patética idealização do Oriente, aquela velha forma essencialista que cria um abismo tolo e intransponível entre ele e o Ocidente (poucos são os que se lembram que o cristianismo surgiu no Oriente). Curiosamente, no mesmo artigo que eu trouxe à baila, Olavo cita palavras do economista Cláudio de Moura Castro, segundo as quais os brasileiros (e acrescento: não apenas eles) não leem o que um autor escreve, mas sim o que imaginam que ele pensou. A asserção é absolutamente correta e vale tanto para o Dalai Lama e o budismo, como para qualquer outra filosofia.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Os idiotas


Norbert Elias escreveu Os alemães para explicar a longa gênese que culminou no pensamento nazista na Alemanha. João Fabio Bertonha é autor de Os italianos, obra que busca traçar o DNA histórico-cultural do povo da bota. Há mais outros exemplos de estudos que procuram desvendar histórias a partir da nacionalidade, mas no caso do Brasil, bastaria algo como “Os idiotas” e já seria possível perceber que o escopo estivesse a tratar deste país. O Brasil é uma nação onde predominam idiotas, o tempo todo, do primeiro até o último dia do ano, contudo, é no Carnaval, manifestação indefectível do cretinismo identitário tupiniquim, que a idiotice se torna mais nítida e recorrente.
Ao longo dos últimos dias, navegando pela Internet, me deparo com notícias do tipo: “fulana de tal diz que se prepara o ano inteiro para o Carnaval”; “membro do Filho de Gandhi confirma a fama e beija quatro mulheres em vinte minutos”; “garotas em Salvador avisam aos homens que é só chegar; “Lívia Andrade afirma que desfilar com os seios de fora é mais prático”; apuração em São Paulo tem confusão e vandalismo”. São apenas alguns dos disparates que marcam a idiotice acentuada do período carnavalesco.
Mulheres sendo tratadas como objetos descartáveis. Elas poderão reclamar?! Homens inseguros tentando provar masculinidade. O que pensariam se outros como eles fizessem o mesmo com suas irmãs? Pessoas que enxergam a si próprias somente como números, quantidade ao invés de qualidade, adeptos da insalubridade bucal e genital. E Lívia Andrade, quem é ela? Tem algum talento, alguma chance de aparecer sem que seja nua num desfile de “escola” de samba? Que exemplo oferece para o público feminino?
É comum ouvir mulheres na faixa etária que vai dos vinte e poucos aos trinta anos reclamarem que os homens não querem nada sério. O problema é que elas mesmas são bastante responsáveis por essa situação, pois enquanto adolescentes, - não só cronológica, mas também mentalmente - não se fazem de rogadas em servir de número aos machões. Os mais recatados, que não tomam parte da idiotice, demoram mais tempo até encontrar alguém, mas quando encontram, geralmente se estabelecem. Aí então, quem restou? Ora, os machões já mais velhos, sem os mesmos músculos, com as gorduras bem pronunciadas e o mesmo cérebro vazio de sempre. Uma vez idiota, idiota sempre. Idiotas de ambos os sexos se merecem.
No último dia de Carnaval tivemos a apuração dos desfiles das “escolas” de samba de São Paulo. As cenas protagonizadas pelos tantos idiotas presentes no Anhembi são trágicas porque os prejuízos causados são pagos com dinheiro do contribuinte. Só de pensar que essas “escolas” recebem dinheiro público dá uma vontade enorme de fazer justiça com as próprias mãos, e escrevo isso como adversário ferrenho da anarquia e defensor convicto das leis da sociedade. Quando se tem uma torcida de futebol que virou também “escola” de samba homenageando uma figura desprezível como Lula, um sujeito vivo, presidente da República até ontem, cujo partido ocupa o poder e que pode ainda voltar ele mesmo ao cargo de comandante máximo do país, em uma explícita forma de campanha política, fica difícil acreditar que algo possa se transformar pelo caminho do bem em uma nação de idiotas como o Brasil. E não coloco essa ideia para alfinetar a torcida do time incolor, já que vale exatamente da mesma forma para a Mancha Verde, que inclusive, jamais defendi. Torcedores deveriam se perguntar quanto uma torcida (des)organizada paga ao clube para usar seu escudo... geralmente, não só não pagam nada, mas ainda recebem... Caso todo esse pessoal que costuma ficar indignadíssimo com Carnaval e futebol agisse do mesmo modo com relação aos descalabros da política nacional, o país seria melhor, porém, o zé povinho tupiniquim em toda sua idiotice, fornece o molde mais do que perfeito para o pão e circo.
