sábado, 7 de janeiro de 2012

Santo uma ova


Nelson Rodrigues costumava dizer que toda unanimidade é burra, ideia com a qual não concordo incondicionalmente, mas que se encaixa bem em diversas situações. Ao contrário do que possa parecer, o goleiro Marcos, que nesta semana anunciou sua aposentadoria, não é a unanimidade que o senso comum faz transparecer. Sei de jornalistas que, quando estiveram sob holofotes, elogiaram Marcos, mas que em off mantinham opinião contrária. Conheci por meio de redes sociais alguns palestrinos de senso crítico apurado cuja apreciação a respeito de Marcos sempre foi das mais negativas. Ainda assim, devido àquilo que as pessoas são levadas a pensar por osmose, não há dúvida de que Marcos é uma figura bem vista por nove entre dez torcedores de futebol, não somente palmeirenses, mas também por fãs de outras equipes, inclusive torcedores dos maiores rivais. Dessa forma, em termos práticos, o ex-goleiro pode ser considerado uma unanimidade. Uma unanimidade burra.
Marcos passou a ocupar o gol alviverde em 1999, quando o até então titular Velloso sofreu uma grave contusão na mão. Pouco depois, foi figura de fundamental importância na eliminação do arquirrival incolor nas quartas de final da Libertadores, fechando o gol no segundo jogo e defendendo, na decisão por pênaltis, a cobrança de Vampeta. O Palmeiras se sagraria campeão sulamericano naquele ano. Começava a ser erigido o mito de São Marcos.
Ainda em 1999, no mundial de clubes no Japão, Marcos protagonizou a falha grotesca que acabou ajudando o Manchester United a derrotar o alviverde, tendo este que amargar o vice. Aquela foi a primeira de inúmeras presepadas que marcaram a carreira de Marcos, mas desde então, a maioria dos palmeirenses já estava disposta a conceder crédito infinito ao goleiro. Até o fim de sua carreira, nada mudou - de maneira rápida o caipira piadista de fala mansa e contador de “causos” conquistou o coração de muitos palestrinos que invariavelmente passaram a lhe dar o beneplácito.
No ano 2000 novamente o Palmeiras encarou seu mais odiado adversário na Libertadores, desta feita, nas semifinais. O escrete incolor era melhor no papel mas, heroicamente, o alviverde se superou e, após dois jogos, se repetiria a decisão por pênaltis. Marcos defendeu a cobrança derradeira do detestável Marcelinho Carioca, classificando o Palmeiras para a final. Foi a glória para a torcida palestrina, eliminar os marginais tendo um time inferior e às custas do jogador mais detestado do adversário, fato mais do que suficiente para alçar Marcos à condição definitiva de santo imaculado. É evidente que meus agradecimentos a Marcos por um desempenho tão importante e memorável contra o rival de Itaquera serão eternos, de coração. Embora entre os dois jogos de Libertadores mencionados tenha havido a falha do Japão, Marcos não deve ser crucificado se levarmos em conta apenas seu início de carreira, pelo contrário, já que ele foi louvável nesses momentos. Enquanto jovem, foi um guarda-metas de agilidade altamente significativa.
O goleiro recém-aposentado ainda brilharia em outras ocasiões de sua carreira, como nas Libertadores de 2001 contra São Caetano e Cruzeiro e de 2009, contra o Sport, - ele costumava se dar bem no torneio continental, sobretudo nas decisões por pênaltis - em jogos pontuais de outras competições e na Copa do Mundo de 2002, - como algumas pessoas sabem, desejo mais é que a selenike se dane, a despeito de eu ter torcido por certos nomes que compuseram o grupo de 2002, inclusive o próprio Marcos - quando foi, no meu entendimento, o melhor arqueiro do mundial.
