quinta-feira, 9 de junho de 2011

"Conhece-te a ti mesmo" - o panóptico interior


O panóptico, assim designado originariamante por Jeremy Bentham ainda no século XVIII e posteriormente muito assíduo na obra de Michel Foucault, é um tipo de construção que passou a ser adotado no século XIX, na Europa e nos Estados Unidos, em edifícios destinados a abrigar sanatórios e prisões de segurança máxima. A conformação de um panóptico se dá de maneira na qual a vigilância sobre os internos de um presídio ou de uma instituição psiquiátrica seja a mais eficaz possível. Em outras palavras, o panóptico segue a lógica do observador que vê sem ser visto. Os motivos que ensejam esse estilo de edificação em se tratando das instituições referidas são bem conhecidos, mais ainda quando se pensa nas prisões em que são encarcerados bandidos de alta periculosidade. É possível que no caso dos sanatórios a ciência psiquiátrica tenha se desenvolvido nos últimos cem anos, o suficiente para que se aposte em modificações desse projeto.
Foucault, como relativista que foi, refletiu sobre o panóptico com o objetivo de criticar a dominação envolvida no processo de vigilância e punição. Não se pode descartar que muitos sanatórios, no passado, e certas prisões até os dias de hoje, praticam métodos inadequados no tratamento de seus internos. Contudo, tais métodos são capazes de atuar independentemente do panóptico e, além disso, é possível objetar que há boas chances de que Foucault jamais tenha se preocupado com métodos punitivos cruéis, mas sim com a obsessão irracional de desancar a ciência. Segundo o pensador francês, os conceitos de loucura e mentalidade criminosa são construídos historicamente, como se o estatuto científico não dependesse de pesquisas, evidências e provas e como se a aferição das descobertas da ciência não fosse externa ao sujeito e baseada em argumentação perante a comunidade científica. O mesmo Foucault que satanizou a ciência, jamais teria artifícios filosóficos para assumir postura crítica com relação a rituais sacrificiais ou ordálias, recorrentes em eras anteriores ao pensamento científico sistematizado.
Ainda que as ideias foucaultianas sejam totalmente falhas em seu historicismo mal arranjado, o pior desse contexto veio através da pena de outros pensadores pós-modernos, tais quais o próprio Foucault, discípulos de Nietzsche, que passaram a usar o conceito do panóptico no intuito de pensar a cultura nos dias atuais. Que a cultura massificada seja de dar nojo, não se discute, mas o entendimento sobre suas causas e seu modus operandi certamente gera as mais grandiosas confusões.
A cultura das celebridades é o que mais está em voga nesse início de século XXI, algo que se apresenta da maneira mais abjeta possível e responsável, se não por todas, no mínimo por grande parte das patologias contemporâneas. Essa celebrização, presente em inúmeras situações do cotidiano, indica claramente que, caso se queira refletir acerca da cultura em termos de panóptico, é necessário assumir que a exposição visual possui agora, mão dupla. O panóptico tradicional, aquele do ver sem ser visto, que inicialmente não se relacionava em nada com temas culturais propriamente ditos, não serve para dar conta de explicar a era das celebridades, cujo mote da exponenciação infinita do estar exposto, pede que todos sejam vistos por todos. Além de sua duplicidade, o panóptico cultural contemporâneo não mais opera com base na relação vertical entre dominadores e dominados, mas sim em uma horizontalidade que configura a vasta rede de olhares entrecruzados. Estar em cena, ser o centro das atenções, ver e ser visto. Eis aí a regra de ouro da celebrização, fenômeno que está necessariamente ligado com a massificação do século XXI. Cabe aqui lembrar que, se é verdade que os pós-modernos não são adeptos da massificação, o antídoto por eles proposto contra esse efeito acaba se voltando contra o feiticeiro, visto que sem autodomínio, o caminho a percorrer só pode ser na direção dos ditames massificados. Lembro ainda, na esteira do que já foi colocado por alguns pensadores, que estamos em um período da história humana em que a cultura é feita pelas próprias massas, de acordo com suas próprias vontades e preferências.