Se o lado trágico dos fatos da apuração é inconteste, a parte cômica não passa batida, afinal de contas, já que a idiotice carnavalesca é tão óbvia e não vai deixar de se fazer presente, quem está fora disso deve aproveitar a mixórdia para rir um pouco! Brasileiro: povo alegre, festeiro... bem feito para a imprensa, sobretudo a nefasta Globo, que tenta enfiar o adesismo goela abaixo. Que vá para o inferno com seu IBOPE! Após o desfecho tragicômico da apuração no Anhembi, comentaristas debatiam os fatos numa rádio FM, lá pelas tantas, um ouvinte enviou a seguinte mensagem: “país lixo”. Então, um dos comentaristas, com medo de se comprometer e assolado pelo polticamente correto e por aquele velho patriotismo anódino disse: “o Brasil não é um lixo, alguns lixos fazem parte dele”. Alguns?! Faz-me rir, haja lixo, haja idiotas! É a cara do Brasil!

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A escolha moral que envolve a alimentação


Os sistemas socioeconômicos, em última análise, são abstrações, conceituação importante, mas esquecida pela maioria dos indivíduos. Isso porque quem determina os moldes concretos e os caminhos que a sociedade toma - e hoje seria corretíssimo pensar em termos de humanidade - são as pessoas, por meio de sua imaginação e das escolhas morais. É altamente necessário, de acordo com todos os grandes filósofos, ter uma diretriz capaz de reger a existência pessoal.
Talvez nada seja tão fácil de encontrar hoje em dia como aqueles que são antiamericanos e se põem contra o capitalismo. Muitos desses, ao mesmo tempo, são adeptos do Big Mac e consomem frequentemente montanhas de carne, mais ou menos o equivalente a 260 animais inteiros no período de um ano. A meu ver, o domínio das grandes corporações e os subsídios que tomaram o lugar da competitividade e do empreendedorismo, situação observável em países como EUA, China, Rússia ou Brasil, estão muito mais relacionados com o socialismo do que com o velho capitalismo puritano estudado por Max Weber. A nomenclatura mais comum para designar essa atual configuração econômica tem sido “capitalismo de estado”, porém, pouco importa a atribuição do nome. Hoje não vou escrever diretamente a respeito de economia política, meu objetivo é propor uma reflexão sobre as implicações que as escolhas pessoais têm com relação a uma extensa série de fatores que, em maior ou menor grau, interferem nos caminhos citados no primeiro parágrafo.
Hoje em dia nos EUA, 99% da carne consumida, considerando aves, porcos, bois e até peixes, provêm de criações industriais. Para quem ainda não sabe, esse tipo de criação, envolve o pior trato possível dos animais, submetidos a confinamento (não é confinamento num cercado, mas sim em espaços exíguos, similares a uma folha de papel A4 no caso das aves, ou a um cubículo de 1,5m X 1,5m para porcos; bois têm espaço um pouco maior, todavia, proporcionalmente também irrisório), regimes artificiais de engorda, antibióticos dados como alimento e técnicas de abate que pressupõem, muitas vezes, escaldamento vivo, para ficar em apenas um único exemplo. Fora dos EUA, por aproximação, é possível estimar com pouca margem de erro que algo em torno de 80% da carne consumida seja fruto de criações industriais. Isso tudo sem mencionar os danos ambientais (pense por instantes para aonde vão os excrementos dessa imensa quantidade de animais criados industrialmente) e os prejuízos econômicos de médio e longo prazo gerados pela pecuária industrial. A produção de alimentos a custos baixos, que muitas vezes serve de argumento para justificar tal tipo de prática é uma falácia, basta imaginar os milhões de hectares utilizados para plantio de soja e milho destinados não ao consumo humano, - que requereria uma área de 12 a 30 vezes menor - mas para o fabrico de ração animal. Além da questão do espaço, produzir 1 quilo de carne custa mais caro do que produzir 1 quilo da imensa maioria dos outros alimentos, até porque os animais precisam eles próprios de comida. Daí conclui-se que a pecuária industrial, apesar do lucro imediato que gera para os donos de corporações do setor, está na direção contrária à produção de alimentos mais baratos e da suplantação da fome. Num futuro não muito distante é um problema que afetará aos próprios pecuaristas. 
