terça-feira, 16 de setembro de 2014

Marina Silva: vale o risco?


O cenário eleitoral brasileiro que ora se delineia e que desembocará no resultado do pleito em outubro próximo é desesperador. Dentre os três candidatos mais bem colocados nas pesquisas, Aécio Neves, em virtude da racionalidade econômica que defende e do maior respeito pelas normas da democracia institucional, é aquele que considero o menos pior, mas, pelo andar da carruagem e a continuar assim, o tucano parece não ter chances de alcançar o 2° turno.
Alguns analistas liberais, notadamente Reinaldo Azevedo, têm reiterado que uma possível vitória de Marina Silva poderá ser ainda mais terrível para o país do que a continuidade do PT, pois supostamente, a acriana carregaria consigo um viés revolucionário situado à esquerda do próprio PT: não é demais lembrar que, entre outras "coisitchas", Marina vê com os melhores olhos os "movimentos sociais" e recebeu com entusiasmo o decreto bolivariano de Dilma Rousseff. Tomando outro caminho, mas chegando a conclusões igualmente assustadoras, um editorial de O Estado de São Paulo publicado em 07/09 levanta a hipótese do retorno de Lula em 2018 caso ocorra um mandato marineiro a partir de 2015. Isso é plausível, segundo o editorial, porque levando-se em conta o despreparo, a ausência de propostas sólidas e a tibieza de Marina, o risco de uma crise seria grande e faria com que o ex-presidente ganhasse mais capital político do que já tem, reabrindo-lhe as portas da presidência da República.
Para qualquer liberal que se proponha a destrinchar a figura política de Marina Silva, os argumentos acima são plenamente compreensíveis, afinal, ela representa um perfil incontestavelmente esquerdista, o que muito contribui para que se possa apontar como desesperador o cenário político do país. A despeito disso, penso que nada pode ser pior do que o PT, o partido mais rico e mais bem organizado do Brasil. O partido que estabeleceu a mais sólida estrutura de poder desde o início deste século e que lhe possibilitou, até este momento, mais de uma década de governança federal, que, gramscianamente, construiu um discurso hegemônico nos círculos escolares e acadêmicos (uma das consequências mais graves do petismo), que remodelou decisivamente o populismo de modo a torná-lo não apenas uma questão política, mas cultural, que reduziu drasticamente a independência dos Três Poderes, que instituiu a corrupção não como desvio, mas como modus operandi (esse aspecto ainda não foi entendido da maneira correta nem mesmo por aqueles que hoje se manifestam contra o PT, erro de compreensão determinante a ponto da corrupção não afetar acentuadamente o juízo político-eleitoral da população brasileira), que aparelhou a máquina pública em toda a sua extensão, que controla majoritariamente os sindicatos, a miríade de falsas ONG`S e que possui uma militância cuja capacidade de se transmutar da noite para o dia em milícia revolucionária é notória e já se tornou realidade. O PT é o partido para o qual a perpetuação do poder justifica qualquer coisa. O PT é um partido absolutamente ditatorial, algo que a própria história da sigla revela desde sua fundação. Enquanto pensavam que o comunismo se deparava com seu canto de cisne e chegava ao fim com a queda do muro de Berlim e o ocaso da União Soviética, ele na verdade deitava raízes na esfera cultural e na preparação dos "intelectuais orgânicos"...
Não é nada absurdo avaliar que Marina também pode estar contaminada pelo mesmo DNA petista (ela saiu do PT, mas será que o PT saiu dela?) e que sua incapacidade e inexperiência gerais são potencializadoras do retorno de Lula, mas - triste encruzilhada! - ela provavelmente significa a última oportunidade de varrer o petismo do poder no âmbito federal. Em crise o Brasil já está há um bom tempo e, crise por crise, uma que viesse de Marina teria mais chances de ser revertida: a estrutura e a organização do PT é que protegem o partido, mantendo-o como governo mesmo em meio a tantos escândalos e equívocos práticos e ideológicos.
E se, de fato, Lula voltar firme forte em 2018? Bem, caberá à sociedade brasileira avaliar se deseja realmente que isso aconteça e, embora pelas vias mais tortas e com todas as ressalvas devidas, Marina é a alternativa que se apresenta. Além disso, se Dilma vencer, mesmo já não faltando motivo algum para alijar o PT do poder e ainda que a situação do país venha a se tornar pior do que já está, isso não impede a candidatura de Lula daqui a quatro anos, se é que com a continuidade do petismo haverá espaço para eleições...
Vale o risco de eleger Marina? Caso sejamos obrigados a escolher entre ela e Dilma no 2° turno, não tenho dúvida de que vale; no 1° turno, vou de Aécio.

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