sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

2012 resenhado


Neste ano que está por se encerrar não fiz tantas leituras quanto gostaria, pois estive ocupado com afazeres que me consumiram um bom tempo, mas mesmo assim não deixei de estar mergulhado em certos livros que vou comentar na última postagem de 2012.
De 2009 para cá tomei contato com as excelentes biografias de Josef Stalin e Winston Churchill, escritas respectivamente por Simon Sebag Montefiore e Lord Roy Jenkins. Estava faltando apenas Adolf Hitler para completar a tríade de chefes de Estado que marcaram o contexto  da Segunda Guerra Mundial. Foi então que durante os meses de janeiro e fevereiro percorri as mais de mil páginas de Hitler, do historiador inglês Ian Kershaw. A obra é apontada como a melhor biografia do Führer, apreciação que se confirma ao longo da leitura. Kershaw obteve grande mérito ao destrinchar os meandros da personalidade de Hitler, o que faz de seu livro uma biografia não só histórica sobre o homem que projetou a destruição do Ocidente, mas também uma profunda análise psicológica da mente doentia desse mesmo homem. Chama atenção a maneira pela qual Hitler, desde a juventude em Viena, teve seu intelecto moldado tanto por circunstâncias da própria vida, como por fatores históricos, elementos que, combinados de modo sui generis pelo fanatismo característico do líder nazista e potencializados pela própria sociedade alemã, compuseram a mistura explosiva e belicista que por pouco não conduziu o Ocidente ao colapso completo. Daí, quando se lembra da figura de Churchill, ela assume ares ainda mais importantes, já que foi ele quem segurou sozinho a Alemanha nazista em 1939 e 1940. Depois de lidas as biografias dos três líderes, é impossível não considerar Churchill uma das personagens históricas mais notórias do século XX, ao mesmo tempo em que Stalin e Hitler não podem ser vistos senão como psicopatas portadores e vetores de ideias execráveis.
Apenas um único aspecto é passível de crítica na obra de Kershaw: o autor aponta o nazismo como sendo uma filosofia de direita, caracterização que muitos analistas têm rejeitado, dentre os quais eu me incluo. Costumo pensar que as utopias que marcaram a primeira metade do século XX são mais bem classificadas e entendidas se apontadas como totalitárias, importando menos a questão do espectro político. Assim sendo, ainda que nazismo e comunismo sejam diferentes no conteúdo, ambos atuam, de início, como as duas extremidades de uma linha, porém acabam se juntando e formando um círculo: o ponto de junção é exatamente onde se situam, ou seja, são extremamente próximos na forma, quase fundidos um ao outro. Se o comunismo é uma utopia que pretende construir o Paraíso futuro, varrendo da história qualquer coisa que os próceres da doutrina considerem obstáculos à causa, o nazismo é uma utopia que pretende resgatar o Paraíso perdido, também eliminando tudo que os nazistas acreditem representar a modernidade. Aqui vale mencionar Michael Oakeshott e salientar que o conservadorismo não é uma filosofia reacionária, pois sua preocupação é com o presente, com a manutenção de interditos morais que garantem a conservação da liberdade. Projetar o idílio futuro ou recuperar a Idade do Ouro é sempre totalitário. Conservar, como dizia Goethe, é guardar e proteger. Guardar e proteger aquilo que é universal, permanente e imutável e que as pessoas podem e devem carregar em sua interioridade, não reconstruir um passado cuja própria temporalidade histórica transforma incessantemente. Guardar e proteger sem destruir violentamente em nome de um futuro idílico que nunca chega e que por isso isenta seus planejadores, crentes ou cínicos de estarem agindo pelo bem, de todas as responsabilidades.
No segundo semestre efetuei a leitura de A imaginação econômica, escrito por Sylvia Nasar. O livro conta a história das transformações socioeconômicas nos séculos XIX e XX por meio da lente dos economistas mais destacados do período. A grande virtude de Nasar é trazer à tona as reflexões de teóricos um tanto quanto esquecidos fora dos círculos da disciplina, - ou mesmo dentro deles - como Alfred Marshall e Joseph Schumpeter. Marshall é especialmente interessante por ter sido o primeiro economista a descobrir a produtividade como elemento de progresso socioeconômico, produtividade essa que só pode ser eficiente no seio de um sistema capitalista, não sendo nem mesmo necessário lembrar que o cálculo é impossível em uma economia socialista.