Não para por aí, podendo colocar-se outros aspectos: a China tem hoje aproximadamente 1,3 bilhões de habitantes e o consumo de carne no país aumentou acentuadamente nas últimas duas décadas e meia, já na África Subsaariana e nos países mais pobres da Ásia e da América Latina, 9 a cada 10 habitantes raramente consomem carne, ao passo que mais de 80% do solo agricultável dessas nações é tomado por culturas de grãos para exportação. Vale lembrar que no Brasil, um dos grandes celeiros agrícolas mundiais, menos de 5% da soja plantada se destina ao consumo humano. Como se vê, a lógica da pecuária industrial é indubitavelmente insustentável e, se nada mudar em breve, ela levará a um definitivo colapso socioeconômico planetário.
Há aqueles que ainda não raciocinaram de maneira suficientemente capaz de responder negativamente à pergunta crucial: "eu preciso realmente comer carne"? Se o paladar, que é a última fronteira do consumo de cadáveres, não pode se dobrar a implicações que vão da economia, passam pela ecologia e chegam até a moral e a ética, então é certo admitir, no mínimo, que o erro de consumir carne é um erro deliberado (muito já escrevi aqui abordando o combate que todo ser humano deve obrigatoriamente travar com a realidade se quiser alcançar a verdadeira liberdade). Nesse caso, quem foge à realidade são exatamente todos aqueles que não conseguem prescindir da carne.
A “carne orgânica” não é a resposta certa para o dilema moral aqui exposto. Na prática, ela é algo que não existe ou não pode existir permanentemente. As criações tradicionais compõem hoje em dia não mais do que cerca de 10% da produção pecuária mundial, quadro que se encontra assim justamente em virtude da demanda por carne, ou seja, é o consumo de carne como hábito alimentar cada vez mais difundido que levou ao predomínio das criações industriais. É possível optar por reduzir o consumo de carne, o que abriria novamente espaço para a pecuária tradicional, mas duvido que as corporações se manteriam produzindo menos e tendo mais despesas. Com o poder que possuem, arrumariam um jeito de virar o jogo novamente. Além disso, a pecuária tradicional não pode abolir a matança, o que faz voltar a pergunta crucial. Poderia-se vislumbrar um aumento das criações tradicionais sem que as industriais deixassem de existir, mas então teríamos outros questionamentos: os rótulos indicariam a procedência da carne?; e os matadouros? A esse segundo já é possível responder: praticamente só existem matadouros de larga escala, tanto para animais provindos de criações industriais, como de criações “orgânicas”, os mesmos que operam com base na morte em larga escala, cujos sistemas de abate mutilam seres vivos conscientes e os escaldam ainda vivos. A pergunta crucial sempre volta: você precisa realmente comer carne? Carne, no mínimo (e coloco esse "no mínimo" por ter que levar em conta os argumentos econômicos), implica em matança, constatação mais importante em termos éticos.
O caminho que o cadáver que se encontra em seu prato fez até que ali tenha chegado, quando ele aparentemente não é mais do que um pedaço de alimento, já está mais do que claro, juntamente com todas as atrocidades que envolve. Ninguém mais pode ficar indiferente à relação de extrema violência inerente ao hábito de comer carne, muito pior do que qualquer guerra da história humana. Fingir não saber não livra os animais do sofrimento intenso pelo qual passam até se transformarem em pedaços de cadáver dos quais você se alimenta. Escolher o que comer e o que não comer é uma escolha moral, que depende de uma imaginação moral, dilema que só pode ser individual e interior e que, obviamente, tem suas consequências. Não há como se furtar a essa escolha e, quando alguém pensa, consciente ou inconscientemente em não ter que refletir e fazer escolhas a respeito de sua alimentação, é porque não pode suportar o combate do eu interior com a realidade e, em consequência, não pode ser livre.

