quarta-feira, 2 de abril de 2014

Classismo esquerdista ou mentalidade ridícula?


Para a grande maioria dos esquerdistas, elementos relacionados à mentalidade e à cultura, de caráter extremamente duradouro e que passam por mudanças de longuíssima duração, portanto muito mais atrelados às permanências, não podem ser assumidos como fatores explicativos de fenômenos sociais sem que estejam isentos de conceitos advindos de Marx. Isso se deve, segundo os mesmos, porque tais fatores não perpassam inteiramente as sociedades de modo a apagar as distinções de fundo econômico. É uma análise no mínimo curiosa, já que a condição de classe nas sociedades modernas, sobretudo em sistemas capitalistas que privilegiam o mérito, a dedicação e o trabalho, é sujeita à mobilidade. Se partirmos dessa premissa, como acreditar que uma dimensão tão instável predomine sobre elementos de natureza muito mais resistente às mudanças?
Dentre as tantas falhas do pensamento de Marx, uma delas é absolutamente gritante, ou seja, a ausência de psicologia, como destacou Edmund Wilson, termo que poderíamos comutar, sem risco de distorção, por mentalidade. Quando o crítico norte-americano lançou essa análise, quis dizer justamente que as ideias, o pensamento e a visão de mundo prevalecem em relação à condição de classe dos sujeitos, ao contrário do que subscrevia Marx. Defensores de posições ideológicas esquerdistas, como Edgard Carone, Emília Viotti da Costa ou Jessé de Souza, todos marxistas, não conseguem enxergar esse entendimento porque só isso já basta para provocar a ruína de seu paradigma, logo, continuam enganando a si mesmos e, o que é bem pior, aos outros.
Ouvi um professor de História e Sociologia afirmar que os professores não conseguem obter melhores salários porque impera entre os mesmos uma "mentalidade pequeno-burguesa". Até quando resolve usar o conceito de mentalidade esse pessoal não escapa do classismo! É correto concluir que, segundo as palavras do dito cujo, a "pequena burguesia" não se empenha devidamente e deseja ganhar dinheiro fácil sem pegar duro no batente. Trata-se do mesmo tipo de ideia disseminada pelo já citado Edgard Carone, o que nos defronta com uma situação paradoxal e até mesmo cômica: para Marx, o fato dos burgueses buscarem ganhos era extremamente positivo e sua crítica estava dirigida contra um sistema que ele julgava contraditório, mas não contra a lucratividade em si. De resto, é assombroso observar que esses pretensos analistas da sociedade não conhecem a obra de Max Weber nem sequer superficialmente, tampouco possuem a mais parca noção de aspectos econômicos e geográficos. É corretíssimo pensar que no Brasil, país de matriz latina e posteriormente miscigenada pelo tempero caliente dos trópicos, o pouco apreço pelo trabalho é um traço sui generis de brasilidade. Mas que burguesia? Que lugar resta para ela em uma nação patrimonialista, servil e estatólatra? Como fazer uso de um conceito classista tão distante da realidade brasileira? Não seria mais lapidar se ater ao elemento mental e cultural, estudado em pormenores reveladores por nomes como Sérgio Buarque de Holanda e José Octávio de Meira Penna?
Há quem dê duro nesse país e, em muitos casos, sem a devida valorização, dentre os quais, professores bem qualificados e comprometidos com educação de qualidade certamente se incluem. Ora, quem trabalha de maneira árdua pode carregar uma mentalidade burguesa, mas não é membro de uma suposta classe burguesa em um país que não valoriza o trabalho, sem que lhes sejam pagos salários justos. E nesse caso, deve-se salientar, trata-se de uma mentalidade que não merece condenação, mas sim louvores. E quanto aos que querem ganhar no mole, grupo do qual também fazem parte um grande número de docentes brasileiros? Se Weber nos serve como referência, sem dúvida não são portadores de mentalidade burguesa e se não ganham salários significativos, não são burgueses de acordo com Marx! Tem-se ainda um detalhe que a mínima observação torna irrefutável: a maior parte dos professores brasileiros é alinhada com ideias de esquerda, portanto, não têm mentalidade "pequeno-burguesa", a não ser que, - e não existe contradição nisso - sejam adeptos do "façam o que eu falo, mas não façam o que eu faço". Poucas coisas são mais manjadas do que o estilo politicamente correto e meramente fachadístico, composto pelo completo desapego material, pela barba desgrenhada e pelo discurso igualitarista. Só que o sujeito mora nas Perdizes, gosta de tomar whisky e quer salários altos, mesmo que não faça jus. Então estamos diante de burgueses enrustidos com mentalidade abertamente anti-burguesa, não porque sejam exemplos que contrariam a prevalência da cultura e da mentalidade sobre o fator econômico, mas porque, na verdade, constituem o típico brasileiro que busca vantagens por meio do jeitinho (Edgard Carone certeiro por vias tortas...). Aqueles que agem desse modo e ainda não pertencem à burguesia enquanto classe social, almejam a tal objetivo ao mesmo tempo que, da boca para fora, vociferam contra aquilo que querem ser. Haja recalque!
E você, reconhece a si próprio em algum destes tipos? Se sim, talvez nem devesse ter lido o artigo, a menos que sinta vergonha da própria condição, então sugiro que passe a tentar um processo interior de libertação. Agora, se você não se enquadra nessas situações trágicas e jocosas, sei exatamente qual é o seu sentimento. Sabemos bem de uma coisa: que mentalidade ridícula essa de esquerda! Rimos ou choramos?

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