segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Erro do passado, incompreensão do presente, dever e única esperança do futuro


Na segunda metade da década de 1990, o Plano Real, depois de muito tempo, proporcionou valorização ao dinheiro da classe média brasileira, período no qual o fantasma da hiperinflação foi devidamente exorcizado e o consumo pôde, ainda que brevemente, se estabelecer sobre parâmetros sólidos e saudáveis. Caso o governo tucano tivesse ido mais a fundo nas transformações que o país necessitava, além do próprio Real, e houvesse, por exemplo, implementado a reforma tributária naquele mesmo momento em que a conjuntura política e econômica lhe fornecia lastro suficiente, o Brasil de hoje estaria, sem dúvida, em condições bem melhores, muito possivelmente, livre do projeto de dominação autoritário do PT. Somada a esse erro, cometido em função de falta de coragem e da presença de uma oposição puramente ideológica do PT, sem qualquer compromisso com o desenvolvimento do país, a crise cambial de 1999 veio para jogar areia no ventilador da economia nacional e contribuir com o pesado desgaste sofrido por FHC em seu segundo mandato. Diante desse contexto, as portas se abriram de forma inédita para Lula e seu partido que, pela primeira vez em sua trajetória política, souberam construir um discurso brando na fachada sem abandonar os traços autoritários de retaguarda, característica típica do DNA histórico de um partido cujo sectarismo fica estampado desde o nome. A brandura aparente foi uma hábil sacada na conquista da porção do eleitorado que sempre havia faltado ao PT: boa parte dos setores médios urbanos e um quinhão do empresariado. Quanto a este último, mesmo perante a desindustrializção que ora o país vem sentindo, não se prejudica, já que o aparelhamento da máquina administrativa assim o favorece. O autoritarismo petista não deseja outra coisa a não ser impedir o desenvolvimento autônomo da sociedade em torno do valor político da democracia e do mercado competitivo e empreendedor, atuando para tanto, na cooptação de empresários ávidos por se locupletarem do butim econômico instaurado desde 2003. Chame-se a isso de capitalismo de estado ou socialismo em edificação, pouco importa, o fato é que uma quantidade significativa de empresários brasileiros ganha dinheiro a partir de favorecimentos e subsídios governamentais. O aspecto mais estarrecedor da tomada de poder pelo PT não é, todavia, a cooptação de empresários, fenômeno já observado em outros tantos regimes de cunho autoritário, mas diz respeito à anuência que a classe média ofereceu ao partido da estrela vermelha. Esse apoio sem precedentes pode ser explicado devido à ilusão causada por um partido de esquerda chegando à presidência reforçado pela figura de um ex-operário e pela ideia de justiça social e igualdade, bandeiras que o PT carregou desde de sua fundação. Em geral, o brasileiro não sabe que igualdade sem liberdade é somente uma maneira de tirania e que uma sociedade justa e desenvolvida jamais pode se constituir com um partido sectário, classista e gramsciano ocupando o poder. Seria pedir muito que a população brasileira estivesse atenta para esses detalhes e, entra igualmente na conta, e portanto no fato do PT estar em seu terceiro mandato consecutivo, podendo até aqui construir tranquilamente seu projeto de poder autoritário, a inépcia do PSDB enquanto oposição, bem como o ranço antiliberal do qual os tucanos jamais conseguiram se livrar, defeito que os fez cometer o erro citado de início, além de terem colocado em prática medidas corretas a partir de mecanismos falhos, o que cada vez mais tem dado munição aos adversários.
O projeto de poder do PT se assenta na centralização do estado e no populismo assistencialista, marcas que cobram caro da classe média, ainda que muitos dos seus representantes não se apercebam da situação. A economia brasileira, carente de investimentos em tecnologia, logística e educação de qualidade, assaltada pela carga tributária que subtrai 40% do salário anual dos trabalhadores sem lhes dar absolutamente nada em troca e comprometendo também a produtividade industrial e encarecendo os serviços, depois de passar alguns anos favorecida pela conjuntura internacional, começa a dar indícios de moléstia. Não é preciso nem indicar quem irá padecer do mal, mais ainda do que já vem acontecendo. A classe média, que perfaz a maioria desses trabalhadores, tem reivindicado sobretudo a reposição salarial, justa em muitas casos, ainda mais num país que ao invés de valorizar quem produz e quem possui qualificação, se ajoelha e faz reverência diante de todos os tipos de celebridades bizarras, aquelas que ajudam a compor o pão e circo. O problema, entretanto, situa-se bem menos no valor bruto dos salários pagos do que na carga tributária que emperra o consumo saudável e reduz brutalmente os rendimentos líquidos da classe produtiva. Os impostos cobrados no país servem para consolidar a centralização do estado, para aumentar ainda mais a corrupção, para bancar o assistencialismo populista, que tira de um lugar e põe em outro, sem evidentemente levar a qualquer desenvolvimento, e para manter o pão e circo, agora traduzido na realização de grandes eventos esportivos, o que também faz a festa daqueles empresários mancomunados com o governo. É a cara do Brasil!
Sem que a classe média passe a entender como funciona o projeto de poder do PT, o que se torna mais difícil conforme o tempo passa, e que a partir disso esteja apta a se opor contra tal situação, reivindicando o que lhe é mais justo, mais necessário e, a meu ver, o único modo de tentar mudar o rumo político que o país vem tomando, (o objetivo final de um projeto aos moldes petistas é conformar a sociedade à não-existência de seus indivíduos, à incapacidade política, por assim dizer) o autoritarismo não fará restar nada além de sua dominação completa. Ajam enquanto é tempo.

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