*PS: O que redigi aqui é, evidentemente, apenas uma pincelada sobre o assunto. Obras como O que há de errado em comer animais, de Didi Ananda Mitra ou o clássico Comer animais, de Jonathan Safran Foer devem ser lidas. Tomei ambas, e as pesquisas extensas que apresentam, além do site da Sociedade Vegetariana Brasileira (cujo link se encontra no lado esquerdo do blog),como base para os dados estatísticos que constam do artigo.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Defensores do indefensável


Todo comunista é um adorador de ditaduras de esquerda, fato que não é segredo, exceto talvez para eles próprios, que se fingem de cordeirinhos, ao menos quando se comunicam com seu público em atos que denotam profunda desonestidade intelectual. O sr. Lúcio de Castro, da ESPN Brasil, é um dos que fazem parte dessa turba, alguém que promove contorcionismos tragicômicos para defender Che Guevara e o regime cubano. Nesta semana ele postou em seu blog no site da emissora um texto confuso e mal escrito, como sempre, na tentativa de desmascarar a dissidente Yoani Sánchez. Ao próprio texto, segue-se uma entrevista dada por Sánchez ao jornalista francês Salim Lamrani, cuja grafia correta do nome nem mesmo foi checada por Lúcio, que escreve “Lanrani”.
De acordo com Lúcio, as críticas de Sánchez à ditadura castrista e à violação dos direitos humanos na ilha são feitas com base nos interesses de Washington, tese que ele pretende corroborar lançando mão da “entrevista” citada. Coloco entre aspas porque as perguntas (muitas vezes não chegam a ser perguntas, mas sim afirmações peremptórias) de Lamrani dirigidas à Sanchez mais se parecem com indagações de um inquisidor, que lhe permitem concluir o que deseja de antemão. Algo do tipo não pode ser qualificado de entrevista, apreciação que, como historiador, Lúcio não poderia omitir, (ou então ele jamais ouviu falar a respeito do clássico ensaio de Carlo Ginzburg: O inquisidor como antropólogo) além do que, existem dúvidas quanto à autenticidade das respostas dadas por Sánchez, isto é, existe a hipótese de que Lamrani as tenha editado, o que ainda precisa ser devidamente esclarecido.
Amparando-se na duvidosa “entrevista” de Lamrani, Lúcio vai ao cúmulo do absurdo na defesa de Cuba, apontando as surradas estatísticas sobre educação e saúde no país. Eu perguntaria a ele e aos defensores da ditadura cubana qual é a função da educação em um regime autoritário; serve para que os estudantes se tornem críticos e conscientes? Se os jovens cubanos passam bastante tempo dentro das escolas, este é um índice negativo, já que eles estão sob doutrinação por mais tempo! Quanto às estatísticas relativas à saúde, no mínimo cabe manter um pé atrás em relação aos dados fornecidos pela ditadura, (por que Fidel Castro se tratou com médicos espanhois?) sem deixar de salientar as suspeitas de que Cuba possa apresentar o maior índice de abortos do mundo, o que reduziria artificialmente a mortalidade infantil, uma vez que os abortos não são computados. Todas as comparações entre os indicadores cubanos que têm por objetivo limpar a barra do país são claramente obtusos: compara-se Cuba com outras ditaduras e republiquetas da América Latina, (inclusive o Brasil, cujo governo do PT é defendido pela maioria dos adoradores de Cuba, uma contradição se se deseja afirmar que a ilha tem índices melhores do que os daqui) muitas delas governadas, pasmem, por regimes de esquerda, o que nem assim autoriza uma interpretação positiva dos indicadores! A comparação com nações desenvolvidas não é normalmente realizada, uma vez que revelaria o desastre da ilha de modo ainda mais gritante, mesmo com a Europa mergulhada em crise. Fica outra pergunta bem simples acaso haja insistência em ver os risíveis índices cubanos com bons olhos: é preciso que uma nação possua um regime dos mais autoritários, que dura mais de cinquenta anos, com direito a perseguições políticas, prisões arbitrárias, tortura e paredón para que alcance status em indicadores sociais? É claro que não, nem se fossem índices bons! A comparação isenta é aquela que for feita entre Cuba e países livres e de alto IDH, coisa que passa longe de quem acredita que o castrismo é benéfico para os cubanos.