A autora é igualmente feliz sempre que se põe, sem receio algum de fugir ao senso comum das Humanidades, a analisar as falhas da teoria marxiana. Marx escreveu sobre o funcionamento do capitalismo sem nunca ter entrado em uma fábrica ou mantido qualquer contato que fosse com o proletariado. Como se não bastasse, devido à preguiça intelectual e à necessidade sórdida de confirmar seus (pre)conceitos, Marx manipulou estatísticas à exaustão, usando índices do século XVIII como se fossem válidos para o XIX e desprezando uma série de transformações extremamente acentuadas, típicas do período, que ele próprio procurava analisar. Ainda que essas informações já fossem conhecidas desde a leitura de autores mais antigos, vide a obra essencial de Edmund Wilson, Rumo à estação Finlândia, nunca é demais ressaltar os descalabros de Marx e de seus seguidores, que insistem em fechar os olhos para tudo que derruba impiedosamente suas análises.
Talvez o mais interessante e o maior mérito do livro de Nasar, algo que já fica nítido desde o título da obra, seja o fato da autora mostrar como as ideias são capazes de mover a história. Marx, quem diria (?!), é uma grande prova disso, um sujeito que jamais conheceu o interior de uma fábrica ou que tenha sistematicamente tratado de assuntos econômicos com algum proletário (devemos atribuir a Engels a construção da teoria socialista/comunista?) designou o proletariado como única classe portadora da chamada "consciência de classe", sendo que ele próprio nunca foi um proletário, e ainda por cima defendeu a luta de classes como motor histórico. Passado cerca de um século e meio desde Marx ter erigido sua teoria, mesmo com as tragédias retumbantes provocadas pelas tentativas de colocar o socialismo/comunismo em prática, ela continua a influenciar tantas mentes incautas. As ideias movem a história, às vezes para o bem, às vezes para o mal...
Nos meses de novembro e dezembro estive lendo a recém-lançada biografia de Alexis de Tocqueville (Alexis de Tocqueville: o profeta da democracia) por Hugh Brogan. A obra é extensa e rica em detalhes, mas a impressão que tive é que lhe falta fôlego, talvez, por ser mais narrativa do que analítica. São interessantes os pormenores da vida do jovem Tocqueville, de seu círculo íntimo em termos de família e de amizades, da viagem aos Estados Unidos e da doença que o consumiu lentamente. A análise de Lembranças de 1848 é bem construída, desde a gênese da obra até sua repercussão, mas é um dos raros momentos efetivamente analíticos do livro.
Se Brogan peca pela carência de análise, seu maior erro foi abordar Tocqueville a partir de um prisma estranho ao próprio pensamento do grande liberal que ele foi. Principalmente quando se dispõe a refletir a respeito de A democracia na América e da situação da França na década de 1840, Brogan insiste em fazer uso do conceito de classe no intuito de criticar Tocqueville. Ora, se de fato e pelas circunstâncias ele foi superficial em alguns aspectos, certamente não se pode considerar a origem nobre de Tocqueville, tampouco sua visão de democracia, como fatores para acusá-lo de pouca atenção a questões sociais. Dentre os tantos méritos do multipensador francês, um dos maiores foi ter conseguido romper com os preconceitos estamentais de sua condição de nascimento e nesse sentido ele foi um homem intelectualmente íntegro, politicamente atento e historicamente perspicaz. Tocqueville foi um dos primeiros, senão o primeiro, a perceber que a democracia era um sistema político e sociocultural que havia chegado para permanecer na história do Ocidente. Para ele, a democracia não era uma situação a ser encarada a partir de concepções classistas, que nunca ocuparam papel preponderante em sua obra, mas sim levando-se em conta a legislação, os costumes e a moral como preceitos sobre os quais a ordem democrática deveria se assentar para que não desviasse na direção do despotismo da maioria. O grande problema tocquevilliano, sublime e profundamente atual, nunca foi outro senão pensar as possibilidades de manter a igualdade sem suprimir a liberdade, possibilidade em relação à qual, nunca é demais salientar, ele encarava como perfeitamente plausível, mesmo que sua França envolta em turbulências insistisse em querer apontar o contrário.
Para Tocqueville, todo homem que espera da liberdade algo mais do que a oportunidade mais elevada para o ser humano, a própria oportunidade de ser livre, não passa de uma alma medíocre. É uma consideração que vale pelo caráter de universalidade, permanência e imutabilidade que mencionei mais acima e que assim o coloca no rol dos grandes pensadores da história. Feliz 2013!

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