Se Marcos brilhou, e isso é algo que não se pode negar, houve também não poucas lambanças que, no mínimo, precisariam ser lembradas, mas que sempre passaram incólumes na mente de muitos palmeirenses, esquecidas ou diminuídas por detrás da carapuça de santo. A ideia do Marcos imaculado se construiu praticamente devido a dois jogos, muito pouco, convenhamos, para uma carreira de cerca de vinte anos, ainda que dois jogos de suma importância. Dois também é o número de títulos que Marcos ganhou pelo Palmeiras como titular, igualmente um número baixo, mesmo que ele não tenha culpa pelo clube ter se transformado na bagunça que suga sua grandeza há mais de uma década. Com o tempo e com as lesões repetidas, algumas delas devidas a um certo descuido, Marcos se tornou cada vez mais um goleiro pesado, lento e com reflexo defasado, o que lhe custou um amplo cardápio de presepadas. Em várias ocasiões passou a nítida impressão de ter entrado em campo sem ter condições de atuar de acordo com o que se espera de um atleta profissional do Palmeiras, o que prejudicou o time. Será que isso é ter amor ao clube?
Além das quatro linhas a postura de Marcos também se revelou bastante inadequada. Quantas não foram as entrevistas que ele concedeu fazendo chacota dos insucessos do Palmeiras? E sempre os bobos de plantão alisando a careca de seu ídolo: “ah, é o jeito dele, o cara é boa praça!” De minha parte, devo ressaltar que não tenho a menor paciência com atitudes sonsas. Não consigo ver graça em derrotas e não forneço indulto a piadas ridículas. O jeito falsamente bonachão de Marcos que o fez se tornar autoindulgente e se colocar acima do Palmeiras gerou também situações constrangedoras em relação ao ambiente entre o elenco, isso porque sempre que o time colhia algum insucesso acentuado, ele se manifestava aos quatro ventos e para quem quisesse escutar, se eximindo de culpa e metralhando companheiros. Ora, por que não fazer isso internamente, apenas? Será mesmo que Marcos teve o amor a camisa que tanto lhe atribuíram? “Ah, ele recusou oferta milionária do Arsenal!” Não tenho certeza nenhuma disso, pois viajou para fazer exames médicos e assinar com o time inglês, depois voltou alegando a recusa. Por que não recusou logo de cara?
Marcos não está entre os cinquenta maiores jogadores da história do Palmeiras, quiçá nem entre os cem. Quem o coloca como maior ídolo alviverde profere tal absurdo sem possuir conhecimento mínimo a respeito do passado do clube, deixando ao limbo nomes muito mais honoráveis, como Bianco, Heitor Marcelino, Primo, Forte, Lara, Tuffy, Avelino, Junqueira, Imparato, Echevarrieta, Oberdan, Del Nero, Lima, Liminha, Og Moreira, Waldemar Fiúme, Procópio, Rodrigues, Humberto Tozzi, Djalma Santos, Valdir, Jair da Rosa Pinto, Tupãzinho, Vavá, Geraldo Scotto, Julio Botelho, Chinesinho, Romeiro, Mazzola, Zequinha, Servílio, Ademar Pantera, Leão, Leivinha, Edu Bala, Ronaldo, César, Nei, Luís Pereira, Dudu, Jorge Mendonça, César Sampaio, Mazinho, Evair, Zinho, Rivaldo e Alex. Nem é preciso citar Ademir da Guia, totalmente óbvio. O torcedor que adora Marcos acima do Palmeiras é aquele que se acostumou com os fracassos dos últimos tempos, aquele que não tem a correta dimensão do apequenamento que o clube vem sofrendo de 2000 para cá e que tem parcela de culpa sobre o atual estado de coisas. Marcos já está aposentado não é de agora, mas há uns cinco ou seis anos, só faltava ele próprio e os torcedores iludidos enxergarem. O ex-goleiro perdeu várias oportunidades de pendurar as luvas em momentos nos quais seu currículo ainda não havia sofrido tantas manchas, mas preferiu ser teimoso. Azar o dele... e também do Palmeiras. Foi tarde.
É fundamental valorizar os verdadeiros ídolos do passado palestrino, aqueles que vestiram com competência o manto esmeraldino e ajudaram a compor a história mais rica que um clube pode ter. Todavia, hoje o mais urgente para o Palmeiras é a necessidade de correr rápido atrás da grandeza que se desgarra cada vez mais em função de péssimas administrações e do endeusamento exagerado de um jogador que cometeu vacilos grandiosos. Avanti Palestra!

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