quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O mágico poder da escuridão



"A cidade moderna praticamente desconhece a escuridão e o silêncio profundos, assim como o efeito de um lume solitário ou de uma voz distante". - Johan Huizinga, O outono da Idade Média

A última vez que pude observar o céu em sua plenitude, forrado de estrelas, foi em 2008, em Cambará do Sul (RS). A visão só ocorreu em virtude de eu estar em uma fazenda em local afastado e do fato da própria cidade ser pequena e desprovida de quantidade significativa de iluminação artificial, ou seja, o elemento propiciador foi a escuridão. Não só já faz um certo tempo, como constituiu uma das raras experiências desse tipo em se tratando de um sujeito moderno, o que comprova a apreciação de Huizinga.
Da Pré-História até o século XVIII, a observação dos astros foi responsável, ao mesmo tempo, por gerar distração e promover conhecimento ao ser humano. Antes mesmo do desenvolvimento científico se tornar mais sistemático no fim do período medieval e no Renascimento, muitos estudiosos antigos, tais quais Aristarco de Samos, Eratóstenes, Ptolomeu ou Abd al-Rahman al-Sufi já traziam contribuições notáveis no campo astronômico. As luzes das cidades e a poluição da era industrial, realidade que passou a dar a tônica da vida moderna há cerca de pouco mais de dois séculos, impediu que o céu continuasse sendo observado da mesma forma que outrora. Evidentemente, não estou tentando passar uma ideia anacrônica e contrária ao devir da história, pois seria utópico e inócuo imaginar uma volta ao passado pré-industrial. Tampouco se pode desprezar o avanço da Astronomia no mundo contemporâneo, tornado possível graças à tecnologia que permitiu descobertas e entendimentos precisos com os quais somente pouquíssimos homens de gênio à la Leonardo da Vinci poderiam vislumbrar em eras passadas. Trata-se apenas de pensar no completo afastamento, por parte das pessoas em geral, de determinadas situações que, uma vez experienciadas, poderiam tornar nossa vida mais rica. Isso é válido sobretudo porque as próprias atitudes do homem atual contribuem para que sua experiência de vida permaneça encerrada em certos limites, de algum modo, empobrecedores.
De cerca de vinte anos para cá, mais ou menos, com a progressiva verticalização de cidades como São Paulo, Campinas ou Rio de Janeiro, entre outras, a época do Natal tem feito com que a quantidade de luzes se torne ainda maior do que já é normalmente. Quem, por exemplo, de uma certa altura na janela de um prédio se ponha a olhar para o horizonte, terá diante das vistas um sem número de pisca-piscas, de várias cores, tamanhos e formatos. Andando pelas ruas, seja no comércio, ou nas próprias residências, encontra-se o mesmo. Há quem ache bonito e ajude a reproduzir esse efeito natalino contemporâneo. Eu mesmo, quando a prática começou a se tornar regra, confesso que me senti atraído pelos luminosos natalinos, mas agora, o extremo exagero tem me transmitido cada vez mais uma sensação de pastiche cafona. Além disso, o que é mais importante, aumenta as limitações quanto à atividade contemplativa em relação à escuridão e ao silêncio.
Em meio à infinitude de luzes regulares da cidade, realidade que, como já expus acima, se manifesta de modo inerente ao mundo de hoje, somam-se os efeitos sazonais de Natal. A tentativa de empreender um contraponto a esse quadro praticamente só pode se situar no âmbito do que nos restou, isto é, no plano de um exercício imaginativo - e um tanto quanto místico. Se desconsiderarmos algumas dúvidas históricas que pairam a respeito do nascimento de Jesus na manjedoura e da visita dos reis magos, seremos capazes de pensar que a fogueira acesa para aquecer o filho de José e Maria era o único ponto de luz em meio à escuridão, bem como o caminho de Baltazar, Gaspar e Melquior fora iluminado tão somente pelo luar e pelas estrelas.
O silêncio da noite é - ou pelos menos deveria ser - também um silêncio visual. As luzes do pensamento e da reflexão se intensificam à medida em que o breu exterior é mais profundo. Não há dúvida de que nós, modernos, somos extremamente carentes dessa experiência de escuridão e silêncio. Ainda que fosse apenas por algumas horas e até para que tivéssemos a oportunidade de pensar e refletir livres de todos os tipos de ruído, não seria interessante passar a noite de Natal, momento tão propício à quietude e ao desvendar da interioridade, sem o turbilhão ensurdecedor das luzes?

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