É muito curiosa a afirmação de Lúcio, apoiada na “entrevista” de Lamrani, ousando passar a ideia de que a ditadura cubana não desrespeita direitos humanos mais do que outros países ditos democráticos. Quem pode acreditar numa baboseira destas? Quem pode acreditar que a Anistia Internacional possua dados seguros fornecidos pelo regime castrista a respeito disso? Quem pode acreditar que a Anistia Internacional tenha livre trânsito em território cubano? É como supor que pessoas minimamente inteligentes não saibam como funcionam as distorções da verdade em uma ditadura. Gente que defende ditaduras precisa entender que não existe nenhum lugar do mundo no qual as garantias de não-violação dos direitos humanos sejam de 100%, contudo, é necessário analisar se casos de violação são investigados, julgados e sentenciados, processo que obviamente não ocorre em um país como Cuba, já que o próprio governo ditatorial é o agente das violações.
De acordo com Lúcio, tudo que se conhece a respeito do regime castrista é invenção dos EUA e da “mídia ocidental”. É de se pensar, sendo assim, que deveríamos crer na “mídia oriental” da Coreia do Norte, da China, do Irã ou da Síria. Ou então, quem sabe, (?) na “mídia ocidental isenta” representada por Caros Amigos, Carta Capital, Hora do Povo e, logicamente no próprio sr. Lúcio de Castro, fazendo força para esquecer que ele atua na ESPN Brasil... Estranha Revolução Cubana, enaltecida em seus sujeitos vistos como heróis pelos amantes da ditadura, mas tão vulnerável às armações e sabotagens do inimigo imperial... Ao invés das parcas teorias conspiratórias que somente enxergam os sujeitos históricos quando é conveniente, não seria o caso dos defensores do indefensável finalmente admitirem que o desastre de Cuba é o resultado inexorável da falência a que o comunismo conduz? Significativo, de igual modo, e indo contra todas as ideias castristas, não apenas as dos irmãos ditadores, mas igualmente do sr. Lúcio... de CASTRO, é o trecho que pode ser lido no site da Anistia Internacional: “as autoridades cubanas continuam a restringir severamente a liberdade de expressão, associação, reunião de dissidentes políticos, jornalistas e ativistas de direitos humanos; dissidentes, jornalistas e ativistas de direitos humanos estão sujeitos a prisão domiciliar arbitrária e outras restrições que têm o objetivo de impedi-los de exercer atividades legítimas e pacíficas; além disso, o governo cubano está negando a autorização de saída como uma medida punitiva contra os críticos e dissidentes do governo". Num dos comentários no blog de Lúcio enviado por um ativista da Anistia Internacional, lê-se também: “o articulista [Lúcio de Castro] menciona nossa organização, Anistia Internacional, cuja posição sobre Cuba tem sido às vezes mal entendida; nós sempre reconhecemos que as violações aos DH na ilha foram, pelo menos em parte, deflagradas pelo estado de permanente tensão que se vive no território, submetido a uma bloqueio como não sofreu nenhum outro país na história, e alvo de milhares de atentados terroristas; também acreditamos que a maioria dos países da América Latina, salvo Costa Rica e alguns outros, violam os direitos humanos numa proporção maior à de Cuba; entretanto, não pensamos que este critério comparativo possa se usar para caracterizar as violações existentes em Cuba como simples invenções dos inimigos, aliás, qualquer violação aos DH deve ser criticada, inclusive em países ultrademocráticos; no caso de Yoani Sánchez, pessoalmente não digo que esteja bem intencionada, nem que atua por espírito libertário, simplesmente, creio que qualquer pessoa tem direito de expressão”.