As ideologias mais simplistas e extemporâneas não fazem cerimônia alguma em apontar o capitalismo como substrato fomentador da espetaculização exacerbada. OK, um certo tipo de capitalismo pode estar por trás disso, mas o fatalismo econômico, que enxerga o capitalismo como uma totalidade sem matizes e isolada das outras dimensões socio-históricas, é também outra forma de análise que não tem como oferecer explicações elaboradas a respeito de um problema que se origina em âmbitos profundos da interioridade humana.
A filosofia pós-moderna deu uma nova roupagem à crítica considerada de esquerda. Houve um deslocamento, de Marx e Lenin, para Nietzsche, Freud (interpretado equivocadamente) e Lacan. O esloveno Slavoj Zizek é uma exceção, pois se trata de alguém que utiliza as duas vertentes filosóficas em sua crítica do capitalismo, não evidentemente, sem ser confuso, superficial e, no fim das contas, equivocado do mesmo modo (futuramente, procurarei escrever sobre esse apólogo da chacina revolucionária e da "hipótese" comunista). Segundo essa linha pós-moderna de pensamento, focada na ideia de que o ser humano - a menos que seja instaurada uma ordem "justa" - não é mais do que um falsete (ideia essa que já era comum no próprio Marx), o capitalismo insere nas mentes e nas práticas uma ação destrutiva, anti-ética e alienante. Até aqui, nada diferente do que Marx já havia colocado, mas uma vez que os pós-modernos não acreditam na possibilidade da ação coletiva revolucionária e no aspecto caracteristicamente classista da obra marxiana, adotam o indivíduo como potencial libertador de si próprio. O que esse indivíduo precisa fazer? A resposta pós-moderna informa que ele deve se despojar das normas impostas e das obrigações morais e éticas, todas elas baseadas em construções tornadas supostamente verdadeiras de acordo com o discurso de poder dominante. Daí, assim que libertado das amarras da dominação, tem-se o perfeito super homem nitzscheano. Não mais o proletário revolucionário de Marx, representante de uma classe, mas o sujeito-individual narcisista, portador de vontade e de potência. O que começa com um nobre ideal de liberdade, logo se desmantela face ao culto à irresponsabilidade e à defesa dos impulsos ególatras. Quem não consegue ver que vivemos em uma era de absoluto desprezo no que se refere à ética, à moral e ao autodomínio, aí sim pode, com toda justiça, ser considerado um alienado. Será que a volição irrefreada e o egoísmo narcisista não têm nenhuma responsabilidade no culto às celebridades e na valorização doentia da celebrização dos outros e de si? É claro que têm!
O erro grotesco do pensamento pós-moderno, desde Nietzsche, até chegar em seus seguidores atuais, vem da ilusão tola de que é possível sacudir uma árvore e fazer cair dela apenas os bons frutos. Ao descartar a interioridade humana, confundindo-a com os desejos irracionais e perversos, o pós-modernismo deixa de perceber que a realidade não admite subornos. Não é nada por acaso que as pessoas venham tendo dificuldades enormes em lidar com escolhas, contrariedades e insucessos, inerentes à experiência humana. O pós-modernismo é um tipo de pensamento incapaz de identificar parâmetros, quaisquer que sejam eles, mas essenciais para que o ser humano possa viver em sociedade sem que seja acometido de patologias egoístas. Em suma, o grande equívoco pós-moderno é que sua defesa da liberdade não se baseia no elemento construtivo dessa mesma liberdade, sem o qual inexiste a possibilidade de ser livre. A exacerbação das vontades somente pode resultar em cerceamento da liberdade, aspecto para o qual já chamavam a atenção os grandes juristas da Roma Antiga, bem como muitos da era Moderna, vide, por exemplo, um Samuel Pufendorf. Por outro lado, o autodomínio, posto em prática por meio do controle dos impulsos imperialistas, é o vetor para a liberdade, é o panóptico interior - "conhece-te a ti mesmo" - que nos livra da ignorância e dos desejos incompatíveis com a realidade e com a natureza humana.

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