sábado, 10 de dezembro de 2011

Blasé


Não sei se o que vou expor nas linhas subsequentes é uma satisfação perante os leitores, algo que, ao mesmo tempo que não desejo, não tenho poder para determinar como será interpretado pelas pessoas. Talvez seja uma satisfação a mim mesmo, dada a vontade de escrever sem saber ao certo a respeito do que, aspecto em relação ao qual também não posso e nem devo me preocupar muito. Num país em que a propriedade privada é permanentemente aviltada pelos impostos, ao menos possuo soberania sobre este espaço. O fato é que nesse ano escrevi mais do que nos dois anteriores, isso sem que 2011 tenha terminado; até esta data, a média é de cerca de um artigo por semana, um bom número se considerado que em muitos períodos, como o atual, aumenta o trabalho a ser realizado em casa. Não que o fator quantidade esteja acima da qualidade, porém isto é um blog, um veículo que faz parte de um meio no qual a atualização não pode ser descartada, ainda que o perfil que procuro manter aqui seja outro, não tendo nada tem a ver com o que se poderia chamar de um folhetim diário.
Postei menos em novembro, situação que vislumbro se repetir em dezembro. Estou sem grande inspiração, embora, como já salientado, satisfeito com o que produzi desde janeiro. Assuntos e ideias nunca faltam, pois estão sempre passando irriquietamente por minha cabeça. Tem faltado, sim, organizá-los devidamente e torná-los públicos. Quem sabe não resida exatamente aí a carência de inspiração? Me encontro um tanto quanto perdido no meio do turbilhão, sem a fleuma e a habilidade necessárias para encontrar um foco por vez e escrever sobre o mesmo.
Nos últimos dias que se passaram pensei em abordar a figura de Sócrates, o ex-jogador falecido, contudo, quando delineava o texto ainda em mente, logo percebi que não teria nada considerável a acrescentar diante de tanta coisa que já havia sido colocada, correndo sério risco de, ainda por cima, ser incomodado pelo politicamente correto e ter que estorvar a mim mesmo em dar respostas para um povo que, em geral, tem compulsão quase patológica em fabricar mártires. A pieguice do brasileiro o impede muitas vezes de tirar lições dos erros que são cometidos.
O Campeonato Brasileiro acabou e me veio a ideia de discutir o certame, assunto que poderei expor em breve, mas que, por ora, deixei de lado em função das paixões clubísticas ainda latentes devido ao término recente da competição. Além disso, é sabido de qualquer um que não se furte a uma observação um pouco mais atenta, que o vencedor representa o status quo do atual futebol brasileiro, assaltado pela podridão dos dirigentes, da imprensa esportiva dominante e do poder maior que rege a nação. O século XX inaugurou as formas de poder ditatoriais baseadas no apoio das massas ignorantes e sujeitas à manipulação. O uso do futebol - esporte das massas no Brasil - com finalidades políticas é hoje mais comum no país do que durante o milagre brasileiro. Quem diria?! Para qual público eu iria escrever, para o torcedor zumbi? Não, seria chover no molhado. Quanto aos admiradores dos outros times, eles já conhecem a história decor e salteado.
Após ter escanteado os temas anteriores, eis que surgiu a polêmica acerca da hidrelétrica de Belo Monte. De um lado, o Movimento Gota d´Água vociferando contra, de outro, um grupo de estudantes tecendo loas. Um bom assunto a ser posto em discussão,... ou não. Quando me pus a refletir que, evidentemente, há ainda muita informação negligenciada, tanto para se colocar contra, como para se mostrar a favor da construção da usina, percebi de imediato que não deveria manifestar nada sobre a questão. A princípio, sou totalmente contrário à construção dessa usina, uma vez que o potencial eólico e solar do Brasil deveria prevalecer sobre outas fontes de energia, mas ainda é preciso aguardar para tecer comentários mais aprofundados. Belo Monte pode nem ser o monstro que atores globais nunca antes engajados em causas ambientais, muito pelo contrário, tentaram pintar, nem o bálsamo cantado em prosa e verso por alguns universitários recém-saídos do Ensino Médio usando de discurso elíptico. Por enquanto, ao contrário do que divulgou a revista Veja, o debate está bem longe de ser sério.
Outra ideia que me ocorreu em função de conversas travadas esporadicamente, diz respeito ao pensamento rígido de certas pessoas, quadro que sempre as leva a encarar fenômenos socioculturais sob um viés essencialista. Essas pessoas acreditam, para citar um único exemplo, que existe um antagonismo de princípios entre o Ocidente e o Oriente de maneira a tornar impensável toda e qualquer reflexão na busca de aproximações e perspectivas em relação a aspectos filosóficos universais. Para elas, não existe nem mesmo a possibilidade da presença de filosofia no Oriente, o que é um tremendo absurdo. Quem adota esse estilo de postura, nunca atentou para os estudos de um Louis Gernet, de um Marcel Granet ou de um Jean-Pierre Vernant, se esquece até de que o cristianismo surgiu no Oriente, que a Álgebra e que o número zero são invenções árabes e que Marco Polo foi à China, de onde trouxe coisas que hoje nos são comuns. Como os essencialistas lidariam com os impasses do mundo global? Fazendo uso da teoria do choque de civilizações, que eles mesmos rejeitam quase sempre? Tirando da cartola a ideia de tolerância? Mas como, se são justamente essencialistas? Este tema é bastante complexo em seus desdobramentos, retornarei a ele num momento mais adequado.
Quando achar por bem, ou quando a urgência de algum fato assim o fizer necessário, volto a escrever. Por enquanto, peço licença para me concentrar nos afazeres cotidianos, afinal, é época de trabalho árduo para professores que o ano inteiro se viram às voltas com alunos que não cumprem jamais o exigido e que agora  precisam passar pela tal da recuperação.

PS: de última hora, vejo reportagem na TV noticiando a aprovação do aumento  de salário para cargos político-administrativos no município de São Paulo; as majorações são claramente abusivas e ultrajantes, chegando a mais de 200% em alguns casos; piores, só mesmo as justificativas escabrosas do deputado Marco Aurélio Cunha (DEM) e do prefeito Gilberto Kassab, ambos afirmando que é uma forma de valorizar os tais cargos e de propiciar cobrança em relação aos beneficiados; não sabem diferenciar trabalho produtivo de não-produtivo, não sabem que o mérito independe da questão financeira e não fazem ideia de que a cobrança deveria se fazer em cima das responsabilidades, também não guardando nenhuma relação com aquilo que se recebe em forma de salário.

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