O bloqueio que os EUA promove sobre Cuba é outro argumento do sr. Lúcio de Castro na tentativa de justificar as mazelas da ilha. Sou contra o bloqueio, pois ele tem servido apenas para dar munição ao castrismo e fazer sofrer não os mandatários da ditadura, protegidos pelo aparato repressivo estatal e no frescor de seus gabinetes acarpetados, mas a população miserável nas ruas de Cuba. Por outro lado, se do alto da soberba comunista a ilha “rompeu” com o lixo capitalista norteamericano, por que precisaria dele para se dar bem? O sr. Lúcio de Castro deveria se lamentar pelo fim da URSS, país que sustentava a ditadura castrista até o momento em que caiu na vala do atraso e se extinguiu, destino inerente ao comunismo.
Depois de todo o exposto acima que, confesso, é coisa sabida por qualquer um dotado de discernimento, ao contrário do sr. Lúcio de Castro, capaz de admitir que é preciso se “despir dos preconceitos” ao mesmo tempo que vocifera contra tudo aquilo que está fora do seu estreito pensamento ideológico, é engraçado que não tenha havido ninguém para alertá-lo sobre o fato já manjado de que Sánchez seja alvo de suspeita por críticos da ditadura cubana, o que faria dela não um agente de Washignton, mas uma opositora chapa branca de Havana, hipótese que pouparia nosso jornalista da ESPN Brasil de seus contorcionismos típicos. O passado de Sánchez é pouco conhecido, ela vive bem para padrões cubanos e critica Cuba mesmo estando lá, coisas de se estranhar quando se considera um regime que mantém tamanha quantidade de presos políticos. Convenhamos, apesar de pop e, talvez por isso mesmo, ela não é a melhor autoridade para escancarar os males da ditadura cubana, tampouco o sr. Lamrani é alguém com créditos suficientes para defender o castrismo. Lúcio já deve ter houvido falar em intelectuais como Enrique Krauze, Mario Vargas Llosa e Guillermo Cabrera Infante ou dissidentes como José Daniel Ferrer, Elizardo Sánchez, Guillermo Fariña Hernandez e Orlando Zapata Tamayo. O que teria ele a dizer, então, sobre José Saramago, comunista histórico que antes de morrer teve a hombridade de repudiar o regime castrista? Esse sim é um time que tem conhecimento de causa, como coloca o sr. Lúcio, para nos legar retratos fiéis a respeito de Cuba.
Nessa história toda, o que está em jogo acima de tudo é o respeito à liberdade e à dignidade das pessoas. As preferências ideológicas dificilmente escapam aos preconceitos que precisam ser eliminados, segundo o próprio sr. Lúcio de Castro, daí ser inconcebível sair em defesa de uma ditadura, seja ela a cubana ou qualquer outra, seja de esquerda ou de direita. Todas são condenáveis. Atualmente, fica bastante claro que nove entre dez comunistas jamais leram Marx de modo que vá pouco além do superficial. Defendem o comunismo, mas se aferram ao aparato estatal, defendem, ao mesmo tempo, a liberação sexual e o moralismo religioso islâmico extremista, são a favor de minorias, mas também de ditaduras que as sufocam. Não perceberam até hoje que podem se posicionar politicamente sem cair em contradições ideológicas absurdas, fruto da religião laicizada que é o marxismo. Lúcio de Castro trabalha na ESPN Brasil e é pago por ela, um veículo da “mídia ocidental” que ele execra e julga ser mentirosa. Seus meios de ação, portanto, são financiados por quem ele ataca, por uma emissora que, para citar apenas dois exemplos, possui direitos de transmissão da NBA e da NFL, cujos anunciantes são empresas capitalistas. Para ser menos incoerente na defesa do indefensável, se é que isso seja possível, ele deveria ir viver na Havana que adora e pleitear um cargo no repressivo governo castrista. Que tal, sr. Lúcio?